O desejo de vingança eterniza o trauma

Muitas pessoas procuram atendimento psicológico em função das sequelas emocionais produzidas por experiências de humilhação e abuso vivenciadas sobretudo na infância.

Diferentemente do que se imagina, tais sequelas não são derivadas exclusivamente dessas vivências de sofrimento, mas principalmente do DESTINO que a pessoa deu para elas em seu mundo interno. Em outras palavras, os efeitos traumáticos dessas experiências têm muito mais a ver com a forma com que o sujeito lida com as memórias dos momentos de dor.

Algumas pessoas, por exemplo, insistem em nutrir um desejo de vingança contra aqueles que lhe fizeram mal. Embora essa atitude seja plenamente justificável e compreensível, ela acaba fazendo com que aquilo que fora um episódio de violência se transforme num filme continuamente repetido na alma da pessoa.

O velho ditado “Quem bate esquece, mas quem apanha não é esquece” só se torna verdade para quem não abre mão do desejo de voltar no tempo e acertar as contas com quem o machucou.

Um dos objetivos que buscamos no tratamento psicanalítico de pessoas que foram vítimas de situações de abuso, violência ou humilhação é o de ajudá-las a parar de desperdiçar suas preciosas energias em fantasias de vingança. Nossa expectativa é de que o sujeito vá pouco a pouco parando de reescrever dia após dia suas memórias de dor e passe a tratá-las como páginas viradas.


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Você sempre está onde te convém

Sim, por pior que seja a situação, se você tem como sair dela e mesmo assim permanece, é porque deseja permanecer.

Aí você me diz: “Mas, Lucas, isso que você está falando não faz sentido. Eu não estou no trabalho que gostaria de estar nem o meu relacionamento é como eu gostaria que fosse. Como, então, você pode me dizer que estou onde desejo estar?”.

Vamos lá. Deixa eu te explicar:

Ao contrário do que pensa, você não é uma pessoa só. Na verdade, uma das dimensões do que você chama de EU é uma síntese das diversas pessoas que você amou desde o início da vida. Em outras palavras, há em você pedaços do seu pai, da sua mãe, de irmãos, de professores, de amigos, de tios, enfim… Você é um monte de gente reunida em uma pessoa só.

Ao mesmo tempo, você possui uma série de desejos, inclinações e impulsos que estão no seu Inconsciente e que, portanto, você reprimiu e não é capaz de reconhecer.

Nesse sentido, esse trabalho ou relacionamento que você percebe conscientemente como insatisfatórios e fontes de sofrimento podem muito bem estar agradando os traços paternos ou maternos presentes no seu Eu ou sendo extremamente aprazíveis para certos impulsos que você mantém reprimidos no Inconsciente.

Entendeu? Ainda não? Então, continue lendo.

Em outras palavras, o que estou querendo te mostrar é que a gente sempre faz aquilo que deseja. Se não conseguimos perceber isso é porque nem sempre sabemos quais são os desejos que se fazem presentes em nós. Afinal, como o demônio que escravizava o gadareno, nós “somos muitos”…

Múltiplos e contraditórios desejos nos habitam e direcionam nossa existência enquanto nos iludimos achando que nossas escolhas são sempre fruto de nossas decisões conscientes. É por isso que muitas vezes permanecemos em situações que SABEMOS serem desfavoráveis e dolorosas. Com efeito, essa consciência não impede que certas partes de nós se satisfaçam por meio delas.

Na terapia psicanalítica, ajudamos o paciente a tomar consciência e se apropriar desses diversos desejos inconscientes que agem sobre ele à revelia de sua vontade.


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Pare de ter saudade do que você não viveu

Ontem eu estava escutando uma conversa sobre marketing digital numa das inúmeras salas voltadas ao tema lá no Clubhouse e tive um insight que gostaria de compartilhar com vocês.

Na conversa, os “speakers” (como são conhecidas as pessoas que podem falar numa sala do Clubhouse) discutiam algumas estratégias básicas para crescimento de audiência e conversões de vendas. Nessa hora eu me dei conta de que não vinha utilizando algumas daquelas técnicas.

Tal constatação fez surgir em mim o seguinte pensamento: “Puxa, estou perdendo tempo! Se eu já estivesse utilizando esses métodos, meus negócios estariam muito maiores.”. Foi imediatamente após ter esse raciocínio que me veio à mente o insight de que quero lhes falar.

