Faça do medo seu amigo, aprenda a suportá-lo e nunca mais ele te atrapalhará

Antes de começar a escrever o que PRECISO te dizer hoje, quero pedir do fundo do coração que você envie este texto para alguém que sabe que vai se beneficiar com a leitura dele. Combinado?

Então:

Ninguém gosta de sentir medo. Ninguém gosta de se sentir ameaçado ou prestes a sofrer um dano. Talvez o medo seja a experiência emocional que nós mais tentamos evitar.

Angústia e ansiedade são apenas nomes mais “palatáveis” para o medo. A gente geralmente prefere utilizá-los porque além de ser ruim de sentir, o medo também é ruim de ser admitido. Quando confessamos estar com medo, estamos reconhecendo nossa vulnerabilidade e algumas pessoas resistem a admitir isso, pois gostam de se iludirem achando que são imbatíveis.

Puro jogo de cena… Todo o mundo sente medo. Todavia, nem todo o mundo encara o medo como um obstáculo. E é aqui que entra o pulo do gato: é possível experimentar o medo, sofrer com ele e, mesmo assim, fazer o que precisa ser feito.

Quando saí do interior de Minas Gerais e fui para o Rio fazer mestrado, eu tive medo. Não conhecia a cidade e mal sabia onde iria morar. Mas, mesmo com medo, eu fui. E concluí o mestrado. E depois o doutorado, também no Rio.

Quando, logo ao final da graduação, já decidi começar a atender em consultório, eu também tive medo. Será que estou preparado? Será que terei pacientes? Será que vou saber conduzir o tratamento adequadamente? Mas, mesmo com medo, eu comecei a atender. E lá se vão mais de 10 anos ininterruptos de clínica.

Quando decidi renunciar a algumas atividades para poder criar a Confraria Analítica, o medo bateu também. Será que vai dar certo? Será que as pessoas vão se interessar pelo projeto? Mas, mesmo com medo, eu fui lá e fiz. E já estamos no terceiro mês de comunidade e o número de membros só cresce dia após dia.

A mensagem que eu quero te passar com esses exemplos é simples:

Você não precisa perder o medo para conseguir fazer o que quer e o que PRECISA fazer. Dá para CONVIVER com o medo.

Ele não é seu inimigo. É só aquele amigo chato, que não dá vontade ficar por perto, mas que está sempre do seu lado, algumas vezes te impedindo de fazer bobagem…


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Ansiedade é como febre: apenas um sinal de que algo não vai bem

Se você se consultar com um médico e disser: “Doutor, o meu problema é febre.”, o que o profissional fará? Provavelmente, ao término da consulta, lhe receitará algum remédio para reduzir a febre, mas, antes, lhe fará uma série de perguntas e solicitará exames para identificar o que tem causado o aumento atípico da sua temperatura corporal.

Perceba: você chegou lá se queixando de febre, mas o olhar do médico estará muito mais voltado para aquilo que está na origem dessa queixa do que para o estado febril em si. O profissional age assim porque entende a febre apenas como o sinal, o indicativo do verdadeiro problema, o qual pode ser uma infecção ou outro processo fisiológico anormal.

A febre funciona como um alerta que o corpo dispara para nos informar que algo não vai bem. Frequentemente ela é a expressão de uma reação natural de defesa do organismo contra algo que perturba seu funcionamento.

A ansiedade exerce um papel semelhante em nossa vida psíquica. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, ela não é uma doença emocional. Em primeiro lugar, a ansiedade é uma experiência inevitável, adaptativa e saudável. Quando ficamos ansiosos antes de uma prova ou de uma apresentação em público, por exemplo, nos tornamos mais atentos e nos preparamos para aquele desafio.

O excesso de ansiedade é que é problemático. Todavia, não é a ansiedade exagerada ou frequente o verdadeiro problema. O fato de você estar momentaneamente muito ansioso ou o tempo todo ansioso é apenas um sinal, assim como a febre, de que algo em você não está OK. Nesse sentido, é preciso ir em busca das CAUSAS desse estado de ansiedade excessiva e frequente.

Ninguém fica ansioso por acaso. A ansiedade nos visita em situações nas quais nos sentimos ameaçados. E as ameaças em questão na maioria das vezes estão dentro de nós. Os acontecimentos externos apenas as evocam.

