Por que Lacan disse que o sujeito é o que um significante representa para outro significante?

Na primeira etapa de seu ensino, Jacques Lacan definiu o sujeito como o que um significante representa para outro significante. Neste artigo, pretendo expor a maneira como interpreto esse enunciado lacaniano, objetivando também fornecer algumas balizas para a compreensão dessa fórmula um tanto obscura para muita gente. Por motivos didáticos, iniciarei minha exposição convidando o leitor a realizar comigo uma extração dos elementos essenciais da assertiva lacaniana.

Temos, portanto, diante de nós os termos sujeito e significante. Tratemos de definir cada um deles a fim de posteriormente analisarmos a relação atávica que Lacan defende que exista entre ambos.

Sujeito como lugar vazio

O conceito de sujeito, como qualquer estudante de ciências humanas deveria saber, não é uma noção unívoca, ou seja, comporta uma diversidade de interpretações e definições. No campo filosófico, o termo sujeito é elevado ao estatuto de conceito a partir do pensamento de René Descartes. Como foge aos nossos propósitos, analisar o conceito de sujeito em Descartes em todas as suas particularidades, serei bastante sucinto ao falar dele, mesmo correndo o risco de simplificá-lo demasiadamente.

Assim, o sujeito cartesiano poderia ser identificado ao eu, realidade supostamente irredutível, pois, segundo Descartes, sua existência não poderia ser posta em dúvida, já que o próprio ato de duvidar pressuporia um sujeito. No domínio da linguística, diz-se que sujeito é o elemento de uma sentença que sofre a predicação. Em outras palavras, o sujeito é aquilo ao qual atribuímos ou negamos determinadas características.

Observe que tanto do ponto de vista cartesiano quanto linguístico, o termo sujeito é um lugar vazio. Com efeito, para Descartes, tudo o que se diz a respeito de alguém pode ser colocado em dúvida pelo próprio sujeito. Qualquer atributo que sobre ele recaia não pode lhe servir como representante último, pois o próprio sujeito possuiria a capacidade de colocar o mérito do qualificativo em xeque e, se necessário, descartá-lo. Nesse sentido, o sujeito constitui-se em um lugar a priori vazio. Ocorre o mesmo com a noção linguística de sujeito: a palavra “Pedro” considerada isoladamente não possui sentido algum. Só adquire significação quando atribuímos a ela algum predicado, como na sentença “Pedro é um aluno.”. Portanto, o sujeito “Pedro” considerado em si mesmo é um lugar inicialmente vazio a ser preenchido com predicados.

Signo, significante, significado

Ora, o que são predicados senão palavras, significantes? A noção de significante utilizada por Lacan é proveniente de Ferdinand de Saussure, um linguista que propôs uma visão estruturalista da linguagem. Para Saussurre, a linguagem seria formada por elementos chamados signos. Esses, por sua vez, seriam compostos de duas dimensões, unidas arbitrariamente, ou seja, em função do acaso, a saber: o significante e o significado. O significante seria a parcela material do signo linguístico (o som da palavra, por exemplo). Já o significado seria o conceito, o sentido, a ideia associada ao significante. A teoria da linguagem de Saussure é estrutural porque pressupõe que o valor de um determinado signo não é dado a priori, mas depende da relação com os demais signos do sistema linguístico.

Lacan, guiado pela experiência com as formações do inconsciente (sonhos, lapsos, chistes, atos-falhos, etc.) reinventa a proposta original de Saussure, argumentando que a linguagem seria constituída essencialmente de significantes e não de signos e que o significado não teria – ainda que arbitrariamente produzida – uma relação fixa com o significante. Para Lacan, a experiência psicanalítica teria demonstrado que o significado é extremamente volátil, evanescente, como um fluido que desliza ao longo da cadeia de significantes. Nesse sentido, a noção de signo deveria ser relativizada, já que uma relação mais ou menos fixa entre significante e significado estaria restrita a um dado contexto. Por outro lado, na linguagem como um todo, isto é, no lugar do Outro, só existiriam significantes. Aliás, Lacan define o Outro precisamente como “tesouro dos significantes”.