A percepção de que eu poderia ter feito certas coisas que não fiz desencadeou em mim uma atitude emocional de tristeza e lamentação. Mas isso só aconteceu porque o meu olhar estava voltado para o passado, para o que poderia ter acontecido e não aconteceu. Se meu foco tivesse sido dirigido desde o início para o futuro, a reação teria sido outra, como de fato foi quando eu deliberadamente modifiquei minha forma de encarar o que estava ouvindo.

Ao invés de lamentar ainda não ter utilizado as estratégias que estavam sendo mencionadas, comecei a pensar: “Puxa, que bom que o acaso me levou até esta sala e estou tendo a oportunidade de aprender com essas pessoas. Daqui para a frente tentarei aplicar essas técnicas de que estão falando.”.

Percebeu? Quando eu deixei de encarar as informações que estava recebendo com um olhar de lamentação e passei a enxergá-las com uma visão de progresso, minha atitude emocional mudou e eu me senti motivado a agir.

A moral da história aqui é a seguinte: frequentemente, diante de um erro, ficamos presos ao acerto imaginário que não aconteceu e perdemos de vista as possibilidades de sucesso futuro que o fracasso presente inaugura. Isso acontece porque facilmente embarcamos na ilusão de que falhas são sempre acidentes evitáveis, sendo que, na verdade, os tropeços constituem a própria essência do caminhar humano.


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Ansiedade é falta de fé

Calma! Ao falar de fé, não estou me referindo a uma experiência religiosa.

Todo o mundo precisa de fé para funcionar no dia-a-dia, tanto crentes quanto ateus.

Quando sai de casa, por exemplo, para ir ao trabalho e ACREDITA que o ônibus irá passar no mesmo horário de sempre, você está fazendo uso da fé. Afinal, você não sabe com certeza absoluta se isso acontecerá. Você acredita que sim porque, no passado, geralmente ele passou naquele horário. Contudo, não é possível garantir que isso continuará acontecendo. Pode ter havido um problema mecânico, provocando um atraso. Não tem como você saber. Por isso, é necessário um ato de fé: você acredita que acontecerá mesmo sem ter certeza disso.

Perceba: ao contrário do que diziam alguns religiosos da Antiguidade, fé não é acreditar por acreditar, acreditar sem fundamentos. Ter fé é dar um salto no abismo da INCERTEZA acreditando que não vamos cair porque temos boas razões para pensar assim.

E isso a gente faz o dia inteiro. É impossível viver sem pequenos atos cotidianos de fé. O que lhe garante, por exemplo, que o prédio onde você trabalha permanecerá de pé hoje? Quem estava no World Trade Center em 2001 também foi trabalhar acreditando que isso aconteceria.

E a pessoa ansiosa? O ansioso também pratica a fé cotidianamente em alguma medida. O problema é que, em muitas situações, ele se deixa capturar pela armadilha da incerteza. Por exemplo: nós nunca podemos ter certeza absoluta da fidelidade de nossos parceiros amorosos. Portanto, para estarmos num relacionamento, precisamos necessariamente vencer essa incerteza com a fé. O ansioso, todavia, tem dificuldade para fazer esse movimento. Ele não suporta a incerteza e, por isso, precisa ficar o tempo todo verificando se o parceiro realmente é fiel.

Portanto, a fé é uma virtude essencial que precisa ser desenvolvida por pessoas ansiosas. Sem ela, as inevitáveis incertezas do dia-a-dia se tornam aterrorizantes e o sujeito vive num esforço absolutamente inútil de eliminá-las.

Mais fé, menos Rivotril.


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Narcisismo não é amor-próprio

Acho que deu para você perceber que, quando estamos falando de narcisismo, não se trata do que costumamos chamar no senso comum de amor-próprio. Em nossa dimensão narcísica, não amamos a nós mesmos, mas a imagem idealizada que queremos ter de nós mesmos. Estou chamando sua atenção para isso porque meu propósito com este artigo é demonstrar que muitas vezes é justamente o narcisismo o responsável por destruir o nosso amor-próprio. Com efeito, em nome do amor ao nosso eu ideal, podemos nos envolver em situações, relacionamentos e atitudes que podem ser profundamente autodestrutivos.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Se você sofre com a procrastinação, leia o texto abaixo

Procrastinar significa adiar a realização de uma tarefa sem que isso configure uma decisão estratégica.

