Trecho da aula “ESTUDOS DE CASOS 25 – Quando o falso self cai e abre espaço para o desejo”, publicada ontem na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.
Pare de estudar Psicanálise de forma solta. Na Confraria Analítica, você encontra aulas semanais, seminários teóricos, estudos de casos e um acervo completo para aprofundar sua formação. Seja meu aluno!
O avanço tecnológico nos permite, hoje, substituir partes ausentes ou danificadas de nossos corpos por artefatos ou dispositivos artificiais.
Chamamos essas coisas de próteses.
Se você quebra um dente, por exemplo, e precisa extraí-lo, pode fazer um implante e colocar uma prótese dentária no lugar.
Se você sofre um grave acidente e perde uma das pernas, é possível substituir o membro por uma perna ortopédica.
Mas você já parou para pensar que existem também próteses emocionais?
Diferentemente das físicas, elas não são objetos artificiais. São… pessoas.
Sim, porque nenhum artefato é capaz de realizar a função de uma prótese emocional: suprir, na vida do sujeito, a ausência ou insuficiência de uma determinada atitude ou habilidade. Só pessoas podem fazer isso.
Eu vou te dar um exemplo:
Breno sempre teve muita dificuldade para lidar com conflitos. Ele tem uma preocupação excessiva em ser visto como chato, desagradável e, por isso, costuma evitar ao máximo bater de frente com as pessoas, mesmo quando tem razão e suas reivindicações são legítimas.
Ele não se comporta assim por acaso. Na infância, essa inibição era extremamente útil para o rapaz. Entrar em conflito com sua mãe era objetivamente arriscado, pois a genitora era bastante agressiva, severa e não admitia qualquer tipo de contestação.
Como normalmente acontece, Breno transferiu o padrão da experiência com a mãe para outras relações e, assim, evita bater de frente com toda e qualquer pessoa.
O problema é que suportar e lidar com conflitos é uma habilidade importantíssima na vida adulta — tão importante quanto uma perna.
Sabendo (inconscientemente) disso, o que Breno acabou fazendo sem perceber?
Ele se casou com uma mulher que não tem problema algum em lidar com conflitos. Pelo contrário! Ágata, sua esposa, é do tipo que parece até gostar de uma boa briga.
Se o casal vai a um restaurante e o pedido vem errado, Ágata não deixa pra lá — como Breno costuma fazer. Ela se recusa firmemente a aceitar o prato e, ao sair, pode até se queixar com o gerente do estabelecimento.
Para Breno, tais posturas são impensáveis. Assim que um conflito se estabelece, a sombra ameaçadora da mãe emerge em seu inconsciente.
Por isso, se não fosse a presença da esposa, ele provavelmente aceitaria o prato errado só para não ter que vivenciar um pequeno embate com o garçom.
Ágata funciona para Breno como uma prótese emocional: ela encarna uma competência que o marido não conseguiu desenvolver.
Eu disse anteriormente que as próteses emocionais se diferenciam das físicas por serem pessoas e não artefatos. Mas há outra diferença muito importante:
Enquanto as próteses físicas substituem partes do corpo que não podem ser regeneradas, as próteses emocionais suprem atitudes, habilidades, competências que podem ser desenvolvidas.
Breno pode perfeitamente adquirir a capacidade de ser assertivo e suportar conflitos por meio de uma análise que o ajude a elaborar a relação traumática com a mãe.
De todo modo, é importante sabermos disso: muitas vezes, um dos elementos que fazem com que duas pessoas permaneçam juntas — para além de amor, desejo, companheirismo etc. — é a função de prótese emocional que um exerce para o outro.
E essa dinâmica pode ser recíproca: de repente, a postura excessivamente conciliadora e passiva de Breno também possa preencher uma falta na personalidade de Ágata.
Talvez Ágata compre mais brigas do que o necessário e se desgaste emocionalmente em excesso por não ter desenvolvido justamente a capacidade de “deixar pra lá” — que Breno tem de sobra…
E você: será que tem usado alguém como prótese emocional ou será que você é a prótese de alguém?
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Este é um trecho da aula “Quando o analista erra para poder acertar”, publicada ontem na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.
