[Vídeo] Amor não é só desejo

Muitas pessoas perdem valiosas oportunidades de construir vínculos amorosos sólidos e saudáveis porque confundem o desaparecimento (inevitável) do desejo que animou o início do relacionamento com falta de amor.


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A Psicanálise explica a paixão?

Não é por acaso que esta sexta-feira é chamada “Sexta-feira da Paixão”.

Com efeito, uma das traduções de PATHOS, a palavrinha grega da qual se origina o termo paixão, é SOFRIMENTO e a cristandade rememora hoje justamente a dor implicada no sacrifício redentor do Messias.

Paixão, portanto, pode ser sinônimo de padecimento, martírio, aflição…

Qualquer pessoa que já se apaixonou na vida — e não teve seu amor correspondido — sabe muito bem disso.

Por outro lado, quem teve a sorte de contar com o desejo recíproco do objeto amado pode atestar a alegria indizível que emerge, feito torrente, de um coração apaixonado — incontrolável, avassaladora, deliciosamente angustiante.

Será que podemos traduzir essa avalanche emocional que está em jogo na paixão em termos metapsicológicos?

Em outras palavras, será que a Psicanálise pode explicar a paixão?

Essa pergunta é pertinente porque, quando estamos apaixonados, nosso psiquismo sofre alterações profundas que beiram os limites da loucura.

Por exemplo: a gente passa a enxergar a pessoa que amamos como perfeita, sem mácula, indefectível (com ou sem o vestidinho preto de Chico Amaral e Samuel Rosa).

A coisa é tão maluca que, em certos casos, a gente é capaz até de cometer crimes se isso for do agrado do objeto que agora manda e desmanda em nosso coração.

Só quem nunca se apaixonou pode colocar isso em dúvida.

De fato, no início dos anos 2000, um rapaz foi capaz de, juntamente com seu irmão, esp4nc4r os pais de sua namorada até a m0rt3 atendendo a um pedido dela…

Quem soube muito bem capturar esse estado de semiloucura gerado pela paixão foi a escritora portuguesa Florbela Espanca, no poema “Fanatismo”, brilhantemente musicado por Fagner.

Nos últimos versos ela diz, dirigindo-se ao objeto amado:

“Ah! podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Mas, e então, será que a Psicanálise explica esse desvario do apaixonamento?

A resposta é… Sim! E quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje uma aula especial justamente sobre esse tema.

Te vejo lá!


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[Vídeo] Você tem usado seu relacionamento para resolver problemas com seus pais?

Neste vídeo: entenda como podemos reencenar vínculos insatisfatórios com nossos pais na infância em nossos relacionamentos amorosos na vida adulta.


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O amor é o grande educador

Tem um texto do Freud cuja leitura recomendo fortemente a vocês: trata-se do artigo “Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico”.

Tá no volume XIV das obras completas (edição standard).

Nesse artigo, Freud descreve três tipos muito curiosos de pessoas que não raro aparecem nos nossos consultórios: (1) aquelas que se acham merecedoras de privilégios da vida, (2) aquelas que se sabotam quando têm sucesso e (3) aquelas que cometem crimes para justificar um sentimento crônico de culpa.

Mas hoje não quero falar especificamente sobre essas categorias de indivíduos. Outro dia eu mexo nesse assunto.

Quero neste momento comentar um trecho desse texto em que Freud nos presenteia com uma síntese do que poderíamos chamar de uma concepção psicanalítica da educação.

Eis as palavras do autor:

“Lado a lado com as exigências da vida, o amor é o grande educador, e é pelo amor daqueles que se encontram mais próximos dele que o ser humano incompleto é induzido a respeitar os ditames da necessidade e poupar-se dos castigos que sobrevém a qualquer infração dos mesmos”.

Nessa passagem, Freud está chamando nossa atenção para o fato de que o processo educacional que os pais desenvolvem junto a seus filhos não é algo da ordem de uma imposição, mas de uma SEDUÇÃO.

Em última instância, a criança não obedece seus pais, submetendo-se aos limites sustentados por eles, por medo ou por convencimento racional.

Ela aceita as diversas “castrações” exigidas pela educação porque AMA seus educadores e quer ser amada por eles.

