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O que, de fato, leva um paciente, em análise, a mudar, a melhorar, a sair de sua condição de sofrimento?
Em 1934, o psicanalista britânico James Strachey tentou responder essa pergunta em um artigo que se tornaria um clássico:
“A natureza da ação terapêutica da Psicanálise”
O resultado dessa investigação foram três noções inovadoras:
Círculo vicioso neurótico
Superego auxiliar
Interpretação mutativa
Para Strachey, o neurótico não consegue sair sozinho de seu sofrimento porque retroalimenta suas defesas ao projetar suas fantasias na realidade, ou seja, ele fica preso a um “círculo vicioso”.
A análise conseguiria interromper esse processo porque o analista resiste às projeções do paciente, apresentando-se como um “objeto bom” que vai sendo internalizado pelo sujeito (“superego auxiliar”).
A ferramenta clínica que fomentaria essa internalização seria a “interpretação mutativa”, na qual o analista mostra ao paciente seu movimento projetivo acontecendo ao vivo e a cores na transferência.
Como eu disse, Strachey escreveu essas coisas em 1934.
Como aplicá-las hoje, em 2026, numa clínica contemporânea muito mais variada do que aquela que os analistas encontravam em meados do século XX?
No artigo, Strachey se limita a falar de pacientes que projetam seu superego cruel — vem daí a ideia de que o analista poderia funcionar como um “superego auxiliar”.
Mas como pensar os casos em que o paciente projeta outros elementos, tais como um objeto interno abandonador ou sedutor?
E como fazer, na prática, uma interpretação mutativa?
Eu trabalho todas essas questões na aula “Por que a Psicanálise é terapêutica?”, que acaba de ser publicada na Confraria Analítica.
A Confraria é a maior e mais acessível escola de formação teórica em Psicanálise, com um acervo de mais de 400 aulas, o que equivale a mais de 600 horas de conteúdo.
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Ao longo da história, muitos pensadores meditaram sobre os atributos que diferenciariam radicalmente os seres humanos de outros animais.
Uma opinião conhecida é a de que a razão seria essa característica distintiva: apenas o homem seria capaz de pensar racionalmente.
Outra visão clássica é a de que a linguagem (no sentido forte do termo) seria a propriedade que, de fato, nos separa das demais espécies.
Aventurando-me a entrar nessa polêmica e sem a pretensão de estar propondo nada novo, eu diria que:
Nós, humanos, somos seres que, diferentemente dos outros animais, temos a capacidade de imaginar.
Enquanto o doguinho que adormece ao seu lado no sofá só tem acesso à realidade que a vida lhe impôs, você pode ir muito além dela.
Você pode estar aí na sua casa, afagando seu pet e, ao mesmo tempo, estar beijando seu namorado na casa dele — no plano da imaginação.
A capacidade de imaginar nos liberta dos limites da realidade factual.
Ela nos permite criar cenários virtuais que eventualmente podem até se converter em reais.
Foi o que aconteceu com muitas invenções tecnológicas.
O problema é que a imaginação também pode ser fonte de muito sofrimento.
Pense, por exemplo, numa pessoa ansiosa que não consegue dormir justamente por ficar imaginando catástrofes que podem lhe acontecer.
Mas quero me deter em outra situação muito comum na qual a imaginação mais atrapalha do que ajuda:
É quando ela se coloca a serviço da idealização.
Veja esse exemplo:
Frustrada com certos comportamentos de Alberto, Bianca fica imaginando quão melhor seria sua vida se o marido fosse diferente.
Influenciada por conteúdos de Instagram, ela vai pouco a pouco construindo em sua imaginação o homem que Alberto deveria ser.
Sim, porque os influenciadores que Bianca segue a fazem acreditar que o marido ideal não deve ficar só no plano da imaginação.
Ele precisa existir.
Então, Bianca começa a achar que está vivendo errado e entra em desespero.
Afinal, dia após dia, ela percebe que o Alberto real jamais se transformará no Alberto ideal que imaginou.
Moral da história:
Quando você usa a imaginação para criar uma versão “corrigida” da realidade, na esperança de acabar definitivamente com suas frustrações…
… o resultado costuma ser o oposto: você fica ainda mais frustrado.
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A projeção é um dos mecanismos de defesa que nós mais utilizamos no cotidiano.
Ela acontece quando você atribui a outra pessoa intenções, sentimentos, atitudes que, na verdade, estão presentes em você mesmo.
Por que isso ocorre?
Porque você tem medo de reconhecer que possui as mesmas intenções, sentimentos e atitudes que está projetando no outro.
E por que você tem medo?
Porque aquelas intenções, sentimentos, atitudes entram em choque com a imagem que você quer ter de si mesmo.