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É importante começar esta reflexão esclarecendo que, ao usar a palavra “erro”, não estou adotando uma perspectiva moral. Ou seja, erro aqui não significa um comportamento que desvia de uma determinada norma de conduta.
Estou chamando de erro qualquer ação que é de responsabilidade nossa, mas que nos faz sofrer e que gostaríamos de não mais praticar.
Por exemplo: continuar mantendo contato com uma pessoa de quem você não gosta, comer em excesso, ter um “flashback” com o ex-namorado, perder a cabeça numa discussão etc.
Quem faz essas coisas sabe que elas provocam sofrimento, se arrepende, mas não consegue deixar de fazê-las. Após algum tempo, está lá a pessoa de novo repetindo o que ela mesma considera um erro.
Isso acontece com muita gente — para não dizer com todo o mundo.
Mas por que acontece?
Por que persistir no erro é tão humano?
As razões podem ser as mais variadas:
Você pode ter um medo infantil de ser retaliado se não mantiver contato com a pessoa de quem não gosta.
Pode comer em excesso porque a comida se tornou uma das poucas fontes de prazer na sua vida que, de modo geral, é um tanto insossa.
Você pode ter flashbacks com o ex porque deslocou para ele a esperança infantil de ser amada pelo seu pai.
Pode perder a cabeça com frequência porque tem uma autoimagem frágil demais para suportar qualquer manifestação de desrespeito.
Tudo isso parece muito clichê, eu sei, mas a vida é assim mesmo, meus amigos. A clínica o comprova todo santo dia.
Mas vamos voltar ao assunto.
Todas essas razões hipotéticas que eu formulei mostram que a repetição dos mesmos erros não acontece por acaso nem em função de uma suposto impulso autodestrutivo.
Ela acontece porque, a despeito do sofrimento, os erros proporcionam GANHOS para o sujeito: evitar o medo imaginário de ser retaliado, sentir prazer, renovar uma expectativa infantil, proteger uma autoimagem frágil.
Isso mostra que o erro é, ao mesmo tempo, um acerto.
É um erro do ponto de vista do seu bem-estar consciente. Mas é um acerto do ponto de vista de outra dimensão sua que não busca o bem-estar. Busca segurança, prazer, amor, respeito — ainda que essas coisas venham acompanhadas de sofrimento.
Na Psicanálise, nós ajudamos o paciente a reconhecer justamente isso: os ganhos que ele obtém ao persistir nos erros que o fazem sofrer.
Mas esse é só um primeiro passo.
Para parar de persistir no erro, o sujeito precisa se tornar capaz de não precisar mais dos ganhos.
O sujeito que mantém contato com a pessoa de quem não gosta precisa elaborar sua fantasia de retaliação a fim de dissolvê-la.
A pessoa que come em excesso precisa entender o que a levou a um modo de vida tão insosso a fim de se libertar para novas fontes de prazer.
A moça que volta e meia tem um flashback com o ex precisa elaborar sua relação com o pai a fim de poder finalmente renunciar ao amor dele.
O cara que perde a cabeça com frequência precisa fortalecer sua autoimagem para não se sentir tão facilmente ameaçado.
Enfim, é preciso tornar os erros desnecessários. Só assim é possível parar de persistir neles.
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Tem muita gente que, sem perceber, encara seus problemas emocionais como infecções — e isso atrapalha muito o tratamento.
— Como assim “infecções”, Lucas?
Eu quero dizer que a pessoa olha para o seu excesso de ansiedade, por exemplo, como algo que simplesmente apareceu em seu vida e que não tem nada a ver com sua história, suas relações, seus conflitos internos etc.
Não é dessa forma que a gente costuma encarar uma gripe ou uma pneumonia?
E por que nós pensamos que essas doenças não têm nada a ver com nossa subjetividade?
Porque sabemos que, no fim das contas, elas decorrem de uma… infecção, ou seja, da ação de determinados microrganismos em nosso corpo.
É claro que fatores emocionais podem afetar a imunidade, mas o fato é que tais doenças não se desenvolvem sem a ação desses patógenos.
