As diferenças na forma como Freud e Lacan pensavam a interpretação em Psicanálise

A interpretação é uma das principais ferramentas de trabalho do psicanalista.

Por quê?

Porque a Psicanálise trabalha com o pressuposto de que o paciente expressa simbolicamente, ou seja, de forma codificada, os elementos inconscientes que estão na origem de seus problemas emocionais.

Logo, cabe ao analista interpretar aquilo que o paciente traz a fim de que esses elementos inconscientes sejam trazidos à luz e, assim, possam ser trabalhados.

Freud tinha uma concepção muito tradicional de interpretação.

Para ele, interpretar consistia basicamente em DEDUZIR e COMUNICAR ao paciente os elementos inconscientes a partir de uma observação minuciosa e cuidadosa de sua fala, de seus atos falhos, de seus sonhos e do comportamento dele na transferência.

Em outras palavras, para Freud, ao interpretar, o analista apresenta o comportamento do Inconsciente ao analisante como um detetive que, após a coleta e análise detalhada dos indícios e evidências, explica ao delegado de polícia como se deu um determinado crime.

É por isso que, nos grandes casos clínicos de Freud, vemos interpretações longuíssimas.

O “racional” freudiano é muito simples: o analista, como alguém que escuta de forma neutra e com atenção flutuante, está em condições de decifrar as manifestações do Inconsciente do analisante como um exegeta diante de um texto antigo.

Para Freud, portanto, o analista REVELA o Inconsciente por meio da interpretação.

O psicanalista francês Jacques Lacan pensava o ato analítico de interpretar de forma bem diferente.

Para ele, a interpretação não serve para revelar o Inconsciente, mas para COLOCÁ-LO EM MOVIMENTO.

Para Freud, essa era uma CONSEQUÊNCIA da boa interpretação, mas, para Lacan, trata-se do próprio OBJETIVO do ato de interpretar.

Nesse sentido, do ponto de vista lacaniano, o analista não deve fazer interpretações EXPLICATIVAS, mas PROVOCATIVAS.

Como assim, Lucas?

Quem está na Confraria Analítica vai saber! Ainda hoje, os assinantes vão receber uma aula especial sobre a interpretação na perspectiva de Lacan.

Te vejo lá!


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Há pessoas que estão tão acostumados à própria doença que sabotam seu processo de cura só para não terem que sair do lugar.

Um dos fatores que podem nos manter presos a um quadro de adoecimento emocional é o HÁBITO.

Sim, a gente se habitua a um padrão doentio de funcionamento, sobretudo quando ele tem início na infância.

A gente se acostuma tanto com nossas ansiedades, sintomas e inibições que, com o passar do tempo, a doença passa a fazer parte da nossa identidade.

Nesse sentido, a cura passa a ser temida, pois eliminar o adoecimento significaria abandonar uma parte de si mesmo.

Nossa experiência clínica mostra que um dos obstáculos que emperram o processo terapêutico é o fato de que o paciente, muitas vezes, simplesmente não suporta ficar bem.

A pessoa já está tão habituada a seus padrões doentios que, inconscientemente, sabota a terapia porque a cura demandaria necessariamente uma desorganização temporária da sua personalidade.

Nesses casos, o sujeito se comporta como um prisioneiro que, depois de muitos anos, finalmente recebe o alvará de soltura , mas prefere permanecer na cadeia por acreditar que não saberá viver em liberdade.


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Psicanálise não é para todo o mundo

Sashimi: tá aí uma coisa que eu não suporto e que faz muita gente salivar só de ouvir falar.

Já experimentei, tentei gostar, mas o sabor de peixe cru definitivamente não combina com o meu paladar.

Por outro lado, existe um alimento para o qual muita gente faz cara feia e que eu, na maturidade, aprendi a apreciar: jiló.

Empanado, frito, refogado, não importa: essa frutinha levemente amarga tem lugar no meu prato.

