Freud é Freud, Lacan é Lacan

Quando estamos estudando o pensamento de um autor, é muito importante separarmos o que ele efetivamente disse das RELEITURAS propostas por seus comentadores.

Em que pese o fato de ter formulado uma nova e robusta matriz teórica em Psicanálise, Jacques Lacan pode ser considerado um grande comentador da obra freudiana, talvez o maior de todos.

Ao exercer esse papel, Lacan muitas vezes expôs discordâncias em relação a certos pontos da teoria de Freud.

Muitos analistas, no entanto, seduzidos pela brilhante retórica lacaniana, acabam recalcando tais discordâncias e passam a achar que o que Lacan está propondo corresponde exatamente ao que Freud disse.

Isso acontece, por exemplo, na questão do desenvolvimento psicossexual.

Lá no Seminário XI, o analista francês faz questão de dizer: Freud acredita na maturação da pulsão sexual; eu, não.

Sabe esse negócio de fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital?

Então… Tem gente que acha que essa caracterização do desenvolvimento psicossexual em fases é irrelevante na obra de Freud porque Lacan não está de acordo com ela.

Quem pensa assim acredita que Lacan conseguiu extrair uma suposta “verdade verdadeira” que estaria implícita no texto freudiano.

Trata-se, a meu ver, de um baita engano!

Lacan não está para Freud como Paulo de Tarso está para Cristo.

Apesar dos evidentes pontos de confluência, trata-se de concepções teóricas distintas.

Sobre essa questão das fases do desenvolvimento psicossexual, não resta a menor dúvida de que Freud a considerava como um elemento importantíssimo em sua teoria.

Tanto é assim que num de seus últimos textos, o “Esboço de Psicanálise”, ele dedica um capítulo inteiro para falar do desenvolvimento da função sexual, entendendo-o como um processo de maturação biológica com começo, meio e fim.

Freud pensava assim. Lacan, não.

Você não é obrigado a concordar com Freud e pode preferir a leitura lacaniana, mas é preciso ter a honestidade intelectual de admitir que um fala uma coisa e o outro fala outra.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma pequena aula especial sobre essas diferenças entre as visões de Freud e de Lacan sobre o desenvolvimento da sexualidade.


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Nem repressão nem frouxidão: sobre o papel dos pais na vida das crianças

Quando a gente se propõe a refletir sobre as funções que os pais exercem na vida de seus filhos (ou deveriam exercer), existem muitos pontos de partida.

Podemos pensar, por exemplo, no papel crucial que eles desempenham no processo de socialização da criança.

Sempre costumo dizer em minhas aulas que, no início da vida, somos apenas filhotinhos de Homo sapiens e que só depois nos tornamos de fato SÓCIOS da grande sociedade humana.

A passagem para a condição de sócio não é automática. Ela demanda de nós a internalização de certos parâmetros, regras e padrões que não vêm conosco “de fábrica”.

Uma das principais tarefas dos pais é a de introduzir a criança gradualmente na dimensão dessas normas sociais. Com efeito, os pais são os primeiros “sócios” com os quais a criança se depara.

E é por meio da convivência com eles que os pequenos vão incorporando os requisitos básicos que os tornarão capazes de viver socialmente.

Por outro lado, os pais também exercem um papel determinante no DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL de seus filhos.

Um elemento fundamental da saúde mental é a experiência de se sentir SENDO, isto é, a sensação de que a gente está efetivamente VIVENDO de forma autêntica e não apenas reagindo passivamente ao que acontece.

A conquista dessa experiência está diretamente relacionada ao que acontece na relação entre pais e filhos na infância.

De fato, a criança só poderá vivenciar essa sensação de liberdade e autenticidade se puder contar com pais que não a reprimem, mas, ao mesmo tempo, não a deixam perdida e insegura.

Uma criação repressiva tolhe o movimento espontâneo da criança e a leva a trocar sua criatividade natural pela adaptação passiva e submissa aos ditames do outro.

Por outro lado, o viver autêntico só é possível num contexto de confiabilidade. Ninguém consegue VIVER tranquilamente se precisa estar o tempo todo preocupado em SOBREVIVER.