E assim como a febre só termina de fato quando o agente infeccioso é identificado e combatido, assim também a ansiedade excessiva só desaparece quando descobrimos nossas “ameaças” internas e as elaboramos, fazendo com que não mais os percebamos como conteúdos perigosos.


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Ansiedade é falta de fé

Calma! Ao falar de fé, não estou me referindo a uma experiência religiosa.

Todo o mundo precisa de fé para funcionar no dia-a-dia, tanto crentes quanto ateus.

Quando sai de casa, por exemplo, para ir ao trabalho e ACREDITA que o ônibus irá passar no mesmo horário de sempre, você está fazendo uso da fé. Afinal, você não sabe com certeza absoluta se isso acontecerá. Você acredita que sim porque, no passado, geralmente ele passou naquele horário. Contudo, não é possível garantir que isso continuará acontecendo. Pode ter havido um problema mecânico, provocando um atraso. Não tem como você saber. Por isso, é necessário um ato de fé: você acredita que acontecerá mesmo sem ter certeza disso.

Perceba: ao contrário do que diziam alguns religiosos da Antiguidade, fé não é acreditar por acreditar, acreditar sem fundamentos. Ter fé é dar um salto no abismo da INCERTEZA acreditando que não vamos cair porque temos boas razões para pensar assim.

E isso a gente faz o dia inteiro. É impossível viver sem pequenos atos cotidianos de fé. O que lhe garante, por exemplo, que o prédio onde você trabalha permanecerá de pé hoje? Quem estava no World Trade Center em 2001 também foi trabalhar acreditando que isso aconteceria.

E a pessoa ansiosa? O ansioso também pratica a fé cotidianamente em alguma medida. O problema é que, em muitas situações, ele se deixa capturar pela armadilha da incerteza. Por exemplo: nós nunca podemos ter certeza absoluta da fidelidade de nossos parceiros amorosos. Portanto, para estarmos num relacionamento, precisamos necessariamente vencer essa incerteza com a fé. O ansioso, todavia, tem dificuldade para fazer esse movimento. Ele não suporta a incerteza e, por isso, precisa ficar o tempo todo verificando se o parceiro realmente é fiel.

Portanto, a fé é uma virtude essencial que precisa ser desenvolvida por pessoas ansiosas. Sem ela, as inevitáveis incertezas do dia-a-dia se tornam aterrorizantes e o sujeito vive num esforço absolutamente inútil de eliminá-las.

Mais fé, menos Rivotril.


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[Vídeo] A Síndrome do Aluno Nota 10

Você é perfeccionista? Tem dificuldade para delegar tarefas? Sofre muito quando fracassa ou é criticado? Tem dificuldade de para dizer não? Vive o tempo todo num estado de constante tensão e ansiedade? Talvez você sofra da Síndrome do Aluno Nota 10. Assista ao vídeo e entenda do que se trata.

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[Vídeo] O ÚNICO caminho para vencer a ansiedade | Lucas Nápoli

Neste vídeo você vai aprender que convencer a sua própria mente com provas concretas é a única maneira de vencer a ansiedade excessiva e parar de ter tanto medo de situações inofensivas.

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[Vídeo] Três dicas para proteger sua SAÚDE MENTAL

Você sabia que fazendo algumas escolhas difíceis, mas simples, você pode contribuir significativamente para reduzir as chances de desenvolver alguma forma de adoecimento emocional? Assista a este vídeo e entenda como proteger sua saúde mental.

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[Vídeo] Por que você precisa de uma rotina intencional

A emergência de uma rotina em nosso no dia-a-dia é quase inevitável. Afinal, a grande maioria das pessoas realiza cotidianamente um conjunto mais ou menos fixo de atividades. Não tem muita novidade. No entanto, podemos ter uma rotina INTENCIONAL, governada por decisões conscientes, ou uma rotina INVOLUNTÁRIA, instaurada por outras pessoas ou pela dimensão do nosso ser que visa unicamente o prazer. Neste vídeo explico o que é a rotina intencional e como desenvolvê-la.

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[Vídeo] Crises de ansiedade? Conheça a chave para não se desesperar à toa

Você costuma ter “crises de ansiedade”? É bem provável que, com essa expressão (crises de ansiedade), você esteja se referindo a momentos de desespero. Neste vídeo, explico o que é o desespero e como ele brota de uma visão desordenada da existência – visão cultivada principalmente por pessoas perfeccionistas.

