Por que Lacan disse que “A Mulher não existe”?

07_7agesCreio que essa frase seja uma das mais polêmicas já proclamadas pelo psicanalista Jacques Lacan. Mas creio também que isso se deva ao fato de a maior parte das pessoas não entenderem porque Lacan a disse e considerá-la apenas como mais uma justificativa para o preconceito segundo o qual a Psicanálise é machista. Portanto, vamos tratar de botar os pingos nos “is”.

Uma das características mais geniais de Lacan era a sua capacidade de pegar as teorias elaboradas por Freud e tirar delas algumas frases de efeito. Esse é o caso de “A Mulher não existe”. É óbvio que Lacan não está dizendo que os seres do sexo feminino (com vulva, vagina, ovários e etc.) não existam. Ele não era psicótico a esse ponto. O que ele está dizendo é que as mulheres existem, mas A Mulher não. Para entender de onde ele tirou isso, convido meus caros leitor e leitora para um exercício de imaginação.

Imaginem que vocês se encontram por volta das idades de 4 ou 5 anos. Agora, se imaginem (nessa idade) vendo os corpos nus de um menino e de uma menina. Qual a primeira diferença que vocês irão notar? É óbvio: que no menino há uma coisa entre as pernas e que na menina não há uma coisa no meio das pernas. Lembrem-se: nessa época (4 a 5 anos) a gente, mesmo que tenha lido os livros de ciência, ainda não tem como certa a existência do órgão sexual feminino (a vagina). Então, o que a gente vê é que no menino há uma coisa e na menina não há uma coisa. Qual a conclusão mais óbvia a ser tirada dessa visão? A de que o menino possui aquilo que na menina falta.

Então, senhoras e senhores, como vai se inscrever na cabecinha de todos nós a diferença entre os sexos, quer dizer, como é que a gente vai interpretar o que é homem e o que é mulher? A partir desse objeto que o homem tem e a mulher não tem. Portanto, na nossa cabeça (Lacan diria, na ordem simbólica) a gente tem como dar uma resposta para a pergunta “O que é o homem?”. Qual resposta? “O homem é aquele que possui o objeto”. Agora, para saber o que é a mulher a gente só tem uma definição negativa: “A mulher é aquele ser que não é homem, ou seja, que não tem o objeto”. Mas essa resposta não serve! Afinal, a gente poderia dizer: “Beleza, se a mulher não é o homem então o que ela é?” É uma pergunta para a qual não se tem a resposta porque no caso da mulher não há esse objeto que a represente.

Conclui-se então que a idéia do que é a mulher, de sua essência, de seu desejo realmente não existe. Por quê? Porque diferentemente do homem ela não tem um objeto que a represente – esse objeto Freud chamou de “falo”. Então, na nossa cabeça, no mundo simbólico, a mulher não tem representação. Por isso, Lacan diz que “A Mulher (e aí a gente pode completar com: “A mulher enquanto representação do que é a mulher”) não existe”.

Isso é ruim? Ao meu ver, muito pelo contrário! Meus alunos e alunas de aulas particulares conhecem muito bem o que pensoa respeito disso. Se a mulher não tem uma representação de si mesma, isso significa que ela pode inventar sua essência! É por isso, por exemplo, que nenhuma mulher gosta de encontrar numa festa outra mulher com o mesmo vestido dela. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher. Já homem não. Homem gosta do mesmo, do padrão. Numa festa de gala, estão todos de terno. São raríssimas exceções os que querem se diferenciar – e não são vistos com bons olhos.

Por isso, minha cara leitora, quando ouvir por aí um lacaniano dizer que “A Mulher não existe”, dê graças a Deus, pois ao “não existir” ela precisa “se fazer existir”, cada uma a seu modo…

Legião Urbana e a experiência analítica

legiaoA partir da leitura desse post publicado no blog do Zanatta, me lembrei de uma reflexão que venho fazendo já algum tempo sobre as conexões da letra da música “Pais e Filhos” da saudosa Legião Urbana com a Psicanálise. Resolvi publicar, então, as conclusões a que cheguei até o momento.

Em verdade, minha análise é restrita ao trecho final da música. Após a transcrição (belíssima e perspicaz, por sinal) de falas comuns trocadas entre pais e filhos e da extrema sabedoria ao mostrarem o óbvio: que o amanhã não existe, Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá escrevem os seguintes versos:

“Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais
Não o entendem
Mas você não entende seus pais…

Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer”

Em primeiro lugar, a gente pode assinalar o reconhecimento do ser humano como aquilo que o lacanês chama de “falta-a-ser” e que em humanês, a gente pode, parafraseando Sartre, chamar de “ausência de uma essência do homem”. Com isso quero dizer que cada cultura, cada família, cada pessoa, tem uma idéia diferente sobre o que é o homem, como ele deve agir e etc.

Assim, não temos uma definição válida pra todos, o que significa dizer que a gente não nasce sabendo quem a gente é nem como a gente deve viver. Quem incute na nossa cabeça o que mais tarde vamos pensar ser a verdade são as outras pessoas que, via de regra, nasceram antes da gente e o que elas produziram em termos de conhecimento (é mais ou menos isso o que em lacanês se chama o Outro). Ora, os versos “Sou uma gota d’água/Sou um grão de areia” revelam exatamente isso! Um grão de areia isolado, por exemplo, no asfalto da praia de Copacabana, não é um grão de areia! Sim. Essa “coisinha” só será um grão de areia quando houver algum humano (um Outro) para chamá-lo assim. E mais: só será um grão de areia se existirem outros grãos de areia!

Sobre o “Você me diz que seus pais não o entendem/Mas você não entende seus pais” vou me ater a uma consideração influenciada pelo artigo “Confusão de língua entre adultos e a criança”, de 1933, do analista húngaro Sándor Ferenczi. Ao meu ver esse mal entendido entre pais e filhos resulta, entre outras razões, do fato de os filhos representarem para os pais aquilo que eles já foram e que recalcaram para se tornarem o que são hoje.

Mas o creme mesmo,  da letra de “Pais e Filhos” são os últimos quatro versos: “Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você/O que você vai ser quando você crescer”.

Se vocês repararem, esse último verso é ambíguo quanto ao sentido. Ambíguo porque dependendo do ponto que você coloque ao final, o significado da frase muda. Pode ser tanto a pergunta ao filho sobre o que ele vai ser quando crescer quanto uma afirmação de que ele vai ser como os pais!

Senhoras e senhores, essa ambiguidade é própria da interpretação do psicanalista. Essa, não tem a função de fechar um sentido (vocês podem até ver um pouco disso nos casos de Freud, mas são erros próprios de quem tava começando a coisa). A interpretação analítica tem exatamente a função de jogar com a ambiguidade das palavras e mostrar, fundamentalmente, que elas só são palavras e que, apesar de machucarem, elas continuam sendo palavras que, se rearranjadas, em vez de machucar podem curar!

