Os 3 destinos da mulher segundo Freud

Com base em sua vasta experiência clínica, Freud descobriu que a diferença anatômica entre os sexos é um fator fundamental no desenvolvimento psíquico de homens e mulheres.

Inicialmente, quando o menino se dá conta de que as meninas não possuem pênis tal como ele, sua conclusão imediata não é a de que elas devem possuir um órgão sexual diferente. A primeira teoria que brota na cabeça de um garoto para explicar tal diferença é a de que as meninas um dia possuíram pênis, mas foram castradas por terem brincado em excesso com ele.

As meninas, por sua vez, evidentemente sabem que não possuem pênis, mas, quando descobrem que os meninos o têm, constroem a teoria de que elas também terão o órgão no futuro: com efeito, seu pequenino clitóris crescerá e se tornará um pênis tão grande quanto o dos garotos. Naturalmente essa teoria se mostra falsa e a menina acaba caindo num estado de desapontamento e revolta.

Como ainda ignora o valor de sua vagina, a garota só consegue concluir que nasceu incompleta. Afinal, os meninos têm algo que ela não tem. Indignada, a pequena desenvolve o que Freud chamou de “inveja do pênis”. Na verdade, essa expressão não é muito boa porque o que a menina de fato inveja não é propriamente o órgão sexual masculino, mas a CONDIÇÃO DE PERFEIÇÃO E COMPLETUDE que ela SUPÕE que o menino possua pelo simples fato de ter um pênis.

Freud observa que existem basicamente três destinos que a menina pode dar à inveja do pênis e que definirão seu futuro como mulher:

1 – RESSENTIMENTO – Neste caso, frustrada pela impossibilidade de ter o pênis, a menina renuncia à sexualidade como um todo, desenvolvendo intensa aversão ou indiferença a experiências sexuais.

2 – COMPLEXO DE MASCULINIDADE – Aqui a menina não se conforma com a suposta injustiça de apenas os meninos terem pênis e passa a emular comportamentos tipicamente masculinos, nutrindo a fantasia de ser homem.

3 – FEMINILIDADE – Este é o destino que Freud considera o mais saudável. Neste caso, a menina abandona a inveja do pênis, reconhece que não é incompleta e, ao invés de ansiar por aquilo que só os homens têm, passa a valorizar o que é especificamente feminino, como a capacidade de conceber e gerar filhos.

Dar a outra face? Talvez isso não seja para você

A compreensão equivocada de certos aspectos do Cristianismo está diretamente relacionada a processos de adoecimento psíquico.

Por exemplo, lá no início do evangelho de Mateus, a gente encontra o famoso Sermão da Montanha, um longo discurso no qual Jesus de Nazaré faz, dentre outras coisas, uma série de recomendações sobre como seus alunos deveriam viver. Num determinado trecho da homilia, Ele diz o seguinte: “Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”.

Muitas pessoas leem ou ouvem esse enunciado e compreendem equivocadamente que, para cumprirem a vontade de Deus, devem REPRIMIR os seus desejos naturais de vingança, ou seja, devem, a contragosto, engolir a vontade de dar o troco e se entregarem de modo resignado à violência do outro.

Todavia, tanto nesta passagem quanto em todas as outras, Jesus não está propondo condutas que devem ser praticadas por todas as pessoas, mas APENAS POR SEUS DISCÍPULOS. Todo o Sermão da Montanha é dirigido EXCLUSIVAMENTE para aqueles malucos que tomaram a decisão absolutamente insana de andar de cidade em cidade seguindo um jovem carpinteiro de 30 anos. Ora, vamos combinar: para quem decide viver dessa forma, dar a outra face é moleza.

Em outras palavras, o que estou querendo dizer é que todos os mandamentos proferidos por Jesus só fazem sentido e podem ser obedecidos de forma SAUDÁVEL por quem verdadeiramente (e não apenas nominalmente) se torna discípulo Dele.

Por outro lado, a maioria das pessoas, embora se denominem cristãs e participem de ritos e práticas ligadas ao Cristianismo, não são EFETIVAMENTE discípulas de Jesus. Logo, para essas, dar a outra face é um ato de violência contra sua própria natureza, procedimento pelo qual se paga com processos de adoecimento. Elas não deveriam fazer isso! Com efeito, o sujeito que se tornou discípulo de Jesus NÃO REPRIME seu desejo de vingança; ele simplesmente o abandona sem maiores transtornos, pois não faz sentido no quadro da vida que escolheu.