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[Vídeo] 3 dicas para lidar com a ansiedade

Neste vídeo faço algumas considerações gerais sobre a ansiedade e apresento 3 orientações essenciais para quem está buscando lidar melhor com esse incômodo e desgastante afeto.


[Vídeo] Recado Rápido #02 – Empatia patológica

Neste segundo episódio de “Recado Rápido” faço algumas considerações sobre indivíduos que têm a tendência de se colocarem excessivamente no ponto de vista de outro (empatia patológica), sempre abrindo mão dos próprios interesses. Trata-se, na verdade, de uma defesa empregada por pessoas que se sentem incapazes de suportar o desconforto inerente aos conflitos e confrontos relacionais.


[Vídeo] Recado Rápido #01 – Sofrimento administrado

Caríssimos, iniciei uma nova série de vídeos para o YouTube chamada “Recado Rápido”. Trata-se de breves reflexões extraídas de meu trabalho clínico que gostaria de compartilhar. Neste primeiro episódio, falo sobre as dificuldades que muitas pessoas enfrentam para saírem de situações que lhes causam sofrimento em função do medo da necessária reinvenção que todo processo de mudança requer.


Affectus #001 – Lidar com a ansiedade

Eis abaixo o primeiro episódio de “Affectus“, minha nova produção audiovisual voltada para a internet. Fazendo jus ao título do projeto (que é a tradução latina da palavra “afeto”) pretendo produzir em cada episódio uma reflexão sobre impasses e dificuldades emocionais vivenciadas pelos sujeitos na contemporaneidade. Como eu friso no primeiro vídeo, não se trata de nada semelhante à auto-ajuda. Pelo contrário, minha proposta é justamente a de evidenciar que não há uma fórmula mágica para a resolução de nenhum problema subjetivo e que em todos eles fatores irredutíveis ligados à condição humana se fazem presentes.

Ficaria muito feliz se vocês postassem reações ao vídeo nos comentários. Enjoy!

Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (final)

Vimos até aqui que, por tudo o que Freud escreveu, sobretudo a partir de 1920 com a introdução do conceito de pulsão de morte, a felicidade para o pai da psicanálise é um sonho humano fatalmente destinado à frustração. Espero ter deixado claro que essa conclusão faz todo o sentido se levarmos em conta as premissas que guiaram o pensamento do médico vienense.

De fato, se pressupormos como verdadeiras as seguintes asserções:

(1) que entre o indivíduo e a cultura há um conflito inexorável oriundo da presença em cada organismo humano de uma pulsão destrutiva que se contrapõe à vida em sociedade;

(2) que, para que o indivíduo possa se inserir no campo que Lacan chamará de grande Outro, isto é, o campo da cultura, cuja estrutura basilar é a linguagem e suas leis, ele deve necessariamente abdicar de parte de suas tendências pulsionais – o que coloca em jogo novamente um conflito eterno entre o indivíduo e a pulsão;

(3) que a felicidade seria a possibilidade de que tal conflito inexistisse, ou seja, que, no limite, pudéssemos atualizar nossas intencionalidades sem qualquer tipo de impedimento por parte da cultura;

Logo,

(conclusão) a felicidade é de fato impossível.

Em outras palavras, para Freud a felicidade é impossível porque, ao defini-la, ele se coloca na posição do neurótico clássico, incapaz de superar o drama edipiano. Ora, o que significa ser feliz para tal neurótico? Fantasisticamente, poder ter a mãe só para si. Nos termos de Jacques Lacan, poder ter acesso a um gozo pleno, que não existe, mas que o neurótico, em sua fantasia, supõe que exista em algum lugar da terra.

Ora, por que o limite imposto pela cultura aos nossos desejos tem que ser visto necessariamente a partir da ótica da falta, da insatisfação, do mal-estar? Esse é o ponto de vista do neurótico, que sonha em ultrapassar o rochedo da castração. Por que não podemos enxergar no limite a instauração da dimensão do possível na existência humana? Sim, porque todo limite, ao mesmo tempo em que impede a execução de uma determinada intenção, nos mobiliza a inventar uma nova forma de agir, de modo que o limite ou a resistência do real aos nossos desejos nos põe na trilha da criatividade, da invenção. Não obstante, para que paremos de nos queixar diante do limite e passemos a utilizá-lo como motor de criação, nossa âncora subjetiva deve estar em outro lugar que não o da satisfação pulsional. Era assim que Donald Woods Winnicott pensava.