Sujeito como efeito

Vejamos agora como Lacan articula a noção de sujeito à de significante. Vimos que o sujeito é na verdade, tanto do ponto de vista cartesiano quanto linguístico, um lugar a priori vazio. O sujeito, portanto, não possui uma substância. Sua caracterização ou significado estaria na dependência da predicação. Essa, por sua vez, é constituída de significantes, os quais, do ponto de vista lacaniano, são os próprios artífices do significado a partir das relações que estabelecem com outros significantes na cadeia linguística.

Vale lembrar que a noção de sujeito, pelo menos no caso específico da experiência psicanalítica, serve para designar a pessoa ou o indivíduo, de modo que cada um de nós pode dizer: “Eu sou um sujeito”. Então vem Lacan e diz que o sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante. Assim, se fôssemos reformular a frase original substituindo o termo “sujeito” pela definição que Lacan dá a ele, teríamos “Eu sou aquilo que um significante representa para outro significante”. Dessa frase podemos depreender algumas conclusões: a primeira é a de que, do ponto de vista lacaniano, nós não somos aquilo que acreditamos ser e a segunda é a de que a capacidade de sermos diferentes do que somos não depende de nós, mas do Outro. Afinal, é no lugar do Outro, para Lacan, que se desenrola a cadeia significante que nos determina. É lá que se encontram os significantes que nos representam para outros significantes.

Dito de modo mais simples e direto, o que Lacan pretende expressar com sua fórmula é a tese de que nós, nossos desejos, nossos projetos, nossas concepções sobre a vida, nossos amores, enfim, tudo o que decorre de nós estaria na dependência do discurso do Outro. Não foi por acaso que nessa primeira etapa de sua obra Lacan definiu o inconsciente justamente como o “discurso do Outro”. É no campo do Outro que de modo autônomo os significantes se articulam uns aos outros produzindo-nos como um mero efeito.

Assim, inicialmente lugares vazios, nós, enquanto sujeitos, vamos adquirindo substância – uma substância sempre provisória e evanescente, diga-se de passagem – ao sermos preenchidos com as significações vindas do campo do Outro, constituindo-nos como meros efeitos da cadeia de significantes.

Um comentário

Ressalto que essa foi a concepção de subjetividade que Lacan sustentou ao longo de toda a primeira fase de seu ensino, conhecida pelos comentadores como sendo marcada pela ênfase no chamado “registro simbólico”. Observem que nesse modelo não há espaço para o Real, para o elemento disruptivo e imprevisível. Para utilizar os termos gregos de que Lacan faz uso no Seminário 11, não há espaço para a tiquê; tudo é autômaton! O simbólico recobre tudo, de modo que ao sujeito não é possível ser nada além de um efeito da linguagem.

Do meu ponto de vista, acredito que não seja possível negar o fato de que boa parte daquilo que acreditamos ser, bem como uma série de nossos comportamentos e atitudes possam estar ligados mais ou menos diretamente aos desejos de nossos pais e à nossa herança cultural, isto é, ao que se desenrola no lugar do Outro. Penso, contudo, que essa “alienação” ao campo do Outro não é – como pensava Lacan mesmo na última fase de seu ensino – uma das operações necessárias para a constituição do sujeito. A meu ver, a alienação já é, em si mesma, sintoma de um adoecimento. Se o sujeito ainda em formação se aliena ao campo do Outro é porque a ele foi vedada a possibilidade de agir espontaneamente e se apropriar dos objetos do mundo de forma criativa. Mais uma vez, assim como na tese do desejo como falta, Lacan universaliza o adoecimento psíquico dando-lhe a conotação de estrutura.

