Você é o profeta do seu próprio sofrimento?

JóA auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso dos pacientes que atendemos em psicoterapia. Com exceção, talvez, dos deprimidos que, em vez de se considerarem vítimas, enxergam a si mesmos como algozes do mundo, a maioria de nossos pacientes tende a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. A mudança dessa posição subjetiva, aliás, é uma das primeiras tarefas a serem levadas a cabo num tratamento psicoterapêutico. Essa mudança acontece, sobretudo, através de um processo de elaboração psíquica que leva o doente a se dar conta de como ele próprio contribui para a manutenção do seu padecimento.

Como inicialmente veem a si mesmos apenas como vítimas das ações cruéis de outras pessoas, muitos pacientes não percebem que eles próprios, de uma forma inconsciente e amiúde não-verbal, acabam estabelecendo as condições para que lhes aconteça exatamente aquilo que não gostariam que acontecesse. Em psicologia, esse fenômeno recebeu o nome de “profecias auto-realizadoras”.

Tomemos uma ilustração clínica: uma paciente vem ao consultório queixando-se de que as pessoas com as quais convive na faculdade e no ambiente de trabalho sistematicamente a rejeitam por considerarem-na chata. A fim de compreender melhor a lamentação da moça, o terapeuta pergunta a ela se alguma daquelas pessoas já lhe disse explicitamente que ela era chata. A paciente diz que não, que, na verdade, ninguém nunca lhe disse isso, mas ela consegue perceber que é essa a visão que as pessoas têm dela. Notando uma boa oportunidade para uma intervenção, o terapeuta diz: “Então não são as pessoas que lhe veem como chata. É você que imagina que elas pensam isso de você.”. Ao se perceber flagrada em sua auto-vitimização, a paciente tenta se defender, mas acaba se denunciando novamente: “Não! Isso não é coisa da minha cabeça! Eles realmente me acham chata. Por isso, eu quase não converso com ninguém. Povo metido…”.

Segunda ilustração: um jovem de trinta e poucos anos afirma ter procurado tratamento psicoterapêutico por ter dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto. Quando perguntado pelo terapeuta acerca da natureza da dificuldade, o sujeito responde que “as mulheres nunca dão bola para mim; só me dão foras!”. Observando a atitude auto-vitimizadora do paciente, o terapeuta decide repetir a pergunta colocando ênfase na palavra “sua” como forma de retificar sua posição subjetiva: “Mas qual é a natureza da sua dificuldade com as mulheres?”. O paciente, então, responde que não sabe e que procurou ajuda justamente para descobrir o que ele tem de errado.

Nesses dois exemplos é possível observar com certa clareza que as queixas dos pacientes é verbalizada inicialmente com o único propósito de justificar a fantasia de que são inocentes vítimas do comportamento perverso de outras pessoas. Em outras palavras, é como se implicitamente estivessem dizendo ao terapeuta: “Eu sofro porque o mundo me faz sofrer. O mundo tem que mudar, não eu.”. As intervenções do terapeuta visam justamente levar o paciente a converter esse discurso auto-vimizador em um questionamento acerca do que ele próprio precisa mudar em seu comportamento.

Nesse processo, fica claro que tanto a moça que reclama de ser considerada chata quanto o rapaz que se queixa do desprezo das mulheres, contribuem de uma forma muito significativa para que suas queixas se mantenham. A moça não percebe que ela própria se exclui das relações com as pessoas e não o inverso. E ela se exclui por imaginar que os outros a consideram chata, sendo que ninguém jamais lhe disse isso. Pode-se concluir, portanto, que ela própria, antes dos outros, se vê como chata. Trata-se de um auto-julgamento que provavelmente já faz com que ela se coloque frente às outras pessoas de um modo tímido e receoso – atitude que, naturalmente, não favorece ninguém nas relações interpessoais.

No caso do rapaz, as coisas se passam de modo semelhante. Quando o terapeuta repete a pergunta acerca da natureza de sua dificuldade com as mulheres, ele responde com uma fantasia que certamente influencia o modo como se relaciona com o sexo oposto. Ele diz que veio à psicoterapia para descobrir “o que tem de errado” consigo. Nesse momento, o paciente evidencia que vem estabelecendo um juízo moral sobre si mesmo. Ele ainda não formula uma demanda de mudança; quer apenas encontrar essa espécie de “pecado original” que carrega consigo e que lhe impede de obter sucesso com as mulheres. É bastante provável que nas ocasiões em que tem a oportunidade de iniciar uma paquera, o paciente se apresente de modo inseguro e hesitante por considerar de antemão que possui “algo de errado”. Essa insegurança e hesitação, por sua vez, provavelmente acabem transmitindo às mulheres uma impressão negativa a seu respeito e fazendo com que elas se afastem.