E me parece que os autores realmente encaranaram os psicanalistas nessa estrofe. Os versos anteriores (“Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você”) são a personificação da essência do que um analista busca fazer numa psicanálise.

E o que é que ele busca? Levar o sujeito a parar de se queixar do Outro (é, daquele Outro do qual eu falei acima, que te ensina o que você é, pra onde você tem que ir), desse Outro que é na maioria dos casos encarnado pelos pais. E como a gente consegue parar de se queixar? Quando a gente percebe que eles não sabem tudo. Que, pelo contrário, eles tem que lidar com as mesmas questões  com as quais a gente tem que lidar. É quando a gente percebe que, assim como nós, no Inconsciente, eles permanecem sendo uma criança de 5 anos…

Aí, tomando ciência de que eles não sabem tudo, a gente pode desamarrar esse fardo das costas e escolher se a gente quer ser como eles, quando a gente crescer.

Veja o clipe de “Pais e Filhos”:

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Winnicott e o Samba

winnicott20et20enfant1Em 1951, o psicanalista e pediatra Donald Woods Winnicott (cuja obra completa você pode baixar na seção Presentes) escreve um artigo para relatar algumas curiosas observações que vinha fazendo com crianças. Winnicott notou que a imensa maioria das crianças em determinado período da infância escolhia um objeto (na maioria das vezes, um ursinho de pelúcia, uma chupeta, uma fralda), carregava esse objeto pra tudo quanto é canto (em especial pra cama na hora de dormir) e não permitia que ele fosse lavado. Quando não era um objeto o bibelô, a criança elegia um determinado comportamento (como emitir um mesmo som), o qual era constantemente repetido (principalmente na hora de dormir).

Winnicott descobre que a fase em que a criança começa a fazer isso é justamente a fase em que ela está começando a se tornar independente e não necessita o tempo todo da presença da mãe. O psicanalista conclui então que a função desses objetos e comportamentos é fazer a transição entrea fase em que a criança dependia da mãe pra tudo e a etapa em que ela está adquirindo independência. Por isso, Winnicott denomina-os de “objetos e fenômenos transicionais” que é também o nome do artigo de 1951.

Assim, os objetos e fenômenos transicionais são como substitutos imaginários da mãe (por isso são tão importantes na hora de dormir- hora em que a criança fica mais tempo longe da mãe). Acontece que a gente não cura essa “saudade” da mãe e do conforto que era estar junto com ela nunca. E aí, já adultos, não temos mais a fralda ou a chupeta para nos consolar, mas temos as músicas, por exemplo. Quer ver como isso é verdade?

Leia a letra da música “Esta Melodia”, de Bubu da Portela e Jamelão e veja se não é a descrição certinha de tudo o que eu falei acima:

“Eu tinha esperança que um dia ela voltasse
Para a minha companhia
Deus deu resignação
Ao meu pobre coração
Não suporto mais tua ausência,
Já pedi a Deus paciência

Quando vem rompendo o dia
Eu me levanto, começo logo a cantar
Esta doce melodia que me faz lembrar
Daquelas lindas noites de luar
Eu tinha um alguém sempre a me esperar
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória”

SERVIÇOS:

Ouça “Esta Melodia” na voz de Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela:

73973Para saber mais sobre as teorias de Winnicott, adquira o livro “Da Pediatria à Psicanálise”, que conta com os principais artigos do autor. Clique no link abaixo e digite o título do livro na busca.

O que é inconsciente coletivo? (parte 1)

4stanne1Apesar dos poucos votos, na primeira enquete deste blog, venceu Inconsciente Coletivo como o conceito que você, caro leitor, gostaria de entender melhor.  Então vou explicar o mais claramente possível esse que é uma das idéias-chave do pensamento de Jung. Mas antes quero fazer uma ressalva que vale para todos os conceitos que já abordei aqui e para os que virão no futuro:

Conceito, minha gente, não é apenas uma palavrinha bonita que determinado autor achou por bem utilizar, nem algo vindo sabe-se lá de que dimensão. Conceitos são instrumentos de compreensão da realidade, isto é, são funcionais, servem como atalhos mentais, para que você não precise ter que passar por todas as experiências pelas quais o autor passou para elaborar o conceito. Por isso, sempre que você se deparar com um conceito novo, não faça perguntas do tipo: “O que é o Real em Lacan?”. Em vez disso, prefira: “Por que Lacan teve necessidade de utilizar o conceito de Real?” Assim, você não corre o risco de começar a discutir o sexo dos anjos, destino certo de quem opta pela primeira pergunta.

Então, para compreender o Inconsciente Coletivo, procederemos da mesma forma, fazendo a pergunta: “Por que Jung teve a necessidade de criar o conceito de Inconsciente Coletivo?”

São várias as razões. E a primeira delas é: porque já existia um conceito de inconsciente, o de Freud que, grosso modo, significava os pensamentos e fantasias que a pessoa havia recalcado e que retornavam na forma de sonhos, sintomas, esquecimentos etc. Por essa definição, já dá pra notar que o inconsciente para Freud era essencialmente pessoal, quer dizer, o que estava no inconsciente de uma pessoa eram só coisas que diziam respeito à história dessa pessoa.

Só que Jung começa a perceber na sua experiência de psicanalista e psiquiatra que muitos pacientes apresentavam conteúdos brotados do inconsciente que não tinham como ter saído da própria experiência pessoal do paciente. Por exemplo, muitos pacientes psicóticos tinham delírios cujo conteúdo era muito parecido com mitos da antiguidade. Mas aí o leitor pode falar: “Ah, mas o paciente pode ter lido sobre o mito antes do surto.” Sim, é uma possibilidade, e Jung a considerava. Mas para nosso espanto, havia casos em que não havia nenhuma possibilidade do paciente ter tido contato com qualquer informação sobre o mito.

Um exemplo, é o caso de um paciente que Jung atendeu que em seu delírio via o “pênis do Sol” (sic) e dizia que o movimento de sua cabeça ao mesmo tempo que o pênis produzia o vento.  Jung descobre quatro anos depois que esse delírio era quase idêntico a um ritual de invocação ao deus Mitra. Detalhe: o livro onde  Jung descobre essa informação só foi publicado quatro anos depois do paciente ter tido o delírio, ou seja, era impossível que o paciente tivesse tido acesso ao relato da invocação.

