O que um psicanalista faz? (final)

Nos últimos três posts desta série o nosso foco esteve sobre o desenrolar de um tratamento psicanalítico. Entre outras coisas, discutimos como o psicanalista lida com o pedido de compreensão implícito na entrada do paciente em análise, qual a primeira etapa do tratamento e como o doente é auxiliado pelo analista na descoberta de aspectos de si mesmo dos quais outrora era ignorante.

Alguns leitores podem considerar de mau gosto o uso que faço da palavra “doente” como sinônimo de paciente ou analisando. De fato, atualmente é difícil ver analistas se referindo assim a quem os procura. Eu, no entanto, busco conservar o termo porque penso que sua utilização coloca em relevo um aspecto sistematicamente esquecido não só por alguns analistas, mas também por boa parte daqueles que se interessam pela teoria psicanalítica que é o fato de a psicanálise ser um tratamento. Foi para isso que Freud a estabeleceu e é para isso que ela continua existindo até hoje. A psicanálise é um meio, uma técnica, uma abordagem (ou seja, existem outras) de ajuda para determinadas pessoas. Digo isso porque, principalmente depois do estrondo provocado pelas teses de Jacques Lacan, uma boa parcela dos analistas começou a pensar e a querer extrair da psicanálise mais do que ela poderia oferecer. Em bom português: os caras começaram a achar que a psicanálise era “a última bolacha do pacote”, que ela era um metadiscurso capaz de explicar e de se sobrepor a qualquer outra forma de descrição do sujeito.

É por isso que uso a palavra “doente”, caro leitor: para enfatizar que quem procura um analista espera receber dele ajuda para ver restabelecida sua saúde. Evidentemente, os conceitos de “saúde” e “doença” que se tem a partir das descobertas advindas do método psicanalítico não são os mesmos da medicina, mas ainda assim não se pode perder de vista que a psicanálise é um tratamento e, portanto, existe para cumprir determinados objetivos. É exatamente sobre isso que falaremos hoje:

 

Quais são os objetivos de um tratamento psicanalítico?

O primeiro post desta série foi dedicado às razões pelas quais as pessoas procuram a ajuda de um psicanalista ou de um psicoterapeuta. Vimos que, via de regra, as pessoas nos procuram quando estão sofrendo, mas sofrendo a ponto de não conseguirem vislumbrarem, sozinhas, a solução para seu sofrimento. Isso porque elas se sentem presas, limitadas, como se algo à revelia delas próprias as impedisse de fazerem o que gostariam.

É justamente com base nessa condição inicial daqueles que recorrem a nossos serviços que estabelecemos os objetivos do tratamento. Logo, se o doente se sente preso, cercado de amarras, a finalidade do tratamento deve ser a de ajudá-lo a se ver livre dessa prisão. Simples.

Numa visão panorâmica, vimos um pouco ao longo dos posts como se dá esse processo de “libertação”. Hoje, gostaria de focalizar precisamente a natureza dessa libertação, ou seja, do que se constitui isso a que a psicanálise visa enquanto método de tratamento. O que me vem à mente nos últimos tempos ao pensar sobre isso é o conceito do filósofo Benedictus de Spinoza de conatus ou “potência de agir”. Para Spinoza todo ser possui essa potência que faz com que o ser persevere no próprio existir e, se possível, se expanda. Tal potência pode ser refreada ou fortalecida de acordo com as experiências que a gente vivencia. Penso que a psicanálise seja uma das experiências capazes de nos auxiliar a fortalecer a nossa potência de agir, justamente porque a matéria-prima de seu funcionamento é justamente a investigação cuidadosa daquilo que diminuiu a nossa potência e fez com que procurássemos ajuda. Um dos objetivos da psicanálise, portanto, é nos dar mais “liberdade de movimentos”. O que a neurose faz conosco é o oposto: ela restringe essa liberdade, por exemplo: impedindo um jovem de ter uma ereção completa ou uma dona de casa de sair à rua por medo das pessoas ou um executivo de trabalhar por não conseguir deixar de repetir: “Controle remoto” 30 vezes a cada 15 minutos…

