Pare de estudar Psicanálise de forma solta. Na Confraria Analítica, você encontra aulas semanais, seminários teóricos, estudos de casos e um acervo completo para aprofundar sua formação. Seja meu aluno!
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Todos nós temos necessidades emocionais que precisam ser atendidas na infância para que conquistemos funções psíquicas fundamentais.
Sim, estou falando de necessidades mesmo, não de desejos ou impulsos. Necessidades.
Trata-se de coisas que são tão indispensáveis para a saúde psíquica básica quanto a alimentação é indispensável para a sobrevivência.
Você me verá utilizar o termo “suficientemente” diversas vezes, inspirado em Winnicott, para deixar claro que essas necessidades não precisam (e nem podem) ser satisfeitas de modo perfeito. Elas só devem ser suficientemente bem atendidas.
É possível identificar as necessidades emocionais atendendo pacientes que não tiveram algumas delas suficientementebem atendidas.
Com efeito, parte do sofrimento dessas pessoas se deve justamente ao fato de não terem desenvolvido suficientemente bem as funções psíquicas que dependem das necessidades emocionais.
— Lucas, tá muito abstrato. Me dá um exemplo!
Claro! Vamos lá:
Todos nós temos a necessidade delimite. Essa talvez não seja a melhor forma de nomear essa necessidade e talvez um dia eu escreva um texto mais acadêmico e invente um nome pomposo para ela.
Mas a ideia é muito simples: nós não nascemos com a capacidade inata de frear nossos impulsos e regular nosso próprio comportamento. A gente aprende a fazer isso internalizando um movimento de limitação e restrição que, inicialmente, é feito pelos adultos que cuidam de nós.
Ou seja, para que eu desenvolva suficientementebem essa capacidade de autocontrole ou autorregulação (como a gente diz hoje em dia), eu preciso que minha necessidade emocional de limite tenha sido suficientementebem atendida. Só assim o processo de internalização será suficientementebem sucedido.
Outro exemplo: a necessidade de reconhecimento.
Tem gente que passa a vida inteira ansiando por aplausos e pelo olhar de admiração de outras pessoas porque não desenvolveu suficientemente bem a capacidade de se admirar e reconhecer o próprio valor.
Ora, você concorda comigo que essa é uma função indispensável para a saúde psíquica?
Mas por que essas pessoas não conseguiram desenvolvê-la suficientemente bem?
Justamente por que sua necessidade de reconhecimento não foi suficientemente bem atendida na infância.
Para usar uma expressão que Freud consagra no texto sobre o narcisismo, são pessoas que, infelizmente, não foram tratadas como “sua majestade o bebê”.
Elas podem até ter sido bem alimentadas, bem cuidadas, mas não foram suficientemente reconhecidas e admiradas — como toda criança precisa ser.
A insuficiência de certas funções psíquicas fundamentais leva o sujeito a buscar compensações para tentar suprir aquilo de que foi privado na infância.
Como eu disse, a dificuldade de se aplaudir internamente e se valorizar pode levar a pessoa a buscar com uma avidez doentia o reconhecimento do outro e a se sentir extremamente angustiada quando não consegue isso.
Eu acredito que muitos influenciadores e famosos em geral provavelmente sofrem desse problema.
Da mesma forma, a dificuldade de se regular ocasionada pelo não atendimento da necessidade de limite na infância pode levar o sujeito a se tornar excessivamente contido, retraído, reprimido, pois ele suspeita (com razão) que terá dificuldades para se controlar se porventura relaxar.
Agora me diga você. Depois de ler este texto e pensar sobre sua história, você acha que alguma necessidade emocional não foi suficientemente bem atendida? Conta aqui nos comentários.
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Tem muita coisa que a gente descobre fazendo análise.
E descobre no sentido mais literal da palavra: são coisas que estavam encobertas e a gente as des-cobre.
Descobrimos desejos, medos, fantasias e também… ideais.
Isso mesmo: fazendo análise a gente descobre imagens idealizadas que queremos encarnar.
A mulher abnegada, sem vaidade, completamente desinteressada, que está sempre se sacrificando pelos outros.
O homem 100% firme, seguro, dominante, pegador.
São apenas dois exemplos comuns. Nossos ideais podem ser os mais variados.
