O que a Psicanálise tem a ver com a guerra?

Para Lacan, em ambas encontramos três dimensões fundamentais:

Política, estratégia e tática.

Para Clausewitz, o teórico militar do qual Lacan toma essa tríade, uma nação não decide guerrear contra outra apenas para vencê-la.

A vitória é apenas um meio para atingir um fim que não é militar, mas político.

“A guerra”, diz Clausewitz, “é uma mera continuação da política por outros meios”.

Nesse sentido, a estratégia adotada em uma guerra não pode ser escolhida livremente.

Ela deve estar subordinada à política que motivou o conflito.

É só no âmbito da tática que os militares gozam de liberdade.

Afinal, uma mesma estratégia pode ser concretizada de diversas formas, com mais ou menos recursos, por meio de diferentes manobras.

Algo muito parecido acontece na análise, diz Lacan.

Em uma sessão, o analista é livre para escolher quando e como vai pontuar, interpretar, cortar, fazer silêncio.

Já no âmbito da estratégia da análise, essa liberdade se reduz bastante.

Afinal, a posição do analista não admite muitas variações, já que deve estar subordinada a uma política muito específica:

Aquilo que Lacan chama de desejo do analista.

Quer entender isso de forma clara, acessível… em Humanês?

Então, assista à aula “LENDO LACAN 12 – A política, a estratégia e a tática do analista”, que acaba de ser publicada na Confraria Analítica.

A Confraria é a minha escola de formação teórica em Psicanálise. Ela já tem mais de 400 aulas, o que equivale a mais de 600 horas de conteúdo.

É um espaço para quem quer estudar Psicanálise de forma simples, leve e sem complicações desnecessárias.

Sim, Lacan é difícil. Muito difícil às vezes.

Mas com o professor certo, você consegue entendê-lo.

Seja meu aluno.


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Que receita você recebeu dos seus pais?

A gente nasce com uma vontade louca de viver, como todos os outros animais.

Porém, diferentemente deles, não trazemos de fábrica nenhuma receita de como usar essa vontade.

Por isso, dependemos fundamentalmente do Outro.

E as primeiras pessoas que ocupam esse lugar nas nossas vidas são os pais.

São eles que nos fornecem as primeiras receitas de como lidar com nossa vontade louca de viver.

A gente pode categorizar essas receitas em dois grandes tipos: as repressoras e as balizadoras.

As repressoras são aquelas cujo princípio básico é:

“Contenha sua vontade de viver! Ela é perigosa, explosiva! Então, busque canalizá-la para objetivos nobres, pois, assim, você irá neutralizar o potencial destrutivo que ela tem.”

Já o princípio que fundamenta as receitas balizadoras é diferente:

“Abrace sua vontade de viver! Ela é potente, estimulante! Você só precisa tomar cuidado para não deixá-la transbordar e acabar, sem querer, fazendo mal para si mesmo ou para os outros.”

Pais que trabalham com receitas repressoras entendem os limites basicamente como barreiras, interdições.

Eles olham para o desejo de um filho de ficar mais tempo brincando na rua como a expressão de um “hedonismo” natural que precisa ser coibido:

— Vem pra casa agora! Amanhã você tem aula. Jogar bola na rua não vai te levar a lugar nenhum. Você tinha que estar preocupado é com os estudos.

Já os pais que oferecem receitas balizadoras encaram os limites como referências, parâmetros.

Com eles, a criança aprenderá que seu desejo de ficar mais tempo na rua não é errado; só não é prudente satisfazê-lo naquele momento:

— Eu entendo que você queira continuar brincando. Quando eu tinha sua idade, também não queria parar. Mas é que amanhã tem aula. E se você não for tomar banho agora, vai acabar dormindo muito tarde, o que não vai te fazer bem.

A diferença é gritante, né?

As receitas repressoras são baseadas no medo.

Pais que as adotam tratam a vontade de viver como se ela fosse naturalmente inclinada para “o mal”.

Os limites, pensados como barreiras, seriam uma forma de neutralizar essa tendência.

Já as receitas balizadoras são baseadas na confiança.

Pais que as adotam não julgam moralmente a vontade de viver. Para eles, ela é o que é: uma vontade-de-viver.

Nesse sentido, a criança não precisa ser encaixada no “caminho certo”; ela só precisa de algumas balizas, para não se machucar e nem machucar os outros, ao longo de seu próprio caminho.

Agora, me diga nos comentários, a receita que você recebeu dos seus pais foi de que tipo: repressora ou balizadora?


