Self-handicapping: prejudicar-se para salvar a autoimagem

self-handicapping

Poucas coisas na vida são tão valiosas para nós quanto nossa autoimagem (sim, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico, “autoimagem” se escreve assim mesmo, tudo junto). Para manter nossa autoimagem intacta e ilibada a gente é capaz de qualquer negócio, desde sacrificar nosso bem-estar (e de outras pessoas) até, em casos extremos, comprometer nossa própria sobrevivência.

Os norte-americanos, com sua mania de dar nome para tudo, detectaram com muita precisão o mecanismo por meio do qual nós agimos de modo autodestrutivo para conservar nossa autoimagem. Eles chamam isso de self-handicapping, que poderíamos traduzir mal e porcamente por “autodesvantagem” ou “autoprejuízo”.

Pois bem, o self-handicapping acontece quando inconscientemente (ou quase conscientemente, às vezes) criamos para nós mesmos obstáculos para a execução de uma determinada tarefa ou alegamos que determinados fatores externos são barreiras intransponíveis (a famosa “desculpa”). Por exemplo, João está participando de um concurso público e, dentro de duas semanas, deverá fazer a prova escrita. Contudo, devido ao medo enorme de não ter um bom desempenho, inconscientemente ele passa a se expor a determinados fatores ambientais (por exemplo, mudanças bruscas de temperatura, poeira, comida mal conservada etc.) e, pronto: João acaba ficando doente, inviabilizando seu comparecimento ao local da prova.

À primeira vista a gente poderia pensar que isso não faz o menor sentido, pois ninguém jamais ficaria doente voluntariamente. Um olhar mais profundo, contudo, nos mostra que, no caso de João, a doença era o menor de seus males. O pior mesmo seria encarar o concurso! Veja: por um lado, ele está se prejudicando na medida em que está perdendo a oportunidade de conseguir um novo emprego. No entanto, ao mesmo tempo, João está preservando sua autoimagem posto que, ao deixar de fazer a prova, estará evitando a exposição da autoimagem ao risco de um mau desempenho. Além disso, ao ficar enfermo, poderá alegar para si mesmo e para as outras pessoas que não foi ele quem não quis fazer a prova por estar temeroso de falhar, mas sim que a doença o impediu.

Há outras situações em que não somos nós que criamos os obstáculos, mas utilizamos aspectos do ambiente como supostos empecilhos. Por exemplo, para não lidar com o risco de falhar em uma relação sexual e evitar ter que dizer para si mesmo que não teve a coragem de se expor a esse risco, o jovem José pode dizer a sua namorada que não devem transar, pois não possuem um lugar apropriado para tal. Nesse caso, o rapaz está utilizando uma circunstância que, em si mesma, não representa necessariamente um obstáculo para a relação sexual como um meio de evitar reconhecer para si mesmo que não está suficientemente seguro de sua potência. Agindo assim, mantém sua autoimagem intacta.

Você deve ter percebido que ambos os casos giram em torno da autoconfiança, ou melhor, da falta dela. Isso não significa que o indivíduo autoconfiante não sinta medo ou ansiedade. É impossível viver sem experimentar esses afetos. Contudo, o sentimento de que é potente e de que, mesmo após um erro, será capaz de olhar para si mesmo com alegria, é maior do que o medo ou a ansiedade. O autoconfiante não sufoca o medo e a insegurança. Não! É que na batalha dos afetos, a autoconfiança se mostra mais potente do que o medo. Como disse o filósofo holandês Spinoza, um afeto só pode ser vencido por outro afeto maior e não pela razão. Por isso, não adianta apelar para o bom senso e dizer para o indivíduo inseguro que ele não precisa temer, que “o não ele já tem”, que ele é capaz. É preciso que a autoconfiança seja um afeto, ou seja, uma experiência efetiva.

É por isso que a psicanálise funciona! Funciona porque não é constituída de conselhos por parte do analista, mas sim por uma experiência relacional efetiva e afetiva. Se o indivíduo adquire autoconfiança após um tratamento psicanalítico, isso ocorre não porque o analista o convenceu pela via dos argumentos de que ele é capaz, mas porque o indivíduo pode vivenciar sua própria potência nos encontros com o terapeuta.

Este texto foi publicado com ligeiras alterações em minha página no Facebook no dia 11 de janeiro de 2016.

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A psicologia do “bonzinho”

Betty Draper

Você certamente deve conhecer pessoas que se encaixam no perfil que irei descrever abaixo. Talvez você até seja uma delas. Trata-se daqueles indivíduos aos quais o senso comum se refere como “bonzinhos”. O fato de essa alcunha ser formulada no diminutivo já denota suficientemente uma característica básica dessas pessoas: o modo afetado com que expressam os atributos que tendemos a associar à bondade. O bonzinho é uma caricatura do ideal de bondade construído pela civilização ocidental. Ele é cordial em excesso, solícito em excesso, prestativo em excesso, humilde em excesso… Enfim, o bonzinho manifesta em suas atitudes e comportamentos todas as características superficiais que são reputadas a um indivíduo supostamente bom. Contudo, não possui o tempero do equilíbrio que torna a bondade um valor precioso.