Quem não é discípulo, não deveria dar a outra face. Afinal, quando REPRIMIDO, o desejo de vingança converte-se em impulso de autodestruição.

Para que sua alma está predisposta?

Se você não costuma praticar atividades físicas, é muito provável que tenha dificuldades para manter o fôlego ao subir alguns lances de escada. Por outro lado, quem faz atividades aeróbicas frequentes não se sentirá tão extenuado.

Estou chamando sua atenção para essas obviedades a fim de destacar o fato de que os processos pelos quais nosso corpo passa ao longo do tempo o tornam mais ou menos predisposto a certas atividades. Quem pratica corrida três vezes por semana, por exemplo, está muito mais preparado para fugir de um assaltante do que uma pessoa sedentária.

Da mesma forma, nossa alma também apresenta predisposições advindas de nossa história. Por exemplo, há pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis em situações novas porque, no passado, foram forçadas a se adaptar de modo abrupto a um contexto diferente. A alma delas tornou-se, por conta dessa experiência, predisposta a encarar a novidade como uma ameaça. Assim, sempre que podem, fogem do desconhecido e procuram estar sempre preparadas a fim de evitar absolutamente qualquer imprevisto.

Há também aqueles indivíduos que não suportam situações de conflito. Alguns deles, além da ansiedade intensa, experimentam até sensações físicas apavorantes quando expostos a contendas e embates. A experiência clínica me autoriza a dizer que em praticamente todos os casos desse tipo verifica-se uma história marcada pela exposição precoce a conflitos familiares, geralmente entre os pais. Dito de outro modo, pessoas que evitam conflito possuem uma alma que se tornou predisposta a temer todo e qualquer confronto porque lá atrás, quando eram crianças, se sentiram extremamente ameaçadas pelo impacto dos conflitos familiares.

A terapia psicanalítica nos ajuda a identificar essas predisposições e a gênese de cada uma delas. Afinal, esse é um requisito necessário para que se possa ajudar a alma a perdê-las e a adquirir tendências e inclinações mais favoráveis à vida.

“Os histéricos sofrem de reminiscências”

A frase que dá título a esta postagem foi enunciada por Freud como uma fórmula conclusiva a respeito da origem dos sintomas dos primeiros pacientes histéricos que ele e Breuer atendiam lá no fim do século XIX.

Freud constatou que os sintomas físicos apresentados pelos histéricos eram uma espécie de monumento erguido em homenagem a um trauma emocional vivido há meses ou mesmo há anos. Os sentimentos que outrora não haviam sido expressos encontravam na doença uma forma de serem repetidamente descarregados.

Pensar o adoecimento emocional como resquício de um passado mal digerido é uma das principais contribuições da Psicanálise para a Psicopatologia. Afinal, quando olhamos ingenuamente para alguém em sofrimento, tendemos a pensar que se trata de uma resposta do sujeito a coisas que estão acontecendo atualmente com ele. De fato, as circunstâncias presentes são fatores importantes e devem ser levados em conta, mas o que aprendemos com a Psicanálise é que, na maioria dos casos, o que acontece no presente funciona apenas como um GATILHO para a evocação de traumas do passado.

Uma pessoa pode, por exemplo, desenvolver um episódio depressivo após ter sido demitida do trabalho. Isso não significa, contudo, que foi a demissão o fator que efetivamente causou a depressão. É muito mais provável que o fato de ter sido mandado embora tenha ATUALIZADO para esse sujeito outras “demissões” sofridas por ele na adolescência ou na infância e das quais nunca conseguiu de fato esquecer, como o período em que ficou distante da mãe e fantasiou que ela o havia abandonado.

Um dos objetivos da Psicanálise é alterar o modo como o paciente se relaciona com seu passado. Afinal, quem procura a ajuda de um analista o faz justamente por não suportar mais sofrer as consequências de viver fugindo da própria história. No divã, o paciente é convidado a integrar o passado, único caminho possível para evitar que ele continue se presentificando.

