A origem da crença no “pensamento positivo”

Filme "Click", com Adam Sandler

A crença de que pelo nosso mero pensar seremos capazes de fazer a realidade “conspirar” a nosso favor não é nova na história da humanidade. Outrora associada ao favor de deuses e outras entidades sobrenaturais, atualmente essa crença assume uma roupagem pseudocientífica em livros como “O Segredo”.

De acordo com os gurus do “pensamento positivo” todos nós temos a capacidade de alterar a realidade em nosso benefício, sem precisar necessariamente agir sobre ela. Até gente que se diz cristã e que supostamente têm fé num Deus da graça que não exige sacrifícios de nenhuma natureza embarcam nessa espécie de fé na própria fé.

Um psicanalista contemporâneo de Freud chamado Sándor Ferenczi tem uma explicação muito interessante para essa história de “Mentaliza que dá certo.”. Segundo ele, todos nós já passamos por um estágio do desenvolvimento psíquico em que acreditávamos piamente que tínhamos a capacidade de modificar a realidade apenas com nossos pensamentos. Ferenczi chamou essa fase de “período dos pensamentos e palavras mágicas”. Tal estágio ocorre no momento em que estamos começando a aprender a falar. Trata-se de um momento epifânico para a criança, pois ela percebe que não precisa mais chorar ou gestos para ser atendido pelo ambiente em suas necessidades. Basta emitir determinados sons de uma determinada maneira. É mais econômico!

Por outro lado, ao mesmo tempo em que aprendemos a falar, vamos aprendendo também a pensar com palavras, de modo que ao experimentarmos uma determinada necessidade passamos a articular mentalmente as palavras ou “quase-palavras” que precisaremos emitir para sermos atendidos. No entanto, o ambiente, especialmente aquele composto por pessoas cuidadosas, acolhedoras e empáticas, raramente precisa esperar que o bebê fale ou balbucie para que suas necessidades sejam atendidas. O ambiente suficientemente bom, como diria Winnicott, meio que “adivinha” prontamente as necessidades do bebê. Conclusão: a criança inevitavelmente passa a acreditar que foram os seus pensamentos que levaram o ambiente a atendê-la. Ferenczi chamou essa crença de “ilusão de onipotência”.

Nesse sentido, a tese do “pensamento positivo” seria, portanto, a expressão coletiva (ainda que racionalizada ou com uma roupagem religiosa) de uma regressão a esse estágio do desenvolvimento psíquico. Como Ferenczi mostra no artigo “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios“, que está no volume II das suas Obras Completas, o desenvolvimento do bebê prossegue na direção do reconhecimento da realidade externa como uma dimensão autônoma em relação aos seus pensamentos. Em outras palavras, nós gradativamente vamos nos dando conta de que não basta “mentalizar” para que as coisas aconteçam. É necessário falar, agir e, não raro, resignar-se e ter paciência, pois nem sempre será possível alcançar o que desejamos.

Dependendo do ambiente no qual foram criadas, certas crianças demorarão mais ou menos para reconhecerem essa independência do mundo externo. Assim, aquelas pessoas que foram muito “mimadas” na infância, ou seja, que não precisaram se esforçar muito para terem suas necessidades atendidas e, portanto, tiveram mais resistência para abandonar a crença na força de seus pensamentos, podem se tornar excessivamente otimistas, indolentes e não terem muito discernimento acerca da quantidade de esforço necessário para alcançarem seus objetivos. Por outro lado, aquelas que foram educadas num ambiente excessivamente duro ou hostil podem desenvolver um pessimismo crônico e tornarem-se céticos, desconfiados e sem esperança em relação ao mundo e à sua própria potência. Ambos os casos caracterizam quadros de imaturidade emocional.

Mas voltando diretamente ao tema do “pensamento positivo”, podemos caracterizá-lo à luz da interpretação proposta por Ferenczi como uma recusa infantil à aceitação da realidade como autônoma e uma regressão à ilusão de onipotência própria do bebê. O recrudescimento dessa crença na atualidade pode ser atribuído, talvez, a uma dificuldade generalizada de lidar com uma realidade tão mutante e não raro caótica que caracteriza o mundo contemporâneo.

Antes de encerrar este artigo quero deixar claro que não estou advogando em favor de uma atitude pretensamente fria e objetiva diante da vida, até porque tal postura é impossível de ser adotada integralmente (a não ser por sociopatas, provavelmente). Parece-me óbvio que uma postura de confiança na nossa própria capacidade e de “torcida” por nós mesmos é saudável e, inclusive, nos ajuda a alcançar nossas metas. Afinal, é plausível supor que uma pessoa autoconfiante e que acredita verdadeiramente que é capaz de obter o emprego desejado terá muito mais probabilidade de ser aprovado num processo seletivo do que alguém que participa do mesmo processo com um medo enorme de não ser selecionado. No primeiro caso temos uma pessoa com BOM ÂNIMO e AUTOCONFIANÇA; não se trata de “pensamento positivo”. O indivíduo não está depositando sua fé numa suposta conspiração do universo a seu favor, mas sim em suas próprias competências.

Sugestões de leitura:

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[Vídeo] Recado Rápido #07 – Agressividade é vida

Muitas pessoas acreditam que a agressividade é uma atitude a ser sempre evitada ou, no mínimo, dominada. Creem que um indivíduo psicologicamente maduro é aquele capaz de lidar com problemas e conflitos de forma não-agressiva. Em suma, associam sempre agressividade a violência e a descontrole emocional. Neste oitavo recado rápido, demonstro que a agressividade não possui apenas uma faceta destrutiva e que sua expressão pode ser sinal de saúde e não de adoecimento emocional.


