
Tem muita gente que, sem perceber, encara seus problemas emocionais como infecções — e isso atrapalha muito o tratamento.
— Como assim “infecções”, Lucas?
Eu quero dizer que a pessoa olha para o seu excesso de ansiedade, por exemplo, como algo que simplesmente apareceu em seu vida e que não tem nada a ver com sua história, suas relações, seus conflitos internos etc.
Não é dessa forma que a gente costuma encarar uma gripe ou uma pneumonia?
E por que nós pensamos que essas doenças não têm nada a ver com nossa subjetividade?
Porque sabemos que, no fim das contas, elas decorrem de uma… infecção, ou seja, da ação de determinados microrganismos em nosso corpo.
É claro que fatores emocionais podem afetar a imunidade, mas o fato é que tais doenças não se desenvolvem sem a ação desses patógenos.
Problemas emocionais são fenômenos essencialmente diferentes.
Embora muitos deles uma forte base neurobiológica, eles não são causados por agentes que invadem nosso psiquismo.
Eles se desenvolvem em nós. E se desenvolvem articulados a uma história, a um conjunto de relações e muitos acabam exercendo uma função muito importante na nossa vida.
De fato, frequentemente nossos sintomas funcionam como soluções que nós inconscientemente encontramos para lidar com angústias insuportáveis.
Quando você olha para sua depressão, seu transtorno de ansiedade ou sua compulsão como uma infecção, você tende a pensar que a mudança é um processo que vai acontecer exclusivamente de fora para dentro (como tomar um antibiótico).
É óbvio que, eventualmente, a medicação pode ser um componente fundamental no tratamento de problemas emocionais.
Porém, se o sintoma estiver funcionando como uma solução psíquica, o tratamento exigirá uma abordagem mais complexa do que somente a prescrição de remédios.
O paciente precisa descobrir quais são suas angústias insuportáveis e ampliar sua capacidade de reconhecer, suportar e elaborar essas angústias para conseguir enfrentá-las sem precisar recorrer ao sintoma.
E é exatamente isso o que acontece numa boa psicoterapia, especialmente na Psicanálise.
Em alguns casos, são justamente os medicamentos que permitem que o paciente possa suportar esse processo. Mas atravessá-lo é indispensável.
E a gente só consegue entender isso se não olhamos para nossos problemas emocionais como infecções…
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