A falsa humildade de quem, no fundo, se acha Deus

Há pessoas que parecem estar constantemente pedindo licença para existir. Elas se apresentam com uma postura acabrunhada, se sentem muito constrangidas quando elogiadas, não reclamam se alguém as trata com grosseria, evitam chamar a atenção para si e sempre cedem a vez numa disputa por posição.

São pessoas, portanto, que parecem ter um grave sentimento de inferioridade. E, de fato, elas podem mesmo conscientemente se sentir inferiores.

Mas e se eu te disser que essa atitude de aparente humildade e submissão pode ser, na verdade, uma máscara?

Uma máscara que essas pessoas utilizam SEM SABER para se protegerem de uma tendência interior que vai justamente na direção oposta, ou seja, na direção da arrogância e da vaidade?

Pois é… Quem chamou a atenção para essa possibilidade foi o psicanalista britânico Ernest Jones. Em 1913, ele publicou um artigo chamado “O Complexo de Deus” no qual fala de pessoas que desenvolveram uma identificação inconsciente com a figura divina, ou seja, de sujeitos que funcionam como se inconscientemente achassem que são Deus.

Naturalmente, somos levados a pensar que tais pessoas se comportariam de forma extremamente arrogante e soberba, né? Afinal, elas se perceberiam como seres onipotentes e acima dos “meros mortais”.

De fato, algumas delas se apresentam acima mesmo. Pense, por exemplo, na figura de Nietzsche (exemplo citado pelo próprio Jones no artigo) e nos títulos que ele dá para os capítulos de sua autobiografia: “Por que sou tão sábio”, “Por que sou tão inteligente”, “Por que escrevo livros tão bons”, “Por que sou um destino”…

Porém, há outros indivíduos que possuem uma relação mais conflituosa com seu complexo de Deus e acabam se defendendo dele por meio de um mecanismo chamado formação reativa. Ele consiste em desenvolver uma atitude exageradamente oposta à tendência da qual o sujeito quer se proteger.

Então, se a identificação com a figura divina impulsiona o indivíduo na direção de se considerar superior aos demais, ao usar a formação reativa para se defender desse impulso, ele se comporta de forma exageradamente oposta, ou seja, sendo excessivamente humilde, modesto, submisso e se colocando amiúde numa posição de inferioridade.

É claro, gente, que nem toda pessoa que se sente inferior possui um complexo de Deus reprimido. Tem gente que está sempre abaixando a cabeça para os outros porque apanhou demais da vida ou teve uma criação excessivamente repressiva.

Porém, quando essa postura de inferioridade é excessiva e persistente, a hipótese de Jones merece ser lembrada. Podemos estar diante de um pretenso “Deus” que não dá conta de se aceitar como tal…

E se você quer saber mais sobre esse assunto, eu acabei de publicar a aula “Complexo de Deus: uma forma de narcisismo patológico” na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

Para assistir, é só se tornar meu aluno.

Link: https://confrariaanalitica.com/


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Você se importa com a opinião do outro ou quer controlá-la?

Muitas pessoas se queixam de que se importam demais com a opinião dos outros. Supostamente, por conta desse “se importar demais”, elas se privariam de certas experiências ou se condenariam exageradamente por determinadas falas ou comportamentos.

Será que essa é a forma mais adequada de descrever esse problema? Vejamos:

A atitude de se importar com a opinião alheia — no sentido de considerá-la como um fator relevante para a regulação de nossas ações — me parece perfeitamente desejável do ponto de vista da sociabilidade.

Por exemplo: você pode estar tendo um dia ruim e chegar mal-humorada à padaria. Se não se importasse com a opinião do funcionário do estabelecimento se e deixasse levar exclusivamente por sua vontade no momento, talvez você conversaria com ele de forma grosseira.

Outro exemplo: de repente, você considera a coordenadora do setor em que trabalha uma pessoa incompetente para ocupar aquela posição. Ora, você pode muito bem evitar compartilhar essa impressão com colegas pelo medo de que ela acabe chegando aos ouvidos da coordenadora e isso lhe traga prejuízos.

Em ambos os casos você está tomando cuidado para que o outro não forme uma imagem negativa sua. No primeiro, em razão da civilidade e, no segundo, para não se prejudicar. Portanto, não há nada de patológico em se importar com a opinião alheia.

O problema acontece quando o “se importar” se converte em… “tentar controlar”.

Por estar de mau humor, você pode tratar o atendente da padaria com gentileza, mas sem muita simpatia e isso pode levar o sujeito a te ver como uma pessoa fria. Ou seja, o funcionário pode formar uma imagem de você que não é lá muito positiva.

Muitas pessoas toleram essa possibilidade tranquilamente. Mas algumas a encaram como insuportável. Por razões ligadas à sua história de vida, elas inconscientemente acreditam que uma catástrofe inominável vai acontecer se alguém não tiver uma opinião positiva sobre elas.

Por isso, elas não só “se importam” com a opinião dos outros, mas buscam controlá-la. Para isso, investem muita energia psíquica na tentativa de deduzir o desejo do outro a fim de performarem a atitude exata que irá satisfazê-lo.