Por isso, os pais não devem ser invasivos e repressivos, mas também não podem ser frouxos e negligentes.

Cabe a eles oferecer à criança um ambiente confiável e seguro para que ela vá pouco a pouco internalizando esses atributos e se torne capaz de confiar em si mesma e se sentir naturalmente segura.


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Você tem vivido em função das mentiras nas quais acreditou quando era criança?

Imagine que eu peça a você que execute a seguinte tarefa:

– Localize em seu computador todos os arquivos que foram deixados nele por um gnomo travesso.

Ainda que você se esforçasse bastante, jamais conseguiria atender esse pedido pela simples razão de que ele está fundamentado numa premissa falsa: a de que existem gnomos.

A formulação da tarefa pode até fazer sentido. Afinal, volta e meia você procura arquivos no seu computador.

O problema é a premissa de que os arquivos a serem localizados foram colocados por um gnomo.

Se você acreditasse nela, passaria horas e horas inutilmente pesquisando em sua máquina.

E é exatamente esse desperdício de tempo e energia que está em jogo na vida de muitos de nós quando vivemos em função de premissas falsas que encontramos na infância.

Vejamos, por exemplo, o drama de um jovem que desde criança foi levado a acreditar na falsa premissa de que precisa ser como seu pai para ser um “homem de verdade”.

Ora, a menos que tenha a oportunidade de fazer terapia, esse sujeito passará a vida inteira se esforçando inutilmente para se tornar “um homem de verdade”.

Trata-se de uma busca inútil porque ele NUNCA conseguirá se sentir verdadeiramente à vontade com sua condição masculina pela simples razão de que ele a atrelou a uma premissa falsa.

Por mais que se torne parecido com seu pai, sempre restará em seu íntimo a suspeita de que tal semelhança foi obtida às custas de muito esforço e, portanto, não é espontânea e autêntica.

O mesmo acontece com aquela mulher que ouviu reiteradamente quando criança que não deveria ter nascido e que seu nascimento só trouxe problemas para a família.

Acreditando nessa falsa premissa, tal pessoa passará a vida inteira tentando provar para o mundo e para si mesma que tem valor e que mereceu a “oportunidade” de ter nascido.

Tem muita gente por aí tentando localizar arquivos espalhados por gnomos sem parar um minuto sequer para pensar que tais seres não existem…

Na Psicanálise somos convidados justamente a questionar as premissas nas quais baseamos toda a nossa vida e, não raro, percebermos a falsidade delas.


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Ansiedade e depressão: quando a gente nega a vida

O psicanalista Karl Abraham, contemporâneo de Freud, escreveu o seguinte, em 1911, no artigo “Notas sobre a investigação e tratamento psicanalíticos da insanidade maníaco-depressiva e condições relacionadas”:

“Todo estado neurótico de depressão, assim como todo estado neurótico de ansiedade, com o qual se encontra intimamente relacionado, contém uma tendência para negar a vida”.

Esse é o arremate final de uma breve meditação que Abraham faz sobre a gênese da ansiedade neurótica e da depressão.

Ao tratar da primeira, ele recorre à tese original que Freud propôs para explicar os estados ansiosos de caráter patológico:

A tese de que a ansiedade neurótica seria resultante de uma repressão dos impulsos.

A experiência clínica do pai da Psicanálise mostrou a ele que, ao erguerem dentro de si rígidas barreiras contra os próprios impulsos, os neuróticos passam a encará-los como ameaçadores e perigosos e, desta forma, se sentem ansiosos.

Podemos dizer, então, que um estado neurótico de ansiedade brota de uma defesa contra a própria espontaneidade e, portanto, contra a vida.

Quanto à depressão, Abraham propõe uma tese inspirada nas ideias de Freud sobre a melancolia:

Uma pessoa se deprime quando, ao invés de reprimir seus impulsos, simplesmente desiste de tentar satisfazê-los.

Devido a uma dificuldade particular de reconhecer a presença do ódio e da agressividade dentro de si, o deprimido não se sente amado, por um lado e, por outro, se sente incapaz de amar.

Projetando sua agressividade no outro, ele se sente alvo da hostilidade alheia.

