O que um psicanalista faz? (parte 2)

Escrever este texto tem me feito sentir uma sensação de estar “entregando o ouro para o bandido” no sentido de estar expondo de maneira acessível a qualquer pessoa o que numa psicanálise se encontra trancado a sete chaves na cabeça do analista. Não estou sozinho nessa inquietação: Freud também a sentiu ao escrever seus célebres artigos sobre técnica. E, como o mestre, prosseguirei nessa difícil tarefa de explicar o que faz um psicanalista, certo de que, em se tratando da psicanálise, saber as regras do jogo tanto quanto ignorá-las não exerce diferença significativa no andamento da terapia.

Antes, porém, de dar seqüência a este escrito, gostaria de deixar claro aos leitores que as considerações que aqui faço são derivadas da minha prática clínica de psicanalista cotejada com uma trajetória de aprendizado teórico que também é pessoal. Nesse sentido, à questão “O que um psicanalista faz?” subjaz outra: “O que Lucas Nápoli faz ao atuar como psicanalista?”. Evidentemente, eu não compartilharia aqui o modo como exerço a psicanálise se não tivesse a esperança de que a minha prática possa ser semelhante à de muitos outros analistas e nesse sentido servir de parâmetro para que o leitor leigo possa imaginar como os psicanalistas em geral atuam. No entanto, é preciso que os que se debruçam sobre essas linhas tenham sempre em mente que se trata de um relato pessoal e não um discurso institucional sobre o que um psicanalista deve ou não fazer.

Feita tal ressalva, retornemos ao que de fato nos interessa. No último post tentamos responder à pergunta relativa a quem procura o auxílio da psicanálise ou das psicoterapias de maneira geral. Concluímos que se trata de alguém que sofre, que geralmente atribui a outras pessoas a causa de seu sofrimento e que demanda do analista ou do terapeuta compreensão. Hoje veremos o que o analista faz frente a tal cenário. Portanto, prossigamos com nossas questões.

O que o psicanalista faz frente à demanda do paciente de ser compreendido?

Sejamos sintéticos: o analista não atende a tal demanda. Mas, para que os leitores mais afoitos não tirem conclusões precipitadas, é bom deixar claro: dizer que o analista rejeita a demanda por compreensão não significa dizer que ele seja alguém frio e insensível, que não se importa com o paciente. Não é nada disso. Não ser compreendido é justamente o que o doente necessita, ou seja, a postura “incompreensiva” do analista não é veneno, mas sim remédio. Explico: é que a pessoa, quando resolve buscar a ajuda da psicanálise, já se compreendeu muito, já conseguiu estabelecer nexos causais para seu sofrimento e seu desejo mais imediato é apenas ter alguém que lhe diga: “Você está certa, eu te entendo, deve estar sendo muito difícil pra você enfrentar tudo isso.”. Metaforicamente, é como alguém que está numa poça de lama há muito tempo, de modo que já se acostumou com a sujeira, e agora seu desejo já não é mais o de sair da lama mas sim de arranjar um cúmplice que tope viver na lama consigo. Se o analista atendesse a demanda de compreensão ele estaria encarnando esse companheiro.

Mas a função do psicanalista é outra: é justamente a de colocar em questão a vida na lama, dizendo: “Eu realmente não entendo porque você está há tanto tempo nessa poça”. É justamente ao ser confrontado com essa incompreensão que o paciente terá que se esforçar para fazer-se entender e tentar produzir um saber sobre aquilo que até então era óbvio. É por isso que dificilmente um paciente ouvirá do analista uma resposta afirmativa a questões do tipo: “Ah, você sabe, né?”. Pelo contrário. Ao dizer “Não, eu não faço idéia” ou a perguntar: “Como assim?” a idéia é ajudar o paciente a chegar a um ponto tal que ele será capaz de discernir quão frágeis e tolas são as bases de sustentação do que até então lhe parecia tão sólido como justificativa de seu sofrimento, ou seja, o ponto em que ele perceberá que o saber que produziu é manco, constitucionalmente incompleto. Chegar a esse ponto costuma demorar anos de trabalho duro por parte do doente, justamente porque abdicar do peso das palavras ao mesmo tempo em que é libertador, é também desnorteante no sentido mais forte dessa palavra, isto é, o qualificativo de algo que provoca uma falta de direção, de norte.

A palavra compreensão comporta muitos sentidos, não apenas o de entendimento que está na base da demanda do paciente. Compreensão também pode ser pensada como sinônimo de acolhimento e é nesse e apenas nesse sentido que se poderia dizer que o psicanalista exerce compreensão. Todavia, levando em conta a confusão de significados, preferimos falar em acolhimento mesmo. O analista acolhe. Acolhe a queixa, acolhe o sofrimento, acolhe o paciente. E acolher não significa pegar no colo, como muitos pensam. Acolher significa aceitar a demanda de ajuda como legítima, o sofrimento como real e se colocar à disposição para que o paciente efetue o seu trabalho de análise. Sim, porque quem de fato trabalha no sentido estrito da palavra é o paciente. A nossa função é muito mais modesta; é de estar ali como uma presença que o incita a continuar, como um objeto que deve ser usado para que o trabalho seja concluído. O único desejo que nós, analistas, nos permitimos ter na análise, é o desejo de que a análise prossiga…

CONTINUA…