Se você funciona dessa forma, provavelmente não trataria o atendente da padaria apenas com uma educação protocolar. Você sufocaria seu mau humor do momento e vestiria a máscara de uma pessoa extremamente agradável e simpática. O pensamento inconsciente em jogo seria algo mais ou menos do tipo:

“Estou de mau humor. Não queria nem ter que dar ‘bom dia’. Mas se eu fizer isso, o funcionário vai ficar com uma imagem negativa de mim — e isso seria insuportável. Então, para não correr esse risco, vou tratá-lo com extrema simpatia, mostrar um largo sorriso, fazer uma brincadeira. Dessa forma, conseguirei garantir que ele terá uma boa opinião sobre mim.”

Você acha que isso acontece consigo?

Você suporta o risco de que o outro forme uma imagem negativa sua ou essa possibilidade é tão angustiante que vive desperdiçando energia para controlar a opinião que o outro tem sobre você?


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Você se queixa de um problema para não encarar outro?

Quando a gente se queixa de um determinado problema não significa que ele seja, de fato, a fonte do nosso sofrimento.

Frequentemente a gente reclama de uma situação porque, agindo assim, concentramos nossa atenção nela e evitamos pensar no problema que está na base dela — e que geralmente é mais doloroso…

Vou citar alguns exemplos:

Sérgio se queixa da namorada, acusando-a de ser fria e pouco interessada sexualmente. De repente, esse sujeito precisa acreditar que o problema de sua vida erótica é exclusivamente o comportamento da namorada para não ter que lidar com sua ânsia por controle e seu medo da intimidade.

Giovana reclama diuturnamente da postura invasiva de seus familiares, enxergando-se como vítima das demandas deles. Essa queixa crônica pode ajudar tal pessoa a não encarar de frente sua insegurança e baixa autoestima que, justamente, a impedem de se posicionar e colocar limites ao comportamento dos familiares.

Paulo procura terapia e, na primeira sessão, se apresenta como alguém que sofre porque se doa muito para os outros e recebe pouco em troca. Ao se perceber como alguém muito virtuoso que padece da ingratidão alheia, ele evita a constatação de que, na verdade, se dedica muitos às pessoas em busca do reconhecimento que lhe faltou na infância.

Você já deve ter notado alguns elementos comuns entre esses três casos fictícios — pero no mucho.

Em todos eles, a pessoa acredita que o motivo principal de seu sofrimento é o comportamento do outro e, ao pensar dessa forma, deixa de considerar a sua “capivara” na história, isto é, sua participação na produção e manutenção daquele problema.

Isso talvez pareça trivial para quem já é versado em Psicanálise. Mas o ponto para o qual quero chamar sua atenção é que a gente (sim, porque isso pode acontecer com qualquer um) faz isso não por malandragem, mas por necessidade.

Sérgio não dá conta de encarar sua ânsia por controle e seu medo da intimidade.

Giovana não consegue encarar de frente sua insegurança e baixa autoestima.

Paulo não suporta perceber que busca o reconhecimento que lhe faltou na infância.

Todas essas questões são dolorosas demais para tais pessoas. Então, elas precisam se enganar achando que o problema está no outro.

É por isso que a Psicanálise não é um método que ajuda o paciente apenas a saber mais sobre si, mas também o fortalece para aguentar o tranco de saber mais sobre si.

Fazendo análise, Sérgio, Giovana e Paulo não seriam só expostos à verdade de que estão se enganando, mas conquistariam também a segurança necessária para não precisarem mais se enganar.


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A psicologia do hater

A palavra “hater” vem do inglês “hate” (ódio/odiar) e surgiu no contexto das redes sociais para designar a pessoa que repudia, critica, despreza outra, mas consome assiduamente o conteúdo que ela produz.

Portanto, o hater age de forma paradoxal: ele manifesta ódio pelo outro, mas se comporta como se o amasse. Afinal, acompanhar constantemente o que o outro produz é se interessar por ele, buscar estar próximo dele — e essas são atitudes que fazem parte justamente da esfera do amor.

Como explicar esse paradoxo?

Vamos examinar dois tipos de hater: aquele que é um amante frustrado e aquele que é um amante inconsciente. Comecemos pelo primeiro:

Não raramente, o hater foi alguém que, inicialmente, admirava e, em certos casos, até idolatrava aquele que, no momento, odeia.

A virada do amor para o ódio geralmente acontece por conta de alguma frustração muito significativa: o objeto de amor deixa de corresponder às expectativas do sujeito (via de regra, idealizadas) ou não atende certas demandas de amor.

O objeto pode começar, por exemplo, a se comportar de forma diferente, defender posições que não defendia antes. O hater se sente frustrado com tais mudanças e, em retaliação, começa a detonar aquele a quem antes rendia louvores.

Ou, de repente, o sujeito vive mandando mensagens para o objeto e, por não conseguir as respostas ou a proximidade pela qual ansiava, passa gradativamente a odiar seu ex-ídolo — porém, sem deixar de acompanhá-lo…

A segunda possibilidade é a de que o hater seja um amante inconsciente, isto é, ele ama aquele em quem descarrega seu ódio, mas não sabe que ama.

Veja: esse tipo de hater nunca admirou conscientemente aquela pessoa, mas existe algo nela que o atrai, que o fascina, levando-o a consumir os conteúdos que ela produz como se fosse um fã.

Em ambos os casos, estamos diante de um ódio erotizado, ou seja, um ódio que existe a serviço do amor — seja de um amor frustrado ou de um amor inconsciente.

No fim das contas, o hater odeia para continuar amando. Para continuar amando sem precisar admitir que ama.