Ao mesmo tempo, com medo de acabar expressando seu ódio na relação com o outro, o deprimido tira o seu time de campo e desiste de amar.

Vemos que tanto na ansiedade neurótica quanto na depressão, o resultado, como diz Abraham, é uma negação da vida em toda a sua pulsação e intensidade.

O ansioso nega a vida estabelecendo uma ditadura moralista no interior de si mesmo.

O deprimido nega a vida desistindo de entrar em campo pelo medo de se machucar e de fazer falta no adversário.


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Tesão pelo controle: o segredo dos disciplinados

Pessoas desorganizadas, que não conseguem seguir uma rotina e vivem procrastinando tarefas costumam admirar indivíduos disciplinados.

Ao mesmo tempo, têm dificuldade para entendê-los:

— Como você consegue acordar no mesmo horário todos os dias?

— Como consegue não assaltar a geladeira numa noite de insônia?

— Como consegue deixar de comer um docinho depois do almoço?

— Como consegue fazer atividade física todos os dias?

Essas são algumas das perguntas que os disciplinados costumam ouvir dos indisciplinados.

Quem não consegue ter disciplina imagina que a vida dos disciplinados é constituída puramente de sofrimento, sacrifícios e privações.

É essa falsa crença que deixa os indisciplinados atônitos.

Na cabeça deles, disciplina é sinônimo apenas de frustração e falta de prazer. Assim, não conseguem entender como uma pessoa se submete voluntariamente a isso.

O que não percebem é que a obediência a uma rotina e a privação de determinadas delícias como bebidas, comidas e horas a mais de sono podem ser fonte de MUITA SATISFAÇÃO.

Trata-se de um tipo de gozo que não vem exatamente na forma de prazer sensorial, mas que é vivido como alegria por quem é disciplinado.

É a satisfação que brota do CONTROLE sobre o próprio corpo, sobre os próprios impulsos e sobre o cotidiano.

É óbvio que há uma boa dose de masoquismo e defesas obsessivas em jogo, mas qual é o problema? Todo o mundo tem seus tesõezinhos perversos e suas defesas…

O fato é que, ao contrário do que pensam os indisciplinados, quem consegue ter disciplina GOZA com essa quase “tortura” autoinfligida, como os mártires antigos que cantavam louvores a Deus enquanto eram queimados.

Portanto, o segredo dos disciplinados não é nenhuma dessas bobagens de “força de vontade”, “mindset” etc.

O que diferencia uma pessoa que consegue ter disciplina de outra que não consegue é que a primeira tem um tesão danado em se conter, se privar, se controlar.

Ninguém daria conta de manter uma rotina e evitar cotidianamente prazeres se não GOZASSE com isso…


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O que Lacan quis dizer ao propor que o Inconsciente é uma cadeia de significantes?

Uma das contribuições mais interessantes de Jacques Lacan para o campo psicanalítico foi sua tese de que o Inconsciente poderia ser pensado como uma cadeia de significantes.

Ao propor essa ideia, Lacan está enfatizando o papel que as “palavras” em si mesmas (e não o significado que se supõe estar atrelado a elas) exercem nas formações do Inconsciente, isto é, nos sonhos, atos falhos e sintomas.

Coloquei o termo PALAVRAS entre aspas porque a noção de significante em Lacan não contempla apenas uma palavra especificamente, mas isso é assunto para outra postagem.

Na análise do segundo sonho de sua paciente Dora, por exemplo, Freud chega à conclusão de que a estação de trem tão buscada pela paciente no sonho representa o órgão genital feminino.

Tal dedução não foi feita por conta de uma possível semelhança entre uma estação e uma vagina, mas devido à presença na PALAVRA “Bahnhof” (estação, em alemão) do mesmo sufixo “hof” presente na PALAVRA “Vorhof” (vestíbulo da vagina, em alemão).

O significante é justamente o elemento material arbitrário que, unido, a uma ideia, compõe um signo linguístico.

Por que arbitrário? Por que não há nenhum motivo natural para que um significante esteja colado a um determinado significado.

