Sua vida tem mais “gostinho de quero mais” ou mais coisas que “deixam a desejar”?

Eu começo a reflexão de hoje sem saber exatamente onde ela vai desembocar. Só sei o seu ponto de partida: a expressão popular “deixar a desejar”.

Provavelmente você já a utilizou diversas vezes. Talvez, após a estreia do Brasil na Copa, muitas pessoas tenham pensado:

“É, hoje a Seleção deixou a desejar.”

Não sei se você já parou para pensar nisso, mas essa é uma expressão meio paradoxal. Ela é utilizada para expressar uma lamentação, mas, ao mesmo tempo, contém um elemento que nós geralmente consideramos positivo: o desejo.

Afinal, a gente gosta de desejar — e de ser desejado, claro.

Então, por que não vemos com bons olhos alguém ou algo que “deixa a desejar”?

A resposta talvez esteja no reconhecimento de duas modalidades de desejo: um que se dá em face da limitação e outro que é efeito da frustração.

No primeiro caso, a gente deseja porque o contato com o objeto é tão prazeroso que nos faz querer continuar em contato com ele. Porém, em função de alguma limitação física ou temporal, esse contato precisa ser interrompido.

É o que acontece quando você passa horas com uma pessoa e lamenta ter que se despedir dela ou quando come um prato delicioso e sofre ao dar a última garfada.

Nessas situações, não dizemos que a pessoa ou a comida “deixaram a desejar”. Em vez disso, é mais provável dizermos que elas deixaram um “gostinho de quero mais”.

Esse “gostinho” é um sentimento paradoxal, uma mistura de prazer e dor. Estamos sofrendo pela perda do contato com o objeto, mas, ao mesmo tempo, felizes pelo tempo que passamos com ele e desejando revê-lo.

Por outro lado, no “deixar a desejar”, parece haver só sofrimento. E isso decorre do que vem antes: a expectativa que acompanha o contato com o objeto.

Se achamos que a Seleção deixou a desejar na estreia da Copa é porque não queríamos apenas ver o Brasil jogar. Queríamos a vitória.

Nesse caso, o desejo resultante não está voltado para o futuro, não é o de rever a Seleção. É o desejo pelo que não aconteceu, pelo que não existiu.

A distinção entre essas duas modalidades de desejo me leva a pensar que, talvez, dois dos ingredientes de uma vida boa (no sentido filosófico do termo) sejam:

A busca consciente por experiências que proporcionem “gostinho de quero mais” e um esforço também deliberado de evitar a sensação de que algo ou alguém nos “deixou a desejar”.

O primeiro depende de um refinamento da capacidade de reconhecer do que verdadeiramente gostamos. Já o segundo passa por evitarmos nutrir expectativas em excesso.

Agora me diga: como tem sido sua vida?

Ela tem mais momentos que deixam gostinho de quero mais ou mais coisas que deixam a desejar?


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Você espera que o outro mude para não questionar o seu próprio desejo

Quando a gente está lidando com uma pessoa difícil, cujo modo de ser frequentemente nos perturba, é fundamental desenvolver a capacidade de aceitar que não iremos mudá-la e que, talvez, ela nunca mude.

Essa aceitação não significa “passar a mão na cabeça da pessoa” ou “passar pano” para o modo como ela se comporta.

Não significa dizer: “Tadinha, ela é assim por causa de X, Y, Z. A gente precisa tolerar. Ela não faz por mal.”

Também não significa bancar a Pollyana e apelar para o jogo do contente: “Vamos ver pelo lado bom. Pelo menos, ela tem tais e tais qualidades.”

Aceitar significa não tapar o sol com a peneira.

Significa ser capaz de dizer: “Essa pessoa é difícil mesmo, é complicado conviver com ela e provavelmente nunca vai mudar. Logo, se desejo continuar me relacionando com ela, precisarei me adaptar encontrando estratégias para tornar a convivência menos sofrida para mim mesmo.”

Por que é tão difícil viver esse pensamento?

Justamente por conta da segunda parte dele:

“Logo, se desejo continuar me relacionando com ela, precisarei me adaptar encontrando estratégias para tornar a convivência menos sofrida para mim mesmo.”

Ou seja, na hora em que eu decido aceitar que a pessoa é do jeito que é e não vai mudar, a “batata quente” da situação passa a estar nas minhas mãos.

Agora, sou eu que preciso decidir se quero ou não quero continuar me relacionando com ela e assumir as consequências.

