Pare de estudar Psicanálise de forma solta. Na Confraria Analítica, você encontra aulas semanais, seminários teóricos, estudos de casos e um acervo completo para aprofundar sua formação. Seja meu aluno!
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Eu começo a reflexão de hoje sem saber exatamente onde ela vai desembocar. Só sei o seu ponto de partida: a expressão popular “deixar a desejar”.
Provavelmente você já a utilizou diversas vezes. Talvez, após a estreia do Brasil na Copa, muitas pessoas tenham pensado:
“É, hoje a Seleção deixou a desejar.”
Não sei se você já parou para pensar nisso, mas essa é uma expressão meio paradoxal. Ela é utilizada para expressar uma lamentação, mas, ao mesmo tempo, contém um elemento que nós geralmente consideramos positivo: o desejo.
Afinal, a gente gosta de desejar — e de ser desejado, claro.
Então, por que não vemos com bons olhos alguém ou algo que “deixa a desejar”?
A resposta talvez esteja no reconhecimento de duas modalidades de desejo: um que se dá em face da limitação e outro que é efeito da frustração.
No primeiro caso, a gente deseja porque o contato com o objeto é tão prazeroso que nos faz querer continuar em contato com ele. Porém, em função de alguma limitação física ou temporal, esse contato precisa ser interrompido.
É o que acontece quando você passa horas com uma pessoa e lamenta ter que se despedir dela ou quando come um prato delicioso e sofre ao dar a última garfada.
Nessas situações, não dizemos que a pessoa ou a comida “deixaram a desejar”. Em vez disso, é mais provável dizermos que elas deixaram um “gostinho de quero mais”.
Esse “gostinho” é um sentimento paradoxal, uma mistura de prazer e dor. Estamos sofrendo pela perda do contato com o objeto, mas, ao mesmo tempo, felizes pelo tempo que passamos com ele e desejando revê-lo.
Por outro lado, no “deixar a desejar”, parece haver só sofrimento. E isso decorre do que vem antes: a expectativa que acompanha o contato com o objeto.
Se achamos que a Seleção deixou a desejar na estreia da Copa é porque não queríamos apenas ver o Brasil jogar. Queríamos a vitória.
Nesse caso, o desejo resultante não está voltado para o futuro, não é o de rever a Seleção. É o desejo pelo que não aconteceu, pelo que não existiu.
A distinção entre essas duas modalidades de desejo me leva a pensar que, talvez, dois dos ingredientes de uma vida boa (no sentido filosófico do termo) sejam:
A busca consciente por experiências que proporcionem “gostinho de quero mais” e um esforço também deliberado de evitar a sensação de que algo ou alguém nos “deixou a desejar”.
O primeiro depende de um refinamento da capacidade de reconhecer do que verdadeiramente gostamos. Já o segundo passa por evitarmos nutrir expectativas em excesso.
Agora me diga: como tem sido sua vida?
Ela tem mais momentos que deixam gostinho de quero mais ou mais coisas que deixam a desejar?
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Quando a gente está lidando com uma pessoa difícil, cujo modo de ser frequentemente nos perturba, é fundamental desenvolver a capacidade de aceitar que não iremos mudá-la e que, talvez, ela nunca mude.
Essa aceitação não significa “passar a mão na cabeça da pessoa” ou “passar pano” para o modo como ela se comporta.
Não significa dizer: “Tadinha, ela é assim por causa de X, Y, Z. A gente precisa tolerar. Ela não faz por mal.”
Também não significa bancar a Pollyana e apelar para o jogo do contente: “Vamos ver pelo lado bom. Pelo menos, ela tem tais e tais qualidades.”
Aceitar significa não tapar o sol com a peneira.
Significa ser capaz de dizer: “Essa pessoa é difícil mesmo, é complicado conviver com ela e provavelmente nunca vai mudar. Logo, se desejo continuar me relacionando com ela, precisarei me adaptar encontrando estratégias para tornar a convivência menos sofrida para mim mesmo.”
Por que é tão difícil viver esse pensamento?
Justamente por conta da segunda parte dele:
“Logo, se desejo continuar me relacionando com ela, precisarei me adaptar encontrando estratégias para tornar a convivência menos sofrida para mim mesmo.”