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Você nasceu programado para se apegar

O que leva os bebês a se apegarem a suas mães?

Você pode achar que a resposta é óbvia:

“Ah, Lucas, o bebê se apega à mãe porque é ela quem garante a sobrevivência dele.”

Sabe quem também pensava mais ou menos assim?

O nosso querido Sigmund Freud.

Do ponto de vista do pai da Psicanálise, o bebê aprende a amar a mãe porque ela o satisfaz.

É, digamos assim, um amor “por interesse”: é a mãe quem alivia os desconfortos dele, sacia sua fome e o mantém vivo.

Como não se apegar a esse ser tão satisfatório?

Alguns dos nossos colegas behavioristas também vão pelo mesmo caminho.

Para eles, o amor do bebê pela mãe é aprendido por condicionamento: mamãe faz com que eu me sinta bem, logo amo mamãe.

Já o psicanalista britânico John Bowlby achava que essa hipótese, embora faça muito sentido e pareça óbvia, está equivocada.

Ele observou, por exemplo, que os bebês podem se apegar até a mães que os colocam em risco.

Ou seja, parece haver em nós uma tendência inata, biológica para nos vincularmos a nossas mães, no início da vida, independentemente de como elas sejam.

Foi a partir dessa ideia que Bowlby desenvolveu sua teoria do apego.

Quem é psicanalista, terapeuta ou apenas alguém que deseja entender melhor o comportamento humano, precisa conhecer essa teoria.

Ela muda completamente nosso olhar sobre questões como: relações tóxicas, dependência emocional, isolamento…

E é por isso que eu acabo de publicar na Confraria Analítica a aula “Introdução à teoria do apego de John Bowlby”.

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Enquanto você não muda, evite cair em suas próprias armadilhas

A gente faz terapia para mudar.

Para sair de uma depressão.

Para vencer uma fobia.

Para deixar de ser tão ansioso.

Qualquer pessoa que decide investir em terapia deseja fundamentalmente mudar.

Porém, às vezes, a mudança pode demorar um bom tempo para acontecer — por conta de inúmeros fatores.

E enquanto não acontece, o que fazer?

Apenas continuar suportando o sofrimento de forma paciente e resignada?

Não.

A jornada até a mudança oferece uma recompensa valiosíssima, da qual, às vezes, não desfrutamos.

Estou falando do reconhecimento de nossas tendências automáticas.

— Como assim, Lucas?

Eu vou te dar um exemplo:

Depois de alguns meses de terapia, Jordana se deu conta da dinâmica emocional que a faz estar, na maior parte do tempo, sozinha, sem amigas:

É que ela tem uma tendência automática a achar que suas amigas a excluem e a menosprezam — e isso a faz se afastar delas.

Ouvindo o discurso da moça, é perceptível que Jordana interpreta o comportamento das amigas a partir de sua fantasia de abandono.

Um “bom dia” dito de forma não muito efusiva já vira sinal de que a pessoa não a valoriza.

Ao longo da terapia, ela foi gradualmente percebendo esse viés fantasmático, mas, emocionalmente, a sensação de ser excluída continua aparecendo.

Portanto, Jordana ainda não conseguiu mudar de fato.

A tendência automática ainda está presente nela, moldando sua percepção da realidade e induzindo a moça a se isolar.

No entanto, por ter reconhecido a tendência (ainda que só intelectualmente), Jordana tem conseguido resistir ao impulso de romper suas amizades.

A jovem ainda se sente menosprezada quando, por exemplo, vê duas amigas postando uma foto juntas, sem ela.

A diferença é que, agora, enquanto assiste a uma cena como essa, ela pensa:

“Estou me sentindo mal, excluída, rejeitada, mas sei que isso vem de uma tendência automática que estou tratando em terapia”.

Moral da história:

A gente faz terapia para mudar.

Para abandonar velhos padrões doentios.

Mas, enquanto ainda estão presentes, podemos aprender a caminhar melhor com eles, evitando, na medida do possível, continuar caindo em suas armadilhas.


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Nem divã nem associação livre: é isso que a Psicanálise faz no autismo

Recentemente, a Autoridade Nacional de Saúde da França afirmou que a Psicanálise não é recomendada para o autismo por falta de evidências suficientes de eficácia.

Muita gente interpretou isso como prova de que psicanalistas simplesmente não sabem o que fazer nesses casos.

E aí surgem ideias curiosas: que o analista colocaria a criança no divã, que pediria associação livre ou que ainda culparia os pais.

Nada disso acontece.