Os desconfortos da existência

Um dos livros mais conhecidos de Sigmund Freud, criador da Psicanálise, é “Mal-estar na civilização” ou, em bom alemão, “Das Unbehagen in der Kultur”. Se evoco aqui o título da obra no idioma original não é para ostentar erudição ou por qualquer outro vício narcísico dessa ordem. Meu intuito é apenas o de salientar que a expressão que Freud utiliza para nomear o livro pode ser traduzida de outras maneiras que representam diferentes interpretações do texto. Uma tradução que já se consagrou no Brasil, sobretudo em função da influência do pensamento do psicanalista francês Jacques Lacan, opta pelo termo “cultura” para a tradução de “Kultur” ao invés de “civilização”. Quem prefere essa tradução geralmente o faz por pretender destacar que o mal-estar de que fala Freud não deriva de certo arranjo civilizacional específico, mas é inerente à existência humana na medida em que esta seria marcada intrinsecamente pelo domínio da cultura sobre a natureza.

Curiosamente, não conheço nenhum autor que tenha advogado uma tradução diferente para a palavra “Unbehagen”. Aparentemente, todos se sentem muito satisfeitos com o termo “mal-estar”. De minha parte, vejo um problema nessa expressão. Normalmente, quando dizemos que estamos com um “mal-estar”, trata-se de uma indisposição física, quase sempre correspondente a um estado de náusea, febre ou enjoo. Penso, portanto, que mal-estar tem uma conotação médica bastante destacada que pode acabar obscurecendo o fato de que o “mal-estar” de que fala Freud é uma experiência eminentemente psicológica. Além disso, a expressão “mal-estar” pode nos levar a pensar equivocadamente (do meu ponto de vista) que a condição humana é necessariamente ruim. Afinal, o termo “mal” expressa um juízo de valor. Se formos levar o termo ao pé da letra, diríamos que o ser humano estaria fadado a estar mal.

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A neurose é o negativo da perversão: entenda

“Assim, os sintomas se formam, em parte, à custa da sexualidade anormal; a neurose é, digamos, o negativo da perversão”. Esta é a frase completa na qual aparece a famosa fórmula freudiana que dá título a essa postagem.

O que Freud quis dizer com isso?

Basicamente que os sintomas neuróticos (obsessões, compulsões, rituais, disfunções físicas, fobias etc.) são meios que uma pessoa que sofre de neurose encontra para satisfazer de forma disfarçada impulsos sexuais perversos reprimidos.

E o que são esses impulsos sexuais perversos? Ora, todas as formas de prazer sexual que não sejam estritamente genitais, ou seja, tudo o que está para-além da penetração do pênis na vagina.

Lucas, mas isso não é uma visão muito redutora da sexualidade? E o prazer oral? E a homossexualidade?

Calma! Freud não utiliza o termo perverso em um sentido pejorativo, mas com um propósito meramente descritivo e, eu diria, até subversivo na medida em que demonstra que a sexualidade “normal” é, em certo sentido, perversa.

De fato, para o pai da Psicanálise, é praticamente impossível ter uma vida sexual sem elementos perversos, isto é, sem a presença de modalidades de prazer que não sejam genitais, como o toque, o olhar, o beijo etc. Portanto, todos nós somos um pouco “perversinhos”…

E o neurótico? Bom, ele também. O problema é que o neurótico se defende de alguns desses prazeres perversos que nele se manifestam desde a infância com muita intensidade. Assustado com a força desses impulsos em si e condenando-se moralmente por possuí-los, o neurótico se reprime e acaba adoecendo. Assim, expressa suas “perversões” de forma negativa: ao invés de sentir prazer, goza com elas por meio do sofrimento dos sintomas.

Psicanálise não é autoconhecimento

Muitas pessoas dizem que fazem Psicanálise não só para se livrarem de certos sintomas, mas também pelo desejo de se conhecerem.

Entretanto, a Psicanálise não serve a essa segunda finalidade pela simples razão de que não se pode conhecer aquilo que já se sabe.

Como assim, Lucas? Explico: ao contrário do que muita gente imagina, nós não somos desconhecidos para nós mesmos. Pelo contrário: sabemos exatamente o que se encontra presente em cada pedaço de nossas almas.

O problema é que a gente deliberadamente se esquece de algumas dessas coisas. Sabe quando você tem certeza de que sabe a resposta de uma pergunta da prova, mas não consegue se lembrar dela? Então, com as coisas da alma acontece o mesmo. A diferença é que o esquecimento da resposta da prova não é proposital (pelo menos, aparentemente, não…).