Quando o analista não se apaga (parte 1)

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Qualquer pessoa minimamente versada em psicanálise sabe que Freud inventou o método psicanalítico principalmente para obter êxito no tratamento da histeria. As experiências com a hipnose e com o método catártico realizadas em parceria com Breuer já haviam revelado a ele a natureza dos enigmáticos sintomas histéricos. Tratava-se, na verdade, de substitutos de desejos, pensamentos e fantasias que haviam sido excluídos da consciência pelo próprio indivíduo. A hipnose e o método catártico também haviam mostrado que quando se trazia os conteúdos reprimidos novamente para a consciência, os sintomas tendiam a desaparecer, pois perdiam sua função de substituir o material recalcado. Como já expliquei em outro texto, a psicanálise foi inventada justamente porque esse processo de trazer os conteúdos reprimidos novamente para a consciência não é nada fácil na medida em que sofre uma forte resistência da parte do ego.

Contudo, apesar de ter proposto um método novo para o tratamento da histeria (e de outras neuroses), Freud continuou durante um bom tempo almejando o mesmo objetivo de antes: levar o sujeito a preencher as lacunas de seu psiquismo produzidas pelo processo de recalcamento. Isso fez com que o tratamento psicanalítico se concentrasse naquilo que o paciente diz (e não diz) e nas eventuais interpretações do analista desses ditos e não-ditos. A regra da associação livre e a técnica da atenção flutuante, por exemplo, são procedimentos que visam justamente permitir que o material inconsciente possa aflorar. Assim, podemos dizer que o foco do tratamento são os conteúdos que emergem ao longo das sessões.

Nesse contexto, a relação entre paciente e analista é vista como um elemento potencialmente perturbador do processo de revelação do inconsciente. Por isso, Freud recomenda que o analista se mantenha neutro, tal como um químico diante de um tubo de ensaio. As possíveis demandas de apoio, cuidado e amor feitas pelo paciente não devem ser atendidas, mas interpretadas, na medida em que são vistas apenas como reedições de demandas feitas originalmente às figuras parentais. Em outras palavras, o analista não deve se colocar no tratamento como uma pessoa se relacionando com outra. Pelo contrário, deve apagar-se a fim de que apenas o inconsciente possa se fazer presente.

Diversos analistas pós-freudianos, dentre eles Ferenczi e Winnicott, perceberam que para muitos pacientes, o apagamento do analista não era nada terapêutico. No tratamento desses pacientes, a relação com o analista seria tão ou mais relevante que a análise do material verbalizado. Para Winnicott, por exemplo, alguns pacientes neuróticos (histéricos, obsessivos e fóbicos), a despeito da gravidade de seus sintomas, possuem a segurança suficiente para mergulharem na investigação do inconsciente sem que o analista precisasse fazer nada. Nesses casos, a atitude fria e neutra do analista não exerceria influência significativa no tratamento, podendo até favorecer o trabalho.

Por outro lado, existem pacientes que sofrem de patologias cuja raiz não está no recalque de determinados conteúdos psíquicos, mas em distúrbios experimentados nos estágios mais precoces do desenvolvimento emocional. Na análise desses indivíduos, a relação com o analista é trazida para o primeiro plano. Na medida em que os sintomas que apresentam não são, em sua maioria, substitutos de conteúdos recalcados, tais pacientes não se beneficiam de uma análise baseada apenas na associação livre e na interpretação. As manifestações patológicas que trazem à clínica estão ligadas a traumas vivenciados em estágios muito primitivos de sua história e provocados por falhas do ambiente. Em outras palavras, a origem do sofrimento desses pacientes está ligado a problemas na relação com os primeiros objetos. Em decorrência, no tratamento, o elemento determinante não poderá ser outro que não a relação com o analista. Nesse caso, o analista será obrigado a abandonar sua posição habitual de neutralidade e abstinência já que esse tipo de atitude, como dissemos, faz com que ele se apague em vez de se fazer presente.

De que forma o analista deve se fazer presente? Se o foco do tratamento passa a ser a relação e não os conteúdos, de que forma o analista deve se comportar? E quais serão os novos objetivos do tratamento já que não se trata mais de preencher as lacunas produzidas pelo recalque?

A psicologia do “bonzinho”

Betty Draper

Você certamente deve conhecer pessoas que se encaixam no perfil que irei descrever abaixo. Talvez você até seja uma delas. Trata-se daqueles indivíduos aos quais o senso comum se refere como “bonzinhos”. O fato de essa alcunha ser formulada no diminutivo já denota suficientemente uma característica básica dessas pessoas: o modo afetado com que expressam os atributos que tendemos a associar à bondade. O bonzinho é uma caricatura do ideal de bondade construído pela civilização ocidental. Ele é cordial em excesso, solícito em excesso, prestativo em excesso, humilde em excesso… Enfim, o bonzinho manifesta em suas atitudes e comportamentos todas as características superficiais que são reputadas a um indivíduo supostamente bom. Contudo, não possui o tempero do equilíbrio que torna a bondade um valor precioso.

Neste texto pretendo fazer algumas despretensiosas ilações e formular algumas hipóteses que podem nos ajudar a compreender a dinâmica psicológica subjacente ao modo “bonzinho” de ser. Como o leitor poderá perceber, farei um uso bastante livre de certos conceitos da teoria psicanalítica, sem a preocupação de demonstrar filiação a alguma orientação teórica específica.

Insegurança

Os pais, cônjuges, familiares e amigos mais próximos dos indivíduos “bonzinhos” percebem com muita clareza que se trata de pessoas geralmente muito inseguras. A despeito da devoção que demonstram pelo outro em muitas ocasiões – o que poderia a princípio indicar amadurecimento emocional – os “bonzinhos” frequentemente sofrem com o medo de não serem aceitos, amados ou reconhecidos pelo outro. Nesse sentido, quando se mostra excessivamente prestativo ou incapaz de negar um favor a alguém, o “bonzinho” não está dando mostras de que não é uma pessoa egoísta ou avarenta. Na maior parte das vezes, o “bonzinho” não ajuda o outro por uma decisão espontânea e consciente de fazê-lo, mas sim pelo medo de não ser amado pelo outro. Em decorrência, as relações interpessoais do “bonzinho” tendem a ser profundamente narcísicas, pois ele está o tempo todo tentando “resolver” a sua própria insegurança.