A clínica psicanalítica do autismo não trabalha interpretando conflitos. Ela cria condições para que o sujeito possa emergir na relação.

Na aula publicada hoje da CONFRARIA ANALÍTICA eu mostro isso NA PRÁTICA, comentando um caso real publicado em artigo científico recente.

Você verá intervenções extremamente simples — e justamente por isso profundamente difíceis:

Sustentar presença, atribuir sentido aos atos mínimos, e tratar a criança como interlocutora antes mesmo que ela responda como tal.

É aí que começa o trabalho.

A aula já está disponível no módulo Aulas Temáticas – Temas Variados.

Se você quer entender o que realmente está em jogo na clínica — e não apenas repetir opiniões — este é o momento.

Somente até HOJE (sexta, 20/02), você pode se tornar assinante no plano anual por apenas 497,00 (o valor normal é 597,00).

Link: https://lucasnapolipsicanalista.kpages.online/confraria2026


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Você vive numa fantasia porque tem medo da realidade?

Algumas pessoas vivem esperando sempre a mesma coisa dos outros. Por exemplo: rejeição, crítica, abandono, frieza etc.

E, curiosamente… quase sempre encontram.

Coincidência?

Nem sempre.

Quando uma criança passa por um grande trauma ou vive em um ambiente consistentemente traumático, ela precisa criar uma defesa doentia para se proteger.

Se proteger do quê?

Da AGONIA gerada pelo trauma ou pelo ambiente traumático.

O que qualifica uma experiência como traumática é o fato de ela ultrapassar a capacidade de compreensão mental e emocional do sujeito.

É por isso que a criança tem mais chances de passar por traumas do que o adulto. Com efeito, a capacidade de compreensão infantil é muito precária.

Para se proteger da possibilidade de voltar a vivenciar o trauma ou continuar nele, a criança, como eu já disse, tende a criar uma defesa doentia.

Essa defesa tem a estrutura de uma fantasia relacional: o outro (ou o mundo) é do jeito X; logo, preciso ser do jeito Y.

Exemplos:

  • O outro nunca me acolhe; logo, preciso me mostrar superior a ele.
  • O outro nunca me ajuda; logo, preciso fazer tudo sozinha.
  • O outro sempre me invade; logo, preciso me fechar.
  • O outro está sempre contra mim; logo, preciso estar na defensiva.

É claro que todas essas crenças são, como dizem certos filmes, “baseadas em fatos reais” — as experiências traumáticas.

Apesar disso, merecem o rótulo de fantasias porque fazem afirmações generalizadoras e absolutas que não correspondem à realidade.

São fantasias também porque são criadas justamente para substituírem a realidade.

É como se a criança pensasse:

“É melhor imaginar que esse trauma pelo qual passei sempre vai acontecer porque, assim, eu consigo, pelo menos, me manter preparada.”

O problema é que, justamente por conta dessa função defensiva, a pessoa começa, sem perceber, a desejar que a realidade comprove a fantasia.

E isso pode acontecer de duas formas:

(1) O sujeito interpreta de forma distorcida certas experiências para encaixá-las na fantasia. Por exemplo:

Um homem pode interpretar uma simples discordância da namorada como ataque para continuar sustentando a fantasia de que o outro está sempre contra ele.

(2) O sujeito estabelece relacionamentos (amorosos, profissionais, de amizade etc.) com pessoas que, de fato, vão se comportar do modo “previsto” pela fantasia.

Uma mulher pode, por exemplo, se casar com um homem frio, que está sempre criticando-a, a fim de confirmar a fantasia de que o outro nunca a acolhe.

É assim que funciona a cabeça do traumatizado: ele prefere viver na previsível fantasia desagradável do que se abrir para a realidade e ser pego de surpresa…

Você se identificou com o texto?

Se sim, qual a sua fantasia?

E como vem fazendo para “comprová-la” no seu dia a dia?

***

Você pode estudar psicanálise por anos…

e continuar sem saber o que fazer na sessão.

Foi exatamente para resolver isso que nasceu a Confraria Analítica.

Em comemoração aos 5 anos da escola, o plano anual está por R$ 497.

E sim:

👉 este é o menor valor disponível hoje

👉 e não voltará a acontecer

A promoção pode sair do ar a qualquer momento.

Hoje a Confraria reúne:

• mais de 400 aulas

• mais de 600 horas de conteúdo

• teoria explicada de forma clara

• clínica pensada para a prática real

Nada de jargão vazio.

Nada de complicação desnecessária.

