[Vídeo] Recado Rápido #04 – Maturidade e negociação

Neste quarto recado rápido falo sobre um dos aspectos que caracterizam um indivíduo emocionalmente maduro. Trata-se da capacidade de reconhecer que a realidade possui um funcionamento autônomo, ou seja, não se adaptando espontaneamente aos nossos desejos. Na maturidade emocional, somos capazes de reconhecer essa dimensão rígida do mundo, sem, no entanto, abrir mão do que queremos. O indivíduo emocionalmente maduro se dispõe a negociar a realização de seus desejos com o mundo com a consciência de que, nesse processo, a permanência de certo grau de insatisfação será inevitável.

Peço, por gentileza, às leitoras e aos leitores que deixem nos comentários um feedback acerca dessa nova série de vídeos. Vocês tem gostado? Fiquem à vontade para fazer críticas e sugestões!


[Vídeo] Recado Rápido #03 – Transferindo queixas

Neste terceiro recado rápido, falo sobre um fenômeno muito comum nos relacionamentos amorosos: a transferência para o(a) parceiro(a) de expectativas, demandas e necessidades que não foram satisfeitas na infância. Isso acontece porque a profundidade do vínculo que estabelecemos com a pessoa amada é tão grande quanto aquela que se faz presente na relação entre pais e filhos. Assim, a pessoa que está conosco acaba tornando-se a destinatária de queixas que originalmente foram dirigidas às figuras parentais.


Aproximem suas cadeiras!

a mesa - Copia

Caríssimos, apresento a vocês o projeto “A Mesa“. Trata-se de um bate-papo online, no formato hangout, entre eu e dois amigos também psicólogos, Thalles Contão e Igor Madeira. Pretendemos discutir temas ligados a psicologia, psicanálise, filosofia, internet, religião, cultura e a existência de maneira geral.

A princípio, o programa terá periodicidade semanal e será exibido no meu canal do Youtube ao vivo, ficando disponível posteriormente para quem não puder assistir no dia da gravação. O primeiro episódio será gravado amanhã (segunda-feira, 12/01) a partir das 20h e o tema será “redes sociais”.

Aproximem suas cadeiras!

[Vídeo] Recado Rápido #02 – Empatia patológica

Neste segundo episódio de “Recado Rápido” faço algumas considerações sobre indivíduos que têm a tendência de se colocarem excessivamente no ponto de vista de outro (empatia patológica), sempre abrindo mão dos próprios interesses. Trata-se, na verdade, de uma defesa empregada por pessoas que se sentem incapazes de suportar o desconforto inerente aos conflitos e confrontos relacionais.


[Vídeo] Recado Rápido #01 – Sofrimento administrado

Caríssimos, iniciei uma nova série de vídeos para o YouTube chamada “Recado Rápido”. Trata-se de breves reflexões extraídas de meu trabalho clínico que gostaria de compartilhar. Neste primeiro episódio, falo sobre as dificuldades que muitas pessoas enfrentam para saírem de situações que lhes causam sofrimento em função do medo da necessária reinvenção que todo processo de mudança requer.


Quando o analista não se apaga (final)

Joao Bobo - Bichinhos - Tigre - 1907 (1)No artigo “Elasticidade da técnica psicanalítica”, Ferenczi assinala de forma veemente que o uso da empatia como recurso terapêutico não seria propriamente uma inovação no campo da técnica psicanalítica, pois Freud já o teria preconizado. De fato, o fundador da psicanálise sempre defendeu que as intervenções do analista não poderiam ser levadas a cabo à revelia do que se passava com o paciente durante a sessão. Uma interpretação, por exemplo, só deveria ser enunciada quando o analista percebesse que o paciente estava bem próximo de chegar a ela por seus próprios meios. Cremos, todavia, que ao recomendar aos analistas que estejam atentos aos movimentos psíquicos do paciente durante a sessão, Freud não tinha em mente a atitude empática de “sentir com”. Afinal, essa atitude demanda do terapeuta uma disponibilidade para afetar-se que Freud não via com bons olhos.

Ao falar do uso da empatia, Ferenczi está descrevendo uma transformação da posição que o analista ocupava até então no tratamento. O analista que se localizava fora do campo de visão do paciente justamente para facilitar o apagamento de sua pessoa dá lugar a um analista que se posiciona ao lado do paciente, pois só assim é possível “sentir com”. Isso não significa, evidentemente, que o analista abandone sua função de terapeuta e passe a se comportar como um amigo do paciente. Cremos que o cerne da concepção ferencziana sobre o uso da empatia como recurso técnico é a defesa da adaptabilidade do analista. Do ponto de vista freudiano, o analista deve adotar uma postura única para todos os pacientes (até porque Freud considerava que a psicanálise era um método útil apenas para o tratamento das neuroses). Já para Ferenczi, que experimentou a psicanálise no tratamento de formas não-neuróticas de adoecimento emocional, o analista deve adaptar-se às necessidades do paciente. E essa adaptação não pode acontecer jamais se o analista não se coloca no tratamento numa posição de parceria. É a partir desse lugar instaurado no início do processo terapêutico que o analista terá condições de empaticamente “adivinhar” do que o paciente precisa. É possível, inclusive, que o terapeuta chegue à conclusão de que o analisando necessite de um analista mais distante mesmo, mais apagado, pois já é maduro o suficiente para se aventurar nas trilhas de seu inconsciente. No entanto, essa conclusão não pode ser estabelecida a priori, mas a partir da disponibilidade do analista a se deixar afetar pelo paciente.

Ferenczi ilustra essa disponibilidade afetiva do analista com a figura do “João Bobo”, aquele brinquedo infantil que pode ser empurrado e golpeado em várias direções, mas que consegue, ainda assim, retornar a sua posição inicial. A saída do lugar relativamente seguro oferecido pela neutralidade e abstinência e a adoção da posição de parceria exigirá do analista a capacidade de suportar os sentimentos de ódio que eventualmente podem surgir no decorrer do tratamento sem perder o equilíbrio. O analista deve se mostrar aberto a ser alvo tanto dos sentimentos ternos e afáveis quanto dos movimentos apaixonados e agressivos. Mais: deve não apenas se apresentar disponível a recebe-los como também capaz de sobreviver a eles.