Repito: nós conhecemos tudo o que se passa em nosso interior. Contudo, por medo, vergonha ou culpa, preferimos fingir que alguns dos elementos que nos habitam não existem. Isso faz com que nos tornemos estrangeiros para nós mesmos.  Não por falta de conhecimento, mas pela resistência a nos… RECONHECERMOS.

Sim, as pessoas não adoecem porque não se conhecem, mas por que não RECONHECEM certas partes de si mesmas. Nesse sentido, o que a Psicanálise promove não é autoconhecimento, mas AUTORECONHECIMENTO.

O que acontece numa terapia analítica é semelhante ao processo de aprendizagem na concepção de Platão. Para o filósofo grego, quando aprendemos uma verdade, isso significa tão-somente que estamos nos lembrando dela, pois já a conhecíamos de nossa estada prévia no mundo inteligível.

Analogamente, na Psicanálise, quando o sujeito obtém, por exemplo, um insight e se dá conta das motivações de um sintoma ou de um traço de personalidade, o que está acontecendo é um processo de RECONHECIMENTO de uma verdade que já estava ali presente, impedida de se manifestar em função das resistências internas.

Pare de se culpar pelo que você sente

Nós não controlamos nossos estados emocionais.

Podemos até evitar comportamentos que são estimulados por emoções, mas definitivamente não somos capazes de impedir que raiva, tristeza, tesão, alegria, ansiedade e outros sentimentos se instalem em nós.

Por que estou chamando sua atenção para isso que talvez pareça uma obviedade?

É que muitas pessoas se sentem culpadas por experimentarem certas reações emocionais diante de determinadas situações. E culpa é um sentimento que só é produzido diante de comportamentos que acreditamos poder controlar.

Quanta gente sofre por aí por sentir tesão por quem acha que não deveria sentir. Quanta gente se martiriza por não conseguir ter afeição pelo pai que sempre foi frio e distante. Quanta gente se chicoteia mentalmente por ter ansiedade na hora de uma avaliação.

Entenda isso: não se pode controlar sentimentos. Os afetos podem ser compreendidos, mas jamais dominados. Você não é uma máquina.

Ao invés de se condenar por estar se sentindo assim ou assado, experimente utilizar sua capacidade racional para investigar as causas do seu estado emocional.

Em vez de ser o policial de si mesmo, torne-se um pesquisador da própria alma. Como dizia Nietzsche, o conhecimento é o mais potente dos afetos.

O que é esse tal de gozo em Psicanálise?

Quando a gente pensa na palavra “gozo”, imediatamente somos remetidos à esfera sexual. Afinal, essa palavra é mais frequentemente utilizada no discurso comum como sinônimo de orgasmo.

Numa acepção um pouco mais jurídica, por assim dizer, gozo designa também o uso ou o desfrute de algo, como quando se diz que um trabalhador está “em pleno gozo de suas férias”.

O conceito de gozo em Psicanálise tem relação com esses dois sentidos da palavra, embora não possa ser reduzido a nenhum deles.

Esse termo foi escolhido por Lacan para nomear uma experiência que Freud descreveu, mas não batizou. Refiro-me à experiência da SATISFAÇÃO SEXUAL INCONSCIENTE.

Quem aqui conhece um pouquinho de Psicanálise, sabe que Freud descobriu que muitos dos nossos problemas emocionais são, na verdade, a expressão disfarçada de impulsos sexuais reprimidos. Dito de forma mais simples, a gente se satisfaz sexualmente por meio da doença.

Talvez você esteja se perguntando: “Uai, Lucas, mas como assim? Quando estamos emocionalmente doentes, o que sentimos é dor e sofrimento e não prazer. Como, então, Freud pode dizer que estamos satisfazendo impulsos sexuais por meio da doença?”.

É aí que entra o conceito de gozo. Deixa eu te explicar: como a gente reprime certos impulsos sexuais, não podemos experimentá-los conscientemente. Justamente por isso é que só conseguimos descarregá-los disfarçadamente por meio dos sintomas. Logo, a satisfação desses impulsos é feita de forma inconsciente. Conscientemente sinto dor e sofrimento, mas inconscientemente estou… gozando!

O conceito de gozo serve, portanto, para designar tanto essa experiência de “orgasmo” que a gente experimenta sem saber por meio do sofrimento quanto o próprio uso/desfrute dos problemas emocionais para a obtenção de satisfação sexual. É por isso que os psicanalistas costumam dizer coisas como “Essa pessoa está gozando com esse relacionamento doentio”.