Para-além do mecanicismo: Winnicott e o ser

Refém do modelo mecanicista proveniente da modernidade, Freud jamais conseguiu pensar que para o sujeito humano há algo mais fundamental que as pulsões, algo que, inclusive, possibilita o uso saudável da dimensão pulsional. Para o pai da psicanálise, o ser humano é uma máquina de descarregar pulsões que se complica por sua pertença ao campo da cultura. Para Freud, não há nada na natureza do humano que o singularize com exceção do fato de que nele há pulsões e não instintos, o que faz com que a subjetividade deva ser concebida necessariamente como uma construção social (o que Lacan expressará com sua fórmula: “o sujeito é o que um significante representa para outro significante”).

Em contrapartida, para Winnicott, que não tinha experiência apenas com neuróticos insatisfeitos com a castração, mas com bebês doentes e saudáveis, antes de o homem se ver às voltas com a dinâmica pulsional, algo de caráter muito mais essencial deverá ser constituído. Trata-se do que Winnicott chama de “experiência de continuidade do ser” ou “a experiência de que a vida faz sentido, de que vale a pena viver.”. Para o psicanalista inglês, é esse o elemento fundamental que possibilita uma vida saudável. É essa a âncora subjetiva que todo ser deve possuir para conseguir lidar de modo não problemático nem doentio com as limitações da existência.

A construção do fundamento para a felicidade

Como se constitui essa experiência de continuidade do ser? Winnicott, diferentemente de Freud, não conseguiu ver no bebê humano uma maquininha de descarregar pulsões. A experiência clínica do analista inglês com crianças não lhe deixou dúvidas de que o pequeno filhote de Homo sapiens é dotado de determinadas tendências para o desenvolvimento que, para serem realizadas, precisam de uma contrapartida ambiental, ou seja, a adaptação ativa de alguém. Portanto, o homem não é, nem a princípio nem posteriormente uma máquina burra. Trata-se de um organismo orientado para o amadurecimento.

Num primeiro momento, as necessidades do bebê demandam uma atenção tão intensa por parte do ambiente (mãe) que o bebê não tem condições de discernir-se como um ser separado dele. Se o ambiente for suficientemente bom, isto é, se conseguir atender adequadamente as necessidades da criança, o único registro psíquico que o bebê fará dessa experiência será o de “estar sendo”, ou seja, de existir.

Gradativamente, a dependência do infans em relação ao ambiente vai se relativizando, de modo que a mãe pode se desligar um pouco do bebê. Ainda assim, ela não pode se ausentar por muito tempo. Do contrário, como o bebê ainda não se constituiu como uma pessoa inteira capaz de reconhecer o outro como independente, se for deixado desamparado por longo tempo, ele sente como se estivesse desaparecendo, uma experiência que Winnicott chamou de “angústia inimaginável” e que quebra aquele sentimento de “estar sendo” que vem sendo solidificado desde o nascimento.

Se tudo correr bem, ou seja, se o ambiente não provocar a emergência de angústias inimagináveis no bebê, o indivíduo vai paulatina e naturalmente aceitando o fato de que o outro é independente e possui corpo e psiquismo próprios. Essa passagem ao reconhecimento da alteridade só é feita de maneira saudável, isto é, não-traumática, se o sujeito conseguir consolidar esse estofo subjetivo, essa âncora, que é o sentimento de “estar sendo” ou “sentimento de continuidade da existência”. Esse sentimento funciona como algo que capacita o indivíduo a enfrentar as intempéries da vida sem se deixar abater de modo doentio. É como se, dotado desse sentimento, o sujeito pudesse dizer: “Aconteça o que acontecer, eu sou.”.

