Freud é Freud, Lacan é Lacan

Quando estamos estudando o pensamento de um autor, é muito importante separarmos o que ele efetivamente disse das RELEITURAS propostas por seus comentadores.

Em que pese o fato de ter formulado uma nova e robusta matriz teórica em Psicanálise, Jacques Lacan pode ser considerado um grande comentador da obra freudiana, talvez o maior de todos.

Ao exercer esse papel, Lacan muitas vezes expôs discordâncias em relação a certos pontos da teoria de Freud.

Muitos analistas, no entanto, seduzidos pela brilhante retórica lacaniana, acabam recalcando tais discordâncias e passam a achar que o que Lacan está propondo corresponde exatamente ao que Freud disse.

Isso acontece, por exemplo, na questão do desenvolvimento psicossexual.

Lá no Seminário XI, o analista francês faz questão de dizer: Freud acredita na maturação da pulsão sexual; eu, não.

Sabe esse negócio de fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital?

Então… Tem gente que acha que essa caracterização do desenvolvimento psicossexual em fases é irrelevante na obra de Freud porque Lacan não está de acordo com ela.

Quem pensa assim acredita que Lacan conseguiu extrair uma suposta “verdade verdadeira” que estaria implícita no texto freudiano.

Trata-se, a meu ver, de um baita engano!

Lacan não está para Freud como Paulo de Tarso está para Cristo.

Apesar dos evidentes pontos de confluência, trata-se de concepções teóricas distintas.

Sobre essa questão das fases do desenvolvimento psicossexual, não resta a menor dúvida de que Freud a considerava como um elemento importantíssimo em sua teoria.

Tanto é assim que num de seus últimos textos, o “Esboço de Psicanálise”, ele dedica um capítulo inteiro para falar do desenvolvimento da função sexual, entendendo-o como um processo de maturação biológica com começo, meio e fim.

Freud pensava assim. Lacan, não.

Você não é obrigado a concordar com Freud e pode preferir a leitura lacaniana, mas é preciso ter a honestidade intelectual de admitir que um fala uma coisa e o outro fala outra.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma pequena aula especial sobre essas diferenças entre as visões de Freud e de Lacan sobre o desenvolvimento da sexualidade.


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O que Lacan quis dizer ao propor que o Inconsciente é uma cadeia de significantes?

Uma das contribuições mais interessantes de Jacques Lacan para o campo psicanalítico foi sua tese de que o Inconsciente poderia ser pensado como uma cadeia de significantes.

Ao propor essa ideia, Lacan está enfatizando o papel que as “palavras” em si mesmas (e não o significado que se supõe estar atrelado a elas) exercem nas formações do Inconsciente, isto é, nos sonhos, atos falhos e sintomas.

Coloquei o termo PALAVRAS entre aspas porque a noção de significante em Lacan não contempla apenas uma palavra especificamente, mas isso é assunto para outra postagem.

Na análise do segundo sonho de sua paciente Dora, por exemplo, Freud chega à conclusão de que a estação de trem tão buscada pela paciente no sonho representa o órgão genital feminino.

Tal dedução não foi feita por conta de uma possível semelhança entre uma estação e uma vagina, mas devido à presença na PALAVRA “Bahnhof” (estação, em alemão) do mesmo sufixo “hof” presente na PALAVRA “Vorhof” (vestíbulo da vagina, em alemão).

O significante é justamente o elemento material arbitrário que, unido, a uma ideia, compõe um signo linguístico.

Por que arbitrário? Por que não há nenhum motivo natural para que um significante esteja colado a um determinado significado.

Tanto é assim que um mesmo significante pode estar associado a significados completamente diferentes.
O significante “livre”, por exemplo, está geralmente associado, em português, à ideia de um sujeito que goza de liberdade, ao passo que, em francês, ESSE MESMO SIGNIFICANTE pode estar vinculado à ideia de um texto escrito.

Ao formular a tese de que o Inconsciente é uma cadeia de significantes, Lacan está propondo que, no tratamento psicanalítico, trata-se menos de buscar significações profundas na fala do paciente e mais de mapear os significantes que se repetem na vida do sujeito.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje (sexta) uma aula especial em que comento um trecho da obra de Lacan nos qual ele trata dessa concepção do Inconsciente como uma cadeia de significantes.