Fazendo uso da maravilhosa perspicácia infantil, a criança percebe que as demandas de seus pais se apresentam como condições para manter-se na posição de objeto do amor deles.

O próprio medo do castigo, nos diz Freud, é menos um medo da eventual dor ou frustração trazida pela punição e muito mais uma aversão àquilo que o castigo SIGNIFICA, a saber: o desapontamento dos pais.

Portanto, nós não nos submetemos ao Outro porque compreendemos racionalmente o certo e o errado.

A gente obedece por amor.

Porque acreditamos desde a infância que, se formos bons meninos e boas meninas, conservaremos o amor do Outro por nós.


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[Vídeo] Amor incondicional é coisa de criança

Neste vídeo: conheça o psicanalista Michael Balint e entenda porque a expectativa de amor incondicional é sinal de imaturidade emocional.


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Amor incondicional é só o amor materno (nos primeiros meses de vida). E olhe lá…

Você já ouviu falar de um cara chamado Michael Balint?

Balint foi um médico e psicanalista húngaro, discípulo e também paciente do grande Sándor Ferenczi, teórico também húngaro e responsável por diversas contribuições conceituais e técnicas muito significativas para o campo psicanalítico. Outro dia eu falo dele. Hoje quero tratar de algumas das ideias de seu discípulo.

Com base em sua experiência clínica tanto como médico quanto como psicanalista, Balint formulou uma tese muito interessante: a de que no centro da alma de todos nós habita uma sede de sermos amados.

Diferentemente de Freud, Balint acreditava, com base em seu trabalho como terapeuta, que, em última instância, todos os nossos esforços na vida, sobretudo na relação com outras pessoas, não visam a satisfação de nossos impulsos, mas o alcance de um estado em que seríamos amados de forma plena.

De fato, para Balint, no início da vida é isso o que acontece com a maioria das crianças. O anseio espontâneo de serem amadas é satisfeito de modo incondicional pelo cuidado amoroso oferecido pela mãe. No entanto, esse estado de harmonia e felicidade, em que somos amados sem precisar fazer nada, tem prazo de validade. Em pouco tempo, passamos a ser objetos de um amor um pouco mais exigente, que demandará de nós aquilo que Balint chama de “trabalho da conquista”.

Com efeito, o amor do outro deixa ser algo 100% gratuito e incondicional e passa a depender também de um engajamento ativo da nossa parte. Essa é a forma adulta e amadurecida de amar. O amor do outro pode ser espontâneo, mas é também uma resposta ao meu amor por ele e vice-versa.

Em outras palavras: amor gratuito e incondicional é só o amor materno nos primeiros meses de vida. Passado esse primeiro momento, precisamos conquistar o amor do outro. Algumas pessoas, porém, sentem tanta saudade dessa etapa inicial da vida que acabam se colocando em suas relações amorosas como se ainda estivessem naquela época. Assim, esperam que o outro as ame sem que precisem dar nada em troca, sem que precisem fazer qualquer investimento afetivo.

Você já foi uma dessas pessoas ou já se relacionou com alguém que se encaixava nesse perfil?


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Não raro usamos nossos namoros e casamentos para tentar resolver questões que ficaram pendentes da relação infantil com nossos pais.

Relacionamentos amorosos de longo prazo oferecem o contexto de intimidade mais próximo daquele que vivenciamos na relação com nossos pais.

Essa é condição que favorece o possível uso de nossos namoros e casamentos como palcos nos quais representamos os dramas do passado que ficaram mal resolvidos.

Por exemplo: uma mulher pode ter convivido na infância com um pai carinhoso, mas que, na maioria das vezes, estava ausente. Por conta disso, a filha ficava constantemente num estado de expectativa e frustração. Na idade adulta, essa pessoa escolhe como parceiro amoroso justamente um homem que a faz se sentir da mesma forma que se sentia na relação com o pai: frustrada e à espera de migalhas de amor. Com efeito, o parceiro é extremamente afetuoso quando está com ela, mas esses momentos são raros, pois ele frequentemente “some” ou diz estar indisponível.

Você pode estar se perguntando: mas, Lucas, por que ela escolheu alguém que a faz reviver as frustrações da infância? O natural não seria buscar uma pessoa que fosse capaz de estar sempre presente, ao contrário do pai?