Ferenczi observou que pacientes que foram severamente traumatizados nas etapas iniciais de seu desenvolvimento sofrem principalmente da incapacidade de confiarem no mundo (e, por transferência, no analista). Isso os leva a terem dificuldade de se entregar ao processo terapêutico. Assim, o conjunto de manifestações refratárias ao tratamento que Freud chamou de “reação terapêutica negativa” não seria, em todos os casos, uma mera resistência à exploração do conteúdo recalcado ou a expressão de uma suposta “pulsão de morte”. Em outras palavras, o paciente não se entregaria por razões de natureza relacional e não intrapsíquica. A experiência precoce com um ambiente hostil o levaria a sentir-se inseguro e desconfiado: o que garante que o trauma não possa se repetir? Por esse motivo, o esforço do analista não deve ser no sentido de debelar uma suposta resistência, mas na direção de proporcionar um ambiente afetivo o mais próximo possível do esperado pelo bebê antes do trauma. O oferecimento desse ambiente, contudo, não levará o paciente imediatamente à reconquista da capacidade de confiar. Justamente pelo temor de que o trauma possa se repetir, o paciente inevitavelmente tenderá a testar esse novo ambiente acolhedor a fim de certificar-se de que ele é efetivamente confiável. É nesse momento que a maturidade do próprio analista (conquistada graças a sua própria análise) será fundamental. Afinal, o terapeuta deverá ser maduro o suficiente para (1) compreender empaticamente a esperança subjacente aos comportamentos eventualmente agressivos do paciente, (2) aceitar, como um João Bobo, ser golpeado por ele e (3) sobreviver a esses ataques, demonstrando afetivamente ao paciente que ele está diante de um ambiente confiável.

Isso significa que, diante dos movimentos agressivos do paciente, o analista deve simplesmente fazer uma “cara de paisagem” e fingir que nada está acontecendo? Não, dirá Ferenczi. Com efeito, uma das características essenciais de uma pessoa confiável é a sinceridade. O analista húngaro chega, inclusive, a chamar de “hipocrisia profissional” a tendência dos analistas ortodoxos a não expressarem nunca o que sentem a fim de preservarem a neutralidade. Como estamos frisando desde o início deste texto, para Ferenczi o analista não é um lugar, uma função, um vazio. Pelo contrário! O analista é, antes de tudo, uma pessoa com quem o paciente estabelece uma relação real. Nesse sentido, se o analista oculta do paciente todos os seus movimentos afetivos produzidos pela própria relação analítica, ele está impedindo o estabelecimento de uma relação autêntica. Para alguns pacientes (que cada vez se tornam mais raros) essa atitude pode até não comprometer de forma significativa o trabalho. Já para pacientes cuja raiz do adoecimento emocional é a série de traumatismos sofridos na relação com o ambiente, um analista que resiste à instauração de uma relação real é radicalmente anti-terapêutico. Por outro lado, ao defender o uso da sinceridade na relação com o paciente, Ferenczi não está propondo que a análise se transforme numa exposição contínua do próprio analista. O analista húngaro está apenas frisando o valor terapêutico da atitude espontânea e sincera do analista.

À guisa de conclusão, diremos que a técnica psicanalítica clássica proposta por Freud, fundamentada na abstinência e na neutralidade do analista, foi um experimento inegavelmente útil para o tratamento de pacientes que podiam, digamos, se darem ao luxo de prescindir da presença do analista. O analista que se apaga e deixa seu lugar mais ou menos vazio para que o paciente possa atualizar seus conflitos inconscientes é adequado para casos leves de histeria, neurose obsessiva e fobia. Contudo, na atualidade, tais casos têm se mostrado cada vez menos frequentes na clínica. Temos encontrado pacientes cuja capacidade para lidarem com o apagamento do analista é bastante reduzida. Para esses pacientes, o analista empático, que não se apaga e se apresenta disponível para ser afetado é de suma importância. Nesses casos, é a experiência afetiva de relação com tal analista o elemento terapêutico primordial e não a elaboração intrapsíquica de conflitos inconscientes.

Quando o analista não se apaga (parte 3)

ep-101-jesse-1024Ferenczi observou que o choque entre a linguagem da ternura expressa pela criança e a linguagem da paixão manifesta pelo adulto é inevitavelmente traumático. Afinal, assim como a criança é ainda incapaz de compreender uma sexualidade que ultrapasse os limites do pré-prazer lúdico, o adulto também não tem condições de abandonar completamente a linguagem da paixão e identificar-se de forma plena com o modo infantil de amar. Em decorrência, um ponto de incompreensão marcaria desde o início as relações entre os adultos e as crianças. Contudo, para Ferenczi, essa fator só se tornaria efetivamente um trauma desestruturante e fonte de adoecimento emocional se o adulto negligenciasse a diferença entre o seu modo de amar e o modo de amar infantil e impusesse a linguagem da paixão sobre a criança. No texto “Confusão de língua entre os adultos e a criança”, Ferenczi cita especificamente o exemplo do abuso sexual, em que essa imposição se dá de modo flagrante. No entanto, podemos inferir, à luz dos desenvolvimentos teóricos de outros autores, como Winnicott, que, ao falar do potencial traumático das imposições do adulto sobre a criança, Ferenczi não estava fazendo referência apenas a casos de abusos sexuais.

O que Ferenczi parece querer acentuar – e as modificações que ele fará no plano da técnica evidenciam isso – é o papel que o ambiente exerce na etiologia do adoecimento emocional. De fato, com o abandono da chamada “teoria da sedução” e a valorização da fantasia, Freud passou a dar menos importância aos fatores externos na formação das neuroses, enfatizando muito mais os mecanismos de defesa e as fantasias inconscientes. Foi justamente esse enfoque eminentemente intrapsíquico do adoecimento emocional que deu origem ao enquadre terapêutico clássico proposto por Freud, no qual o analista é uma figura passiva, que funciona basicamente como um endereço para as projeções do paciente. Em outras palavras, se o ambiente externo não exerce papel importante na etiologia das neuroses, a pessoa do analista é igualmente irrelevante. Assim como, no plano teórico, o ambiente externo não teria levado ao surgimento da doença, no plano da técnica, o comportamento do ambiente externo (analista) também não contribuiria para o resgate da saúde.

Ferenczi, por seu turno, ao se dar conta dos efeitos deletérios da aplicação da técnica ativa e refletir sobre o potencial traumatogênico dos comportamentos do adulto em relação à criança, chegou à conclusão de que o ambiente externo poderia, sim, ser fonte de adoecimento emocional. Muitos pacientes, em especial os que apresentavam patologias mais graves, não teriam adoecido apenas em decorrência de conflitos intrapsíquicos mal elaborados, mas em função de traumas provocados por comportamentos invasivos, opressivos ou negligentes do ambiente externo. Nesse sentido, o tratamento desses pacientes não poderia mais ser concebido como um processo exclusivamente intrapsíquico, como queria Freud. Se o comportamento de determinadas pessoas foi determinante para o surgimento da neurose, assim também o comportamento do analista seria igualmente determinante para o sucesso do tratamento. Ferenczi fará, então, fortes questionamentos em relação ao lugar clássico do analista.