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[Vídeo] A RESISTÊNCIA É SEMPRE DO ANALISTA – Entenda o que significa isso

Neste vídeo: entenda definitivamente a famosa tese de que a resistência é sempre do analista, proposta por Jacques Lacan.


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Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 02)

Fiquei de apresentar nesta segunda parte do texto um esboço dessa estrutura que está na base da caracterização feita por Freud, mas não se confunde com ela. Tomemos, então, o mito freudiano e destaquemos seus elementos estruturais.

Freud começa sua descrição do Édipo com a imagem de um menino que tem cerca de quatro ou cinco anos e está vivenciando o que o pai da Psicanálise chama de “fase fálica” do desenvolvimento sexual. Nesse estágio, a criança do sexo masculino estaria intensamente interessada no prazer proporcionado pelo pênis. Uma menina da mesma faixa etária também passaria por essa fase e seu interesse estaria voltado para o clitóris, parte do corpo feminino equivalente ao pênis. Do ponto de vista estrutural, tais imagens representam o fato universal de que nosso corpo é fonte de gozo, ou seja, de que a experiência de prazer é primariamente autoerótica.

Na sequência da narrativa freudiana, tanto o menino quanto a menina passam a nutrir fantasias sexuais envolvendo a mãe, ou seja, passam a tomar a genitora como objeto sexual, vinculando-a ao prazer que experimentam em seu próprio corpo. Essa imagem da criança conectando seu gozo autoerótico ao outro materno ilustra o processo estrutural que Lacan nomeou como ALIENAÇÃO. Trata-se do fato de que todo ser humano nasce num ambiente social já formatado, com uma cultura própria da qual ele não pode escapar. Assim, no início da vida, todos nós somos obrigados a nos submetermos a esse ambiente (que Lacan chama de Outro com “O” maiúsculo). Dessa forma, o nosso próprio gozo que, originalmente é autoerótico, passa a estar “adaptado” ao Outro, subordinado às regras dele. No mito de Freud, esse fato universal é expresso pela imagem da criança apaixonada pela própria mãe.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 01)

Por outro lado, o problema que a Psicanálise enfrenta para sustentar o conceito de complexo de Édipo atualmente não tem a ver com uma suposta “heteronormatividade” que estaria implícita nele. A maior dificuldade com a qual precisamos lidar diz respeito ao fato de que a descrição que Freud faz do Édipo só tem como referente um formato muito específico de família: aquele no qual a criança nasce e é criada no seio de um casal composto pelos seus dois genitores. O pai da Psicanálise não nos forneceu uma caracterização universal do complexo de Édipo, que pudesse ser aplicada para outros formatos de família, alguns dos quais são tão frequentes no mundo contemporâneo.

Como pensar o Édipo, por exemplo, numa família em que o pai morreu, sumiu ou nunca se fez presente e os filhos são criados apenas por sua mãe? Crianças que já nos primeiros dias de vida foram levadas para instituições de acolhimento e lá viveram durante 10, 15 ou 18 anos não passam pelo complexo de Édipo? E o que dizer daqueles meninos e meninas que são filhos de parcerias homossexuais? O Édipo valeria também para essas crianças? Se sim, como seria possível, já que Freud fala apenas de pai e mãe e nunca de dois pais ou duas mães?

O teórico que nos ajudou a “universalizar” o complexo de Édipo permitindo que ele pudesse ser aplicado às mais diversas configurações familiares foi o psicanalista francês Jacques Lacan. Para ele, o complexo de Édipo, tal como descrito na obra freudiana, seria, na verdade, um mito criado por Freud.

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Quais são os capítulos censurados da sua história?

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise”, Lacan afirma que “O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado.” (p. 260 dos “Escritos”).

Esse trecho é interessante porque nele Lacan revela um aspecto muito específico de como pensa a existência humana.