Alguns excertos da obra lacaniana em que o autor sustenta sua concepção de sujeito como mero efeito da cadeia de significantes (todos os grifos são meus):

“O Outro é o lugar em que se situa a cadeia do significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, é o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer.” (Seminário 11, p. 193-194). [1]

“O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito.” (Seminário 11, p. 197).

“O quarto termo é dado pelo sujeito em sua realidade, como tal foracluída no sistema e só entrando sob o modo do morto no jogo dos significantes, mas tornando-se sujeito verdadeiro à medida que esse jogo dos significantes vem dar-lhe significação.” (De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, Escritos, p. 558)

“Isso fala no Outro, dizemos, designando por Outro o próprio lugar evocado pelo recurso à palavra, em qualquer relação em que este intervém. Se isso fala no Outro, quer o sujeito o ouça ou não com seu ouvido, é porque é ali que o sujeito, por uma anterioridade lógica a qualquer despertar do significado, encontra seu lugar significante.” (A significação do falo, Escritos, p. 696).


[1] É forçoso reconhecer que o próprio Seminário 11 marca a mudança no posicionamento de Lacan acerca do assunto, como o comprova o seguinte trecho: “Será que isto quereria dizer, do que bem parece que sou mantenedor, que o sujeito está condenado a só se ver surgir in initio, no campo do Outro? Isto podia ser assim. Muito bem!, de modo algum – de modo algum – de modo algum.” (p. 199, grifo do autor)

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27 thoughts on “Por que Lacan disse que o sujeito é o que um significante representa para outro significante?

  1. LuCAN brilhante!
    Concordo com Lacan…. ou nos alienamos ou a vida se torna insuportável e como você destaca no seu texto, esta alienação sem duvida já é um sintoma de uma doença psíquica, haja vista que o estatuto da espontaneidade, tão bem definido por Moreno, aqui já não existe mais.. Quinet nos diz que não há sujeito sem o outro e fala-nos também do objeto a ao qual se dirigem as demandas e a articulação do desejo.
    Aqui vai uma pergunta: Como fica a posição do analista que deve ser teoricamente a posição de objeto a na relação de transferência do sujeito analisando? O objeto a como o outro pulsional no registro do real, que é o objeto causa de desejo e que na angustia se manifesta quando a falta falta!
    De que sujeito estamos tratando quando a criação de significado desliza pela cadeia de significantes?
    Você acredita na possibilidade de não existirem sujeito “alienados”?
    Aguardo tua resposta…. Bingo LuCAN!

  2. Oi Lucas, parabens pela sua capacidade de expressao, sempre clara e objetiva.
    Se a psicanalise for encarada como um meio, uma ferramenta para analisarmos a sociedade, os costumes, o lugar social, etc. concordo contigo que nao se pode generalizar a doenca para todas as pessoas.
    Entretanto, entendo que a psicanalise tem um campo muito restrito, delimitado de acao – acredito tratar-se de um lugar de discurso onde, e somente onde, pode-se atuar se ha um sujeito que sofre, que busca o psicanalista e que fala de seu sofrimento (De acordo com Lacan há apenas uma demanda verdadeira para se dar início a uma análise: a de se desvencilhar de um sintoma). Assim sendo, as assertivas de Lacan, a meu ver, sao validas pois seu alcance nao seria o mundo inteiro, mas sim “aquele mundo inteiro”, aquele grupo delimitado de pessoas que sofrem.
    Deixo grande abraco
    Julia V.