Nesse sentido, a crença ilusória de que eu posso mudar a pessoa ou de que, em algum momento, ela vai espontaneamente mudar, me mantém na posição confortável de não precisar fazer nada.

“Eu não preciso me adaptar para sofrer menos porque um dia a pessoa vai mudar.”

“Eu não preciso romper relações com a pessoa porque uma hora ela vai mudar.”

Em outras palavras, a não aceitação da pessoa difícil é um álibi que a gente usa para não questionar o nosso próprio desejo de continuar vivendo com ela.

Na Psicanálise, quando estamos trabalhando com um paciente que se queixa de um pai, de uma mãe, de um cônjuge difícil, é muito importante ajudá-lo a perceber esse álibi e enfrentá-lo.

Nas entrelinhas, é como se a gente dissesse ao sujeito:

“Ok, seu pai, sua mãe ou seu cônjuge é assim. Você não tem controle sobre o jeito de ser dessa pessoa. Então, a batata quente está nas suas mãos: o que você deseja?”


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A gente superestima a força de vontade e subestima a força do processo

Muitos acidentes de carro acontecem porque alguns motoristas usam o celular enquanto dirigem, certo?

Mais ou menos.

Esses acidentes ocorrem fundamentalmente porque alguns motoristas acreditam que são capazes de fazer as duas coisas ao mesmo tempo: dirigir e mexer no telefone.

Ou seja, os acidentes acontecem por conta de um processo psíquico muito comum: a superestimação da própria capacidade.

O cara se ilude pensando: “Ah, tá tranquilo: não preciso estacionar o carro para responder essa mensagem. É rapidinho.”

Mas não são só motoristas imprudentes que caem nessa armadilha de superestimar a própria capacidade.

Talvez você, que jamais mexe no celular enquanto está dirigindo, esteja neste exato momento envolta na mesma ilusão.

De repente você tem se sentido frequentemente triste, desanimada, abatida. Vem comendo em excesso, tendo crises de choro do nada. Desperdiça horas e horas do seu dia vendo vídeos curtos em redes sociais…

Porém, todo fim de semana pensa:

“Se eu quiser, posso mudar esse jogo. Basta ter força de vontade. Segunda-feira vou voltar à academia e tudo vai mudar.”

Não, minha cara. Não vai.

Você está tão iludida quanto o cara que bateu no carro da frente por achar que conseguiria dirigir e mandar mensagem ao mesmo tempo.

E sabe por que você embarca facilmente nessa ilusão?

Por razões narcísicas: é doloroso reconhecer que a gente não tem tanto controle sobre nosso comportamento.

Pensar que você vai sair de um quadro depressivo simplesmente tomando a decisão de voltar para a academia na segunda-feira preserva a imagem idealizada que você tem de si mesma.

O problema é que sua saúde (física e psíquica) não está nem aí para sua autoimagem idealizada.

— Ah, Lucas, mas, então, o que eu deveria fazer?

Como se diz no futebol, você precisa confiar no processo…

Você e o cara que dirige mexendo no celular.

A orientação dos especialistas em trânsito é inequívoca: em hipótese alguma utilize o telefone enquanto está dirigindo. O Código de Trânsito Brasileiro considera infração gravíssima fazer isso.

Da mesma forma, a orientação dos especialistas em saúde mental (como eu, por exemplo) também é clara: se você está vivenciando sofrimento psíquico significativo, inicie um tratamento com um profissional.

Sim, um tra-ta-men-to. Não é ficar assistindo videozinho de influencer nem fazendo cursinho de coach.

Eu tô falando de fazer terapia e, eventualmente, com a devida avaliação médica, tomar remédio.

— Ah, Lucas, mas, fazendo isso, a mudança que eu estou buscando pode levar muito tempo!

Sim, não necessariamente será rápido.

Mas confie no processo.

Ele é muito mais confiável do que sua força de vontade — que aparece na segunda-feira e na terça já foi embora.


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Eles estão fazendo milhões explorando sua vulnerabilidade e sua ingenuidade

Eles prometem que você será capaz de transformar radicalmente sua vida.

Que essa vida será “épica”.

Que você ganhará muito dinheiro.

Que terá o relacionamento dos sonhos.

Tudo o que você precisa fazer é pagar alguns milhares de reais para eles e… mudar sua “mentalidade”.

Por “mentalidade” leia-se: sua forma consciente de pensar.

As fórmulas são simples:

Você, mulher, até hoje não teve um bom relacionamento porque tem uma mentalidade (ou “energia”) masculina. Então, se mudar sua mentalidade para feminina, atrairá homens com “mentalidade masculina”, selecionará um deles e serão felizes para sempre.