Tanto é assim que um mesmo significante pode estar associado a significados completamente diferentes.
O significante “livre”, por exemplo, está geralmente associado, em português, à ideia de um sujeito que goza de liberdade, ao passo que, em francês, ESSE MESMO SIGNIFICANTE pode estar vinculado à ideia de um texto escrito.

Ao formular a tese de que o Inconsciente é uma cadeia de significantes, Lacan está propondo que, no tratamento psicanalítico, trata-se menos de buscar significações profundas na fala do paciente e mais de mapear os significantes que se repetem na vida do sujeito.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje (sexta) uma aula especial em que comento um trecho da obra de Lacan nos qual ele trata dessa concepção do Inconsciente como uma cadeia de significantes.


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A gente faz Psicanálise para descansar

A vida exige de todos nós a criação de máscaras.

É impossível sobreviver socialmente sendo 100% espontâneo o tempo todo.

A gente aprende isso desde muito cedo, logo na primeira infância, quando descobrimos que o mundo é cheio de regras e padrões que precisam ser obedecidos.

Assim, aprendemos que frequentemente será necessário conter nossos impulsos e tendências naturais por trás de uma máscara que nos permita interagir socialmente.

Por outro lado, determinadas circunstâncias da vida podem levar alguns indivíduos a sufocarem sua espontaneidade de forma excessiva.

Por conta disso, eles passam a se IDENTIFICAR COMA PRÓPRIA MÁSCARA, esquecendo-se de que ela é tão somente uma “ferramenta” de sobrevivência social.

Mas sufocar os próprios impulsos e tendências naturais dá muito trabalho e, cedo ou tarde, a pessoa começa a se cansar de fazer tamanho esforço o tempo todo.

É geralmente quando bate esse cansaço e começam a aparecer fenômenos como sensação de vazio, crises de ansiedade e falta de interesse pela vida, que o sujeito considera procurar ajuda.

Se porventura ele se encontrar com um psicanalista, terá a oportunidade, talvez pela primeira vez em sua história, de finalmente DESCANSAR.

Numa terapia psicanalítica, essa pessoa será convidada a abandonar sua máscara e colocar em palavras, num contexto seguro e confiável, a espontaneidade que até aquele momento vinha sufocando dentro de si.

Ao buscar ajudar pessoas a se reencontrarem consigo mesmas e não a se moldarem a parâmetros externos, a Psicanálise muitas vezes funciona como uma estação de repouso para aqueles que estão “cansados e sobrecarregados” de sustentar o peso de suas máscaras farisaicas.


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Amar ao próximo como a si mesmo: um olhar psicanalítico

De acordo com a resposta dada por Jesus de Nazaré aos fariseus, esse seria o segundo principal mandamento da Lei dos judeus.

O primeiro aspecto que me chama a atenção nesse imperativo é justamente o fato de ele existir.

Explico:

Eu não preciso mandar Fulano fazer a coisa X se Fulano já faz a coisa X de forma espontânea.

Não faz sentido, por exemplo, mandar uma pessoa que adora pizza comer esse alimento visto que ela já faz isso naturalmente.

Assim, Deus não precisaria instituir o mandamento do amor se acreditasse que os seres humanos espontaneamente amam uns aos outros.

A ordem de amar ao próximo só existe porque, “na cabeça de Deus”, o homem não possuiria uma inclinação natural para a solidariedade e a generosidade.

Essa conclusão fica ainda mais clara quando nos atentamos para o fato de que o mandamento curiosamente vem acompanhado de um parâmetro:

Nós devemos amar ao próximo na mesma proporção em que AMAMOS A NÓS MESMOS.

Isso mostra que o autor do mandamento (supostamente Deus) trabalha com o pressuposto de que os seres humanos NATURALMENTE se amam.

Com efeito, não existe a ordem “Amem a si mesmos”. Ela não é necessária. Afinal, a gente já faria isso de modo automático.

É como se Deus estivesse dizendo mais ou menos o seguinte: “Eu sei que vocês já são naturalmente  apaixonados por si mesmos. Porém, eu preciso que façam um esforço para amarem uns aos outros também”.

Curiosamente, todo esse raciocínio sobre o que é natural no homem e o que precisa ser instituído por meio de um mandamento exterior vai ao encontro das ideias de Freud.