Além dos delírios de pacientes esquizofrênicos, Jung também observava que seus pacientes “comuns”, neuróticos, apresentavam sonhos e fantasias que também eram muito parecidos com mitos antigos, fábulas e lendas com os quais nunca tiveram contato. Vejamos então como se processou o pensamento de Jung:

“Bom, Freud diz que sonhos, fantasias e delírios psicóticos são conteúdos provenientes do inconsciente, certo? Certo. Mas ele diz também que não existe nada no inconsciente que a pessoa não tenha vivido e recalcado, certo? Certo. Mas então, como eu, Jung, na minha clínica, vejo pacientes tendo sonhos, fantasias e delírios que não têm nada a ver com a história pessoal deles? Só posso concluir então que existem dois tipos de inconsciente: um, pessoal, que é esse que Freud descobriu e outro que não é pessoal, mas que tem conteúdos da história da humanidade como um todo. É então, um Inconsciente Coletivo.”

 Mas se esse Inconsciente Coletivo realmente existe, como é que ele funciona?

A RESPOSTA NO PRÓXIMO POST

O que é recalque? (final)

dorafreudPois bem, no último post ficamos com a pergunta: “Afinal de contas, o que se recalca?” Acrescento a ela, mais uma: “Por que precisamos recalcar?” Mas antes de responder a ambas, quero fazer algumas afirmações para que o leitor entenda o restante do post. São três:

1. Em tudo o que a gente pensa, lembra, imagina, etc., investimos uma quantidade de nossa energia mental.

2. Quanto mais uma idéia, pensamento, lembrança etc. estiver relacionada com a satisfação das nossas pulsões sexuais mais investimos energia nele.

3. Como você já deve saber por outros posts, a tendência de nossa mente é de descarregar a energia que acumulamos e deixá-la no nível mais baixo possível.

Dito isso, vamos à resposta das perguntas: definimos o recalque como uma tentativa de esquecer que ocorre inconscientemente. Então, o que recalcamos?

Recalcamos justamente aqueles pensamentos, idéias, fantasias, lembranças etc. que não se ajustam à imagem ideal que temos do mundo e de nós mesmos (nosso eu ideal). Freud descobre tratando seus pacientes que esses conteúdos que recalcamos geralmente estão associados a modos de satisfação sexual que não estão de acordo com o que a gente acha certo. Por isso recalcamos! Para tentar esquecer pra sempre que um dia a gente fez , viu ou pensou tais indecências!

O problema é que a energia que investimos nesses conteúdos recalcáveis é tão grande, que mesmo recalcados eles permanecem poderosos. Porém, como nossa consciência não os aceita por eles não condizerem com nossos ideais, eles tentam descarregar a energia vinculada a eles disfarçando-se na forma de esquecimentos, sonhos, sintomas neuróticos.

Querem um exemplo? A paciente de Freud, Dora. Dondoca dos tempos em que se casava virgem, seria deplorável para uma moça fina como Dora se imaginar fazendo sexo oral no amigo do pai. Mas ela se imaginava! Porém, como isso não se ajustava à imagem de menina pura que ela deveria ser, Dora recalca tal fantasia. Em compensação, passa a sofrer de tosse nervosa, falta de voz…

Última observação: todo esse processo ocorre inconscientemente.

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O que é recalque? (parte 1)

assessoriaaoprofessor-mai07Você, caro leitor, certamente já deve ter feito ou pensado coisas das quais, após algum tempo, se envergonhou e que se pudesse voltaria no tempo e não faria de novo, certo? Isso costuma acontecer com muitas pessoas após uma noite de bebedeira, é a chamada “ressaca moral”: “Putz! Não devia ter falado (feito) aquilo!”

Pois é, estamos sempre nos arrependendo de algo, afinal,como diria Adão: “Errar é humano”. O problema é quando não dá pra remediar o estrago feito. Então, o que a gente faz? Tenta esquecer, fingir que nada aconteceu. A gente vê televisão, lê, bebe mais, sai para dar uma “espairecida”: tudo pra tentarmos nos distrair e esquecer aquilo de que nos arrependemos.

recalque (que vocês podem achar também nas obras de Freud como “repressão”) é basicamente isso: uma tentativa de esquecer. Só que diferentemente dessa nossa tentativa cotidiana de esquecer as bobagens que a gente fez, o recalque é um jeito de esquecer que ocorre inconscientemente e, além disso, sepulta a lembrança que foi recalcada pra sempre. No nosso esquecimento comum, a lembrança volta e meia aparece, não é? No caso do recalque não: em vez de a lembrança voltar à nossa consciência ela manda um pensamento substituto (Como quando em vez de falarmos “puta”, dizemos “garota de programa”) . Por que? Porque o que a gente recalca nos causa tanto horror que nós não suportamos vê-lo mais de uma vez.

Mas a essa altura o leitor deve estar se perguntando: mas, afinal de contas, o que a gente recalca?

A RESPOSTA, NO PRÓXIMO POST…

Sucesso de público e crítica

imagemQuero aproveitar esse espaço para dar meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que participaram do I Colóquio Interfaces da Psicanálise e em especial aos dois conferencistas, Rodrigo Zanatta e Robson Campos. Infelizmente, em virtude do tempo apenas uma pergunta pôde ser feita aos dois. Por isso, sugiro que aqueles que não tiveram seus questionamentos respondidos deixem suas perguntas na seção de comentários deste post que eu encaminharei a eles.

Atendendo a alguns pedidos feitos a mim após o evento, publico a seguir o texto que li na abertura.

 

“Quantas vezes subi os íngremes degraus que levam do desgracioso Corso Cavour à solitária piazza em que se ergue a igreja abandonada e tentei suportar o irado desprezo do olhar do herói! Às vezes saí tímida e cuidadosamente da semi-obscuridade do interior como se eu próprio pertencesse à turba sobre a qual seus olhos estão voltados — a turba que não pode prender-se a nenhuma convicção, que não tem nem fé nem paciência e que se rejubila ao reconquistar seus ilusórios ídolos.” (FREUD, 1914/1974, p. 255)

 

Essa curiosa passagem encontra-se na introdução do artigo escrito por Freud no outono de 1913 sob o título “O Moisés de Michelangelo”. Em 1914, Freud publica o texto na revista Imago anonimamente, sendo descoberto que era de sua autoria somente em 1924. As razões que levaram Freud a abdicar da autoria do artigo nunca saberemos. Fato é que Moisés e o judaísmo sempre estiveram no caminho de Freud. No mesmo volume em que se encontra o texto sobre a escultura de Michelangelo está uma das obras mais conhecidas do pai da Psicanálise, o mítico “Totem e Tabu” – texto em que Freud tenta explicar as origens da cultura e da religião a partir de um crime ocorrido nos primórdios da humanidade. Vinte e sete anos depois, vemos Freud se dedicar sobre a vida do homem Moisés, em “Moisés e o Monoteísmo”.

