Errar é humano. Persistir no erro… é mais humano ainda.

É importante começar esta reflexão esclarecendo que, ao usar a palavra “erro”, não estou adotando uma perspectiva moral. Ou seja, erro aqui não significa um comportamento que desvia de uma determinada norma de conduta.

Estou chamando de erro qualquer ação que é de responsabilidade nossa, mas que nos faz sofrer e que gostaríamos de não mais praticar.

Por exemplo: continuar mantendo contato com uma pessoa de quem você não gosta, comer em excesso, ter um “flashback” com o ex-namorado, perder a cabeça numa discussão etc.

Quem faz essas coisas sabe que elas provocam sofrimento, se arrepende, mas não consegue deixar de fazê-las. Após algum tempo, está lá a pessoa de novo repetindo o que ela mesma considera um erro.

Isso acontece com muita gente — para não dizer com todo o mundo.

Mas por que acontece?

Por que persistir no erro é tão humano?

As razões podem ser as mais variadas:

Você pode ter um medo infantil de ser retaliado se não mantiver contato com a pessoa de quem não gosta.

Pode comer em excesso porque a comida se tornou uma das poucas fontes de prazer na sua vida que, de modo geral, é um tanto insossa.

Você pode ter flashbacks com o ex porque deslocou para ele a esperança infantil de ser amada pelo seu pai.

Pode perder a cabeça com frequência porque tem uma autoimagem frágil demais para suportar qualquer manifestação de desrespeito.

Tudo isso parece muito clichê, eu sei, mas a vida é assim mesmo, meus amigos. A clínica o comprova todo santo dia.

Mas vamos voltar ao assunto.

Todas essas razões hipotéticas que eu formulei mostram que a repetição dos mesmos erros não acontece por acaso nem em função de uma suposto impulso autodestrutivo.

Ela acontece porque, a despeito do sofrimento, os erros proporcionam GANHOS para o sujeito: evitar o medo imaginário de ser retaliado, sentir prazer, renovar uma expectativa infantil, proteger uma autoimagem frágil.

Isso mostra que o erro é, ao mesmo tempo, um acerto.

É um erro do ponto de vista do seu bem-estar consciente. Mas é um acerto do ponto de vista de outra dimensão sua que não busca o bem-estar. Busca segurança, prazer, amor, respeito — ainda que essas coisas venham acompanhadas de sofrimento.

Na Psicanálise, nós ajudamos o paciente a reconhecer justamente isso: os ganhos que ele obtém ao persistir nos erros que o fazem sofrer.

Mas esse é só um primeiro passo.

Para parar de persistir no erro, o sujeito precisa se tornar capaz de não precisar mais dos ganhos.

O sujeito que mantém contato com a pessoa de quem não gosta precisa elaborar sua fantasia de retaliação a fim de dissolvê-la.

A pessoa que come em excesso precisa entender o que a levou a um modo de vida tão insosso a fim de se libertar para novas fontes de prazer.

A moça que volta e meia tem um flashback com o ex precisa elaborar sua relação com o pai a fim de poder finalmente renunciar ao amor dele.

O cara que perde a cabeça com frequência precisa fortalecer sua autoimagem para não se sentir tão facilmente ameaçado.

Enfim, é preciso tornar os erros desnecessários. Só assim é possível parar de persistir neles.


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[Vídeo] Só remédio pode não ser suficiente


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[Vídeo] Formação reativa: entenda como funciona


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Seus problemas emocionais não são infecções.

Tem muita gente que, sem perceber, encara seus problemas emocionais como infecções — e isso atrapalha muito o tratamento.

— Como assim “infecções”, Lucas?

Eu quero dizer que a pessoa olha para o seu excesso de ansiedade, por exemplo, como algo que simplesmente apareceu em seu vida e que não tem nada a ver com sua história, suas relações, seus conflitos internos etc.

Não é dessa forma que a gente costuma encarar uma gripe ou uma pneumonia?

E por que nós pensamos que essas doenças não têm nada a ver com nossa subjetividade?