Se você até hoje não ficou rico, é simplesmente porque tem “mentalidade de escassez”. Se mudar sua forma de pensar para uma “mentalidade de abundância”, voilà, o dinheiro virá magicamente até você.

Você ainda não tem uma vida épica porque tem uma mentalidade de “não permissão”. Mudando essa mentalidade, naturalmente encontrará o caminho para uma vida plena — e instagramável…

Sim, meus caros, o trem é tosco assim mesmo.

Mas atrai um monte de gente ingênua e vulnerável.

A ingenuidade está em achar que as decisões que tomamos na vida resultam simplesmente de uma suposta mentalidade.

O velho Freud já dizia: “O Eu não é o senhor em sua própria casa”.

Não adianta achar que, pensando conscientemente de forma diferente, você será capaz de mudar radicalmente sua vida.

Não vai.

Existem múltiplos fatores em você e fora de você que controlam seu comportamento sem que você perceba.

Marcas de sua história de vida, medos, defesas, fantasias, circunstâncias sociais, econômicas, culturais etc.

Tudo isso te afeta, te condiciona, eventualmente te determina, enquanto você fica aí, todo pimpão, achando que manda e desmanda na própria vida.

Esses coaches sabem disso?

Claro que sabem — embora alguns talvez não saibam que sabem…

Falei da ingenuidade. Agora, quero fechar falando da vulnerabilidade.

As pessoas que compram os cursos, “formações” (sic) e mentorias dessa galera via de regra são indivíduos em situação de vulnerabilidade emocional.

Pessoas cansadas de relacionamentos insatisfatórios.

Pessoas passando por dificuldades financeiras.

Pessoas com baixa autoestima.

Pessoas ansiosas.

Pessoas atravessando lutos complicados.

Frequentemente, portanto, pessoas que precisariam de cuidado sério em saúde mental.

Infelizmente, por estarem vulneráveis psicologicamente, elas são mais facilmente atraídas pelas promessas ilusórias desses coaches.

Para quem está se afogando, jacaré é tronco…

O que fazer?

Sinceramente, eu não sei.

Sonho com um futuro em que tais oportunistas e suas respectivas práticas serão relegados ao ostracismo público.

Mas, talvez, nesse caso, o ingênuo seja eu.


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Talvez você procrastine tanto porque não se sente autorizado a desejar.

Deixa eu te explicar essa hipótese:

Há pessoas que, na infância, por n razões, não sentiam que seu desejo era suficientemente validado e autorizado.

Uso aqui a palavra “desejo” num sentido amplo: aquelas inclinações, vontades e movimentos espontâneos que brotam da própria pessoa.

Uma menina, por exemplo, pode se inclinar naturalmente, desde muito pequena, para brincadeiras que, tradicionalmente, na nossa cultura, são categorizadas como “brincadeiras de menino”.

Por n razões, os pais dessa menina podem considerar que esse desejo deve ser coibido, passando a estimular ou mesmo forçar a filha a se envolver com “brincadeiras de menina”.

Ao fazerem isso, esses pais podem não só levar a garota a reprimir sua inclinação por brincadeiras de menino.

Eles podem estar contribuindo para algo mais profundo e adoecedor: essa menina pode desenvolver a ideia de que suas inclinações espontâneas de forma geral (e não só a vontade específica de brincar com “coisas de menino”) são inválidas ou ruins.

Isso porque o desejo por brincadeiras de menino não é um elemento isolado da personalidade da garota. Ele está associado a vários outros aspectos e inclinações que podem ser igualmente desaprovados pelos pais.

Resultado: essa menina pode crescer acreditando inconscientemente que não tem autorização para realizar seus desejos espontâneos.

— Tá, mas onde entra a procrastinação nessa história, Lucas?

Veja: o que é procrastinar?

Procrastinar é adiar uma tarefa importante sem que esse adiamento seja realmente estratégico.

Ou seja, você deixa para depois não porque será melhor fazer a tarefa em outro momento, mas simplesmente porque sente uma espécie de bloqueio interno que te impede de botar a mão na massa naquela hora.

Ora, esse bloqueio interno pode ser justamente o medo inconsciente de se engajar em seu próprio desejo.

É como se, na hora em que você está lá, diante do computador, pronta para trabalhar em um projeto, viesse uma voz interna que te dissesse:

“Lembra que você aprendeu que tudo aquilo que vem de você é ruim, errado, inválido? Então… Nem vale a pena investir tempo e energia nesse projeto. Não vai dar certo.”