É como se, ao odiar, o hater frustrado dissesse para si mesmo no inconsciente: “Eu não posso reconhecer que ainda amo essa pessoa que não me dá bola ou que não é mais quem eu gostaria que fosse. Portanto, vou odiá-la com unhas e dentes. Ódio é oposto de amor. Logo, odiando, posso me enganar e fingir para mim mesmo que o amor acabou.”

Já no caso do hater inconsciente, é como se inconscientemente ele pensasse: “Eu odeio essa pessoa, mas é fato que também a amo, pois há algo nela que me fascina. O que fazer? Bom, se eu manifestar regularmente meu ódio por ela, posso acabar me convencendo de que esse amor não existe.”

Nessa reflexão, eu me mantive restrito ao contexto da internet, mas a figura do hater também aparece no âmbito dos relacionamentos amorosos.

Há muitas pessoas que acabam se tornando haters de seus ex-parceiros. “Fala mal de mim, mas quer me pegar de novo”, já dizia a poesia popular.

Agora, me diga aí nos comentários: você já foi hater de alguém ou já foi alvo do ódio de algum?


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Por que Freud disse que o psicanalista deve ser como um espelho?

Em 1912, Freud decidiu publicar um artigo fornecendo algumas recomendações para aqueles que se aventuravam a praticar a Psicanálise. O texto foi intitulado “Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise”.

A certa altura, ele escreve o seguinte:

“O médico [leia-se: o psicanalista] deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não mostrar-lhes nada, exceto o que lhe é mostrado.”

O rationale que fundamenta essa orientação é o seguinte:

Se o analista compartilha com o paciente seus gostos, preferências, opiniões etc. isso cria um clima de excessiva intimidade que pode provocar vários efeitos prejudiciais ao tratamento:

O analista pode ser tomado pelo paciente como um modelo e o tratamento pode acabar se tornando sugestivo e não analítico.

O excesso de intimidade pode levar o paciente a “pular” (por assim dizer) certas resistências que precisariam aparecer no processo terapêutico para serem analisadas.

O excesso de intimidade também pode produzir o efeito oposto: o paciente pode não conseguir atravessar certas resistências pelo receio de colocar a relação com o analista em risco ou de ser avaliado negativamente por ele.

O paciente é incentivado a sair da posição de falar sobre si para ficar querendo saber mais sobre o analista.

O manejo da transferência fica comprometido, pois, em função da excessiva intimidade, o analista não pode contar com o necessário distanciamento para ajudar o paciente a perceber e elaborar seus movimentos transferenciais.

Se o analista evita, na medida do possível, não se mostrar como pessoa, mas tão-somente ajudar o paciente a se escutar e se enxergar, esses cinco problemas tendem a não acontecer.

No entanto, essa metáfora do espelho pode induzir o analista a cometer dois erros:

O primeiro é achar que se posicionar como um espelho significa ser frio, insensível e indiferente ao sofrimento do paciente.

Tratar o analisando com simpatia, empatia e sensibilidade não é fazer sugestão. É o básico que deve estar presente em qualquer relação de cuidado em saúde.

O segundo é achar que o analista nunca pode adicionar nada na vida do paciente e tão-somente “devolver” a ele o que apresenta.

Há pacientes que não tiveram na infância certos elementos indispensáveis para a saúde psíquica, como segurança, confiabilidade, espelhamento, por exemplo. Nesses casos, se o analista simplesmente “devolve” e não se preocupa em ativamenteproporcionar os elementos que faltaram na vida do paciente, o tratamento não vai andar.

Existe a falta estrutural, que a gente deve aceitar e elaborar, mas existem também certas faltas que são contingentes — e que a análise pode suprir.

Portanto, sim, Freud está certo ao dizer que o analista deve se comportar como um espelho no sentido de não roubar a cena da análise com seus aspectos pessoais.

Mas o espelho analítico é um espelho diferente: ele não mostra só o que já estava no paciente; mostra também aquilo que precisa estar.


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Você consegue se validar?

Hoje quero conversar com você sobre um dos principais ganhos que a gente obtém ao fazer análise: a autovalidação.

— Como assim, Lucas?

Eu me refiro a uma atitude de legitimação dos próprios pensamentos, sentimentos, contradições e, principalmente, do próprio sofrimento.

Ao longo de uma análise, o paciente vai aprendendo a olhar para si mesmo de modo a poder dizer: “Isso que acontece comigo tem sentido, pode ser escutado, explorado, compreendido; não é algo que não deveria existir.”

Honestamente, eu não sei se esse processo ocorre em todo tipo de terapia. Suspeito que sim, mas só posso falar da Psicanálise, pois é o método que pratico. Nela, eu sei que acontece.

Quem já sofreu muito por se invalidar (e se for o seu caso, diga aí nos comentários), sabe o quão importante é a conquista da autovalidação.

Ao se invalidar, o sujeito olha para si mesmo e pensa: “Eu não deveria estar me sentindo/pensando/me comportando assim”. E, ao fazer isso, ele sem perceber adiciona uma nova camada de sofrimento ao que já vinha vivenciando.

Por exemplo: de repente, a pessoa é insegura, mas sofre duplamente porque vê sua insegurança como uma espécie de falha moral que não deveria existir. Então ela sofre por ser insegura e sofre também por achar que nãodeveria ser insegura.

— Uai, Lucas, mas a pessoa tem razão ao pensar assim, não? A insegurança realmente não deveria existir na vida dela.