Não. Inconscientemente nós não conseguimos simplesmente deixar para lá nossas questões mal resolvidas da infância e “partir para outra”. A gente quer mudar o passado. A criança que fomos e que ainda vive inconscientemente em nós quer voltar no tempo e alterar o modo como as coisas aconteceram.

É por isso que a mulher do exemplo não se interessou por um cara que não lhe deixaria frustrada e ansiosa por sua presença. Para tentar alterar simbolicamente o passado, ela precisou encontrar um homem que tivesse os atributos necessários para encenar o papel de seu pai. Agora, estando ao lado de um cara carinhoso, mas que sempre frustra suas expectativas e a abandona, ela consegue reproduzir a situação infantil.

O que essa mulher busca no fim das contas? Converter o parceiro. Transformá-lo no pai com o qual ela sempre sonhou, mas nunca teve: um pai que se mantivesse carinhoso, mas fosse muito mais presente.

Em outras palavras, ela quer usar o presente para mudar o passado.

Você acredita que na sua relação amorosa atual ou em relacionamentos passados esse fenômeno aconteceu?


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Divã do Nápoli #01

A partir desta semana, você encontrará na minha coluna do @diarioriodoce a seção DIVÃ DO NÁPOLI na qual responderei perguntas dos seguidores do Instagram (@lucasnapolipsicanalista) acerca de saúde emocional, desenvolvimento pessoal e Psicanálise.

Se você também quiser ter a chance de ver sua pergunta sendo respondida, fique atento: toda sexta-feira à noite abrirei a caixinha de perguntas nos stories e escolherei três questões para serem abordadas no próximo DIVÃ.

Veja abaixo uma das perguntas respondidas nesta primeira edição. Para ler as outras, clique aqui.

Como seriam o amor e o ódio para Freud? Eles andam juntos?

Resposta: Amor é uma palavra que utilizamos para nomear um tipo de vínculo entre uma pessoa e um objeto (que pode ser outra pessoa, um animal, uma coisa, uma instituição, uma ideia etc.) em que o segundo é fonte de alegria para a primeira. Em outras palavras, amar significa se alegrar em função da ligação com um determinado objeto. O ódio parece ser o oposto do amor porque nele o objeto não funciona para o sujeito como fonte de alegria, mas de tristeza. No entanto, existe um elemento comum entre o amor e o ódio que é o vínculo. Tanto para amar quanto para odiar, eu preciso estar me relacionando com o objeto. Não existe ódio sem destinatário. É por isso que Freud costumava dizer que o contrário do amor é a indiferença e não o ódio. Quando sou indiferente a alguém significa que essa pessoa não me afeta, ou seja, não existe nenhum tipo de ligação entre mim e ela. O ódio, por sua vez, frequentemente é o produto de um amor fracassado: não raro, odiamos o outro quando ele não corresponde às nossas expectativas, ou seja, quando não se apresenta mais como amável. Nesse sentido, por trás do ódio, amiúde podemos encontrar um amor frustrado.


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[Vídeo] 3 motivos pelos quais é tão difícil TERMINAR um relacionamento

Neste vídeo falo sobre três motivos que explicam por que é tão difícil para muitas pessoas terminarem um relacionamento mesmo estando insatisfeitas com ele.


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Amar é querer pegar, mas também é não querer largar

Podemos distinguir dois aspectos no amor: o desejo e o apego.

Por um lado, dizemos que amamos alguém ou algo quando queremos nos aproximar desse objeto e tê-lo conosco. Essa é a faceta desejante do amor. Para que ela se manifeste, precisa haver uma LACUNA entre o sujeito amante e o objeto amado, ou seja, é preciso que o objeto FALTE ao sujeito. Só desejo comer uma picanha quando não estou com ela diante de mim, evidentemente.

Muitas pessoas se equivocam imaginando que o amor se resume a esse movimento desejante. Assim, acreditam que o amor se esvai quando o desejo desaparece. Tais pessoas não conseguem perceber que o apagamento do desejo é uma consequência natural e inevitável ocasionada pela presença constante do objeto. Se elas se desesperam ou se entristecem ao notarem que o desejo se dissipou é porque não conseguem discernir com clareza a outra dimensão do amor: o APEGO.