Neste texto pretendo fazer algumas despretensiosas ilações e formular algumas hipóteses que podem nos ajudar a compreender a dinâmica psicológica subjacente ao modo “bonzinho” de ser. Como o leitor poderá perceber, farei um uso bastante livre de certos conceitos da teoria psicanalítica, sem a preocupação de demonstrar filiação a alguma orientação teórica específica.

Insegurança

Os pais, cônjuges, familiares e amigos mais próximos dos indivíduos “bonzinhos” percebem com muita clareza que se trata de pessoas geralmente muito inseguras. A despeito da devoção que demonstram pelo outro em muitas ocasiões – o que poderia a princípio indicar amadurecimento emocional – os “bonzinhos” frequentemente sofrem com o medo de não serem aceitos, amados ou reconhecidos pelo outro. Nesse sentido, quando se mostra excessivamente prestativo ou incapaz de negar um favor a alguém, o “bonzinho” não está dando mostras de que não é uma pessoa egoísta ou avarenta. Na maior parte das vezes, o “bonzinho” não ajuda o outro por uma decisão espontânea e consciente de fazê-lo, mas sim pelo medo de não ser amado pelo outro. Em decorrência, as relações interpessoais do “bonzinho” tendem a ser profundamente narcísicas, pois ele está o tempo todo tentando “resolver” a sua própria insegurança.

O temor de perder o amor do outro é tão imperativo que as demandas alheias acabam sendo tomadas pelo “bonzinho” como obrigações. Isso faz com que as pessoas com as quais o ele não possui vínculos muito fortes acabem acreditando que estão lidando apenas com uma pessoa muito prestativa e generosa.

Podemos concluir, portanto, que o “bonzinho” está muito mais preocupado com o seu próprio eu, ou melhor, com as fragilidades de sua estrutura egóica, do que com o outro. Em outras palavras, o que está por trás dos comportamentos do “bonzinho” é exatamente o oposto do que sua conduta parece indicar à primeira vista. Com isso, não estou defendendo a tese de que o “bonzinho” encarne a figura do canalha egoísta que ajuda os outros por um mero exercício de “marketing pessoal”. O funcionamento subjetivo do “bonzinho” não é perverso, mas da ordem do que ficou conhecido em psicanálise como “patologias narcísicas”. Devotar-se ao outro, ter dificuldade para confrontá-lo e para resistir às suas demandas são comportamentos que se impõem ao “bonzinho” com a força de atos compulsivos. Ele só consegue fazer frente ao medo de perder o amor do outro, sujeitando-se, tornando-se um servo resignado.

Máscara

Um conceito que talvez nos possa ser de grande utilidade para a compreensão da etiologia da conduta “boazinha” é a noção de “falso self” proposta por Winnicott. Do ponto de vista desse autor, quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico com o bebê nas fases iniciais do desenvolvimento, a criança pode desenvolver um falso self a fim de assegurar sua sobrevivência psíquica. Quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico? Quando é invasivo ou negligente, ou seja, quando não atende as necessidades do bebê em seu ritmo. Nessas situações, o bebê é obrigado a abrir mão de sua espontaneidade para se comportar de acordo com o ritmo do ambiente. Essa maneira artificial de se comportar é uma das facetas do que Winnicott chamou de “falso self”.

Ora, em linhas gerais não é isso o que ocorre com o “bonzinho”? Se levarmos em conta o modo subserviente com que lida com as pessoas, podemos inferir que inconscientemente o “bonzinho” experimenta o outro como hostil ou, no mínimo, como incapaz de resistir a uma negativa. Assim, o “bonzinho” dá mostras de não ter incorporado uma referência de cuidado suficientemente bom capaz de produzir nele o sentimento de segurança que dá sustentação ao eu. Por essa razão, é como se o indivíduo precisasse segurar a si mesmo o tempo todo e proteger-se do abandono do outro, objetivos que só podem ser alcançados por meio da construção de uma identidade artificial: o modo “bonzinho” de ser.

Metapsicologia da paixão

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O processo de apaixonar-se certamente é um dos fenômenos mais comuns e fascinantes da experiência humana. Como se sabe, a palavra “paixão” está vinculada etimologicamente ao vocábulo grego “pathos” que poderia ser traduzido livremente por doença, enfermidade, sofrimento – daí a nossa conhecida patologia. De fato, embora geralmente seja fonte de grande prazer para o indivíduo, o estar apaixonado também envolve frequentemente certo grau de sofrimento, especialmente nos casos em que o objeto não corresponde ao amor que lhe é endereçado. Por outro lado, mesmo nos casos em que o desejo entre os parceiros é recíproco, ainda assim a experiência da paixão chega a produzir estados de angústia que só são superados após certo tempo de relacionamento.

Ao introduzir na teoria psicanalítica a noção de “narcisismo primário” num artigo clássico de 1914, Freud acabou lançando luz sobre o que acontece, do ponto de vista metapsicológico, com uma pessoa que se encontra apaixonada. Inicialmente, tentaremos explicar em humanês o que o fundador da psicanálise tinha em mente ao propor a noção de um narcisismo primário. Em seguida, demonstraremos como esse conceito permitiu a Freud inferir os mecanismos psicológicos que estariam por trás do fenômeno do apaixonar-se.