É importante observar essa definição para não confundirmos procrastinação com planejamento. Muitas vezes precisamos adiar uma atividade em função de um imprevisto ou tendo em vista uma ocasião mais favorável para executá-la. Nesses casos, não estamos procrastinando, mas simplesmente planejando o momento adequado para a realização da tarefa.

Procrastinar é enrolar. É sentar na frente do computador, ter tempo e recursos suficientes para fazer o que precisa ser feito e… não conseguir fazer.

Trata-se de um fenômeno que se diferencia também da preguiça. O preguiçoso não adia suas tarefas porque sente um bloqueio na hora de realizá-las, mas, sim, porque decide voluntariamente ficar ocioso ao invés de trabalhar. A preguiça é o apego excessivo ao descanso e ao lazer.

O procrastinador, por sua vez, até deseja produzir, mas uma resistência interna o impede de se engajar numa tarefa específica. Por isso, podemos dizer que o verdadeiro problema na procrastinação não é exatamente o “deixar para depois”. O adiamento é, na verdade, a saída que o procrastinador encontra para se ver temporariamente livre da tarefa, já que ela o deixa ansioso.

Nesse sentido, o que está na raiz do problema da procrastinação é a ANSIEDADE provocada pelo afazer. Essa ansiedade sinaliza a existência de um conflito interno relacionado à atividade que está sendo procrastinada. Pode ser, por exemplo, que o sujeito conscientemente deseje executá-la, mas inconscientemente não o queira, seja por medo do sucesso, raiva de quem a solicitou ou qualquer outra razão afetiva como essas.

Técnicas práticas para driblar a procrastinação funcionam? Sim. Eu mesmo sou um entusiasta de algumas delas. Todavia, para-além de tentarmos vencer a procrastinação a qualquer custo, deveríamos tomá-la como um indício muito instrutivo de como anda a nossa relação com o nosso trabalho. Eventualmente, por exemplo, procrastinar pode ser a forma que o seu Inconsciente encontrou para dizer que esse emprego ou esse curso universitário não é a sua praia.


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As raízes do sentimento de culpa

Quero iniciar este texto propondo uma definição de culpa. Não pretendo ser exaustivo e contemplar todos os aspectos dessa emoção, mas apenas destacar o que me parece ser o seu traço mais essencial.

Defino culpa como o sentimento que a maioria de nós experimenta quando percebe que causou dano a um objeto que valorizamos. Esse objeto pode ser uma pessoa, um animal, uma instituição ou até… o nosso próprio ego. Quando nos sentimos culpados, por exemplo, por fazer algo incompatível com nossos parâmetros morais, mas que não causou prejuízo a nenhuma pessoa, quem sofre o dano nesse caso é a imagem que desejamos ter de nós mesmos, o nosso ego ideal.

O fato de nos sentirmos culpados mesmo quando ninguém está sendo efetivamente prejudicado evidencia que a culpa não é um afeto que brota espontaneamente da percepção do sofrimento do outro em função do dano causado a ele. Com efeito, uma mulher pode se sentir culpada por trair seu marido mesmo que o companheiro jamais saiba do chifre. Ou seja, a culpa que ela experimenta ocorre independentemente da dor que acometeria o marido caso ele fosse informado do adultério.

Esse exemplo nos permite discernir um aspecto crucial da culpa: na verdade, o verdadeiro motor desse sentimento é a consciência moral e não propriamente a realidade. É por isso que muitas pessoas se sentem culpadas meramente por desejarem certas coisas ou fantasiarem situações. Embora nada tenha acontecido na prática, mesmo assim elas se sentem culpadas.

A culpa, portanto, pode ser vista como a PUNIÇÃO que nossa consciência moral nos aplica por desobedecermos, concreta ou imaginariamente, suas leis. Em outras palavras, quando nos sentimos culpados, é como se estivéssemos sendo colocados “de castigo” por nossa consciência moral. Essa analogia nos permite compreender por que a culpa é tão dolorosa. De fato, é como se estivéssemos recebendo uma surra da consciência por nossas “malcriações”.

Foi justamente pensando nessa analogia que anteriormente fiz uma live no Instagram defendendo a tese de que CULPA É COISA DE CRIANÇA, ideia à qual pretendo voltar em outra postagem.


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O que está por trás dos nossos sonhos?

Sempre que abro a caixinha de perguntas no Instagram, aparecem várias questões sobre os significados dos sonhos e como interpretá-los. De fato, muitas pessoas suspeitam que haja uma lógica, um sentido, um conteúdo mais profundo por trás da sucessão aparentemente aleatória das imagens oníricas.