De fato, seria muito bom se a insegurança não estivesse presente nesse sujeito, mas a expressão “não deveria” faz parecer que, em vez de estar padecendo de um problema emocional, ele está marcando a opção errada num inexistente gabarito da vida.

Ao adquirir a capacidade de autovalidação, o paciente substitui esse olhar moralista por uma visão, digamos, científica de suas questões. Em vez de achar que sua insegurança não deveria existir, ele passa a se perguntar: por que ela existe? De onde ela vêm? Quais são as razões que a mantêm?

Perceba que não se trata de adotar uma posição de resignação diante do sofrimento. Validar-se não significa simplesmente dizer para si mesmo: “Tá tudo bem ser assim”. Afinal, o próprio sofrimento é a prova de que não está tudo bem.

O que a autovalidação faz é levar o sujeito a reconhecer que seu sofrimento é real, legítimo e, portanto, merece ser investigado.

E é impressionante como, ao eliminar o peso da carga moral, a conquista do olhar autovalidador já alivia parte do sofrimento.


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Por que a infância tem tanto peso na nossa formação?

Algumas pessoas acham que a ênfase dada pela Psicanálise aos acontecimentos infantis é uma espécie de dogma ou, no mínimo, um pressuposto.

Elas estão erradas.

Ao atribuírem à infância um peso muito grande na constituição do adoecimento psíquico e na formação da personalidade, os psicanalistas estão apenas reconhecendo uma realidade que salta aos olhos de qualquer terapeuta.

Com efeito, a importância das experiências infantis aparece com muita clareza no próprio discurso dos pacientes.

Mas se o peso do fator infantil nos parece ser um fato bastante evidente (e não uma suposição teórica), as razões que motivam esse fato não são tão óbvias assim.

Por isso, é legítimo perguntar: por que a infância tem tanta influência na gênese tanto do sofrimento psíquico quanto da estrutura de personalidade?

Isso dá uma tese de doutorado.

Como eu quero fazer aqui apenas uma breve reflexão, não tenho como ser exaustivo na formulação da resposta e me contentarei em destacar um único fator: a precariedade do psiquismo infantil.

A mente das crianças não dispõe de muitos recursos para lidar com experiências dolorosas. Por isso, ela é muito vulnerável a ser profundamente alterada por situações, digamos, desafiadoras.

Ao perder um familiar muito querido (seu pai, por exemplo), você, adulto, pode lançar mão da racionalização, uma defesa madura, para aplacar a dor que está vivenciando:

“Deus sabe o que faz…”, “agora, ele finalmente descansou…”.

Pensamentos como esses amortecem o sofrimento, preservando a estrutura do seu psiquismo.

A criança, por sua vez, geralmente não dispõe de um recurso dessa natureza. Por isso, essa mesma experiência de perda pode facilmente desorganizar seu psiquismo e obrigá-la a recorrer a mecanismos de defesa patológicos, como o recalque, por exemplo.

A racionalização te permite suportar a consciência da experiência dolorosa ao suavizar o impacto afetivo dela. Já o recalque te leva a negar a dor da situação e fingir para si mesmo que nada aconteceu.

O resultado é um psiquismo fraturado, quebrado e preparado para adoecer, já que a experiência recalcada acabará sendo evocada em algum momento e só poderá ser vivenciada de modo encoberto, distorcido, por meio de um sintoma ou inibição.

Adultos podem recalcar? Sim, perfeitamente. Mas o recalque é mais propenso a acontecer na infância justamente por conta da precariedade do psiquismo da criança.

A maioria dos adultos pode lidar com experiências emocionais desafiadoras por meio do humor, da sublimação, da própria racionalização.

A criança, no entanto, só consegue se proteger de uma dor psíquica muito aguda empregando defesas que comprometem sua estrutura: cisão, identificação projetiva, o próprio recalque etc.

Esta é uma das razões pelas quais a infância tem tanta importância na constituição do psiquismo — tanto na saúde quanto na doença. A estrutura psíquica infantil é tão frágil que ela se presta facilmente a fraturas, metamorfoses e reorganizações.


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Você usa alguém como prótese emocional?

O avanço tecnológico nos permite, hoje, substituir partes ausentes ou danificadas de nossos corpos por artefatos ou dispositivos artificiais.

Chamamos essas coisas de próteses.

Se você quebra um dente, por exemplo, e precisa extraí-lo, pode fazer um implante e colocar uma prótese dentária no lugar.

Se você sofre um grave acidente e perde uma das pernas, é possível substituir o membro por uma perna ortopédica.

Mas você já parou para pensar que existem também próteses emocionais?

Diferentemente das físicas, elas não são objetos artificiais. São… pessoas.

Sim, porque nenhum artefato é capaz de realizar a função de uma prótese emocional: suprir, na vida do sujeito, a ausência ou insuficiência de uma determinada atitude ou habilidade. Só pessoas podem fazer isso.

Eu vou te dar um exemplo:

Breno sempre teve muita dificuldade para lidar com conflitos. Ele tem uma preocupação excessiva em ser visto como chato, desagradável e, por isso, costuma evitar ao máximo bater de frente com as pessoas, mesmo quando tem razão e suas reivindicações são legítimas.

Ele não se comporta assim por acaso. Na infância, essa inibição era extremamente útil para o rapaz. Entrar em conflito com sua mãe era objetivamente arriscado, pois a genitora era bastante agressiva, severa e não admitia qualquer tipo de contestação.