Centro do mundo

Até o momento em que Freud publicou esse artigo que eu mencionei de 1914 chamado “Sobre o narcisismo: uma introdução”, o narcisismo era compreendido pela psiquiatria da época unicamente como um transtorno da sexualidade caracterizado pelo fato de o indivíduo nutrir desejos eróticos por si mesmo. Como, do ponto de vista freudiano, a sexualidade não estava restrita ao campo da genitalidade, mas englobava tudo o que tivesse a ver com o amor num sentido amplo do termo, Freud logo percebeu que o “amor por si mesmo” não era uma prerrogativa apenas de determinados perversos. Em outras palavras, o narcisismo, tomado num sentido mais amplo, era um fenômeno passível de ser encontrado em todas as pessoas. Todas as pessoas tomariam a si mesmas como objeto de amor, em maior ou menor grau. A pergunta que Freud buscou responder no artigo foi: por que isso acontece, isto é, por que nós amamos a nós mesmos?

Atento ao lugar privilegiado que os bebês ocupavam nas famílias ocidentais modernas, o médico vienense formulou a seguinte hipótese: nós amamos a nós mesmos como forma de resgatar a primeira experiência que tivemos na vida: a de sermos plenamente, integralmente, completamente amados pelas pessoas que estão ao nosso redor. Ora, não é isso o que acontece com a maioria dos bebês quando nascem? O próprio Freud, no artigo, brinca dizendo que o bebê torna-se uma verdadeira majestade no ambiente familiar. Para ele são dirigidas todas as atenções, todas as expectativas, todos os projetos. É essa experiência inicial de ser o centro do mundo que Freud chamou de “narcisismo primário”. Quando esse momento se encerra, é como se ficássemos como um “gostinho de quero mais” e passássemos a vida inteira tentando de alguma forma reproduzi-lo. Para alcançar isso, Freud diz que nós forjamos uma imagem idealizada de nós mesmos (eu ideal) que caso fosse de fato encarnada nos proporcionaria a mesma experiência de ser o centro do mundo que tivemos quando bebês.

Amo-me em ti

O que tudo isso tem a ver com o estar apaixonado? Ao observar a fenomenologia da paixão, Freud chega à conclusão de que, na verdade, amar seria uma forma indireta (talvez pudéssemos até dizer: sintomática) de buscar o retorno da experiência de narcisismo primário. Quando estamos apaixonados, idealizamos os traços do objeto amado, colocando-o no centro de nossa existência, ou seja, fazemos com o objeto exatamente aquilo que o mundo fez conosco quando éramos bebês – experiência que gostaríamos de vivenciar ininterruptamente. É como se idolatrando e idealizando o objeto amado pudéssemos vivenciar indiretamente a experiência de sermos amados plenamente.

Trata-se de um fenômeno paradoxal, pois, como Freud assinala, o indivíduo apaixonado se apresenta humilde, não raro sem demonstrações de amor próprio. Grande parte da sua libido, que anteriormente estava investida em si mesmo e na imagem idealizada de si mesmo (seu eu ideal) agora passa a ser dirigida ao objeto. O indivíduo não se sente digno de elogios ou favores. Somente o objeto deve ser servido e adorado. Nesse sentido, do ponto de vista freudiano, ao se apaixonar o indivíduo abre mão de seu narcisismo, mas para recuperá-lo de forma indireta e bem mais potente no objeto amoroso idealizado. Dito de outro modo, para Freud, amamos o outro para melhor amarmos a nós mesmos.

Tragédia de Santa Maria: entre o luto e o narcisismo

fantastico_logo2Escrevo este texto um dia após ter acontecido o que tem sido chamado pela mídia de “tragédia de Santa Maria”. Para os que lerão este escrito muito tempo depois de ter sido publicado, me refiro ao incêndio ocorrido na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 na boate Kiss em Santa Maria no Rio Grande do Sul, que provocou a morte de mais de 200 pessoas e deixou dezenas de feridos.

Eventos como esse são sempre um prato cheio para jornais, revistas, mas, sobretudo, para a televisão, que pode explorar à exaustão as imagens registradas do incidente, construir gráficos elaborados explicando como teria acontecido o incêndio e porque a maioria das pessoas morreu asfixiada, chamar especialistas para debater o assunto e last, but not least, apresentar conteúdos exclusivos, “que você só verá aqui”. É também comum nessas ocasiões observar apresentadores normalmente serelepes e eufóricos apresentando um semblante sério e austero, fingindo que estão consternados com o acontecido. Tudo para que o telespectador não saiba que estão, no fundo, comemorando os picos de audiência.