De fato, essa é uma das descobertas mais revolucionárias da Psicanálise: a de que podemos gozar com gemidos tanto de prazer quanto de dor.

O que você fez com seu sadismo e seu masoquismo?

Masoquismo designa originalmente um modo de obtenção de prazer sexual por meio da submissão a experiências de dor e humilhação.

Há algumas pessoas, inclusive, que só conseguem chegar ao orgasmo dessa forma. Essas precisam necessariamente encontrar alguém que esteja disposto a encenar o papel complementar ao do masoquista, isto é, o papel do sádico, aquele que obtém prazer sexual por meio da dominação e da aplicação de dor sobre o outro.

Embora a maioria das pessoas não precise necessariamente estar em alguma dessas posições para gozar, sabemos que níveis leves ou moderados de sadismo e masoquismo são encontrados com muita frequência nas relações sexuais.

Atento a essa indiscutível constatação, Freud propôs que impulsos de natureza sádica, ou seja, impulsos de dominação, e impulsos de caráter masoquista, isto é, impulsos de se fazer dominar, fossem considerados componentes naturais e espontâneos do nosso instinto sexual e que, portanto, estariam presentes em todas as pessoas, não só nos sádicos e masoquistas.

Essa proposição é revolucionária. Com efeito, se todos nós somos habitados (desde a infância) por impulsos sádicos e masoquistas, é preciso verificar quais são os destinos que damos a esses impulsos. Uma criação saudável ajuda a criança a integrá-los e utilizá-los a seu favor, sobretudo nas relações interpessoais (ela consegue, com naturalidade, por exemplo, dominar quando preciso e obedecer quando necessário). Por outro lado, uma educação coercitiva pode levar o menino ou a menina a reprimirem tais inclinações para o Inconsciente, fazendo com que a força delas aumente de forma significativa.

O resultado, nesse segundo caso, será a expressão do sadismo e do masoquismo de forma neurótica e sintomática. Não raro, por exemplo, vemos pessoas que, forçadas a reprimirem seus impulsos sádicos e masoquistas na infância, se tornam adultos medrosos, que expressam sua fantasia sadomasoquista reprimida nas relações interpessoais. Tais indivíduos estão sempre “procurando” alguém que, para eles, possa encarnar o papel do sádico dominador (que nunca puderam ser) e eles próprios estão frequentemente se colocando, a contragosto, na posição de masoquistas submissos.

Amar é querer pegar, mas também é não querer largar

Podemos distinguir dois aspectos no amor: o desejo e o apego.

Por um lado, dizemos que amamos alguém ou algo quando queremos nos aproximar desse objeto e tê-lo conosco. Essa é a faceta desejante do amor. Para que ela se manifeste, precisa haver uma LACUNA entre o sujeito amante e o objeto amado, ou seja, é preciso que o objeto FALTE ao sujeito. Só desejo comer uma picanha quando não estou com ela diante de mim, evidentemente.

Muitas pessoas se equivocam imaginando que o amor se resume a esse movimento desejante. Assim, acreditam que o amor se esvai quando o desejo desaparece. Tais pessoas não conseguem perceber que o apagamento do desejo é uma consequência natural e inevitável ocasionada pela presença constante do objeto. Se elas se desesperam ou se entristecem ao notarem que o desejo se dissipou é porque não conseguem discernir com clareza a outra dimensão do amor: o APEGO.

Diferentemente do desejo, o apego não nasce da falta, mas justamente da PRESENÇA do objeto. Só nos apegamos àquilo que temos. Adriana era ávida por Lourival antes de namorá-lo. Após cinco anos de relação, essa avidez desejosa já não existe mais. No entanto, Adriana sofreria se fosse deixada por Lourival. Essa provável dor é a marca de que a jovem o ama apesar de não mais desejá-lo com o vigor de outrora. Adriana é apegada ao objeto presente que hoje está ao seu lado e que no passado lhe faltava.

Compreender que o amor se manifesta tanto como desejo pelo que não temos quanto como apego pelo que temos é uma daquelas conquistas que tornam a vida bem menos complicada.

Desabafo não é terapia: entenda por que Freud abandonou o método catártico

Desabafo não é tratamento. Foi por se dar conta disso que Freud abandonou o método catártico. Lucas, mas o que é esse tal de método catártico de que você fala?