Em 1900, Sigmund Freud publicou “A Interpretação dos Sonhos”, considerada por muitos como sua principal obra e que registra justamente sua descoberta de que os sonhos são, sim, dotados de significação e podem ser satisfatoriamente interpretados desde que se saiba de antemão que tipo de elementos estão em seus bastidores.

O sonho, tal como nos lembramos dele, é o resultado final de um processo de DEFORMAÇÃO e EDIÇÃO. É por isso que ele se apresenta de modo fragmentário e frequentemente com figuras e situações improváveis ou irracionais. Portanto, o sonho de que nos recordamos é uma versão distorcida e esfacelada de OUTRA COISA.

Que outra coisa? Trata-se do que Freud chamou de “pensamentos latentes”. São receios, medos, desejos, fantasias etc. que passaram pela nossa cabeça no dia anterior ao sonho, mas foram suprimidos. Sabe quando, por exemplo, você fica com raiva de uma pessoa, deseja fazer algo ruim contra ela, mas, imediatamente após pensar nisso, você se censura por não achar legal ter esse tipo de intenção? Então… São pensamentos como esse que, por serem condenados por nossa consciência, se tornam latentes, ou seja, ficam “na reserva” da mente, esperando para “entrarem em campo”, o que acontece, de modo disfarçado, nos sonhos.

Nesse momento, você pode estar se perguntando: “Mas por que esses pensamentos latentes precisam se disfarçar? Por que a gente não pode sonhar com eles do jeito que são?”. Simples: porque se nós suprimimos esses pensamentos durante o dia é justamente por serem desagradáveis e mancharem a imagem que queremos ter de nós mesmos.

Se nós pudéssemos sonhar com eles tal como apareceram originalmente, ficaríamos tão incomodados e angustiados que acabaríamos acordando. O sonho, ao expressar esses pensamentos de modo deformado e editado, permite que eles sejam “descarregados” sem atrapalharem o nosso precioso sono.


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Uma visão psicanalítica da timidez excessiva

Há pessoas cujo superego é mais brando e razoável, mas há outras nas quais ele assume uma conotação praticamente persecutória. As pessoas excessivamente tímidas estão justamente nessa segunda categoria. Em minha prática clínica, nunca encontrei um sujeito com essa problemática que não apresentasse um superego extremamente feroz e coercitivo. O paciente não consegue viver de forma espontânea e natural, pois seu superego está o tempo todo censurando-o, criticando-o, fazendo com que se sinta sempre aquém do que supostamente deveria ser. Por isso, quando se expõe a uma situação social, tal pessoa já se apresenta com a sensação de ser inferior e inadequado. O que ela teme, na verdade, não é que os outros a julguem e a critiquem, mas que as pessoas “comprovem” o vexame, o fracasso, a porcaria que ela é de acordo com a avaliação do seu superego.

Leia o texto completo em: https://bit.ly/drdtimidez

Os 3 destinos da mulher segundo Freud

Com base em sua vasta experiência clínica, Freud descobriu que a diferença anatômica entre os sexos é um fator fundamental no desenvolvimento psíquico de homens e mulheres.

Inicialmente, quando o menino se dá conta de que as meninas não possuem pênis tal como ele, sua conclusão imediata não é a de que elas devem possuir um órgão sexual diferente. A primeira teoria que brota na cabeça de um garoto para explicar tal diferença é a de que as meninas um dia possuíram pênis, mas foram castradas por terem brincado em excesso com ele.

As meninas, por sua vez, evidentemente sabem que não possuem pênis, mas, quando descobrem que os meninos o têm, constroem a teoria de que elas também terão o órgão no futuro: com efeito, seu pequenino clitóris crescerá e se tornará um pênis tão grande quanto o dos garotos. Naturalmente essa teoria se mostra falsa e a menina acaba caindo num estado de desapontamento e revolta.

Como ainda ignora o valor de sua vagina, a garota só consegue concluir que nasceu incompleta. Afinal, os meninos têm algo que ela não tem. Indignada, a pequena desenvolve o que Freud chamou de “inveja do pênis”. Na verdade, essa expressão não é muito boa porque o que a menina de fato inveja não é propriamente o órgão sexual masculino, mas a CONDIÇÃO DE PERFEIÇÃO E COMPLETUDE que ela SUPÕE que o menino possua pelo simples fato de ter um pênis.