O temor de perder o amor do outro é tão imperativo que as demandas alheias acabam sendo tomadas pelo “bonzinho” como obrigações. Isso faz com que as pessoas com as quais o ele não possui vínculos muito fortes acabem acreditando que estão lidando apenas com uma pessoa muito prestativa e generosa.

Podemos concluir, portanto, que o “bonzinho” está muito mais preocupado com o seu próprio eu, ou melhor, com as fragilidades de sua estrutura egóica, do que com o outro. Em outras palavras, o que está por trás dos comportamentos do “bonzinho” é exatamente o oposto do que sua conduta parece indicar à primeira vista. Com isso, não estou defendendo a tese de que o “bonzinho” encarne a figura do canalha egoísta que ajuda os outros por um mero exercício de “marketing pessoal”. O funcionamento subjetivo do “bonzinho” não é perverso, mas da ordem do que ficou conhecido em psicanálise como “patologias narcísicas”. Devotar-se ao outro, ter dificuldade para confrontá-lo e para resistir às suas demandas são comportamentos que se impõem ao “bonzinho” com a força de atos compulsivos. Ele só consegue fazer frente ao medo de perder o amor do outro, sujeitando-se, tornando-se um servo resignado.

Máscara

Um conceito que talvez nos possa ser de grande utilidade para a compreensão da etiologia da conduta “boazinha” é a noção de “falso self” proposta por Winnicott. Do ponto de vista desse autor, quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico com o bebê nas fases iniciais do desenvolvimento, a criança pode desenvolver um falso self a fim de assegurar sua sobrevivência psíquica. Quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico? Quando é invasivo ou negligente, ou seja, quando não atende as necessidades do bebê em seu ritmo. Nessas situações, o bebê é obrigado a abrir mão de sua espontaneidade para se comportar de acordo com o ritmo do ambiente. Essa maneira artificial de se comportar é uma das facetas do que Winnicott chamou de “falso self”.

Ora, em linhas gerais não é isso o que ocorre com o “bonzinho”? Se levarmos em conta o modo subserviente com que lida com as pessoas, podemos inferir que inconscientemente o “bonzinho” experimenta o outro como hostil ou, no mínimo, como incapaz de resistir a uma negativa. Assim, o “bonzinho” dá mostras de não ter incorporado uma referência de cuidado suficientemente bom capaz de produzir nele o sentimento de segurança que dá sustentação ao eu. Por essa razão, é como se o indivíduo precisasse segurar a si mesmo o tempo todo e proteger-se do abandono do outro, objetivos que só podem ser alcançados por meio da construção de uma identidade artificial: o modo “bonzinho” de ser.

[Vídeo] Realização Pessoal

Você já deve ter ouvido algum palestrante argumentando que o trabalho deve ser capaz de nos proporcionar “realização pessoal”. Contudo, raramente se faz menção ao significado dessa expressão, de modo que “sentir-se realizado” se mostra um ideal vago e abstrato. No vídeo abaixo proponho uma interpretação bastante específica para a noção de “realização pessoal” baseada nas concepções teóricas de Winnicott, psicanalista que identificou a necessidade de “sentir-se real” como uma das tendências mais básicas do indivíduo.

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[Vídeo] Ética, medo e confiança

Como nos tornamos seres morais? Essa questão que tradicionalmente foi objeto da filosofia, também foi abordada pela psicanálise. Para Freud, a moralidade seria necessariamente proveniente de fora do indivíduo já que “naturalmente” seríamos dotados apenas de pulsões. Do ponto de vista freudiano, os responsáveis por nos transmitir as regras e princípios morais seriam os pais ou cuidadores e o principal fator que faria com que introjetássemos a moralidade seria o medo de perder o amor dos pais. No vídeo abaixo faço uma crítica a esse raciocínio demonstrando que ele só tem validade para os casos de crianças emocionalmente doentes.


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Nascemos condenados à cadeia significante?

the-little-baby-hand_422_18073O estruturalismo nasceu como uma corrente teórico-metodológica que supostamente legitimaria o estatuto científico das chamadas Humanidades, isto é, a psicologia, a antropologia, a sociologia, dentre outros saberes cujo objeto está diretamente ligado à condição humana. Na etapa inicial de seu ensino nos anos 1950, o psicanalista Jacques Lacan estava bastante entusiasmado com a proposta estruturalista, utilizando-a como uma espécie de pano de fundo para sua reinterpretação do pensamento freudiano, o famoso projeto de “retorno a Freud”.

Como se sabe, o estruturalismo está baseado em duas premissas básicas, a saber: (1) a de que um elemento de um determinado universo não possui significação em si mesmo, ou seja, seu sentido depende dos demais elementos do sistema (estrutura) aos quais se encontra vinculado e (2) a de que essa estrutura ou sistema pode ser inferida dos fenômenos empíricos (pleonasmo intencional) na medida em que é inconsciente.

Primazia do discurso do Outro?

Pois bem, ao aplicar tais premissas à teoria psicanalítica, Lacan chega à paradoxal tese que sustenta, ao mesmo tempo (daí o paradoxo), a existência do sujeito e a determinação desse sujeito pela linguagem. Trata-se de uma ideia que foi sintetizada na famosa fórmula “o sujeito é aquilo que um significante representa para o outro significante.”. Dito de modo mais simples, o que Lacan quis expressar com essa afirmação é a tese de que o lugar que cada um de nós ocupa na existência seria pré-determinado.

