Sucesso de público e crítica

imagemQuero aproveitar esse espaço para dar meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que participaram do I Colóquio Interfaces da Psicanálise e em especial aos dois conferencistas, Rodrigo Zanatta e Robson Campos. Infelizmente, em virtude do tempo apenas uma pergunta pôde ser feita aos dois. Por isso, sugiro que aqueles que não tiveram seus questionamentos respondidos deixem suas perguntas na seção de comentários deste post que eu encaminharei a eles.

Atendendo a alguns pedidos feitos a mim após o evento, publico a seguir o texto que li na abertura.

 

“Quantas vezes subi os íngremes degraus que levam do desgracioso Corso Cavour à solitária piazza em que se ergue a igreja abandonada e tentei suportar o irado desprezo do olhar do herói! Às vezes saí tímida e cuidadosamente da semi-obscuridade do interior como se eu próprio pertencesse à turba sobre a qual seus olhos estão voltados — a turba que não pode prender-se a nenhuma convicção, que não tem nem fé nem paciência e que se rejubila ao reconquistar seus ilusórios ídolos.” (FREUD, 1914/1974, p. 255)

 

Essa curiosa passagem encontra-se na introdução do artigo escrito por Freud no outono de 1913 sob o título “O Moisés de Michelangelo”. Em 1914, Freud publica o texto na revista Imago anonimamente, sendo descoberto que era de sua autoria somente em 1924. As razões que levaram Freud a abdicar da autoria do artigo nunca saberemos. Fato é que Moisés e o judaísmo sempre estiveram no caminho de Freud. No mesmo volume em que se encontra o texto sobre a escultura de Michelangelo está uma das obras mais conhecidas do pai da Psicanálise, o mítico “Totem e Tabu” – texto em que Freud tenta explicar as origens da cultura e da religião a partir de um crime ocorrido nos primórdios da humanidade. Vinte e sete anos depois, vemos Freud se dedicar sobre a vida do homem Moisés, em “Moisés e o Monoteísmo”.

 

Essas incursões de Freud por campos aparentemente distantes de seu cotidiano, isto é, de sua clínica particular, nos dá um vislumbre sobre o desejo desse homem que ousou inventar um novo laço social: a Psicanálise. Apesar da modéstia exacerbada, que hoje poderíamos atribuir à sua neurose, não podemos acusar Freud de cautela. Ele não hesitava em aplicar as lições que aprendia com seus pacientes a campos como a antropologia, a psicologia social e a religião. É assim que ele vê na fobia do pequeno Hans o homem primitivo frente a seu totem. Da mesma forma, vê nas práticas religiosas o equivalente social dos rituais obsessivos.

 

Aqueles que o acusam de reducionista não estão errados. Dizer que a religião é uma neurose coletiva é tirar conclusões rápidas demais. Certamente, Jung concordaria conosco nesse ponto. No entanto, meus amigos, é preciso que sejamos benevolentes com Freud. Ele estava tateando, descobrindo uma prática que iria revolucionar o modo como pensamos sobre nós mesmos. Ele estava estupefato com a quantidade de coisas que poderia aprender sobre a subjetividade apenas solicitando a um neurótico que dissesse tudo o que lhe viesse à cabeça. E sua esperança era de que esse método simples pudesse lançar luz sobre uma série de enigmas que a humanidade não solucionara até então.

 

Freud, como ninguém, soube fazer uma coisa que hoje em dia está muito na moda, a tal interdisciplinaridade. Mas não só ele! Jacques Lacan, ganhou fama na Psicanálise por inventar uma fórmula absolutamente interdisciplinar: “O Inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Como disse o psicanalista André Green, quando você diz isso, você faz com que não só os psicanalistas se interessem pelo inconsciente, mas também os lingüistas. Também a Filosofia adquiriu uma importância capital na Psicanálise a partir de Lacan. Sem uma boa leitura de Hegel, Heidegger, Kant, Aristóteles, Platão, Spinoza, os textos lacanianos, que já são difíceis naturalmente, tornam-se verdadeiros hieróglifos.

 

A Psicanálise, meus amigos, é, por natureza, o campo das interfaces. A invenção do inconsciente por Freud tem consequências sobre todas as ciências humanas e sociais. A hipótese do inconsciente significa grosso modo que nós não sabemos o que fazemos e por que fazemos. É o que expressa a famosa frase de Freud: “O eu não é senhor na própria casa”.

 

Com isso, o sujeito cartesiano transparente a si mesmo, que podia dizer: “Penso, logo sou” cai por terra. As leis que Freud descobre governarem a formação dos sonhos colocam em xeque a lógica tradicional aristotélica. E o que dizer da medicina? Se antes, o paciente era só quem sofre a doença, depois da Psicanálise, ele é o próprio agente do mal de que se queixa.

 

Portanto, longe de ser apenas mais uma forma de psicoterapia, a Psicanálise é, antes de tudo uma ética. Uma ética que nos propõe algo insólito, que é se responsabilizar pelo acaso, pelo que não dá pra prever. Por um ato falho, um esquecimento, um sonho…

 

Que esse colóquio possa provocar em todos vocês o mesmo fascínio que a estátua de Moisés causou em Freud.

 

Lucas Nápoli,

17 de fevereiro de 2009.

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Um comentário sobre “Sucesso de público e crítica

  1. Bom Lucas, meus parabéns já foram dados abaixo do evento, mas as pergtas, uma eu já fiz e fui brilhantemente respondida, o que não poderia ser diferente né, e a outra que era para o Róbson, eu mandei via email se ele começar responder aki e não responder meu email eu deixo ela aki, pra ele responder.
    Valeu!!

    bjs

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