Freud observa que existem basicamente três destinos que a menina pode dar à inveja do pênis e que definirão seu futuro como mulher:

1 – RESSENTIMENTO – Neste caso, frustrada pela impossibilidade de ter o pênis, a menina renuncia à sexualidade como um todo, desenvolvendo intensa aversão ou indiferença a experiências sexuais.

2 – COMPLEXO DE MASCULINIDADE – Aqui a menina não se conforma com a suposta injustiça de apenas os meninos terem pênis e passa a emular comportamentos tipicamente masculinos, nutrindo a fantasia de ser homem.

3 – FEMINILIDADE – Este é o destino que Freud considera o mais saudável. Neste caso, a menina abandona a inveja do pênis, reconhece que não é incompleta e, ao invés de ansiar por aquilo que só os homens têm, passa a valorizar o que é especificamente feminino, como a capacidade de conceber e gerar filhos.

Dar a outra face? Talvez isso não seja para você

A compreensão equivocada de certos aspectos do Cristianismo está diretamente relacionada a processos de adoecimento psíquico.

Por exemplo, lá no início do evangelho de Mateus, a gente encontra o famoso Sermão da Montanha, um longo discurso no qual Jesus de Nazaré faz, dentre outras coisas, uma série de recomendações sobre como seus alunos deveriam viver. Num determinado trecho da homilia, Ele diz o seguinte: “Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”.

Muitas pessoas leem ou ouvem esse enunciado e compreendem equivocadamente que, para cumprirem a vontade de Deus, devem REPRIMIR os seus desejos naturais de vingança, ou seja, devem, a contragosto, engolir a vontade de dar o troco e se entregarem de modo resignado à violência do outro.

Todavia, tanto nesta passagem quanto em todas as outras, Jesus não está propondo condutas que devem ser praticadas por todas as pessoas, mas APENAS POR SEUS DISCÍPULOS. Todo o Sermão da Montanha é dirigido EXCLUSIVAMENTE para aqueles malucos que tomaram a decisão absolutamente insana de andar de cidade em cidade seguindo um jovem carpinteiro de 30 anos. Ora, vamos combinar: para quem decide viver dessa forma, dar a outra face é moleza.

Em outras palavras, o que estou querendo dizer é que todos os mandamentos proferidos por Jesus só fazem sentido e podem ser obedecidos de forma SAUDÁVEL por quem verdadeiramente (e não apenas nominalmente) se torna discípulo Dele.

Por outro lado, a maioria das pessoas, embora se denominem cristãs e participem de ritos e práticas ligadas ao Cristianismo, não são EFETIVAMENTE discípulas de Jesus. Logo, para essas, dar a outra face é um ato de violência contra sua própria natureza, procedimento pelo qual se paga com processos de adoecimento. Elas não deveriam fazer isso! Com efeito, o sujeito que se tornou discípulo de Jesus NÃO REPRIME seu desejo de vingança; ele simplesmente o abandona sem maiores transtornos, pois não faz sentido no quadro da vida que escolheu.

Quem não é discípulo, não deveria dar a outra face. Afinal, quando REPRIMIDO, o desejo de vingança converte-se em impulso de autodestruição.

Para que sua alma está predisposta?

Se você não costuma praticar atividades físicas, é muito provável que tenha dificuldades para manter o fôlego ao subir alguns lances de escada. Por outro lado, quem faz atividades aeróbicas frequentes não se sentirá tão extenuado.

Estou chamando sua atenção para essas obviedades a fim de destacar o fato de que os processos pelos quais nosso corpo passa ao longo do tempo o tornam mais ou menos predisposto a certas atividades. Quem pratica corrida três vezes por semana, por exemplo, está muito mais preparado para fugir de um assaltante do que uma pessoa sedentária.

Da mesma forma, nossa alma também apresenta predisposições advindas de nossa história. Por exemplo, há pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis em situações novas porque, no passado, foram forçadas a se adaptar de modo abrupto a um contexto diferente. A alma delas tornou-se, por conta dessa experiência, predisposta a encarar a novidade como uma ameaça. Assim, sempre que podem, fogem do desconhecido e procuram estar sempre preparadas a fim de evitar absolutamente qualquer imprevisto.