Mas nós já não vivemos mais na era do telespectador passivo, que apenas recebe conteúdos de um broadcaster institucional. Não, nós agora temos redes sociais. Nós também produzimos conteúdo. Nós também divulgamos informação. Nós também temos audiência. Logo, nós também precisamos mentir. Afinal, temos centenas de amigos no Facebook e/ou centenas de seguidores no Twitter. Temos que mostrar a essas pessoas que somos bonzinhos, que amamos o próximo, que temos compaixão. Temos que dar uma satisfação a nossos amigos e seguidores. Precisamos fazer semblante sério, austero e compassivo. Temos audiência. Precisamos abarrotar as timelines de nossos espectadores com imagens com os dizeres “Luto”, “Deus conforte os corações dos familiares”, etc. Precisamos mostrar à nossa audiência que nós somos tão bons que conseguimos compartilhar da dor que estão sentindo os parentes das pessoas que morreram. Sim, nós precisamos fingir que nos importamos. Precisamos fingir que estaremos orando pelas famílias. Precisamos fingir que ficaremos de luto. Precisamos enviar mensagens supostamente dirigidas aos familiares, mas que sabemos de antemão que jamais chegarão até eles. Precisamos, em suma, mostrar aos nossos amigos e seguidores que nos importamos, que o mundo é um lugar muito bonito abarrotado de gente que não está interessada apenas no próprio umbigo, mas que se preocupa com a dor do outro. O paraíso na terra.

Vejam bem, não estou negando a possibilidade de que efetivamente nos solidarizemos com a dor das mães e pais que perderam seus filhos. Sou psicanalista. Empatia é um dos meus principais instrumentos de trabalho. Acredito, aliás, ser quase impossível para a maioria das pessoas assistir na televisão aos familiares e amigos desesperados e não se compadecer das dor que eles provavelmente estão sentindo. O que coloco em questão é a necessidade que temos de publicar essa solidariedade, transformando nossa suposta compaixão em objeto de consumo para nossa audiência. Sim, pois nas redes sociais todos nós acabamos nos transformando em apresentadores de televisão. Cada um de nós faz o seu próprio Fantástico e, em vez da audiência medida pela Ibope, nós acumulamos “curtidas”, retweets, compartilhamentos.

É uma ingenuidade acreditar que Facebook e Twitter nos servem apenas como uma folha de papel em branco onde expressamos nossos sentimentos, opiniões e ideias. Ainda que não existissem os botões “curtir”, “compartilhar” e “retweetar”, ainda assim a mera consciência de que outras pessoas têm acesso ao que publicamos faz com que tenhamos sempre em vista as expectativas alheias antes de escrevermos ou compartilharmos algo. Isso explica a quantidade cada vez maior de imagens contendo frases “edificantes” ou engraçadinhas sendo compartilhadas no Facebook. Queremos parecer bonzinhos, fortes, cultos e bem-humorados para nossa audiência. Show da vida.

Mas voltemos à nossa pauta original. Será que as “moções de solidariedade” aos familiares das pessoas mortas na tragédia de Santa Maria escapariam desse círculo narcísico em jogo nas redes sociais? Será que nosso objetivo ao compartilharmos as imagens bem elaboradas de luto é, de fato, a mera manifestação de nossos sentimentos de compaixão e não mais uma “atração” do nosso Fantástico particular de todos os dias?

Um psicólogo judeu costumava dizer que quando alguém, num período de jejum, desfigura o rosto, dando a entender que está sofrendo, tem por objetivo conquistar a atenção e a admiração dos homens. Por isso, recomendava a seus amigos que se perfumassem e lavassem o rosto ao fazerem jejum, a fim de que ninguém sequer suspeitasse que não estivessem se alimentando. Fazendo isso, proteger-se-iam de um vício assaz pernicioso chamado hipocrisia.

Livro narra depoimento de um pai sobre os sinais de autismo

Giovani era o bebê que todos os pais gostariam de ter. Falo dos pais contemporâneos que se dividem entre o trabalho, o cuidado dos filhos e seus projetos pessoais. Calmo, silencioso e com pouca propensão a chorar, Giovani era capaz de passar horas brincando sozinho, folheando um livro ou vendo televisão sem solicitar a atenção de seus pais. Em outras palavras, diferentemente da maioria das crianças, o garoto pouco demandava de seus pais, produzindo neles uma sensação de conforto e tranquilidade bastante atípica para quem estava cuidando de um bebê com poucos meses de vida. Essa sensação, todavia, não durou muito tempo.

Seu pai, Francisco Paiva Junior, dono de uma aguçada capacidade de observação própria da profissão de jornalista, logo notou que além de ser excessivamente calmo para um bebê, Giovani apresentava outros comportamentos que o distinguiam da maioria das crianças: não utilizava os brinquedos de acordo com a função para a qual haviam sido feitos (carrinhos, por exemplo, eram jogados ou chutados como bolas); repetia durante um bom tempo uma mesma ação, como levantar até a altura do rosto uma peça de um jogo de montar e depois deixá-la cair; dificilmente atendia ao ser chamado por seu nome; não olhava nos olhos de ninguém etc.

Graças à Internet, Paiva Junior pôde ter acesso a informações que o levaram a suspeitar do que poderia estar acontecendo com seu filho e – o que é o mais importante – buscar ajuda especializada. Pesquisando acerca dos comportamentos atípicos de Giovani, o jornalista descobriu que o filho poderia ser autista.