Aí você me pergunta: “Lucas, a postagem não é sobre Psicanálise? Então por que você está falando de comida?”.

É só uma analogia, caro leitor.

Se você me acompanha, sabe que meu método de ensino está fortemente alicerçado na construção de analogias.

Vamos lá:

Assim como tem um monte de gente cujo paladar se deleita com um belo pedaço de salmão cru, mas o meu não, assim também há muitas pessoas que se adaptam muito bem à experiência proposta pela Psicanálise e outras não.

Análise não é para todo o mundo.

Por exemplo, se você estiver procurando uma pessoa para te dar orientações sobre o que deve fazer para superar um episódio depressivo, Psicanálise não é para você.

Outrossim, pessoas que esperam que o terapeuta seja falante e lhes forneça explicações e diagnósticos também vão se sentir frustradas fazendo análise.

Por outro lado, quem tá a fim de falar sobre si, de refletir sobre sua existência, de colocar em questão suas escolhas, seus impasses, suas inibições; quem quer de fato ser escutado e SE ESCUTAR mais do que obedecer a vozes externas, essa pessoa, sim, vai se dar muito com a Psicanálise.

É claro que o sujeito pode chegar ao analista esperando ser aconselhado e diagnosticado e acabar gostando da experiência de falar-livremente-para-alguém-que-pouco-fala.

Assim como eu não curtia jiló quando era criança e acabei aprendendo a gostar.

Mas não é todo o mundo que consegue desenvolver esse “paladar” capaz de apreciar esse troço absolutamente atípico (e fascinante) que é a experiência analítica.

Como diz a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant:

“Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai e quer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar


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O bom líder se sente feliz com o crescimento de seus liderados

Outro dia eu estava ouvindo um podcast em que o empresário Flávio Augusto dizia que um dos atributos de um bom líder é a capacidade de “se realizar com o sucesso de outras pessoas”.

Isso me lembrou algo que a psicanalista Melanie Klein assinala em seu clássico artigo “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância”:

“Quando a voracidade e a inveja não são excessivas, mesmo uma pessoa ambiciosa encontra satisfação em ajudar os outros a dar sua contribuição. Temos aqui uma das atitudes subjacentes à liderança bem-sucedida. Novamente, isso já pode ser observado em alguma medida entre as crianças. Uma criança mais velha pode ter orgulho pelas conquistas de um irmão ou irmã menores e fazer de tudo para ajudá-los.”

Muitos líderes formam equipes medíocres justamente porque possuem quantidades excessivas de inveja e voracidade.

Com efeito, eles querem todas as conquistas para si e se sentem ameaçados quando algum de seus subordinados demonstra estar crescendo.

Assim, evitam agregar em seus times uma pessoa muito competente com medo de, no futuro, perderem sua posição de liderança para ela.

Além disso, tais líderes podem inconscientemente sabotar o progresso de suas equipes apenas para não terem que reconhecer o mérito dos colaboradores.

Para esse tipo de líder, o cenário ideal é aquele em que somente ele brilha.

Por isso, tende a ser centralizador: tudo tem que necessariamente passar por ele para que jamais se possa dizer que o outro foi bem-sucedido por conta própria.

Por incrível que pareça, muitas vezes tal líder tende a ficar contente quando fazem críticas a seus liderados, pois isso lhe proporciona alívio.

É como se ele pensasse: “Que ótimo ter subordinados ruins. Dessa forma, continuo sendo uma estrela solitária, uma pérola de competência em meio a esse mar de mediocridade.”

É óbvio que se trata de um raciocínio autodestrutivo e nada sustentável.

Afinal, se uma equipe não trabalha bem, isso geralmente tem a ver com uma liderança que não cumpre bem o seu papel de coordenação e gerenciamento.

Mas a insegurança e a inveja são tão grandes que o líder que pensa dessa forma não consegue perceber que está cavando a própria cova.

Você já conviveu com líderes assim?


