Você é o profeta do seu próprio sofrimento?

JóA auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso dos pacientes que atendemos em psicoterapia. Com exceção, talvez, dos deprimidos que, em vez de se considerarem vítimas, enxergam a si mesmos como algozes do mundo, a maioria de nossos pacientes tende a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. A mudança dessa posição subjetiva, aliás, é uma das primeiras tarefas a serem levadas a cabo num tratamento psicoterapêutico. Essa mudança acontece, sobretudo, através de um processo de elaboração psíquica que leva o doente a se dar conta de como ele próprio contribui para a manutenção do seu padecimento.

Como inicialmente veem a si mesmos apenas como vítimas das ações cruéis de outras pessoas, muitos pacientes não percebem que eles próprios, de uma forma inconsciente e amiúde não-verbal, acabam estabelecendo as condições para que lhes aconteça exatamente aquilo que não gostariam que acontecesse. Em psicologia, esse fenômeno recebeu o nome de “profecias auto-realizadoras”.

Tomemos uma ilustração clínica: uma paciente vem ao consultório queixando-se de que as pessoas com as quais convive na faculdade e no ambiente de trabalho sistematicamente a rejeitam por considerarem-na chata. A fim de compreender melhor a lamentação da moça, o terapeuta pergunta a ela se alguma daquelas pessoas já lhe disse explicitamente que ela era chata. A paciente diz que não, que, na verdade, ninguém nunca lhe disse isso, mas ela consegue perceber que é essa a visão que as pessoas têm dela. Notando uma boa oportunidade para uma intervenção, o terapeuta diz: “Então não são as pessoas que lhe veem como chata. É você que imagina que elas pensam isso de você.”. Ao se perceber flagrada em sua auto-vitimização, a paciente tenta se defender, mas acaba se denunciando novamente: “Não! Isso não é coisa da minha cabeça! Eles realmente me acham chata. Por isso, eu quase não converso com ninguém. Povo metido…”.

Segunda ilustração: um jovem de trinta e poucos anos afirma ter procurado tratamento psicoterapêutico por ter dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto. Quando perguntado pelo terapeuta acerca da natureza da dificuldade, o sujeito responde que “as mulheres nunca dão bola para mim; só me dão foras!”. Observando a atitude auto-vitimizadora do paciente, o terapeuta decide repetir a pergunta colocando ênfase na palavra “sua” como forma de retificar sua posição subjetiva: “Mas qual é a natureza da sua dificuldade com as mulheres?”. O paciente, então, responde que não sabe e que procurou ajuda justamente para descobrir o que ele tem de errado.

Nesses dois exemplos é possível observar com certa clareza que as queixas dos pacientes é verbalizada inicialmente com o único propósito de justificar a fantasia de que são inocentes vítimas do comportamento perverso de outras pessoas. Em outras palavras, é como se implicitamente estivessem dizendo ao terapeuta: “Eu sofro porque o mundo me faz sofrer. O mundo tem que mudar, não eu.”. As intervenções do terapeuta visam justamente levar o paciente a converter esse discurso auto-vimizador em um questionamento acerca do que ele próprio precisa mudar em seu comportamento.

Nesse processo, fica claro que tanto a moça que reclama de ser considerada chata quanto o rapaz que se queixa do desprezo das mulheres, contribuem de uma forma muito significativa para que suas queixas se mantenham. A moça não percebe que ela própria se exclui das relações com as pessoas e não o inverso. E ela se exclui por imaginar que os outros a consideram chata, sendo que ninguém jamais lhe disse isso. Pode-se concluir, portanto, que ela própria, antes dos outros, se vê como chata. Trata-se de um auto-julgamento que provavelmente já faz com que ela se coloque frente às outras pessoas de um modo tímido e receoso – atitude que, naturalmente, não favorece ninguém nas relações interpessoais.

No caso do rapaz, as coisas se passam de modo semelhante. Quando o terapeuta repete a pergunta acerca da natureza de sua dificuldade com as mulheres, ele responde com uma fantasia que certamente influencia o modo como se relaciona com o sexo oposto. Ele diz que veio à psicoterapia para descobrir “o que tem de errado” consigo. Nesse momento, o paciente evidencia que vem estabelecendo um juízo moral sobre si mesmo. Ele ainda não formula uma demanda de mudança; quer apenas encontrar essa espécie de “pecado original” que carrega consigo e que lhe impede de obter sucesso com as mulheres. É bastante provável que nas ocasiões em que tem a oportunidade de iniciar uma paquera, o paciente se apresente de modo inseguro e hesitante por considerar de antemão que possui “algo de errado”. Essa insegurança e hesitação, por sua vez, provavelmente acabem transmitindo às mulheres uma impressão negativa a seu respeito e fazendo com que elas se afastem.

Nos dois casos, a expectativa que os pacientes apresentam em relação ao comportamento do outro, isto é, a profecia de que sempre serão rejeitados, inevitavelmente se realiza. Isso não acontece, contudo, porque sejam, como Jó, alvos de um acordo maroto entre Deus e o diabo, mas sim porque eles próprios, sem perceberem, se encarregam de cumprirem a profecia. Um dos objetivos da psicoterapia, como dissemos acima, é justamente o de levar o paciente a perceber que frequentemente exerce o papel de profeta do próprio infortúnio e que a saída para o abandono das profecias auto-realizadoras está na quebra das fantasias de auto-vitimização.

Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (Adendo)

A causa do desejo é um objeto, o objeto a, um nome para a falta de objeto. Logo, o desejo é causado pela falta. Essa é a tese de Jacques Lacan para explicar a quase infinita variabilidade de objetos que podemos desejar. Desejamos uma multiplicidade de objetos e jamais experimentamos uma satisfação completa porque somos seres furados, faltosos. Esse é o argumento lacaniano.

Demonstrei que essa teoria é de fato correta desde que tomemos como parâmetro de razoabilidade a fantasia de gozo pleno do neurótico. Se aceitarmos que a psicanálise deva ficar refém de uma fantasia neurótica, a tese do desejo como decorrente da falta adquire total pertinência. Felizmente não é esse o caso. A psicanálise pretende tratar a neurose, não fazer de suas fantasias os fundamentos de seus enunciados teóricos. Se o neurótico se percebe como um eterno insatisfeito em busca de um gozo impossível, não se deve depreender disso que ele formula algo de verdadeiro a respeito do desejo.

Ao longo de minha argumentação, provei que não é preciso supor uma falta ou um furo para explicar o desejo. Se somos capazes de desejar múltiplos objetos, isso só evidencia a imensa variabilidade de coisas existentes que nos podem ser úteis, bem como a vasta potência dos nossos corpos de se conjugar a vários objetos.

A imagem que melhor ilustra a concepção lacaniana do desejo é a de uma dona-de-casa que perdeu o botão de uma camisa e, examinando toda a casa, jamais consegue encontrar o objeto perdido, achando pelo caminho uma série de outros botões semelhantes, sendo que nenhum deles pode substituir adequadamente a peça que sumiu. O desejo lacaniano seria essa busca sempre infeliz pelo botão perdido.

O que está como pano de fundo dessa concepção é uma visão da pulsão como um mecanismo desregulado, visão que começa em Freud com a ideia da criança como um perverso polimorfo e continua em Lacan com a teoria da falta.

A pergunta que não quer calar é: por que considerar a plasticidade da pulsão o signo de uma falta ou de um furo fundamental? Por que dizer que o ser humano é faltoso ou furado porque há uma variabilidade quase infinita de escolhas de objeto? Em outras palavras, por que fazer da riquíssima capacidade da pulsão de orientar-se em direção a múltiplas possibilidades o indicativo da perda de um objeto primordial?

Não estaria Lacan, ao teorizar o desejo como resultante da falta, manifestando uma espécie de decepção, frustração ou desapontamento pela inexistência de um objeto adequado à pulsão? Dito de outro modo, não estaria Lacan fazendo da queixa radical do neurótico uma condição necessária de todos os indivíduos?

É o neurótico que chega aos nossos consultórios queixando-se de que não consegue atingir um gozo pleno, de que gostaria muito de saber o caminho certo para a felicidade, mas só consegue desejar, desejar e desejar sem jamais se satisfazer. É esse o desejo neurótico, desejo que, na verdade, nada mais é do que esperança sempre frustrada de uma satisfação absoluta, expectativa de encontro com o botão perdido. É esse desejo doentio, impotente, romântico, que Lacan defende que seja o desejo de todos!

Ora, por que considerar que há um botão perdido a ser procurado? Se não há objeto adequado para a pulsão não é porque num passado longínquo, mítico, esse objeto existiu e foi perdido. A pulsão não é uma garrafa que perdeu a tampa! Ela assemelha-se muito mais a um imenso manancial que jorra incessantemente e cuja água pode desaguar em múltiplos rios, criados a partir das experiências de vida. Nesse sentido, o desejo não é reação à perda da tampa, mas sim uma ação primária, produção, potência. O desejo não é uma busca eterna de um objeto inexistente cuja posse supostamente daria ao sujeito o acesso a um gozo absoluto. Esse é o desejo doentio do neurótico!

O desejo é, na verdade, potência criativa, cuja variabilidade de possibilidades não foi forjada pela perda de um direcionamento único. A capacidade produtiva do desejo lhe é intrínseca, constitutiva. Em vez da imagem da dona-de-casa desesperada à procura do botão perdido, propomos como ilustração para o desejo a cena de um bebê diante de diversos brinquedos. Ora se diverte com um, ora com outro, sem esperança de encontrar nada, apenas fruindo espontaneamente o gozo de agir – atividade primária e não reativa.

Se a dona de casa procura o botão perdido, é porque tem esperança de encontrá-lo. Imagina a camisa sem defeito, com todos os botões adequadamente arranjados. É a imagem da camisa perfeita que fundamenta sua incessante busca. Não ocorre o mesmo com o nosso desejo. Se imaginamos uma completude, é fantasisticamente que o fazemos. Da mesma forma, só no interior de uma fantasia pode haver falta.

Por outro lado, a criança que brinca não o faz para atingir nenhuma completude, não anseia por um gozo absoluto. Brinca porque brincar faz bem, porque lhe proporciona prazer, alegria, lhe faz sentir-se viva, existindo, criando. Desejo, portanto, é criação e não um remédio para uma suposta falta.

O que é Nome-do-Pai?