Nos dois casos, a expectativa que os pacientes apresentam em relação ao comportamento do outro, isto é, a profecia de que sempre serão rejeitados, inevitavelmente se realiza. Isso não acontece, contudo, porque sejam, como Jó, alvos de um acordo maroto entre Deus e o diabo, mas sim porque eles próprios, sem perceberem, se encarregam de cumprirem a profecia. Um dos objetivos da psicoterapia, como dissemos acima, é justamente o de levar o paciente a perceber que frequentemente exerce o papel de profeta do próprio infortúnio e que a saída para o abandono das profecias auto-realizadoras está na quebra das fantasias de auto-vitimização.

Para que adoecemos?

Suponho que a pergunta acima deva ter produzido nos leitores um leve estado de confusão. Afinal, a pergunta correta não seria: “Por que adoecemos?” em vez de “para que”? De fato, admito que não temos tido a experiência cotidiana de pensarmos nossas doenças como sendo destinadas a alguma finalidade. Por outro lado, não nos furtamos a atribuir a quase todas as nossas demais ações alguma motivação, ou seja, alguma intenção subjacente. Quando nos perguntam coisas como: “Para que você está trabalhando?” não titubeamos para fornecer uma série de razões: conseguir dinheiro, ajudar a família, sustentar um lar etc. Do mesmo modo ocorre com inúmeros outros comportamentos que emitimos no dia-a-dia: temos motivos para comer, para sair à noite, para estudar, para acessar o Facebook, para ir à academia etc. Recorri a tais exemplos apenas com o intuito de mostrar que boa parte da nossa vida é feita de ações que praticamos tendo em vista um objetivo final, um sentido, um propósito.

O que Freud explica

Essa dimensão da existência se tornou ainda mais larga a partir do final do século XIX quando Freud descobriu através do método psicanalítico que uma série de atos psíquicos e comportamentos que, até então, eram vistos como não sendo dotados de significado, se revelou prenhe de intenções e finalidades. Depois da psicanálise, se nos tornou impossível pensarmos os sonhos, os esquecimentos, os lapsos de escrita e todos os tipos de atos-falhos como não sendo carregados de intenções subjacentes, capazes de serem reveladas a partir de uma investigação metódica. Freud, portanto, ampliou ainda mais a esfera da experiência humana em que a subjetividade se faz presente. A partir de então, até os detalhes mais ínfimos da vida cotidiana passaram a receber a atenção dos psicanalistas com vistas à descoberta de tácitos desejos inconscientes.

O que Freud não quis explicar

Todavia, conquanto o maior êxito de Freud tenha sido o de levar a hipótese do inconsciente para a clínica psiquiátrica – o que o permitiu trabalhar com as neuroses a partir da concepção de que os sintomas possuiriam um sentido – a subjetividade encontrou aí, no campo das doenças psicológicas, sua fronteira. Em outras palavras, a psicanálise derrubou os limites da consciência a fim de submeter todas as manifestações psíquicas ao determinismo psíquico, o que só poderia acontecer pela admissão da hipótese do inconsciente. Entretanto, o corpo permaneceu do lado de fora do campo da subjetividade. Nesse sentido, depois de Freud todo acontecimento que está relacionado ao psiquismo possui sentido, finalidade, ou seja, pode ser interpretado a fim de que suas motivações sejam descobertas. Tudo o que diz respeito ao corpo, não obstante, permanece sem significação, submetido unicamente às leis da causalidade física. Dito de outro modo, Freud não avançou a ponto de fazer a subjetividade ultrapassar as fronteiras do psíquico e passar a englobar o corpo.

O modelo biomédico e seu dualismo

É por isso que a pergunta que figura no título deste texto nos parece tão desarrazoada. Acostumamo-nos, mesmo nós, psicanalistas, a pensar a doença a partir do ponto de vista do modelo biomédico, que é a racionalidade que fundamenta a medicina moderna, herdeira dos pressupostos modernos da ciência. Aliás, Freud sempre se manteve fiel a esse modelo, por mais revolucionário que fosse o pai da psicanálise.

Um dos pressupostos que estão na base do modelo biomédico é a separação entre corpo e psiquismo, a qual dá origem à conhecida distinção entre doenças somáticas e psíquicas, com o nebuloso campo psicossomático figurando entre um grupo e outro. Esse dualismo na biomedicina, ao entranhar-se no pensamento comum, nos leva a conceber como sendo impossível uma união indissociável entre subjetividade e corpo. O máximo que conseguimos admitir ainda hoje é que fatores emocionais podem ocasionar somatizações. Mas não é disso que eu estou falando. Não estou me referindo a incidências do psiquismo no corpo, pois, para admitir fenômenos dessa natureza, é preciso supor previamente que as duas instâncias que interagem estão originalmente separadas.

Quando falo de união indissociável entre subjetividade e corpo, estou pensando numa concepção que me permita pensar, por exemplo, que eu posso ficar resfriado não apenas por conta da entrada de um vírus no meu aparelho respiratório, mas para atender a determinados propósitos subjetivos como, por exemplo, evitar certos tipos de cheiros que me recordem lembranças desagradáveis, o que seria possível em função do entupimento do nariz, que é um dos sintomas do resfriado.