Diferentemente do desejo, o apego não nasce da falta, mas justamente da PRESENÇA do objeto. Só nos apegamos àquilo que temos. Adriana era ávida por Lourival antes de namorá-lo. Após cinco anos de relação, essa avidez desejosa já não existe mais. No entanto, Adriana sofreria se fosse deixada por Lourival. Essa provável dor é a marca de que a jovem o ama apesar de não mais desejá-lo com o vigor de outrora. Adriana é apegada ao objeto presente que hoje está ao seu lado e que no passado lhe faltava.

Compreender que o amor se manifesta tanto como desejo pelo que não temos quanto como apego pelo que temos é uma daquelas conquistas que tornam a vida bem menos complicada.

[Vídeo] Como esquecer um amor: psicanalista explica

Entenda como funciona o mecanismo do esquecimento e utilize-o a seu favor para superar definitivamente aquele amor do passado.

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Por que Lacan disse que “a relação sexual não existe”?

Como-medir-a-tensão-de-uma-tomada-elétricaTodos os leitores familiarizados com os escritos e as transcrições das aulas do Seminário de Jacques Lacan sabem que a concisão não era um aspecto valorizado pelo grande analista francês. Lacan adorava dar voltas e voltas em torno de um tema, como se estivesse demonstrando em seu próprio discurso a incapacidade da linguagem de dar conta do real.

Apesar disso, o autor também era mestre em propor fórmulas, isto é, enunciados curtos, esquemáticos, que resumiam um conjunto de proposições e raciocínios. Algumas delas acabavam servindo como uma espécie de lamparina no interior de seu quase sempre obscuro castelo teórico. É esse o caso, por exemplo, de “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” e “o sintoma é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito”, enunciados que funcionam como ótimas chaves de leitura para a primeira fase de seu ensino.

No entanto, algumas de suas fórmulas se apresentam como uma espécie de charada ou provocação, estimulando o leitor a continuar se aprofundando na esperança de que em algum momento ele irá explicá-las – o que geralmente não acontece. Esse é, por exemplo, o caso dos enunciados “a mulher não existe” e “o sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante”, os quais já foram comentados aqui. A afirmação de que “a relação sexual não existe”, que me proponho a esclarecer agora, também me parece se encaixar nesse caso.

Não há encaixe

Primeiramente é preciso dizer que na frase original que Lacan proferiu em francês (“Il n’y a pas de rapport sexuel”), traduzida por alguns autores como “Não há relação sexual”, o analista francês utiliza a palavra rapport. Apesar de ser tradicionalmente traduzido em português por “relação”, na língua francesa esse termo possui uma conotação mais específica que nos ajuda a entender o que Lacan queria dizer com essa curiosa afirmação. De fato, a palavra rapport designa uma relação de complementariedade, de encaixe, onde os elementos são mutuamente proporcionais. Trata-se do tipo de relação que existe, por exemplo, entre um plugue de um aparelho doméstico e uma tomada. Nesse sentido, quando Lacan diz que “não há relação sexual”, o que ele está dizendo é que entre os seres humanos, no campo do amor, não existe relações de encaixe perfeito. Em outras palavras, ninguém é o plugue ou a tomada de ninguém!

Neste momento você pode estar pensando: “Puxa, mas é só isso? Achei que essa frase do Lacan guardasse um significado mais profundo. É óbvio que não há encaixe perfeito numa relação entre seres humanos! Qualquer pessoa que já tenha estado num relacionamento amoroso sabe disso”. Você está certo, caro leitor. Trata-se de uma constatação evidente. Mas, então, por que cargas d’água Lacan sentiu necessidade de enunciar essa fórmula já que se trata de algo tão óbvio? Ora, por que apesar de evidente e facilmente detectável, nós insistimos o tempo todo em tapar o sol com a peneira! Sim: a inexistência da relação sexual significa que não existe, não existirá e nunca existiu um conhecimento, um saber, um manual que seja capaz de nos ensinar o que fazer para termos relações amorosas harmônicas e plenamente satisfatórias para ambos os parceiros. Dito de outro modo, a natureza não nos presentou com a fórmula do amor. Em vez disso, ela nos deu a linguagem.