Toda vez que vou escrever uma explicação como essa, faço questão de frisar que todo conceito surge, ou melhor, é criado para dar conta de um determinado aspecto da experiência que não se pode compreender de forma imediata. Em termos mais simples, é preciso ter em mente que todo conceito é útil, funcional e se presta a resolver problemas, impasses e questões. Logo, para compreender adequadamente um conceito, é conveniente que nos façamos a seguinte pergunta: “Qual problema o autor tentou resolver ao criar esse conceito?”

Vamos direto ao ponto. Como a maioria de vocês deve saber, quem inventou o conceito de Nome-do-Pai foi um cara chamado Jacques Lacan, tido por muitos como o maior teórico da psicanálise depois de Freud, rivalizando, talvez, com Melanie Klein e Donald Winnicott.

Qual problema Lacan tentou resolver inventando essa ideia de Nome-do-Pai?

Respondo: o problema que pode ser expresso pela pergunta: “Como é que a gente consegue entender a realidade?”

Você já se fez essa pergunta?

Sim, porque não se trata de uma indagação banal ou mesmo irrelevante. Afinal, tem um bando de gente por aí que simplesmente não entende o que a gente chama de “realidade”. Gente que por conta disso resolveu criar uma realidade particular para si, a qual nós soberbamente denominamos de delírio. Tais pessoas são as que outrora chamávamos de loucos e que hoje recebem a alcunha de psicóticos, esquizofrênicos, paranoicos ou, numa nomenclatura mais politicamente correta, portadores de transtorno mental grave e persistente.

Sejamos elegantemente silogísticos: se essas pessoas não dão conta de entender a suposta realidade que os demais conseguem, logo, nós, os supostamente “entendedores” temos alguma coisa que nos permite entender, ao passo que eles não. Nós temos uma chave, um software, que ao ser colocado nessa imensa máquina chamada “mundo” nos permite navegar nas páginas da realidade! O psicótico, por sua vez, cria um sistema operacional próprio!

É essa chave, é esse software, que nos permitiria entender a realidade que Lacan chamou de Nome-do-Pai.

Calma, a explicação ainda não terminou. Até porque provavelmente (caso você seja um neófito na teoria psicanalítica) ainda não deve ter entendido muita coisa. Prossigamos.

Uma pergunta básica: como é, afinal de contas, que a gente entende alguma coisa?

Há uma série de explicações. Uma delas é a de que a gente entende, por exemplo, o significado de uma frase porque a gente sabe o que cada palavra significa. Aí a gente vai juntando o significado de cada um dos termos da frase e pronto: entendemo-la!

Lacan, que era um cara apaixonado por três livrinhos de Freud, a “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, “A Interpretação dos Sonhos” e “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, pensava diferente: pra ele, as palavras não tem um significado definido a priori. Por exemplo, a palavra casa na frase “Eu adoro ficar em casa” tem o significado de “morada”, “residência”, “lar” etc. Já na frase “No ano que vem, será que você se casa?”, a palavra casa tem o sentido de unir-se matrimonialmente a alguém. Os livrinhos do Freud dos quais Lacan gostava eram cheios de exemplos como esse. Portanto, para Lacan, o significado de uma determinada palavra não era fixo, mas dependia do contexto, isto é, das outras palavras que com ela estavam na frase.

Agora raciocine comigo: se os significados das palavras dependem das outras palavras que estão junto com ela dentro de uma sentença ou de uma frase, logo para que eu compreenda o significado de uma palavra da sentença eu tenho que saber TODAS as palavras que estão dentro dela, certo? E para que eu saiba quais são todas as palavras que estão na frase, eu preciso saber qual é a última palavra da frase, não é? Ou seja, aquela palavra que fecha a frase e que coloca limite a ela. Só assim eu vou poder saber onde a frase começa e onde ela termina e, em decorrência, quais são todas as palavras que nela estão. Só assim eu vou poder entender a frase!

Por exemplo, tomemos a seguinte frase: “Eu matei uma mulher.”. Você entendeu o significado dessa frase? Provavelmente sim. Entendeu que na frase eu digo que cometi um assassinato contra uma pessoa do sexo feminino. E você só conseguiu entender isso porque a palavra “mulher” é o último elemento da frase. Se a última palavra não fosse mulher, mas “susto”, como na frase “Eu matei uma mulher de susto.”, você entenderia outra coisa, completamente diferente, não é mesmo?

Vamos agora estender essa mesma lógica para o nosso problema inicial, que eu disse que foi o problema que Lacan tentou resolver com o conceito de Nome-do-Pai, a saber: “Como é que a gente entende a realidade?”.

Já vimos que a gente consegue entender uma frase quando a gente sabe qual é o último elemento dela, não é? E se a gente pensar isso que a gente chama de “realidade” como uma imensa e gigantesca frase?

Foi mais ou menos assim que Lacan pensou. Ele chamou essa frase colossal de “cadeia significante“. E de onde ele tirou isso?

Do fato de que a nossa vida está completamente imersa na linguagem.

Já parou para pensar nisso?

Pense, por exemplo, no fato de que antes mesmo de você nascer, seus pais e familiares já estavam falando sobre você nem que seja apenas para escolher seu nome, ou seja, como diz o apóstolo João: “No princípio era o Verbo”. Antes de você existir, já havia uma série de frases sendo ditas sobre você. Aí, depois que nasce, você cai de paraquedas num mundo em que tudo tem nome, desde essa sensação ruim que você sente no estômago e que você fica sabendo que é “fominha” até as partes do seu corpo: “olhinho”, “boquinha”, “piupiu”. Enfim, a gente nasce dentro de algo que parece uma frase enorme!

Agora vem a pergunta: já que nós nascemos dentro dessa imensa frase e vamos ter que viver o resto da vida nela, é preciso que a gente se vire para entendê-la, certo? E como é que a gente faz isso?

Ora, como a gente já viu, só é possível fazer isso, ou seja, entender essa grande frase chamada realidade, se apresentarem pra gente o último elemento dela, isto é, aquela “palavra” que está no fim dessa imensa frase (e que, em decorrência, estará virtualmente no fim de toda e qualquer frase) e que nos permite apreender o significado dela.

Lacan chamou a essa “última palavra” de Nome-do-Pai.

Você pode estar se perguntando: “Mas porque Lacan resolveu chamar essa última palavra logo de Nome-do-Pai. O que o pai tem a ver com isso?”.

Para respondermos a essa questão, será preciso nos reportarmos aos condicionamentos históricos da teoria psicanalítica. Embora tanto Freud quanto Lacan tenham pretendido formular hipóteses e conceitos de validade universal, isto é, que supostamente valeriam para todo e qualquer ser humano independentemente da época e do local em que tenham nascido, nós não podemos esconder o sol com a peneira! Devemos admitir que aquilo que Freud chamou de “complexo de Édipo” é um tipo de fantasia/conflito psicológico historicamente datado, tributário do tipo de organização familiar vigente em sua época e que não existiu desde sempre.

Quando Freud fala, por exemplo, que o complexo de Édipo é o núcleo das neuroses, ele está simplesmente descrevendo a organização psíquica que lhe aparecia com mais frequência no consultório. De fato, a raiz da grande maioria dos problemas emocionais dos pacientes de Freud e de todos os praticantes da psicanálise do final do século XIX e início do século XX estava em um conflito psíquico que misturava um intenso desejo incestuoso, uma culpa terrível derivada desse desejo e um ódio/temor igualmente forte da severidade monstruosa de uma figura paterna pouco afetuosa, distante e que encarnava a moralidade.

Quando Lacan vai fazer sua leitura do complexo de Édipo, o que ele tenta é de alguma forma extrair do Édipo freudiano aquilo que nele seria de ordem estrutural, ou seja, universal e invariável, que não precisaria ficar restrito à organização familiar. Todavia, nesse processo o que Lacan acaba fazendo é NATURALIZANDO o complexo de Édipo! Apoiado em Freud, Lacan fez com que a organização familiar moderna (pai, mãe e filhos, a “sagrada família”) passasse a servir de referência transcendental para toda e qualquer organização familiar de qualquer época. Em outras palavras, por mais diversificadas que fossem as organizações familiares, em todas elas se poderia encontrar uma estrutura básica triádica (pai, mãe e filho). É aí que surge essa história de que na psicanálise (leia-se lacaniana) o importante não é a mãe e o pai, mas a função materna e a função paterna.

Quando Lacan define aquele último elemento da imensa frase que é a realidade como sendo o Nome-do-Pai, o que ele está dizendo nas entrelinhas é que a nossa realidade, independentemente do período histórico, é e sempre será PATRIARCAL, ou seja, marcada por uma relação hierárquica em que os homens ocupam a linha de cima e as mulheres a de baixo e em que o masculino é o parâmetro definidor da subjetividade.

Para sustentar essa ideia, Lacan recorre ao complexo de castração freudiano, mais uma vez NATURALIZANDO a fantasia que ali se encontra, segundo a qual os homens teriam medo de perder o pênis e as mulheres desejariam possuí-lo. Nesse sentido, o que organizaria o que Lacan chama de “partilha dos sexos” seria a presença ou não de um símbolo derivado da anatomia masculina, isto é, o falo.

Assim, os homens teriam uma “palavra” ou um “símbolo” (o falo) capaz de representá-los na imensa frase da realidade ao passo que as mulheres não. É essa ideia que fundamenta a famosa frase de Lacan: “A Mulher não existe”. De fato, se a realidade é patriarcal, masculina, fálica, a mulher de fato não tem lugar nessa realidade.

O Nome-do-Pai, portanto, seria essa última palavra que, pondo fim à grande frase da realidade, permitiria entendê-la. Por “entendê-la”, leia-se interpretar a realidade segundo a lógica patriarcal e fálica. Lacan é explícito quanto a isso, ao fazer referência à “significação do falo”.

Passemos a uma última questão.

Na teoria lacaniana, como é que a gente teria acesso ao Nome-do-Pai? Como é que a gente se daria conta da existência dele?

Por intermédio da mãe. Para Lacan, como a mulher é um ser que não tem o falo embora o deseje ardentemente, ela tende a usar o filho como um objeto equivalente, ou seja, faz uso do bebê como um objeto de gozo.

Para Lacan (como também para Freud) TODAS as mães têm essa tendência doentia a gozar de seus filhos como consolo para sua falta de pênis, TODAS.