Porque sabemos que, no fim das contas, elas decorrem de uma… infecção, ou seja, da ação de determinados microrganismos em nosso corpo.

É claro que fatores emocionais podem afetar a imunidade, mas o fato é que tais doenças não se desenvolvem sem a ação desses patógenos.

Problemas emocionais são fenômenos essencialmente diferentes.

Embora muitos deles uma forte base neurobiológica, eles não são causados por agentes que invadem nosso psiquismo.

Eles se desenvolvem em nós. E se desenvolvem articulados a uma história, a um conjunto de relações e muitos acabam exercendo uma função muito importante na nossa vida.

De fato, frequentemente nossos sintomas funcionam como soluções que nós inconscientemente encontramos para lidar com angústias insuportáveis.

Quando você olha para sua depressão, seu transtorno de ansiedade ou sua compulsão como uma infecção, você tende a pensar que a mudança é um processo que vai acontecer exclusivamente de fora para dentro (como tomar um antibiótico).

É óbvio que, eventualmente, a medicação pode ser um componente fundamental no tratamento de problemas emocionais.

Porém, se o sintoma estiver funcionando como uma solução psíquica, o tratamento exigirá uma abordagem mais complexa do que somente a prescrição de remédios.

O paciente precisa descobrir quais são suas angústias insuportáveis e ampliar sua capacidade de reconhecer, suportar e elaborar essas angústias para conseguir enfrentá-las sem precisar recorrer ao sintoma.

E é exatamente isso o que acontece numa boa psicoterapia, especialmente na Psicanálise.

Em alguns casos, são justamente os medicamentos que permitem que o paciente possa suportar esse processo. Mas atravessá-lo é indispensável.

E a gente só consegue entender isso se não olhamos para nossos problemas emocionais como infecções…


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[Vídeo] Você é um masoquista inconsciente?


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[Vídeo] “Pérolas a porcos”: interpretação psicológica


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[Vídeo] Pacientes com baixa mentalização

Este é um trecho da aula “Peter Fonagy: a relação entre apego e mentalização”, que já está disponível na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

Link para se tornar membro da Confraria: https://www.confrariaanalitica.com/


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Você se oferece como objeto para a agressividade do outro?

Você pode ter aprendido quando criança que a agressividade é essencialmente ruim ou perigosa.

E isso pode ter acontecido por uma série de fatores.

Por exemplo: você pode ter tido um pai ou uma mãe que eram excessivamente agressivos e lhe faziam sentir medo.

Ou pode ter sofrido severas ameaças e punições nas poucas vezes em que expressou agressividade.

Situações como essas podem te levar a olhar para a própria agressividade como algo que não deve fazer parte da sua vida.

O problema é que não dá para viver sem agressividade.

Por isso, já que você tem medo de se apropriar dela, ela acabará vazando em sua vida — de uma forma ou de outra.

Uma forma muito comum de “vazamento” é o que Freud chamou de “reversão”: em vez de usar a agressividade, você, inconscientemente, convoca outra pessoa para usá-la com você.

Essa “convocação” pode acontecer por meio da escolha de uma pessoa excessivamente agressiva para se relacionar ou da indução de agressividade em alguém que nem é naturalmente muito agressivo.

Dessa forma, a agressividade se presentifica na sua vida só de que maneira invertida: não é você que a manifesta; é o outro que a manifesta no seu lugar.

— Nossa, Lucas, isso parece masoquismo, não?

Sim. E não é por acaso. Deixa eu te explicar.

Na cabeça do sujeito que foi levado a ver a agressividade com maus olhos, ela passou a ser sinônimo de sadismo, ou seja, de um impulso que busca intencionalmente a destruição ou o sofrimento do outro.

Por isso, quando a agressividade vaza por meio da reversão, o sujeito não busca alguém que a vive de forma integrada e saudável. Não. Ele busca um… sádico! (Ou induz seu parceiro a agir de forma sádica).

Consequentemente, a posição que o sujeito passa a ocupar é uma posição… masoquista.

Esse é um fenômeno muito comum em relações tóxicas e ajuda a entender porque algumas pessoas não conseguem sair dessas relações.