Se você quer estudar psicanálise com profundidade e direção clínica, comece agora.

Entre enquanto o valor ainda está disponível.

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Quando os parceiros não entendem como cada um funciona, o casal não funciona.

— Ele só pensa nele e no trabalho, Jordana. Eu não aguento mais ser viúva de marido vivo.

Milena cruzou os braços e olhou para o chão.

Jonas balançava a cabeça, inconformado.

— Quer responder, Jonas? — perguntou Jordana, a psicanalista que atendia o casal.

O comerciante olhou para a esposa e disse:

— É inacreditável, Milena… Então, todo o esforço que eu faço lá na loja para proporcionar uma vida confortável para você e os meninos é egoísmo?

— Até parece que você faz isso por nós! Pare de se enganar! Seu negócio é querer ganhar cada vez mais dinheiro, igualzinho ao papai…

Nesse momento, Jordana questionou:

— Igualzinho ao papai? Como assim, Milena?

— Papai também só vivia para o trabalho. Eu quase não via ele em casa.

Sentindo-se injustiçado, Jonas disse:

— Não tem nada a ver, Jordana. O pai dela gastava todo o dinheiro que ganhava em jogo. Chegou a deixar a família passar necessidade. Eu nunca faria isso!

A analista interveio:

— Não é exatamente esse o ponto da comparação, Jonas. Mas é interessante que você tenha entendido dessa forma. Podemos explorar isso em outro momento. Agora, acho importante entendermos o pano de fundo da queixa da Milena.

Voltando-se para a esposa, Jordana disse:

— Parece que a dedicação tão intensa do Jonas ao trabalho ativa em você as frustrações que tinha quando criança em relação ao seu pai. E talvez essa dor pela ausência paterna na infância acabe amplificando a dor que você sente na relação com o Jonas.

Na sequência, virou-se na direção do marido e disse:

— Então, Jonas, perceba que a dedicação ao trabalho, que você vê como sacrifício e empenho pela família, a Milena enxerga como abandono afetivo, por conta da história de vida dela. São duas perspectivas totalmente divergentes, mas ambas são válidas e legítimas. Nenhum dos dois está errado.

Isso é terapia psicanalítica com casais.

O objetivo não é decidir quem tem razão nem dizer como o casal deve agir.

É ajudar os parceiros a compreenderem o funcionamento psíquico um do outro.

Eu explico isso de forma mais aprofundada e detalhada na aula “Terapia psicanalítica de casais: uma introdução”, publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.

Lá você encontra mais de 400 aulas para estudar psicanálise de forma profunda e aplicável à vida real.

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Você não precisa só de “autoconhecimento”.

Há alguns anos, a palavra “autoconhecimento” entrou na moda.

Tornou-se parte do senso comum a ideia de que deveríamos nos conhecer para melhorar nossos relacionamentos e a vida de forma geral.

O pressuposto que está na base desse pensamento é o de que ignoramos uma parte significativa da maneira como nos comportamos.

Esta premissa está correta?

É claro que sim.

Um dos maiores benefícios obtidos por quem faz psicanálise é o aumento da percepção de padrões, gatilhos e repetições.

Convidado a falar livremente sobre si, o paciente acaba se dando conta de que funciona de modo relativamente fixo em certas situações.

Então, sim, nós podemos, num primeiro momento, não ter conhecimento sobre certos aspectos de nossa personalidade e adquirir esse saber posteriormente.

Por outro lado, a experiência psicanalítica mostra que, na verdade, existem diversos elementos que nós não exatamente ignoramos, mas NOS RECUSAMOS a perceber.

É diferente…

Uma coisa é uma pessoa constatar, em terapia, que está constantemente buscando validação porque tende a achar que sempre faz tudo errado.

Isso é ganho em autoconhecimento.

Outra coisa é essa paciente perceber que sua tendência para achar que sempre faz tudo errado é resquício de uma experiência traumática que vivenciou na infância.

No primeiro caso, ela ainda não havia se dado conta da relação entre busca de validação e autocrítica simplesmente por não ter explorado essa relação — algo que só foi fazer em terapia.

Já no segundo caso, o vínculo entre a autocrítica severa e a situação vivida na infância não havia sido apenas ignorado, mas ativamente NEGADO.

Negado para manter isolada a dolorosa memória da experiência infantil.

Ou seja, inconscientemente essa mulher JÁ SABIA que uma coisa era derivada da outra. Ela só não era capaz, antes da análise, de RECONHECER essa relação.