Do ponto de vista ferencziano, o comportamento clássico do analista, marcado por certa frieza emocional, objetividade e neutralidade, é bastante semelhante à atitude geral de um ambiente que pode traumatizar uma criança. Com efeito, a criança espera encontrar à sua volta um ambiente terno, afável, acolhedor, que a compreenda e no qual ela possa confiar para continuar simplesmente existindo, sem se preocupar com os perigos do mundo. Esses desejos, contudo, são expressos na linguagem da ternura, ou seja, a criança não tem a expectativa de ser satisfeita pelo adulto com uma relação sexual propriamente dita. Exercitando sua aguda perspicácia clínica, Ferenczi observará que muitos pacientes, ao longo do processo terapêutico, começam a fazer essas mesmas demandas infantis. Diferentemente de outros analisandos que expressavam desejos de efetivamente terem uma relação amorosa com o analista, esses pacientes faziam demandas que eram bem características da linguagem da ternura. Em outras palavras, eles não queriam transar com o analista, mas encontrar nele acolhimento e confiabilidade – elementos com os quais não teriam podido contar na infância.

Ferenczi compreendeu, portanto, que esses pacientes haviam regredido para um ponto de seu desenvolvimento anterior à incidência do trauma, um ponto em que ainda eram capazes de esperar acolhimento, ternura e confiabilidade do ambiente externo. Se o analista, frente a essas demandas, se comportasse da maneira clássica, ou seja, frustrando-as e mantendo-se numa posição de neutralidade, ele estaria repetindo a mesma atitude traumatogênica do ambiente primário do paciente. Em outras palavras, podemos dizer que, em certos casos, o apagamento do analista não contribui para o sucesso do tratamento. Pelo contrário, favorece a continuidade e a intensificação do adoecimento.

Atento ao potencial “re-traumatogênico” da neutralidade analítica, Ferenczi irá propor que a técnica psicanalítica não seja mais padronizada, mas vem ao encontro das necessidades de cada paciente. Tomando emprestada uma expressão proposta por um de seus analisandos, Ferenczi defenderá uma “elasticidade da técnica psicanalítica”. Para o analista húngaro, se levarmos em conta que na clínica encontramos vários perfis de pacientes (alguns mais traumatizados que outros ou mais amadurecidos que outros, por exemplo), isso significa que nossa intervenção não pode ser a mesma para todos eles. O terapeuta precisaria modular sua posição clínica de acordo com as especificidades de cada caso. E como saber o tipo de abordagem que cada paciente precisa? Observando e classificando os sintomas? Lendo tratados de psicopatologia? Não, dirá Ferenczi. Para identificar as necessidades de cada paciente, o analista deverá fazer uso da empatia, ou seja, deverá colocar-se não mais numa posição de neutralidade e objetividade, mas de sintonia, sentindo com o paciente o que esse lhe dirige.

Quando o analista não se apaga (parte 2)

SmoochesSándor Ferenczi, analista húngaro cuja obra tem sido injustamente pouco valorizada nos cursos de psicologia do Brasil, foi certamente um dos pioneiros no questionamento da neutralidade do analista. Esse questionamento se deu, sobretudo, em virtude dos efeitos colaterais produzidos pela aplicação do que Ferenczi chamou de “técnica ativa”, uma tática clínica que pretendia radicalizar o princípio de abstinência freudiano. A técnica ativa consistia basicamente em exortar o paciente a adotar certos comportamentos (como enfrentar diretamente uma fobia através da aproximação ao objeto fóbico, por exemplo) e proibi-lo de executar outros (como certas manias ou tiques, hábitos considerados equivalentes à masturbação). O objetivo era impedir que o paciente utilizasse suas inibições ou comportamentos, principalmente no setting analítico, como meio de descarga pulsional. Ferenczi observava que, ao ter sua tensão psíquica aumentada dessa maneira, o doente não poderia evitar o trabalho de rememoração e elaboração dos conteúdos recalcados, acelerando o processo analítico. Vale lembrar que, ao formular o princípio de abstinência segundo o qual o analista não deve atender a nenhuma demanda do paciente, Freud tinha em mente a mesma intenção: aumentar a tensão psíquica através da frustração da demanda e, com isso, facilitar o aparecimento do material recalcado. O aspecto inovador da técnica ativa proposta por Ferenczi foi a constatação de que, a despeito de não poder utilizar o analista, o paciente poderia encontrar outros meios de descarga pulsional, como os ganhos secundários dos sintomas e certos comportamentos de caráter masturbatório. Portanto, seria preciso estancar também essas vias de descarga a fim de evitar que a análise estagnasse.

Do ponto de vista do objetivo clássico do tratamento psicanalítico, qual seja, promover a rememoração e integração psíquica dos conteúdos recalcados, a aplicação da técnica ativa proporcionou resultados bastante positivos. De fato, quando o paciente se submetia às injunções e proibições do analista, a análise que até então parecia estagnada e girando em círculos, apresentava um significativo avanço. O material recalcado passava a se manifestar de modo menos tolhido e o trabalho de elaboração adquiria um novo impulso. Contudo, do ponto de vista da relação entre paciente e analista, a técnica ativa produzia efeitos de natureza iatrogênica. O terapeuta inevitavelmente acabava ocupando o lugar de mestre – posição que Freud sempre considerou contrária aos objetivos da psicanálise – e o paciente, em contrapartida, colocava-se numa posição de submissão a qual, como o próprio Ferenczi percebeu, frequentemente era utilizada para esconder sentimentos de desconfiança, incredulidade e hostilidade em relação ao analista.

A partir da constatação desses efeitos colaterais da técnica ativa e de uma reflexão renovada sobre o papel do da fator traumático na causação das neuroses, Ferenczi chegaria à conclusão que o faria questionar o princípio de abstinência e a neutralidade do analista. Ferenczi notou que esse lugar de sujeição ao terapeuta que o paciente era obrigado a ocupar pela aplicação da técnica ativa era análogo à posição de uma criança vítima de um trauma. Assim como um bebê que é forçado precocemente a abrir mão de sua espontaneidade para se sujeitar à realidade dura do ambiente à sua volta que não o compreende, na técnica ativa o paciente é forçado a se submeter às regras ditadas pelo analista. Quando o terapeuta proíbe o paciente de executar determinadas ações ele se comporta como um pai ou uma mãe que vê seu filho brincando com seu órgão genital e o proíbe terminantemente de fazê-lo. Assim como a mãe ou o pai acreditam que tal comportamento não é adequado, o analista também se fundamenta no pressuposto de que determinados comportamentos podem ser inadequados para o alcance dos objetivos psicanalíticos. Em ambos os casos, as proibições apresentam um caráter moralizante. Podemos, ademais, nos questionarmos acerca da própria natureza dos comportamentos que a técnica ativa proibia. Eles representariam de fato uma descarga pulsional, ou seja, seriam a expressão deslocada da sexualidade tal como vivenciada pelo adulto? Não seriam, talvez, equivalentes à manipulação lúdica que a criança faz de seus órgãos genitais, manipulação que evidentemente provoca prazer, mas um prazer diverso daquele em jogo na sexualidade adulta, que visa ao orgasmo?