Como normalmente acontece, Breno transferiu o padrão da experiência com a mãe para outras relações e, assim, evita bater de frente com toda e qualquer pessoa.

O problema é que suportar e lidar com conflitos é uma habilidade importantíssima na vida adulta — tão importante quanto uma perna.

Sabendo (inconscientemente) disso, o que Breno acabou fazendo sem perceber?

Ele se casou com uma mulher que não tem problema algum em lidar com conflitos. Pelo contrário! Ágata, sua esposa, é do tipo que parece até gostar de uma boa briga.

Se o casal vai a um restaurante e o pedido vem errado, Ágata não deixa pra lá — como Breno costuma fazer. Ela se recusa firmemente a aceitar o prato e, ao sair, pode até se queixar com o gerente do estabelecimento.

Para Breno, tais posturas são impensáveis. Assim que um conflito se estabelece, a sombra ameaçadora da mãe emerge em seu inconsciente.

Por isso, se não fosse a presença da esposa, ele provavelmente aceitaria o prato errado só para não ter que vivenciar um pequeno embate com o garçom.

Ágata funciona para Breno como uma prótese emocional: ela encarna uma competência que o marido não conseguiu desenvolver.

Eu disse anteriormente que as próteses emocionais se diferenciam das físicas por serem pessoas e não artefatos. Mas há outra diferença muito importante:

Enquanto as próteses físicas substituem partes do corpo que não podem ser regeneradas, as próteses emocionais suprem atitudes, habilidades, competências que podem ser desenvolvidas.

Breno pode perfeitamente adquirir a capacidade de ser assertivo e suportar conflitos por meio de uma análise que o ajude a elaborar a relação traumática com a mãe.

De todo modo, é importante sabermos disso: muitas vezes, um dos elementos que fazem com que duas pessoas permaneçam juntas — para além de amor, desejo, companheirismo etc. — é a função de prótese emocional que um exerce para o outro.

E essa dinâmica pode ser recíproca: de repente, a postura excessivamente conciliadora e passiva de Breno também possa preencher uma falta na personalidade de Ágata.

Talvez Ágata compre mais brigas do que o necessário e se desgaste emocionalmente em excesso por não ter desenvolvido justamente a capacidade de “deixar pra lá” — que Breno tem de sobra…

E você: será que tem usado alguém como prótese emocional ou será que você é a prótese de alguém?


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Errar é humano. Persistir no erro… é mais humano ainda.

É importante começar esta reflexão esclarecendo que, ao usar a palavra “erro”, não estou adotando uma perspectiva moral. Ou seja, erro aqui não significa um comportamento que desvia de uma determinada norma de conduta.

Estou chamando de erro qualquer ação que é de responsabilidade nossa, mas que nos faz sofrer e que gostaríamos de não mais praticar.

Por exemplo: continuar mantendo contato com uma pessoa de quem você não gosta, comer em excesso, ter um “flashback” com o ex-namorado, perder a cabeça numa discussão etc.

Quem faz essas coisas sabe que elas provocam sofrimento, se arrepende, mas não consegue deixar de fazê-las. Após algum tempo, está lá a pessoa de novo repetindo o que ela mesma considera um erro.

Isso acontece com muita gente — para não dizer com todo o mundo.

Mas por que acontece?

Por que persistir no erro é tão humano?

As razões podem ser as mais variadas:

Você pode ter um medo infantil de ser retaliado se não mantiver contato com a pessoa de quem não gosta.

Pode comer em excesso porque a comida se tornou uma das poucas fontes de prazer na sua vida que, de modo geral, é um tanto insossa.

Você pode ter flashbacks com o ex porque deslocou para ele a esperança infantil de ser amada pelo seu pai.

Pode perder a cabeça com frequência porque tem uma autoimagem frágil demais para suportar qualquer manifestação de desrespeito.

Tudo isso parece muito clichê, eu sei, mas a vida é assim mesmo, meus amigos. A clínica o comprova todo santo dia.

Mas vamos voltar ao assunto.

Todas essas razões hipotéticas que eu formulei mostram que a repetição dos mesmos erros não acontece por acaso nem em função de uma suposto impulso autodestrutivo.

Ela acontece porque, a despeito do sofrimento, os erros proporcionam GANHOS para o sujeito: evitar o medo imaginário de ser retaliado, sentir prazer, renovar uma expectativa infantil, proteger uma autoimagem frágil.

Isso mostra que o erro é, ao mesmo tempo, um acerto.

É um erro do ponto de vista do seu bem-estar consciente. Mas é um acerto do ponto de vista de outra dimensão sua que não busca o bem-estar. Busca segurança, prazer, amor, respeito — ainda que essas coisas venham acompanhadas de sofrimento.

Na Psicanálise, nós ajudamos o paciente a reconhecer justamente isso: os ganhos que ele obtém ao persistir nos erros que o fazem sofrer.

Mas esse é só um primeiro passo.

Para parar de persistir no erro, o sujeito precisa se tornar capaz de não precisar mais dos ganhos.

O sujeito que mantém contato com a pessoa de quem não gosta precisa elaborar sua fantasia de retaliação a fim de dissolvê-la.

A pessoa que come em excesso precisa entender o que a levou a um modo de vida tão insosso a fim de se libertar para novas fontes de prazer.

A moça que volta e meia tem um flashback com o ex precisa elaborar sua relação com o pai a fim de poder finalmente renunciar ao amor dele.