Isso mostra que não precisamos apenas de mais autoconhecimento, mas também de autorreconhecimento — principal alvo da terapia psicanalítica.

Mapear nosso modo de funcionamento é importante, sem dúvida.

Mas a transformação profunda acontece quando atravessamos territórios internos que antes fingíamos não ver.


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Por que os obsessivos se sentem superpoderosos?

— Racionalmente eu sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas não consigo ficar tranquilo enquanto não converso com ela.

Essa foi uma das falas mais marcantes de Marcelo em sua primeira sessão de análise.

Pouco antes, o rapaz de 25 anos havia dito que, após se tocar no banheiro, fica sempre com a sensação de que alguma coisa ruim acontecerá com sua mãe.

Esse mau presságio só sai de sua cabeça depois que fala com ela e se certifica de que estava bem.

O problema é que, às vezes, Marcelo se toca quando a mãe não está em casa e pode não atender o telefone.

Resultado: até conseguir fazer contato, o rapaz fica imaginando que ela pode ter sofrido os mais diversos infortúnios.

Certa vez, Marcelo chegou a pensar que a mãe poderia ter morrido, o que lhe gerou uma crise de pânico que demorou a passar — mesmo tomando ansiolítico.

Foi depois desse dia que ele tomou a decisão de fazer terapia.

O rapaz não aguenta mais sofrer por conta de um pensamento que ele mesmo sabe que não faz sentido.

O aspecto autopunitivo do sintoma obsessivo de Marcelo salta aos olhos até de quem é leigo.

É evidente que a ideia de que algo de ruim pode acontecer com a mãe é fruto da autocondenação por se tocar.

No entanto, para além desse conteúdo, a FORMA do sintoma também é um aspecto que merece ser explorado.

Marcelo sente que uma ação sua, íntima, feita de modo completamente privado, tem o poder mágico de mexer, à distância, com a vida da mãe.

Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro, contemporâneo de Freud, chamou essa crença absurda, tipicamente obsessiva, de “sentimento de onipotência”.

E no texto “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios”, o autor mostra a origem dessa tendência dos obsessivos de se acharem superpoderosos.

Eu comentei os trechos desse artigo em que Ferenczi nos brinda com tal explicação numa aula que acaba de ser publicada na CONFRARIA ANALÍTICA.

O título dela é: “LENDO FERENCZI 12 – O sentimento de onipotência do obsessivo” e está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – FERENCZI.

A Confraria é a maior e mais acessível escola de teoria psicanalítica do Brasil, com mais de 400 aulas, o que equivale a mais de 600 horas de conteúdo.

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O que você está buscando por meio do sofrimento?

De vez em quando a gente vê pessoas tendo comportamentos que parecem indicar que elas gostam de sofrer.

Aline está sempre se queixando do trabalho, mas não pede demissão mesmo tendo recebido várias propostas melhores de emprego.

Pedro sabe que passa mal sempre que bebe em excesso, mas enche a cara todo fim de semana.

Ana Paula é uma moça linda, que está num relacionamento péssimo, com um cara frio, tóxico, mas não consegue terminar.

De fato, à primeira vista, essas pessoas parecem ter um caso de amor com o sofrimento.

Afinal, nos perguntamos, por que elas continuam fazendo o que lhes causa dor, mesmo sendo capazes de não fazer?

Aline é livre para mudar de emprego. Pedro pode beber com moderação. Não há nenhum fator objetivo que impeça Ana Paula de terminar com o namorado.

Por que, então, essas pessoas simplesmente não mudam?

É a tal da “pulsão de morte”?

Não. Essa seria uma explicação simplista.

Dizer que um indivíduo parece desejar o sofrimento porque teria, em si, um impulso de autodestruição é, convenhamos, uma hipótese meio preguiçosa, né?

Aline, Pedro e Ana Paula também não são masoquistas. Pelo menos, não no sentido popular em que esse termo é usado. Nenhum deles obtém prazer com a dor.

Na verdade, a aparente busca dessas três pessoas pelo sofrimento é perfeitamente compreensível.

Mas você só conseguiria perceber isso depois de conversar um bom tempo com cada uma delas — conversar psicanaliticamente, diga-se de passagem…

Fazendo isso, você perceberia que Aline “precisa” permanecer no emprego que lhe faz sofrer porque encontrou nele um cenário perfeito para encenar inconscientemente dramas internos que ela tenta resolver desde criança.

Conversando psicanaliticamente com Pedro, saltaria aos seus olhos a constatação de que ele enche a cara todo fim de semana porque inconscientemente acha que precisa se punir (passando mal) como penitência por uma série de culpas.