 

Essas incursões de Freud por campos aparentemente distantes de seu cotidiano, isto é, de sua clínica particular, nos dá um vislumbre sobre o desejo desse homem que ousou inventar um novo laço social: a Psicanálise. Apesar da modéstia exacerbada, que hoje poderíamos atribuir à sua neurose, não podemos acusar Freud de cautela. Ele não hesitava em aplicar as lições que aprendia com seus pacientes a campos como a antropologia, a psicologia social e a religião. É assim que ele vê na fobia do pequeno Hans o homem primitivo frente a seu totem. Da mesma forma, vê nas práticas religiosas o equivalente social dos rituais obsessivos.

 

Aqueles que o acusam de reducionista não estão errados. Dizer que a religião é uma neurose coletiva é tirar conclusões rápidas demais. Certamente, Jung concordaria conosco nesse ponto. No entanto, meus amigos, é preciso que sejamos benevolentes com Freud. Ele estava tateando, descobrindo uma prática que iria revolucionar o modo como pensamos sobre nós mesmos. Ele estava estupefato com a quantidade de coisas que poderia aprender sobre a subjetividade apenas solicitando a um neurótico que dissesse tudo o que lhe viesse à cabeça. E sua esperança era de que esse método simples pudesse lançar luz sobre uma série de enigmas que a humanidade não solucionara até então.

 

Freud, como ninguém, soube fazer uma coisa que hoje em dia está muito na moda, a tal interdisciplinaridade. Mas não só ele! Jacques Lacan, ganhou fama na Psicanálise por inventar uma fórmula absolutamente interdisciplinar: “O Inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Como disse o psicanalista André Green, quando você diz isso, você faz com que não só os psicanalistas se interessem pelo inconsciente, mas também os lingüistas. Também a Filosofia adquiriu uma importância capital na Psicanálise a partir de Lacan. Sem uma boa leitura de Hegel, Heidegger, Kant, Aristóteles, Platão, Spinoza, os textos lacanianos, que já são difíceis naturalmente, tornam-se verdadeiros hieróglifos.

 

A Psicanálise, meus amigos, é, por natureza, o campo das interfaces. A invenção do inconsciente por Freud tem consequências sobre todas as ciências humanas e sociais. A hipótese do inconsciente significa grosso modo que nós não sabemos o que fazemos e por que fazemos. É o que expressa a famosa frase de Freud: “O eu não é senhor na própria casa”.

 

Com isso, o sujeito cartesiano transparente a si mesmo, que podia dizer: “Penso, logo sou” cai por terra. As leis que Freud descobre governarem a formação dos sonhos colocam em xeque a lógica tradicional aristotélica. E o que dizer da medicina? Se antes, o paciente era só quem sofre a doença, depois da Psicanálise, ele é o próprio agente do mal de que se queixa.

 

Portanto, longe de ser apenas mais uma forma de psicoterapia, a Psicanálise é, antes de tudo uma ética. Uma ética que nos propõe algo insólito, que é se responsabilizar pelo acaso, pelo que não dá pra prever. Por um ato falho, um esquecimento, um sonho…

 

Que esse colóquio possa provocar em todos vocês o mesmo fascínio que a estátua de Moisés causou em Freud.

 

Lucas Nápoli,

17 de fevereiro de 2009.

“De que vale a fé, se não há dúvida?” – Entrevista com Rodrigo Zanatta

66descarNa entrevista abaixo, feita com exclusividade, o psicanalista Rodrigo Zanatta fala sobre contemporaneidade, as relações entre Psicanálise e Religião, o que pensa sobre as instituições psicanalíticas e desfaz as dúvidas quanto a sua religiosidade.
 

Lucas Nápoli: Ultimamente (e é preciso relativizar esse ultimamente – pelo menos desde meados da década de 80) vem se falando muito sobre o declínio da figura do pai e que esse declínio implicaria num novo jeito de fazer psicanálise. Você partilha dessa perspectiva?

 