O problema é que essa “voz” age de modo inconsciente. Conscientemente, o que você experimenta é simplesmente uma vontade estranha de deixar para depois, mesmo sabendo que tem tempo suficiente para trabalhar no projeto naquele momento.

Que fique bem claro: o que eu acabo de dizer não vale para todos os casos de procrastinação.

É apenas uma hipótese.

Mas ela pode se aplicar ao seu caso.

Que tal pensar a respeito?


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Você conhece Robert Stolorow?

Para Freud, o analista deve se colocar diante do paciente na posição de espelho.

Para Lacan, na posição de semblante de objeto a.

Mas será que isso é mesmo possível?

Será que o analista consegue realmente não ocupar o lugar de sujeito na relação com o paciente?

Ou será que toda situação analítica envolve inevitavelmente a subjetividade de ambos?

Nós podemos fazer esse questionamento a partir das contribuições de Robert Stolorow, um psicanalista pouquíssimo conhecido aqui no Brasil, mas bastante influente nos EUA.

Stolorow desenvolveu uma perspectiva chamada “teoria dos sistemas intersubjetivos”, segundo a qual a experiência psíquica nunca existe isoladamente dentro de um indivíduo, mas sempre em contextos relacionais.

Eu acabei de publicar uma aula na Confraria Analítica fazendo uma introdução às principais ideias dele.

A aula já está disponível no módulo “Aulas Temáticas – Temas Variados”. Para assistir, é só se tornar membro da Confraria, a maior escola de teoria psicanalítica do Brasil.


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Por que Lacan disse que “o sujeito é feliz”?

No início da década de 1970, a televisão francesa decidiu fazer um programa sobre Lacan. Àquela altura, o autor já era conhecido fora da bolha psicanalítica.

O resultado foi o que chamaríamos hoje em dia de um “podcast”, em que Lacan responde perguntas formuladas por seu genro e herdeiro intelectual Jacques-Alain Miller. A gravação original pode ser encontrada facilmente na internet.

O texto da entrevista, que recebeu o título minimalista Televisão, consta atualmente na coletânea Outros Escritos, publicada no Brasil pela editora Jorge Zahar.

Em determinado momento da conversa, Lacan faz uma afirmação muito intrigante sobre a felicidade, que eu quero tomar como ponto de partida para algumas reflexões. Ele diz:

“O sujeito é feliz. Esta é até sua definição, já que ele só pode dever tudo ao acaso, à fortuna, em outras palavras, e que todo acaso lhe é bom para aquilo que o sustenta, ou seja, para que ele se repita.”

Isso está na página 525 dos Outros Escritos.

A primeira reação que muitas pessoas podem ter ao ler esse trecho é a estranheza:

“Como assim o sujeito é feliz? Que sujeito? O que eu mais vejo por aí são pessoas que não se sentem felizes. Elas estão enganadas?”.

Se Lacan fosse responder essa última pergunta em poucas palavras, talvez ele dissesse: “Sim e não”.

Então deixa eu te explicar:

Ao dizer que “o sujeito é feliz”, ele não está se referindo à pessoa tal como ela se percebe. Lacan está falando do sujeito do inconsciente, ou seja, de uma espécie de engrenagem psíquica que opera em você (e, ao mesmo tempo, é você), mas que você não reconhece como “Eu”.

Nesse sentido, ao dizer que “o sujeito é feliz”, Lacan está propondo que, embora você possa se sentir infeliz e se ver como uma pessoa infeliz, existe uma dimensão sua que está sempre feliz, mesmo no sofrimento.

Sabe por quê?

Porque essa engrenagem psíquica autônoma, que Lacan chama de sujeito do inconsciente (que é você — não se esqueça), possui determinados desejos (que você resiste a enxergar) e te leva a fazer de tudo para satisfazê-los.

É isso o que explica o fato de você não conseguir abandonar com facilidade seus sintomas, ou seja, aquelas coisas que você faz, não consegue deixar de fazer, mas te trazem muito sofrimento.

Por exemplo, digamos que um dos seus sintomas é o seu relacionamento. Você acha seu namorado um cara tóxico, vive reclamando dele, mas simplesmente não consegue terminar.

Veja: você não se sente feliz nesse namoro — o seu Eu não é feliz. Porém, se você não consegue terminar, isso é a prova de que uma “parte” sua encontra satisfação no relacionamento. Essa “parte” é justamente o sujeito do inconsciente.

Pode ser, por exemplo, que esse namorado, que você encontrou aparentemente por acaso (releia o trecho que eu citei) apresente características muito semelhantes à sua mãe, com quem você teve graves problemas quando era criança.