E escutando, com ouvidos de analista, a história de Ana Paula, você veria que, inconscientemente, ela se enxerga como uma criança que não pode ficar sozinha. Por isso, permanece com o namorado, ainda que ele não seja uma boa companhia.

A exploração do que se passa no inconsciente dessas pessoas conferiria racionalidade à conduta aparentemente irracional de cada uma delas.

Para as três, o sofrimento não é o que desejam. Ele é apenas um MEIO para alcançarem o objetivo inconsciente que estão verdadeiramente buscando.

Aline quer solucionar suas questões infantis. Pedro quer expiar suas culpas. Ana Paula não quer se sentir desamparada.

E você, consegue vislumbrar os objetivos inconscientes que pode estar buscando por meio desse sofrimento no qual se mantém?


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Repressão na infância, baixa autoestima e autopunição

Uma jovem adulta chega à análise queixando-se de constantes crises de ansiedade.

Há mais de um ano ela terminou um namoro desagradável, insatisfatório, mas até hoje se pergunta se fez certo ao sair do relacionamento.

A moça tem um olhar muito negativo sobre si mesma, acha que é uma farsa…

Quando bate a ansiedade, se toca compulsivamente e depois se sente culpada e suja.

Na adolescência, sofreu diversas humilhações na escola.

Na infância, foi severamente repreendida ao explorar o próprio corpo.

Como tudo isso se articula?

De que forma a repressão vivida na infância pode ter moldado a autoimagem e o tipo de sofrimento psíquico apresentado por essa moça hoje?

Como a analista pode ajudá-la a sair de suas repetições e transformar sua relação consigo mesma?

Essas são algumas das perguntas que eu respondo na aula “ESTUDOS DE CASOS 24 – Repressão na infância, baixa autoestima e autopunição”, publicada hoje (sexta) na CONFRARIA ANALÍTICA, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

Trata-se de mais uma aula do módulo ESTUDOS DE CASOS, em que comento casos clínicos reais que estão sendo conduzidos por alunos da Confraria.

Seja membro da nossa escola e libere o acesso imediato a essa aula e a todo o nosso acervo de mais de 600 horas de aulas sobre Psicanálise.


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Você ainda tem dentro de si uma criança traumatizada?

No início do livro “Natureza Humana”, o psicanalista inglês Donald Winnicott afirma o seguinte:

“[…] a saúde da psique deve ser avaliada em termos de crescimento emocional, consistindo numa questão de maturidade.”

E acrescenta:

“O ser humano saudável é emocionalmente maduro tendo em vista sua idade no momento”.

Esses trechos estão na página 30 da edição da obra publicada pela Imago em 1990.

Obviamente as afirmações de Winnicott podem ser problematizadas por aqueles que não compartilham da visão desenvolvimentista do autor.

Penso, porém, que tais ideias podem iluminar o nosso olhar para a compreensão de muitos casos de adoecimento emocional que encontramos na clínica.

De fato, não raramente temos a impressão de que a fonte primordial dos sintomas de muitos dos nossos pacientes é uma dimensão de sua personalidade que não amadureceu.

De repente, você está ali diante de um empresário de 50 anos, que chefia uma empresa com vários funcionários, mas sofre com pensamentos intrusivos que são claramente de ordem infantil.

Por exemplo, o pensamento de que não vai conseguir sobreviver se for deixado pela esposa com quem vem tendo diversos conflitos.

Ora, se uma criança de três anos chega para você e diz que ela tem muito medo de perder os pais porque não sabe quem irá cuidar dela se isso acontecer, você encara essa afirmação com certa naturalidade.

Afinal, uma criança de três anos depende muito do cuidado dos pais para sobreviver e mesmo que se lhe diga que, na ausência deles, a família extensa a acolherá, o medo de perder os genitores permanece sendo perfeitamente compreensível.

O mesmo não pode ser dito do medo de um homem de 50 anos de não conseguir suportar a falta de sua esposa.

Obviamente, é compreensível que ele tenha medo de perdê-la, mas achar que não vai dar conta de sobreviver sem ela não é um pensamento… adulto.

Tenho por certo que todos nós concordamos com a afirmação de que um adulto saudável não deveria NECESSITAR de outra pessoa específica.

Portanto, em casos desse tipo, a tese winnicottiana de que saúde é sinônimo de maturidade pode ser aplicada.

Com efeito, o paciente que tomamos como exemplo, sofre fundamentalmente porque uma parte da sua personalidade ainda não amadureceu.