Nesse sentido, no início da vida, segundo Lacan, a mãe seria para o bebê a encarnação da sua realidade, já que ele passa quase todo o tempo com ela. O problema é que essa realidade seria, um inferno, pois ela seria constituída unicamente do desejo caprichoso, voraz e sem lei da mãe. Nesse contexto, o bebê ainda não seria capaz de entender a realidade, já que ainda não saberia o que move o desejo da mãe, o que ela busca, pois ainda não lhe teria sido apresentado o último elemento da frase.

Num segundo momento, o que salvaria o bebê desse estado terrível de submissão ao desejo absoluto da mãe seria o fato de que ele não seria capaz de encarnar definitivamente o falo, ou seja, de saciar completamente o desejo da mãe por um pênis. Em decorrência, aos poucos, a mãe iria deixando-o um pouco de lado e, ao mesmo tempo, mostrando que ela tem outros interesses.

É essa mudança no funcionamento da mãe que coloca em jogo e indica a existência do Nome-do-Pai e junto com ele a significação fálica. É a partir daí que começa a surgir para o sujeito a percepção do significado que tinha até então para a mãe. Aos poucos, ele iria se apercebendo que encarnava para ela esse objeto que o mundo todo desejo e que regula o funcionamento da realidade, a saber o falo.

A partir de então, a realidade que antes era caótica e sem lei, passa a poder ser entendida, pois agora a gente sabe qual é o último elemento da frase.

O que é objeto a?

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Preâmbulo

Antes de dar início a essa explicação, quero deixar claro que não pretendo aqui esgotar o tema ou analisar pormenorizadamente todas as suas nuances e vertentes interpretativas. Trata-se apenas de uma tentativa de tornar o conceito de objeto a o mais claro possível para o público leigo e para aqueles que estão se iniciando no estudo da teoria de Jacques Lacan. Digo isso como resposta prévia a qualquer acusação do tipo: “o objeto a não se reduz ao que você diz”. Desde já quero dizer que concordo com tal objeção. De fato, o conceito de objeto a não se reduz ao que será escrito aqui. Não obstante, sou veementemente contra a tendência bastante presente no campo psicanalítico, notadamente na orientação lacaniana, de elevação de conceitos ao estatuto de entes quase místicos, inefáveis, para os quais qualquer tentativa de descrição estaria fadada ao fracasso. Em suma, o objeto a é apenas uma expressão verbal, forjada por Lacan com o objetivo de lhe auxiliar na caracterização e esclarecimento de determinadas dimensões da experiência humana.

Mas deixemos de prolegômenos e vamos direto ao assunto: a noção de objeto a talvez tenha sido a contribuição mais relevante de Jacques Lacan para a teoria psicanalítica. Ela pretende ser uma resposta psicanaliticamente legítima à seguinte pergunta: “Com qual objeto o ser humano se relaciona?”.

A descoberta de Freud

De fato, outros psicanalistas tentaram fornecer respostas para essa pergunta. No entanto, segundo Lacan, as respostas que eles deram não fizeram jus à grande descoberta de Freud. Que descoberta era essa? A descoberta de que diferentemente do restante da fauna do planeta, o animal humano não possui um objeto fixo com o qual saciar seu desejo sexual.

Não há nada de enigmático nisso. Para entender tal afirmação, basta lembrar-se do seguinte: apenas o homem sente tesão por sapatos, cores de cabelo, lábios carnudos, calcinhas, cuecas, brilhos nos olhos, vegetais, outros animais etc. A variação dos objetos que nos provocam tesão é quase infinita. Por outro lado, a sexualidade de um leão, de uma tartaruga ou de um cavalo-marinho não conta com tamanha plasticidade. Leão só sente tesão por leoa, touro por vaca, peixe por peixe! Há encaixe sexual nos animais (selvagens, diga-se de passagem. Quando se tornam domésticos, ou seja, quando entram em contato com o homem, a coisa muda – basta observar os cães).

Nos animais, há relação sexual. No homem há relações sexuais, mas nenhuma em que os dois parceiros estejam de fato interessados num e noutro. É por isso que Lacan dirá no Seminário 11: “Amo em ti, mais do que tu”. Sim, porque cada um está interessado não no outro em si, mas naquilo que no outro lhe provoca seu desejo! Essa foi a grande descoberta de Freud e o conceito de objeto a pretende ser uma forma de abordá-la teoricamente.

Freud aprendeu com as crianças e os perversos que a pulsão sexual não tem objeto. É isso o que os psicanalistas querem dizer quando afirmam que o ser humano é marcado por uma falta. Que falta é essa? É a falta de um objeto que esteja de acordo com o nosso desejo. Pelo fato de, no caso da espécie humana, esse objeto não existir, toda vez que nossa pulsão, essa fome de viver fundamental, se engancha em algum objeto nós temos a ilusão de que ele nos satisfará plenamente. Mas nos enganamos. Logo vem a decepção e nós vamos buscar outra coisa. É como se nosso desejo nunca pudesse ser satisfeito, mas apenas aguçado, ou, em outros temos, a gente só conseguisse ficar com tesão mas nunca saciá-lo completamente.

Nesse momento, o leitor pode se perguntar: “Tá, mas se então a pulsão não possui um objeto adequado, como sentimos tesão? O que provoca o nosso tesão? No animal é a imagem do parceiro, isto é, do objeto. Trata-se de uma experiência da ordem do instinto, uma experiência por assim dizer pré-ordenada. E em nós, humanos, o que provoca nosso desejo?” Lacan responderá dizendo: é justamente essa falta de objeto. Na medida em que não temos um objeto adequado, os objetos que nos são oferecidos para ocupar esse lugar não vêm de uma estruturação pré-ordenada da natureza, mas sim da cultura. A cultura nos diz o que devemos desejar. E quando eu digo cultura estou me referindo aqui a todas as experiências que o sujeito tem com qualquer instância que ocupe para ele o lugar de Outro, que pode ser desde o pai e a mãe até um programa de televisão. São esses outros que ocupam lugar de Outro que nos dizem quem nós somos, o que devemos fazer da vida e o que desejar. No entanto, esse Outro nunca consegue realizar essa tarefa completamente porque nenhum objeto que ele nos oferece para desejar vai ser capaz de saciar completamente nosso desejo. Isso porque, repetindo, não há um objeto único que satisfaça plenamente a todos, de modo que sempre haverá um restinho de desejo insatisfeito que nos moverá na busca por outro objeto.

Frequentemente mascaramos com imagens a inexistência desse objeto ou, em outras palavras, a impossibilidade de descarregar esse restinho de desejo. Daí, por exemplo, só conseguirmos sentir desejo sexual em condições específicas, o que é mais explícito na experiência do perverso: o sujeito só consegue sentir tesão pela namorada se ela estiver trajando uma meia-calça vermelha, por exemplo. Ali, a imagem da meia-calça está no lugar da falta do objeto. A pulsão se enroscou na imagem da meia-calça de modo compulsivo. Com isso, o sujeito evita o confronto com a falta de objeto, com a angústia suscitada por essa falta, mas, por outro lado, se priva da plasticidade da pulsão.

Então, respondendo à pergunta do nosso interlocutor fictício, o que provoca nosso desejo não é nenhum objeto com o qual nos relacionamentos efetivamente, mas sim esse restinho que sobra de todas essas experiências. É esse restinho que nos dá gás para investir em outros objetos. E esse restinho é uma das facetas que Lacan chama de objeto a, o objeto que causa o desejo. Por isso, a gente pode dizer que, no fundo, é esse restinho que a gente busca naqueles com os quais nos relacionamos. Buscamos neles esse pedaço perdido de satisfação, esse objeto que nos saciaria completamente.

Objeto adequado ao desejo?

Essa é a tese de Lacan, a qual é perfeitamente compatível com a obra de Freud. No entanto, como dissemos acima, outros teóricos da psicanálise não pensavam dessa forma. Na década de 50, a posição defendida por eles possuía bastante prestígio na comunidade psicanalítica, de modo que foi preciso que Lacan fizesse um seminário inteiro no ano acadêmico de 1956-57 apenas para criticá-la e indicar o que considerava ser a verdadeira posição psicanalítica a respeito do objeto.

Tais analistas haviam lido a teoria de Freud sobre a sexualidade da seguinte forma: no início da vida o bebê se relaciona com pedaços de um objeto, nunca com um objeto inteiro. Até aí está tudo certo. De fato, para Freud os objetos com os quais a criança lida são objetos parciais (seio, fezes, pênis, clitóris). No entanto, e é nesse ponto que eles se afastam de Freud, pois admitiam que a criança vai amadurecendo ao longo do tempo, de modo que após o período de latência ela não mais se relaciona com objetos parciais, mas com um objeto inteiro e totalmente harmônico, capaz de satisfazer plenamente ao seu desejo. O neurótico seria, portanto, aquele infeliz que ainda permanece agarrado aos objetos parciais, não tendo amadurecido o suficiente para lidar com um objeto total. Em decorrência, o objetivo da análise seria levar o sujeito ao amadurecimento, isto é, ao ponto em que ele fosse capaz de se relacionar com um objeto pleno e harmônico.

Ora, como vimos ainda há pouco, isso não tem nada a ver com o que Freud sustentava. Para o pai da psicanálise, o neurótico que chega ao psicanalista não é um imaturo. Aliás, a idéia de “amadurecimento” não faz qualquer sentido em Freud. O neurótico que procura análise é apenas alguém que teima em achar que é possível encontrar esse objeto pleno, completamente satisfatório. Assim, o objetivo da análise, em Freud, é diametralmente oposto ao da análise da Escola da Relação de Objeto. Trata-se, na clínica freudiana, de levar o sujeito a se dar conta justamente de que o objeto pleno não existe, de que essa falta de objeto é estrutural na existência humana e de que é justamente ela que permite o exercício da criatividade e da plasticidade do desejo.

Quando Lacan cria o conceito de objeto a o que ele tem em vista é justamente dar corpo a essa falta de um objeto natural, adequado e harmônico para o ser humano. Para o analista francês (como também para Freud) nós nunca deixamos de nos relacionar com objetos parciais, com pedaços de pessoas. Em nossa fantasia fundamental, a qual regula de fato a nossa relação com o mundo, continuamos a ser ávidos bebês que desejam o seio da mãe porque o consideram uma parte perdida de si mesmos. E é justamente essa parte perdida de nós mesmos, para sempre perdida, que nós buscamos ao longo da vida. É essa parte perdida, para Lacan, o objeto com o qual nos relacionamos: um objeto que, por sua ausência, se faz presente, o objeto a.

Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (final)

Vimos até aqui que, por tudo o que Freud escreveu, sobretudo a partir de 1920 com a introdução do conceito de pulsão de morte, a felicidade para o pai da psicanálise é um sonho humano fatalmente destinado à frustração. Espero ter deixado claro que essa conclusão faz todo o sentido se levarmos em conta as premissas que guiaram o pensamento do médico vienense.

De fato, se pressupormos como verdadeiras as seguintes asserções:

(1) que entre o indivíduo e a cultura há um conflito inexorável oriundo da presença em cada organismo humano de uma pulsão destrutiva que se contrapõe à vida em sociedade;

(2) que, para que o indivíduo possa se inserir no campo que Lacan chamará de grande Outro, isto é, o campo da cultura, cuja estrutura basilar é a linguagem e suas leis, ele deve necessariamente abdicar de parte de suas tendências pulsionais – o que coloca em jogo novamente um conflito eterno entre o indivíduo e a pulsão;

(3) que a felicidade seria a possibilidade de que tal conflito inexistisse, ou seja, que, no limite, pudéssemos atualizar nossas intencionalidades sem qualquer tipo de impedimento por parte da cultura;

Logo,

(conclusão) a felicidade é de fato impossível.

Em outras palavras, para Freud a felicidade é impossível porque, ao defini-la, ele se coloca na posição do neurótico clássico, incapaz de superar o drama edipiano. Ora, o que significa ser feliz para tal neurótico? Fantasisticamente, poder ter a mãe só para si. Nos termos de Jacques Lacan, poder ter acesso a um gozo pleno, que não existe, mas que o neurótico, em sua fantasia, supõe que exista em algum lugar da terra.

Ora, por que o limite imposto pela cultura aos nossos desejos tem que ser visto necessariamente a partir da ótica da falta, da insatisfação, do mal-estar? Esse é o ponto de vista do neurótico, que sonha em ultrapassar o rochedo da castração. Por que não podemos enxergar no limite a instauração da dimensão do possível na existência humana? Sim, porque todo limite, ao mesmo tempo em que impede a execução de uma determinada intenção, nos mobiliza a inventar uma nova forma de agir, de modo que o limite ou a resistência do real aos nossos desejos nos põe na trilha da criatividade, da invenção. Não obstante, para que paremos de nos queixar diante do limite e passemos a utilizá-lo como motor de criação, nossa âncora subjetiva deve estar em outro lugar que não o da satisfação pulsional. Era assim que Donald Woods Winnicott pensava.

Para-além do mecanicismo: Winnicott e o ser

Refém do modelo mecanicista proveniente da modernidade, Freud jamais conseguiu pensar que para o sujeito humano há algo mais fundamental que as pulsões, algo que, inclusive, possibilita o uso saudável da dimensão pulsional. Para o pai da psicanálise, o ser humano é uma máquina de descarregar pulsões que se complica por sua pertença ao campo da cultura. Para Freud, não há nada na natureza do humano que o singularize com exceção do fato de que nele há pulsões e não instintos, o que faz com que a subjetividade deva ser concebida necessariamente como uma construção social (o que Lacan expressará com sua fórmula: “o sujeito é o que um significante representa para outro significante”).

Em contrapartida, para Winnicott, que não tinha experiência apenas com neuróticos insatisfeitos com a castração, mas com bebês doentes e saudáveis, antes de o homem se ver às voltas com a dinâmica pulsional, algo de caráter muito mais essencial deverá ser constituído. Trata-se do que Winnicott chama de “experiência de continuidade do ser” ou “a experiência de que a vida faz sentido, de que vale a pena viver.”. Para o psicanalista inglês, é esse o elemento fundamental que possibilita uma vida saudável. É essa a âncora subjetiva que todo ser deve possuir para conseguir lidar de modo não problemático nem doentio com as limitações da existência.

A construção do fundamento para a felicidade

Como se constitui essa experiência de continuidade do ser? Winnicott, diferentemente de Freud, não conseguiu ver no bebê humano uma maquininha de descarregar pulsões. A experiência clínica do analista inglês com crianças não lhe deixou dúvidas de que o pequeno filhote de Homo sapiens é dotado de determinadas tendências para o desenvolvimento que, para serem realizadas, precisam de uma contrapartida ambiental, ou seja, a adaptação ativa de alguém. Portanto, o homem não é, nem a princípio nem posteriormente uma máquina burra. Trata-se de um organismo orientado para o amadurecimento.

Num primeiro momento, as necessidades do bebê demandam uma atenção tão intensa por parte do ambiente (mãe) que o bebê não tem condições de discernir-se como um ser separado dele. Se o ambiente for suficientemente bom, isto é, se conseguir atender adequadamente as necessidades da criança, o único registro psíquico que o bebê fará dessa experiência será o de “estar sendo”, ou seja, de existir.

Gradativamente, a dependência do infans em relação ao ambiente vai se relativizando, de modo que a mãe pode se desligar um pouco do bebê. Ainda assim, ela não pode se ausentar por muito tempo. Do contrário, como o bebê ainda não se constituiu como uma pessoa inteira capaz de reconhecer o outro como independente, se for deixado desamparado por longo tempo, ele sente como se estivesse desaparecendo, uma experiência que Winnicott chamou de “angústia inimaginável” e que quebra aquele sentimento de “estar sendo” que vem sendo solidificado desde o nascimento.

Se tudo correr bem, ou seja, se o ambiente não provocar a emergência de angústias inimagináveis no bebê, o indivíduo vai paulatina e naturalmente aceitando o fato de que o outro é independente e possui corpo e psiquismo próprios. Essa passagem ao reconhecimento da alteridade só é feita de maneira saudável, isto é, não-traumática, se o sujeito conseguir consolidar esse estofo subjetivo, essa âncora, que é o sentimento de “estar sendo” ou “sentimento de continuidade da existência”. Esse sentimento funciona como algo que capacita o indivíduo a enfrentar as intempéries da vida sem se deixar abater de modo doentio. É como se, dotado desse sentimento, o sujeito pudesse dizer: “Aconteça o que acontecer, eu sou.”.

A experiência de “estar sendo” permite a atualização na vivência cotidiana de uma dimensão humana que Freud sequer cogitou existir que é o que Winnicott chama de “verdadeiro self”, que é o ponto subjetivo a partir do qual podemos criar. Trata-se de um aspecto do sujeito que Winnicott qualifica como “indevassável” no sentido de que ele é irredutível a qualquer tentativa de incorporação cultural. Ele é a marca de nossa singularidade. No indivíduo saudável, que conseguiu consolidar o sentimento de continuidade da existência, o verdadeiro self não precisa ficar oculto, não precisa ser defendido, pois possui a força daquele sentimento para resistir às limitações do mundo externo.

A presença do verdadeiro self na existência individual possibilita a experiência de sentir que a vida faz sentido. Isso porque só sentimos que a vida faz sentido quando nos sentimos vivendo e, ao mesmo tempo, criando nossa própria experiência vital. Trata-se de uma sensação oposta àquela que experimentamos quando temos que vivenciar situações que nos foram impostas. Nesses casos, vivenciamos uma sensação de futilidade, justamente por não nos sentirmos co-criadores no processo. A experiência do sujeito freudiano clássico é dessa ordem. É um indivíduo que sente as limitações colocadas em jogo por nossa pertença à cultura como meras imposições externas que o tornam insatisfeito. Tal sujeito fundamenta seu ser não na experiência de continuidade de ser, mas na satisfação pulsional. Por isso, sua conclusão será inevitavelmente a de que a vida não vale a pena, ou seja, de que não é possível ser feliz.

Felicidade a toda prova

Finalmente, para Winnicott, a felicidade é sim, possível, e pode ser vista como sinônimo de saúde. E o que é a saúde para Winnicott? Não se trata de uma existência sem desprazer ou sem limitações. Pelo contrário, ser saudável para Winnicott significa ser capaz de incorporar e fazer frente a tais experiências. E isso só é possível se o indivíduo tiver construído seu ser sobre a rocha, para usar uma metáfora bíblica. Construir o ser sobre a rocha significa ter conseguido vivenciar nos momentos iniciais da vida a experiência de ser sem interrupções e sem angústias traumáticas. Essa experiência constitui-se em uma espécie de amparo ambiental introjetado, uma rocha que permitirá ao ser sobreviver às chuvas, aos ventos e às tempestades. Mais do que isso: essa experiência permitirá ao indivíduo encarar a vida não como algo pronto ao qual nosso papel é unicamente o de adaptação, mas sim como uma algo que se abre às contribuições espontâneas e criativas do vivente.

Concluindo, diria que a felicidade, do ponto de vista winnicottiano, não tem a ver com a dimensão dos afetos. Ser feliz não significa experimentar alegria ou prazer, pois isso implicaria em considerar a felicidade como algo fugaz, momentâneo, passageiro. Também não se trata, como pensara Freud, de uma felicidade utópica cuja impossibilidade reside precisamente no fato de ser descrita como estando na dependência daquilo que é barrado pela inserção na cultura. Não. Para Winnicott, a felicidade é uma condição existencial experimentada pelo ser que se sente existindo de modo criativo, ou seja, que não encara a vida como um fardo ou na posição de mero espectador. O que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer.

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Defesa e Viver Criativo – Um Estudo sobre a Criatividade nas Obras de S. Freud e D. W. Winnicott

Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (parte 1)

happiness
O problema da felicidade é certamente uma questão que não admite uma resposta definitiva, até porque diz respeito a um ente que só existe na mente dos seres humanos. Ninguém vê felicidades passeando por aí – nem com o auxílio do mais avançado dos microscópios. Dito de outro modo, felicidade é um conceito, um ente de razão. Trata-se de um conceito propriamente filosófico, posto que diz respeito a uma questão que interessa a todo mundo, mas sobre a qual apenas esses serem que se intitulam amantes da sabedoria se debruçam a fim de obter uma resposta. No nível do senso comum, da experiência cotidiana, a coisa se resume a uma resposta baseada unicamente na vivência daquele a quem se faz a pergunta: “Você é feliz?”. Ele diz “‘Sim, sou’ ou ‘Não, não sou’”. É a filosofia quem se dedica a ultrapassar essa dimensão puramente fenomenológica e pensar acerca dos critérios que podemos utilizar para definir alguém como um ser em estado de felicidade ou mesmo se esse estado é possível.

