O que é princípio do prazer?

A maior parte das pessoas não envolvidas diretamente com a Psicanálise desconhece as verdadeiras razões que levaram Freud a se tornar um clínico e, em decorrência disso, o inventor de um novo método de tratamento das neuroses. Pouca gente sabe que o desejo original de Freud no âmbito profissional era o de tornar-se um pesquisador do campo neurológico e não um psicoterapeuta. O pai da Psicanálise só se encaminhou para a clínica por razões de ordem prática e, mais especificamente, financeira. Freud não era rico e precisava conseguir dinheiro para se casar com sua noiva Martha Bernays. Aliás, as dificuldades financeiras acompanhariam Freud e família ao longo de toda a sua vida, mesmo após o reconhecimento internacional de suas inovações teóricas.

Nicho de mercado

Naquele início de carreira profissional, a saída que Freud encontrou para conseguir dinheiro foi se dedicar ao tratamento de uma patologia que vinha sendo encontrada com frequência cada vez maior e para a qual ainda não havia sido encontrada uma técnica terapêutica eficaz. Tratava-se da histeria: uma afecção cujos sintomas mais comuns eram disfunções corporais como dores de cabeça, paralisias de membros, contraturas etc. para as quais não se encontrava nenhuma correspondência orgânica. Freud intuitivamente reconhece nesse campo patológico uma oportunidade de conseguir dinheiro para pagar as contas e se casar. E é justamente no processo de busca de um método capaz de curar a histeria que Freud elabora a psicanálise.

Entretanto, a intenção original de se tornar cientista jamais abandonará a Freud e é por essa razão que ele se dedicará a produzir toda uma obra cuja marca mais visível será a elaboração de uma teoria acerca da subjetividade. E um dos primeiros conceitos que Freud cunha para a construção de seu edifício teórico é a noção de “princípio do prazer”.

Entre a ciência e o sujeito

Falando de maneira clara: o princípio do prazer foi a primeira resposta que Freud encontrou para responder à pergunta que todos os psicólogos no final do século XIX se faziam, a saber: “Como a mente funciona?”. A fonte de onde Freud vai tirar sua solução será precisamente sua atuação clínica. E é preciso notar que o médico vienense estava sendo pioneiro ao fazer isso. Os demais psicólogos, como Fechner (que o influenciará) e o próprio Wundt, tido como o pai da psicologia científica, extraíam suas conclusões de achados laboratoriais, isto é, de experimentos controlados, artificiais, distantes da realidade trágica da vida. É por isso que a resposta dada por Fechner à questão do funcionamento mental será: “A mente possui uma tendência a se livrar de todas as excitações que lhe chegam pela via dos sentidos ou, sendo isso inviável, a manter o mínimo de excitação possível e constante.” Fechner deu o nome a essa resposta de “princípio de constância”.

Freud, atento à literatura científica da época, conhecia o princípio de constância. No entanto, o que o pai da psicanálise verificava no dia-a-dia clínico não era essa descrição fria de excitações que aparecem e são reduzidas ou descarregadas. O que ele via eram barulhentas crises histéricas no momento em que, sob estado hipnótico, tais pacientes eram conduzidas a um lembrança aflitiva; eram doentes contando sonhos nos quais era possível discernir um desejo sendo imaginariamente satisfeito uma vez que isso lhe era impossível na realidade; eram neuróticos obsessivos que inventavam mil e uma manias para se esquecer de pensamentos e desejos angustiantes. Ou seja, o que Freud de fato observava eram pessoas buscando evitar a todo custo o encontro com os remanescentes de experiências psicológicas dolorosas, que lhes causavam desprazer e, em compensação, buscando modos diretos e indiretos de experimentar prazer. O que Freud conclui a partir do contato com tais manifestações é justamente a sua resposta ao problema do funcionamento mental: “A mente funciona de modo a alcançar prazer e evitar o desprazer” – eis o princípio do prazer.

No entanto, Freud não poderia parar por aí. Se ele fosse apenas um clínico, a simples constatação desse princípio seria suficiente, pois seria mais uma ferramenta teórica útil para entender melhor seus pacientes. Mas o Freud cientista nunca deixa de se fazer presente no Freud clínico e é por isso que o médico vienense não se contentou em descrever o que se passava no divã. Era preciso harmonizar sua descoberta no âmbito terapêutico com o que já havia sido elaborado em termos de saber científico. É por isso que Freud estabelecerá uma equivalência entre o seu princípio do prazer e o princípio de constância de Fechner. Assim, se no último o psiquismo busca eliminar excitações e no primeiro alcançar prazer, logo a sensação de prazer é a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significa descarga de excitações. De maneira análoga, o desprazer equivaleria, portanto, ao aumento de excitação – reduzindo-se esse evitar-se-ia aquele.

É possível notar essas equivalências em acontecimentos simples como o ciclo de fome e saciedade. Quando estamos sentindo a altamente desprazerosa sensação de fome, no nível somático o que encontramos é um aumento progressivo de excitações provenientes do estômago. Ao nos alimentarmos, essas excitações vão sendo pouco a pouco reduzidas e concomitantemente sentimos uma sensação agradável, prazerosa. Com a experiência da sede ocorre o mesmo.