O cara cresceu, namorou, casou, teve filhos, se formou, abriu uma empresa, tem uma vida aparentemente “normal”, mas uma parte dele ainda é aquele bebê traumatizado que ele um dia foi.

— Bebê traumatizado, Lucas?

Sim. São justamente os traumas que, por serem experiências insuportáveis, fazem a criança se dividir psiquicamente em duas: uma parte machucada, que se fixa ao trauma, esperando reparação, e outra que engole o choro e segue a vida.

O desafio do processo terapêutico nos casos em que essa dinâmica está presente é o de acolher a parte infantil machucada e escutá-la.

Esse procedimento funciona como um substituto simbólico para a reparação que, evidentemente, nunca virá.

É o suficiente para que a dimensão infantil abandone sua fixação ao trauma e se reintegre ao processo de amadurecimento.

Quando a criança traumatizada é ouvida, ela pode finalmente crescer.


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Os psicanalistas tratam as ideias de Freud como dogmas?

A popularização das redes sociais fez surgir um tipo muito curioso: o sujeito que se orgulha de exibir a própria ignorância.

Esse é o perfil daqueles profissionais de saúde mental que, volta e meia, fazem vídeos dizendo besteiras como:

“A Psicanálise não evolui.”

“Os psicanalistas continuam trabalhando do mesmo jeito que seus precursores de cem anos atrás.”

“Na Psicanálise, as proposições de Freud são tratadas como dogmas.”

Quem fala esse tipo de coisa está passando vergonha, pois revela uma lacuna intelectual que deveria ser mantida ao abrigo do olhar público.

Trata-se, todavia, de uma falta de conhecimento que poderia ser facilmente superada se tais fanfarrões calçassem as sandálias da humildade e fizessem parte da Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

Sim, porque tendo acesso às nossas mais de 600 horas de aulas sobre teoria psicanalítica, esse pessoal jamais continuaria repetindo tanta bobagem.

Na Confraria, faço questão de mostrar aos alunos que, embora Freud seja um autor fundamental por ter estabelecido as bases do campo psicanalítico, muitas de suas formulações foram não só criticadas, mas até refutadas por outros autores.

É o caso, por exemplo, da conhecida teoria do desenvolvimento libidinal (fase oral, fase an4I, fase fálica etc.).

O psicanalista húngaro Michael Balint, já em 1935 (Freud ainda era vivo), ousou dizer que essa teoria era fundamentalmente falsa e que as tais fases seriam, na verdade, posições defensivas adotadas por algumas crianças como respostas a experiências traumáticas.

Balint teve a audácia de re-examinar o caso do Homem dos Lobos e dizer que Freud estava errado na leitura que fizera de certos eventos da infância do paciente.

Isso, repito, já em 1935!

Como, então, podem parar de pé afirmações do tipo “a Psicanálise não evolui” e “os psicanalistas tratam as ideias de Freud como dogmas”?

Se você quiser saber mais sobre as críticas de Balint à clássica teoria do desenvolvimento libidinal, assista à aula inédita publicada nesta sexta na Confraria.

O título dela é: “A crítica de Balint à teoria do desenvolvimento libidinal” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS da Confraria.

Assine aqui.


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Será que seu medo é só uma máscara para um desejo?

Normalmente, nossos pensamentos e os sentimentos que os acompanham estão conectados de forma adequada.

Por exemplo: se eu pedir que você pense em sua melhor amiga e lhe perguntar o que sente ao fazer isso, provavelmente sua resposta será algum afeto positivo como ternura, carinho etc.

Da mesma forma, 99% de vocês diriam que sentem asco, nojo, repugnância ao se imaginarem num restaurante comendo um prato enorme de… fezes.

— Ah, Lucas, mas isso é óbvio. Por que você está tomando meu tempo para falar de banalidades?

Calma. Isso foi só uma introdução.

Meu objetivo aqui é falar sobre as situações em que há uma desconexão entre pensamentos e afetos. Conhecê-las pode te ajudar a pensar melhor sobre si.

Quando certos pensamentos entram em conflito com nosso ego (a imagem que queremos — ou suportamos — ter de nós mesmos), um dos mecanismos de defesa que utilizamos para proteger essa imagem é o RECALQUE.

Inicialmente, Freud achou que ele consistia simplesmente em tirar o pensamento perturbador do alcance da consciência.

Porém, a experiência clínica foi mostrando que este é apenas um dos desfechos possíveis do recalque.

