O que um psicanalista faz? (parte 3)

No primeiro post desta série dissemos que via de regra o paciente inicia um processo terapêutico atribuindo a responsabilidade por sua atual condição de sofrimento a outras pessoas, geralmente familiares e pessoas de seu círculo mais próximo de contatos. Talvez os únicos pacientes que não se comportam dessa maneira sejam os deprimidos, os quais padecem exatamente do oposto, isto é, de um excesso de culpa. Nesses casos, a primeira atitude do analista deve ser a atenuação do sentimento de culpa através da investigação de suas raízes, as quais estão quase sempre vinculadas à ferocidade da instância superegóica. Do contrário, se o analista não se preocupar em ajudar o paciente a se livrar da carga excessiva de culpa que carrega nas costas, a continuidade do tratamento se torna praticamente inviável, transformando-se numa ladainha de lamúrias e lágrimas sem qualquer possibilidade de elaboração ou redundando no pior, a saber: o suicídio.

Pois bem, agora que já sabemos que os casos de depressão são os únicos em que a tendência a atribuir a culpa a outrem não incide na entrada do paciente em análise, passaremos ao objetivo principal deste post que é tentar dizer qual a tarefa do analista nos outros casos, isto é, na maioria, em face dessa tendência do paciente de se eximir da responsabilidade por seu sofrimento. Essa tarefa, por sinal, é a primeira etapa de um tratamento analítico. Façamos, pois a pergunta:

 

Qual é a primeira etapa de um tratamento psicanalítico?

Inicialmente, devo fazer um aviso: quando digo que em geral os pacientes se eximem da responsabilidade por seu sofrimento ao entrarem em análise, não estou fazendo nenhum tipo de juízo de valor sobre tal comportamento. Não estou dizendo, portanto, que o correto seria o paciente agir de maneira diferente. Nós agimos assim o tempo todo, inclusive num nível social, basta ver a nossa relação com os alagamentos urbanos: sempre os responsáveis por tais coisas são as outras pessoas que jogam lixo nas ruas ou o governo que não cria estratégias de prevenção; nós mesmos não temos nada a ver com a coisa…

Então, quando a gente entra em análise, fazemos o mesmo, só que com os nossos sintomas, ou seja, com aquilo do qual a gente se queixa, que não gostaríamos de fazer, mas fazemos. Sempre achamos um culpado para eles: “Sou assim porque minha (meu) mãe (pai)…” é talvez uma das frases que mais se ouve num divã. Mas o culpado não precisa ser feito de carne e osso! Pode ser o despertador que, por um defeito qualquer, não tocou e fez o cara perder uma excelente entrevista de emprego. Vejam: não foi ele que dormiu a mais, foi o despertador que não tocou… Esses são apenas alguns de incontáveis exemplos.

Com efeito, quando se entra em analise é hora de mudar essa posição de passividade. E como isso acontece? Através de um processo que os analistas lacanianos chamam pomposamente de “retificação subjetiva” e que não acontece só no início, mas ao longo de todo o tratamento. O que significa isso? A retificação subjetiva corresponde a intervenções, isto é, falas, interpretações, encerramento da sessão, silêncio, cujo objetivo é mostrar ao paciente que aquilo do qual ele se queixa também lhe é útil. Nesse ponto, o leitor pode perguntar: “Mas, peraí, como pode ser útil se o faz sofrer?”. E eu respondo: útil na medida em que “resolve” determinados conflitos inconscientes, ou seja, como realização de intenções que até então o paciente ignorava que possuía. Ora, não é paradoxal que justamente aquilo que o faz sofrer tanto seja justamente o que o paciente não consegue deixar de fazer? Por que isso acontece? Justamente por que aquilo que conscientemente o faz sofrer, no nível inconsciente o satisfaz, resolvendo determinadas questões que se deixadas em aberto o fariam sofrer muito mais. O doente é, portanto, levado a um estado em que não é possível mais infligir culpa a ninguém por sua condição, reconhecendo que é ativo em seu próprio sofrimento.

Darei um exemplo para que a idéia fique mais clara: um rapaz se queixa de que não consegue namorar com nenhuma garota por mais de 6 meses. Ele chega à análise culpando às garotas com quem namorou: foram elas que sempre terminaram com ele antes dos 6 meses e diante disso demanda do analista uma resposta: o que há errado consigo? Por que as garotas sempre terminam com ele? (Como vocês já sabem, o que há por trás dessa demanda é um outro pedido que se enuncia mais ou menos assim: “Me diga que não é nada, que não sou eu o problema, que são elas mesmo!”) Após determinado período, o paciente gradualmente vai percebendo que na verdade é ele próprio que gera condições para que as garotas tenham como única alternativa a saída do relacionamento. E por que gera tais condições? Essa é outra questão… e que também demandará tempo para ser respondida. Mas o que precisa ficar claro é que a análise operou uma transformação na posição subjetiva do rapaz: se antes ele era o abandonado, aquele que nenhuma moça queria por mais de 6 meses, agora ele passa a se perceber como aquele que, pelo seu próprio desejo, não quer uma relação de mais de 6 meses!