Há também aqueles indivíduos que não suportam situações de conflito. Alguns deles, além da ansiedade intensa, experimentam até sensações físicas apavorantes quando expostos a contendas e embates. A experiência clínica me autoriza a dizer que em praticamente todos os casos desse tipo verifica-se uma história marcada pela exposição precoce a conflitos familiares, geralmente entre os pais. Dito de outro modo, pessoas que evitam conflito possuem uma alma que se tornou predisposta a temer todo e qualquer confronto porque lá atrás, quando eram crianças, se sentiram extremamente ameaçadas pelo impacto dos conflitos familiares.

A terapia psicanalítica nos ajuda a identificar essas predisposições e a gênese de cada uma delas. Afinal, esse é um requisito necessário para que se possa ajudar a alma a perdê-las e a adquirir tendências e inclinações mais favoráveis à vida.

“Os histéricos sofrem de reminiscências”

A frase que dá título a esta postagem foi enunciada por Freud como uma fórmula conclusiva a respeito da origem dos sintomas dos primeiros pacientes histéricos que ele e Breuer atendiam lá no fim do século XIX.

Freud constatou que os sintomas físicos apresentados pelos histéricos eram uma espécie de monumento erguido em homenagem a um trauma emocional vivido há meses ou mesmo há anos. Os sentimentos que outrora não haviam sido expressos encontravam na doença uma forma de serem repetidamente descarregados.

Pensar o adoecimento emocional como resquício de um passado mal digerido é uma das principais contribuições da Psicanálise para a Psicopatologia. Afinal, quando olhamos ingenuamente para alguém em sofrimento, tendemos a pensar que se trata de uma resposta do sujeito a coisas que estão acontecendo atualmente com ele. De fato, as circunstâncias presentes são fatores importantes e devem ser levados em conta, mas o que aprendemos com a Psicanálise é que, na maioria dos casos, o que acontece no presente funciona apenas como um GATILHO para a evocação de traumas do passado.

Uma pessoa pode, por exemplo, desenvolver um episódio depressivo após ter sido demitida do trabalho. Isso não significa, contudo, que foi a demissão o fator que efetivamente causou a depressão. É muito mais provável que o fato de ter sido mandado embora tenha ATUALIZADO para esse sujeito outras “demissões” sofridas por ele na adolescência ou na infância e das quais nunca conseguiu de fato esquecer, como o período em que ficou distante da mãe e fantasiou que ela o havia abandonado.

Um dos objetivos da Psicanálise é alterar o modo como o paciente se relaciona com seu passado. Afinal, quem procura a ajuda de um analista o faz justamente por não suportar mais sofrer as consequências de viver fugindo da própria história. No divã, o paciente é convidado a integrar o passado, único caminho possível para evitar que ele continue se presentificando.

Os desconfortos da existência

Um dos livros mais conhecidos de Sigmund Freud, criador da Psicanálise, é “Mal-estar na civilização” ou, em bom alemão, “Das Unbehagen in der Kultur”. Se evoco aqui o título da obra no idioma original não é para ostentar erudição ou por qualquer outro vício narcísico dessa ordem. Meu intuito é apenas o de salientar que a expressão que Freud utiliza para nomear o livro pode ser traduzida de outras maneiras que representam diferentes interpretações do texto. Uma tradução que já se consagrou no Brasil, sobretudo em função da influência do pensamento do psicanalista francês Jacques Lacan, opta pelo termo “cultura” para a tradução de “Kultur” ao invés de “civilização”. Quem prefere essa tradução geralmente o faz por pretender destacar que o mal-estar de que fala Freud não deriva de certo arranjo civilizacional específico, mas é inerente à existência humana na medida em que esta seria marcada intrinsecamente pelo domínio da cultura sobre a natureza.

Curiosamente, não conheço nenhum autor que tenha advogado uma tradução diferente para a palavra “Unbehagen”. Aparentemente, todos se sentem muito satisfeitos com o termo “mal-estar”. De minha parte, vejo um problema nessa expressão. Normalmente, quando dizemos que estamos com um “mal-estar”, trata-se de uma indisposição física, quase sempre correspondente a um estado de náusea, febre ou enjoo. Penso, portanto, que mal-estar tem uma conotação médica bastante destacada que pode acabar obscurecendo o fato de que o “mal-estar” de que fala Freud é uma experiência eminentemente psicológica. Além disso, a expressão “mal-estar” pode nos levar a pensar equivocadamente (do meu ponto de vista) que a condição humana é necessariamente ruim. Afinal, o termo “mal” expressa um juízo de valor. Se formos levar o termo ao pé da letra, diríamos que o ser humano estaria fadado a estar mal.

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