Permanecendo com ele, você, sem perceber, repete o cenário infantil e satisfaz o anseio de tentar mudar a sua mãe — desejo que você, também sem perceber, nunca abandonou.

Logo, enquanto Eu, você não se sente feliz, mas, enquanto sujeito — sujeito do inconsciente, lembre-se sempre — você é feliz.


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Como a teoria de Fonagy pode transformar sua escuta clínica

Paula fez cortes em seu braço após uma briga com o namorado.

Rafael tomou meia garrafa de vodca ao saber que foi demitido da empresa onde trabalhava.

Beatriz deu socos em si mesma após uma discussão com a mãe no WhatsApp.

O que essas pessoas têm em comum?

As três não conseguiram suportar o impacto emocional das situações que vivenciaram.

Elas precisaram fazer alguma coisa para se estabilizarem.

Faltou a elas, naquele momento, um recurso psíquico fundamental para a saúde mental — a mentalização.

Este conceito foi proposto por Peter Fonagy, um dos autores mais influentes da Psicanálise na atualidade.

Apesar de ser um dos pesquisadores em saúde mental mais respeitados do mundo, talvez você nunca tenha ouvido falar sobre ele.

É por isso que eu decidi fazer uma aula na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise, apresentando algumas das principais ideias do autor.

A aula já está disponível no módulo Aulas Temáticas – Temas Variados.

Para ter acesso a ela e a todo o nosso acervo de mais de 400 aulas (mais de 600 horas de conteúdo), seja meu aluno na Confraria.

Link: https://confrariaanalitica.com/


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Transferência só acontece na Psicanálise?

Muita gente acha que a transferência é um fenômeno que acontece exclusivamente na Psicanálise, mas isso não é verdade.

Em certo sentido, nós estamos fazendo transferência quase o tempo todo.

Afinal, toda pessoa transfere para as relações do presente um certo modo típico de se relacionar que se formou lá atrás — mais especificamente, na infância.

A maioria das pessoas não tem consciência desses padrões, mas basta uma observação cuidadosa para que possam ser identificados.

Vou listar aqui alguns que são bem comuns:

Pessoas que tendem a se sentir ameaçadas pelo outro e, por isso, adotam uma atitude de submissão, buscando sempre agradar.

Pessoas que quase sempre se sentem atacadas, rejeitadas, exploradas e, por isso, costumam ficar o tempo todo na defensiva.

Pessoas que possuem uma ânsia por se sentirem desejadas e especiais e, por isso, estão quase sempre tentando seduzir o outro.

Pessoas que não suportam não estar no controle e, por isso, ficam sempre numa posição de dominância.

— Entendi, Lucas. Mas se a transferência está rolando o tempo todo, o que há de diferente quando ela acontece na Psicanálise?

A diferença está no modo como o psicanalista lida com a transferência.

Um paciente que quer se sentir desejado e especial fará isso tanto com sua namorada quanto na relação com sua analista.

A namorada, porém, tenderá a responder a essa demanda, seja tentando atendê-la ou reagindo defensivamente a ela.

A analista, não.

Em vez de se defender ou fazer o que o paciente espera, a analista procurará ajudá-lo a enxergar seu padrão e entendê-lo.

Outro exemplo:

Se você tem uma amiga que está sempre na defensiva, talvez se afaste dela ou tente inutilmente fazer com que ela não se sinta atacada.

O analista dessa pessoa não faria uma coisa nem outra. Ele transformaria a atitude defensiva dela em objeto de investigação.

— Uai, Lucas, mas e se eu tiver um bom conhecimento de Psicanálise? Não conseguiria, eu mesma, fazer isso com minha amiga?

Provavelmente, não. Sabe por quê?

Porque esse procedimento técnico, que a gente chama de “manejo da transferência” só seria possível se sua amiga te colocasse na posição de sujeito suposto saber, que é a posição na qual um paciente tende a colocar a pessoa que ele escolhe para ser sua analista.

E esse é outro aspecto que diferencia a expressão da transferência na análise em relação a sua ocorrência no dia a dia.

O sujeito sedutor, que quer se sentir desejado e especial, simplesmente reproduz esse padrão na relação com a namorada — e com todos os outros com quem convive…

Mas, numa análise, ele não só repete seu modo padrão. Ele o endereça a seu analista, ao se colocar na posição de paciente.

E isso faz toda a diferença…


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“O psicanalista não deve atender a demanda.”