Problemas emocionais são fenômenos essencialmente diferentes.
Embora muitos deles uma forte base neurobiológica, eles não são causados por agentes que invadem nosso psiquismo.
Eles se desenvolvem em nós. E se desenvolvem articulados a uma história, a um conjunto de relações e muitos acabam exercendo uma função muito importante na nossa vida.
De fato, frequentemente nossos sintomas funcionam como soluções que nós inconscientemente encontramos para lidar com angústias insuportáveis.
Quando você olha para sua depressão, seu transtorno de ansiedade ou sua compulsão como uma infecção, você tende a pensar que a mudança é um processo que vai acontecer exclusivamente de fora para dentro (como tomar um antibiótico).
É óbvio que, eventualmente, a medicação pode ser um componente fundamental no tratamento de problemas emocionais.
Porém, se o sintoma estiver funcionando como uma solução psíquica, o tratamento exigirá uma abordagem mais complexa do que somente a prescrição de remédios.
O paciente precisa descobrir quais são suas angústias insuportáveis e ampliar sua capacidade de reconhecer, suportar e elaborar essas angústias para conseguir enfrentá-las sem precisar recorrer ao sintoma.
E é exatamente isso o que acontece numa boa psicoterapia, especialmente na Psicanálise.
Em alguns casos, são justamente os medicamentos que permitem que o paciente possa suportar esse processo. Mas atravessá-lo é indispensável.
E a gente só consegue entender isso se não olhamos para nossos problemas emocionais como infecções…
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Este é um trecho da aula “Peter Fonagy: a relação entre apego e mentalização”, que já está disponível na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.
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Você pode ter aprendido quando criança que a agressividade é essencialmente ruim ou perigosa.
E isso pode ter acontecido por uma série de fatores.
Por exemplo: você pode ter tido um pai ou uma mãe que eram excessivamente agressivos e lhe faziam sentir medo.
Ou pode ter sofrido severas ameaças e punições nas poucas vezes em que expressou agressividade.
Situações como essas podem te levar a olhar para a própria agressividade como algo que não deve fazer parte da sua vida.
O problema é que não dá para viver sem agressividade.
Por isso, já que você tem medo de se apropriar dela, ela acabará vazando em sua vida — de uma forma ou de outra.
Uma forma muito comum de “vazamento” é o que Freud chamou de “reversão”: em vez de usar a agressividade, você, inconscientemente, convoca outra pessoa para usá-la com você.
Essa “convocação” pode acontecer por meio da escolha de uma pessoa excessivamente agressiva para se relacionar ou da indução de agressividade em alguém que nem é naturalmente muito agressivo.
Dessa forma, a agressividade se presentifica na sua vida só de que maneira invertida: não é você que a manifesta; é o outro que a manifesta no seu lugar.
— Nossa, Lucas, isso parece masoquismo, não?
Sim. E não é por acaso. Deixa eu te explicar.
Na cabeça do sujeito que foi levado a ver a agressividade com maus olhos, ela passou a ser sinônimo de sadismo, ou seja, de um impulso que busca intencionalmente a destruição ou o sofrimento do outro.
Por isso, quando a agressividade vaza por meio da reversão, o sujeito não busca alguém que a vive de forma integrada e saudável. Não. Ele busca um… sádico! (Ou induz seu parceiro a agir de forma sádica).
Consequentemente, a posição que o sujeito passa a ocupar é uma posição… masoquista.
Esse é um fenômeno muito comum em relações tóxicas e ajuda a entender porque algumas pessoas não conseguem sair dessas relações.
Às vezes, quem olha de fora até chega a pensar:
“Caramba! Essa mulher parece que gosta de sofrer! Olha como o marido a trata mal…”
Não é que a pessoa gosta de sofrer no sentido de que ela obtém prazer em ser xingada e humilhada por seu marido.
É que, talvez, essa seja a única forma que ela encontrou de permitir a presença da agressividade em sua vida: sendo objeto do sadismo alheio…
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Este é um trecho da aula “LENDO KLEIN 12 – Duas formas doentias de lidar com a culpa”, que já está disponível na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.
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