Essa reflexão, cujos resultados são veiculados principalmente através da mídia, nos afeta e nos faz formular também, mesmo no âmbito do senso comum, algumas respostas. Quantas vezes não nos pegamos dizendo para alguém que felicidade é momento e não estado, que não é possível um estado de permanente felicidade, mas apenas felicidades eventuais condicionadas a circunstâncias específicas ou que ser feliz é fazer o bem ao próximo etc. Dizemos isso com pretensão de estarmos formulando enunciados verdadeiros, esquecendo-nos que, de fato, a questão é insolúvel empírica e racionalmente, comportando apenas perspectivas e interpretações parciais. Tenderemos, creio eu, a adotar aquela perspectiva que mais favoreça a satisfação de nossos interesses práticos do presente. Em outras palavras, formulamos nosso conceito de felicidade com base não em uma iluminação divina, mas sim a partir de nossas experiências pessoais, desejos e, principalmente, com base naquilo que pretendemos atingir, já que somos seres orientados por interesses específicos.

Por conta disso, quero trazer aqui não um suposto verdadeiro conceito de felicidade, mas meros posicionamentos de dois autores clássicos da psicanálise acerca do tema: Freud e Winnicott. Antes de iniciar minha exposição sobre o ponto de vista de cada um deles, preciso salientar que nenhum dos dois formulou de modo explícito um conceito de felicidade, de modo que a discussão que farei pretende refletir, com base na obra desses dois autores, sobre como eles provavelmente responderiam às seguintes perguntas: “A felicidade é possível?” e “O que significa ser feliz?”.

Freud iluminista

Quem ainda não chegou a ler os escritos de Freud a partir da década de 1920, a começar pela obra clássica “Para-além do princípio do prazer” dificilmente poderá concordar comigo quando digo que o pai da psicanálise era um grande pessimista. Isso porque até os anos 20 do século passado, Freud se manteve fiel ao espírito iluminista, manancial ideológico em que sua formação em medicina aconteceu.

O Iluminismo, como se sabe, foi um dos últimos sonhos utópicos da humanidade, cujos partidários acreditavam ser possível eliminar as fontes do sofrimento humano, como a animosidade eterna entre os homens, através da razão e da ciência. Dito de outro modo, para os iluministas seria possível chegarmos a um estado civilizacional tal que as guerras não seriam mais necessárias porque nós nos tornaríamos seres educados pela razão e não precisaríamos nos comportar mais como animais enfurecidos.

É esse espírito que leva Freud a se tornar um apologista da psicanálise como uma técnica que a razão humana teria descoberto e que poderia eliminar de vez graves problemas neuróticos humanos resultantes da repressão sexual. É esse primeiro Freud que ficou marcado na cabeça de muitas pessoas como aquele que supostamente dizia que “tudo era sexo”. De fato, ao notar que os sintomas de seus pacientes histéricos e obsessivos eram resultado da repressão de tendências sexuais que a sociedade considerava vergonhosas, como sexo oral, sexo anal, desejo de adultério etc., a primeira conclusão de Freud foi: o que faz as pessoas se tornarem neuróticas, ou seja, sofrerem, é a sociedade e seus rígidos códigos morais. Portanto, se quisermos tornar as pessoas felizes deveremos fazer uma reforma social, de modo que os códigos relativos à conduta sexual sejam mais liberais. Assim, as pessoas não precisariam se martirizar pelos desejos que sentem e não se refugiariam em sintomas neuróticos.

Nesse primeiro momento de sua obra, já é possível notar o que Freud chamaria de felicidade. Se as pessoas sofriam porque tinham que reprimir seus desejos, logo a felicidade equivaleria à possibilidade de expressão plena de nossos desejos, de um gozo sexual que não sofresse repressão. Para esse primeiro Freud, isso seria possível desde que a sociedade fosse reformada e a moral sexual se tornasse liberal a ponto de permitir toda a variabilidade da experiência sexual humana. Notem como esse conceito de felicidade freudiano não é espontâneo, mas dependente e reativo: só se pode ser feliz se o Outro da cultura permitir.

Freud pessimista

A partir de 1920, com a introdução da hipótese da pulsão de morte, Freud abandona o otimismo iluminista e a influência filosófica que mais se faz sentir em seus escritos passa a ser as idéias de Schopenhauer e seu inveterado pessimismo. Provavelmente, a primeira guerra mundial tenha sido outro fator que levou Freud a largar o sonho iluminista. A frustração por ver a manifestação sanguinária da agressividade humana no auge do processo civilizatório fez com que Freud começasse a se perguntar: “Será que não haverá no interior de todo ser humano uma tendência latente para a morte que nenhum tipo de arranjo cultural é capaz de conter?”. A resposta – afirmativa – para essa pergunta é justamente o texto “Para-além do princípio do prazer”. Ali, Freud faz uma série de malabarismos teóricos para sustentar a tese de que se o sonho da paz perpétua entre os homens não pôde ser realizado, a razão seria o próprio sonho, mas sim o fato de que em todo homem habita uma pulsão de morte que o faz destruir o outro para não se destruir. Nesse momento, Freud abandona a idéia de que a felicidade é passível de ser alcançada.

No entanto, ainda não é em “Para-além do princípio do prazer” que Freud enuncia suas idéias acerca da felicidade. Fará isso nos dois textos quase complementares escritos já próximo ao fim de sua vida que Freud. Neles, o autor deixa claro porque, do seu ponto de vista, a felicidade seria impossível. Os textos são “O Futuro de uma Ilusão” e “O Mal-estar na Civilização”. Em ambos, Freud afirma com todas as letras que o homem não pode ser feliz porque para que um indivíduo o fosse, todos os outros não poderiam ser. Explico: é que, para Freud, como vimos anteriormente, felicidade seria poder matar quando se quer matar, fazer sexo com todo tipo de mulher incluindo as da própria parentela, pegar a mulher do outro quando desse vontade etc. É claro que estou fazendo uso de uma caricatura discursiva. Freud nunca disse isso literalmente, mas quem quer que leia os dois textos a que fiz menção, perceberá que para o médico vienense a felicidade plena seria a possibilidade de colocar em ato todos os nossos desejos.

Tal possibilidade só seria permitida hipoteticamente a uma única pessoa pela simples razão de que se todas as pessoas começassem a querer fazer tudo o que desejassem, o mundo se tornaria uma barbárie e logo todos morreriam. A civilização teria a função de impedir que isso acontecesse fazendo vigorar a Lei, isto é, os códigos de conduta, cuja base mínima é o mandamento “Não matarás”.

Vejam que Freud agora já vê a moralidade com outros olhos. Nesse momento, ele se dá conta de que a repressão é necessária para que os indivíduos não se matem uns aos outros, já que se eles forem deixados à própria sorte, assim acontecerá, pois em cada um deles habita uma pulsão de morte; são seres mortíferos por natureza.

Felicidade não; mal-estar

Na medida em que para que haja civilização, os indivíduos são obrigados a reprimir boa parte de seus desejos, cada um de nós seria assaltado continuamente por um sentimento de mal-estar, gerado pela quantidade de energia agressiva e sexual que não pode ser descarregada. Por essa razão, jamais poderíamos ser felizes, pois estaríamos sempre às voltas com esse mal-estar, essa ansiedade, essa angústia que, não raro, é descarregada nos sintomas neuróticos. Em outras palavras, para Freud, saúde e felicidade são apenas ideais, jamais estados concretos de existência. O homem é naturalmente doente, pois porta em si mesmo uma tendência destrutiva que é contrária à convivência com os demais seres humanos.

Notem que o posicionamento de Freud é claramente determinista: ele parte da suposição de que em todo indivíduo nasce com uma pulsão de morte e que a função primordial da civilização é dizer “Não”. Conquanto o pai da psicanálise tenha abandonado o ideário iluminista, ele ainda continua radicalmente moderno. Com efeito, é a modernidade que construiu oposições do tipo indivíduo/sociedade que, em Freud, aparece de forma claríssima: o indivíduo, com sua pulsão de morte maluca, é inimigo da sociedade, essa instância que Lacan chamará de Outro, que humaniza, que faz o pequeno animalzinho humano se tornar sujeito. É óbvio que numa perspectiva que admite tais pressupostos deterministas, a felicidade será mesmo impossível, pois ela será pensada, como de fato Freud pensou, como justamente aquilo que a cultura não permite que aconteça. Novamente faço-os notar que se trata de um conceito reativo de felicidade.

Na segunda parte deste texto, veremos como Winnicott, ao adotar um ponto de vista não-determinista, mas historicista, concebe a felicidade como sendo uma conquista possível.

O que é resistência em Psicanálise?

Conservo na memória lembranças muito divertidas da minha época de estudante de Psicologia. Uma delas tem a ver precisamente com a noção que tentarei explicar neste texto.

Quando ficou claro para a maior parte de meus colegas que eu escolhera peremptoriamente a teoria psicanalítica como método de compreensão e intervenção nos fenômenos psicológicos, aqueles que haviam feito a opção por outras linhas de trabalho se alegravam de maneira sarcástica em me provocar com a sentença mordaz: “Isso deve ser resistência.”. Subliminarmente, objetivavam com isso dizer que o conceito de resistência era uma espécie de desculpa esfarrapada utilizada pelos analistas para se preservarem quanto à responsabilidade por seus fracassos terapêuticos. Em outras palavras, o argumento de meus colegas era o de que, por exemplo, todas as vezes que um paciente não quisesse continuar um processo analítico, o analista estaria isento de responsabilidade quanto a isso, pois a motivação para a evasão do paciente seria sua resistência ao tratamento. Como eu não tenho nenhum compromisso com a “preservação” da psicanálise – pois eu apenas utilizo o ensino de Freud e dos demais autores; não os cultuo – não procurava defender-me daqueles irônicos ataques. Pelo contrário, a ignorância ressentida de meus colegas me fazia dar boas gargalhadas. De fato, o que eles diziam não era totalmente falso. Muitos analistas se refugiam no conceito de resistência para se defenderem do reconhecimento das próprias falhas. No entanto, obviamente essa não é a regra. Na maioria das vezes, os analistas fazem uso apropriado do conceito que, como veremos abaixo, serve para caracterizar uma série de eventos em análise que manifesta um fenômeno paradoxal descoberto por Freud.