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[Vídeo] Pare de alimentar o monstro do passado

Creio que a Psicanálise é o melhor tratamento para a dificuldade de esquecer eventos dolorosos pelos quais passamos.

No entanto, também acredito que é possível atenuar a tendência a ficar relembrando memórias ruins simplesmente deixando de alimentar esse movimento espontâneo da alma.


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[Vídeo] Falso self: quando a gente vive por viver

Neste vídeo: entenda como o conceito de falso self proposto pelo psicanalista Donald Winnicott nos ajuda a entender o que acontece com pessoas que se queixam de que suas vidas não fazem sentido e que estão vivendo por viver.


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Quando Freud nos ajuda a entender Lacan

Na primeira fase de sua produção teórica em Psicanálise, Lacan dizia que estava fazendo um “retorno a Freud”.

Para o psicanalista francês, boa parte dos seus colegas vinha praticando e pensando a Psicanálise (estamos falando da década de 1950) de uma forma que contrariava os princípios fundamentais estabelecidos por Freud.

Por isso, era preciso resgatar a essência do que o pai da Psicanálise havia proposto.

Lacan levará a cabo esse projeto fazendo uma RELEITURA dos textos freudianos através dos óculos da Filosofia, da Antropologia e da Linguística.

Um exemplo dos resultados dessa releitura é a fórmula “O Inconsciente é estruturado como uma linguagem”.

Lacan acredita que essa proposição pode ser EXTRAÍDA dos textos de Freud.

Com efeito, para o analista francês, Freud teria mostrado que as formações do Inconsciente (atos falhos, sonhos e sintomas) são construídas de modo análogo à produção de um discurso.

O que significa isso?

Deixa eu te dar um exemplo:

No plano do discurso, eu posso dizer “Ontem tomei um Porto”.

Qualquer pessoa em sã consciência saberá que eu não estou dizendo que bebi um lugar para embarque e desembarque de navios, certo?

Na verdade, eu fiz uso de uma figura de linguagem chamada METONÍMIA, que me permitiu designar a expressão “vinho do Porto” apenas com uma parte dela: “Porto”.

Para Lacan, num sonho, por exemplo, pode acontecer exatamente o mesmo processo:

Eu posso sonhar que estou pedindo “Socorro” e essa palavra ser apenas uma metonímia para o nome da minha mãe (“Maria do SOCORRO”), verdadeiro objeto da minha demanda.

Tá vendo?

O sonho (assim como as outras formações do Inconsciente) pode ser enquadrado como uma FALA, um DISCURSO, ou seja, uma produção de linguagem.

Existem alguns trechos da obra de Freud que nos ajudam a entender com notável clareza essas releituras lacanianas.

Ainda hoje quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá uma aula especial em que eu comento justamente um desses trechos.

Nele, Freud nos mostra de forma cristalina por que Lacan insistiu tanto na importância de prestarmos mais atenção nas PALAVRAS que os pacientes dizem, ou seja, nos SIGNIFICANTES, em vez de ficarmos o tempo todo tentando deduzir significados.

Te vejo lá na Confraria!


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A gente faz Psicanálise para aprender que, de fato, nada podemos contra a verdade, senão em favor da verdade.

A Psicanálise nos ensina que a verdade incomoda, perturba e, não raro, se torna insuportável.

Pudera!

A mentira é confortável.

O autoengano tem lá suas vantagens.

As ilusões anestesiam…

Mas a verdade sempre retorna — onde menos se espera encontrá-la.

Lá onde se tropeça, se repete, se esquece…

A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular.


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A ansiedade denuncia a presença incômoda do Inconsciente batendo na porta do Eu.

Na última aula da Confraria Analítica eu comentei com os alunos um trecho do artigo de Freud “O Inconsciente”, em que ele diz o seguinte:

“É possível ao desenvolvimento do afeto proceder diretamente do sistema Ics.; nesse caso, o afeto sempre tem a natureza de ansiedade, pela qual são trocados todos os afetos ‘reprimidos'”.