Para o analista francês, desde antes do nascimento nossa história já está sendo contada. Depois que chegamos ao mundo, pegamos esse bonde sem saber que ele já estava andando. Em outras palavras, assumimos a autoria de um livro que já estava sendo escrito e aí continuamos a escrevê-lo, tomando a narrativa da forma como a encontramos.

No entanto, não escrevemos nossa história de um ponto de vista exterior, como um jornalista relatando fatos para uma matéria. Somos personagens da nossa própria narrativa, de modo que não conseguimos nos situar fora dela.

A imagem que, a meu ver, melhor ilustra essa ideia lacaniana de difícil apreensão é a gravura “Drawing Hands”, de Maurits Cornelis Escher, que certamente serviu de inspiração para o clipe de “Drive” da banda Incubus. No quadro aparecem duas mãos, uma sendo desenhada pela outra e vice-versa, sugerindo a ideia de um “autodesenho”.

A concepção de subjetividade em Lacan tem a ver com isso. A gente não vive numa realidade e, ao mesmo tempo, vamos construindo narrativas sobre ela. Não! Para Lacan, a gente vive na própria história que criamos, iniciada e, portanto, estruturada pelo Outro.

Assim, ao dizer que “O inconsciente é o capítulo censurado”, Lacan está propondo que, no interior desse livro do qual sou o autor e, ao mesmo tempo, o personagem, existem páginas que foram rasgadas ou trechos sobre os quais fizemos colagens para ocultar o conteúdo original.

Nesse sentido, a Psicanálise pode ser tomada como um convite para a revisão de nossa própria história. Ao se submeter à experiência analítica, o sujeito seria convocado a recompor o seu “livro da vida”, resgatando as páginas censuradas e desfazendo as falsificações.


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Encerrar a sessão é uma forma de intervenção do analista

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan diz o seguinte: “A suspensão da sessão não pode deixar de ser experimentada pelo sujeito como uma pontuação em seu progresso” (“Escritos”, p. 314).

Essa frase sintetiza a fundamentação de uma inovação técnica introduzida pelo psicanalista francês no campo psicanalítico: as sessões de tempo variável.

Antes de Lacan, havia um consenso entre os analistas de que as sessões de análise deveriam ter uma duração fixa, seja ela de 50, 45 ou 30 minutos. A quantidade de minutos em si não era o aspecto mais relevante, mas, sim, a invariabilidade na duração das sessões.

Havia uma justificativa para isso, a qual Lacan, inclusive, aponta no mesmo texto: “Decerto, a neutralidade que manifestamos ao aplicar estritamente essa regra mantém a via de nosso não-agir.” (“Escritos”, p. 315).

Lacan está reconhecendo o fato de que, ao encerrar todas as sessões rigorosamente aos 50 minutos, por exemplo, o analista estaria se resguardando quanto a sua contratransferência, a qual o levaria, de repente, a ficar pouco tempo com certos pacientes e muito tempo com outros por razões puramente pessoais. Em suma, o tempo fixo das sessões ajudaria o analista a se manter o mais neutro e abstinente possível no tratamento (o que Lacan chama de “via de nosso não-agir”).

No entanto, como o psicanalista francês explica no primeiro trecho citado, o momento em que o analista encerra a sessão funciona como uma pontuação na fala do paciente. Por exemplo: suponhamos que um terapeuta encerre a sessão após o paciente dizer algo como “Se pudesse eu mataria o meu pai.”. Agora imaginemos que o analista tivesse deixado o paciente continuar falando porque, sei lá, restavam ainda 4 minutos para que a sessão atingisse 50 minutos. Nesse caso, o paciente poderia ter continuado seu discurso e talvez tentaria relativizar o peso de seu desejo de morte ao pai com frases como: “Na verdade, acho que não o mataria… Onde estou com a cabeça? Eu amo meu pai. Jamais faria uma coisa dessas. Acho que falei isso só porque estou chateado com ele…”

Sacou? O paciente que sairia da sessão encerrada pelo analista após a expressão do desejo parricida não seria o mesmo que sairia da sessão finalizada após 50 minutos.