Vamos lá: no final do século XIX, Freud, um jovem neurologista que desejava ser pesquisador universitário, começou (meio a contragosto) a atender pacientes com o objetivo de fazer algum dinheiro. Com efeito, o pobre rapaz queria desposar sua amada Martha Bernays.

Um amigo e colega mais experiente chamado Josef Breuer, cuja clínica já era bastante reconhecida e bem-sucedida na Viena dos anos 1890, vinha experimentando um novo método de tratamento da histeria, baseado na aplicação da famigerada técnica da hipnose.

O tal método consistia em hipnotizar o paciente histérico e, durante esse estado de consciência rebaixada, exortar o doente a se lembrar e relatar as ocasiões exatas em que seus sintomas haviam aparecido. Quando o paciente conseguia fazer isso, o resultado era uma explosão emocional, indicando que a narrativa dos episódios que estavam na origem dos sintomas possibilitava a DESCARGA de sentimentos que estavam represados na mente do paciente. Não por acaso, após tais relatos acompanhados desses arrebatamentos emocionais, o paciente se via livre do sintoma que estava sendo investigado.

Eis, portanto, o método catártico. Esse termo foi cunhado por Breuer e Freud tomando como referência o termo “catarse”, de origem grega (“kátharsis”) e que designa a ideia de purificação ou purgação. Num sentido metafórico, o método inventado por Breuer levava o paciente a se “limpar” das “sujeiras” emocionais que ele vinha inconscientemente guardando.

Influenciado por Breuer, Freud inicialmente também experimenta o método catártico com seus pacientes histéricos e conquista muitos êxitos. Contudo, por não se considerar um hipnotizador muito bom e, principalmente, por se dar conta de que as melhoras obtidas por seus pacientes não se mantinham com o passar do tempo, o fundador da Psicanálise decide abandonar tanto a hipnose quanto o método criado por Breuer.

Freud se dá conta de que o método catártico possibilita que o paciente “coloque para fora” os sentimentos que lá atrás haviam sido sufocados, mas não ajuda o paciente a discernir os motivos pelos quais essa repressão havia acontecido. É por isso que a pessoa voltava a adoecer: com efeito, diante de novos desafios emocionais, o paciente voltava a utilizar a mesma estratégia defensiva do passado que havia dado origem aos antigos sintomas.

Além disso, Freud percebe também que não era necessário hipnotizar o doente para ter acesso à dimensão inconsciente da psique dele. Bastava exortar o paciente a falar de forma espontânea tudo o que lhe viesse à cabeça. É essa nova técnica, a associação livre, que estará na base do novo método terapêutico, desta feita inventado por Freud, denominado Psicanálise.

O que é o Simbólico em Lacan?

O Simbólico contempla a dimensão da nossa experiência que é condicionada pela linguagem.

Diferente de outros animais, o homem não vive apenas no mundo físico, mas também no mundo cultural que, por sua vez, é constituído basicamente de palavras, ou seja, de elementos simbólicos.

Por exemplo, pense no seu nome. Quando ele aparece na lista de funcionários da empresa onde você trabalha, aquelas palavras (digamos “João de Souza”) simbolizam a sua existência naquela empresa independentemente da sua presença concreta na firma. Entendeu? As palavras fazem com que você exista não só no mundo físico, mas também em outro mundo, o mundo do registro, o mundo da representação, o mundo simbólico.

Nesse outro mundo, as palavras estão ARTICULADAS e você acaba sofrendo os efeitos dessas articulações. Por exemplo, a palavra João, escolhida por seus pais para ser o seu nome, é a mesma palavra que se utiliza em português para a tradução do nome de um dos discípulos de Jesus, autor do quarto evangelho. É também parte do nome de um brinquedo infantil, o João Bobo. Você enquanto “pessoa física”, por assim dizer, não tem nada a ver com o João Evangelista nem com o João Bobo, mas o seu nome tem e isso é o suficiente para que você sofra eventualmente os efeitos dessas relações… simbólicas.

Isso não acontece, por exemplo, com um cachorro. O fato de se chamar Bob ou Rex não faz a menor diferença na vida de um cão. Já na vida de um ser humano, as consequências de se chamar João são muito diferentes das consequências de se chamar Pedro.

Portanto, o Simbólico diz respeito à dimensão da nossa vida que é dependente das articulações autônomas existentes entre as palavras.