O termo REPRIMIDOS aparece aí no finalzinho entre aspas porque, de acordo com Freud, não existem emoções reprimidas, apenas IDEIAS reprimidas.

No processo de repressão, uma emoção pode ser, digamos, “abortada”, mas não reprimida.

(Quem tá lá na Confraria me ouviu explicar isso detalhada e exaustivamente na última aula.)

Mas não é esse o ponto para o qual eu quero chamar sua atenção no trecho citado.

Meu objetivo aqui é destacar o que Freud fala sobre a ansiedade (ou angústia, dependendo da tradução).

No trecho, ele diz que todos os afetos que vêm do Inconsciente são “trocados” pela ansiedade.

Como eu expliquei para os alunos da Confraria, isso significa que, quando a gente se depara com a ansiedade, seja em nós mesmos, seja nos nossos pacientes, estamos na trilha do Inconsciente.

Pelo que Freud está dizendo, a ansiedade (neurótica, obviamente) é sempre a expressão de alguma coisa que está vindo do Inconsciente.

Talvez essa seja uma boa maneira de interpretar a fórmula lacaniana de que a angústia [ansiedade] é “aquilo que não engana” (Seminário 10).

Com efeito, os outros afetos podem se esconder atrás de outros. O ódio pode se fingir de tristeza, o tesão pode usar a máscara do medo.

A ansiedade, não.

Ela não se disfarça.

A ansiedade denuncia a presença incômoda do Inconsciente batendo na porta do Eu.

Se é por ela que os afetos desencadeados pelo Inconsciente são trocados é porque o Eu se sente ameaçado por eles.

Afinal, a imagem idealizada de si que o Eu utiliza como espelho só pode se constituir às custas da expulsão de todos os elementos que não se harmonizam com ela.

Elementos que, por sua vez, constituem a matéria-prima do Inconsciente.

Nesse sentido, a ansiedade é o sinal da aproximação do Real que precisou ser soterrado para a construção do belo, harmônico — e frágil — edifício da realidade egoica.


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Necessidade, demanda e desejo: entenda a tríade lacaniana

A necessidade é um anseio de natureza biológica por objetos ou experiências que não podem faltar, que são imprescindíveis para a sobrevivência.

Pense, por exemplo, na necessidade que temos de alimento e de sono.

Para entender mais facilmente o que é a demanda, trabalhe com um sinônimo dessa palavra: o termo PEDIDO.

Um pedido é algo que necessariamente depende da linguagem. A necessidade, não. A necessidade é biológica, vem do corpo.

Um pedido, por sua vez, é algo que só pode ser feito se eu conseguir construir um enunciado baseado num certo código. Não qualquer código, mas o código conhecido pela outra pessoa à qual dirijo meu pedido.

Ou seja, para que o outro atenda a minha demanda, eu preciso necessariamente me submeter ao código dele.

Ora, é exatamente isso o que acontece conosco quando somos bebês. A gente nasce e já vem “de fábrica” com necessidades. No entanto, a gente não consegue satisfazer essas necessidades por conta própria. Precisamos necessariamente dos nossos pais.

No início, eles até saciam nossas necessidades sem que a gente tenha que pedir. Todavia, com o passar do tempo, a gente tem que começar a demandar.

E, para demandar, a gente precisa necessariamente aprender a língua dos pais.

Ou seja, a partir de um certo momento, precisamos “traduzir” nossas necessidades em pedidos, em demandas.

Isso introduz uma novidade: ao articularmos nossas necessidades na forma de demandas, passamos a ansiar não só pelo alimento ou pelo sono, mas também pela COMPREENSÃO dos nossos pais.

Em outras palavras, a gente passa a não querer só a comida em si, por exemplo. Quando o bebê pede comida e a mãe traz, esse ato da mãe de ir até ele acaba sendo vivenciado como um signo de amor: “Mamãe me compreende, mamãe me ama”.