Mas como é que acontece esse processo de reconhecimento de conflitos que o sintoma resolve? Como é que o paciente “saca” que por detrás do seu sofrimento subsiste um desejo? São essas as perguntas que tentaremos responder no próximo post…

CONTINUA…

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20 comentários sobre “O que um psicanalista faz? (parte 3)

  1. Meus parabéns pelo post Lucas, de fato se tem algo que acontece com os seres humanos é essa transposição da culpa para os outros! Um grande abraço e novamente meus parabéns!

  2. Olá Renan! De fato, essa é uma tendência da qual dificilmente escapamos. Boa parte da dor que caracteriza a passagem por um tratamento analítico talvez se deva justamente ao fato de ele desautorizar essa transposição de responsabilidade.

    Grande abraço! Agradeço pela presença constante por aqui!

  3. Que sacada genial o exemplo do namoro Lucas! Isso acontece comigo em todos os relacionamentos que tenho, mas sempre eu que termino o namoro após entrar literalmente em pânico no final deles. Acho que é por causa do complexo de Édipo mal resolvido! Queria muito fazer análise para sair desse ciclo! Grande abraço!

  4. Olá Daniel! Acho excelente a idéia de iniciar um tratamento psicanalítico. Apesar de problemas como o do exemplo que eu dei e do seu caso serem bastante comuns, cada um apresenta suas peculiaridades, ou seja, é singular! A Psicanálise não promete fazer com que você invitavelmente se livre dos sintomas, mas ela permite entender sua origem, sua história e, quem sabe, leve você a não mais querer prescindir dele, mas se identificar a ele, admitindo-o como aquilo que de mais particular você possui!

    Grande abraço!

  5. Puxa Lucas! Confesso que fiquei um pouco frustrado, achei que a psicanálise poderia me livrar desses sintomas fóbicos em relação aos relacionamentos. Mas de qualquer forma vou ver se encontro um bom psicanalista aqui na minha cidade! Valeu pelo esclarecimento! Abraço!

  6. Olá Daniel! De fato, a Psicanálise PODE sim te livrar desses sintomas. No entanto, PODE não acontecer exatamente porque o sintoma apesar de nos fazer sofrer, funciona também como um modo de ligação da gente com o mundo, o que torna difícil prescindirmo-nos dele. mas, aposte sim na Psicanálise. Mesmo que o sintoma não seja extinguido, sua relação com ele com certeza irá mudar e isso lhe trará bem-estar e alívio!

    Grande abraço!

  7. Essa situação do namoro realmente é bastante recorrente eheh Aguardo a finalização do seu post para dar a minha opinião final sobre aquilo que eu acho que está a ser uma óptima construção e desmistificação a respeito do processo terapêutico psicanalítico. Parabéns 🙂

    Preciso de uma opinião sua a respeito do meu último artigo. Fiz alusão a aspectos da Melanie Klein e gostaria que você visse se foram bem adequados devido à minha dificuldade de, por vezes, perceber bem esta autora 🙂

    Um abraço!

  8. Com prazer, Cláudio! Daqui a pouco vou lê-lo e faço um comentário.

    Grande abraço!

    P. S.: Seu comentário foi o de número 400 do blog!!!

  9. Lucas,
    Perfeito o post, mas depois você ficará nos devendo uma explicação sobre quando o paciente tem razão. Acho esse ponto delicado. Lembro aqui dos casos Dora e Elisabeth von R., sem os quais Freud não teria alcançado um profundo entendimento a respeito da transferência e da associação livre.
    Abraço.

  10. Olá Vladimir! Fico feliz que tenha gostado! Só lhe peço para destrinchar um pouco mais sua observação, que me parece ser bastante pertinente.

    Grande abraço!

  11. Pingback: O que um psicanalista faz? (parte 4) | Lucas Nápoli

  12. Lucas,
    Digamos que Freud aprendeu muito com as observações feitas por Dora e Elisabeth. Ambas o contestaram, a primeira em relação a interpretação e a segunda em relação à técnica. Esses casos foram fundamentais para o desenvolvimento da transferência e da associação livre e não representavam projeções de desejos, mas questões ainda imaturas para Freud. Felizmente, a culpa era do analista.
    Abraço.

  13. Ah sim, Vladimir! Agora peguei! O que você disse é muito importante. O caso Dora, principalmente, é exemplar para percebermos a necessidade de se manter uma amplitude de visão no contexto terapêutico. Muitas vezes, a insistência numa determinada linha de pensamento pode inviabilizar a emergência de novos conteúdos relevantes por parte do paciente. E essa capacidade de se reconhecer como falho é uma virtude que todos os analistas precisam exercitar constantemente.