Penso que Ferenczi respondeu afirmativamente a essa última pergunta, já que o abandono da técnica ativa é contemporâneo das reflexões sobre as diferenças entre os pontos de vista dos adultos e das crianças que o analista húngaro faz em um de seus textos mais conhecidos: “Confusão de língua entre os adultos e a criança”. Nesse artigo, Ferenczi defende a tese de que a expressão da sexualidade na criança é bastante distinta da manifestação da sexualidade entre os adultos. Diferentemente da sexualidade adulta, a sexualidade infantil não visaria o prazer final (orgasmo). Permaneceria, portanto, nos limites daquilo que Freud chamou de “pré-prazer”, isto é, daqueles comportamentos que, na sexualidade adulta, servem como preliminares à penetração. O pré-prazer seria suficiente para satisfazer a criança e sua expressão não comportaria a seriedade e o caráter apaixonado presente na sexualidade adulta. A sexualidade infantil se manifestaria através da ternura e apresentaria um caráter lúdico. Nesse sentido, em termos de sexualidade, crianças e adultos falariam dois idiomas completamente diferentes: a linguagem da ternura e a linguagem da paixão.

CONTINUA

Quando o analista não se apaga (parte 1)

treat.span

Qualquer pessoa minimamente versada em psicanálise sabe que Freud inventou o método psicanalítico principalmente para obter êxito no tratamento da histeria. As experiências com a hipnose e com o método catártico realizadas em parceria com Breuer já haviam revelado a ele a natureza dos enigmáticos sintomas histéricos. Tratava-se, na verdade, de substitutos de desejos, pensamentos e fantasias que haviam sido excluídos da consciência pelo próprio indivíduo. A hipnose e o método catártico também haviam mostrado que quando se trazia os conteúdos reprimidos novamente para a consciência, os sintomas tendiam a desaparecer, pois perdiam sua função de substituir o material recalcado. Como já expliquei em outro texto, a psicanálise foi inventada justamente porque esse processo de trazer os conteúdos reprimidos novamente para a consciência não é nada fácil na medida em que sofre uma forte resistência da parte do ego.

Contudo, apesar de ter proposto um método novo para o tratamento da histeria (e de outras neuroses), Freud continuou durante um bom tempo almejando o mesmo objetivo de antes: levar o sujeito a preencher as lacunas de seu psiquismo produzidas pelo processo de recalcamento. Isso fez com que o tratamento psicanalítico se concentrasse naquilo que o paciente diz (e não diz) e nas eventuais interpretações do analista desses ditos e não-ditos. A regra da associação livre e a técnica da atenção flutuante, por exemplo, são procedimentos que visam justamente permitir que o material inconsciente possa aflorar. Assim, podemos dizer que o foco do tratamento são os conteúdos que emergem ao longo das sessões.

Nesse contexto, a relação entre paciente e analista é vista como um elemento potencialmente perturbador do processo de revelação do inconsciente. Por isso, Freud recomenda que o analista se mantenha neutro, tal como um químico diante de um tubo de ensaio. As possíveis demandas de apoio, cuidado e amor feitas pelo paciente não devem ser atendidas, mas interpretadas, na medida em que são vistas apenas como reedições de demandas feitas originalmente às figuras parentais. Em outras palavras, o analista não deve se colocar no tratamento como uma pessoa se relacionando com outra. Pelo contrário, deve apagar-se a fim de que apenas o inconsciente possa se fazer presente.

Diversos analistas pós-freudianos, dentre eles Ferenczi e Winnicott, perceberam que para muitos pacientes, o apagamento do analista não era nada terapêutico. No tratamento desses pacientes, a relação com o analista seria tão ou mais relevante que a análise do material verbalizado. Para Winnicott, por exemplo, alguns pacientes neuróticos (histéricos, obsessivos e fóbicos), a despeito da gravidade de seus sintomas, possuem a segurança suficiente para mergulharem na investigação do inconsciente sem que o analista precisasse fazer nada. Nesses casos, a atitude fria e neutra do analista não exerceria influência significativa no tratamento, podendo até favorecer o trabalho.

Por outro lado, existem pacientes que sofrem de patologias cuja raiz não está no recalque de determinados conteúdos psíquicos, mas em distúrbios experimentados nos estágios mais precoces do desenvolvimento emocional. Na análise desses indivíduos, a relação com o analista é trazida para o primeiro plano. Na medida em que os sintomas que apresentam não são, em sua maioria, substitutos de conteúdos recalcados, tais pacientes não se beneficiam de uma análise baseada apenas na associação livre e na interpretação. As manifestações patológicas que trazem à clínica estão ligadas a traumas vivenciados em estágios muito primitivos de sua história e provocados por falhas do ambiente. Em outras palavras, a origem do sofrimento desses pacientes está ligado a problemas na relação com os primeiros objetos. Em decorrência, no tratamento, o elemento determinante não poderá ser outro que não a relação com o analista. Nesse caso, o analista será obrigado a abandonar sua posição habitual de neutralidade e abstinência já que esse tipo de atitude, como dissemos, faz com que ele se apague em vez de se fazer presente.

De que forma o analista deve se fazer presente? Se o foco do tratamento passa a ser a relação e não os conteúdos, de que forma o analista deve se comportar? E quais serão os novos objetivos do tratamento já que não se trata mais de preencher as lacunas produzidas pelo recalque?

A psicologia do “bonzinho”

Betty Draper

Você certamente deve conhecer pessoas que se encaixam no perfil que irei descrever abaixo. Talvez você até seja uma delas. Trata-se daqueles indivíduos aos quais o senso comum se refere como “bonzinhos”. O fato de essa alcunha ser formulada no diminutivo já denota suficientemente uma característica básica dessas pessoas: o modo afetado com que expressam os atributos que tendemos a associar à bondade. O bonzinho é uma caricatura do ideal de bondade construído pela civilização ocidental. Ele é cordial em excesso, solícito em excesso, prestativo em excesso, humilde em excesso… Enfim, o bonzinho manifesta em suas atitudes e comportamentos todas as características superficiais que são reputadas a um indivíduo supostamente bom. Contudo, não possui o tempero do equilíbrio que torna a bondade um valor precioso.

Neste texto pretendo fazer algumas despretensiosas ilações e formular algumas hipóteses que podem nos ajudar a compreender a dinâmica psicológica subjacente ao modo “bonzinho” de ser. Como o leitor poderá perceber, farei um uso bastante livre de certos conceitos da teoria psicanalítica, sem a preocupação de demonstrar filiação a alguma orientação teórica específica.