Por isso, Lacan dizia que, no fim das contas, toda demanda é demanda de amor. Ou seja, a gente pede coisas, mas o que verdadeiramente queremos não é só a coisa, mas O SIGNIFICADO DE AMOR que supomos estar em jogo quando o outro nos atende.

Só que tem um problema…

No processo de “traduzir” nossas necessidades de acordo com o código do outro, inevitavelmente ALGO QUE PERDE.

É o que acontece em toda tradução: por mais que o tradutor se esforce, a palavra escolhida nunca corresponde exatamente ao termo original que está sendo traduzido.

Da mesma forma, quando o bebê articula sua necessidade de comida, por exemplo, na forma de um pedido à mãe, o enunciado que ele produz não corresponde EXATAMENTE à sua necessidade.

Por isso, na hora que a mãe vem e dá o alimento ao bebê, ele se sacia, se sente amado, mas alguma coisa fica faltando; parece que não é o suficiente.

Essa sensação de que algo está faltando, algo que, como dizem Clarice Lispector e Chico Buarque “ainda não tem nome e nem nunca terá” é o tal do… DESEJO.

Mas sobre ele a gente fala em outro momento.


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[Vídeo] Terapia é o verdadeiro remédio

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os medicamentos psiquiátricos não são, de fato, tratamento para transtornos emocionais visto que não atuam sobre as causas das patologias psíquicas, mas apenas amenizam alguns sintomas.


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[Vídeo] Obsessivos nostálgicos do ser e histéricos militantes do ter

Neste vídeo: entenda por que o psicanalista Joel Dor designou os neuróticos obsessivos como nostálgicos do ser e os histéricos como militantes do ter.


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Sim, tem gente que tá doente de verdade!

Eu já escrevi vários textos falando sobre o fenômeno da medicalização, mas hoje quero falar sobre o oposto dela — que também é extremamente pernicioso.

Para quem não sabe, medicalização é a tendência contemporânea de considerar problemas educacionais, sociais, familiares ou mesmo coisas que não são exatamente problemas como se fossem questões de saúde que precisam ser tratadas.

Um ótimo exemplo de medicalização é a criação do diagnóstico de “Transtorno Disfórico Pré-menstrual”, que nada mais é do que uma tentativa de converter o conhecido fenômeno NATURAL da TPM (tensão pré-menstrual) em um DISTÚRBIO que precisa de tratamento.

O pensamento medicalizador está presente na mente de muitos profissionais de saúde, sobretudo médicos, mas também psicólogos.

Isso os leva a verem transtornos como o TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), por exemplo, em muitos casos onde o que existe é apenas falta de disciplina e de educação familiar.

Por outro lado, também circula por aí um modo de pensar oposto ao da medicalização: aquele que menospreza a existência de quadros REAIS de adoecimento.

Creio que isso acontece quase exclusivamente com transtornos emocionais, mas é possível que, em certos casos, até algumas doenças físicas também não sejam levadas a sério.

Esse menosprezo tende a se manifestar mais com enfermidades psicológicas porque elas não são tão “visíveis” como as patologias orgânicas.

Pessoas que estão passando por episódios severos de depressão, por exemplo, sofrem em dobro quando precisam “convencer” familiares de que sua doença é real e não “falta de força de vontade”, “frescura” ou “vitimismo”.

O mesmo se passa com indivíduos que padecem de formas crônicas de transtornos de ansiedade. Muita gente não entende que tais patologias podem ser tão incapacitantes quanto uma fratura nas pernas ou qualquer outro problema físico grave.

Assim como devemos combater a tendência medicalizante de ver doença em tudo, precisamos também rechaçar a postura insensível (adotada, infelizmente, por alguns dos meus colegas psicanalistas) de não ver doença em nada…


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O dia em que um psicanalista proibiu sua paciente de cruzar as pernas

Certa vez o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi estava atendendo uma paciente histérica que não melhorava de jeito nenhum.