    Obrigado mesmo pela observação!

    Grande abraço!

  14. Pingback: O que um psicanalista faz? (final) | Lucas Nápoli

  15. Oi Lucas! Joguei no Google o que seria exatamente um psicanalista e acabei por ler seus cinco posts a respeito. Bom, acho que me encaixo no caso dos depressivos e considero que cheguei ao meu limite de “esgotamento emocional”, por isso o interesse em finalmente me render ao tratamento de um profissional. Sempre sofri de insônia, mas considero que no ano de 2012 minha situação foi se agravando ao ponto de eu deixar os estudos para um concurso melhor, nao ir mais a academia, perder a vontade de quase tudo, como comer, sair, enfim, só restando a vontade de ficar no meu quarto escuro, mas infelizmente tenho que ir trabalhar chorando e saio de lá chorando. Sei que as causas para isso podem ser múltiplas, mas me pergunto se a psicanálise leva em conta a possibilidade de uma predisposição genética (e eu já pensei até em carmas de outras vidas, acredite!), porque nao tenho nenhum histórico traumático ou problemas sérios como muitas outra pessoas que conheço e que, mesmo assim, são felizes. A sensação que tenho é que sou realmente doente, como alguém que tem lúpus, por ex, só que com dores na alma (pior q são sintomas que nao aparecem em exames!), e por motivos que ignoro completamente. Tudo que queria era um atestado que me afastasse por pelo menos um mês do trabalho pra ver se a sensação se cansaço extremo desaparece! E uma ultima coisa, faço uso do famoso rivotril e sou supercriticada por isso, mas sem eles já tinha surtado, nao dormiria (mesmo sem qualidade no sono) e ninguém que convive comigo me suportaria! Sei que é um paliativo, mas como evitar? Me desculpe pelo texto extenso!

  16. Olá Fabiana.

    Espero que meus textos tenham lhe auxiliado, ainda que minimamente. Vamos às suas perguntas:

    A psicanálise não negligencia a possibilidade de uma predisposição genética. Contudo, no campo do adoecimento psíquico, ainda não há nenhum resultado de pesquisa que confirme satisfatoriamente a existência de uma predisposição genética para a depressão. Portanto, se você vir alguma notícia publicada por aí afirmando isso, pode acreditar que trata-se apenas de uma tentativa de vender mais jornal. O que existe, de fato, são meras especulações.
    De todo modo, caso já existissem pesquisas que confirmassem a existência de uma predisposição genética para a depressão, isso não modificaria substancialmente a abordagem psicanalítica do problema. Afinal, haveria, como a própria expressão diz, apenas uma PREDISPOSIÇÃO, ou seja, para que a depressão realmente se instalasse deveria haver eventos ambientais específicos.
    Você diz que não tem nenhum histórico traumático ou problemas sérios que justificassem a eclosão da depressão. Isso é natural. Uma das características da depressão ou melancolia é justamente a APARENTE ausência de motivos para a tristeza. Coloquei a palavra “aparente” em caixa alta justamente para mostrar que só à primeira vista não existem motivos, pois ao longo de um tratamento psicanalítico é possível verificar que existem razões sim para que o sujeito se sinta deprimido. Essas razões, contudo, são a princípio inconscientes. Durante o tratamento elas vêm à luz e o sujeito pode lidar com elas face a face. Por isso, seria ideal que você iniciasse o mais rápido possível uma psicoterapia.
    Aconselho você também a assistir a um vídeo que produzi no qual falo sobre depressão:
    Quanto ao uso que você faz de Rivotril: esse medicamento é um ansiolítico, ou seja, seu objetivo é eliminar a ansiedade. Você não disse se foi um psiquiatra quem o receitou. De qualquer forma, seria bom você procurar um psiquiatra e verificar com ele a possibilidade de fazer uso de um medicamento antidepressivo associado ao ansiolítico.

  17. Muito obrigada pela atenção, Lucas! Seguirei os seus conselhos! Vou procurar o seu vídeo para assistir e marcar um psiquiatra e um psicanalista urgente! Que você receba em dobro suas bondades! 😉

  18. Prezado Lucas, iniciei um processo de analise a uns dois meses, por apresentar episódios de tristeza profunda que veem se intensificando, confesso que nao tenho problemas pontuais e nem me sinto culpada por nada e também nao costumo culpar alguém ou algo por meus insucessos… Então ao ler seu texto senti-me como se nao fizesse parte de um paciente “normal”, se possível me dê mais explicações… Nestes dois meses nao consegui falar muita coisa na analise, passo boa parte apenas dizendo que nao consigo falar nada, e a terapeuta apenas se cala… E cada sessão fica mais difícil falar, será que devo parar a analise? Obrigada. Marina.

  19. Oi Marina! Compreendo o que você está dizendo. Infelizmente, assim de longe, é muito difícil dar um parecer… Inclusive acerca da postura da sua analista…

    Grande abraço!

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