Insegurança

Os pais, cônjuges, familiares e amigos mais próximos dos indivíduos “bonzinhos” percebem com muita clareza que se trata de pessoas geralmente muito inseguras. A despeito da devoção que demonstram pelo outro em muitas ocasiões – o que poderia a princípio indicar amadurecimento emocional – os “bonzinhos” frequentemente sofrem com o medo de não serem aceitos, amados ou reconhecidos pelo outro. Nesse sentido, quando se mostra excessivamente prestativo ou incapaz de negar um favor a alguém, o “bonzinho” não está dando mostras de que não é uma pessoa egoísta ou avarenta. Na maior parte das vezes, o “bonzinho” não ajuda o outro por uma decisão espontânea e consciente de fazê-lo, mas sim pelo medo de não ser amado pelo outro. Em decorrência, as relações interpessoais do “bonzinho” tendem a ser profundamente narcísicas, pois ele está o tempo todo tentando “resolver” a sua própria insegurança.

O temor de perder o amor do outro é tão imperativo que as demandas alheias acabam sendo tomadas pelo “bonzinho” como obrigações. Isso faz com que as pessoas com as quais o ele não possui vínculos muito fortes acabem acreditando que estão lidando apenas com uma pessoa muito prestativa e generosa.

Podemos concluir, portanto, que o “bonzinho” está muito mais preocupado com o seu próprio eu, ou melhor, com as fragilidades de sua estrutura egóica, do que com o outro. Em outras palavras, o que está por trás dos comportamentos do “bonzinho” é exatamente o oposto do que sua conduta parece indicar à primeira vista. Com isso, não estou defendendo a tese de que o “bonzinho” encarne a figura do canalha egoísta que ajuda os outros por um mero exercício de “marketing pessoal”. O funcionamento subjetivo do “bonzinho” não é perverso, mas da ordem do que ficou conhecido em psicanálise como “patologias narcísicas”. Devotar-se ao outro, ter dificuldade para confrontá-lo e para resistir às suas demandas são comportamentos que se impõem ao “bonzinho” com a força de atos compulsivos. Ele só consegue fazer frente ao medo de perder o amor do outro, sujeitando-se, tornando-se um servo resignado.

Máscara

Um conceito que talvez nos possa ser de grande utilidade para a compreensão da etiologia da conduta “boazinha” é a noção de “falso self” proposta por Winnicott. Do ponto de vista desse autor, quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico com o bebê nas fases iniciais do desenvolvimento, a criança pode desenvolver um falso self a fim de assegurar sua sobrevivência psíquica. Quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico? Quando é invasivo ou negligente, ou seja, quando não atende as necessidades do bebê em seu ritmo. Nessas situações, o bebê é obrigado a abrir mão de sua espontaneidade para se comportar de acordo com o ritmo do ambiente. Essa maneira artificial de se comportar é uma das facetas do que Winnicott chamou de “falso self”.

Ora, em linhas gerais não é isso o que ocorre com o “bonzinho”? Se levarmos em conta o modo subserviente com que lida com as pessoas, podemos inferir que inconscientemente o “bonzinho” experimenta o outro como hostil ou, no mínimo, como incapaz de resistir a uma negativa. Assim, o “bonzinho” dá mostras de não ter incorporado uma referência de cuidado suficientemente bom capaz de produzir nele o sentimento de segurança que dá sustentação ao eu. Por essa razão, é como se o indivíduo precisasse segurar a si mesmo o tempo todo e proteger-se do abandono do outro, objetivos que só podem ser alcançados por meio da construção de uma identidade artificial: o modo “bonzinho” de ser.

Quem é do mar não enjoa

LeSphinxPara muitas pessoas, o conceito de saúde emocional está diretamente ligado ao sentimento de estar em equilíbrio do ponto de vista psicológico. Não por acaso, muitos autores definem o termo “crise” em psicopatologia como sendo a ocasião em que esse equilíbrio seria perdido. Nesse sentido, a capacidade de se manter em equilíbrio diante de situações que tendem a provocar instabilidade seria um forte indicador de saúde emocional. Por outro lado, as imagens que imediatamente nos vêm à cabeça quando pensamos em alguém “equilibrado” são as de uma pessoa ajustada à moral vigente, que cumpre seus deveres e se mostra impassível diante das mais diversas situações. Assim, a ideia de “equilíbrio emocional” quase sempre nos evoca imagens de pessoas chatas, sem graça ou pouco afetivas.

Creio que essa associação se deve ao fato de pensarmos intuitivamente no equilíbrio da mesma forma que nos acostumamos a pensar no conceito de saúde, a saber: de um ponto de vista negativo. Assim, como a saúde foi tradicionalmente concebida como ausência de doença, assim também o equilíbrio é tomado de forma imediata como ausência de instabilidades. O indivíduo equilibrado seria aquele que não se move, não se altera, não se afeta. Em suma, uma abstração.

Penso que o conceito de “equilíbrio emocional” só pode adquirir valor teórico e prático se for definido positivamente, a exemplo do que alguns teóricos fizeram com a noção de saúde. Enquanto a saúde era definida como ausência de doença ou ausência de anormalidades, não se podia definir ninguém como efetivamente saudável, na medida em que nenhum indivíduo concreto seria capaz de encarnar o ideal de um organismo sem nenhum tipo de alteração ou anormalidade. Atento a essa incoerência, o filósofo Georges Canguilhem ousou propor uma concepção positiva de saúde. Saudável, para Canguilhem, é aquele indivíduo que além de conseguir viver dentro das condições que o ambiente em que se encontra lhe impõe, possui a plasticidade suficiente para se adaptar a outros contextos. O filósofo, portanto, define saúde não como a ausência de doença, mas como a presença dessa capacidade ativa de adaptação.

Acredito que possamos utilizar esse mesmo procedimento para fazer com que o conceito de “equilíbrio emocional” não seja tomado como uma mera abstração idealizada ou como sinônimo de chatice. Para isso, devemos nos perguntar: como definir esse conceito positivamente? O que é uma pessoa emocionalmente equilibrada? Penso que para realizar essa tarefa, o poeta Martinho da Vila possa nos ajudar.

No seu primeiro disco, de 1969, Martinho canta o verso “Quem é do mar não enjoa”, que, aliás, é o título da música em que se encontra. Penso que essa frase curta e singela resume de forma brilhante os traços essenciais de um indivíduo emocionalmente equilibrado. Como se vê, o verso faz referência aos marinheiros, pescadores e demais pessoas que lidam com a vida em alto-mar. Qualquer pessoa que já esteve em alguma embarcação sabe que uma reação bastante comum nos primeiros dias de navegação é o enjoo produzido pelo balançar do barco no mar. Aqueles que precisam passar muito tempo navegando, pouco a pouco vão deixando de sentir esse enjoo, acostumando-se à instabilidade do “solo” no qual trafegam.

É interessante notar que, diferentemente do que ocorre com os navegantes eventuais, que deixam de sentir enjoo ao tomarem certos medicamentos ou ao retornarem para a terra firme, os chamados “homens do mar” aprendem a não sentir náuseas. Aprendem por meio da vivência contínua do balançar da embarcação. Eles não tomam pílulas para não experimentar a inevitável sensação de desequilíbrio e instabilidade provocada pelo movimento do mar. Essa agitação passa a fazer parte de seu cotidiano, de modo que o enjoo, fruto do descompasso entre a estabilidade da terra e a instabilidade do oceano, gradualmente desaparece.

