Quem tem medo de ser cancelado é um idólatra da própria imagem

Certo Mestre judeu do primeiro século costumava dizer a seus alunos a seguinte máxima:

“Onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração”.

Tal sentença expressa poeticamente o fato evidente de que nossas inclinações espontâneas (aquilo que vem do “coração”) revelam os objetos que mais valorizamos (nosso “tesouro”).

Penso que o medo também é um indicativo igualmente revelador das coisas que mais apreciamos.

Veja-se, por exemplo, o que acontece com pessoas que possuem muito medo de passar vergonha ou serem malvistas.

Não me refiro necessariamente aos tímidos, isto é, a pessoas que tem medo de se exibir.

A propósito, esse receio de aparecer também é muito sintomático, mas não é sobre ele que pretendo falar hoje.

Estou aludindo àqueles indivíduos que até gostam de serem vistos pelo outro, mas buscam desesperadamente evitar a experiência da vergonha, do constrangimento, do feedback negativo.

Embora tais pessoas arrumem mil e uma desculpas para justificar o seu medo, o fato é que ele revela de modo quase cristalino o quanto elas valorizam a própria imagem.

Mas quando digo “a própria imagem” não estou me referindo à imagem que o sujeito tem de si, mas à imagem que ele supõe QUE O OUTRO ENXERGUE.

O medo de passar vergonha evidencia que, para a pessoa que sofre dele, a imagem de si refletida no olhar do outro é um tesouro a ser cuidado, lustrado e protegido.

O Mestre judeu a que me referi no início também comentava com seus alunos que a gente vende tudo para obter algo que consideramos um tesouro.

E assim acontece com o sujeito que valoriza tanto sua imagem nos olhos do outro: ele está disposto a sacrificar tudo, inclusive os próprios desejos, para manter essa imagem intacta.

As redes sociais contemporâneas, com seus mecanismos imediatos de feedback favorecem essa forma de adoecimento naqueles que já são propensos a ela.

Outrora, quem morria de medo de passar vergonha só contava com a própria imaginação para supor como o outro o enxergava.

Hoje, o olhar alheio aparece escancarado em curtidas, reações e comentários…


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