Rodrigo Zanatta: É verdade, e isso é um ponto dos mais importantes da assim chamada “orientação lacaniana”, ligada principalmente a Miller, e que tem no Brasil um grande expoente que é o psicanalista Jorge Forbes. Pois bem, esse declínio da “figura paterna” é visível. Tanto em grande quanto em pequena escala. Ou seja, tanto nas grandes referências da nossa civilização, nos grandes ideais, ligados a grandes instituições como o estado e a igreja, até naquelas coisas do cotidiano, do dia a dia de uma cidade, do que podemos apreender da “função do pai” em relatos como os que vemos em programas de televisão como “cidade alerta”, ou do que um psicólogo ouve num serviço público de atendimento à população. Enfim, o pai não é mais como antigamente. Isso está muito ligado, entre outras coisas, à imponência do discurso científico. Ilustro: todos se referem à nossa história como a história de uma tradição patriarcal. Desde os textos fundadores da nossa civilização, como a Bíblia, que nos apresenta a sucessão das gerações, as leis, o pacto, a transmissão da tradição, ligadas ao pai, até à foto de família do século XIX, com o Avô, os filhos e os netos… e respectivas mulheres… Não há dúvida que nos germinamos dessa tradição. E não creio ser incorreto também pensar que foi do mal estar próprio dessa configuração social que nasceu a psicanálise. Basta lembrarmo-nos que Freud estava em cheio nisso, que seus neuróticos não giravam em torno de outra coisa que não do pai. Há uma passagem muito interessante no relato do caso de Anna O., em que literalmente o autor contabiliza, nos trilhos sobredeterminados de “lembranças” por trás de cada sintoma da jovem senhorita, quantas lembranças haviam em cada um, e são números altos, e não deixa de notar que todos esses caminhos levavam sempre a uma lembrança referente ao pai. Como diz o velho ditado, “todos os caminhos levam a Roma”. No caso em questão, seria dizer que levam ao pai. Talvez, até, um pouco por causa disso, o congresso internacional de psicanálise que aconteceu a uns anos atrás em Roma tenha tido como título justamente “Os nomes do pai”. Mas bem, o pai é isso, é a garantia da tradição. Descartes, vislumbrando a potência do discurso científico para com o qual contribuíra enormemente, nos advertiu: “Não o aplicarás à tradição”. Não adiantou nada. Os cientistas se perguntaram: “qual o fundamento disso, qual o fundamento daquilo?” – fatos de comportamento ligados à tradição -, e encontraram como resposta o que? Encontraram: o fundamento disso é seu próprio fundamento, que pressupõe tal figura que agora então não passa de um “semblante”. Pois então, o mundo científico fez tal descoberta: “o pai é um semblante”. Como tal, é o efeito de uma junção entre o imaginário e o simbólico, nada de real. Logo, a tradição não é outra coisa que não uma ficção e não tem fundamento, logo, não precisamos ser como éramos. Isso é lindo. Ao mesmo tempo que nos liberta de alguns grilhões, nos deixa um pouco sem rumo. O pai é a cerca do curral, tirando a cerca, para onde o gado vai? São implicações importantes. Por exemplo. Coisas do dia a dia. Um pai, um pai comum, de onde tiraria ele sua função de pai, seu papel de pai? Se o pai de antigamente poderia se apoiar nesse semblante, socialmente impregnado em toda parte, para fazer valer sua palavra, seu poder, seu desejo, o que resta ao pai de hoje, que não pode mais se apoiar aí? Outro ponto importante foi o discurso feminista. Coisa curiosa. Fala-se muito de desemprego, mas dificilmente você verá alguém considerando o feminismo como uma das causas do desemprego. É que de repente, num espaço de poucas décadas, se dobrou a oferta de mão de obra. Pois as mulheres que antes estavam em casa, submissas e infelizes com o “penis anormalis” que tinham de seus maridos, agora estão nas ruas, infelizes de tanto trabalhar e tendo que se ajeitar com o “penis anormalis” que arrumaram para elas mesmas. Qual a implicação disso? Você vê na universidade, na univale mesmo, a evidência incontestável de que a população de universitários é predominantemente feminina. Ou seja, as mulheres estão em geral mais “sabidas” que os homens, consequentemente, vão ganhar mais dinheiro do que eles, e isso os deixará ainda mais perdidos, porque se sentirão inúteis, desempregados, “dispensáveis”. Dispensável é uma palavra dura, mas que não pode ser negligenciada aí. O homem é dispensável. Na reprodução, por exemplo, não se precisa mais do que de seu esperma. E aquele que dá o esperma, não é um pai só por isso. Temos um exemplo brilhante disso na nossa sociedade, em que uma rainha, querendo reproduzir, escolheu o que lhe pareceu um espermatozóide de boa procedência. Resumindo, o homem moderno, perdido em sua função, corre o risco de ser reduzido ao papel de um zangão pelas selvagens mulheres – conluio feroz entre a ciência e o feminismo. Não vamos entrar na “guerra dos sexos”, por mais divertido que isso possa ser. O fato é que com o “eclipse” do semblante paterno, o papel do homem e do pai ficou turvo. E isso tem conseqüências significativas na forma como as pessoas vivem, na forma como elas são felizes ou sofrem, na forma como elas adoecem. E sim, isso implica numa forma diferente de praticar a psicanálise, em que o Complexo de Édipo não é mais a grande referência clínica simplesmente porque sua força na organização social e psíquica não parece ser mais a mesma. À sua pergunta específica, se eu partilho desse ponto de vista, minha resposta é sim. Só quero deixar claro que tudo isso é um ajuste. Não se trata de uma nova psicanálise. O pai ainda está aí, e devemos nos servir dele, mas dificilmente o encontraremos em cada esquina. Não se trata também da visão nostálgica que vemos sair da boca de muitos “psi”´s, no sentido de se fazer uma “prótese” clínica ou educacional do pai. Isso é ridículo. Fadado ao fracasso, inclusive. A psicanálise deve acompanhar os movimentos do mundo, interferir nele quando convidada, ou de intrometida mesmo, mas não tem instrumentos para modelar o mundo, e mesmo que tivesse, como diz alguém que sabia das coisas: “Só o pai que está no céu sabe o que é o bem e o que é o mau”…. Deixo a ambigüidade da minha resposta, até porque, eu usei acima o termo “eclipse”…

L. N.: Sabemos de seu interesse pelas relações entre Psicanálise e Neurociência. Ao seu ver, quais as verdadeiras contribuições que os estudos neurocientíficos podem trazer para o campo analítico?

 