A psicanálise ajuda pessoas como essas a se verem livres dessas amarras que as impedem de alcançarem seus objetivos, terem maior bem-estar etc. Todavia, há um detalhe importantíssimo que é o que diferencia o método psicanalítico em relação a outros tipos de tratamento: a psicanálise só consegue ajudar as pessoas a terem maior liberdade de movimentos precisamente porque ela se coloca outro objetivo como anterior a esse! Qual objetivo? Basta que você leia meia dúzia das páginas de “Estudos sobre Histeria”, livro que Freud escreveu com Joseph Breuer, para que você logo se dê conta. Você verá naquelas páginas, Freud interessado não tanto em fazer sumir o sintoma das histéricas, mas sim em extrair delas um saber sobre aqueles sintomas, em descobrir-lhes as causas! Ou seja, meus caros: a psicanálise consegue ajudar os doentes a terem sua saúde restabelecida ao ter como finalidade inicial não a eliminação de seus sintomas, isto é, as amarras, mas sim a reconstrução de sua história, a descoberta de seu desejo e, assim, gradualmente os sintomas deixam de ter serventia e o doente consegue abdicar da prisão da qual tanto gostava – sem o saber. Matam-se dois coelhos com uma única pedrada.

***

Pois bem, chegamos ao final desta série. Não estou certo de que consegui responder com clareza à pergunta que alguns familiares me fizeram e que me motivaram a escrever os posts, lembram? Só sei que ainda resta uma infinidade de aspectos da prática do psicanalista que não foram abordados aqui, de sorte que para muitos será talvez um pouco frustrante saber que não haverá uma “parte 6”. A esses peço que, por favor, se manifestem via comentários. Quem sabe a continuação, juntamente com as partes já publicadas, saia em forma de livro? ; ) Conto com o feedback de vocês!

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25 comentários sobre “O que um psicanalista faz? (final)

  1. Eu costumo brincar com os meus colegas cognitivistas e comportamentalistas com a seguinte metáfora:

    Um doente vai ao médico com queixas de febre devido a uma infecção no estômago que desconhece. O médico, atendendo aos sintomas receita medicamento para a febre e os sintomas desaparecem. O paciente agradece e fica tudo resolvido….será?

    Passado uma semana o paciente volta ao médico com um novo sintoma: náuseas e vómitos. O médico receita algo para este sintomas e novamente a coisa parece correr bem. Saiem os dois satisfeitos….

    Até que o paciente é internado de urgência por dores abdominais crónicas e então médicos mais curiosos decidem estudar a fundo o paciente. Não apenas os sintomas mas para além dos sintomas. Fazem diversos exames e encontram a infecção no estômago que tratam e aí todos os sintomas são removidos.

    O que é que eu quero dizer em tom de brincadeira? É que os psicanalistas são os que se preocupam com os exames profundos, que levam tempo e dinheiro, enquanto outras correntes como a cognitivista / comportamentalista, vai pela via rápida da eliminação do sintoma, preocupa-se apenas pela febre. Ou seja, num fóbico, o cognitivista poderá “curar” a ansiedade da fobia, mas se não compreender a fobia, o sintoma poderá voltar a aparecer sob a forma de obsessão.

    A psicanálise é, sem dúvida, uma arte.
    Parabéns por esta série de artigos fantásticos. Espero que vire um livro 🙂

    Um Abraço!

  2. Olá Cláudio! Na época da graduação também costumava discutir isso com meus colegas behavioristas! De fato, o que lhes falta é a noção de inconsciente. Essa pra mim é a maior novidade trazida por Freud: a idéia de que nossa história não é feita apenas de eventos (como pensam os comportamentis e cognitivistas) mas que ela dá origem a uma organização que se fundamenta no desejo. E é justamente a partir dessa organização que os sintomas se manifestam. Desprovidos dessa compreensão, eles placidamente recomendam dessensibilização sistemática para tratamento de fobia. Aí ocorre exatamente o que você disse: o sintoma vai embora e a organização que deu origem a ele permanece intacta…

    Um grande abraço!

  3. Serie de posts interessante…pra mim que estou iniciando psiquiatria..

    fica uma dúvida…se o objetivo é dar liberdade e não tirar os sintomas(o que os medicamentos fazem) essa abordagem terapeutica não estaria falida uma vez que as grandes sindromes são subjetivas e portanto os sintomas relativos e passageiros…

  4. Olá Lázaro! Obrigado pelo comentário! Acho que ele renderá uma ótima discussão! Mas, antes, preciso que você me esclareça o que tem em mente ao afirmar que “as grandes sindromes são subjetivas” e, principalmente, a consequência que você extrai dessa premissa, qual seja, a de que “os sintomas [são] relativos e passageiros”. Essas duas questões ficaram obscuras para mim.
    Quanto ao que você disse sobre o fato de os medicamentos tirarem os sintomas, eu tenho minhas dúvidas. Minha experiência clínica me demonstra, por exemplo, que anti-depressivos são ineficazes – sequer alteram o humor. Mas essa é apenas minha experiência.

    Enfim, me esclareça aqueles pontos para que a gente possa continuar a conversa.