Nesse sentido, acho que você percebeu que o encerramento da sessão pode ser utilizado como uma intervenção pelo analista na medida em que exerce um efeito sobre o que o paciente diz e, portanto, no que ele escuta de si mesmo.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje uma mini-aula especial na qual falo sobre esse assunto com mais detalhes e exemplos.


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Por que Lacan dizia que “a resistência é sempre do analista”?

Num trabalho de 1958 chamado “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Jacques Lacan afirma que “não há outra resistência à análise senão a do próprio analista”. Tá lá na página 601 dos “Escritos”.

Quem me ajudou a entender essa famosa formulação foi o Bruce Fink no recomendadíssimo “Introdução clínica à psicanálise lacaniana” (Zahar, 2018). A propósito, Fink é um daqueles raros autores lacanianos que escreve em humanês e não em lacanês.

O que Lacan está querendo dizer com essa ideia de que a resistência é sempre do analista?

A dificuldade para compreender essa tese vem do fato de que, com base na leitura de Freud, a gente chega à conclusão de que o paciente é quem está sempre “resistindo”. Afinal, o sintoma neurótico só aparece na vida do sujeito porque ele RESISTE a reconhecer o próprio desejo, certo?

Pois é! Lacan não está contradizendo essa descoberta freudiana. Pelo contrário! Ao fazer a provocação de que a resistência é sempre do analista, o que o francês está querendo mostrar é que a resistência do paciente é óbvia, de modo que é tão irrelevante dizer que o paciente está resistindo quanto dizer que a água é molhada.

É claro que o paciente resiste! Quem não pode resistir é o analista!

Portanto, quando dizemos coisas como “essa análise não está andando por causa da resistência do paciente”, o correto seria reconhecermos que a inércia do processo está sendo provocada pela resistência DO ANALISTA. Afinal, a resistência do paciente sempre está presente. Ela não é um fator acidental que ora se manifesta e ora desaparece.

Essa resistência nunca cede naturalmente. Do contrário, o sujeito poderia se curar sozinho sem fazer análise. O fator que se opõe à resistência e faz a análise funcionar é o desejo… mas o desejo DO ANALISTA.

É o analista quem, por meio de seus silêncios, pontuações, cortes e interpretações, encoraja o paciente a renunciar ao gozo inútil, mórbido e pouco criativo do sintoma, encarando a angústia inerente à condição humana e buscando formas mais autorais e criativas de expressar seu desejo no mundo.

A resistência é sempre do analista porque, no tratamento, só o analista tem a “opção” de não resistir e fazer valer seu desejo de analisar.


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Energia masculina? Energia feminina? Isso não existe!

Num texto de 1964 intitulado “Posição do inconsciente”, o psicanalista francês Jacques Lacan diz o seguinte:

“A pulsão, como representante da sexualidade no inconsciente, nunca, é senão pulsão parcial. É nisto que está a carência essencial, isto é, a daquilo que pudesse representar no sujeito o modo, em seu ser, do que ele é macho ou fêmea”.

E, mais adiante:

“Do lado do Outro, do lugar onde a fala se confirma por encontrar a troca dos significantes, os ideais que eles sustentam, as estruturas elementares de parentesco, a metáfora do pai como princípio da separação, a divisão sempre reaberta no sujeito em sua alienação primária, apenas desse lado, e por estas vias que acabamos de citar, devem instaurar-se a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher.”

Esses são trechos excepcionalmente claros da obra lacaniana. Neles Lacan elabora, com seus próprios termos, a descoberta freudiana de que os nossos impulsos sexuais não têm sexo e de que, portanto, masculinidade e feminilidade não são padrões comportamentais inatos, mas aprendidos mediante nossas experiências de vida enquadradas pelo contexto familiar e sociocultural (o que Lacan chama de “Outro”).

Por que resolvi falar desse assunto hoje? Porque tem muito picareta no Instagram falando de supostas “energia masculina” e “energia feminina”. Segundo esse pessoal, um homem, por exemplo, só seria feliz em seus relacionamentos se reconhecesse sua tal energia masculina intrínseca e encontrasse uma “mulher feminina” (risos).