Do ponto de vista lacaniano, isso aconteceria porque nasceríamos em um mundo já estruturado não só materialmente, mas também e, sobretudo, culturalmente. Em outras palavras, cairíamos de paraquedas em um mundo já abarrotado de discursos, desejos e interesses. Só nos restaria, portanto, a opção de nos adequarmos, nos adaptarmos, nos submetermos a esse ambiente já organizado, inserindo-nos no lugar já preparado de antemão pelo desejo do Outro para nos receber.

Lacan, a meu ver, não estava de todo equivocado, a não ser no que diz respeito a certo fatalismo que pode ser depreendido de sua teorização. Os lacanianos certamente poderão discordar do que vou dizer, reivindicando como fundamento de sua réplica o último estágio do ensino do psicanalista francês em que a ênfase teria sido posta no registro do real, o qual excederia o alcance da linguagem. Em decorrência, não haveria uma pré-determinação tão rígida assim.

Creio, não obstante, que a formulação “o sujeito é o que um significante representa para outro significante” perpassa todo o ensino de Lacan e carrega de maneira implícita a ideia de que não existe espontaneidade e que o exercício da criatividade é sempre reativo, ou seja, sempre exercido a partir da primazia do significante. Dito de outro modo, o desejo do Outro, a linguagem, a cadeia significante seria o elemento primário, já que o próprio sujeito é visto puramente como um efeito do funcionamento da linguagem.

A espontaneidade como anterior à estrutura

Donald Woods Winnicott, por seu turno, ao postular a ideia de um verdadeiro self existente em cada um de nós de maneira potencial ou virtual e que ao longo da existência pode ser atualizado ou permanecer potencial, me parece dar ensejo a uma visão menos passiva e reativa da subjetividade.

De fato, Winnicott não ignora que o fato de que o mundo já se encontra discursivamente estruturado antes de nascermos e de que nossos pais já possuem uma série de desejos a nosso respeito que podem se configurar para nós como uma espécie de pré-determinação. Winnicott não é ingênuo. Contudo, a diferença crucial existente entre o ponto de vista do psicanalista inglês em relação a Lacan diz respeito à primazia que Winnicott reconhece na espontaneidade do bebê face ao desejo do Outro.

Em outras palavras, para Winnicott, embora o discurso do Outro exista, ele é secundário em relação aos gestos espontâneos do bebê. Nesse sentido, primeiro o indivíduo agiria, sentiria, experimentaria o ambiente afetivo à sua volta, ou seja, a própria mãe enquanto condições sensórias de cuidado, para só depois (não cronológica, mas logicamente) lidar com o aparelho cultural pré-organizado.

Além disso, do ponto de vista winnicottiano, o desejo do Outro não engolfaria o sujeito fazendo dele meramente um efeito da cadeia significante. Justamente por não reduzir a subjetividade ao domínio de uma linguagem vista como estrutura, Winnicott pode reivindicar a ideia de que a entrada no registro simbólico pode se dar de modo ativo, criativo em continuidade com os gestos espontâneos.

O que são espaço e objetos transicionais? (final)

BrincadeiraAté aqui vimos que até aproximadamente os seis meses de vida, o bebê se encontra em uma condição de absoluta dependência do cuidado materno. Essa circunstância associada à preocupação materna primária, o estado psicológico particular experimentado pela mãe logo após o nascimento do bebê, faz com que o infante tenha todas as suas necessidades satisfeitas de modo quase perfeito. Por conseguinte, ainda não é capaz de reconhecer a existência do mundo externo, pois os objetos que satisfazem suas necessidades parecem surgir magicamente à sua volta, como se fossem produzidos por seu próprio desejo.

Mais ou menos após os seis meses, a mãe sai do estado de preocupação materna primária, o que ocasiona o surgimento de um descompasso entre o surgimento das necessidades do bebê e o atendimento dessas necessidades por parte do ambiente. Nesse sentido, a realidade externa não mais se adapta aos desejos da criança de maneira imediata e com a quase perfeição de outrora. Em decorrência, o bebê é forçado a reconhecer o mundo externo, até porque já não bastará esperar pela vinda da mãe, mas será preciso chamar a atenção dela.

Em sua experiência como pediatra, Winnicott observou que coincidentemente nesse mesmo período em que a criança está “descobrindo” a realidade externa, o bebê geralmente se apega intensamente a um determinado objeto (o qual geralmente lhe é oferecido pela própria mãe) e/ou passa a repetir com frequência determinados comportamentos (como, por exemplo, a emissão de determinados sons com a boca). No caso do apego a objetos, Winnicott notou ainda outra particularidade: o bebê só consegue dormir levando-o consigo para o berço. Como exemplo, podemos citar os casos bastante comuns de crianças que passam o dia todo segurando (e, em muitos casos, cheirando) pedaços de pano – o que demonstra que tais objetos não precisam ser necessariamente brinquedos.

Através da observação direta dos bebês articulada à compreensão do desenvolvimento infantil, Winnicott interpretou o significado desses objetos e comportamentos da seguinte forma: se o bebê se apega de forma tão vigorosa ao objeto e precisa dele para dormir, isso mostra que o objeto está exercendo uma função fundamental no psiquismo do bebê. Que função seria essa? Ora, quando se leva em conta que o grande “problema” com o qual o bebê está tendo que lidar após os seis meses de vida diz respeito ao afastamento gradual da mãe e, por consequência, o reconhecimento dela como uma pessoa, logo a função do objeto ao qual o infante se apega se torna mais clara. Se até então a mãe era tudo para o bebê (dependência absoluta), agora que ela começa a “falhar” (dependência relativa), eis que um dado objeto adquire para a criança um significado curiosamente absoluto – tanto é que o bebê precisa dele para sentir-se seguro e dormir. O objeto, portanto, parece exercer, para o infante, a função de substituto da mãe.