Para-além do princípio do prazer

O que gerará um incômodo problema teórico para Freud será a excitação sexual. No caso dela, o aumento de excitação proveniente do corpo não é acompanhado por uma sensação de desprazer. Pelo contrário: em algumas culturas orientais busca-se inclusive um prolongamento da excitação e um retardamento do orgasmo. Isso não invalidaria, portanto, a tese de que nosso psiquismo funciona a partir do princípio do prazer? Sim e não. Freud só resolverá o problema pela introdução de um novo princípio de funcionamento mental: o princípio de nirvana, cuja primeira parte da explicação você encontra aqui.

Divulgação – “As Mulheres de Freud”


O psicanalista Jacques Lacan costumava dizer que as mulheres eram analistas por natureza e que aquelas que optassem por seguir a profissão só precisavam aprender um pouquinho de metapsicologia, porque do resto a própria natureza feminina dava conta…

A história oficial faz parecer que a Psicanálise fora um empreendimento concebido e estruturado fundamentalmente por homens visto que analistas do sexo feminino só entrariam em cena a partir da segunda geração de psicanalistas. Aparentemente, estariam na origem desse revolucionário método de tratamento das neuroses – como o próprio Freud gostava de definir sua práxis – apenas ilustres senhores da sociedade européia: Freud, Breuer, Ferenczi, Stekel, Adler. No entanto, como evidenciam os próprios escritos freudianos, a Psicanálise nasce precisamente da boca de mulheres. Mulheres cujo corpo exprimia uma linguagem absolutamente incompreensível para uma medicina organicista, o que demandava a emergência de uma escuta que pudesse extrair desse corpo em desacordo consigo mesmo uma ordem de discurso, palavras que não puderam ser ditas.

Esse preâmbulo serve apenas para dar um vislumbre da importância das mulheres para o surgimento e o desenvolvimento da teoria e da prática psicanalíticas, o que a Editora Record faz com extensão muito maior através do lançamento do excelente “As Mulheres de Freud”. Resultado de uma parceria exitosa entre um estudioso da Psicanálise (Jonh Forrester) e uma mestra no baile das letras (Lisa Appignanesi), a obra é um daqueles volumes que não podem faltar na biblioteca dos que se interessam por humanidades. Trata-se, portanto, de uma obra não indicada apenas ao público já envolvido com a teoria psicanalítica, pois o livro se constitui de fato numa viagem ao início do século XX.

Ao contrário do que o título possa dar a entender, os autores não tratam apenas das mulheres que tiveram um relacionamento amoroso com Freud, até porque não foram muitas. O pai da Psicanálise permaneceu até o fim da vida ao lado de Martha Bernays. Aliás, as cartas que ambos trocaram durante o namoro e o noivado foram a matéria-prima da qual os autores extraíram uma singela história de amor, permeada por conflitos de ordem financeira e que tocam no problema dos papéis maculino e feminino numa sociedade marcadamente conservadora mas em vias de transformação.

As “outras” mulheres de Freud abordadas pelo livro são suas filhas, com especial destaque para Anna, que seguiria o pai na carreira de analista; a mãe, uma das principais fontes de sua tese sobre a existência universal do complexo de Édipo; além de sua cunhada, com quem tinha um relacionamento particularmente próximo. O livro chega, inclusive, a discutir a veracidade da hipótese de que Freud teria um suposto caso extraconjugal com ela.

Além dessas, o livro também se dedica às mulheres que tiveram uma incidência mais visível no âmbito da Psicanálise. Em primeiro lugar, as chamadas “professoras” de Freud: as primeiras pacientes histéricas, cujas histórias clínicas e o transcurso dos tratamentos permitiram a Freud esboçar as hipóteses principais do edifício teórico da Psicanálise. Em seguida, aquelas que foram psicanalistas. Todavia, o livro não aborda todos os principais nomes da Psicanálise do sexo feminino, entre as quais Melanie Klein, Hanna Segal e Joyce Mcdougall. Os autores se concentram sobre aquelas que se relacionaram com Freud como Sabina Spielrein, Lou Andreas-Salomé, Helene Deutsh e a princesa Marie Bonaparte. São mulheres que, de alguma forma, interromperam a ímpeto perigoso da Psicanálise de se constituir como uma movimento de contornos claramente patriarcais e sexistas.

Finalmente, os autores dedicam um capítulo especial à discussão sobre o tema da feminilidade na obra de Freud. Como se sabe, nos seus últimos textos, o pessimismo de Freud quanto ao futuro e à eficácia da Psicanálise ocorreram concomitantemente a sua declaração de impossibilidade da resposta para a pergunta: “O que quer uma mulher?”. Com efeito, a feminilidade mesmo depois da obra de Freud permaneceu uma questão problemática, haja vista a célebre frase de Lacan: “A mulher não existe” e suas investigações ulteriores sobre o gozo feminino.

Ao que parece, as mulheres sempre foram perturbadoras, no sentido de impedir a inércia, da teoria e da prática psicanalítica. Desde a histérica que pede que Freud pare de falar e lhe escute, inaugurando a técnica da associação livre, passando por Martha Bernays que, ao casar-se com Freud, faz com que esse tenha que deixar a pesquisa científica para se dedicar à clínica, até as analistas femininas ao questionarem a plausibilidade do complexo de castração.

“As Mulheres de Freud” é um exemplo de historiografia, ao aliar a descrição precisa dos fatos e a diacronia da teoria psicanalítica como pano de fundo.

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