Diferentemente do que o público leigo imagina, o autismo não é uma categoria diagnóstica que comporta apenas uma única caracterização sintomatológica. Dito de outro modo, indivíduos com autismo não são todos iguais. Fala-se no campo psicopatológico, de um espectro autista, ou seja, de uma faixa que comporta vários níveis e graus de autismo. Nesse sentido, há casos leves, moderados e graves de autismo, com sintomatologias específicas em cada um dos níveis. O elemento comum que permite designar os diferentes quadros nosológicos como autismo é a existência de um atraso no desenvolvimento das funções de comunicação e socialização, o que caracteriza essa psicopatologia como um transtorno global do desenvolvimento (TGD).

Em “AUTISMO: não espere, aja logo! Depoimentos de um pai sobre os sinais de autismo” (M.Books, 2012, 132 páginas, R$39), o jornalista Paiva Junior corajosamente narra todo o percurso que vai desde o complicado parto de seu filho Giovani, passando pelo recebimento do diagnóstico de autismo, até o começo do tratamento do filho. Não se trata, porém, de um relato destinado a satisfazer a curiosidade que grande parte das pessoas sente em relação aos comportamentos de uma pessoa autista.

O interesse de Paiva Junior é utilizar o caso de Giovani como ilustração para a necessidade que os pais têm de estarem atentos aos comportamentos de seus filhos a fim de que, caso haja a suspeita de autismo, o diagnóstico seja feito o mais precocemente possível para que se inicie imediatamente o tratamento.

Paiva Junior, ao longo de todo o livro, insiste no seguinte ponto: tanto pais quanto profissionais, ao perceberem qualquer sinal que possa indicar que a criança seja autista, não devem ficar na expectativa de que o tempo lhes vá trazer a confirmação da suspeita. Muitas vezes, o tempo de espera poderia ter sido utilizado para a concretização do tratamento caso o diagnóstico de autismo fosse efetivamente feito. Quanto mais precoce for a intervenção, maiores serão as chances de que os comprometimentos nas áreas de comunicação e socialização do indivíduo sejam minimizados.

Giovani, como o leitor pode notar ao longo do livro, não apresentava sinais muito evidentes de que fosse uma criança autista. Tanto é que uma pediatra a quem os pais foram consultar no início, disse que os comportamentos atípicos do garoto eram apenas traços de sua personalidade, que “aquele era o jeito dele”.

Se não fosse pelo insistente (e saudável) desejo do pai de compreender o que de fato se passava com seu filho, Giovani só teria sido diagnosticado com autismo muitos anos depois, quando muitos dos problemas já teriam se agravado. Paiva Junior e sua esposa buscaram a ajuda de um neuropediatra (que, inclusive, escreve o prefácio do livro) e dele obtiveram a resposta que tanto esperavam e que ao mesmo tempo temiam: o diagnóstico de autismo.

Aliás, a reação dos pais diante da confirmação do diagnóstico é outro ponto bastante enfatizado no livro. Paiva Junior, através de uma descrição íntima e direta da experiência que vivenciou com a esposa, mostra que a negação é a primeira resposta da maioria dos pais diante do diagnóstico de autismo. Muitos se recusam a acreditar no que ouvem do médico e, por conta disso, acabam procrastinando o início do tratamento. O que está em jogo é a perda da imagem do filho perfeito que todos os pais idealizam para seus descendentes e da qual muitos resistem a se desfazer.

O livro ainda traz os casos de outras crianças autistas e suas famílias, abordando a descoberta dos sinais, a confirmação do diagnóstico e a reação dos familiares. Tais relatos foram fornecidos por pais que faziam parte de listas de discussão sobre autismo na internet das quais Paiva Junior participa. O jornalista, aliás, tem contribuído ativamente para o processo de propagação de conhecimento acerca do autismo. Em 2010, criou a Revista Autismo, gratuita e sem fins lucrativos, que se dedica a disseminar informação sobre o transtorno, colaborando para a desconstrução das imagens preconceituosas ainda existentes sobre o indivíduo autista.

A M.BOOKS, editora responsável pela publicação do livro, disponibilizou um exemplar da obra para presentear um dos leitores. O escolhido será aquele que elaborar o comentário mais criativo e bem fundamentado acerca do tema AUTISMO. Sugestões: história do conceito de autismo; como o autismo tem sido visto pela psicologia e pela psicanálise; teorias sobre a causalidade do autismo; a inclusão do indivíduo autista na sociedade etc. A intenção é transformar o espaço de comentários em um pequeno mural de informações a respeito do tema. O dono do comentário mais criativo e bem fundamentado receberá o livro diretamente em sua casa. Não se esqueça de inserir seu nome completo e email.

Metapsicologia do emagrecimento (final)

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O alimento é um dos muitos objetos capazes de enganar a pulsão, de satisfazê-la por alguns momentos até que ela volte a nos incomodar. E é o fato de a comida poder fazer semblante de objeto a uma das razões que nos levam a comer mais do que deveríamos. Em outras palavras, exageramos na comida, grande parte das vezes, para enganar a pulsão. Foi isso o que concluímos até aqui.