Com efeito, do ponto de vista freudiano, o narcisismo, essa tendência de amar, cuidar e proteger o nosso próprio eu, não precisaria ser ensinado à criança. Ele seria espontâneo.

Assim como está pressuposto no mandamento, para Freud todo o mundo desenvolve naturalmente esse amor pela imagem de si desde bebê.

Já o amor ao próximo precisaria ser apresentado à criança pelos pais como uma ordem para depois ser internalizado na dimensão do superego.

O problema é que Freud se equivocou ao pensar que todo o mundo desenvolve naturalmente e suficientemente bem o narcisismo.

Mais isso é assunto para outro momento…


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Por que temos tanta dificuldade para abandonar nossos problemas emocionais?

Por que será que a gente não sai de uma depressão apenas com força de vontade?

Por que será que permanecemos em relacionamentos ruins mesmo já estando convictos de que deveríamos sair deles?

Por que será que padrões doentios como procrastinação, crises de ansiedade e compulsões se repetem na nossa vida apesar do nosso desejo de mudar?

Em outras palavras, por que é tão difícil sair de um quadro de adoecimento emocional?

Isso acontece porque nossos problemas emocionais não são eventos que acontecem conosco. Na verdade, nós os CRIAMOS.

Sim, a gente CRIA nossas enfermidades psicológicas, só que inconscientemente.

E a gente faz isso por basicamente por duas razões: para se PROTEGER e para se SATISFAZER.

Explico: você provavelmente não conseguirá perceber isso com clareza sem passar por uma terapia psicanalítica, mas seus problemas emocionais protegem você… de você mesmo.

Por meio de crises de ansiedade, episódios depressivos, relacionamentos doentios etc. você evita entrar em contato com certos impulsos da sua alma que se encontram reprimidos.

Por outro lado, nossos sintomas também proporcionam uma satisfação indireta justamente para esses impulsos reprimidos.

Em outras palavras, você não percebe, mas pode estar satisfazendo impulsos sexuais ou agressivos de forma disfarçada e simbólica por meio dos seus problemas emocionais.

Por isso é tão difícil sair deles.

É como se inconscientemente a gente pensasse assim:

“Não posso largar essa doença. Do contrário, precisarei lidar com os meus impulsos de forma direta, sem disfarces… E eu não quero fazer isso, pois tenho medo do estrago que esses impulsos podem fazer na minha vida”.

A Psicanálise ajuda o sujeito a perder esse medo e, consequentemente, a não precisar mais de seus sintomas.


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Fantasia inconsciente: o filme trágico que protagonizamos sem perceber

Eu preciso ser totalmente independente, pois não posso confiar em ninguém.

Eu preciso ser engraçado porque somente assim serei amado.

Eu preciso me submeter à vontade das outras pessoas, pois, assim, não serei abandonado.

Eu preciso desconfiar de todo o mundo, pois, dessa forma, não serei atacado.

Esses são apenas alguns exemplos de fantasias inconscientes que comumente encontramos na clínica.

Elas fornecem respostas a duas grandes perguntas que nos são colocadas pela vida desde muito cedo:

1 – Quem sou eu?
2 – Como são os outros?

A fonte primária na qual vamos buscar elementos que nos ajudem a construir a fantasia que responderá essas perguntas é a família.

É na relação com pai, mãe e irmãos que vamos forjando a ideia de como é o OUTRO, essa categoria que engloba todas as pessoas com as quais nos relacionamos e o mundo de forma geral.

É das vicissitudes das interações com a família na primeira infância que brota a visão do outro como:

Alguém em quem não se pode confiar.

Alguém que precisa ser seduzido.

Alguém que precisa ser obedecido.

Alguém que pode atacar a qualquer momento.

Essas são apenas algumas das inúmeras imagens do outro que podem emergir.

A partir dessa imagem, deduzimos nossa posição:

Se o outro é visto como alguém que pode me atacar, por exemplo, logo eu preciso ser aquele que se defende, que desconfia.

Se o outro precisa ser seduzido, devo me tornar um sedutor.