O cara que perde a cabeça com frequência precisa fortalecer sua autoimagem para não se sentir tão facilmente ameaçado.

Enfim, é preciso tornar os erros desnecessários. Só assim é possível parar de persistir neles.


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Seus problemas emocionais não são infecções.

Tem muita gente que, sem perceber, encara seus problemas emocionais como infecções — e isso atrapalha muito o tratamento.

— Como assim “infecções”, Lucas?

Eu quero dizer que a pessoa olha para o seu excesso de ansiedade, por exemplo, como algo que simplesmente apareceu em seu vida e que não tem nada a ver com sua história, suas relações, seus conflitos internos etc.

Não é dessa forma que a gente costuma encarar uma gripe ou uma pneumonia?

E por que nós pensamos que essas doenças não têm nada a ver com nossa subjetividade?

Porque sabemos que, no fim das contas, elas decorrem de uma… infecção, ou seja, da ação de determinados microrganismos em nosso corpo.

É claro que fatores emocionais podem afetar a imunidade, mas o fato é que tais doenças não se desenvolvem sem a ação desses patógenos.

Problemas emocionais são fenômenos essencialmente diferentes.

Embora muitos deles uma forte base neurobiológica, eles não são causados por agentes que invadem nosso psiquismo.

Eles se desenvolvem em nós. E se desenvolvem articulados a uma história, a um conjunto de relações e muitos acabam exercendo uma função muito importante na nossa vida.

De fato, frequentemente nossos sintomas funcionam como soluções que nós inconscientemente encontramos para lidar com angústias insuportáveis.

Quando você olha para sua depressão, seu transtorno de ansiedade ou sua compulsão como uma infecção, você tende a pensar que a mudança é um processo que vai acontecer exclusivamente de fora para dentro (como tomar um antibiótico).

É óbvio que, eventualmente, a medicação pode ser um componente fundamental no tratamento de problemas emocionais.

Porém, se o sintoma estiver funcionando como uma solução psíquica, o tratamento exigirá uma abordagem mais complexa do que somente a prescrição de remédios.

O paciente precisa descobrir quais são suas angústias insuportáveis e ampliar sua capacidade de reconhecer, suportar e elaborar essas angústias para conseguir enfrentá-las sem precisar recorrer ao sintoma.

E é exatamente isso o que acontece numa boa psicoterapia, especialmente na Psicanálise.

Em alguns casos, são justamente os medicamentos que permitem que o paciente possa suportar esse processo. Mas atravessá-lo é indispensável.

E a gente só consegue entender isso se não olhamos para nossos problemas emocionais como infecções…


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Você se oferece como objeto para a agressividade do outro?

Você pode ter aprendido quando criança que a agressividade é essencialmente ruim ou perigosa.

E isso pode ter acontecido por uma série de fatores.

Por exemplo: você pode ter tido um pai ou uma mãe que eram excessivamente agressivos e lhe faziam sentir medo.

Ou pode ter sofrido severas ameaças e punições nas poucas vezes em que expressou agressividade.

Situações como essas podem te levar a olhar para a própria agressividade como algo que não deve fazer parte da sua vida.

O problema é que não dá para viver sem agressividade.

Por isso, já que você tem medo de se apropriar dela, ela acabará vazando em sua vida — de uma forma ou de outra.

Uma forma muito comum de “vazamento” é o que Freud chamou de “reversão”: em vez de usar a agressividade, você, inconscientemente, convoca outra pessoa para usá-la com você.

Essa “convocação” pode acontecer por meio da escolha de uma pessoa excessivamente agressiva para se relacionar ou da indução de agressividade em alguém que nem é naturalmente muito agressivo.

Dessa forma, a agressividade se presentifica na sua vida só de que maneira invertida: não é você que a manifesta; é o outro que a manifesta no seu lugar.

— Nossa, Lucas, isso parece masoquismo, não?

Sim. E não é por acaso. Deixa eu te explicar.

Na cabeça do sujeito que foi levado a ver a agressividade com maus olhos, ela passou a ser sinônimo de sadismo, ou seja, de um impulso que busca intencionalmente a destruição ou o sofrimento do outro.

Por isso, quando a agressividade vaza por meio da reversão, o sujeito não busca alguém que a vive de forma integrada e saudável. Não. Ele busca um… sádico! (Ou induz seu parceiro a agir de forma sádica).

Consequentemente, a posição que o sujeito passa a ocupar é uma posição… masoquista.

Esse é um fenômeno muito comum em relações tóxicas e ajuda a entender porque algumas pessoas não conseguem sair dessas relações.

Às vezes, quem olha de fora até chega a pensar:

“Caramba! Essa mulher parece que gosta de sofrer! Olha como o marido a trata mal…”

Não é que a pessoa gosta de sofrer no sentido de que ela obtém prazer em ser xingada e humilhada por seu marido.

É que, talvez, essa seja a única forma que ela encontrou de permitir a presença da agressividade em sua vida: sendo objeto do sadismo alheio…


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A homofobia como formação reativa

Se tem uma coisa que a gente ama na vida é nossa autoimagem.

Não, não estou falando da imagem que você vê no espelho. Dessa, você até pode não gostar muito. Estou me referindo à ideia que você faz de si mesmo, ou seja, da resposta que você daria para a pergunta “Como eu sou?”.

A gente tem um apego danado a essa ideia.