R. Z.: No que concerne à pratica diária de um psicanalista, como ela é praticada hoje, nenhuma. No que concerne ao conjunto do saber do psicanalista, especialmente o aspecto epistemológico desse saber, muitas. No que concerne a como a psicanálise poderá ser praticada um dia, não sei. Deixe-me desdobrar isso. Veja bem, nenhum estudo neurocientífico terá qualquer utilidade se não se puder relacionar de alguma forma a atividade neural observada a um determinado fenômeno mental ou comportamental. Isso é óbvio. Se você observa que um aumento na taxa de dopamina no metabolismo cerebral leva a uma diminuição na produção de uma outra substância qualquer, isso não quer dizer nada se você não puder dizer: “bem, e aí o cara fica mais feliz”, ou “bem, e aí o cara pula da ponte”, ou, mais refinadamente ainda, “bem, e aí o cara pensa na letra A”. Enfim, essa correlação é essencial. E o que nós vemos no desenvolvimento das neurociências desde Helmoltz, ou Wundt, até nossos dias? Um incremento tremendo na capacidade técnica de observar a atividade cerebral. Passando pelos eletroencefalogramas, até às modernas tomografias. E só. Basicamente, nenhum avanço do outro lado da moeda. Faz-se o que o Wundt fazia, pergunta-se ao “sujeito experimental” o que se passa na cabeça dele, acreditando-se que o “treinamento” recebido por ele garantirá uma certa fidedignidade na correlação. Não se leva em conta, entre outras coisas, sequer que, onde essas coisas são, feitas. Os “sujeitos experimentais” são pagos para isso, e como tal querem manter seus “empregos”… Em outras palavras, avançamos muito de um lado, e permanecemos estagnados de outro. O que não adianta muita coisa. Para ilustrar isso, digo que a “psicologia” usada para interpretar o que se vê das atividades mentais é, ou a psicologia agostiniana-tomista, isto é, a psicologia do senso comum, aquela que trabalha com a noção antiga das “faculdades mentais”, o pensamento, a emoção, a volição (o pai, o filho e o espírito santo na trindade anímica de Agostinho – há até livros famosos de autores neurocientíficos de renome que trazem isso no título), ou então a assim chamada “psicologia cognitiva”, o velho associacionismo do Wundt revestido com os jalecos brancos do “American Way”. Ou seja, nenhum avanço nos meios de se “penetrar” a subjetividade. Os efeitos da “leitura psicologia comum” da atividade cerebral são a perpetuação de uma visão de homem idiota, dividido em gavetas em que seu encéfalo é pouco mais que um instrumento de se mexer em função do ambiente. E principalmente, um homem demasiado abstrato, um homem que não existe. Por outro lado, os efeitos da “leitura psicologia cognitiva” da atividade cerebral são o desenvolvimento tecnológico rumo a construção de robôs e andróides, que talvez um dia até chorem se você roubar o doce deles, mas, que não estarão realmente “sofrendo”, como nós, humanos. De um jeito ou de outro, o fato é que é inevitável que um discurso, uma interpretação, se imponha à leitura da atividade cerebral. E essas duas opções estão longe de ser boas o suficiente para a complexidade dos problemas em questão. E a psicanálise? A coisa aí é bem complicada, principalmente, creio eu, porque muitos psicanalistas, e muitas vezes com razão, não vêem esse diálogo com bons olhos. E o grande risco aí é o da dissolução da psicanálise. Tomemos como exemplo o que tem sido feito sob o nome de “neuropsicanálise”, ligado especialmente ao Sr. Mark Solms, de quem pude assistir uma palestra certa feita e na qual ele disse com todas as letras: a neurociência poderá nos ajudar a corrigir a psicanálise, a decidir entre essa ou aquela “tendência”. Enfim, nessa perspectiva, a neurociência (tomista/cognitiva) se torna a senhora, a juíza da psicanálise. Ora, o único juiz da psicanálise é a clínica, e uma tal abordagem inevitavelmente levará a uma prática cada dia mais distante da psicanálise propriamente dita, cada dia mais próxima da psicologia comum. O que, como todos sabem, já é uma tendência forte na psicanálise de língua inglesa. Uma certa anulação daquilo que é a essência mesma da psicanálise. Coisa muito compreensível, por outro lado, visto que ninguém mais apto a encobrir a “descoberta freudiana” do que os próprios psicanalistas. Haja visto que tenham traduzido “Wo es war soll ich werden” por “o ego deve desalojar o id”. Mas esse não me parece o único caminho possível para esse diálogo. Na verdade, esse me parece o caminho a não se seguir. Penso numa famosa afirmação de Eric Kendel: “A psicanálise está para a neurociência assim como o darwinismo está para a biologia”. Quem é Kendel? Um grande neurocientista, ganhador de prêmios Nobels… o cara que conseguiu demonstrar uma coisa que chamou de plasticidade neuronal, o fato de que as ligações sinápticas entre os neurônios corticais não são fixas, eles se fortalecem, enfraquecem, desfazem, novas se constroem, etc. É também o autor de um famoso tratado de neurociência, “A Bíblia” como dizem, do assunto. Enfim, esse cara disse basicamente isso: que a psicanálise, sendo ela a mais completa teoria sobre a atividade mental, deveria servir de orientação para o trabalho do neurocientista. E é assim que eu penso, é a psicanálise que deve criar as hipóteses a serem testadas em laboratório, é a psicanálise que deve interpretar as observações de laboratório. Acho praticamente impossível não pensar que o circuito dopaminérgico, por exemplo, não tenha algo a ver com o gozo. Nâo estou dizendo que o gozo é a atividade do circuito dopaminérgico, estou dizendo que tem relação, e que se um dia for fazer alguma pesquisa neurocientífica, começarei por aí. Enfim, me parece bastante plausível elaborar hipóteses sobre a atividade cerebral, hipóteses refutáveis, testáveis, a partir da teoria psicanalítica. A verificação dessas hipóteses poderia levar a um maior aprimoramento das neurociências, a uma maior solidez epistemológica da psicanálise, embora não mude a prática. Agora, não é impossível que um dia alguém grave seu sonho num iPod. E aí?

 

L. N.: Você não é afiliado de nenhuma instituição psicanalítica. Quais as razões que o levam a tomar essa postura?

 

R. Z.: Bem, deixe-me esclarecer isso. Que eu não seja afiliado a nenhuma instituição psicanalítica não quer dizer que eu sistematicamente faça questão de não sê-lo. Simplesmente não faço questão de sê-lo. É óbvio que há muitas razões para se criticar as instituições psicanalíticas, e a principal delas é o que em geral a gente conhece pelo nome de “máfia”. Mas você poderia me contrapor: “Há, mas nem é tudo assim, e além disso, talvez você só o diz porque não vê a possibilidade de se dar bem nessa ´máfia´!”. Enfim, há essas coisas. Mas há principalmente, no meu caso, o seguinte: eu mesmo. Eu não gosto de grupo, sou meio anti-social, tenho a maior preguiça de escaladas sociais, e etc. Será que é por que durante muito tempo eu fui “filho único”? Que se dane, o fato é que isso não me atrai. No entanto, reconheço o valor do que se faz nessas instituições, especialmente, as ligadas à AMP [Associação Mundial de Psicanálise]. O pessoal realmente trabalha muito e se dedica muito, com muita vontade e amor ao que fazem e isso é muito legal. Eu simplesmente não tenho toda essa vontade e esse amor. Há uma coisa muito legal na AMP, pelo menos no ideal dela, que é o fato de se organizar como escola, e não como uma “sociedade”, uma sociedade de anciãos digamos, aqueles que já estão cansados de saber. Se organizar como escola permite que quem está ali dentro esteja mais como alguém para aprender. Em tese, todos estão lá para aprender… em tese…. Porque, na prática, há a elite, há as estrelas, os que sabem… Mas enfim, tudo isso é pouco, é muito pouco perto do que há de bom… Digamos, é um “pecado” mais que perdoável. Me lembro de uma diferença entre Bacon e Descartes, muito importante para eu me explicar. Ao idealizar o trabalho científico, Descartes pensava que era tarefa de um homem só, que a harmonia e a justeza da obra, exigiam que uma mesma cabeça trabalhasse nela, para que não ficasse como uma cidade não planejada. Já Bacon pensava o contrário, para ele, a ciência era tarefa comunitária, em que cada um deveria cumprir uma tarefa que é uma parte de um todo maior.  Bem como um “formigueiro”, eu imagino. Pois bem, simplesmente me identifico mais com a visão cartesiana. O grande risco, nesse trabalho comunitário, mais que o de permitir que “máfias”  se produzam ali dentro, me parece ser o de uma cristalização, de que as coisas estagnem, de uma proliferação de invenções da roda. Enfim, é muito bom ler a “opção lacaniana”, a gente aprende, a gente encontra palavras e frases novas para dizer as coisas, a gente fica sabendo das últimas do Miller, a gente vê quem tá sacando do riscado e quem não tá, mas… nenhuma novidade…. Não é meu estilo.

 

L. N.: Sua conferência no Colóquio será sobre o que a Psicanálise tem a dizer sobre Deus e Religião. Sabemos do ateísmo confesso de Freud e da resignação de Lacan quanto ao triunfo da religião. Pessoalmente, sua opinião está mais próxima de qual dos dois lados?