No entanto, é possível verificar no senso comum e até mesmo na ciência diversas tentativas de descobrir esse saber que irá proporcionar o encaixe perfeito entre os parceiros amorosos. Não acredita? Então faça o teste: abra agora mesmo o Google e coloque na barra de busca: “como ter um casamento feliz”. Se todos nós estivéssemos plenamente convencidos de que a relação sexual não existe, a única resposta que você talvez encontraria para essa demanda seria: “Vá se virar!”. Em vez disso, você irá se deparar com uma série de sites em que psicólogos, filósofos, médicos, padres, pastores, astrólogos etc. dizem quais são os 5, 10, 15, 20, não-sei-quantos passos para estabelecer uma relação de encaixe perfeito com seu parceiro amoroso. Em outras palavras, o que essas pessoas estão dizendo é que a relação sexual existe, sim, e elas sabem a fórmula!

A singularidade do desejo

Dizer que a relação sexual não existe significa dizer que o nosso comportamento afetivo-sexual não está submetido a ciclos biológicos pré-definidos, como acontece com a imensa maioria dos outros animais. No caso dos seres humanos, a inexistência de um instinto sexual faz com que a nossa maneira de desejar, de amar e de gozar seja construída de forma absolutamente singular. Nesse sentido, o encontro sexual entre duas pessoas significa um encontro entre dois mundos distintos, que não foram forjados para se complementarem. Utilizando o exemplo do plugue e da tomada como analogia, é como se eles tivessem sido elaborados de modo completamente independente, de sorte que o encaixe entre se torna impossível.

Então a fórmula “a relação sexual não existe” significa que nós nunca seremos felizes no amor? Sim, se por felicidade entendermos um estado de harmonia e completude na relação com o outro. Não estando submetido a um ciclo biológico padronizado, nosso desejo obedece a coordenadas próprias, singulares, ou seja, necessariamente incapazes de se encaixarem com perfeição nas coordenadas do desejo do outro, que é tão singular quanto o nosso. Por outro lado, se por felicidade entendermos a capacidade de nos sentirmos reais, espontâneos e criativos, a inexistência da relação sexual pode ser, inclusive, uma condição para a felicidade. A impossibilidade do encaixe abre espaço para a invenção, para a surpresa, para a construção de fórmulas provisórias, contingentes, singulares de amar, destituídas de idealizações e permanentemente abertas ao acaso. Como disse o poeta carioca,

“O nosso amor a gente inventa

Pra se distrair

E quando acaba a gente pensa

Que ele nunca existiu”

Sugestões de leitura:

Zah_Lacan_18Mai_c3     OSeminarioLivro20     LacanElucidado_0

[Vídeo] Recado Rápido #10 – Príncipe encantado

Em minha experiência clínica tenho notado que algumas pessoas, sobretudo mulheres, nutrem a fantasia de que, em algum momento de suas vidas, encontrarão uma parceria amorosa plenamente satisfatória, uma espécie de “príncipe encantado” com quem, como nos contos de fada, serão felizes para sempre. Submetidas a essa fantasia, tais pessoas evitam se expor às oportunidades de se engajarem em relações concretas em função do medo de se depararem com a impossibilidade de realização da fantasia.


[Vídeo] Recado Rápido #03 – Transferindo queixas

Neste terceiro recado rápido, falo sobre um fenômeno muito comum nos relacionamentos amorosos: a transferência para o(a) parceiro(a) de expectativas, demandas e necessidades que não foram satisfeitas na infância. Isso acontece porque a profundidade do vínculo que estabelecemos com a pessoa amada é tão grande quanto aquela que se faz presente na relação entre pais e filhos. Assim, a pessoa que está conosco acaba tornando-se a destinatária de queixas que originalmente foram dirigidas às figuras parentais.


Metapsicologia da paixão

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O processo de apaixonar-se certamente é um dos fenômenos mais comuns e fascinantes da experiência humana. Como se sabe, a palavra “paixão” está vinculada etimologicamente ao vocábulo grego “pathos” que poderia ser traduzido livremente por doença, enfermidade, sofrimento – daí a nossa conhecida patologia. De fato, embora geralmente seja fonte de grande prazer para o indivíduo, o estar apaixonado também envolve frequentemente certo grau de sofrimento, especialmente nos casos em que o objeto não corresponde ao amor que lhe é endereçado. Por outro lado, mesmo nos casos em que o desejo entre os parceiros é recíproco, ainda assim a experiência da paixão chega a produzir estados de angústia que só são superados após certo tempo de relacionamento.

