O Id não é um capetinha

Você certamente já deve ter visto na internet ou mesmo em livros supostamente técnicos uma imagem representando o id como um diabinho e o superego como um anjinho.

Muito provavelmente os autores dessas imagens jamais leram “O ego e o id”, texto de 1923 no qual Freud introduz aqueles conceitos na teoria psicanalítica. Afinal, se o tivessem lido, não fariam uma representação tão infiel das noções de id e superego.

Em outros momentos, eu já expliquei porque é incorreto associar o superego à figura de um anjo. Agora, quero me concentrar em desfazer o equívoco de se pensar o id como um “capetinha interior”.

Essa comparação só faz sentido se adotarmos um olhar moralista sobre nossos impulsos sexuais e agressivos – ponto de vista que não é o da Psicanálise.

Id foi o termo em latim escolhido pela tradução inglesa das obras de Freud para o vocábulo “Es” que, em alemão, designa um pronome impessoal, como o nosso “Isso”.

Freud não escolheu essa palavra aleatoriamente. De fato, ele precisava de um termo que fizesse referência àquilo que está presente em nós, mas, ao mesmo tempo, não faz parte do nosso Eu. Por isso, lhe pareceu oportuno utilizar a palavra “Es” que, inclusive, já vinha sendo empregada num sentido semelhante por Georg Groddeck, um médico psicanalista de que Freud gostava muito.

O que está presente em nós, mas não faz parte do nosso Eu? Ora, tudo aquilo que já vem conosco “de fábrica”. Com efeito, antes de termos um Eu, nós já SOMOS. Mas somos o quê? Basicamente um corpo animado por impulsos. Impulsos que nos levam a buscar sobrevivência, a buscar prazer e a buscar destruição. É isso o que nós somos antes de termos um Eu. E é esse estado primário do ser que Freud denomina de Id.

Depois que desenvolvemos um Eu, o Id não desaparece. Afinal, apesar de termos vestido uma imagem (o Eu), continuamos sendo um corpo animado por impulsos. Impulsos que não raro perturbam o Eu, mas que, ao mesmo tempo, revelam que somos muito mais do que a imagem que construímos de nós mesmos.

O Id, portanto, não é um capetinha. É apenas o que de você está para-além do espelho.


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