    Grande abraço!

  5. Lucas parabéns pelo blog e pelas postagens, adorei tudo. Sou estudante de psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia, e muito curiosa em relação à psicanálise, uma vez que pelo pouco que ainda estudei sobre tal já me identifiquei bastante e gostaria muito de ver mais posts sobre o assunto aqui, ou que se torne mesmo um livro, seria de grande valia.

    Abraços.

  6. Olá Ludmyla! Muito obrigado pela participação! Você faz parte do público com o qual estou mais preocupado durante a escrita dos textos, qual seja, o grupo formado por graduandos em Psicologia que estão começando a conhecer as teorias. Tem muito material aqui que acho que deve te interessar. Em especial a seção “Glossário psicanalítico“. Espero que o conteúdo possa ser além de útil divertido para você!

    Grande abraço e apareça sempre!

  7. Háaa…eu compro até mais de um se rola um autografo! Parabéns pelo material ai exposto, em todo o blog meu camarada. Traz e esclarece de maneira clara e direta nomes, crachás, placas e carimbos psicanalíticos. E como li em alguns comentários não só desobistruindo a visão mas tendenciando a olhar mais longe. Mais uma vez parabéns por ensinar o saber que não se sabe.

  8. Grande Durso! É uma honra receber seus elogios, meu caro!
    Muito obrigado pela visita e apareça sempre!
    Grande abraço!

  9. Lucas, estou no primeiro ano de psicologia e seu artigo ajudou-me a esclarecer muitas coisas. Neste primeiro ano, a faculdade não transmite as aplicações práticas e tudo fica muito teórico e abstrato.
    Agradeço muito pelo artigo, que fez com que eu me encantasse ainda mais com a Psicanálise.
    Obrigada!

  10. Olá Maria Giulia! Você não tem idéia de como fico feliz ao ler comentários como o seu. Além de me fornecerem a constatação de estar fazendo um bom trabalho, tais comentários reforçam meu desejo de continuar compartilhando idéias.
    Um forte abraço e apareça sempre!

  11. Adorei, parabéns. Sou estudante de psicologia e psicanálise, e também fiquei meio encucada com o termo doente, mas compreendi sua maneira de usá-lo após a explicação.
    Só mais um comentário, você é muito otimista e feliz para um psicanalista! Rs. Já sou mais acostumada àquela aura de sofrimento, de ir mais a fundo com descobertas nada agradáveis, de angústias, aflições e tudo mais.
    Voltarei mais vezes!

  12. Oi Vanessa! Obrigado pelo comentário!

    De fato, o sofrimento e angústia não só fazem parte, como são essenciais para o desenvolvimento de um processo analítico. Não obstante, creio que sou otimista sim em relação aos resultados da psicanálise. Otimismo que, a meu ver, o velho Freud não tinha em função de ter assumido a noção de pulsão de morte.

    Apareça sempre mesmo!

    Forte abraço!

  13. Gostei muito dessa série !
    Eu tinha uma ideia errada da psicanálise. Pensava que por dar tanta importância aos primeiros anos de vida e à relação com os pais, acabava responsabilizando estes pelo sofrimento do indivíduo. Pensei que ele passaria a mão na cabeça e diria “É verdade, você tem razão, é tudo culpa dos seus pais” =)

  14. Olá César! Que ótimo saber que a série contribuiu para desfazer esse mal-entendido em relação à psicanálise.

    Um forte abraço e apareça sempre!

  15. Oie Lucas, Parabens pelo texto ! Mt interesante :>

    enfim… eu num sei se é conveniente perguntar isso aki… mais vamos la vc como psicanalista: Qual a melhor maneira de alguem(sem problemas emocionais) entender a si proprio?

    tipo… eu sou muuitoo confuso das coisa ! e nunca me entendo em nada! … acho que é normal … mais tem como eu mudar isso!!? sozinho … sem ajuda de pisicologo, e tals… ?!

    Mt obrigado ! …

  16. Olá, estava lendo este artigo, por curiosidade (pois em seu blog estava pesquisando sobre superego). Esse artigo sobre psicanálise e psicoterapia se encaixou como uma luva, pelo fato de estar fazendo análise a alguns meses, foi, e, é de fato esclarecedor este artigo, assim como os outros. Parabéns!!

  17. Olá Suellen! Fico muito feliz em saber que o texto lhe foi proveitoso!

    Um forte abraço e continue acessando o blog!

  18. Olá Bruno!

    Por via das dúvidas, recomendo a você que procure um psicanalista. Mesmo que não esteja doente, vai ser ótimo, você verá!