 

R. Z.: Nenhum, até porque eu teria minhas dúvidas em relação ao ateísmo de Freud, e algumas considerações sobre a resignação de Lacan. São questões delicadas. É verdade que o Freud se dizia, e se acreditava ateu, mas isso não é tão simples assim. Deixar de acreditar em Deus não é o mesmo que deixar de acreditar em Papai Noel. Pelo menos o caminho em direção ao ateísmo, de Freud, deu a ele muito trabalho, até seu último suspiro, chamado “Moisés e o Monoteísmo”. Já Lacan me parece mais difícil de decifrar. Digo o homem Lacan, qual a atitude dele. Não me parece que se possa depreender isso do que sabemos dele. É bem ambíguo e, no que, tanto em Freud quanto em Lacan, a luta com Deus (Cf. Jacó) tem conseqüências na obra deles, isto é, na psicanálise, temos um pepino casca grossa, sobre o qual eu falaria se o tema da conferência fosse “O Lugar da Religião no Pensamento Psicanalítico”, por exemplo. Mas você me pergunta sobre minha opinião, e bem, o que posso te dizer de melhor é: eu sou cristão, ou mais precisamente, tento sê-lo. Tento, porque a porta é estreita, e eu estou bem gordinho para passar por ela. Mas tanto quanto se pode dizer que aquele que tenta sê-lo pode se referir a si mesmo como sendo, então a resposta é essa: eu sou cristão. Digo eu sou, e não “eu é”, porque não estou falando do tal ego bom camarada. Também não estou falando da minha prática profissional, a respeito da qual eu poderia dizer: sou freudiano, sou lacaniano, sou “zanattiano”, ou qualquer outra coisa, estou falando daqueles 10 minutos antes de dormir, dos momentos críticos da vida, da minha relação comigo mesmo, dos meus maiores anseios e desejos, do que eu acho que pode corrigir meus defeitos incorrigíveis, ou daquilo no que me apóio, ou ainda onde espero encontrar a verdade. Aí a resposta é essa: eu sou cristão. É estranho, sei disso. Porque não me comporto, nem vivo segundo o estereótipo do que é um cristão. Tem um monte de “cristãos” que gostariam de me ver na fogueira, eu sei, em função de coisas que digo publicamente, mas isso só reafirma para mim que eu sou cristão. E tem um monte de “ateus” que acham o que eu digo, na TV, por exemplo, muito legal. E isso me preocupa um pouco. Mas só um pouco, porque, em geral, me parece que os ateus comprometidos com a verdade são mais cristãos que os cristãos que só o são por alguma conveniência. Quero dizer, de que vale a fé, se não há a dúvida? Me lembro da primeira vez que li “Moisés e o Monoteísmo”, foi uma porrada do meu cérebro. Eu pensei: “Caralho!!!, Fudeu”…. Me perdoe as palavras, não muito “cristãs”….. Mas foi isso, a argumentação freudiana é tão boa, que se ela não levantar dúvidas em alguma fé, eu já começo a duvidar de que estamos realmente falando de fé. Já a psicanálise, bem, é uma coisa muito perigosa nesse sentido. Quero dizer, vivemos em um estado democrático, e isso quer dizer que se você não faz sacrifícios humanos, nem perturba a ordem financeira, você pode acreditar no que você quiser. E aí o que penso é: a psicanálise é uma grande tentação. Porque ela é muito boa, tanto na prática, quanto na concepção, na “antropologia”, na anatomia da alma que ela concebe. Quero dizer, nada mais de acordo com a doutrina cristã. E isso a coloca muito perto da religião, a ponto do psicanalista correr o risco de fazer da psicanálise uma religião, e eis aí a tentação. Tentação, digo, para alguém que não quer que a psicanálise seja para ele uma religião. Para quem não se importa, tudo bem. Para mim a psicanálise é uma ferramenta, uma ferramenta para fazer cirurgia na alma, um bisturi bem afiado, e curiosamente, a anatomia da alma que ela nos ensina é a mesma que o cristianismo ensina. Porém, os limites da promessa da psicanálise são bem inferiores aos do cristianismo. E eu tenho muito cuidado em minha vida com afirmações sobre o que existe e não existe, o que é possível e o que é impossível. Basicamente, eu não sei. E não sabendo, só me resta crer, ou não crer. Mas eu prefiro crer.

 

L. N.: Uma última pergunta: você está indo para a Itália, tencionando um doutorado. Sobre o que pretende pesquisar?

 

R. Z.: Em primeiro lugar, você sabe muito bem que as circunstâncias dessa minha ida para a Europa poderiam muito bem ser consideradas como uma “precipitação”. Quero dizer, que havia um plano, um sonho, um desejo… claro. No entanto, alguns acontecimentos fizeram com que de repente essa me parecesse a melhor opção do momento. Em outras palavras, se não tivessem acontecido os acontecimentos que aconteceram, eu provavelmente estaria seguindo minha vida como ela estava até então, logo, tais acontecimentos precipitaram essa ida para a Itália, e agradeço profundamente aos “quatorze” por isso. Assim sendo, digo que não há nada certo. Basicamente, num primeiro momento, uns 2 ou 3 meses, eu vou terminar o processo de reconhecimento da minha cidadania italiana, para poder ter acesso irrestrito ao estudo. Nesse período, também vou ter que ficar fluente na língua italiana. O ano acadêmico na Itália só começa em setembro, logo, vou ter um tempo para me adaptar e circular pelo país, e aí sim, vou decidir o que e onde estudar. Diferentemente do que se imagina por aqui, estudar na Europa, ou pelo menos na Itália, é mais fácil que no Brasil. Especialmente no meu caso, pois todas as universidades italianas são públicas e gratuitas, e com raras exceções, não há nenhum exame de admissão. Isso é a constituição italiana. Então, nem me preocupei muito em definir e arranjar essa parte do problema. Mas tenho algumas coisas em mente, por exemplo epistemologia e neurociências. O problema é que eu gosto de muita coisa, né…? Gosto de psicanálise, teologia, neuro, filosofia, física… Então se no final das contas eu “descambar” pra um outro lado, não ache estranho. Mas em termos de doutorado, ou como se diz por lá “dottorato di ricerca”, epistemologia e neurociências, são as principais candidatas. E aí eu vou ter que escolher a universidade (Na Itália, há universidades, como a de Bologna, por exemplo, que tem quase 1000 anos de existência, fundada em 1088, a mais antiga da Europa… e é tudo assim…. ), a cidade… E isso tudo vai ter a ver com o custo de vida e outras variáveis que eu acho que só vou saber com mais clareza quando estiver lá, a partir do dia 05 de março (falar nisso, estou vendendo meu carro, se alguém se interessar!). Basicamente Lucas, eu sou meio avesso à idéia de uma “especialização” muito rígida, gosto de variar, de combinar, de circular pelos saberes. A Itália é um país fantástico, cheio de história, de arte, no meio do mar mediterrâneo, berço da civilização ocidental. Enfim, acho que não poderia haver lugar melhor para eu procurar alguma coisa interessante na vida. No caso, acho que vai dar pra fazer uma limonada bem gostosa! Ou pelo menos espero!