A experiência de “estar sendo” permite a atualização na vivência cotidiana de uma dimensão humana que Freud sequer cogitou existir que é o que Winnicott chama de “verdadeiro self”, que é o ponto subjetivo a partir do qual podemos criar. Trata-se de um aspecto do sujeito que Winnicott qualifica como “indevassável” no sentido de que ele é irredutível a qualquer tentativa de incorporação cultural. Ele é a marca de nossa singularidade. No indivíduo saudável, que conseguiu consolidar o sentimento de continuidade da existência, o verdadeiro self não precisa ficar oculto, não precisa ser defendido, pois possui a força daquele sentimento para resistir às limitações do mundo externo.

A presença do verdadeiro self na existência individual possibilita a experiência de sentir que a vida faz sentido. Isso porque só sentimos que a vida faz sentido quando nos sentimos vivendo e, ao mesmo tempo, criando nossa própria experiência vital. Trata-se de uma sensação oposta àquela que experimentamos quando temos que vivenciar situações que nos foram impostas. Nesses casos, vivenciamos uma sensação de futilidade, justamente por não nos sentirmos co-criadores no processo. A experiência do sujeito freudiano clássico é dessa ordem. É um indivíduo que sente as limitações colocadas em jogo por nossa pertença à cultura como meras imposições externas que o tornam insatisfeito. Tal sujeito fundamenta seu ser não na experiência de continuidade de ser, mas na satisfação pulsional. Por isso, sua conclusão será inevitavelmente a de que a vida não vale a pena, ou seja, de que não é possível ser feliz.

Felicidade a toda prova

Finalmente, para Winnicott, a felicidade é sim, possível, e pode ser vista como sinônimo de saúde. E o que é a saúde para Winnicott? Não se trata de uma existência sem desprazer ou sem limitações. Pelo contrário, ser saudável para Winnicott significa ser capaz de incorporar e fazer frente a tais experiências. E isso só é possível se o indivíduo tiver construído seu ser sobre a rocha, para usar uma metáfora bíblica. Construir o ser sobre a rocha significa ter conseguido vivenciar nos momentos iniciais da vida a experiência de ser sem interrupções e sem angústias traumáticas. Essa experiência constitui-se em uma espécie de amparo ambiental introjetado, uma rocha que permitirá ao ser sobreviver às chuvas, aos ventos e às tempestades. Mais do que isso: essa experiência permitirá ao indivíduo encarar a vida não como algo pronto ao qual nosso papel é unicamente o de adaptação, mas sim como uma algo que se abre às contribuições espontâneas e criativas do vivente.

Concluindo, diria que a felicidade, do ponto de vista winnicottiano, não tem a ver com a dimensão dos afetos. Ser feliz não significa experimentar alegria ou prazer, pois isso implicaria em considerar a felicidade como algo fugaz, momentâneo, passageiro. Também não se trata, como pensara Freud, de uma felicidade utópica cuja impossibilidade reside precisamente no fato de ser descrita como estando na dependência daquilo que é barrado pela inserção na cultura. Não. Para Winnicott, a felicidade é uma condição existencial experimentada pelo ser que se sente existindo de modo criativo, ou seja, que não encara a vida como um fardo ou na posição de mero espectador. O que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer.

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Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (parte 1)

happiness
O problema da felicidade é certamente uma questão que não admite uma resposta definitiva, até porque diz respeito a um ente que só existe na mente dos seres humanos. Ninguém vê felicidades passeando por aí – nem com o auxílio do mais avançado dos microscópios. Dito de outro modo, felicidade é um conceito, um ente de razão. Trata-se de um conceito propriamente filosófico, posto que diz respeito a uma questão que interessa a todo mundo, mas sobre a qual apenas esses serem que se intitulam amantes da sabedoria se debruçam a fim de obter uma resposta. No nível do senso comum, da experiência cotidiana, a coisa se resume a uma resposta baseada unicamente na vivência daquele a quem se faz a pergunta: “Você é feliz?”. Ele diz “‘Sim, sou’ ou ‘Não, não sou’”. É a filosofia quem se dedica a ultrapassar essa dimensão puramente fenomenológica e pensar acerca dos critérios que podemos utilizar para definir alguém como um ser em estado de felicidade ou mesmo se esse estado é possível.