Ao introduzir na teoria psicanalítica a noção de “narcisismo primário” num artigo clássico de 1914, Freud acabou lançando luz sobre o que acontece, do ponto de vista metapsicológico, com uma pessoa que se encontra apaixonada. Inicialmente, tentaremos explicar em humanês o que o fundador da psicanálise tinha em mente ao propor a noção de um narcisismo primário. Em seguida, demonstraremos como esse conceito permitiu a Freud inferir os mecanismos psicológicos que estariam por trás do fenômeno do apaixonar-se.

Centro do mundo

Até o momento em que Freud publicou esse artigo que eu mencionei de 1914 chamado “Sobre o narcisismo: uma introdução”, o narcisismo era compreendido pela psiquiatria da época unicamente como um transtorno da sexualidade caracterizado pelo fato de o indivíduo nutrir desejos eróticos por si mesmo. Como, do ponto de vista freudiano, a sexualidade não estava restrita ao campo da genitalidade, mas englobava tudo o que tivesse a ver com o amor num sentido amplo do termo, Freud logo percebeu que o “amor por si mesmo” não era uma prerrogativa apenas de determinados perversos. Em outras palavras, o narcisismo, tomado num sentido mais amplo, era um fenômeno passível de ser encontrado em todas as pessoas. Todas as pessoas tomariam a si mesmas como objeto de amor, em maior ou menor grau. A pergunta que Freud buscou responder no artigo foi: por que isso acontece, isto é, por que nós amamos a nós mesmos?

Atento ao lugar privilegiado que os bebês ocupavam nas famílias ocidentais modernas, o médico vienense formulou a seguinte hipótese: nós amamos a nós mesmos como forma de resgatar a primeira experiência que tivemos na vida: a de sermos plenamente, integralmente, completamente amados pelas pessoas que estão ao nosso redor. Ora, não é isso o que acontece com a maioria dos bebês quando nascem? O próprio Freud, no artigo, brinca dizendo que o bebê torna-se uma verdadeira majestade no ambiente familiar. Para ele são dirigidas todas as atenções, todas as expectativas, todos os projetos. É essa experiência inicial de ser o centro do mundo que Freud chamou de “narcisismo primário”. Quando esse momento se encerra, é como se ficássemos como um “gostinho de quero mais” e passássemos a vida inteira tentando de alguma forma reproduzi-lo. Para alcançar isso, Freud diz que nós forjamos uma imagem idealizada de nós mesmos (eu ideal) que caso fosse de fato encarnada nos proporcionaria a mesma experiência de ser o centro do mundo que tivemos quando bebês.

Amo-me em ti

O que tudo isso tem a ver com o estar apaixonado? Ao observar a fenomenologia da paixão, Freud chega à conclusão de que, na verdade, amar seria uma forma indireta (talvez pudéssemos até dizer: sintomática) de buscar o retorno da experiência de narcisismo primário. Quando estamos apaixonados, idealizamos os traços do objeto amado, colocando-o no centro de nossa existência, ou seja, fazemos com o objeto exatamente aquilo que o mundo fez conosco quando éramos bebês – experiência que gostaríamos de vivenciar ininterruptamente. É como se idolatrando e idealizando o objeto amado pudéssemos vivenciar indiretamente a experiência de sermos amados plenamente.

Trata-se de um fenômeno paradoxal, pois, como Freud assinala, o indivíduo apaixonado se apresenta humilde, não raro sem demonstrações de amor próprio. Grande parte da sua libido, que anteriormente estava investida em si mesmo e na imagem idealizada de si mesmo (seu eu ideal) agora passa a ser dirigida ao objeto. O indivíduo não se sente digno de elogios ou favores. Somente o objeto deve ser servido e adorado. Nesse sentido, do ponto de vista freudiano, ao se apaixonar o indivíduo abre mão de seu narcisismo, mas para recuperá-lo de forma indireta e bem mais potente no objeto amoroso idealizado. Dito de outro modo, para Freud, amamos o outro para melhor amarmos a nós mesmos.