
Um mestre judeu do primeiro século costumava orientar seus alunos a não atirarem pérolas a porcos porque estes, em vez de admirá-las, as pisariam.
Evidentemente, o sábio estava falando em sentido figurado — até porque a maioria dos seus alunos não tinha dinheiro para comprar uma pérola sequer.
Portanto, naquele contexto, a joia estava sendo utilizada como metáfora de algo muito valioso.
O conselho do mestre tinha por objetivo mostrar que algo que os alunos consideravam muito valioso poderia ser completamente desprezado por gente incapaz de reconhecer seu valor (os porcos).
Por isso, eles deveriam escolher com muito cuidado as pessoas com as quais compartilhariam suas “pérolas”.
Esta é, de fato, uma sábia advertência.
De vez em quando eu ouço pacientes dizendo que tentam conversar com familiares ou cônjuges em momentos de angústia e acabam saindo da conversa num estado emocional pior ainda.
Isso acontece porque, na maioria das vezes, o interlocutor em questão fica querendo enfiar conselhos simplórios goela abaixo do paciente ou diz que a pessoa não tem motivos para se sentir daquela forma, que é só ela pensar de outro jeito.
Ou seja, o interlocutor, em vez de acolher a expressão de angústia do paciente e tentar ajudá-lo de forma empática e sensível, faz com que o sujeito se sinta errado.
Nesses casos, o familiar ou cônjuge faz isso por ser uma pessoa má e insensível?
Provavelmente, não. Eles geralmente adotam essa postura invalidadora porque não estão preparados para lidar com aquela angústia.
Muitos, inclusive, se sentem, eles mesmos, angustiados nessa situação e acabam soltando conselhos simplórios justamente para se aliviarem.
Em outras palavras, para as pérolas de angústia que o paciente está compartilhando, eles são… porcos.
Eu sei que o ideal seria a gente ter familiares e cônjuges que soubessem acolher nossas angústias, mas, infelizmente, isso nem sempre acontece.
Você pode estar até satisfeita com seu casamento, por exemplo, mas ter um marido com quem não pode contar para desabafar e falar sobre suas questões emocionais. Com efeito, se fizer isso, ele logo começará a te dar sermão, em vez de simplesmente te ouvir.
Neste sentido, talvez seja melhor obedecer ao conselho do mestre judeu e deixar para compartilhar suas pérolas de angústia apenas com quem saberá dar a elas o devido valor.
Pode ser uma amiga, outro familiar ou, quem sabe, um bom analista.
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