Tá, Lucas. Mas por que não?

O que significa “não atender a demanda”?

Se o paciente me pedir um copo d’água durante a sessão eu devo negar?

Não atender a demanda é ficar em silêncio quando o paciente me pede uma orientação?

Há casos ou situações excepcionais em que o analista deve atender a demanda?

Eu respondo todas essas perguntas na aula “O que significa ‘não atender a demanda’?”, publicada nesta sexta na Confraria Analítica, a minha escola de formação teórica em Psicanálise.

A aula já está disponível no módulo “Aulas Temáticas – Temas Variados”.

Para ter acesso à ela e a todo o nosso acervo de mais de 400 aulas (mais de 600 horas de conteúdo), seja meu aluno na Confraria.

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Você se acostumou a viver de forma falsa?

Neste momento, lá na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise, nós estamos estudando um dos textos mais importantes do psicanalista inglês Donald Winnicott.

O título dele é “Distorção do ego em termos de self verdadeiro e falso self”.

Uma dúvida que pode surgir na cabeça de algumas pessoas ao verem esse título é a seguinte:

Por que Winnicott não fala de “ego verdadeiro” e “falso ego”? Por que ele usa o termo “self”?

Estudiosos da obra winnicottiana certamente apresentariam uma série de explicações técnicas que poderiam acabar confundindo quem não tem familiaridade com o pensamento do autor.

Vamos ficar no bom e velho Humanês:

Pense no ego como aquilo que você reconhece como sendo você enquanto indivíduo (nome próprio, características particulares, um peso, uma altura etc.).

E pense no self como sendo um modo de existir: uma postura, uma atitude, uma forma de se colocar no mundo.

Assim fica fácil entender por que Winnicott fala de “self verdadeiro” e “falso self” e não de “ego verdadeiro” e “falso ego”.

Com efeito, você, em si, não pode ser verdadeiro ou falso. Você é o que é. Ponto.

Não existe um “Lucas de verdade” em algum mundo das ideias platônico com o qual possa me comparar para saber se eu, o Lucas real, sou de verdade ou de mentira.

Agora, eu posso, na concretude da minha existência, viver de modo verdadeiro ou falso.

Por exemplo, se eu respondo de forma gentil uma mensagem desaforada, posso estar vivendo, naquele momento específico, de modo falso.

Afinal, minha vontade genuína, espontânea, verdadeira, talvez fosse a de dar uma resposta mais direta ou até agressiva.

A vida em sociedade exige de todos nós essa capacidade de agir de modo artificial de vez em quando.

Imagine um mundo em que todas as pessoas agissem de forma 100% espontânea o tempo todo. Seria um caos, né?

O problema é quando o sujeito vive, na maior parte do tempo, no modo falso self.

De fato, há pessoas que foram tão reprimidas, controladas ou simplesmente deixadas de lado na infância que elas não se permitem viver de modo genuíno.

Muitas nem percebem que o falso self é sua forma padrão de existir.

Mas o fato é que elas quase nunca falam o que querem, trabalham com o que querem ou convivem com quem querem.

Na verdade, foram tão acostumadas a desejar o que não querem que nem sabem mais o que verdadeiramente querem.

Uma existência vivida dessa forma inautêntica dá sinais: vazio, falta de sentido, sensação de que nada tem graça…

Essas pessoas precisam ter condições de resgatar seu verdadeiro self do porão onde o ambiente infantil as forçou a trancá-lo.

Mas isso só acontece mediante uma experiência real com um ambiente novo, confiável, potencializador e, definitivamente, não repressor.

Esse ambiente é justamente o que a Psicanálise busca proporcionar.


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“A análise deve ser uma verdadeira reeducação do humano.” (Sándor Ferenczi)

Reeducação??

Nova personalidade??

Mais bem adaptada??

Isso é Psicanálise??

Calma. Não se escandalize.

Assista à aula “LENDO FERENCZI #13 – Objetivo da análise: uma nova personalidade”, que acaba de ser publicada na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

Nela você vai entender direitinho em que sentido Ferenczi usa as expressões “reeducação”, “nova personalidade” e “mais bem adaptada”.

E verá que ele está coberto de razão.

A aula já está disponível no módulo “Aulas Temáticas – Ferenczi”.

Para ter acesso à ela e a todo o nosso acervo de mais de 400 aulas (mais de 600 horas de conteúdo), seja meu aluno na Confraria.

Link: https://confrariaanalitica.com/


Participe da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

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A gente faz Psicanálise para trocar a ânsia de mudar pelo desejo de se entender.