Na verdade, a operação fundamental desse mecanismo é o rompimento da ligação original entre pensamento e afeto.

Essa desconexão, em si, é suficiente para proteger o ego.

Ou seja, o pensamento não precisa necessariamente ser deletado da consciência. Basta separá-lo do sentimento que o acompanhava.

Por exemplo: vamos supor que você teve uma briga feia recentemente com seu pai e lhe passou rapidamente pela cabeça a ideia de que seria bom que ele morresse.

Incapaz de suportar esse pensamento, você automaticamente o recalcou, ou seja, desconectou a ideia da morte do pai do sentimento que a acompanhava no momento (ódio).

Separado do pensamento original, o ódio pode se vincular a outra ideia, por exemplo, à de um influenciador digital, levando você a se tornar a mais nova hater do sujeito em questão…

Já o pensamento sobre a morte do pai pode permanecer na consciência, acompanhado, agora, não mais pelo ódio, mas pelo MEDO.

Você passa a se preocupar exageradamente com a saúde de seu pai, liga todos os dias para saber se ele está bem, fica aflita quando ele faz uma viagem de carro…

A ideia de que seu pai poderia morrer não sai da sua cabeça, mas, agora, ao pensar nela, você não se vê como uma pessoa que QUER que isso aconteça (autoimagem insuportável), mas como alguém que busca justamente evitar tal desfecho.

Se essa preocupação excessiva começa a atrapalhar seu sono e seu dia a dia, de repente você pode decidir fazer terapia.

Se o terapeuta for cognitivo-comportamental, ele provavelmente vai tentar te ajudar a se convencer de que esse medo exagerado de que seu pai morra não tem fundamento na realidade, que é só um conjunto de “pensamentos automáticos” nutridos pela ansiedade.

Mas se o terapeuta for psicanalista, ele te ajudará a traçar a HISTÓRIA dessas preocupações, reconstruindo as ligações que foram desfeitas pelo recalque.

E então você perceberá que o verdadeiro objeto do seu medo não é a morte do pai, mas a imagem de si como filha que um dia desejou isso.


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O que te mantém em seu relacionamento?

O que leva uma pessoa a se interessar por outra, do ponto de vista amoroso, costumam ser algo muito superficial:

Aparência física, modo de conversar, estilo, traços de personalidade, status social etc.

Por outro lado, o que faz com que duas pessoas estabeleçam e mantenham um laço amoroso consistente são motivos mais profundos.

E justamente por serem dessa ordem, tais elementos não são facilmente visíveis. Só conseguimos vislumbrá-los mediante uma análise franca e cuidadosa.

Você pode até ter se interessado por seu marido por achá-lo atraente, mas o que te mantém na relação tem muito mais a ver com você do que com ele.

Uma das principais razões pelas quais vocês estão juntos pode ser o fato de que ele possui aspectos que você gostaria de ter, mas não consegue.

Você pode ser, por exemplo, uma pessoa extremamente passiva, boazinha, que aceita tudo e ele, em contrapartida, ser temperamental, caprichoso, rígido.

A assertividade e firmeza que faltam em você estão presentes nele em excesso.

Sim, a sabedoria popular está certa: os opostos se atraem.

Não raramente, nos vinculamos a pessoas que supostamente nos “completam” por encarnarem elementos que nos faltam.

Mas podemos também consolidar relacionamentos com parceiros que representam aquilo que FALTOU em nossa história de vida.

De repente, você teve uma mãe que não lhe dava muita atenção. Talvez ela trabalhasse muito, talvez ela simplesmente não quisesse ter sido mãe. Acontece.

E aí, carente da atenção materna, o que você faz? Inconscientemente, procura alguém que não tirará os olhos de cima de você.

Você gostou da sua namorada logo de cara porque ela era bonita, interessante, gostava das mesmas coisas que você, mas…

O que te fez CONTINUAR na relação foi o fato de que essa moça te deu o que sua parte infantil ainda pedia para mamãe: olhar, atenção…

O problema é que ela te olha até demais, né? E você, que na infância se sentia invisível, não reconhecido, agora se sente… controlado.

“Cuidado com o que desejas…”, diz o provérbio judaico.

— Tem como evitar que isso aconteça, Lucas?

Complicado… Até porque, sem terapia, dificilmente a gente reconhece nossas carências. Então, naturalmente somos guiados por elas.

Mas nem tudo está perdido.

Fazendo análise, podemos repensar as eventuais escolhas compensatórias que fizemos e decidir, com mais consciência, se queremos mantê-las ou abandoná-las.


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