Nesse sentido, o pedacinho de pano que a criança segura e cheira não é, para ela, apenas um pedacinho de pano, mas uma espécie de “encarnação” da mãe. Em outras palavras, embora se trate de um objeto externo ao bebê, com todas as características materiais próprias de um pedaço de pano, ele é ao mesmo tempo, um objeto interno, na medida em que subjetivamente o bebê o experimenta como personificação do cuidado materno. O objeto não é meramente externo porque, caso o fosse, não teria tamanha importância para a criança, afinal, do ponto de vista de um observador externo, trata-se tão somente de um simples pedaço de pano. Por outro lado, o objeto também não é totalmente interno, pois apresenta toda uma materialidade que os objetos internos não possuem.

Estamos, portanto, diante de um paradoxo: como o pedaço de pano pode ser um objeto externo e interno ao mesmo tempo? Em vez de tentar resolver essa aparente contradição, Winnicott preferiu enxergar o fenômeno do ponto de vista do bebê e simplesmente aceitar o paradoxo, criando o conceito de objeto transicional. Mas onde estão situados os objetos e fenômenos transicionais? Se eles são simultaneamente externos e internos, logo não podem estar localizados nem na realidade interna nem na realidade externa, não é mesmo? Por isso, Winnicott precisou forjar um segundo conceito: o de espaço transicional, um território intermediário entre os mundos interno e externo.

O psicanalista inglês também chamou o espaço transicional de espaço potencial porque, para ele, é essa a área em que se desenvolve a criatividade e a produção cultural enraizadas nas brincadeiras de criança. Para Winnicott, o brincar seria a evolução natural do uso que os bebês fazem dos objetos e fenômenos transicionais. Nas brincadeiras, as crianças investem conteúdos de seu mundo interno em objetos externos, fazendo, por exemplo, de um simples pedaço de madeira um guerreiro valente. A partir de então, já não existem o pequeno pedaço de madeira na realidade externa e nem a fantasia de guerreiro valente no mundo interno da criança. Ambos estão amalgamados em um objeto único ao mesmo tempo interno e externo, um objeto transicional.

Para Winnicott, um brinquedo como esse vem à luz no mesmo espaço potencial em que um quadro, uma música ou um livro são produzidos, território em que o interno e o externo se encontram e se fundem. Portanto, a criação e a produção cultural podem ser vistas como brincadeiras de gente grande.

E pensar que tudo começou por saudade da mãe…

O que são espaço e objetos transicionais? (parte 1)

Unidade mãe-bebêA maioria de nós está consciente de que é uma coisa distinta do restante do mundo. Com exceção de alguns psicóticos e de viciados em smartphones que consideram o dispositivo como mais um órgão do corpo, a maior parte das pessoas acredita saber diferenciar muito bem a realidade externa da realidade interna. Tal discernimento, contudo, não nos vem de fábrica, isto é, não se trata de um saber inato.

Através da observação de bebês, como pediatra, e da escuta de pacientes, como psicanalista, Donald Winnicott demonstrou que até aproximadamente os seis meses de vida nenhum de nós sequer suspeitava que exista uma separação entre nós mesmos e o mundo externo. E isso não ocorre porque nessa época ainda não possuíamos uma estrutura cerebral suficiente, mas sim porque até os seis meses a maioria de nós vivia em um mundo mágico que Winnicott chamou de “dependência absoluta”.

Trata-se da fase imediatamente posterior ao nascimento em que o bebê depende absoluta e integralmente dos cuidados da mãe (ou de alguém que a substitua) para que consiga sobreviver não só física como também psicologicamente. Winnicott costumava dizer que nessa fase o bebê enquanto tal não existe posto que, caso exista, estará sempre junto a uma mãe. Portanto, pode-se dizer que até os seis meses o que existe de fato é uma unidade mãe-bebê.

Pois bem, em contrapartida às necessidades do bebê que lhe colocam em uma condição de dependência absoluta do outro, a maioria das mães, após o nascimento da criança, experimenta um estado subjetivo totalmente peculiar que Winnicott denominou de “preocupação materna primária”. A mãe passa a ter olhos só para o bebê e se identifica de maneira tão visceral a ele que se torna capaz de compreender suas experiências mais sutis. É impressionante, por exemplo, a capacidade que as mães nesse estado possuem de discernir acertadamente as causas das cólicas de seus filhos como se estivessem na pele deles. Winnicott considerava essa condição psicológica tão extravagante que dizia que, se ela fosse avaliada fora do contexto, poderia muito bem ser vista como uma doença psíquica!

Agora tente imaginar a situação de um bebê nos primeiros seis meses de vida: cheio de necessidades, mas inserido em um ambiente tão intensamente identificado a ele que é capaz até mesmo de adivinhar o exato momento em que surgem suas necessidades. Logo, se o bebê sente fome não precisará esperar muito tempo ou chamar a atenção do ambiente para se alimentar. Uma mãe em estado de preocupação materna primária conseguirá detectar que o bebê está com fome de modo quase imediato e irá amamentá-lo antes mesmo que a criança possa sequer pensar. Convenhamos: um ambiente como esse deve parecer um tanto mágico, afinal nele os objetos que queremos aparecem instantaneamente conforme o advento de nossas necessidades. O bebê sente fome e quase no mesmo instante um suculento seio cheinho de leite lhe aparece à frente! A conclusão óbvia à qual todo bebê chega nesse período pode ser descrita mais ou menos como “Uau! Não há nada para-além de mim! Tudo o que eu desejo se concretiza!”. A criança se vê, portanto, como onipotente, como um pequeno deus sem limites.

Trata-se, contudo, de um engodo provocado por um fator que todo ilusionista conhece e utiliza muito bem: o tempo. Com efeito, em função do estado peculiar de identificação com o bebê vivenciado pela mãe, ainda não há um intervalo temporal suficiente entre o surgimento da necessidade e o aparecimento do objeto para que o infante se dê conta de o objeto não é produzido pelo seu próprio desejo. No entanto, aproximadamente após os seis meses, a mãe começa gradualmente a sair da condição de preocupação materna primária, de modo que já não conseguirá adivinhar de maneira tão imediata as necessidades do bebê. Assim, o mundo mágico da onipotência infantil começa a desmoronar, pois, a partir de então, o bebê passará a ter necessidades e eventualmente precisará esperar um tempo considerável até que a mãe ou outra pessoa se aperceba. Esse é o início do processo de descoberta da realidade externa.