Você pode achar que não consegue fazer determinadas mudanças em sua vida simplesmente porque não sabe como fazê-las.

O problema, portanto, seria apenas falta de conhecimento. E a solução, por sua vez, passaria por obter… informação.

Tem muita gente que procura terapia com essa perspectiva na cabeça.

É o caso de Laura.

Ela decidiu fazer terapia porque se via como uma pessoa muito ansiosa e gostaria de aprender a parar de se preocupar tanto com tudo.

Achava que se alguém lhe orientasse sobre como lidar corretamente com seus problemas, ela deixaria de ficar tão tensa.

Para Laura, a terapia funcionaria como uma espécie de consultoria: ela ficaria na posição de aprendiz e o terapeuta agiria como um professor.

Essa expectativa era equivocada?

Depende…

Existem certas terapias que funcionam exatamente da forma como Laura imaginou:

Nelas, o paciente é visto como alguém que não tem o conhecimento necessário para vencer suas dificuldades.

E o terapeuta, por sua vez, se apresenta como um especialista no comportamento humano que vai ensinar ao paciente o que fazer para melhorar.

E aí a terapia acontece de forma muito parecida com uma consultoria mesmo: avaliações, treinamentos, estratégias, metas…

No entanto, existe outro tipo de tratamento, a Psicanálise, que funciona de modo bem diferente.

E foi justamente uma psicanalista que Laura encontrou quando decidiu fazer terapia.

De início, estranhou: esperava receber orientações, dicas, conselhos, mas a terapeuta falava pouco e praticamente só fazia perguntas.

Mas, aos poucos, a moça passou a gostar daquela sensação de poder falar tudo o que lhe vinha à cabeça, toda semana, para alguém que lhe escutava com extrema atenção.

Laura ficava surpresa quando a analista, de repente, fazia um comentário destacando algo que ela havia dito en passant no início da sessão e do qual nem se lembrava mais.

À medida que o tratamento prosseguia, a frustração por não receber orientações foi dando lugar a um desejo de se entender.

E é esse desejo que a motiva a continuar comparecendo toda quarta-feira às 17h ao consultório de sua analista.

A jovem tem percebido que se tornar menos ansiosa não é uma questão de treinamento, mas de transformação.

Transformação de um modo de existir, de se colocar no mundo, cujas raízes atravessam toda a sua história de vida.

Por isso, agora, Laura não se pergunta mais: “O que preciso aprender para não me preocupar tanto?”, mas sim:

“Por que será que eu me posiciono na vida de forma tão preocupada?”.


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Como Melanie Klein atendia? Lições do caso Richard

O ano era 1941.

Segunda Guerra Mundial bombando — literalmente…

De um lado os países “Aliados”; do outro as potências do “Eixo”, capitaneadas por um monstro de bigode.

No interior do País de Gales, Richard, um menino de dez anos, escuta com atenção e aflição as notícias sobre a guerra no rádio.

Recentemente, soube que uma bomba teria caído próximo à casa onde morava, fazendo desabar a estufa que ficava no jardim.

Por conta do conflito, Richard teve que se mudar com a família para outra cidade.

Além de preocupado, o menino se sente indignado com a crueldade do monstro de bigode:

“Como ele foi capaz de fazer mal a seu próprio povo (os austríacos)?”, pergunta-se.

Mas enquanto o trágico confronto militar se desenrola do lado de fora, Richard vive outra guerra — dentro de si.

Ele ainda não entende exatamente o que está acontecendo, mas os danos que esse conflito interno tem causado são claros:

Há dois anos não consegue ir para a escola, pois sente um medo inexplicável dos outros garotos; tem um medo exagerado de adoecer e de algo ruim acontecer com sua mãe; e há mais de quatro anos vem apresentando outros sintomas depressivos e ansiosos.

Tanto a mãe quanto o pai são compreensivos e não tentam forçar Richard a ir para a escola.

Porém, preocupados com o futuro acadêmico e a saúde mental do filho, decidem levá-lo a uma senhora que vinha se notabilizando na Europa por conseguir tratar crianças com problemas emocionais usando o famoso método criado por Freud, a Psicanálise.

O nome dessa senhora você já sabe: é Melanie Klein.

A família diz que só pode se comprometer com quatro meses de terapia.

Embora ciente de que um tratamento com duração pré-definida não é o ideal, Klein aceita atender Richard. Acredita que conseguirá ajudá-lo.

Como Melanie Klein trabalhou com esse menino?

Ela própria nos conta no livro “Narrativa da análise de uma criança”.