Essa reflexão, cujos resultados são veiculados principalmente através da mídia, nos afeta e nos faz formular também, mesmo no âmbito do senso comum, algumas respostas. Quantas vezes não nos pegamos dizendo para alguém que felicidade é momento e não estado, que não é possível um estado de permanente felicidade, mas apenas felicidades eventuais condicionadas a circunstâncias específicas ou que ser feliz é fazer o bem ao próximo etc. Dizemos isso com pretensão de estarmos formulando enunciados verdadeiros, esquecendo-nos que, de fato, a questão é insolúvel empírica e racionalmente, comportando apenas perspectivas e interpretações parciais. Tenderemos, creio eu, a adotar aquela perspectiva que mais favoreça a satisfação de nossos interesses práticos do presente. Em outras palavras, formulamos nosso conceito de felicidade com base não em uma iluminação divina, mas sim a partir de nossas experiências pessoais, desejos e, principalmente, com base naquilo que pretendemos atingir, já que somos seres orientados por interesses específicos.

Por conta disso, quero trazer aqui não um suposto verdadeiro conceito de felicidade, mas meros posicionamentos de dois autores clássicos da psicanálise acerca do tema: Freud e Winnicott. Antes de iniciar minha exposição sobre o ponto de vista de cada um deles, preciso salientar que nenhum dos dois formulou de modo explícito um conceito de felicidade, de modo que a discussão que farei pretende refletir, com base na obra desses dois autores, sobre como eles provavelmente responderiam às seguintes perguntas: “A felicidade é possível?” e “O que significa ser feliz?”.

Freud iluminista

Quem ainda não chegou a ler os escritos de Freud a partir da década de 1920, a começar pela obra clássica “Para-além do princípio do prazer” dificilmente poderá concordar comigo quando digo que o pai da psicanálise era um grande pessimista. Isso porque até os anos 20 do século passado, Freud se manteve fiel ao espírito iluminista, manancial ideológico em que sua formação em medicina aconteceu.

O Iluminismo, como se sabe, foi um dos últimos sonhos utópicos da humanidade, cujos partidários acreditavam ser possível eliminar as fontes do sofrimento humano, como a animosidade eterna entre os homens, através da razão e da ciência. Dito de outro modo, para os iluministas seria possível chegarmos a um estado civilizacional tal que as guerras não seriam mais necessárias porque nós nos tornaríamos seres educados pela razão e não precisaríamos nos comportar mais como animais enfurecidos.

É esse espírito que leva Freud a se tornar um apologista da psicanálise como uma técnica que a razão humana teria descoberto e que poderia eliminar de vez graves problemas neuróticos humanos resultantes da repressão sexual. É esse primeiro Freud que ficou marcado na cabeça de muitas pessoas como aquele que supostamente dizia que “tudo era sexo”. De fato, ao notar que os sintomas de seus pacientes histéricos e obsessivos eram resultado da repressão de tendências sexuais que a sociedade considerava vergonhosas, como sexo oral, sexo anal, desejo de adultério etc., a primeira conclusão de Freud foi: o que faz as pessoas se tornarem neuróticas, ou seja, sofrerem, é a sociedade e seus rígidos códigos morais. Portanto, se quisermos tornar as pessoas felizes deveremos fazer uma reforma social, de modo que os códigos relativos à conduta sexual sejam mais liberais. Assim, as pessoas não precisariam se martirizar pelos desejos que sentem e não se refugiariam em sintomas neuróticos.

Nesse primeiro momento de sua obra, já é possível notar o que Freud chamaria de felicidade. Se as pessoas sofriam porque tinham que reprimir seus desejos, logo a felicidade equivaleria à possibilidade de expressão plena de nossos desejos, de um gozo sexual que não sofresse repressão. Para esse primeiro Freud, isso seria possível desde que a sociedade fosse reformada e a moral sexual se tornasse liberal a ponto de permitir toda a variabilidade da experiência sexual humana. Notem como esse conceito de felicidade freudiano não é espontâneo, mas dependente e reativo: só se pode ser feliz se o Outro da cultura permitir.