E não é por acaso: sem uma noção suficientemente coesa de como nós somos, ficaríamos perdidos, desorientados, angustiados.

Essa, inclusive, é justamente a experiência emocional vivenciada por pessoas que sofrem de problemas na estabilização da autoimagem.

No entanto, todos nós temos diversos aspectos que ficam de fora da composição da nossa autoimagem: desejos, pensamentos, crenças, sentimentos.

E por que ficam de fora?

Porque são elementos que nós consideramos incompatíveis com a autoimagem. Elementos que, se fossem incorporados a ela, comprometeriam sua estabilidade e demandariam uma reorganização.

Então, por amor à autoimagem, a gente finge que não vê esses aspectos incompatíveis e emprega defesas para evitar que eles fiquem nos perturbando e chamando a nossa atenção.

Uma dessas defesas é a formação reativa. Ela consiste em desenvolver uma atitude alinhada à autoimagem e oposta a um determinado elemento incompatível.

Exemplo clássico: um sujeito que se vê como heterossexual, mas possui desejos por pessoas do mesmo sexo.

A admissão desses desejos implicaria numa reorganização significativa da autoimagem dessa pessoa. Ela precisaria passar a se ver não mais como hetero, mas como bissexual.

Para muita gente, essa transformação não seria um problema, mas, para o sujeito do exemplo, sim. Por razões ligadas à história de vida dele, a ideia de ser hetero ocupa um lugar central em sua autoimagem.

Por isso, ele precisa se defender dos desejos homossexuais que possui e que insistem em chamar sua atenção.

Se ele utilizar a formação reativa, o resultado pode ser uma atitude homofóbica, ou seja, uma postura de aversão e repúdio à homossexualidade.

É como se, inconscientemente, o sujeito pensasse: “A prova de que sou 100% heterossexual e que, portanto, nenhum desejo por pessoas do mesmo sexo existe em mim, é que eu tenho aversão à homossexualidade e repudio o comportamento homossexual.”

Isso não significa que a formação reativa seja o único fator responsável pela homofobia ou que todo homofóbico se defenda de desejos homossexuais que não consegue reconhecer em si mesmo.

A moral da história é que o amor que a gente tem pela autoimagem nos leva a odiar os elementos que, apesar de estarem em nós, não cabem nela. E aí, no esforço para defender a autoimagem da invasão desses elementos incompatíveis, a gente pode acabar odiando o que está fora de nós, mas nos lembra que eles existem.

— Tem como mudar isso, Lucas?

Sim, existe um método que nos ajuda a reduzir esse apego excessivo que temos pela autoimagem e a perder o medo de reorganizá-la: chama-se… Psicanálise.


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Você tem jogado suas pérolas a porcos?

Um mestre judeu do primeiro século costumava orientar seus alunos a não atirarem pérolas a porcos porque estes, em vez de admirá-las, as pisariam.

Evidentemente, o sábio estava falando em sentido figurado — até porque a maioria dos seus alunos não tinha dinheiro para comprar uma pérola sequer.

Portanto, naquele contexto, a joia estava sendo utilizada como metáfora de algo muito valioso.

O conselho do mestre tinha por objetivo mostrar que algo que os alunos consideravam muito valioso poderia ser completamente desprezado por gente incapaz de reconhecer seu valor (os porcos).

Por isso, eles deveriam escolher com muito cuidado as pessoas com as quais compartilhariam suas “pérolas”.

Esta é, de fato, uma sábia advertência.

De vez em quando eu ouço pacientes dizendo que tentam conversar com familiares ou cônjuges em momentos de angústia e acabam saindo da conversa num estado emocional pior ainda.

Isso acontece porque, na maioria das vezes, o interlocutor em questão fica querendo enfiar conselhos simplórios goela abaixo do paciente ou diz que a pessoa não tem motivos para se sentir daquela forma, que é só ela pensar de outro jeito.

Ou seja, o interlocutor, em vez de acolher a expressão de angústia do paciente e tentar ajudá-lo de forma empática e sensível, faz com que o sujeito se sinta errado.

Nesses casos, o familiar ou cônjuge faz isso por ser uma pessoa má e insensível?

Provavelmente, não. Eles geralmente adotam essa postura invalidadora porque não estão preparados para lidar com aquela angústia.

Muitos, inclusive, se sentem, eles mesmos, angustiados nessa situação e acabam soltando conselhos simplórios justamente para se aliviarem.

Em outras palavras, para as pérolas de angústia que o paciente está compartilhando, eles são… porcos.

Eu sei que o ideal seria a gente ter familiares e cônjuges que soubessem acolher nossas angústias, mas, infelizmente, isso nem sempre acontece.

Você pode estar até satisfeita com seu casamento, por exemplo, mas ter um marido com quem não pode contar para desabafar e falar sobre suas questões emocionais. Com efeito, se fizer isso, ele logo começará a te dar sermão, em vez de simplesmente te ouvir.

Neste sentido, talvez seja melhor obedecer ao conselho do mestre judeu e deixar para compartilhar suas pérolas de angústia apenas com quem saberá dar a elas o devido valor.

Pode ser uma amiga, outro familiar ou, quem sabe, um bom analista.


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Você teve alguma necessidade emocional não atendida?

Todos nós temos necessidades emocionais que precisam ser atendidas na infância para que conquistemos funções psíquicas fundamentais.

Sim, estou falando de necessidades mesmo, não de desejos ou impulsos. Necessidades.