Exemplo típico de projeção:
Recentemente, Débora e Adriana, duas amigas, participaram de um concurso público. Porém, somente Débora foi aprovada.
Por conta disso, se formou no psiquismo de Adriana um sentimento de inveja em relação à amiga.
“Deveria ter acontecido o inverso: eu aprovada e Débora a ver navios. Eu estudei muito mais do que ela”, pensou Adriana — inconscientemente.
— Por que “inconscientemente”, Lucas?
Porque o superego de Adriana não permitiu que tal pensamento chegasse a sua consciência. Tampouco, o sentimento de inveja.
Ela sentiu apenas uma ansiedade, uma irritação, um mal-estar.
É compreensível: quando criança, a moça ouvia a mãe dizer que “inveja é o sentimento mais nojento do mundo, coisa de gente baixa, mesquinha”.
Assim, Adriana cresceu achando que, para ser uma pessoa boa, adequada, ajustada, ela não poderia jamais sentir inveja.
Ao impedir o acesso do pensamento e do sentimento de inveja à consciência, o superego da jovem a ajuda a se manter nesse autoengano.
O problema é que a inveja não fica lá quietinha, no inconsciente. Ela quer se manifestar, ainda que de maneira distorcida e indireta.
É aí que entra a projeção.
Depois que o resultado do concurso saiu, Adriana começou a achar que Débora estava se afastando dela.
Qualquer recusa a um convite era interpretada por Adriana como evidência de que Débora não queria mais sua amizade.
“Só pode ser por inveja!”: foi o pensamento que veio à mente de Adriana.
“A Débora deve estar morrendo de inveja pelo fato de eu estar noiva e ela não ter sequer um ficante. É por isso que ela quer ficar longe de mim!”
Na realidade, Débora não havia mudado em absolutamente nada seu comportamento em relação à amiga.
Mas Adriana precisou distorcer sua percepção da realidade para poder atribuir a Débora a inveja que ela própria não podia reconhecer em si.
É assim que acontece quando usamos a projeção:
Só conseguimos enxergar a capivara que negamos em nós se ela aparecer do lado de fora, em outra pessoa.
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A gente nasce com uma vontade louca de viver, como todos os outros animais.
Porém, diferentemente deles, não trazemos de fábrica nenhuma receita de como usar essa vontade.
Por isso, dependemos fundamentalmente do Outro.
E as primeiras pessoas que ocupam esse lugar nas nossas vidas são os pais.
São eles que nos fornecem as primeiras receitas de como lidar com nossa vontade louca de viver.
A gente pode categorizar essas receitas em dois grandes tipos: as repressoras e as balizadoras.
As repressoras são aquelas cujo princípio básico é:
“Contenha sua vontade de viver! Ela é perigosa, explosiva! Então, busque canalizá-la para objetivos nobres, pois, assim, você irá neutralizar o potencial destrutivo que ela tem.”
Já o princípio que fundamenta as receitas balizadoras é diferente:
“Abrace sua vontade de viver! Ela é potente, estimulante! Você só precisa tomar cuidado para não deixá-la transbordar e acabar, sem querer, fazendo mal para si mesmo ou para os outros.”
Pais que trabalham com receitas repressoras entendem os limites basicamente como barreiras, interdições.
Eles olham para o desejo de um filho de ficar mais tempo brincando na rua como a expressão de um “hedonismo” natural que precisa ser coibido:
— Vem pra casa agora! Amanhã você tem aula. Jogar bola na rua não vai te levar a lugar nenhum. Você tinha que estar preocupado é com os estudos.
Já os pais que oferecem receitas balizadoras encaram os limites como referências, parâmetros.
Com eles, a criança aprenderá que seu desejo de ficar mais tempo na rua não é errado; só não é prudente satisfazê-lo naquele momento:
— Eu entendo que você queira continuar brincando. Quando eu tinha sua idade, também não queria parar. Mas é que amanhã tem aula. E se você não for tomar banho agora, vai acabar dormindo muito tarde, o que não vai te fazer bem.
A diferença é gritante, né?
As receitas repressoras são baseadas no medo.
Pais que as adotam tratam a vontade de viver como se ela fosse naturalmente inclinada para “o mal”.
Os limites, pensados como barreiras, seriam uma forma de neutralizar essa tendência.
Já as receitas balizadoras são baseadas na confiança.
Pais que as adotam não julgam moralmente a vontade de viver. Para eles, ela é o que é: uma vontade-de-viver.
Nesse sentido, a criança não precisa ser encaixada no “caminho certo”; ela só precisa de algumas balizas, para não se machucar e nem machucar os outros, ao longo de seu próprio caminho.
Agora, me diga nos comentários, a receita que você recebeu dos seus pais foi de que tipo: repressora ou balizadora?
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