Às vezes, quem olha de fora até chega a pensar:

“Caramba! Essa mulher parece que gosta de sofrer! Olha como o marido a trata mal…”

Não é que a pessoa gosta de sofrer no sentido de que ela obtém prazer em ser xingada e humilhada por seu marido.

É que, talvez, essa seja a única forma que ela encontrou de permitir a presença da agressividade em sua vida: sendo objeto do sadismo alheio…


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[Vídeo] A homofobia como formação reativa


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[Vídeo] Necessidades emocionais: psicanalista explica


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[Vídeo] Defesa maníaca contra a culpa

Este é um trecho da aula “LENDO KLEIN 12 – Duas formas doentias de lidar com a culpa”, que já está disponível na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

Para assistir à aula completa, torne-se membro da Confraria.


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A homofobia como formação reativa

Se tem uma coisa que a gente ama na vida é nossa autoimagem.

Não, não estou falando da imagem que você vê no espelho. Dessa, você até pode não gostar muito. Estou me referindo à ideia que você faz de si mesmo, ou seja, da resposta que você daria para a pergunta “Como eu sou?”.

A gente tem um apego danado a essa ideia.

E não é por acaso: sem uma noção suficientemente coesa de como nós somos, ficaríamos perdidos, desorientados, angustiados.

Essa, inclusive, é justamente a experiência emocional vivenciada por pessoas que sofrem de problemas na estabilização da autoimagem.

No entanto, todos nós temos diversos aspectos que ficam de fora da composição da nossa autoimagem: desejos, pensamentos, crenças, sentimentos.

E por que ficam de fora?

Porque são elementos que nós consideramos incompatíveis com a autoimagem. Elementos que, se fossem incorporados a ela, comprometeriam sua estabilidade e demandariam uma reorganização.

Então, por amor à autoimagem, a gente finge que não vê esses aspectos incompatíveis e emprega defesas para evitar que eles fiquem nos perturbando e chamando a nossa atenção.

Uma dessas defesas é a formação reativa. Ela consiste em desenvolver uma atitude alinhada à autoimagem e oposta a um determinado elemento incompatível.

Exemplo clássico: um sujeito que se vê como heterossexual, mas possui desejos por pessoas do mesmo sexo.

A admissão desses desejos implicaria numa reorganização significativa da autoimagem dessa pessoa. Ela precisaria passar a se ver não mais como hetero, mas como bissexual.

Para muita gente, essa transformação não seria um problema, mas, para o sujeito do exemplo, sim. Por razões ligadas à história de vida dele, a ideia de ser hetero ocupa um lugar central em sua autoimagem.

Por isso, ele precisa se defender dos desejos homossexuais que possui e que insistem em chamar sua atenção.

Se ele utilizar a formação reativa, o resultado pode ser uma atitude homofóbica, ou seja, uma postura de aversão e repúdio à homossexualidade.

É como se, inconscientemente, o sujeito pensasse: “A prova de que sou 100% heterossexual e que, portanto, nenhum desejo por pessoas do mesmo sexo existe em mim, é que eu tenho aversão à homossexualidade e repudio o comportamento homossexual.”

Isso não significa que a formação reativa seja o único fator responsável pela homofobia ou que todo homofóbico se defenda de desejos homossexuais que não consegue reconhecer em si mesmo.

A moral da história é que o amor que a gente tem pela autoimagem nos leva a odiar os elementos que, apesar de estarem em nós, não cabem nela. E aí, no esforço para defender a autoimagem da invasão desses elementos incompatíveis, a gente pode acabar odiando o que está fora de nós, mas nos lembra que eles existem.

— Tem como mudar isso, Lucas?

Sim, existe um método que nos ajuda a reduzir esse apego excessivo que temos pela autoimagem e a perder o medo de reorganizá-la: chama-se… Psicanálise.


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[Vídeo] Você tem jogado suas pérolas a porcos?


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[Vídeo] Você virou refém de algum ideal?


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[Vídeo] Ernst Kris e o conceito de “mito pessoal”


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