Creio que a existência humana está muita mais próxima da experiência de navegação em um mar revolto do que de uma caminhada em terra firme. Talvez seja essa a razão pela qual a maioria de nós se apega tanto às rotinas e procedimentos burocráticos. Rotinas são rotas conhecidas, já trilhadas, que já não produzem o estranhamento (e o encantamento) que experimentamos diante de uma vereda desconhecida. A rotina faz a vida parecer um eterno passeio por ruas já percorridas. Com isso não estou fazendo uma apologia a uma vida completamente imprevisível, sem nenhum tipo de regularidade. Quero apenas revelar o desespero que pode estar por trás do apego que muitos de nós temos em relação às nossas rotinas. Trata-se, a meu ver, de um desespero equivalente ao enjoo que experimentam aqueles “que não são do mar” quando estão em uma embarcação. A rotina, nesse sentido, poderia ser vista como um remédio para eliminar o enjoo, ou seja, uma solução artificial para o desespero diante da instabilidade e imprevisibilidade do oceano existencial. Isso não significa que o indivíduo emocionalmente equilibrado seria aquele que não tem enjoos, ou seja, não sofre, não se exalta, não se afeta.

Assim como o marinheiro que no início de sua carreira padece diariamente com náuseas, mas que logo aprende a conviver com o balanço do mar, assim também o indivíduo emocionalmente equilibrado aprende que problemas, impasses, dores são inevitáveis na existência, mas que é possível sobreviver a elas. O desequilíbrio emocional estaria na incapacidade de suportar o vai-e-vem da vida. Desequilibrado não é quem eventualmente se exaspera, grita, chora diante das situações, mas aquele que é incapaz de se manter emocionalmente de pé perante as vicissitudes da existência, sonhando com uma vida firme, previsível, sem náusea e sem graça.

Metapsicologia da paixão

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O processo de apaixonar-se certamente é um dos fenômenos mais comuns e fascinantes da experiência humana. Como se sabe, a palavra “paixão” está vinculada etimologicamente ao vocábulo grego “pathos” que poderia ser traduzido livremente por doença, enfermidade, sofrimento – daí a nossa conhecida patologia. De fato, embora geralmente seja fonte de grande prazer para o indivíduo, o estar apaixonado também envolve frequentemente certo grau de sofrimento, especialmente nos casos em que o objeto não corresponde ao amor que lhe é endereçado. Por outro lado, mesmo nos casos em que o desejo entre os parceiros é recíproco, ainda assim a experiência da paixão chega a produzir estados de angústia que só são superados após certo tempo de relacionamento.

Ao introduzir na teoria psicanalítica a noção de “narcisismo primário” num artigo clássico de 1914, Freud acabou lançando luz sobre o que acontece, do ponto de vista metapsicológico, com uma pessoa que se encontra apaixonada. Inicialmente, tentaremos explicar em humanês o que o fundador da psicanálise tinha em mente ao propor a noção de um narcisismo primário. Em seguida, demonstraremos como esse conceito permitiu a Freud inferir os mecanismos psicológicos que estariam por trás do fenômeno do apaixonar-se.

Centro do mundo

Até o momento em que Freud publicou esse artigo que eu mencionei de 1914 chamado “Sobre o narcisismo: uma introdução”, o narcisismo era compreendido pela psiquiatria da época unicamente como um transtorno da sexualidade caracterizado pelo fato de o indivíduo nutrir desejos eróticos por si mesmo. Como, do ponto de vista freudiano, a sexualidade não estava restrita ao campo da genitalidade, mas englobava tudo o que tivesse a ver com o amor num sentido amplo do termo, Freud logo percebeu que o “amor por si mesmo” não era uma prerrogativa apenas de determinados perversos. Em outras palavras, o narcisismo, tomado num sentido mais amplo, era um fenômeno passível de ser encontrado em todas as pessoas. Todas as pessoas tomariam a si mesmas como objeto de amor, em maior ou menor grau. A pergunta que Freud buscou responder no artigo foi: por que isso acontece, isto é, por que nós amamos a nós mesmos?

Atento ao lugar privilegiado que os bebês ocupavam nas famílias ocidentais modernas, o médico vienense formulou a seguinte hipótese: nós amamos a nós mesmos como forma de resgatar a primeira experiência que tivemos na vida: a de sermos plenamente, integralmente, completamente amados pelas pessoas que estão ao nosso redor. Ora, não é isso o que acontece com a maioria dos bebês quando nascem? O próprio Freud, no artigo, brinca dizendo que o bebê torna-se uma verdadeira majestade no ambiente familiar. Para ele são dirigidas todas as atenções, todas as expectativas, todos os projetos. É essa experiência inicial de ser o centro do mundo que Freud chamou de “narcisismo primário”. Quando esse momento se encerra, é como se ficássemos como um “gostinho de quero mais” e passássemos a vida inteira tentando de alguma forma reproduzi-lo. Para alcançar isso, Freud diz que nós forjamos uma imagem idealizada de nós mesmos (eu ideal) que caso fosse de fato encarnada nos proporcionaria a mesma experiência de ser o centro do mundo que tivemos quando bebês.

Amo-me em ti

O que tudo isso tem a ver com o estar apaixonado? Ao observar a fenomenologia da paixão, Freud chega à conclusão de que, na verdade, amar seria uma forma indireta (talvez pudéssemos até dizer: sintomática) de buscar o retorno da experiência de narcisismo primário. Quando estamos apaixonados, idealizamos os traços do objeto amado, colocando-o no centro de nossa existência, ou seja, fazemos com o objeto exatamente aquilo que o mundo fez conosco quando éramos bebês – experiência que gostaríamos de vivenciar ininterruptamente. É como se idolatrando e idealizando o objeto amado pudéssemos vivenciar indiretamente a experiência de sermos amados plenamente.

Trata-se de um fenômeno paradoxal, pois, como Freud assinala, o indivíduo apaixonado se apresenta humilde, não raro sem demonstrações de amor próprio. Grande parte da sua libido, que anteriormente estava investida em si mesmo e na imagem idealizada de si mesmo (seu eu ideal) agora passa a ser dirigida ao objeto. O indivíduo não se sente digno de elogios ou favores. Somente o objeto deve ser servido e adorado. Nesse sentido, do ponto de vista freudiano, ao se apaixonar o indivíduo abre mão de seu narcisismo, mas para recuperá-lo de forma indireta e bem mais potente no objeto amoroso idealizado. Dito de outro modo, para Freud, amamos o outro para melhor amarmos a nós mesmos.