Agradecimentos à gentileza do entrevistado.

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Lacan sobre a morte

O vídeo abaixo é um trecho da conferência proferida pelo psicanalista Jacques Lacan na Universidade de Louvain em 1972 em que ele fala sobre as relações entre morte e fé.

O que é pulsão de morte? (final)

winehousecrackheadContinuando: no post anterior, vimos que os fenômenos que Freud utiliza para ilustrar o novo princípio do funcionamento mental que havia descoberto foram da ordem da repetição. Estou certo de que você, leitor, já deve ter se feito a pergunta: “Por que por mais que eu não queira fazer tal coisa, eu continuo fazendo?” Nas próprias Escrituras encontramos São Paulo se lamentando por fazer o mal que não quer.

Pois é, meus amigos, Freud resolve chamar essa compulsão a repetir o mesmo erro de Pulsão de Morte. Por que “de Morte”? Porque, ao contrário das pulsões sexuais que nos fazem construir ligações afetivas e gerar outras vidas e das pulsões de autopreservação (como a fome, p. ex.) que nos fazem preservar nossa própria vida, a Pulsão de Morte parece querer levar-nos para o buraco!

Mas ainda permanece a pergunta: por que tal impulso existe em nós? A única forma com que Freud consegue dar solução a esse problema é recorrendo a uma hipótese velhinha, elaborada por um dos primeiros psicólogos, um sujeito chamado Gustav Fechner. Esse dizia que nosso aparelho psíquico era como uma máquina de descarregar tensão (A ansiedade vem justamente quando não conseguimos descrregar a tensão acumulada). O problema é que se a tensão for totalmente descarregada, a gente morre! Logo, ao realizarmos completamente a tendência de nosso aparelho psíquico, o resultado é a… morte.

Vejamos, então, a conclusão de Freud: se nosso aparelho psíquico tende a descarregar toda a tensão que acumulamos no dia-a-dia, quando eu tenho necessidade de repetir as mesmas coisas, é porque eu ainda não consegui descarregar. A repetição é uma forma de tentar descarregar toda a tensão. Querem ver um exemplo terrível de como isso é verdade?

A drogadição. A melhor imagem para a pulsão de morte é a chamada “Cracolândia”, a região de São Paulo onde convivem à luz do dia traficantes e consumidores de crack. O viciado deixa de pensar em trabalho, estudo, namorada, para passar o dia a fumar seu cachimbo. O que esse cara busca? Paz. Sim, ele não quer prazer sexual, ele não quer o prazer de comer um sanduíche, ele quer uma sensação maior. Ele quer uma satisfação que não o faça mais ter fome, ter sede, ter tesão. E ele quase consegue: por uns poucos minutos a droga lhe dá essa ilusão. Mas o efeito em pouco tempo passa.

E aí é necessário repetir, e repetir, e repetir…

O que é Narcisismo?

O mito é um tipo de artifício humano criado com a finalidade de apresentar aquilo que se processa no Real em forma de imagens e símbolos. Que não se enganem os mestres do universo senso-comum ao suporem que o termo “narcisismo” significa “amar-se a si mesmo”. Uma das particularidades mais interessantes do mito de Narciso é o fato de que o personagem se apaixona por sua imagem refletida na água. Para melhor fundamentar nossa discussão subseqüente, melhor seria retificar nossa última asserção e dizer que a imagem não é refletida na água e, sim, pela água. Com isso queremos ressaltar a idéia de que a imagem de nós mesmos é sempre vinda do exterior. Todavia, não há dúvida de que o autor ou os autores do mito quiseram expressar a idéia do amor a si mesmo, ou melhor, a idéia de que aquele que ama a si mesmo acaba se afogando (como foi o caso de Narciso) em si mesmo.

O interessante é constatar que para construir um mito que denotasse o amor a si mesmo como algo que no fim das contas não acaba bem, só foi possível fazê-lo colocando no lugar das palavras “si mesmo” uma imagem do corpo de Narciso. A conclusão a que se chega é a de que só é possível amar a si mesmo amando uma imagem de si mesmo. Vejamos, então, qual é a natureza dessa imagem. Será que a reconhecemos de imediato, isto é, será que sabemos sem precisar aprender que aquela imagem que aparece no espelho somos nós mesmos?

Segundo o psicólogo Henri Wallon, não. Em seus experimentos, Wallon verificou que só a partir dos seis meses de idade é que nos reconhecemos na imagem do espelho. Ele chamou essa fase de estádio do espelho. Porém, vejamos: para que a criança veja a imagem de seu corpo no espelho e se reconheça nela, é preciso que tanto ela, criança, quanto a imagem sejam postas simultaneamente num mesmo lugar no pensamento. Esse lugar é a palavra “eu”. De vez que a criança não aprende a falar sozinha, é preciso que alguém diga a ela que ela e a imagem no espelho são a mesma pessoa, de modo que ela possa dizer no futuro: “Sou eu que estou lá [no espelho]”.

Tal situação coloca de imediato o homem em um estado de alienação no que concerne à sua identidade. Uma vez que o reconhecimento de si mesmo no espelho pressupõe um aprendizado, o qual se dá a partir de um atestado de garantia que é fornecido por um outro, a resposta à questão “Quem sou eu?” será dada por esse outro. E é nesse ponto que se encontra a justificativa da falta de sustentação do argumento segundo o qual o narcisismo denotaria um amor por si mesmo. Na medida em que minha identidade é-me fornecida pela boca de um outro, ao tentar “amar-me” não o estarei fazendo pois estarei amando ao outro, ou melhor, àquilo que o outro quer que eu seja.

No início da vida, do nascimento até um determinado momento da vida infantil, a distância entre o que verdadeiramente somos, isto é, a soma de nossos comportamentos, e aquilo que o outro (na maioria das vezes encarnado pelos pais) queria que fôssemos é praticamente nula. Os pais geralmente acham tudo o que a criança faz uma maravilha; ela adquire um estatuto de objeto que faz os pais se sentirem completos, em especial a mãe. Freud caracterizou a criança nessa fase como “sua majestade o bebê” e deu a esse período o nome de “narcisismo primário”. Gradativamente, os pais vão percebendo que o filho não é tudo aquilo que eles imaginavam; passam a ter outros interesses além da criança e essa também vai percebendo que perdeu terreno. Assim, a distância entre o que somos e o que outro queria que fôssemos só vai aumentando e no lugar daquele momento em que a criança era tudo para os pais surge o eu ideal, uma representação perfeita de si mesmo, a qual será uma das fontes do recalque, visto que serão reprimidos aqueles traços mnêmicos que forem incompatíveis com o eu ideal.