    Um forte abraço e continue acessando o blog!

  19. sei q preciso d ajuda, ñ sei como nem por onde começar
    sem ânimo, trancada em casa ja a 2 dias
    vontade d chorar
    dor por todo o corpo
    me alimento mau e errado
    sei q preciso reagir, mas as vezes parece q tenho medo d encontrar as pessoas, dou desculpas d q estou doente – gripada
    ñ atendo o telefone, ñ quero falar com ninguem
    medo d cobranças, tenho muitas dividas
    me sinto fracassada, sei q sou capaz mas ñ consigo
    ñ consigo terminar nada – auto escola, faculdade, cursos, planos, sonhos
    tenho muitas vontades – faltam atitudes
    desorganizada demais – anoto tudo q preciso resolver, detalhes..mas ñ consigo cumpri nada
    devo pra todo mundo – sei q nunca vou conseguir pagar todo mundo
    isso me entristece, me angustia, me da vergonha d mim, das minhas atitudes
    sou infiel..ja traí muitas vezes
    as vezes me orgulho disso – digo q é por mim,, mas em outras vezes me sinto usada e infeliz, vulgar, fútil.. queria viver bem com meu marido
    as vezes me faço d coitada e isso me irrita em mim mesma..mas qdo vejo ja falei, ja agi assim e ñ consigo controlar
    queria ser normal
    ja roubei, ja falsifiquei, mas isso nunca me deixou feliz, sempre me trouxe culpa, arrependimento
    erro e to sempre tentando justificar meus erros, mas continuo errando
    acho q o mais dificil d controlar ainda é o lado financeiro – extremamente falida e sempre acreditando no impossivel: q vou ganhar na mega sena, q vou ganhar uma ajuda inesperada, q vou ganhar dinheiro inventando algo, ou sei la..muitas ideias, todas irreais e q nunca dão em nada
    me angustio mais ainda com a realidade
    queria ser exemplo d filha, d irmã, d esposa e principalmente d mãe! as vezes dizem q se orgulham d mim, mas eu ñ me orgulho..sei q sou uma faxada apenas – minto pra todos menos pra mim. a realidade é dura as vezes
    preciso d ajuda. tenho medo d ñ mudar, d não melhorar por ter vergonha d me mostrar realmente como sou. tenho medo d manipular ate mesmo o medico e isso me trazer mais prejuízo..ou nenhuma melhora. só quero poder ser eu mesma e mudar. crescer. ser honesta e digna. trabalhar como todo mundo. preciso muito de ajuda. urgente.

  20. Olá, não sei se pulei alguma parte do texto ou não, mas, uma coisa não ficou muito clara para mim. Como é de fato uma sessão de psicanálise? É baseada em conversas como uma consulta de psicólogo? Sempre que eu penso em psicanálise me vem na cabeça o uso de hipnóse e coisas do tipo, isso é realmente utilizado? Obrigado.

  21. nao sei se vc vai ler esse comentario alguns anos dps..rs
    mas lendo isso e o seu manifesto da possibilidade disso virar um livro, lembrei de um livro exatamente assim, de um lacaniano inclusive … vc conhece? o nome é ‘como trabalha um psicanalista?’! do autor J.D. NASIO

  22. Olá Lucas!

    Iniciei terapia (psicanálise) a alguns dias e resolvi pesquisar um pouco pra saber em qual encrenca estou me metendo (kkk). Adorei o Blog. Bastante direto, sem muita enrolação e linguagem difícil.

    Mas fico com uma Dúvida: Além de “não pensar para falar e deixar todas as representações que passarem pela cabeça sair” (que aliás rendeu bons nós na minha cabeça já na primeira sessão), há alguma outra coisa que se possa fazer para auxiliar o trabalho do terapeuta?

    Alguns médicos pedem anotações sobre como o paciente está se sentindo no dia ou coisas importantes que estejam ocorrendo no dia a dia do paciente (tive um homeopata que vivia pedindo…) ou então diários e coisas do tipo, para serem levados no dia da sessão.

    Isso é válido também para a psicanálise?

  23. Olá juliana! Conheço esse livro, sim. Ele é ótimo. Os lacanianos ortodoxos não gostam muito do Nasio, mas eu, que não sou lacaniano, muito menos ortodoxo (rs), considero-o um autor brilhante e muito didático. Grande abraço!

  24. Olá Murilo. Obrigado pela confiança ao compartilhar um fragmento do seu processo terapêutico aqui. Penso que a sua própria preocupação em ajudar o seu terapeuta já é uma questão que você poderia trabalhar na análise…

    Grande abraço!

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