  3. Olá Julia! Muito obrigado pelo comentário.

    Concordo contigo quanto aos limites do campo psicanalítico. De fato, o sujeito que nos interessa é aquele que sofre e que chega até nós com a esperança de se ver livre de seus sintomas. Contudo, essa experiência com os avatares do adoecimento psíquico é, desde o início da obra de Freud, uma grande fonte de conhecimentos acerca do estatuto do humano. O maior dentre eles, talvez, tenha sido a descoberta do lugar de preeminência ocupado pelos afetos na gênese dos processos de subjetivação. Por outro lado, isso não implica necessariamente que se promova uma generalização da experiência neurótica para todo e qualquer ser humano. Infelizmente, Freud acabou fazendo isso e Lacan também através de um estratagema discursivo: com efeito, tanto para um quanto para outro, todo ser humano, com exceção dos psicóticos e perversos, é neurótico POR NATUREZA. Para Freud, por ter que passar pelo complexo de castração e para Lacan por sua submissão à linguagem. Em outras palavras, as teses lacanianas valeriam para todo e qualquer ser humano porque a priori todo e qualquer ser humano seria neurótico. É essa ideia que justifica uma tese mais ou menos implícita no ensino lacaniano, segundo a qual a psicanálise seria uma espécie de metadiscurso, capaz de revelar a verdade subjacente a todo discurso particular.

    Continue acessando o blog!

    Um forte abraço!

  4. Olá Carlos! Muito obrigado pelo seu comentário!

    Rapaz, esse neologismo “LuCAN” faz com que eu me sinta honrado, mas é de um peso… rsrsrs

    As questões que você coloca são deveras complexos. Acredito que cada uma delas mereceriam um post específico! Responderei aqui apenas à última: de fato, acredito na possibilidade de existirem sujeitos alienados. E há muitos deles. Há muita gente que experimentou um ambiente que lhes permitiu a expressão da espontaneidade e que, por conta disso, passaram a ter uma relação com o mundo como campo de possibilidades e não como um universo já pronto e ao qual só precisariam se ajustar.

    As demais perguntas estão anotados e certamente passearei por elas em textos futuros!

    Um forte abraço, amigo!

  5. Oi Lucas, acho legal essa sua ousadia de questionar os mestres.
    Lacan fez isso e ao faze-lo ele superou “o pai”, levando a psicanalise a um outro nivel.
    No meu entender Lacan diz que “todos sao neuroticos” (os que nao forem psicoticos ou perversos) no sentido de sua relacao com a castracao. Os neuroticos sao os que reprimem, em vez de forcluirem ou de denegarem a castracao.
    Agora, se o sujeito vai conseguir articular seu desejo e sua satisfacao no mundo, de modo a nao desenvolver sintomas que o incomodem muito_(sim, porque se olharmos beeeem de perto, ha muitos sujeitos com sintomas, mas que estao tao adaptados a eles que nao os percebem)_ isso talvez va determinar em que nivel de neurose ele va se situar em cada momento de sua vida. Ou seja, quando Lacan generaliza “somos todos neuroticos” entendo que somos todos potencialmente neuroticos.
    Obrigada por sua resposta e pelos seus interessantes questionamentos. Nos faz pensar a beca, e isso eh alimento pra alma. Obrigada mesmo.
    Julia V.

  6. Olá Julia! Agradeço também a você por suas pertinentes e provocantes colocações, as quais, ao exigirem uma resposta, enriquecem a discussão em torno do tema.

    Um forte abraço e continue acessando o blog!

  7. “A meu ver, a alienação já é, em si mesma, sintoma de um adoecimento. Se o sujeito ainda em formação se aliena ao campo do Outro é porque a ele foi vedada a possibilidade de agir espontaneamente e se apropriar dos objetos do mundo de forma criativa.”
    Me pareceu uma concepção meio piagetiana… pense no significante ‘criatividade’. Como podemos ser criativos? Podemos nos sentir criativos quando temos um referencial (discurso do Outro) em relação ao qual podemos dizer que fizemos algo de ‘novo’. O que seria, nesse sentido, se apropriar dos objetos do mundo de forma criativa? Seria uma forma de se apropriar de uma forma singular? Como um bebê em contato imediato com os objetos, sem a mediação de um Outro de quem ele iria receber os significados já prontos? É realmente possível isso? Acredito que, neste caso, o que haveria é uma psicose; ou uma ideia piagetiana de que o sujeito tem de tomar contato com a experiência e conhecer por si mesmo o que é o ‘errado’, antes que alguém venha e diga. Outra coisa: o que seria agir espontaneamente? Agir sem a mediação de um Outro? Não há o singular sem o Outro; aquilo que é mais próprio de nós mesmos já faz parte daquilo que colocaram em nós. E só colocaram porque nos alienamos no Outro. A criatividade, no meu entendimento, pode vir daquilo que fazemos com aquilo que fizeram de nós, e não antes disso. A sensação de espontaneidade também: nos alienamos nos significantes provindos do Outro, e os trocamos, deslocamos, condensamos, mas sempre em relação a algo recebido de um Outro. Isso é simplesmente aquela ideia simples de que não podemos pensar em nada que já não vivenciamos ou experienciamos; estamos sempre na dependência desse Outro, da alienação aos significantes deste Outro; não vejo como fugir disso…