Ao perceber que o objeto não aparece mais imediatamente após desejá-lo, o bebê acaba discernindo que entre ele e o mundo há um descompasso, uma separação, um limite. Esses primeiros pensamentos a respeito das razões pelas quais o objeto não apareceu tão logo o desejara constituem os primórdios do que Winnicott chama de “mente” (conceito que o psicanalista inglês diferencia de “psique”).

Para que esse processo de descoberta da realidade externa não seja traumático, ou seja, para que o bebê não precise reagir artificialmente a ele e perca o rumo espontâneo do seu desenvolvimento emocional, é preciso que a mãe vá apresentando ao infante porções graduais do mundo externo a fim de que o bebê não perca a ilusão de onipotência de maneira abrupta. Em outras palavras, o ambiente precisa ser capaz de levar o bebê à consciência de que não basta desejar para que as coisas aconteçam, mas, ao mesmo tempo, deve fazê-lo perceber que isso não significa que deva abandonar seus desejos ou deixar de expressá-los. O fato de que o objeto não mais aparece imediatamente após a necessidade não significa que ele tornou-se a partir de então inalcançável.

De fato, o bebê só será capaz de realizar isso se o ambiente lhe permitir constituir um espaço de transição entre a realidade interna (onde estão os desejos e as memórias dos objetos do mundo mágico) e a realidade externa (onde estão os novos objetos concretos).

CONTINUA

[Áudio] Diagnóstico Diferencial: Neurose/Psicose

No dia 01 de junho, convidado pela Casa Unimed de Governador Valadares (MG), proferi a conferência “Diagnóstico Diferencial: Neurose/Psicose” no Seminário “Os Desafios da Saúde Mental na Modernidade: Diálogo entre a Psicologia e a Psiquiatria”. Em deferência àqueles que não puderam comparecer ao evento, publico abaixo o áudio completo da palestra.

Para baixar o arquivo em mp3, clique aqui.

Affectus #002 – Depressão: a retranca da vida

Affectus é meu novo projeto audiovisual. Trata-se de uma série de vídeos em que discuto temas ligados diretamente à clínica sobretudo as dificuldades e problemas emocionais que atualmente se apresentam com maior frequência em nossos consultórios.

Neste segundo episódio abordo a depressão a partir de um ponto de vista não-medicalizante, ou seja, que não encara a depressão como uma doença, mas sim como uma posição subjetiva. Utilizando uma analogia com o esporte mais popular do Brasil, o futebol, busco demonstrar no vídeo que a depressão é uma defesa empregada por determinados indivíduos para lidar com certos tapas na cara que a vida lhes dá.

Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 1)

Este texto tem o objetivo de apresentar sinteticamente a dinâmica relacional entre as instâncias psíquicas da chamada segunda tópica de Freud. Espero que, ao final, você consiga compreender como id, ego e superego se constituem e se relacionam e qual a relevância desses conceitos para a clínica psicanalítica.

Nessa primeira parte do texto você verá: (1) quais foram os equívocos teóricos cometidos pela psicologia geral na interpretação da segunda tópica e (2) qual deve ser a melhor estratégia metodológica para o entendimento adequado dos conceitos de id, ego e superego.

Pré-conceitos

Id, ego e superego são sem dúvida alguns dos conceitos psicanalíticos que mais se popularizaram tanto no âmbito da psicologia geral quanto no senso comum, sobretudo nos Estados Unidos. Essa constatação por si só já é suficiente para nos despertar certa curiosidade, afinal a maior parte das descobertas da psicanálise, a exemplo da sexualidade infantil, da etiologia sexual das neuroses e do pensamento inconsciente geralmente foi recebida com um alto grau de resistência, principalmente entre os americanos.

As noções de id, ego e superego, no entanto, tiveram um destino diferente e foram sossegadamente incorporadas ao vocabulário psicológico comum. Minha hipótese para explicar essa peculiaridade é justamente o que me motivou a escrever este texto.

Penso que se essa tríade conceitual foi aceita com tão pouca resistência pela psicologia geral isso se deve a uma má compreensão dos conceitos por parte dos não analistas e até mesmo por certos psicanalistas.

Com efeito, influenciada pelas analogias e metáforas didáticas que Freud elaborou para explicar como as três instâncias psíquicas interagiam, a psicologia geral acabou por considerar tais conceitos como meros nomes psicanalíticos para três dimensões da experiência humana milenarmente conhecidas e que não precisaram da psicanálise para serem trazidas à luz, a saber: as paixões, a razão e a moral. Assim, o id seria o conceito representativo das paixões, o ego o da razão e o superego o da moral. Você mesmo, leitor, provavelmente já deve ter lido tais equivalências em algum livro de psicologia geral ou as ouvido de algum professor que não era psicanalista.

Entretanto, asseguro-lhe que mesmo uma leitura superficial da obra “O Ego e o Id” (texto em que Freud introduz as noções de id e superego e apresenta uma nova visão do ego) já é suficiente para que se perceba que reduzir id, ego e superego a representantes das paixões, da razão e da moral constitui-se em um grave equívoco teórico na medida em que, agindo dessa forma, não se faz referência justamente aos aspectos mais cruciais de cada conceito e que são justamente as novidades trazidas pela experiência da psicanálise.