A gente faz Psicanálise para transformar cicatrizes em tatuagens

 

Não é possível mudar o passado.

Não é possível voltar no tempo e fazer com que seus pais frios e distantes se tornem acolhedores e amorosos. Não dá para voltar há 20, 30, 40 anos e impedir aquele abuso sexual de acontecer ou convencer sua mãe de que violência e autoritarismo não combinam com educação.

Enfim, nos é vedada a possibilidade de alterar os fatos que atravessaram nossa existência.

Contudo, podemos, sim, mudar a maneira como os enxergamos. Não, eu não estou me referindo a essas bobagens polianescas que muitos pseudoterapeutas andam dizendo por aí. O que eu, como psicanalista, proponho não é uma mera ressignificação do passado, o tal do “enxergar o lado bom das coisas”. Não existe lado bom no abuso sexual, na opressão, na frieza, na violência. Não! Na vida, diferentemente do que acontece no Instagram, não existe filtro para fazer tudo ficar artificialmente belo.

A gente não faz Psicanálise para “olhar a vida de outra forma”. A gente faz Psicanálise para se APROPRIAR da vida tal como ela é e foi (aos nossos olhos): com suas dores, com seus abusos, com seus sofrimentos.

A tendência natural que todos nós temos é a de querermos nos livrar das memórias das dores que nos marcaram.  Ou seja, não queremos TOMAR POSSE da nossa própria história. Desejamos inutilmente voltar no tempo para mudar as coisas. E, por isso, muitos de nós vivem cronicamente frustrados.

A Psicanálise vai na contramão dessa tendência. Convocamos o paciente a resistir a ela e o exortamos a olhar para o próprio passado e dizer: “Isso sou eu, essa é a minha história. Apesar de não ter escrito todas as páginas, permaneço sendo o único autor dessa obra irrepetível que é a minha existência”.

O que devo fazer para me tornar psicanalista?

1 PRECISO TER FORMAÇÃO SUPERIOR PARA SER PSICANALISTA? Não. A Psicanálise não é uma profissão regulamentada pelo Estado brasileiro. No limite, qualquer pessoa, independentemente do seu grau de escolaridade, pode se autonomear psicanalista e atender pessoas dizendo praticar a Psicanálise.

2 ENTÃO, QUEM GARANTE QUE UMA PESSOA É VERDADEIRAMENTE UM PSICANALISTA? Ninguém. Não existe uma entidade universalmente reconhecida por todos os psicanalistas que esteja autorizada a oferecer um “diploma” ou “certificado” de psicanalista. Existem diversas instituições que fornecem uma formação em Psicanálise mais ou menos organizada, mas nenhuma delas funciona como um tribunal supremo que define quem é e quem não é psicanalista.

3 NÃO SERIA MELHOR TER UM CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICANÁLISE RECONHECIDO PELO MEC SEMELHANTE AO QUE ACONTECE COM A PSICOLOGIA? Não. Isso faria o exercício da Psicanálise se tornar dependente de uma formação protocolar baseada em parâmetros de ordem estatal que poderiam ser estranhos e até avessos ao campo psicanalítico.

4 OK, ENTENDI, MAS E SE EU QUISER ME TORNAR PSICANALISTA. O QUE DEVO FAZER? Três coisas: a primeira e mais importante é submeter-se a uma análise e levá-la até o fim (o que pode levar muitos anos); a segunda é estudar sistematicamente a teoria psicanalítica, começando pelas obras dos grandes autores, a saber: Freud, Ferenczi, Klein, Winnicott e Lacan. Saiba que esse estudo não acaba nunca. Você precisaria de, no mínimo, umas 3 vidas para conseguir abarcar toda a literatura analítica. A terceira coisa é submeter-se a uma supervisão por parte de um analista mais experiente, sobretudo nos primeiros anos de prática clínica. Você pode fazer essas 3 coisas independentemente ou no interior de uma instituição.

5 E QUANDO PODEREI COMEÇAR A ATENDER PESSOAS? Não, não chegará uma carteirinha te dando habilitação para clinicar, ok? Quem decidirá isso é você mesmo. Já ouviu falar numa coisa chamada ética? Pois é. Trata-se de uma decisão ética. É você quem deve avaliar o momento em que considera estar preparado para escutar outras pessoas. Seja responsável.