  8. Lucas, não seria o sujeito entre significantes (no real, vazio) uma potencialidade, e o jogo significante em ato não seria a materialização de uma ou o utra dessas capacidades? Como a potencialidade é infinita o sujeito advindo estaria em “falta” diante de todas as outras possibilidades de combinações significantes não advindas? A angústia surgiria pelo não reconhecimento da infinita capacidade de articulação significante possibilitada pelo sujeito no real, que não se reduz nem ao significante, nem ao resultado do jogo significante – aquele quê se identifica com o resultado do jogo significante é o ego, o sujeito ao se reconhecer como potencialidade de vir-a-ser, não mais fica identificado somente com o resultado do jogo, mas com as probabilidades virtuais do jogo significante.

  9. Oliver, mais uma vez você leu e não entendeu. Além disso, me parece que de psicanálise você só conhece Lacan e nunca ouviu falar em Winnicott.

    É claro que a criatividade não é exercida integralmente ex nihil. Criatividade é um casamento entre a espontaneidade e os objetos do mundo (ou os significantes do campo do Outro).

    Contudo, do ponto de vista lacaniano não há espaço para a espontaneidade, ou seja, para um movimento que surja a partir apenas do indivíduo, pois o discurso do Outro antecede a criatividade (como você mesmo disse no trecho: “A sensação de espontaneidade também: nos alienamos nos significantes provindos do Outro, e os trocamos, deslocamos, condensamos, mas sempre em relação a algo recebido de um Outro.”).

    Mais uma vez fica difícil discutir com você porque, como você mesmo diz ao final do seu comentário, você não vê “como fugir disso”…

  10. Olá Cláudio! Achei bastante interessante essa sua leitura! Vale a pena desenvolvê-la!

    Um forte abraço!

  11. Ué, estou querendo debater na linha lacaniana mesmo, só estou questionando a ideia de que a alienação não é necessária para a constituição do sujeito… “Se o sujeito ainda em formação se aliena ao campo do Outro é porque a ele foi vedada a possibilidade de agir espontaneamente e se apropriar dos objetos do mundo de forma criativa.” Por que não especifica o que seria isso? Agir de forma criativa… o que realmente seria isso? Aí daria pra avaliar o que você está querendo dizer… o que estou defendendo é que a criatividade depende de uma alienação ao Outro, tanto por oferecer uma matriz simbólica inicial pela qual o sujeito se baseia para agir de diferentes formas, quanto por ser uma realidade em frente ao qual o sujeito tem de emitir alguma resposta… Acho que as questões de criatividade e espontaneidade devem ser vistas de acordo com o ponto de vista do sujeito… quando falo em alienação, estou falando de um ponto de vista terceiro. Pra mim, o sujeito pode ser criativo e espontâneo, por se perceber assim; entretanto, acredito que só há a sensação de espontaneidade e criatividade por ele estar tomando por referência um outro discurso. Um desenho criativo por exemplo… o sujeito vê e nem acredita que fez aquilo, nem acredita que é seu mesmo, porque vê aquilo com os olhos do Outro (dentro do qual acredita conhecer o limite de suas possibilidades). É por ver com os olhos do Outro que percebe seu desenho como algo único, como algo peculiar, singular… mas se não visse com os olhos do Outro, o que seria a criatividade e a espontaneidade? Com que referencial ele iria olhar seu desenho, por exemplo?