Sofrendo o suficiente para não sofrer o insuportável

Psychosis-Bangour-Village-Hospital-Mono-Print-Copy1Diferentemente do que pensam os leigos, o delírio apresentado por um indivíduo psicótico não é uma manifestação direta de sua doença, mas sim uma tentativa, digamos, capenga de se autocurar. Sim, um paranoico que acredita piamente estar sendo monitorado e perseguido pelo FBI não padece propriamente dessa ideia delirante. Ela o faz sofrer, evidentemente, mas, por outro lado, é justamente essa crença que o impede de provar um sofrimento ainda maior: aquele que está em jogo na experiência de desmoronamento da realidade que acomete o psicótico nos momentos iniciais da doença. O delírio é uma espécie de colagem de fragmentos psíquicos que foram, por alguma razão, espalhados. É como se a tendência espontânea de integração presente desde o início da vida impulsionasse o indivíduo a fazer um mosaico com os pedaços de si mesmo. O delírio é, portanto, uma terapêutica “natural” para a experiência de desintegração e de ausência de sentido presente na psicose.

É interessante notar que delirar, em certo sentido, não é uma prerrogativa apenas dos psicóticos. Se levarmos em conta a função eminentemente terapêutica do delírio de possibilitar uma saída diante do sem-sentido, podemos dizer com certa segurança, parafraseando Lacan, que todos deliram. A vida inevitavelmente nos oferece experiências que não podem ser processadas pelos nossos “esquemas cognitivos prévios” (expressão que usada livremente, isto é, fora da teoria piagetiana, possui o seu valor). A morte de uma pessoa querida, por exemplo, experimentada sem o apoio reconfortante das crenças religiosas, apavora muito mais por sua incompreensibilidade do que pela perda de quem se foi. Há quem diga que as religiões não passam de grandes delírios que nos servem de consolo para o sem-sentido da morte. De fato, a experiência de compreender aquele evento como um processo de desencarnação ou de adormecimento espiritual é, sem dúvida, menos sufocante do que lidar de forma imediata com ele.

Entre o delírio psicótico e as inevitáveis construções que fazemos diante de determinadas experiências a fim de enfrentá-las de modo menos doloroso, estão certas fantasias que, assim como os delírios, produzem um sofrimento suportável como “remédio” para um sofrimento insuportável. Algumas dessas fantasias são típicas, como a convicção jamais confirmada pela experiência que alguns pacientes têm de que seus pais possuem uma preferência ou predileção por seus irmãos. É óbvio que uma situação como essa pode se configurar efetivamente, mas, no caso dessas pessoas, não há nenhuma evidência de que ocorra. Quando se analisa a história do paciente, verifica-se com certa clareza que a fantasia de que se foi preterido pelos pais funcionou, na verdade, como uma tentativa desesperada de dar sentido a determinadas experiências que, à época em que aconteceram, não puderam ser compreendidas. Um exemplo simples: um indivíduo pode ter construído a fantasia de que não era amado pela mãe porque, quando criança, sua genitora precisou ser internada num hospital em função de uma doença grave e ninguém lhe explicara na ocasião o que de fato havia acontecido. Em outras palavras, a fim de lidar com a experiência bruta e intensamente angustiante da ausência inexplicável da mãe, a criança forjou sua própria explicação, a qual, embora dolorosa, lhe permitiu compreender o episódio.

Vemos na clínica que muitos pacientes experimentam um sofrimento intenso justamente por interpretarem os diversos eventos da existência a partir do seu “paradigma fantasmático”. Não percebem que o seu ponto de vista diante das situações é o ponto de vista que a fantasia lhe proporciona. Não percebem, ademais, que, de forma indireta e inconsciente acabam “produzindo” situações que justificam a fantasia, como um policial que “planta” evidências a fim de incriminar uma pessoa. Isso acontece porque a fantasia precisa se manter sólida a fim de evitar o retorno da experiência incompreensível e angustiante. Nesse sentido, o que se busca na psicoterapia é proporcionar as condições afetivas suficientemente boas para que o paciente possa se permitir experimentar novamente o incompreensível sentindo-se seguro para dar a ele um sentido novo, criativo e aberto à mudança.

Você é o profeta do seu próprio sofrimento?

JóA auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso dos pacientes que atendemos em psicoterapia. Com exceção, talvez, dos deprimidos que, em vez de se considerarem vítimas, enxergam a si mesmos como algozes do mundo, a maioria de nossos pacientes tende a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. A mudança dessa posição subjetiva, aliás, é uma das primeiras tarefas a serem levadas a cabo num tratamento psicoterapêutico. Essa mudança acontece, sobretudo, através de um processo de elaboração psíquica que leva o doente a se dar conta de como ele próprio contribui para a manutenção do seu padecimento.

Como inicialmente veem a si mesmos apenas como vítimas das ações cruéis de outras pessoas, muitos pacientes não percebem que eles próprios, de uma forma inconsciente e amiúde não-verbal, acabam estabelecendo as condições para que lhes aconteça exatamente aquilo que não gostariam que acontecesse. Em psicologia, esse fenômeno recebeu o nome de “profecias auto-realizadoras”.

Tomemos uma ilustração clínica: uma paciente vem ao consultório queixando-se de que as pessoas com as quais convive na faculdade e no ambiente de trabalho sistematicamente a rejeitam por considerarem-na chata. A fim de compreender melhor a lamentação da moça, o terapeuta pergunta a ela se alguma daquelas pessoas já lhe disse explicitamente que ela era chata. A paciente diz que não, que, na verdade, ninguém nunca lhe disse isso, mas ela consegue perceber que é essa a visão que as pessoas têm dela. Notando uma boa oportunidade para uma intervenção, o terapeuta diz: “Então não são as pessoas que lhe veem como chata. É você que imagina que elas pensam isso de você.”. Ao se perceber flagrada em sua auto-vitimização, a paciente tenta se defender, mas acaba se denunciando novamente: “Não! Isso não é coisa da minha cabeça! Eles realmente me acham chata. Por isso, eu quase não converso com ninguém. Povo metido…”.

Segunda ilustração: um jovem de trinta e poucos anos afirma ter procurado tratamento psicoterapêutico por ter dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto. Quando perguntado pelo terapeuta acerca da natureza da dificuldade, o sujeito responde que “as mulheres nunca dão bola para mim; só me dão foras!”. Observando a atitude auto-vitimizadora do paciente, o terapeuta decide repetir a pergunta colocando ênfase na palavra “sua” como forma de retificar sua posição subjetiva: “Mas qual é a natureza da sua dificuldade com as mulheres?”. O paciente, então, responde que não sabe e que procurou ajuda justamente para descobrir o que ele tem de errado.

Nesses dois exemplos é possível observar com certa clareza que as queixas dos pacientes é verbalizada inicialmente com o único propósito de justificar a fantasia de que são inocentes vítimas do comportamento perverso de outras pessoas. Em outras palavras, é como se implicitamente estivessem dizendo ao terapeuta: “Eu sofro porque o mundo me faz sofrer. O mundo tem que mudar, não eu.”. As intervenções do terapeuta visam justamente levar o paciente a converter esse discurso auto-vimizador em um questionamento acerca do que ele próprio precisa mudar em seu comportamento.