Ou seja, na hora em que eu decido aceitar que a pessoa é do jeito que é e não vai mudar, a “batata quente” da situação passa a estar nas minhas mãos.
Agora, sou eu que preciso decidir se quero ou não quero continuar me relacionando com ela e assumir as consequências.
Nesse sentido, a crença ilusória de que eu posso mudar a pessoa ou de que, em algum momento, ela vai espontaneamente mudar, me mantém na posição confortável de não precisar fazer nada.
“Eu não preciso me adaptar para sofrer menos porque um dia a pessoa vai mudar.”
“Eu não preciso romper relações com a pessoa porque uma hora ela vai mudar.”
Em outras palavras, a não aceitação da pessoa difícil é um álibi que a gente usa para não questionar o nosso próprio desejo de continuar vivendo com ela.
Na Psicanálise, quando estamos trabalhando com um paciente que se queixa de um pai, de uma mãe, de um cônjuge difícil, é muito importante ajudá-lo a perceber esse álibi e enfrentá-lo.
Nas entrelinhas, é como se a gente dissesse ao sujeito:
“Ok, seu pai, sua mãe ou seu cônjuge é assim. Você não tem controle sobre o jeito de ser dessa pessoa. Então, a batata quente está nas suas mãos: o que você deseja?”
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Participe da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.
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Muitos acidentes de carro acontecem porque alguns motoristas usam o celular enquanto dirigem, certo?
Mais ou menos.
Esses acidentes ocorrem fundamentalmente porque alguns motoristas acreditam que são capazes de fazer as duas coisas ao mesmo tempo: dirigir e mexer no telefone.
Ou seja, os acidentes acontecem por conta de um processo psíquico muito comum: a superestimação da própria capacidade.
O cara se ilude pensando: “Ah, tá tranquilo: não preciso estacionar o carro para responder essa mensagem. É rapidinho.”
Mas não são só motoristas imprudentes que caem nessa armadilha de superestimar a própria capacidade.
Talvez você, que jamais mexe no celular enquanto está dirigindo, esteja neste exato momento envolta na mesma ilusão.
De repente você tem se sentido frequentemente triste, desanimada, abatida. Vem comendo em excesso, tendo crises de choro do nada. Desperdiça horas e horas do seu dia vendo vídeos curtos em redes sociais…
Porém, todo fim de semana pensa:
“Se eu quiser, posso mudar esse jogo. Basta ter força de vontade. Segunda-feira vou voltar à academia e tudo vai mudar.”
Não, minha cara. Não vai.
Você está tão iludida quanto o cara que bateu no carro da frente por achar que conseguiria dirigir e mandar mensagem ao mesmo tempo.
E sabe por que você embarca facilmente nessa ilusão?
Por razões narcísicas: é doloroso reconhecer que a gente não tem tanto controle sobre nosso comportamento.
Pensar que você vai sair de um quadro depressivo simplesmente tomando a decisão de voltar para a academia na segunda-feira preserva a imagem idealizada que você tem de si mesma.
O problema é que sua saúde (física e psíquica) não está nem aí para sua autoimagem idealizada.
— Ah, Lucas, mas, então, o que eu deveria fazer?
Como se diz no futebol, você precisa confiar no processo…
Você e o cara que dirige mexendo no celular.
A orientação dos especialistas em trânsito é inequívoca: em hipótese alguma utilize o telefone enquanto está dirigindo. O Código de Trânsito Brasileiro considera infração gravíssima fazer isso.
Da mesma forma, a orientação dos especialistas em saúde mental (como eu, por exemplo) também é clara: se você está vivenciando sofrimento psíquico significativo, inicie um tratamento com um profissional.
Sim, um tra-ta-men-to. Não é ficar assistindo videozinho de influencer nem fazendo cursinho de coach.
Eu tô falando de fazer terapia e, eventualmente, com a devida avaliação médica, tomar remédio.
— Ah, Lucas, mas, fazendo isso, a mudança que eu estou buscando pode levar muito tempo!
Sim, não necessariamente será rápido.
Mas confie no processo.
Ele é muito mais confiável do que sua força de vontade — que aparece na segunda-feira e na terça já foi embora.
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