Uma das tarefas que buscamos levar a cabo numa Psicanálise é justamente a de identificar a fantasia inconsciente que comanda a vida do paciente a fim de ajudá-lo a adotar um olhar crítico em relação a ela.


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Precisamos tomar cuidado com a banalização da discussão sobre o suicídio. Na contramão das piegas mensagens motivacionais, a Psicanálise trata o problema com a seriedade que ele merece.

No Brasil, desde 2015 temos utilizado o mês de setembro para intensificar a divulgação de informações sobre suicídio.

Trata-se da campanha “Setembro Amarelo”, que busca combater falsas crenças relacionadas ao problema e estimular a adoção de medidas que possam contribuir para evitar a ocorrência do autoextermínio.

A Psicanálise pode nos ajudar a compreender os determinantes psíquicos do ESPECTRO SUICIDA, isto é, o conjunto de manifestações que vão desde um desejo ocasional de morrer até a consumação do ato.

Uma das descobertas fundamentais feitas pelos psicanalistas que estudam rigorosamente o tema é a de que um ato suicida geralmente tem PROPÓSITOS conscientes e inconscientes que estão para-além da simples vontade de se matar.

Em outras palavras, a tentativa de acabar com a própria vida quase sempre tem um SIGNIFICADO SIMBÓLICO, que deve ser buscado em certas FANTASIAS conscientes e inconscientes nutridas pelo sujeito.

Outra descoberta fundamental é a de que o desejo consciente de morrer frequentemente está atrelado a um desejo inconsciente de sobreviver à tentativa de auto-extermínio:

O psiquiatra e psicanalista inglês Robert Hale conta que um de seus pacientes tentou se matar ingerindo exatos 199 comprimidos de aspirina.

Quando perguntado por que não havia tomado a 200ª. pílula, o sujeito (que, não por acaso, trabalhava com estatística…) disse que o comprimido havia caído no chão e, portanto, poderia haver germes nele.

Na aula especial que os membros da CONFRARIA ANALÍTICA receberão ainda hoje (sexta-feira) falarei, dentre outras coisas, sobre:

– A compreensão psicanalítica do suicídio como um acting-out.

– Os 3 tipos de personalidade que costumam ser mais propensos ao comportamento suicida.


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No Inconsciente estão as páginas da nossa história que, com medo de ler, resolvemos pular.

Quando a gente fala que no Inconsciente encontram-se memórias, desejos e fantasias que nós reprimimos, corremos o risco de imaginar que o processo acontece mais ou menos assim:

A gente experimenta conscientemente o desejo, entende que ele é incompatível com o ego e decide retirá-lo da consciência.

Todavia, não é dessa forma que as coisas se passam.

Na segunda fase da sua produção teórica (que começa no início dos anos 1920), Freud chega à conclusão de que os mecanismos de defesa (como o recalque) são acionados pela experiência da ansiedade.

Como sabemos, ansiedade, angústia e medo são afetos que se caracterizam por sensações muito semelhantes.

Nesse sentido, creio que não seria incorreto dizer que a gente se defende quando está com medo, ou seja, quando nos sentimos AMEAÇADOS.

Com efeito,  certas memórias, desejos e fantasias parecem tão contrários à imagem que temos de nós mesmos e de outros que SEM PENSAR a gente reprime esses conteúdos.

SEM PENSAR: esse é o ponto. A defesa não ocorre após um esforço reflexivo por parte da pessoa.

A gente reprime simplesmente porque tem a IMPRESSÃO de que não vai dar conta de suportar conscientemente determinados conteúdos.

É o medo que produz a defesa e não uma avaliação racional das memórias, desejos e fantasias que parecem ameaçadores.

Nesse sentido, o que a gente encontra no Inconsciente são justamente conteúdos não compreendidos, não avaliados.

Como aquelas comidas que a gente, por medo, evita comer antes mesmo de provar.


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Interpretar, em Psicanálise, é trazer ao paciente notícias de um mundo em que ele está prestes a adentrar.

A interpretação é um dos diversos tipos de intervenção que o psicanalista pode fazer durante de uma sessão de análise.

Interpretar consiste em expressar aquilo que, com base em vários indícios, o analista deduz que esteja se passando inconscientemente com o paciente.