O que essa galera está fazendo, na prática, é pegando modelos de masculinidade e feminilidade forjados numa determinada época e numa determinada cultura, ou seja, o que Lacan designa como “a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher” e NATURALIZANDO tais modelos como se eles estivessem enraizados no organismo ou… na alma (sei lá qual é a metafísica maluca dessa gente…).

Masculinidade e feminilidade existem? Sim, existem, mas são padrões que emergem do campo do Outro, não da biologia. Nossos impulsos sexuais são assexuados. O que eles visam, no fim das contas, é a satisfação pura e simples.


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O Eu não é só um outro

Não podemos reduzir o conceito de Eu em Psicanálise apenas a essa dimensão que passou a ser etiquetada (volto a dizer: por influência da própria Psicanálise) como “ego”. De fato, Freud apresenta o Eu, por um lado, como uma instância psíquica constituída mediante a identificação com outras pessoas. Essa é a dimensão imaginária do Eu, resultante de uma mescla das imagens de diferentes pessoas que passaram pelas nossas vidas e que foram objeto de nosso investimento amoroso. Mãe, pai, tios, avós, amigos, professores, parceiros amorosos, enfim, todas essas pessoas podem ser alvos de nossas identificações e acabarem sendo incorporadas em maior ou menor grau naquilo que denominamos de nossa “identidade”. Em parte, o que chamamos de Eu é uma colagem de traços de diferentes pessoas.

Mas o Eu não é só isso. Freud deixa muito claro em seus escritos que o Eu é também a própria pessoa em sua condição de sujeito, ou seja, de agente da própria vida. É o Eu entendido nesse sentido que o pai da Psicanálise entende que precisa ser fortalecido pela terapia psicanalítica. Trata-se do Eu autoconsciente que pode, inclusive, tomar a sua própria identidade (o Eu no primeiro sentido) como objeto de reflexão. Quando dizemos, por exemplo: “Eu sou uma pessoa tímida”, podemos ver claramente essas duas facetas do Eu: por um lado o Eu sujeito que olha para si e é capaz de se descrever e, por outro, o Eu objeto, ou seja, o eu no sentido da imagem de si (“pessoa tímida”).

Leia o texto completo aqui.


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Por que Lacan dizia que “o desejo do homem é o desejo do Outro”?

Tem coisa no Lacan que é difícil demais de entender, quanto mais de explicar.

Esse não é o caso da fórmula “O desejo do homem é o desejo do Outro”. Vou te provar que compreendê-la é mais fácil do que você imagina.

Primeiramente, é importante saber que Lacan trabalha com uma distinção fundamental entre necessidade e desejo.

Necessidade é aquilo que o bebê experimenta no início da vida quando tem fome, por exemplo. Nesse caso, a criança PRECISA de alimento para sobreviver. Qualquer outra coisa não serve.

Já o desejo é aquilo que experimentamos, por exemplo, quando queremos sair para jantar numa churrascaria. A gente não PRECISA dessa experiência para sobreviver. Portanto, não é uma necessidade.

Por que, então, temos esse DESEJO de ir à churrascaria?

Podemos alegar que os motivos são a qualidade da carne e do atendimento ou a variedade de opções. Contudo, não podemos deixar de reconhecer que tais aspectos só se tornaram de fato alvos do nosso desejo porque SOCIALMENTE eles são valorizados. Tanto é assim que, para uma pessoa vegana, por exemplo, a qualidade da carne da churrascaria não seria um fator capaz de motivá-la a sair de casa.

Entendeu? Eu só desejo as coisas que desejo porque faço parte de uma comunidade que me ensinou (direta ou indiretamente) que tais coisas são… desejáveis. Em outras palavras, eu desejo o que desejo porque outras pessoas desejam também. É por isso que um vietnamita, por exemplo, salivaria diante de um bom assado de cachorro e você não.

Isso mostra que, enquanto a necessidade vem de nós mesmos (do nosso organismo), o desejo vem… do Outro, ou seja, de pessoas, grupos, instituições que exercem sobre nós uma função de autoridade, determinação, prescrição, regulação.