O alimento como signo de amor

Não obstante, há outra dimensão do alimento que até o momento não fizemos referência, mas que também está associada ao comer em excesso. Trata-se da entrada da comida no registro que poderíamos chamar de demanda. Ao lado da necessidade e da vontade louca de viver (pulsão), age em nós uma demanda de amor motivada principalmente por nossa fragilidade ao nascer que, por sua vez, implica numa submissão ao Outro, condição indispensável à nossa sobrevivência. Queremos ser amados pelo Outro e, para, sentirmo-nos amados, precisamos de signos desse amor. O alimento é um desses signos.

Não precisa pensar na caixa de bombons que seu namorado lhe entrega como expressão do que ele sente por você, pois pode haver dúvidas de que as reais intenções dele sejam de fato manifestar amor em relação a você. Pense na experiência muito mais generalizada da interação entre mãe e bebê. O leite que a criança ingere é tomado como uma dádiva da mãe, um presente desse Outro que se apresenta ali de braços abertos para acolhê-la, enfim um signo de seu amor pelo bebê.

Portanto, o leite recebe uma significação diferente em cada um dos registros da nossa experiência com o Outro: na medida em que aplaca a sensação de fome é um objeto de necessidade; como, além disso, serve também para apaziguar um pouco a ânsia de viver da pulsão, é um objeto engana-pulsão, um semblante de objeto a; e, finalmente, como é fornecido a alguém em que habita uma vontade enorme de ser amado, serve como signo de amor, objeto da demanda.

Antes de emagrecer…

Fiz menção a todos esses significados que a comida pode tomar na experiência humana para demonstrar e deixar claro que qualquer tentativa de emagrecimento que pretenda se basear unicamente na redução do número de calorias ingeridas irá inevitavelmente fracassar. Se na ingestão de alimentos, no caso específico da espécie humana, está implicada não apenas a necessidade, mas também a pulsão e a demanda de amor, isso significa que em todo processo de aumento de peso, para-além das tendências genéticas, essas outras dimensões citadas estarão sempre presentes.

Nesse sentido, antes de recorrermos à dieta mais comentada nas revistas semanais ou até mesmo antes de buscarmos a ajuda de um nutricionista, é preciso que nos coloquemos a pergunta: “Por que estou comendo além do que deveria?”. Até aqui expus os fatores inerentes à condição humana que favorecem o ganho de peso, as quais podem ser sintetizadas da seguinte forma: nós não comemos apenas para matar a fome, mas para atender a outras solicitações da vida, quais sejam, a pulsão e a demanda. Portanto, em todos os momentos em que a comida se torna para mim um excesso, o alimento provavelmente estará atendendo de maneira mais proeminente a uma ou ambas as solicitações.

Forneça mais objetos para a pulsão

Entendemos até aqui a pulsão como essa vontade desregulada e intensa de gozar a vida. Isso significa que nos momentos em que, por diversos motivos, os objetos com os quais a pulsão possa se satisfazer se encontram limitados, o alimento poderá se transformar num dos poucos objetos engana-pulsão, ou seja, ele passará a carregar o fardo de ter que tapear a pulsão mais do que o normal. Em outras palavras, devido a tais limitações, o indivíduo começará a comer em excesso apenas para satisfazer parcialmente a vontade de viver que se encontra limitada em seu exercício. É por isso que a grande maioria das pessoas obesas possui uma vida bastante empobrecida em termos de relacionamento social. São, via de regra, pessoas que saem muito pouco de casa, exercem poucas atividades etc. Nesse ponto o leitor pode dizer: “Um momento, eu conheço muitas pessoas gordas que têm uma vida muito ativa!” E eu respondo: Sim, de fato, existem inúmeras pessoas com excesso de peso que dificilmente estão ociosas. Todavia, a pergunta que eu faço é: será que tais pessoas estão de fato investindo libido naquilo que fazem?

Libido é o termo que Freud utilizava para se referir à energia que a vontade de viver (pulsão) usa para se manifestar. Há pessoas que trabalham muito, passam o dia inteiro ocupadas e quando chegam em casa se empanturram com lanches prontos, pizzas, frituras etc. Ou seja, elas tiveram atividades durante todo o dia, mas em nenhum momento tais atividades serviram para tapear a pulsão. Em outros termos, em nenhum momento tais pessoas gozaram a vida com suas atividades. Executaram-nas com artificialidade, de modo mecânico. Daí chegarem em casa e terem que descarregar a libido acumulada durante todo o dia direto num único objeto, o alimento.

Portanto, estabelecer novos objetos com os quais a pulsão possa “brincar” é uma das ações que comprovadamente tendem a favorecer o emagrecimento. Você mesmo já deve ter percebido que quando está fazendo algo que realmente gosta, que te dá “tesão” (no sentido literal ou figurado), ou seja, algo em que você investe não apenas interesse mental, mas energia libidinal de fato, você não sente vontade de comer. Pode até sentir fome, mas consegue segurá-la pelo simples prazer de estar fornecendo à pulsão um objeto com o qual ela possa gozar. Eu mesmo, ao escrever este texto, estou sentindo fome, mas não o desejo de comer, pois ao escrever este artigo sinto que estou investindo libido, estou fazendo algo que gosto.