Uma interpretação adequada deve ser uma formulação mais próxima possível daquilo que efetivamente acontece no interior do analisando.

Podemos diferenciar dois objetivos que precisam ser alcançados por uma boa interpretação:

1 – Ela deve ajudar o paciente a integrar fantasias, desejos, impulsos etc. que vinham “rodando” em seu Inconsciente e se manifestando de forma distorcida pela via dos sintomas, sonhos e atos falhos.

2 – Ela deve servir como um sinal para o paciente de que o analista está “sintonizado” com ele, contribuindo para que o analisando se sinta acolhido pela escuta do terapeuta.

Portanto, a interpretação não serve só para trazer à luz aquilo que estava no Inconsciente, mas também (e fundamentalmente) para proporcionar ao paciente a experiência de se sentir cuidado e amparado pelo analista.

Quando é utilizada pelo terapeuta tão-somente como um meio de “jogar na cara” do paciente as verdades que supostamente estariam em seu inconsciente (e isso, infelizmente, acontece), a interpretação se torna traumática.

Por isso, como Freud recomenda, o analista só deve comunicar uma interpretação quando percebe que o paciente já está suficientemente próximo de alcançar por conta própria o conteúdo dela.

Quando o terapeuta tem essa sensibilidade, suas interpretações não são sentidas como “tapas na cara”, mas como expressões de atenção e cuidado.


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A gente faz Psicanálise para perder o medo de si mesmo

Somos estimulados desde a mais tenra idade a nos dividirmos.

Na infância, nossos pais instintivamente nos encorajam (ou nos obrigam) a abandonar certos comportamentos  — por mais satisfatórios que sejam.

Mais do que isso: somos incentivados e coagidos a renunciar não só a certas ações, mas também à vontade de realizá-las.

Com isso, se forma em nós desde muito cedo uma divisão radical entre quem a gente espontaneamente é e quem o mundo quer que a gente seja.

Quem tem a sorte de passar por essa separação de forma gradual e orgânica consegue adaptar sua espontaneidade aos limites impostos pelo mundo.

Nessas pessoas, a divisão se apresenta como uma mera DIFERENÇA entre uma parte 100% espontânea e outra adaptada.

Por outro lado, há aqueles que foram obrigados a abandonar seus impulsos espontâneos em prol das exigências do mundo de forma brusca e violenta.

Esses traumatizados passam a temer a própria espontaneidade, encarando-a como perigosa e destrutiva.

Diferentemente dos primeiros, eles não se esforçam para expressar seus impulsos adaptando-os às regras do jogo do mundo.

Para os traumatizados, a espontaneidade não deve ser sequer visitada. Eles tentam a todo custo mantê-la reprimida, tornando-se exclusivamente aquilo que o mundo quer que sejam.

A Psicanálise é um método psicoterapêutico voltado justamente para essas pessoas.

Quem não suporta mais viver uma existência vazia, mecânica, sem espontaneidade, será convidado, pela Psicanálise, a perder o medo de si mesmo.


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A gente faz Psicanálise para se dar conta de que a nossa verdade se revela justamente onde não estamos acostumados a procurá-la.

Quem deseja se tornar analista precisa acostumar-se a olhar para aquilo que normalmente ignoramos.

É por isso que a experiência de ser paciente de outro analista é fundamental.

É principalmente ali, no divã, que percebemos o quão significativos são os atos falhos, os sonhos e os termos que saem de nossas bocas.

Para quem não está habituado a conversar com o Inconsciente, uma troca involuntária de palavras é apenas um errinho a ser desconsiderado.

O analista, contudo, dá valor a essa “pedra que os construtores rejeitaram”. Ele a considera como “pedra angular”.

Com efeito, o Inconsciente se revela justamente nas brechas inevitáveis do nosso discurso consciente e dos nossos comportamentos voluntários.

Assim, um simples lapso de fala ou de escrita é capaz de expressar, de forma truncada e condensada, intenções que não ousamos confessar nem para nós mesmos.

Mas para ser capaz de vislumbrar a verdade reprimida que se manifesta sorrateiramente em um mero errinho de digitação é preciso ter olhos para ver e ouvidos para ouvidos.


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