A resistência como parteira da psicanálise

Apesar de Lacan não ter considerado o conceito de resistência como fundamental – para ele, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise eram inconsciente, pulsão, transferência e repetição – Freud dizia que a condição teórica para que alguém pudesse ser reconhecido como psicanalista seria o reconhecimento, no tratamento, da existência dos fenômenos da transferência e da resistência. Por que o pai da psicanálise considerava o discernimento da resistência como elemento necessário para um tratamento genuinamente psicanalítico?

Porque foi o reconhecimento da resistência o pivô da transformação do método catártico em método psicanalítico. O leitor versado na história da psicanálise sabe que Freud utilizou dois métodos terapêuticos antes de inventar a psicanálise: a hipnose e a catarse. Em ambos, o princípio que guiava o trabalho do médico era o mesmo: fazer sair do paciente os venenos psíquicos que estavam na gênese de seus sintomas. Esse procedimento efetivamente funcionou durante algum tempo, mas logo Freud se apercebeu de que ele não era suficiente. Isso aconteceu por uma razão no mínimo paradoxal: os pacientes não queriam por seus venenos para fora!

O aparelho psíquico parecia funcionar de uma maneira distinta do corpo. Enquanto o organismo se esforça para expelir através de vômitos, diarréia e outros sintomas uma substância tóxica ingerida, o psiquismo parecia apresentar uma… resistência a livrar-se de seus conteúdos venenosos. Ao discernir essa curiosa característica do aparelho psíquico, Freud abandona a hipnose e o método catártico, pois percebe que não adiantava forçar a barra e tentar quebrar a resistência brutalmente. Era preciso criar um método capaz de compreender por que há resistência, de modo a “convencer” o aparelho psíquico a renunciar a ela. Nasce, assim, o método psicanalítico.

Por que há resistência?

Aplicando a psicanálise, Freud descobre de fato as razões pelas quais o aparelho psíquico resiste a lançar para fora seus conteúdos tóxicos. Trata-se da descoberta da divisão subjetiva. Diferentemente do organismo, o psiquismo não é uno, não é integral. Pelo contrário, é dividido, fragmentado, de modo que aquilo que em uma esfera psíquica é reconhecido como veneno, em outra é tido como uma saborosa sobremesa. Essa ambivalência e ambigüidade amiúde não são reconhecidas pelo sujeito, pois seus sintomas mantêm tudo numa homeostase doentia. Em outras palavras, o sujeito “conserva” sua inteireza psíquica à custa de sua doença. A ação do psicanalista vai na contramão desse processo. A análise vai levar o paciente à constatação de que seus sintomas são, na verdade, a manifestação patológica, doentia, sofrida de um desejo que não pôde ser reconhecido, que não pôde ser encarado de frente. Em suma, a análise vai levar ao paciente à compreensão de que ele não sabe nem a metade da missa que é; vai levá-lo ao reconhecimento de que é um ser ambíguo, ambivalente, dividido, radicalmente distinto daquele ser inteiro e consciente que acreditava ser. Nesse processo, o analisante vai descobrir coisas não muito agradáveis a respeito de si. Aliás, o próprio fato de constatar o desconhecimento em relação a si mesmo já é profundamente angustiante. A análise o levará ao reconhecimento de pulsões que jamais esperaria encontrar em si, de modo que ele será levado a admitir que os venenos psíquicos dos quais quer se livrar são, na verdade, preciosidades que guarda com muita satisfação…

Pois bem, ninguém se livra de preciosidades sem impor alguma resistência. E não importa se essas preciosidades matam. Todos os toxicômanos estão aí para testemunhar a veracidade dessa afirmação. O analista é aquele ser filho do desejo de Freud que quer trazer essas preciosidades venenosas à luz, tirá-las das caixinhas em que as guardamos. Mas nós não queremos a luz. Temos medo de reconhecer para nós mesmos que somos colecionadores dessas preciosidades. Temos medo do que nós podemos pensar sobre nós mesmos: “O que o meu ego dirá quando eu lhe mostrar essas preciosidades?” É por esse medo que as guardamos no sótão da alma.  É por esse medo que resistimos, medo de experimentar essa angústia de reconhecer que minhas preciosidades não serão reconhecidas como tais por todos os pedaços de mim que me habitam.

O que é princípio do prazer?

A maior parte das pessoas não envolvidas diretamente com a Psicanálise desconhece as verdadeiras razões que levaram Freud a se tornar um clínico e, em decorrência disso, o inventor de um novo método de tratamento das neuroses. Pouca gente sabe que o desejo original de Freud no âmbito profissional era o de tornar-se um pesquisador do campo neurológico e não um psicoterapeuta. O pai da Psicanálise só se encaminhou para a clínica por razões de ordem prática e, mais especificamente, financeira. Freud não era rico e precisava conseguir dinheiro para se casar com sua noiva Martha Bernays. Aliás, as dificuldades financeiras acompanhariam Freud e família ao longo de toda a sua vida, mesmo após o reconhecimento internacional de suas inovações teóricas.

Nicho de mercado

Naquele início de carreira profissional, a saída que Freud encontrou para conseguir dinheiro foi se dedicar ao tratamento de uma patologia que vinha sendo encontrada com frequência cada vez maior e para a qual ainda não havia sido encontrada uma técnica terapêutica eficaz. Tratava-se da histeria: uma afecção cujos sintomas mais comuns eram disfunções corporais como dores de cabeça, paralisias de membros, contraturas etc. para as quais não se encontrava nenhuma correspondência orgânica. Freud intuitivamente reconhece nesse campo patológico uma oportunidade de conseguir dinheiro para pagar as contas e se casar. E é justamente no processo de busca de um método capaz de curar a histeria que Freud elabora a psicanálise.

Entretanto, a intenção original de se tornar cientista jamais abandonará a Freud e é por essa razão que ele se dedicará a produzir toda uma obra cuja marca mais visível será a elaboração de uma teoria acerca da subjetividade. E um dos primeiros conceitos que Freud cunha para a construção de seu edifício teórico é a noção de “princípio do prazer”.

Entre a ciência e o sujeito

Falando de maneira clara: o princípio do prazer foi a primeira resposta que Freud encontrou para responder à pergunta que todos os psicólogos no final do século XIX se faziam, a saber: “Como a mente funciona?”. A fonte de onde Freud vai tirar sua solução será precisamente sua atuação clínica. E é preciso notar que o médico vienense estava sendo pioneiro ao fazer isso. Os demais psicólogos, como Fechner (que o influenciará) e o próprio Wundt, tido como o pai da psicologia científica, extraíam suas conclusões de achados laboratoriais, isto é, de experimentos controlados, artificiais, distantes da realidade trágica da vida. É por isso que a resposta dada por Fechner à questão do funcionamento mental será: “A mente possui uma tendência a se livrar de todas as excitações que lhe chegam pela via dos sentidos ou, sendo isso inviável, a manter o mínimo de excitação possível e constante.” Fechner deu o nome a essa resposta de “princípio de constância”.

Freud, atento à literatura científica da época, conhecia o princípio de constância. No entanto, o que o pai da psicanálise verificava no dia-a-dia clínico não era essa descrição fria de excitações que aparecem e são reduzidas ou descarregadas. O que ele via eram barulhentas crises histéricas no momento em que, sob estado hipnótico, tais pacientes eram conduzidas a um lembrança aflitiva; eram doentes contando sonhos nos quais era possível discernir um desejo sendo imaginariamente satisfeito uma vez que isso lhe era impossível na realidade; eram neuróticos obsessivos que inventavam mil e uma manias para se esquecer de pensamentos e desejos angustiantes. Ou seja, o que Freud de fato observava eram pessoas buscando evitar a todo custo o encontro com os remanescentes de experiências psicológicas dolorosas, que lhes causavam desprazer e, em compensação, buscando modos diretos e indiretos de experimentar prazer. O que Freud conclui a partir do contato com tais manifestações é justamente a sua resposta ao problema do funcionamento mental: “A mente funciona de modo a alcançar prazer e evitar o desprazer” – eis o princípio do prazer.

No entanto, Freud não poderia parar por aí. Se ele fosse apenas um clínico, a simples constatação desse princípio seria suficiente, pois seria mais uma ferramenta teórica útil para entender melhor seus pacientes. Mas o Freud cientista nunca deixa de se fazer presente no Freud clínico e é por isso que o médico vienense não se contentou em descrever o que se passava no divã. Era preciso harmonizar sua descoberta no âmbito terapêutico com o que já havia sido elaborado em termos de saber científico. É por isso que Freud estabelecerá uma equivalência entre o seu princípio do prazer e o princípio de constância de Fechner. Assim, se no último o psiquismo busca eliminar excitações e no primeiro alcançar prazer, logo a sensação de prazer é a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significa descarga de excitações. De maneira análoga, o desprazer equivaleria, portanto, ao aumento de excitação – reduzindo-se esse evitar-se-ia aquele.

É possível notar essas equivalências em acontecimentos simples como o ciclo de fome e saciedade. Quando estamos sentindo a altamente desprazerosa sensação de fome, no nível somático o que encontramos é um aumento progressivo de excitações provenientes do estômago. Ao nos alimentarmos, essas excitações vão sendo pouco a pouco reduzidas e concomitantemente sentimos uma sensação agradável, prazerosa. Com a experiência da sede ocorre o mesmo.

Para-além do princípio do prazer

O que gerará um incômodo problema teórico para Freud será a excitação sexual. No caso dela, o aumento de excitação proveniente do corpo não é acompanhado por uma sensação de desprazer. Pelo contrário: em algumas culturas orientais busca-se inclusive um prolongamento da excitação e um retardamento do orgasmo. Isso não invalidaria, portanto, a tese de que nosso psiquismo funciona a partir do princípio do prazer? Sim e não. Freud só resolverá o problema pela introdução de um novo princípio de funcionamento mental: o princípio de nirvana, cuja primeira parte da explicação você encontra aqui.

O que um psicanalista faz? (final)

Nos últimos três posts desta série o nosso foco esteve sobre o desenrolar de um tratamento psicanalítico. Entre outras coisas, discutimos como o psicanalista lida com o pedido de compreensão implícito na entrada do paciente em análise, qual a primeira etapa do tratamento e como o doente é auxiliado pelo analista na descoberta de aspectos de si mesmo dos quais outrora era ignorante.

