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Todos nós temos necessidades emocionais que precisam ser atendidas na infância para que conquistemos funções psíquicas fundamentais.
Sim, estou falando de necessidades mesmo, não de desejos ou impulsos. Necessidades.
Trata-se de coisas que são tão indispensáveis para a saúde psíquica básica quanto a alimentação é indispensável para a sobrevivência.
Você me verá utilizar o termo “suficientemente” diversas vezes, inspirado em Winnicott, para deixar claro que essas necessidades não precisam (e nem podem) ser satisfeitas de modo perfeito. Elas só devem ser suficientemente bem atendidas.
É possível identificar as necessidades emocionais atendendo pacientes que não tiveram algumas delas suficientementebem atendidas.
Com efeito, parte do sofrimento dessas pessoas se deve justamente ao fato de não terem desenvolvido suficientemente bem as funções psíquicas que dependem das necessidades emocionais.
— Lucas, tá muito abstrato. Me dá um exemplo!
Claro! Vamos lá:
Todos nós temos a necessidade delimite. Essa talvez não seja a melhor forma de nomear essa necessidade e talvez um dia eu escreva um texto mais acadêmico e invente um nome pomposo para ela.
Mas a ideia é muito simples: nós não nascemos com a capacidade inata de frear nossos impulsos e regular nosso próprio comportamento. A gente aprende a fazer isso internalizando um movimento de limitação e restrição que, inicialmente, é feito pelos adultos que cuidam de nós.
Ou seja, para que eu desenvolva suficientementebem essa capacidade de autocontrole ou autorregulação (como a gente diz hoje em dia), eu preciso que minha necessidade emocional de limite tenha sido suficientementebem atendida. Só assim o processo de internalização será suficientementebem sucedido.
Outro exemplo: a necessidade de reconhecimento.
Tem gente que passa a vida inteira ansiando por aplausos e pelo olhar de admiração de outras pessoas porque não desenvolveu suficientemente bem a capacidade de se admirar e reconhecer o próprio valor.
Ora, você concorda comigo que essa é uma função indispensável para a saúde psíquica?
Mas por que essas pessoas não conseguiram desenvolvê-la suficientemente bem?
Justamente por que sua necessidade de reconhecimento não foi suficientemente bem atendida na infância.
Para usar uma expressão que Freud consagra no texto sobre o narcisismo, são pessoas que, infelizmente, não foram tratadas como “sua majestade o bebê”.
Elas podem até ter sido bem alimentadas, bem cuidadas, mas não foram suficientemente reconhecidas e admiradas — como toda criança precisa ser.
A insuficiência de certas funções psíquicas fundamentais leva o sujeito a buscar compensações para tentar suprir aquilo de que foi privado na infância.
Como eu disse, a dificuldade de se aplaudir internamente e se valorizar pode levar a pessoa a buscar com uma avidez doentia o reconhecimento do outro e a se sentir extremamente angustiada quando não consegue isso.
Eu acredito que muitos influenciadores e famosos em geral provavelmente sofrem desse problema.
Da mesma forma, a dificuldade de se regular ocasionada pelo não atendimento da necessidade de limite na infância pode levar o sujeito a se tornar excessivamente contido, retraído, reprimido, pois ele suspeita (com razão) que terá dificuldades para se controlar se porventura relaxar.
Agora me diga você. Depois de ler este texto e pensar sobre sua história, você acha que alguma necessidade emocional não foi suficientemente bem atendida? Conta aqui nos comentários.
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No clássico artigo sobre o narcisismo, de 1914, Freud diz que os pais costumam tratar seus filhos, na infância, como “Sua Majestade o Bebê”.
Embora escrevesse em alemão, o autor grafou essa expressão em inglês (“His Majesty the Baby”) porque estava fazendo referência ao título de uma pintura.
Trata-se de um quadro de 1898, do artista canadense Arthur Drummond, que mostra a interrupção do tráfego de carruagens para a passagem de uma criança e sua mãe, que ocupam o centro da cena.
Freud evocou essa imagem ao falar da tendência que os pais têm de transferirem seu narcisismo para os filhos e, assim, tratá-los como as pessoas mais importantes do mundo.
De fato, grande parte das crianças tem a sorte de ocupar esse lugar de “majestades” no início da vida, usufruindo de uma série de privilégios e sendo amadas simplesmente por existirem.
É uma questão de sorte porque depende dos pais e, infelizmente, não são todos que conseguem colocar os filhos no centro de suas vidas durante algum tempo.
Freud não chegou a explorar essa possibilidade no texto, mas nós sabemos que muitas crianças não foram suficientemente bem instaladas na posição de “sua majestade, o bebê”.
E as consequências disso são desastrosas.
Quem nunca viveu — ou viveu de forma insuficiente — a experiência de se sentir a pessoa mais importante do mundo para os pais pode passar a vida inteira tentando saciar essa carência.
O problema é que essa experiência SÓ PODE ser vivida nos primeiros anos de vida e as únicas pessoas que podem oferecê-la são os pais.
Ou seja, se você teve o azar de não passar por ela, sinto muito, você nunca mais terá outra chance.
Sabe por quê?
Porque agora, já adulto, você não pode mais gozar dos privilégios de uma criança e ninguém (nem seus amigos, nem seus parceiros amorosos, nem seu analista, ninguém…) estará disposto a te amar como seus pais deveriam ter te amado no início da vida.