Nesse processo, fica claro que tanto a moça que reclama de ser considerada chata quanto o rapaz que se queixa do desprezo das mulheres, contribuem de uma forma muito significativa para que suas queixas se mantenham. A moça não percebe que ela própria se exclui das relações com as pessoas e não o inverso. E ela se exclui por imaginar que os outros a consideram chata, sendo que ninguém jamais lhe disse isso. Pode-se concluir, portanto, que ela própria, antes dos outros, se vê como chata. Trata-se de um auto-julgamento que provavelmente já faz com que ela se coloque frente às outras pessoas de um modo tímido e receoso – atitude que, naturalmente, não favorece ninguém nas relações interpessoais.

No caso do rapaz, as coisas se passam de modo semelhante. Quando o terapeuta repete a pergunta acerca da natureza de sua dificuldade com as mulheres, ele responde com uma fantasia que certamente influencia o modo como se relaciona com o sexo oposto. Ele diz que veio à psicoterapia para descobrir “o que tem de errado” consigo. Nesse momento, o paciente evidencia que vem estabelecendo um juízo moral sobre si mesmo. Ele ainda não formula uma demanda de mudança; quer apenas encontrar essa espécie de “pecado original” que carrega consigo e que lhe impede de obter sucesso com as mulheres. É bastante provável que nas ocasiões em que tem a oportunidade de iniciar uma paquera, o paciente se apresente de modo inseguro e hesitante por considerar de antemão que possui “algo de errado”. Essa insegurança e hesitação, por sua vez, provavelmente acabem transmitindo às mulheres uma impressão negativa a seu respeito e fazendo com que elas se afastem.

Nos dois casos, a expectativa que os pacientes apresentam em relação ao comportamento do outro, isto é, a profecia de que sempre serão rejeitados, inevitavelmente se realiza. Isso não acontece, contudo, porque sejam, como Jó, alvos de um acordo maroto entre Deus e o diabo, mas sim porque eles próprios, sem perceberem, se encarregam de cumprirem a profecia. Um dos objetivos da psicoterapia, como dissemos acima, é justamente o de levar o paciente a perceber que frequentemente exerce o papel de profeta do próprio infortúnio e que a saída para o abandono das profecias auto-realizadoras está na quebra das fantasias de auto-vitimização.

O que é o grande Outro lacaniano?

A incidência da palavraQuero iniciar este texto fazendo a ressalva de que meu objetivo ao escrevê-lo não é o de fazer uma exposição completa do significado do termo “Outro” na teoria lacaniana de modo a esgotar o assunto. Não tenho sequer a pretensão de contemplar todos os sentidos em que Lacan utilizou aquela expressão ao longo de seu ensino. Meu propósito é bastante modesto: trata-se de esclarecer de modo didático a acepção mais clássica do grande Outro lacaniano. Dirijo-me, portanto, especialmente àqueles que estão se iniciando no estudo da psicanálise.

Como já disse em outros textos, conceitos são sempre elaborados com a finalidade de tornar acessíveis teoricamente uma experiência ou um conjunto de experiências. No caso do conceito de “grande Outro” podemos dizer que Lacan pretendia dar conta da relação do homem com tudo aquilo que determina boa parte do seu modo de ser.

O que determina o que somos? Uma resposta possível para essa pergunta poderia ser: as experiências que temos ao longo da vida, certo? Essas experiências de algum modo modelariam a nossa maneira de agir e de pensar. Precisamos nos lembrar, contudo, que essas experiências acontecem dentro de um contexto cultural específico. As experiências possíveis para alguém que nasceu no Oriente Médio são completamente diferentes das experiências possíveis para quem nasceu no Brasil, por exemplo. Em outras palavras, entre o indivíduo e o mundo de experiências que a ele está acessível, existe alguma coisa que recorta a sua realidade.

Dentro desse mundo específico de experiências que a cultura em que eu estou inserido me oferece, podemos dizer que as relações que estabelecemos com as pessoas também determinam quem somos, não é verdade? Muitos dos nossos gestos, hábitos e modos de falar foram fruto das identificações que tivemos com pessoas que, em algum momento da vida, foram importantes para nós. Contudo, o que mais determina o nosso jeito de ser a partir das relações com as pessoas é aquilo que elas falam a nosso respeito. Pense, por exemplo, no seu nome: essa palavra (que certamente não foi escolhida por você, mas sim por outras pessoas, provavelmente seus pais) determinou uma série de situações em sua vida. Pense nas coisas que os seus pais disseram sobre você antes do seu nascimento. Ao contrário do que muita gente pensa, essas coisas não são irrelevantes. Os sonhos, desejos e medos que seus pais tiveram a seu respeito de algum modo condicionaram a sua existência. E isso não sou nem Lacan quem diz. É a própria clínica psicanalítica que o evidencia! É como se nascêssemos como pessoas antes mesmo de nascermos efetivamente. Pense também em que medida a forma como você se descreve está carregada de coisas que as pessoas disseram sobre você. Como psicólogo de um abrigo para crianças e adolescentes percebo como o discurso dos familiares e dos próprios profissionais da instituição organizam a imagem que as acolhidas tem de si mesmas.

Pois bem. Pedi para você pensar em todas essas situações porque elas permitem observar de forma clara que a nossa maneira de ser, de pensar e, sobretudo, de enxergar a si mesmo é fortemente determinada por… palavras. Isso mesmo. Palavras que foram enunciadas por pessoas, mas que parecem se organizar de forma independente e agir sobre nós com um peso de verdade, como se tivessem sido ditas por Deus! Na clínica, por exemplo, às vezes vemos que o sofrimento de algumas pessoas está profundamente enraizado em certas palavras ouvidas quando crianças.

Com o conceito de “grande Outro” Lacan pretendeu abarcar em um único movimento teórico as diversas formas através das quais a palavra nos constitui: da cultura (que é essencialmente feita de linguagem) ao discurso familiar. Do ponto de vista lacaniano, nada mais somos do que o efeito da incidência da linguagem sobre nossos corpos.

Talvez você esteja se perguntando neste momento sobre a necessidade de grafar a palavra Outro com O maiúsculo. Pois bem. Lacan fez isso com o propósito de diferenciar esse Outro como lugar da palavra que nos determina dos “outros” (com o minúsculo) que são as pessoas com as quais nos relacionamos, nos identificamos e às vezes nos confundimos. Para Lacan era necessário fazer essa distinção, dentre outras razões, porque o Outro como lugar da palavra possui uma autonomia que faz com que ele não possa ser reduzido ao que os pequenos outros enunciam. Essa independência da linguagem na determinação do sujeito é certamente uma das grandes marcas da teoria lacaniana.