Alguns leitores podem considerar de mau gosto o uso que faço da palavra “doente” como sinônimo de paciente ou analisando. De fato, atualmente é difícil ver analistas se referindo assim a quem os procura. Eu, no entanto, busco conservar o termo porque penso que sua utilização coloca em relevo um aspecto sistematicamente esquecido não só por alguns analistas, mas também por boa parte daqueles que se interessam pela teoria psicanalítica que é o fato de a psicanálise ser um tratamento. Foi para isso que Freud a estabeleceu e é para isso que ela continua existindo até hoje. A psicanálise é um meio, uma técnica, uma abordagem (ou seja, existem outras) de ajuda para determinadas pessoas. Digo isso porque, principalmente depois do estrondo provocado pelas teses de Jacques Lacan, uma boa parcela dos analistas começou a pensar e a querer extrair da psicanálise mais do que ela poderia oferecer. Em bom português: os caras começaram a achar que a psicanálise era “a última bolacha do pacote”, que ela era um metadiscurso capaz de explicar e de se sobrepor a qualquer outra forma de descrição do sujeito.

É por isso que uso a palavra “doente”, caro leitor: para enfatizar que quem procura um analista espera receber dele ajuda para ver restabelecida sua saúde. Evidentemente, os conceitos de “saúde” e “doença” que se tem a partir das descobertas advindas do método psicanalítico não são os mesmos da medicina, mas ainda assim não se pode perder de vista que a psicanálise é um tratamento e, portanto, existe para cumprir determinados objetivos. É exatamente sobre isso que falaremos hoje:

 

Quais são os objetivos de um tratamento psicanalítico?

O primeiro post desta série foi dedicado às razões pelas quais as pessoas procuram a ajuda de um psicanalista ou de um psicoterapeuta. Vimos que, via de regra, as pessoas nos procuram quando estão sofrendo, mas sofrendo a ponto de não conseguirem vislumbrarem, sozinhas, a solução para seu sofrimento. Isso porque elas se sentem presas, limitadas, como se algo à revelia delas próprias as impedisse de fazerem o que gostariam.

É justamente com base nessa condição inicial daqueles que recorrem a nossos serviços que estabelecemos os objetivos do tratamento. Logo, se o doente se sente preso, cercado de amarras, a finalidade do tratamento deve ser a de ajudá-lo a se ver livre dessa prisão. Simples.

Numa visão panorâmica, vimos um pouco ao longo dos posts como se dá esse processo de “libertação”. Hoje, gostaria de focalizar precisamente a natureza dessa libertação, ou seja, do que se constitui isso a que a psicanálise visa enquanto método de tratamento. O que me vem à mente nos últimos tempos ao pensar sobre isso é o conceito do filósofo Benedictus de Spinoza de conatus ou “potência de agir”. Para Spinoza todo ser possui essa potência que faz com que o ser persevere no próprio existir e, se possível, se expanda. Tal potência pode ser refreada ou fortalecida de acordo com as experiências que a gente vivencia. Penso que a psicanálise seja uma das experiências capazes de nos auxiliar a fortalecer a nossa potência de agir, justamente porque a matéria-prima de seu funcionamento é justamente a investigação cuidadosa daquilo que diminuiu a nossa potência e fez com que procurássemos ajuda. Um dos objetivos da psicanálise, portanto, é nos dar mais “liberdade de movimentos”. O que a neurose faz conosco é o oposto: ela restringe essa liberdade, por exemplo: impedindo um jovem de ter uma ereção completa ou uma dona de casa de sair à rua por medo das pessoas ou um executivo de trabalhar por não conseguir deixar de repetir: “Controle remoto” 30 vezes a cada 15 minutos…

A psicanálise ajuda pessoas como essas a se verem livres dessas amarras que as impedem de alcançarem seus objetivos, terem maior bem-estar etc. Todavia, há um detalhe importantíssimo que é o que diferencia o método psicanalítico em relação a outros tipos de tratamento: a psicanálise só consegue ajudar as pessoas a terem maior liberdade de movimentos precisamente porque ela se coloca outro objetivo como anterior a esse! Qual objetivo? Basta que você leia meia dúzia das páginas de “Estudos sobre Histeria”, livro que Freud escreveu com Joseph Breuer, para que você logo se dê conta. Você verá naquelas páginas, Freud interessado não tanto em fazer sumir o sintoma das histéricas, mas sim em extrair delas um saber sobre aqueles sintomas, em descobrir-lhes as causas! Ou seja, meus caros: a psicanálise consegue ajudar os doentes a terem sua saúde restabelecida ao ter como finalidade inicial não a eliminação de seus sintomas, isto é, as amarras, mas sim a reconstrução de sua história, a descoberta de seu desejo e, assim, gradualmente os sintomas deixam de ter serventia e o doente consegue abdicar da prisão da qual tanto gostava – sem o saber. Matam-se dois coelhos com uma única pedrada.

***

Pois bem, chegamos ao final desta série. Não estou certo de que consegui responder com clareza à pergunta que alguns familiares me fizeram e que me motivaram a escrever os posts, lembram? Só sei que ainda resta uma infinidade de aspectos da prática do psicanalista que não foram abordados aqui, de sorte que para muitos será talvez um pouco frustrante saber que não haverá uma “parte 6”. A esses peço que, por favor, se manifestem via comentários. Quem sabe a continuação, juntamente com as partes já publicadas, saia em forma de livro? ; ) Conto com o feedback de vocês!

O que um psicanalista faz? (parte 3)

No primeiro post desta série dissemos que via de regra o paciente inicia um processo terapêutico atribuindo a responsabilidade por sua atual condição de sofrimento a outras pessoas, geralmente familiares e pessoas de seu círculo mais próximo de contatos. Talvez os únicos pacientes que não se comportam dessa maneira sejam os deprimidos, os quais padecem exatamente do oposto, isto é, de um excesso de culpa. Nesses casos, a primeira atitude do analista deve ser a atenuação do sentimento de culpa através da investigação de suas raízes, as quais estão quase sempre vinculadas à ferocidade da instância superegóica. Do contrário, se o analista não se preocupar em ajudar o paciente a se livrar da carga excessiva de culpa que carrega nas costas, a continuidade do tratamento se torna praticamente inviável, transformando-se numa ladainha de lamúrias e lágrimas sem qualquer possibilidade de elaboração ou redundando no pior, a saber: o suicídio.

Pois bem, agora que já sabemos que os casos de depressão são os únicos em que a tendência a atribuir a culpa a outrem não incide na entrada do paciente em análise, passaremos ao objetivo principal deste post que é tentar dizer qual a tarefa do analista nos outros casos, isto é, na maioria, em face dessa tendência do paciente de se eximir da responsabilidade por seu sofrimento. Essa tarefa, por sinal, é a primeira etapa de um tratamento analítico. Façamos, pois a pergunta:

 

Qual é a primeira etapa de um tratamento psicanalítico?

Inicialmente, devo fazer um aviso: quando digo que em geral os pacientes se eximem da responsabilidade por seu sofrimento ao entrarem em análise, não estou fazendo nenhum tipo de juízo de valor sobre tal comportamento. Não estou dizendo, portanto, que o correto seria o paciente agir de maneira diferente. Nós agimos assim o tempo todo, inclusive num nível social, basta ver a nossa relação com os alagamentos urbanos: sempre os responsáveis por tais coisas são as outras pessoas que jogam lixo nas ruas ou o governo que não cria estratégias de prevenção; nós mesmos não temos nada a ver com a coisa…

Então, quando a gente entra em análise, fazemos o mesmo, só que com os nossos sintomas, ou seja, com aquilo do qual a gente se queixa, que não gostaríamos de fazer, mas fazemos. Sempre achamos um culpado para eles: “Sou assim porque minha (meu) mãe (pai)…” é talvez uma das frases que mais se ouve num divã. Mas o culpado não precisa ser feito de carne e osso! Pode ser o despertador que, por um defeito qualquer, não tocou e fez o cara perder uma excelente entrevista de emprego. Vejam: não foi ele que dormiu a mais, foi o despertador que não tocou… Esses são apenas alguns de incontáveis exemplos.

Com efeito, quando se entra em analise é hora de mudar essa posição de passividade. E como isso acontece? Através de um processo que os analistas lacanianos chamam pomposamente de “retificação subjetiva” e que não acontece só no início, mas ao longo de todo o tratamento. O que significa isso? A retificação subjetiva corresponde a intervenções, isto é, falas, interpretações, encerramento da sessão, silêncio, cujo objetivo é mostrar ao paciente que aquilo do qual ele se queixa também lhe é útil. Nesse ponto, o leitor pode perguntar: “Mas, peraí, como pode ser útil se o faz sofrer?”. E eu respondo: útil na medida em que “resolve” determinados conflitos inconscientes, ou seja, como realização de intenções que até então o paciente ignorava que possuía. Ora, não é paradoxal que justamente aquilo que o faz sofrer tanto seja justamente o que o paciente não consegue deixar de fazer? Por que isso acontece? Justamente por que aquilo que conscientemente o faz sofrer, no nível inconsciente o satisfaz, resolvendo determinadas questões que se deixadas em aberto o fariam sofrer muito mais. O doente é, portanto, levado a um estado em que não é possível mais infligir culpa a ninguém por sua condição, reconhecendo que é ativo em seu próprio sofrimento.

Darei um exemplo para que a idéia fique mais clara: um rapaz se queixa de que não consegue namorar com nenhuma garota por mais de 6 meses. Ele chega à análise culpando às garotas com quem namorou: foram elas que sempre terminaram com ele antes dos 6 meses e diante disso demanda do analista uma resposta: o que há errado consigo? Por que as garotas sempre terminam com ele? (Como vocês já sabem, o que há por trás dessa demanda é um outro pedido que se enuncia mais ou menos assim: “Me diga que não é nada, que não sou eu o problema, que são elas mesmo!”) Após determinado período, o paciente gradualmente vai percebendo que na verdade é ele próprio que gera condições para que as garotas tenham como única alternativa a saída do relacionamento. E por que gera tais condições? Essa é outra questão… e que também demandará tempo para ser respondida. Mas o que precisa ficar claro é que a análise operou uma transformação na posição subjetiva do rapaz: se antes ele era o abandonado, aquele que nenhuma moça queria por mais de 6 meses, agora ele passa a se perceber como aquele que, pelo seu próprio desejo, não quer uma relação de mais de 6 meses!