  12. Olá Oliver. Entendo o seu ponto de vista, mas acredito que nossas divergências se devam ao fato de que a noção de criatividade com a qual você está trabalhando está muito vinculada à ideia de produção de algo novo e mais articulada ainda à noção de criação artística. Entendida assim de fato a criatividade terá sempre como pano de fundo o discurso do Outro a partir do qual determinada produção poderá ser tomada como inovadora ou singular.

    Contudo, o conceito de criatividade que eu utilizo diz respeito não apenas à criação artística, isto é, à produção de uma obra. Entendo a criatividade como a capacidade de se apropriar dos objetos do mundo (ou dos significantes do campo do Outro) de maneira ativa, ou seja, não submissa. Nesse caso, a espontaneidade é um elemento essencial, pois se trata de ser capaz de fazer uso daquilo que vem do campo do Outro não como algo pronto, mas como algo a ser construído. O conceito winnicottiano de “espaço potencial” é ótimo para entender isso. Para Winnicott, quando o sujeito se desenvolve no interior de um ambiente suficientemente bom, ou seja, que atende às suas necessidades básicas e lhe fornece segurança suficiente para não sentir o mundo como ameaçador, ele é capaz de criar um espaço transicional (ou potencial) entre a espontaneidade, ou seja, seus movimentos primários que não tem absolutamente nada a ver com o Outro, e os objetos que vem do mundo (ou do Outro). Dessa forma, o campo do Outro não é tomado por ele como algo pronto (como Lacan insiste em dizer) e dentro do qual ele deve ocupar um lugar pré-determinado. Não. Os significantes serão tomados por ele como pedaços de madeira capazes de dar origem a diversos brinquedos. Ou seja, ele fará um uso criativo e não submisso dos significantes.

    Aqueles sujeitos que não contaram com um ambiente suficientemente bom e, portanto, não puderam constituir um espaço transicional, esses sim vão encarar o campo do Outro como algo ao qual eles devem se adaptar, ou seja, ocupar um lugar pré-determinado pelo desejo do Outro.

    Não sei se consegui me fazer entender. De todo modo, peço-lhe desculpas se em algum momento fui grosseiro ou me portei de modo arrogante contigo. Não é do meu feitio.

    Um abraço!

  13. Agora fez mais sentido pra mim, consegui entender por que você coloca a alienação já como algo patológico… não acho que eu discordo de você, mas acho que eu coloquei de um jeito diferente.. eu coloquei: “A criatividade, no meu entendimento, pode vir daquilo que fazemos com aquilo que fizeram de nós, e não antes disso.” Mas enfim, obrigado, foi esclarecedor…

  14. Pingback: Nascemos condenados à cadeia significante? | Lucas Nápoli

  15. Adorei este artigo.
    Gostaria de entender a teoria de Lacan real, simbólico e imaginário, numa analise infantil relacionando com a importância do lúdico com crianças consideradas normais e aquelas que apresentam psicose, deficiências, autismo, etc.

    Muito interessante…..

  16. Gosto muito dessa noção de Lacan, mas tenho uma dúvida. Nesse viés, o Outro seria o que/quem? Uma imagem (ethos)? Um discurso cristalizado? Outro ser no mundo? Tenho dificuldades em entender essa relação…

  17. Olá Clau. Obrigado por sua pergunta! Vou transcrever aqui uma pequena nota que publiquei em minha página no Facebook. Acredito que ela poderá iluminar sua dúvida. Caso isso não aconteça, não se acanhe em continuar a conversa. Grande abraço!

    “O Outro lacaniano (com “o” maiúsculo) não é uma pessoa específica, mas sim uma função subjetiva que pode ser encarnada pelos mais diversos outros (com “o” minúsculo) que passam pela vida da gente. Tais figuras exercem para nós a função de referenciais e são destinatários de uma demanda de amor.”