Nesse sentido, Lacan conclui de forma bastante perspicaz que, no fim das contas, na raiz de todos os nossos desejos está o desejo de ser reconhecido pelo Outro. O raciocínio é simples: se eu quero a coisa que o Outro quer isso significa que o que me atrai de fato não é a coisa em si, mas o olhar do Outro sobre a coisa. Ou seja: o que eu quero de verdade é o olhar desejante do Outro, ora bolas!

Entendeu, agora, por que Lacan dizia que “o desejo do homem é o desejo do Outro”?


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“O inconsciente é o capítulo censurado” (Jacques Lacan, 1953)

Ontem à noite na aula ao vivo da Confraria Analítica, eu estava demonstrando para os alunos que uma das principais evidências da existência do Inconsciente são os “furos” que existem na narrativa que fazemos da nossa própria história.

Diferentemente do que acontece em um filme ou uma série bem produzidos, no roteiro que descreve nossa biografia há diversas partes faltantes que fazem o enredo ficar eventualmente incompreensível.

É por isso que, não raro, uma das principais queixas que os pacientes apresentam na clínica psicanalítica pode ser expressa por frases como: “Não sei por que faço isso!” ou “Não consigo entender por que sou assim!”.

As respostas para essas questões estão justamente naquelas partes do roteiro do nosso “filme” biográfico que nós deliberadamente cortamos e tentamos descartar, ou seja, naquelas ideias, pensamentos e lembranças que foram objeto de… recalque.

Os conteúdos recalcados representam as “cenas” que a gente não quer que sejam veiculadas nas telas do nosso “cinema” interior; obsCENIDADES que revelam quem verdadeiramente somos por trás das câmeras.

O recalcado, no entanto, sempre retorna, já dizia Freud. A gente inevitavelmente acaba tropeçando nas partes censuradas do nosso filme biográfico. E quando a queda é grande e causa dores e feridas, é nesse momento que a gente procura análise…

Você já se deu conta desses “furos” no roteiro da sua vida?


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O que foi feito da sua espontaneidade infantil?

Todo bebê nasce plenamente espontâneo.

Isso significa que no início da vida não existe distância ou oposição entre o que queremos e o que fazemos. Se estamos com fome, choramos; não engolimos o choro. Se mamar está gostoso, a gente continua mamando; não controlamos o nosso prazer.

Todavia, à medida que crescemos e vamos nos dando conta de que existem outras pessoas no mundo, nossa espontaneidade começa a ser limitada. Isso acontece por basicamente duas razões:

A primeira é a de que o mundo para de estar o tempo todo à nossa disposição. Agora não basta chorar na hora da fome; é preciso chamar a mãe, ou seja, eu preciso abrir mão do meu choro espontâneo para me submeter ao código de comunicação do Outro. Para os nerds de Psicanálise: quem fala muito sobre isso é o Sr. Jacques Lacan.

A segunda razão é a percepção de que a nossa espontaneidade pode causar dano ao outro. Mamar no seio materno de fato é muito gostoso e a gente gostaria de continuar fazendo isso para sempre. No entanto, renunciamos a esse impulso espontâneo porque nos damos conta de que nossas mães também são pessoas com uma vida própria e não somente um par de seios que nos amamenta. Para os nerds de Psicanálise: quem fala muito sobre isso é a Sra. Melanie Klein.

Quem teve sorte no seu processo de desenvolvimento, ou seja, quem pôde contar com um ambiente suficientemente bom na infância, consegue se adaptar satisfatoriamente à realidade da vida social. Tais indivíduos abrem mão de parte da sua espontaneidade infantil, mas conservam outra parcela dela, expressando-a naturalmente de modo adaptado às circunstâncias e limitações da vida adulta. Essas pessoas se sentem vivas e reais porque sabem que não são apenas mais uma peça na engrenagem social ou, como diria Roger Waters, “another brick in the wall”.

Por outro lado, há aqueles que não tiveram tal sorte e foram obrigados desde muito precocemente a viver de modo submisso, sem espaço suficientemente para a conservação e expressão de parte da espontaneidade infantil. São pessoas que estão o tempo todo pedindo licença ao Outro para existirem. Para os nerds de Psicanálise: quem fala muito sobre essas duas condições é o Sr. Donald Winnicott.