Aí, ele resolveu adotar a mesma manobra técnica utilizada por Freud junto ao “Homem dos Lobos”: avisou à paciente que o tratamento acabaria dali a tantos meses, independentemente de como ela estivesse.

Funcionou?

No início, sim. A paciente deu uma melhoradinha, mas logo voltou a resistir à terapia, principalmente fazendo uso de uma intensa transferência erótica com Ferenczi.

Quando o chegou o prazo estabelecido, o médico honrou sua palavra e pôs fim ao tratamento.

Ferenczi acreditava que ainda havia muito trabalho a ser feito, mas a paciente se sentia bem.

E foi embora.

Alguns meses depois ela voltou a procurar o médico porque todos os seus sintomas haviam retornado.

Ferenczi relutou, mas acabou aceitando a paciente de volta.

Passou um tempo, ela melhorou um pouco, mas voltou a resistir ao progresso da terapia por meio da transferência erótica.

Ferenczi não sabia mais o que fazer para ajudar a moça, visto que até mesmo a manobra freudiana de fixação de um prazo não havia funcionado.

Foi aí que o médico passou a prestar atenção num detalhe:

Quando a paciente ficava descrevendo as fantasias eróticas que tinha com ele, ela volta e meia dizia que tinha “sensações por baixo”…

Depois de prestar atenção nisso, Ferenczi passou a observar que a paciente permanecia durante toda a sessão deitada no divã COM AS PERNAS CRUZADAS.

Ele se lembrou, então, que muitas mulheres se masturbam de forma disfarçada apertando uma coxa contra a outra…

O médico perguntou se a paciente costumava fazer isso, mas ela disse que nunca, jamais.

Depois de um bom tempo matutando, Ferenczi chegou à conclusão de que talvez aquela postura de pernas cruzadas poderia ser uma forma INCONSCIENTE de masturbação.

Em outras palavras, a paciente estaria, sem saber, se masturbando a sessão inteira fantasiando com seu terapeuta.

Apostando nessa hipótese, Ferenczi decidiu proibir a paciente de ficar com as pernas cruzadas!

Qual foi o resultado?

Isso eu te conto na aula especial que os membros da CONFRARIA ANALÍTICA receberão ainda hoje sobre a TÉCNICA ATIVA proposta por Ferenczi.

Te vejo lá!


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Na transferência, chamamos o outro para dançar a velha música que criamos na infância e que não cansamos de repetir.

Sempre acho que uma boa maneira de compreender um conceito psicanalítico é refletir sobre a palavra escolhida para nomeá-lo.

Veja-se, por exemplo, o conceito de superego.

Quando consideramos o fato de que a partícula “super” em latim significa “aquilo que está acima”, somos facilmente levados à ideia de que o superego só pode ser algo que está… acima do ego, né?

Isso torna mais fácil entender as relações entre essas duas instâncias psíquicas.

Da mesma forma, uma boa maneira de abordar o fenômeno da transferência é pensando no significado geral de TRANSFERIR.

Ora, transferir significa basicamente levar uma coisa do ponto A para o ponto B.

Tendo isso mente, podemos fazer a pergunta:

“Que coisa é essa que, no fenômeno da transferência, é levada de um ponto a outro?”.

E a resposta é: padrões de relacionamento, ou seja, formas fixas de me relacionar nas quais eu ajo de uma determinada forma e espero que o outro se comporte de um modo também específico.

É isso o que a gente leva do ponto A ao ponto B na transferência.

O ponto A é sempre a infância. É nas experiências iniciais com nossos pais e irmãos que consolidamos as nossas formas típicas de nos relacionarmos com as pessoas de forma geral.

Já o ponto B é variável: pode ser qualquer novo relacionamento, seja profissional, acadêmico, amoroso, virtual.

Diferentemente do que algumas pessoas pensam, a transferência não acontece só no tratamento psicanalítico.

Estamos o tempo todo transferindo nossos padrões infantis para as relações do presente.

Para enxergar isso, basta ter olhos para ver.


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