  18. Pingback: O que é atenção flutuante? | Lucas Nápoli

  19. Adorei seu texto Lucas ! Concordo plenamente e me sinto aliviada de ver que alguém pensa da mesma forma que eu. Sou aluna de psicologia do sexto período e errei uma questão de prova sobre o conceito de alienação de Lacan, exatamente por não concordar com ele. Para quem estuda Winnicott , ( faço parte de grupo de estudos ), fica difícil aceitar essas ideias como verdades absolutas, até por que elas não existem … Que bom saber que tem alguém como você que não se aliena na obra do Lacan, e não se limita a meramente repetir os conceitos , afinal nós não somos papagaios .

  20. Lucas, noto que você ficou obcecado com o primeiro Lacan, mas o último Lacan retifica a questão da alienação: o objeo a, o real e a separação, etc., ou seja, mais do que a alienação a separação é condição de constituição do sujeito, Me desculpe mas essas teses do Winnicott me parecem bem iinconsistentes.- “quando o sujeito se desenvolve no interior de um ambiente suficientemente bom, ou seja, que atende às suas necessidades básicas e lhe fornece segurança suficiente para não sentir o mundo como ameaçador, ele é capaz de criar um espaço transicional” – e esse ambiente bom que atende às suas necessidades por acaso não vem do outro? O outro é tanto causa de nossa alienação como de nossa emancipação, pois só podemos nos separar de… Acho que as idéias do Winnocott estava mais para uma psicologia do ego.

  21. Olá Cláudio! Obrigado pelo seu comentário!

    Penso que o ponto de vista de Winnicott não está tão próximo assim da psicologia do ego. De todo modo, mesmo que estivesse, não considero que isso seja um demérito. Lacan provocou o surgimento de um enorme preconceito em relação aos teóricos da psicologia do ego que acabou impedindo muitos neófitos na teoria psicanalítica de entrarem em contato com aquela vertente teórica (que tem muitos aspectos interessantes e que não escaparam a Lacan).

    Com relação à questão do outro em Winnicott, não vejo porque se trata de uma concepção inconsistente. O outro winnicottiano se diferencia do lacaniano na medida em que o grande Outro lacaniano (que embora tenha sido formulado como conceito na primeira etapa do ensino de Lacan, nunca foi abandonado pelo analista francês) possui um caráter determinante, prévio, alienante – ainda que a operação de separação seja igualmente necessária para a constituição subjetiva. Já o outro winnicottiano é o outro que acolhe e que se supõe que deva estabelecer uma relação de continuidade com as tendências espontâneas do bebê, sendo inclusive, no início, sequer percebido como um objeto externo. Em outras palavras, em Lacan não há a ideia de uma espontaneidade primária do indivíduo como em Winnicott. Pelo contrário, a primazia é do Outro.

    Um grande abraço!

  22. rsrsrs Pois é, Inês! Mas, olha só, existe uma série de autores brasileiros que têm um ponto de vista crítico acerca dessas teses lacanianas. Nós somos legião! rsrs

    Recomendo-lhe, sobretudo, a leitura do livro “Pulsão de morte? Por uma clínica psicanalítica da potência”, do filósofo e psicanalista André Martins.

    Grande abraço e apareça sempre!

  23. tenho mil uma dúvidas, creio que são básicas mas considero psicanalise de difícil assimilação ,preciso de exemplos pra entender direito, e isto me falta, acho que´é pelas aulas corridas da faculdade.Gostaria de saber se tem alguém disponível a me esclarecer, pelo face ou Email, pois acho uma teoria interessante!

  24. Olá, Lucas,tudo bem? Gostaria de entender melhor sobre histerização do sujeito, estou lendo sobre as funções preliminares e esses conceitos estão um pouco complicados…obrigada!

  25. Pingback: O que é o grande Outro lacaniano? | Lucas Nápoli

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