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Os 3 tempos do Édipo em Lacan

De acordo com Jacques Lacan o complexo de Édipo é um mito freudiano. Em outras palavras, para o analista francês, aquela descrição que Freud faz dos vínculos eróticos conflituosos e ambivalentes que a criança estabelece com seus pais seria uma NARRATIVA SIMBÓLICA.

Sim, uma narrativa, assim como as histórias de Cupido ou de Narciso. Da mesma forma que a narrativa mítica de Narciso começa com a consulta de seus pais a um oráculo, Freud começaria seu mito do complexo de Édipo falando sobre o interesse sexual da criança pela mãe.

Para Lacan, Freud teria criado o mito do Édipo a partir dos relatos de seus pacientes, para explicar, com o apoio de imagens, como se constitui o nosso desejo e, portanto, a nossa relação com a falta, isto é, com a impossibilidade de satisfação plena na vida (simbolizada pela figura da castração no mito freudiano).

Partindo dessa interpretação, Lacan se propôs, então, a extrair aquilo que seria a ESTRUTURA do complexo de Édipo que estaria por trás da descrição mítica freudiana. Dito de outro modo, o psicanalista francês olhou para o Édipo tentando responder à seguinte pergunta: “Quais são os elementos que fazem parte da condição humana e estão presentes na vida de todas as pessoas, independentemente da época e que estão por trás dessa história que Freud nos conta?”.

A resposta para essa questão é justamente a teoria lacaniana dos três tempos do Édipo.

Leia os quadros e me diga: esse post te ajudou a entender melhor a visão lacaniana do complexo de Édipo?


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O que é esse tal de objeto a?

Primeira coisa que você precisa saber: “objeto a” foi um conceito criado pelo psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981).

Segunda coisa que você precisa saber: o conceito de objeto a não possui um referente concreto, como o conceito de “garrafa”, por exemplo. Você pode olhar para uma Coca-Cola de 600ml e dizer: “Veja, eis uma garrafa”, mas não poderá fazer o mesmo com o objeto a. Não tem como ver, tocar ou experimentar o objeto a. Trata-se de um conceito ABSTRATO, como os números. Apesar de utilizar expressões como “Comprei  cinco laranjas”, você nunca viu O NÚMERO 5 EM SI. Então, o conceito de objeto a precisa ser pensado com base nessa mesma lógica, combinado?

Beleza. Então, vamos lá:

Por que Lacan precisou criar o conceito de objeto a?

Há várias maneiras de responder a essa pergunta. Eu optarei pela que considero a mais simples: Lacan inventou o conceito de objeto a para nomear algo já presente na teorização freudiana.

Com efeito, Freud demonstrou que nossos impulsos (sexuais e agressivos) procuram ser satisfeitos, ou seja, descarregados. Para alcançar essa meta, eles UTILIZAM objetos, mas a natureza desses objetos é pouco relevante do ponto de vista deles. Tanto faz se for homem, mulher, comida, sapato. O mais importante para os impulsos é a obtenção de descarga.

Freud mostrou, portanto, que, embora precise haver objetos para que os impulsos possam ser satisfeitos, esses objetos são variáveis. Portanto, os impulsos não estão vinculados a objetos específicos, mas precisam de algo que exerça para eles a FUNÇÃO DE OBJETO. Pois bem! Olha aí: “objeto a” foi justamente o nome que Lacan deu para essa função, esse lugar, que pode ser ocupado pelos mais diversos objetos concretos.

É como se nossos impulsos fossem mendigos com uma latinha vazia na mão dizendo para o mundo: “Por favor, me deem qualquer coisa para encher minha latinha. Qualquer coisa serve desde que a preencha!”. A latinha, nessa analogia, seria o objeto a. É justamente por ele ser, tal como a latinha, um lugar virtualmente vazio que faz nossos impulsos serem atiçados. Por isso, Lacan dizia que o objeto a é a causa do desejo.

Esta singela postagem ajudou você a compreender esse conceito?


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