Georg Groddeck e a doença como criação

O único autor que, até hoje, vi admitir expressamente tal possibilidade foi Georg Groddeck, que, embora tenha se inserido no campo da psicanálise, não precisou do método psicanalítico para começar a pensar dessa forma. Diferentemente de Freud, que via no inconsciente (e, posteriormente, na pulsão) o link perdido entre corpo e psique, Groddeck não via a necessidade de haver um link! Afinal, corpo e psiquismo eram para ele tão-somente linguagens distintas que o Isso, a totalidade individual, utilizava para se expressar. Em outras palavras, para Groddeck, nós não seríamos seres divididos em uma parte psíquica e outra somática, mas sim indivíduos e, como a própria palavra já indica indivisíveis, integrais, singulares, que ora escolhem as manifestações do corpo, ora as da psique para exprimirem suas intenções.

É essa matriz de pensamento que permitiu a Groddeck pensar todo e qualquer tipo de doença como sendo marcado pela subjetividade, ou seja, como tendo propósito e sentido. Nesse ponto, o leitor pode me inquirir: “Ok, eu admito que, em alguns casos, nós podemos adoecer para atingirmos determinados fins, mas na grande maioria das vezes isso não ocorre. Vide os casos, por exemplo, de tuberculose, que são causados pelo bacilo, ou seja, independem das nossas intenções.”

A finalidade não é a causa única da doença

Respondo a esse questionamento com um argumento utilizado pelo próprio Groddeck: ora, qualquer pesquisador sério sabe que não basta a presença do bacilo de Koch para que alguém contraia a tuberculose. Os bacilos estão por aí, em milhares de corpos que jamais tiveram qualquer sintoma da doença. Por que, então, apenas alguns indivíduos contraem a enfermidade? A explicação que Groddeck propõe e que de forma alguma pretende esgotar o campo dos fatores etiológicos da doença, é de que os indivíduos que adoecem encontram algum propósito no adoecer, intenção que, evidentemente, é de qualidade inconsciente. Atentem para isso: Groddeck não está dizendo que a finalidade, o motivo que o sujeito encontrou para ficar doente é a causa da doença. Groddeck, aliás, abdica de qualquer tentativa de tentar solucionar o problema da causalidade das patologias. O autor não está dizendo que sem o bacilo e apenas com o propósito de ficar doente, é possível contrair tuberculose. O que ele está propondo é que em qualquer tipo de doença, o elemento subjetivo estará presente como um dos fatores em jogo no processo de eclosão da enfermidade.

As palavras e o corpo

O ponto nevrálgico do posicionamento de Groddeck repousa em uma constatação óbvia, que qualquer pessoa que já tenha chorado na vida é capaz de averiguar: trata-se da capacidade que têm as palavras, isto é, o mundo simbólico, de nos impactar, levando-nos à produção de determinadas reações orgânicas. Mencionei o exemplo do pranto: quantas vezes na vida nosso choro não foi desencadeado apenas por termos ouvido determinadas palavras ou pensado em outras? Ora, se as palavras exercem tal poder sobre nosso organismo, levando à produção de lágrimas, porque deveríamos suspeitar da possibilidade de que em outras condições, reações patológicas possam ser produzidas associadas a elementos simbólicos?

Dito de outro modo, Groddeck acerta ao propor que vejamos a doença não apenas como um distúrbio orgânico, mas, sobretudo, como uma criação individual, porque o ser humano se encontra totalmente imerso no universo simbólico. Embora seja na dimensão psíquica que os símbolos se manifestem de modo mais visível, todos nós temos a experiência cotidiana de perceber que nosso corpo reage a eles. Em decorrência, trata-se de um grave equívoco pensar que o simbólico, isto é, o campo em que os fenômenos são dotados de sentido, de propósitos, de “para quê”, engloba apenas o conjunto de nossas manifestações psíquicas.

Quando modificamos o modo tradicional que temos de pensar o corpo, qual seja, como uma máquina, um objeto que funciona dissociado dos meus processos psicológicos, e passamos a adotar o ponto de vista segundo o qual somos uma totalidade simbólica, que está imersa no universo da linguagem, nossa relação com a doença muda completamente. Basta um simples exercício de começar a verificar as conseqüências produzidas em seu cotidiano após o advento de uma doença. O que você teve que deixar de fazer? O que foi obrigado a fazer? Como as pessoas à sua volta passaram a se comportar depois que você adoeceu? O que o órgão sobre o qual a doença incidiu significa para você? Alguém que lhe é importante já ficou doente desse mesmo órgão? Ao se fazer tais perguntas e outras a elas associadas sempre que adoecer e respondê-las com sinceridade, você ficará surpreso ao perceber a funcionalidade que a patologia teve em seu cotidiano, mesmo lhe causando sofrimento.

O que é resistência em Psicanálise?

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