Trata-se de coisas que são tão indispensáveis para a saúde psíquica básica quanto a alimentação é indispensável para a sobrevivência.

Você me verá utilizar o termo “suficientemente” diversas vezes, inspirado em Winnicott, para deixar claro que essas necessidades não precisam (e nem podem) ser satisfeitas de modo perfeito. Elas só devem ser suficientemente bem atendidas.

É possível identificar as necessidades emocionais atendendo pacientes que não tiveram algumas delas suficientementebem atendidas.

Com efeito, parte do sofrimento dessas pessoas se deve justamente ao fato de não terem desenvolvido suficientemente bem as funções psíquicas que dependem das necessidades emocionais.

— Lucas, tá muito abstrato. Me dá um exemplo!

Claro! Vamos lá:

Todos nós temos a necessidade delimite. Essa talvez não seja a melhor forma de nomear essa necessidade e talvez um dia eu escreva um texto mais acadêmico e invente um nome pomposo para ela.

Mas a ideia é muito simples: nós não nascemos com a capacidade inata de frear nossos impulsos e regular nosso próprio comportamento. A gente aprende a fazer isso internalizando um movimento de limitação e restrição que, inicialmente, é feito pelos adultos que cuidam de nós.

Ou seja, para que eu desenvolva suficientementebem essa capacidade de autocontrole ou autorregulação (como a gente diz hoje em dia), eu preciso que minha necessidade emocional de limite tenha sido suficientementebem atendida. Só assim o processo de internalização será suficientementebem sucedido.

Outro exemplo: a necessidade de reconhecimento.

Tem gente que passa a vida inteira ansiando por aplausos e pelo olhar de admiração de outras pessoas porque não desenvolveu suficientemente bem a capacidade de se admirar e reconhecer o próprio valor.

Ora, você concorda comigo que essa é uma função indispensável para a saúde psíquica?

Mas por que essas pessoas não conseguiram desenvolvê-la suficientemente bem?

Justamente por que sua necessidade de reconhecimento não foi suficientemente bem atendida na infância.

Para usar uma expressão que Freud consagra no texto sobre o narcisismo, são pessoas que, infelizmente, não foram tratadas como “sua majestade o bebê”.

Elas podem até ter sido bem alimentadas, bem cuidadas, mas não foram suficientemente reconhecidas e admiradas — como toda criança precisa ser.

A insuficiência de certas funções psíquicas fundamentais leva o sujeito a buscar compensações para tentar suprir aquilo de que foi privado na infância.

Como eu disse, a dificuldade de se aplaudir internamente e se valorizar pode levar a pessoa a buscar com uma avidez doentia o reconhecimento do outro e a se sentir extremamente angustiada quando não consegue isso.

Eu acredito que muitos influenciadores e famosos em geral provavelmente sofrem desse problema.

Da mesma forma, a dificuldade de se regular ocasionada pelo não atendimento da necessidade de limite na infância pode levar o sujeito a se tornar excessivamente contido, retraído, reprimido, pois ele suspeita (com razão) que terá dificuldades para se controlar se porventura relaxar.

Agora me diga você. Depois de ler este texto e pensar sobre sua história, você acha que alguma necessidade emocional não foi suficientemente bem atendida? Conta aqui nos comentários.


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Quais ideais te governam sem que você perceba?

Tem muita coisa que a gente descobre fazendo análise.

E descobre no sentido mais literal da palavra: são coisas que estavam encobertas e a gente as des-cobre.

Descobrimos desejos, medos, fantasias e também… ideais.

Isso mesmo: fazendo análise a gente descobre imagens idealizadas que queremos encarnar.

A mulher abnegada, sem vaidade, completamente desinteressada, que está sempre se sacrificando pelos outros.

O homem 100% firme, seguro, dominante, pegador.

São apenas dois exemplos comuns. Nossos ideais podem ser os mais variados.

Há quem possua o ideal de ser uma pessoa absolutamente independente, que não precisa da ajuda de ninguém.

Fazendo análise, a gente não só descobre a existência dos ideais, mas também percebe o quanto influenciaram e continuam influenciando nossas vidas.

O ideal da mulher abnegada pode fazer você se sentir culpada por usufruir de benefícios que outros pessoas não têm.

Mais do que isso: pode fazer você se sabotar e evitar esses benefícios para não sentir a dor da culpa.

O ideal do homem pegador pode fazer você destruir um relacionamento de muitos anos por achar que ficar com uma única mulher é ser menos homem.

Mais do que isso: pode fazer com que você sequer consiga permanecer em um relacionamento por mais do que alguns meses.

Como se formam esses ideais?

Eles são respostas.

Respostas que nós construímos para uma pergunta que nossa condição humana nos obriga a fazer desde o início da vida:

Que pessoa eu devo ser?

Questão incômoda para a qual construímos respostas com a ajuda de nossos pais, da sociedade e da cultura, já que a natureza não nos presenteou com respostas inatas.

Por um lado isso é bom porque não somos obrigados a nos conformar a um destino genético que não poderíamos mudar.

Por outro, essa “liberdade” nos torna vulneráveis a construir ideais que podem ser fonte de muito sofrimento — como os exemplos que eu citei.

A boa notícia é que, fazendo análise, a gente não só descobre os ideais e percebe a força deles, mas também adquire a capacidade de criticá-los, contestá-los e, eventualmente… abandoná-los.


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