Todas as 93 sessões estão lá descritas e comentadas, detalhadamente. É uma das maiores joias da literatura psicanalítica!

Se você quer entender, na prática, como um analista trabalha de verdade, esse caso é um divisor de águas.

Nesta sexta, eu destrincho a primeira sessão, linha por linha, em uma aula exclusiva para os alunos da Confraria Analítica.

Você vai ver como Klein:

  • escuta
  • intervém
  • e transforma a angústia da criança em material analisável

Sem romantização. Sem teoria vazia. Clínica.

Se você ainda acha que Psicanálise é só “escutar e acolher”, essa aula vai te incomodar.

E talvez seja exatamente disso que você precisa.

O título da aula é “LENDO KLEIN 11 – Interpretação precoce e sensibilidade: lições da primeira sessão do caso Richard” e ela já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – KLEIN.

A Confraria é a maior e mais acessível escola de formação teórica em Psicanálise, com um acervo de mais de 400 aulas, o que equivale a mais de 600 horas de conteúdo.

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Você acorda dos seus sonhos… para continuar sonhando.

Você já deve ter vivido a seguinte situação:

Você está sonhando, e, de repente, ao se deparar com alguma situação, você acorda.

Por que isso acontece?

Por que será que você acordou justamente naquele momento?

A resposta é simples: se continuasse sonhando, você faria contato com uma realidade interna insuportável.

Então, acordar é uma forma de se proteger emocionalmente.

Aí você pode retrucar:

— Mas, Lucas, isso não faz muito sentido. Como o despertar vai me proteger do contato com essa realidade interna tão dolorosa? É mais fácil encontrá-la dormindo do que acordado?

Exatamente.

Quando a gente dorme, as defesas que utilizamos durante o dia para não pensar em certas coisas se enfraquecem.

É por isso que a gente sonha.

A matéria-prima dos sonhos é formada por pensamentos que ficam rodando na nossa cabeça diuturnamente, em segundo plano ou de forma totalmente inconsciente.

E não são quaisquer pensamentos.

Em geral, são ideias e desejos conflituosos, que nos causam muita dor ou angústia. Por isso, tendemos a evitá-los.

— Mas, Lucas, eu não me lembro de sonhar com pensamentos. Nos meus sonhos aparecem imagens, cenas… Muito estranhas, inclusive.

Sim, isso acontece porque, embora suas defesas estejam enfraquecidas durante o sono, elas ainda têm força suficiente para transformar as ideias angustiantes em imagens que você consegue suportar.

É por isso que nossos sonhos costumam ser esquisitos ou aparentemente aleatórios. É que, na tentativa de te proteger dos pensamentos dolorosos, a defesa precisa disfarçá-los.

Vamos supor, por exemplo, que esteja rodando na sua cabeça, em segundo plano, a seguinte ideia:

“Eu queria xingar meu namorado, mas, como tenho medo da minha própria agressividade, fico calada e tolero os xingamentos dele.”

Para te poupar de fazer contato com esse pensamento, suas defesas podem transformá-lo numa cena em que você observa, da janela de casa, animais selvagens entrando em seu quintal.

O problema é que suas defesas, que já são limitadas por natureza, durante o sono estão enfraquecidas, lembra?

Então, pode acontecer o seguinte:

A ideia da qual você está se protegendo pode ter tamanha força que suas defesas não conseguem disfarçá-la muito bem.

Vamos retomar o exemplo:

Pode ser que durante o dia alguém tenha ouvido seu namorado te xingando e chamou sua atenção: “Como você tolera?”.

Por conta disso, o pensamento “Eu queria xingar meu namorado etc.” ficou mais intenso em seu psiquismo.

Mas lembre que você não suporta fazer contato com ele.

Então, pode ser que o sonho que você tem nesse dia comece daquele jeito que eu falei: você, da janela de casa, observando os animais selvagens andando pelo seu quintal.

Porém, como o pensamento foi intensificado, as defesas não conseguem representá-lo de forma disfarçada apenas com essa imagem.

Ele está tão forte que a cena precisa continuar: os animais começam a invadir sua casa. Quando você olha para trás, vê um monte deles vindo em sua direção.

E justamente, nesse momento, você acorda.

Por quê?

Porque a defesa chegou ao limite: a alternativa seria você sonhar que está sendo atacada pelos animais, o que seria tão angustiante quanto tomar consciência da ideia que está sendo representada.

É por isso que o psicanalista francês Jacques Lacan brincava dizendo que a gente acorda dos sonhos… para continuar sonhando.


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