Terapêutica de Narciso

Por que, muitas vezes, pessoas que antes comiam bastante, ao passarem a praticar exercícios físicos começam a comer menos e a perder aquela ânsia que as fazia correr ao restaurante fast-food mais próximo? Trata-se de um aparente paradoxo, pois o exercício físico consome calorias, ou seja, em tese ele geraria mais fome. Sim, apenas fome. Por isso essa idéia consiste em um falso paradoxo. De fato, atividades físicas produzem sensação de fome. No entanto, em contrapartida, se o sujeito realiza os exercícios de modo espontâneo, livre, isto é, se faz com desejo e não apenas para atender às demandas do padrão estético contemporâneo, ele acaba fazendo do exercício físico um objeto de descarga pulsional, de investimento de libido. Tanto é assim que existem pessoas que, restringem tanto seus objetos engana-pulsão, que passam a se viciar em exercícios físicos, transformando-os no único objeto de investimento libidinal.

Outro efeito da prática de exercícios físicos é, evidentemente, um inevitável emagrecimento em função do gasto maior de calorias. É aí que percebemos que o processo de emagrecimento é, na grande maioria das vezes, retroalimentador. Isso porque um dos objetos com os quais a pulsão mais gosta de brincar é o eu, mas especificamente, a dimensão do eu à qual se dá o nome de imagem corporal. Pessoas que se sentem bonitas e estão satisfeitas com o próprio corpo sentem um gozo enorme em se olharem no espelho, aquele mesmo júbilo que o bebê ainda sem coordenação motora sente quando se reconhece no espelho, lá por volta dos 18 meses. Esse momento marca o nascimento do eu, de acordo com Lacan, tal como a psicanálise o concebe. É o estádio do espelho.

Pois bem, ao emagrecermos, vamos, a cada dia, ficando mais satisfeitos com nossa imagem corporal, ou seja, gradualmente vamos investindo uma maior quantidade de libido nela, de modo que aquele excesso que vinha tendo a comida como único alvo de descarga vai paulatinamente desaparecendo. O sujeito passa a se comer na imagem refletida no espelho.

Vejam, portanto, que, no que diz respeito ao comer em excesso motivado por uma fixação pulsional na comida devido à limitação da oferta de outros objetos com os quais a pulsão possa brincar, o foco da mudança, ou seja, da entrada num processo de emagrecimento passa pela dimensão quantitativa. É preciso fornecer à vontade de viver novos caminhos a trilhar. O sujeito que passa o dia na internet ou assistindo TV dificilmente se salvará da tentação de recorrer à comida para descarregar a libido que permanece aí à deriva. Evidentemente há o fator genético que não pode ser desprezado, mas só uma pequena minoria permanece magra em função dele.

Não obstante a dimensão quantitativa seja de fundamental importância, a qualitativa também é relevante. Com efeito, não basta, como eu já disse, iniciar dezenas de novas atividades se elas forem realizadas sem prazer, de maneira automática e artificial. Repito: é preciso que as atividades sejam capazes de enganar a pulsão, de modo a fazê-la se desvincular do alimento. Atividades que só enganam a nós próprios e deixam a pulsão quietinha em seu círculo vicioso com a comida não ajudarão em nada no emagrecimento.

Quando se come para se sentir amado

Quando o excesso de peso está associado à predominância do alimento no registro da demanda, a mudança é muito menos simples de ser iniciada. De fato, quando se come em excesso para tapear a pulsão, já que essa não possui outros objetos com os quais se enganar, basta fornecer novas vias de escoamento libidinal que o alimento perde o estatuto de único alvo e o sujeito passa a não viver apenas para comer. Por outro lado, quando se ingere comida em excesso tendo em vista remediar-se uma demanda de amor insatisfeita, a diminuição na ingestão de alimento e o conseqüente emagrecimento são tarefas que não podem ser executadas pelo sujeito sem uma ajuda especializada. Isso porque, diferentemente da pulsão, a demanda de amor não pode ser facilmente enganada com outros objetos. O sujeito que, do ponto de vista de suas fantasias inconscientes, considera que deve comer em excesso, pois na sua história de vida ao alimento adquiriu o estatuto de signo único do amor do Outro, só poderá se desvencilhar desse excesso caso a sua fantasia seja encarada de frente – o que é a proposta do método psicanalítico. O sujeito se empanturra de comida e não consegue deixar de fazê-lo sem saber sabendo que em seu inconsciente roda uma fantasia segundo a qual ele só se sentirá seguro do amor do Outro se comer em demasia.

Para a pessoa cujo comer excessivo está localizado nessa estrutura toda dieta, toda intervenção nutricional, enfim, toda tentativa que queira fazer aliança apenas com a consciência do sujeito, fracassará, pois a fantasia inconsciente que motiva o comer em excesso permanecerá intocada. Nesse caso, uma psicoterapia psicanalítica seria o procedimento mais indicado com vistas ao emagrecimento.

Concluindo

Neste texto não pretendi, de modo algum, esgotar a temática referente ao ganho e à perda de peso do ponto de vista da psicanálise. É óbvio que aspectos ligados à história subjetiva particular de cada indivíduo intervêm tanto no aumento quanto na diminuição do percentual de gordura, de modo que cada processo de engorda e emagrecimento é relativamente singular. Minha intenção, no entanto, foi apontar os fatores de cunho metapsicológico, ou seja, ligados à estrutura mesma da subjetividade que se constituem em condições favorecedoras do comer em excesso e do emagrecimento. Essa metapsicologia, a meu ver, tem sido sistematicamente rechaçada em toda discussão acerca do tema, na qual predomina os discursos veiculados pela biomedicina e pela nutrição, os quais advogam uma visão do ser humano como máquina e não como sujeito.