Mas como é que acontece esse processo de reconhecimento de conflitos que o sintoma resolve? Como é que o paciente “saca” que por detrás do seu sofrimento subsiste um desejo? São essas as perguntas que tentaremos responder no próximo post…

CONTINUA…

Objeto a, neurose e perversão

Muitos daqueles que se dedicam ao estudo da teoria psicanalítica tendem a pensar que o objeto a, ao qual Lacan atribui a função de causa do desejo, tem sua (in) existência atrelada à incidência da Lei (Nome-do-Pai). Na verdade, a Lei promove a assunção do falo como objeto alvo do desejo, justamente por deslocar o sujeito do lugar de tal posição (lugar originário da criança no desejo materno) e consagrá-lo ao patamar daquele que, “em nome do pai” poderá se dedicar à busca o falo.

A função lógica do objeto a é, por assim dizer, constitucional, uma vez que o gozo absoluto e inextinguível não pertence à categoria do possível. Lacan ilustra essa postulação com os fenômenos de separação dos objetos auto-eróticos: seio, fezes, olhar, voz e a própria flacidez do pênis após a ejaculação que acaba por adquirir uma conotação semelhante a uma “separação do próprio pênis” por parte dos homens. Todas essas separações são como signos da impossibilidade do gozo absoluto e o atestado de que a origem do desejo não está articulada à Lei, mas a um furo humano original.

Até o Seminário 10, sobre a angústia, no qual formaliza a função do objeto a, Lacan concebia a existência do desejo como sendo tributária da existência da Lei. Nesse esquema, edipiano até o último fio do cabelo, o desejo nasceria justamente do fato de um objeto ser interditado. A mãe, no princípio continuação do corpo infantil, constituir-se-ia em objeto de desejo a partir do momento em que o acesso ao corpo materno sofre a interdição por parte do pai. Nessa fórmula, a existência do desejo está atada ao objeto que é alvo do desejo.

Acontece que essa é apenas a reprodução da fantasia neurótica por excelência! Somos nós, neuróticos, que desejamos aquilo que se encontra sob o interdito da Lei. É o neurótico quem acha a grama do vizinho sempre mais verdinha e a mulher do próximo a última bolacha do pacote; que vive a sonhar com o dia em que a poligamia se converterá em norma social e, aí sim, ele será feliz para sempre com o número de mulheres que quiser (Ledo engano, mal sabe ele que são poucas as que de fato quer).

Portanto, a idéia de que aquilo que eu não posso ter – não por uma impossibilidade intrínseca – mas porque está interditado, é o que de fato provoca o desejo, é uma maneira sofisticada de fazer da neurose norma do psiquismo. O que Lacan demonstra é que há outras maneiras de pensar o desejo que revelam efetivamente o que o causa.

O exemplo que ele dá é o do fetichismo. O fetichista não se interessa pelo objeto interditado nem vive a se queixar da interdição. Isso porque ele sabe, tem consciência, daquilo que elicia, provoca, faz surgir seu desejo, que é o objeto fetiche. Temos o sapato como o exemplo mais banal, mas podemos tomar outros, como a cor dos olhos ou dos cabelos. Há sujeitos que só conseguem sentir excitação sexual por mulheres de cabelos ruivos. A cor avermelhada não é o que o fetichista deseja. Ele deseja aquilo que todos desejam: o falo, isto é, o pedaço que falta para o Outro (a mãe, Deus, a realidade, a vida) ficar completo. Mas o que o excita e que o faz crer que ali, naquela mulher de cabelos ruivos, está o falo é justamente a cor ruiva dos cabelos que faz, nesse caso, função (semblante) de objeto a, causa do desejo.

Para compreender ainda melhor essa argumentação, é só se lembrar da fábula freudiana sobre o nascimento de um fetiche: está lá a criança a remexer embaixo da saia da mãe à procura de um pênis que ela supõe existir. Suponhamos que a mãe esteja sem calcinha mas de meia calça. A criança, embaixo da saia, após visualizar a meia-calça, vai se aproximando em direção à vagina materna ainda acreditando que em seu lugar encontrará um membro. Ao se deparar com sua desilusão, isto é, a visão estarrecedora de que no lugar do pênis suposto há um vazio, a criança se sente profundamente angustiada e nega aquela visão, guardando na lembrança não a vagina, mas o que viu no instante anterior, a meia-calça. Temos aí o nascimento de um fetiche por mulheres com meia-calça. É óbvio que essa narrativa constitui uma historieta mitológica que apenas ilustra o que se poderia chamar de estrutura da dinâmica fetichista. Em termos lógicos, teríamos a seguinte equivalência:

Meia calça: objeto a

Visão da vagina da mãe (ausência de pênis): (-φ), o significante da castração, ou falo-apenas-suposto.

Assim, o objeto a acaba por ocupar o lugar daquilo que impedirá o fetichista de se lembrar da castração. É por isso que a presença seja na realidade ou na imaginação do objeto fetiche é a condição necessária para a emergência do desejo no fetichista. É por isso também que ele não sonha com o esfacelamento da Lei porque, para ele, a lei neurótica não faz a mínima diferença visto que a lei a que seu desejo está sujeito é de uma ordem completamente diferente. É por isso que Lacan brinca com a homofonia no francês dos termos perversion e pére-version (versão do pai): o perverso inventa a sua própria lei, sua própria versão do pai.

E como é que o objeto a se manifesta no neurótico? Da mesma forma que no fetichista, só que no eixo inconsciente. Todos nós neuróticos também temos um determinado matiz ocular ou um “brilho no nariz” como diz Freud que nos faz ficar encantados por determinadas pessoas. A diferença é que não nos damos conta dessa “condição de amar”.

E é exatamente por isso que a transferência funciona tão bem pro neurótico, pois o enquadramento analítico propicia uma situação em que o analista acaba fazendo as vezes desses pequenos “detalhes tão pequenos de nós dois” que estão na raiz tanto de nossas alegrias quanto de nossas infelicidades e desarranjos subjetivos. Os nossos “a” justamente por estarem na esfera inconsciente acabam agindo de modo com que “façamos o que não queremos” como diz São Paulo, ou seja, desconhecendo onde gozamos.

As agruras dos fetichistas não são dessa ordem, pois eles sabem muito bem o que precisam para gozar.

Ai de mim, grita um neurótico à surdina.

Enigma feminino

Transpassa-me a alma o clamor do Outro

Sinto o terror da solidão em rios de fel

Gozo de ti servida a granel

Com gosto de morte em seus lábios

Velho está o espírito

Que derrama em frios pensamentos

Todo o ar que ainda existe

E as soluções desfilam por entre os galhos

Os morcegos já não sabem onde esconder

Em que se apóia ti para te achares mulher?

Tua falta eu já supri faz tempo

Foi muito para o lugar do vazio

Fujo de mim em ti com unhas e dentes

A plenos pulmões, grito!

Grito!

Os sons são despenhadeiros

E os músculos contraídos denunciam o horror

Da carne em tua boca

Em tua alma sobra o prazer

O que, afinal, tu queres?

Não pense na morte

Não pense na morte. Nunca. Pensar na finitude da existência é como pensar na finitude do desejo após o gozo. O sexo levado às últimas conseqüências. Superlativo à enésima potência da expressão “vias de fato”. Mas saiba que o jorro do esperma e os gemidos escaldantes desembocam em silêncio no buraco-negro da repulsa. Mas nunca se esqueça: viva com a morte no limiar da consciência. Nós não somos capazes de acreditar em paraíso nenhum [muito menos em inferno]. Nós esperamos que o paraíso esteja aqui, aqui mesmo. Não, nunca pense na morte. Você acharia insuportável a eternidade. Já pensou num orgasmo infinito? Essa é a melhor imagem para descrever a eternidade. O orgasmo é uma experiência de morte. Sem saber que no final haverá um culpado não faz sentido ler um policial. É por isso que você não deve pensar na morte. Porque se pensar, vai se dar conta de que só existe o nada. O marasmo, a repulsa ao desejo, o limite. E aí você vai querer com todas as forças acreditar que existe um para-além. E terá a maldita certeza vagante de que não há. E você vai querer apressar as coisas…

O que é pulsão de morte? (final)

winehousecrackheadContinuando: no post anterior, vimos que os fenômenos que Freud utiliza para ilustrar o novo princípio do funcionamento mental que havia descoberto foram da ordem da repetição. Estou certo de que você, leitor, já deve ter se feito a pergunta: “Por que por mais que eu não queira fazer tal coisa, eu continuo fazendo?” Nas próprias Escrituras encontramos São Paulo se lamentando por fazer o mal que não quer.

Pois é, meus amigos, Freud resolve chamar essa compulsão a repetir o mesmo erro de Pulsão de Morte. Por que “de Morte”? Porque, ao contrário das pulsões sexuais que nos fazem construir ligações afetivas e gerar outras vidas e das pulsões de autopreservação (como a fome, p. ex.) que nos fazem preservar nossa própria vida, a Pulsão de Morte parece querer levar-nos para o buraco!

Mas ainda permanece a pergunta: por que tal impulso existe em nós? A única forma com que Freud consegue dar solução a esse problema é recorrendo a uma hipótese velhinha, elaborada por um dos primeiros psicólogos, um sujeito chamado Gustav Fechner. Esse dizia que nosso aparelho psíquico era como uma máquina de descarregar tensão (A ansiedade vem justamente quando não conseguimos descrregar a tensão acumulada). O problema é que se a tensão for totalmente descarregada, a gente morre! Logo, ao realizarmos completamente a tendência de nosso aparelho psíquico, o resultado é a… morte.

Vejamos, então, a conclusão de Freud: se nosso aparelho psíquico tende a descarregar toda a tensão que acumulamos no dia-a-dia, quando eu tenho necessidade de repetir as mesmas coisas, é porque eu ainda não consegui descarregar. A repetição é uma forma de tentar descarregar toda a tensão. Querem ver um exemplo terrível de como isso é verdade?

A drogadição. A melhor imagem para a pulsão de morte é a chamada “Cracolândia”, a região de São Paulo onde convivem à luz do dia traficantes e consumidores de crack. O viciado deixa de pensar em trabalho, estudo, namorada, para passar o dia a fumar seu cachimbo. O que esse cara busca? Paz. Sim, ele não quer prazer sexual, ele não quer o prazer de comer um sanduíche, ele quer uma sensação maior. Ele quer uma satisfação que não o faça mais ter fome, ter sede, ter tesão. E ele quase consegue: por uns poucos minutos a droga lhe dá essa ilusão. Mas o efeito em pouco tempo passa.

E aí é necessário repetir, e repetir, e repetir…