Portanto, o que você lerá a seguir é uma tentativa de explicar em conjunto a tríade id, ego e superego a partir dos fenômenos e experiências subjetivas que cada conceito pretende descrever. Ao final, você será capaz de perceber que somente se nos detivéssemos aos aspectos mais superficiais dos conceitos seria possível estabelecer uma analogia entre id e paixões, ego e razão e superego e moral. Uma análise aprofundada nos leva inevitavelmente a considerar tais noções como instrumentos teóricos para a compreensão de realidades subjetivas singulares, que não necessariamente têm a ver diretamente com paixões, razão e moral.

Fazendo a pergunta correta

Toda vez em que queremos entender com certo rigor algum conceito teórico, o procedimento metodológico mais correto não é se perguntar pelo significado do conceito, mas antes pelas razões que levaram o autor em questão a introduzi-lo. Em outras palavras, a pergunta correta a ser feita perante um conceito é: “Por quê?” e não “O que é?”. Frequentemente, ao adotarmos essa estratégia, deparamo-nos com os problemas e impasses empíricos e/ou teóricos enfrentados pelo autor, os quais são justamente o que motivou a produção de um novo conceito ou a reformulação de ideias anteriores.

Os conceitos de id, ego e superego não fogem a essa regra. Freud os elaborou para resolver problemas. No caso dele, para dar conta de achados clínicos inusitados e limitações verificadas nas noções teóricas que até então vinha utilizando. Nesse sentido, para compreender de fato o essencial dessa tríade conceitual freudiana, é preciso que nos façamos o seguinte questionamento: “Por que, afinal de contas, Freud precisou criar os conceitos de id e superego e reformular a noção já existente de ego?”.

Sugestões de leitura:

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Por que muitos adolescentes atravessam uma fase de excessiva timidez em relação ao sexo oposto?

Diferentemente do que insistem em dizer os médicos e psicólogos, de acordo com o saber psicanalítico (que, a propósito, é derivado da clínica), a adolescência não é o primeiro momento de manifestação da sexualidade.

Guerra e paz
Freud demonstrou que a sexualidade já se faz presente desde o nascimento e, sobretudo, nos primeiros cinco anos de vida se apresenta de modo bastante intenso. Nesse primeiro momento de irrupção da pulsão sexual, a libido circula predominantemente por zonas do corpo que estão mais diretamente ligadas às necessidades básicas do indivíduo, a saber: a boca e o ânus. É só na puberdade que os órgãos genitais irão adquirir proeminência como zonas de excitação sexual e, ainda assim, por uma necessária intervenção da cultura.

Nesse sentido, o período da adolescência testemunha um segundo movimento de expressão aguda da pulsão sexual. Entre mais ou menos os cinco ou seis anos de idade e a puberdade (por volta dos dez ou onze anos) estabelece-se um período que Freud chamou de “latência”, pois durante essa faixa de tempo a pulsão sexual estaria num período de relativa calmaria, permitindo ao sujeito internalizar de modo tranqüilo os ensinamentos morais e educacionais que lhe são impostas pelos pais e pela sociedade. Na adolescência, esse período de “trégua” da pulsão sexual é abruptamente desfeito e a sexualidade retoma suas armas com uma força tão grande que chega a assustar o jovem que, em função do período de latência, esquecera-se de que em seu corpo habitava tamanha volúpia.

“Por isso essa força estranha…”

Esse retorno súbito da pulsão sexual, sem aviso prévio, é um dos motivos que leva o adolescente a se sentir inadequado, desconfortável, envergonhado e, por conta disso, a refugiar-se, muitas vezes, numa atitude de isolamento e timidez. Ao ser tomado de assalto por aquela estranha força que curiosamente advém de si mesmo e que traz consigo uma série de alterações no corpo (pêlos, menstruação, crescimento dos seios etc.) o adolescente se sente como se estivesse o tempo todo nu. Isso ocorre porque a pulsão se manifesta de modo tão intenso que começa a parecer ameaçadora, de modo que a imagem egóica que o sujeito havia constituído até então para si torna-se frágil. A sensação de nudez perene é uma das formas possíveis de elaboração pela via da fantasia da da insegurança gerada por tais alterações subjetivas.

Fantasmas de amor

No entanto, um número grande de adolescentes experimenta um retraimento muito mais severo em relação ao sexo oposto e isso está ligado não tanto à segunda irrupção ameaçadora da pulsão sexual, mas à primeira. Explico: no advento da pulsão sexual na infância, dissemos que a libido está bastante fixada na boca e no ânus, que são zonas do corpo ligadas à satisfação de necessidades fisiológicas do indivíduo.

No entanto, para que o pequeno infante pudesse se satisfazer sexualmente a partir dessas zonas, outras pessoas tiveram que se fazer presentes na vida do bebê. Que pessoas são essas? A mãe, o pai e/ou outros que estivessem cuidando do bebê na época. Uma dessas outras pessoas forneceu o seio ou algum substituto para a satisfação da necessidade de alimentação e, ao mesmo tempo, estimulou a mucosa da boca do bebê fazendo com que ele obtivesse um prazer a mais, um prazer que não era o da saciedade por ter sido alimentado, mas um prazer ligado propriamente à estimulação da mucosa da boca, um prazer, portanto, sexual. Embora esse prazer fosse essencialmente autoerótico, ele passou a estar irremediavelmente ligado à pessoa que forneceu o objeto para que ele fosse sentido. Lembrando que essa pessoa geralmente é a mãe. O mesmo ocorre com o prazer ligado à satisfação da necessidade de excreção. Conquanto esse prazer, para ser sentido, independa de outra pessoa, afinal a estimulação do ânus é feita pelas próprias fezes, o pequeno animal civilizado humano depende de alguém que limpe seu bumbum, o que faz com que o prazer de defecar passe também a estar ligado a uma pessoa. Lembrando que geralmente quem faz a higiene do bebê é a mãe ou o pai.