Estréia do videocast “Do Laboratório ao Divã”

Caríssimos, quero apresentar a vocês o meu mais novo projeto, realizado em parceria com meu amigo e também psicólogo Igor Madeira. Trata-se do videocast “Do Laboratório ao Divã”, um programa semanal de cerca de 15 minutos feito especialmente para a internet. A idéia é que a cada semana, Igor (psicólogo comportamental) e eu (psicanalista) possamos discutir um tema específico a partir dos pontos de vista do Behaviorismo e da Psicanálise, demonstrando que, embora historicamente esses discursos tenham sido postos numa relação de rivalidade, eles podem dialogar e o debate produzir bons frutos.

Igor, como eu, também se formou em psicologia na Universidade Vale do Rio Doce (Univale) e atualmente é mestrando em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), trabalhando com a temática de equivalência de estímulos na aprendizagem de comportamentos musicais.

O episódio de estréia já está no ar e a discussão gira em torno do tema “amor”. Espero que gostem!

O que é Narcisismo?

O mito é um tipo de artifício humano criado com a finalidade de apresentar aquilo que se processa no Real em forma de imagens e símbolos. Que não se enganem os mestres do universo senso-comum ao suporem que o termo “narcisismo” significa “amar-se a si mesmo”. Uma das particularidades mais interessantes do mito de Narciso é o fato de que o personagem se apaixona por sua imagem refletida na água. Para melhor fundamentar nossa discussão subseqüente, melhor seria retificar nossa última asserção e dizer que a imagem não é refletida na água e, sim, pela água. Com isso queremos ressaltar a idéia de que a imagem de nós mesmos é sempre vinda do exterior. Todavia, não há dúvida de que o autor ou os autores do mito quiseram expressar a idéia do amor a si mesmo, ou melhor, a idéia de que aquele que ama a si mesmo acaba se afogando (como foi o caso de Narciso) em si mesmo.

O interessante é constatar que para construir um mito que denotasse o amor a si mesmo como algo que no fim das contas não acaba bem, só foi possível fazê-lo colocando no lugar das palavras “si mesmo” uma imagem do corpo de Narciso. A conclusão a que se chega é a de que só é possível amar a si mesmo amando uma imagem de si mesmo. Vejamos, então, qual é a natureza dessa imagem. Será que a reconhecemos de imediato, isto é, será que sabemos sem precisar aprender que aquela imagem que aparece no espelho somos nós mesmos?

Segundo o psicólogo Henri Wallon, não. Em seus experimentos, Wallon verificou que só a partir dos seis meses de idade é que nos reconhecemos na imagem do espelho. Ele chamou essa fase de estádio do espelho. Porém, vejamos: para que a criança veja a imagem de seu corpo no espelho e se reconheça nela, é preciso que tanto ela, criança, quanto a imagem sejam postas simultaneamente num mesmo lugar no pensamento. Esse lugar é a palavra “eu”. De vez que a criança não aprende a falar sozinha, é preciso que alguém diga a ela que ela e a imagem no espelho são a mesma pessoa, de modo que ela possa dizer no futuro: “Sou eu que estou lá [no espelho]”.

Tal situação coloca de imediato o homem em um estado de alienação no que concerne à sua identidade. Uma vez que o reconhecimento de si mesmo no espelho pressupõe um aprendizado, o qual se dá a partir de um atestado de garantia que é fornecido por um outro, a resposta à questão “Quem sou eu?” será dada por esse outro. E é nesse ponto que se encontra a justificativa da falta de sustentação do argumento segundo o qual o narcisismo denotaria um amor por si mesmo. Na medida em que minha identidade é-me fornecida pela boca de um outro, ao tentar “amar-me” não o estarei fazendo pois estarei amando ao outro, ou melhor, àquilo que o outro quer que eu seja.

No início da vida, do nascimento até um determinado momento da vida infantil, a distância entre o que verdadeiramente somos, isto é, a soma de nossos comportamentos, e aquilo que o outro (na maioria das vezes encarnado pelos pais) queria que fôssemos é praticamente nula. Os pais geralmente acham tudo o que a criança faz uma maravilha; ela adquire um estatuto de objeto que faz os pais se sentirem completos, em especial a mãe. Freud caracterizou a criança nessa fase como “sua majestade o bebê” e deu a esse período o nome de “narcisismo primário”. Gradativamente, os pais vão percebendo que o filho não é tudo aquilo que eles imaginavam; passam a ter outros interesses além da criança e essa também vai percebendo que perdeu terreno. Assim, a distância entre o que somos e o que outro queria que fôssemos só vai aumentando e no lugar daquele momento em que a criança era tudo para os pais surge o eu ideal, uma representação perfeita de si mesmo, a qual será uma das fontes do recalque, visto que serão reprimidos aqueles traços mnêmicos que forem incompatíveis com o eu ideal.