Então, trata-se de uma carência que precisa ser acolhida, compreendida, mas… estancada.
Quem a possui, mas ainda não percebeu a existência dela, vive num estado de muita vulnerabilidade:
A pessoa tem tanta fome de se sentir amada, de ocupar o centro da vida de alguém, que acaba aceitando qualquer mísera migalha de afeto e desejo.
É a vítima perfeita para os exploradores. Basta fazê-la se sentir um pouquinho especial que ela já se entrega totalmente ao domínio do outro.
O anseio frustrado (e não abandonado) de ser “majestade” para os pais leva a pessoa, paradoxalmente, a se tornar… uma serva do desejo alheio.
Este é o seu caso?
Lá na Confraria Analítica, minha escola de formação teórica em Psicanálise, nós já fizemos um seminário completo estudando o artigo de Freud sobre o narcisismo.
E todas as aulas estão disponíveis em nossa plataforma, que já conta com mais de 600 horas de conteúdo.
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Originalmente, o termo “narcisismo” foi empregado por psiquiatras do século XIX para nomear uma experiência εróticα atípica.
Nela, o sujeito, ao invés de se relacionar com outras pessoas, buscaria satisfação sεxuαl por meio da contemplação de si mesmo e do toque no próprio corpo.
Em 1914, Freud ressignificou o conceito, dando a ele um sentido metapsicológico:
Narcisismo designaria o investimento de libido (energia psíquica sεxuαl) no próprio Eu, ou seja, um processo normal e, inclusive, prevalente no início da vida.
Trocando em miúdos, em Freud o narcisismo deixou de ser pensado como uma pεrvεrsão e passou a ser concebido como um aspecto estrutural da subjetividade.
O problema é que, com o passar do tempo, o termo foi empurrado de volta para o campo da patologia.
Muitos psicanalistas contribuíram para isso ao falarem de narcisismo em seus textos num tom pejorativo, como se ele fosse uma falha moral.
Façamos essa mea culpa.
Além disso, autores de fora da psicanálise começaram a usar a expressão, também de modo depreciativo, transformando-a, aos poucos, em outra coisa.
Por essa razão, o que se fala hoje em dia, principalmente na internet, sobre “narcisismo” e “narcisistas” nada tem a ver com o que Freud formulou.
Do ponto de vista psicanalítico, narcisismo não é patologia.
Nem pecado.
Um sujeito que ama o próprio Eu não está errado nem doente.
Pelo contrário!
Uma pessoa que direciona pouca libido para si mesma é que está em maus lençóis.
Afinal, se o Eu não é suficientemente bem investido, sobra energia em excesso que será canalizada para outras pessoas.
E isso pode levar o sujeito a ficar excessivamente dependente e submisso aos caprichos de quem ama.
É claro que o EXCESSO de narcisismo também é patológico.
Mas a clínica mostra que esse cenário paradoxalmente aparece como defesa contra uma falta de narcisismo saudável.
Em outras palavras, o sujeito precisa acreditar que é o MÁXIMO porque sua história de vida o levou a se sentir, no fundo, como o MÍNIMO.
Espero que passe logo essa moda de “narcisismo pra cá, narcisista pra lá” e possamos voltar a usar o conceito em paz.
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Na semana passada eu propus uma classificação dos quadros depressivos em dois tipos: a depressão neurótica e a depressão narcísica.
Expliquei que a depressão neurótica decorre do recalque de impulsos agressivos que, por conta disso, acabam tomando o próprio sujeito como objeto de satisfação.
Agora quero falar da depressão narcísica.
Primeiramente: por que NARCÍSICA?
Porque trata-se de um quadro depressivo causado por uma FALHA na instalação do narcisismo normal e saudável que toda pessoa precisa ter.
Narcisismo significa amor pelo próprio Eu. A palavra vem de Narciso, personagem da mitologia grega que se apaixonou pela própria imagem.
Todos nós precisamos de uma boa dose de amor pelo próprio Eu.
Mas esse amor não vem de fábrica. Ele precisa ser INSTALADO em nós na infância. E isso depende diretamente do comportamento dos nossos pais.
Eles precisam amar o nosso Eu ANTES de nós mesmos — a fim de nos “convencer”, por assim dizer, que esse Eu MERECE ser amado.
Ora, algumas pessoas infelizmente não têm essa sorte.
Elas não foram tratadas como “sua majestade o bebê”, como diz Freud, e, por isso, não “aprenderam” a amar o próprio Eu.
Resultado: passam a vida inteira com aquela sensação difusa de que não têm muito valor, de que não fazem a menor diferença no mundo, de que são descartáveis…
Assim, a depressão dessas pessoas é marcada não pela culpa, mas pela APATIA, pela falta de disposição para viver, por uma sensação de “tanto faz”…
Perceba: esse tipo de depressão é narcísica não por conta de um excesso de narcisismo, mas pela FALTA dele.
O deprimido narcísico pode se parecer em muitos aspectos com o deprimido neurótico.
Ambos podem ser desanimados, desleixados com a própria imagem, não ter muito autocuidado e nem muitos desejos, ambições e projetos.
Porém, no caso da depressão narcísica, esses sintomas não são a expressão de um movimento autodestrutivo que indica o retorno da agressividade reprimida.
Não!
O deprimido narcísico não fica deprimido porque quer se destruir, mas porque lhe faltam os alicerces necessários para se CONSTRUIR.
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