Freud pessimista

A partir de 1920, com a introdução da hipótese da pulsão de morte, Freud abandona o otimismo iluminista e a influência filosófica que mais se faz sentir em seus escritos passa a ser as idéias de Schopenhauer e seu inveterado pessimismo. Provavelmente, a primeira guerra mundial tenha sido outro fator que levou Freud a largar o sonho iluminista. A frustração por ver a manifestação sanguinária da agressividade humana no auge do processo civilizatório fez com que Freud começasse a se perguntar: “Será que não haverá no interior de todo ser humano uma tendência latente para a morte que nenhum tipo de arranjo cultural é capaz de conter?”. A resposta – afirmativa – para essa pergunta é justamente o texto “Para-além do princípio do prazer”. Ali, Freud faz uma série de malabarismos teóricos para sustentar a tese de que se o sonho da paz perpétua entre os homens não pôde ser realizado, a razão seria o próprio sonho, mas sim o fato de que em todo homem habita uma pulsão de morte que o faz destruir o outro para não se destruir. Nesse momento, Freud abandona a idéia de que a felicidade é passível de ser alcançada.

No entanto, ainda não é em “Para-além do princípio do prazer” que Freud enuncia suas idéias acerca da felicidade. Fará isso nos dois textos quase complementares escritos já próximo ao fim de sua vida que Freud. Neles, o autor deixa claro porque, do seu ponto de vista, a felicidade seria impossível. Os textos são “O Futuro de uma Ilusão” e “O Mal-estar na Civilização”. Em ambos, Freud afirma com todas as letras que o homem não pode ser feliz porque para que um indivíduo o fosse, todos os outros não poderiam ser. Explico: é que, para Freud, como vimos anteriormente, felicidade seria poder matar quando se quer matar, fazer sexo com todo tipo de mulher incluindo as da própria parentela, pegar a mulher do outro quando desse vontade etc. É claro que estou fazendo uso de uma caricatura discursiva. Freud nunca disse isso literalmente, mas quem quer que leia os dois textos a que fiz menção, perceberá que para o médico vienense a felicidade plena seria a possibilidade de colocar em ato todos os nossos desejos.

Tal possibilidade só seria permitida hipoteticamente a uma única pessoa pela simples razão de que se todas as pessoas começassem a querer fazer tudo o que desejassem, o mundo se tornaria uma barbárie e logo todos morreriam. A civilização teria a função de impedir que isso acontecesse fazendo vigorar a Lei, isto é, os códigos de conduta, cuja base mínima é o mandamento “Não matarás”.

Vejam que Freud agora já vê a moralidade com outros olhos. Nesse momento, ele se dá conta de que a repressão é necessária para que os indivíduos não se matem uns aos outros, já que se eles forem deixados à própria sorte, assim acontecerá, pois em cada um deles habita uma pulsão de morte; são seres mortíferos por natureza.

Felicidade não; mal-estar

Na medida em que para que haja civilização, os indivíduos são obrigados a reprimir boa parte de seus desejos, cada um de nós seria assaltado continuamente por um sentimento de mal-estar, gerado pela quantidade de energia agressiva e sexual que não pode ser descarregada. Por essa razão, jamais poderíamos ser felizes, pois estaríamos sempre às voltas com esse mal-estar, essa ansiedade, essa angústia que, não raro, é descarregada nos sintomas neuróticos. Em outras palavras, para Freud, saúde e felicidade são apenas ideais, jamais estados concretos de existência. O homem é naturalmente doente, pois porta em si mesmo uma tendência destrutiva que é contrária à convivência com os demais seres humanos.

Notem que o posicionamento de Freud é claramente determinista: ele parte da suposição de que em todo indivíduo nasce com uma pulsão de morte e que a função primordial da civilização é dizer “Não”. Conquanto o pai da psicanálise tenha abandonado o ideário iluminista, ele ainda continua radicalmente moderno. Com efeito, é a modernidade que construiu oposições do tipo indivíduo/sociedade que, em Freud, aparece de forma claríssima: o indivíduo, com sua pulsão de morte maluca, é inimigo da sociedade, essa instância que Lacan chamará de Outro, que humaniza, que faz o pequeno animalzinho humano se tornar sujeito. É óbvio que numa perspectiva que admite tais pressupostos deterministas, a felicidade será mesmo impossível, pois ela será pensada, como de fato Freud pensou, como justamente aquilo que a cultura não permite que aconteça. Novamente faço-os notar que se trata de um conceito reativo de felicidade.

Na segunda parte deste texto, veremos como Winnicott, ao adotar um ponto de vista não-determinista, mas historicista, concebe a felicidade como sendo uma conquista possível.

O que é resistência em Psicanálise?

Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.

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