Há quem possua o ideal de ser uma pessoa absolutamente independente, que não precisa da ajuda de ninguém.
Fazendo análise, a gente não só descobre a existência dos ideais, mas também percebe o quanto influenciaram e continuam influenciando nossas vidas.
O ideal da mulher abnegada pode fazer você se sentir culpada por usufruir de benefícios que outros pessoas não têm.
Mais do que isso: pode fazer você se sabotar e evitar esses benefícios para não sentir a dor da culpa.
O ideal do homem pegador pode fazer você destruir um relacionamento de muitos anos por achar que ficar com uma única mulher é ser menos homem.
Mais do que isso: pode fazer com que você sequer consiga permanecer em um relacionamento por mais do que alguns meses.
Como se formam esses ideais?
Eles são respostas.
Respostas que nós construímos para uma pergunta que nossa condição humana nos obriga a fazer desde o início da vida:
Que pessoa eu devo ser?
Questão incômoda para a qual construímos respostas com a ajuda de nossos pais, da sociedade e da cultura, já que a natureza não nos presenteou com respostas inatas.
Por um lado isso é bom porque não somos obrigados a nos conformar a um destino genético que não poderíamos mudar.
Por outro, essa “liberdade” nos torna vulneráveis a construir ideais que podem ser fonte de muito sofrimento — como os exemplos que eu citei.
A boa notícia é que, fazendo análise, a gente não só descobre os ideais e percebe a força deles, mas também adquire a capacidade de criticá-los, contestá-los e, eventualmente… abandoná-los.
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Eu começo a reflexão de hoje sem saber exatamente onde ela vai desembocar. Só sei o seu ponto de partida: a expressão popular “deixar a desejar”.
Provavelmente você já a utilizou diversas vezes. Talvez, após a estreia do Brasil na Copa, muitas pessoas tenham pensado:
“É, hoje a Seleção deixou a desejar.”
Não sei se você já parou para pensar nisso, mas essa é uma expressão meio paradoxal. Ela é utilizada para expressar uma lamentação, mas, ao mesmo tempo, contém um elemento que nós geralmente consideramos positivo: o desejo.
Afinal, a gente gosta de desejar — e de ser desejado, claro.
Então, por que não vemos com bons olhos alguém ou algo que “deixa a desejar”?
A resposta talvez esteja no reconhecimento de duas modalidades de desejo: um que se dá em face da limitação e outro que é efeito da frustração.
No primeiro caso, a gente deseja porque o contato com o objeto é tão prazeroso que nos faz querer continuar em contato com ele. Porém, em função de alguma limitação física ou temporal, esse contato precisa ser interrompido.
É o que acontece quando você passa horas com uma pessoa e lamenta ter que se despedir dela ou quando come um prato delicioso e sofre ao dar a última garfada.
Nessas situações, não dizemos que a pessoa ou a comida “deixaram a desejar”. Em vez disso, é mais provável dizermos que elas deixaram um “gostinho de quero mais”.
Esse “gostinho” é um sentimento paradoxal, uma mistura de prazer e dor. Estamos sofrendo pela perda do contato com o objeto, mas, ao mesmo tempo, felizes pelo tempo que passamos com ele e desejando revê-lo.
Por outro lado, no “deixar a desejar”, parece haver só sofrimento. E isso decorre do que vem antes: a expectativa que acompanha o contato com o objeto.
Se achamos que a Seleção deixou a desejar na estreia da Copa é porque não queríamos apenas ver o Brasil jogar. Queríamos a vitória.
Nesse caso, o desejo resultante não está voltado para o futuro, não é o de rever a Seleção. É o desejo pelo que não aconteceu, pelo que não existiu.
A distinção entre essas duas modalidades de desejo me leva a pensar que, talvez, dois dos ingredientes de uma vida boa (no sentido filosófico do termo) sejam:
A busca consciente por experiências que proporcionem “gostinho de quero mais” e um esforço também deliberado de evitar a sensação de que algo ou alguém nos “deixou a desejar”.
O primeiro depende de um refinamento da capacidade de reconhecer do que verdadeiramente gostamos. Já o segundo passa por evitarmos nutrir expectativas em excesso.
Agora me diga: como tem sido sua vida?
Ela tem mais momentos que deixam gostinho de quero mais ou mais coisas que deixam a desejar?
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