O que quero dizer com tudo isso? Que na infância a pulsão sexual está geralmente associada a pessoas bastante específicas: os pais! Nesses primeiros momentos, tradicionalmente chamados de fase oral e fase anal, o sexo dos pais não é relevante, pois o mais importante é o prazer localizado que o bebê sente. No entanto, por volta dos cinco anos, a criança começa a se fazer perguntas acerca da diferença entre homem e mulher e, concomitantemente, a se interessar sexualmente e ter fantasias com o genitor do sexo oposto, iniciando uma relação de rivalidade com o genitor do mesmo sexo. Trata-se do que Freud chamou de “complexo de Édipo”.

Curiosamente, nesse trágico momento, em que as fantasias sexuais em relação ao genitor do sexo oposto começam a se intensificar, a pulsão sexual resolve proclamar trégua e se inicia o período de latência! Como a sexualidade, durante toda a latência, estará num estado de calmaria, o sujeito inevitavelmente recalcará (esquecer-se-á deliberadamente) a paixão que nutria pelo genitor do sexo oposto. Em outras palavras, na latência, a menina não mais se lembrará do seu sonho de casar-se com o papai e tampouco o garoto se recordará dos sonhos que nutria de ocupar o lugar do papai na cama da mamãe.

Quando chega a adolescência e a pulsão sexual novamente se levanta, para-além de ser invadido por tamanha força libidinal, o jovem se vê às voltas com um terrível impasse: por um lado, a cultura lhe diz que ele deve se engajar num processo de busca por alguém que seja ao mesmo tempo do sexo oposto e de fora do seu círculo familiar. Por outro, a retomada da pulsão sexual traz consigo os antigos objetos de amor dos tempos de criança, ou seja, os pais e, especialmente, o genitor do sexo oposto. A diferença é que agora o jovem já está com a proibição do incesto inculcada na sua cabeça, de modo que em vez de experimentar o intenso desejo sexual que nutria pelo genitor do sexo oposto aos cinco anos de idade, ele sente nojo, vergonha, dor psíquica. Ao mesmo tempo, e para desespero do adolescente, como o seu referencial de objeto de amor é o genitor do sexo oposto, toda vez que ele olha para alguém que lhe desperta desejo sexual o que ele vê é o genitor do sexo oposto, ou seja, incesto!

É óbvio que tudo isso não acontece de modo consciente. Portanto, não tente perguntar a nenhuma adolescente se ela fica vendo a imagem do pai em todo garoto pelo qual se interessa. Ela provavelmente lhe dirá que isso é ridículo e que se sente apenas insegura e com medo de levar um fora, mas sequer suspeitará que, por trás dessas racionalizações, há uma fantasia de incesto que ainda roda com bastante força em seu inconsciente. Não obstante, a clínica com sujeitos adolescentes (e adultos) demonstra que essa inferência é plenamente justificada.

Tente, todavia, fazer um exercício mental. Tente se imaginar no inconsciente de um jovem de 13 anos que está apaixonado por uma colega de sala. Você verá que toda vez que ele se imagina ao lado da garota surpreende-se ao constatar que quem de fato está ao seu lado é sua mãe! Ora, não seria natural que esse adolescente não conseguisse sequer se aproximar da jovem?

Pois é exatamente isso o que acontece com inúmeros adolescentes. Sua timidez não é oriunda da situação atual em si, ou seja, ele não é tímido porque teme não conseguir conquistar a garota. Essa é uma modalidade já adulta de timidez. O adolescente não consegue sequer cortejar a garota por que ainda é assombrado pela imagem daquela que na infância fora a rainha de seus sonhos, a mãe. No inconsciente do jovem, a libido ainda está bastante aferrada ao objeto primitivo materno, de sorte que ainda demorará algum tempo até que ele possa contar com uma conta suficiente de libido para investir em outro objeto sexual. Alguns, sequer com a passagem do tempo, conseguem se desvencilhar do fantasma materno. Encontrá-los-emos, provavelmente, no divã.

Quer saber mais sobre adolescência na perspectiva da psicanálise? Adquira agora mesmo, por apenas R$ 17,91, Adolescência – ato e atualidade, de Bianca Bergamo Savietto, que é doutora em Teoria Psicanalítica. Veja a sinopse do livro:

Esta obra, fruto de uma pesquisa de mestrado em Teoria Psicanalítica, pretende explorar o incremento do fenômeno das passagens ao ato entre os sujeitos adolescentes. Partimos de um breve estudo sobre a especificidade do trabalho psíquico demandado na adolescência, o qual serve de base para uma reflexão sobre a revivência da situação de desamparo. A partir dessa reflexão, tentamos mostrar como uma eventual convocação do corpo, sob a forma do ato, possui caráter de resposta extrema, à qual o ego pode apelar diante de uma vivência interna de transbordamento pulsional, aliada a um estado de fragilidade narcísica. Tais aspectos, de natureza metapsicológica e psicopatológica, são também articulados com peculiaridades do contexto em que vivem hoje os adolescentes ocidentais. Buscamos demonstrar o quanto a dimensão de desamparo, com toda sua complexidade, tem sido determinante no incremento do fenômeno das passagens ao ato na atualidade. A análise dessa questão é desenvolvida tendo como pano de fundo primordial o âmbito privado da família.

O que é objeto a?

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Preâmbulo

Antes de dar início a essa explicação, quero deixar claro que não pretendo aqui esgotar o tema ou analisar pormenorizadamente todas as suas nuances e vertentes interpretativas. Trata-se apenas de uma tentativa de tornar o conceito de objeto a o mais claro possível para o público leigo e para aqueles que estão se iniciando no estudo da teoria de Jacques Lacan. Digo isso como resposta prévia a qualquer acusação do tipo: “o objeto a não se reduz ao que você diz”. Desde já quero dizer que concordo com tal objeção. De fato, o conceito de objeto a não se reduz ao que será escrito aqui. Não obstante, sou veementemente contra a tendência bastante presente no campo psicanalítico, notadamente na orientação lacaniana, de elevação de conceitos ao estatuto de entes quase místicos, inefáveis, para os quais qualquer tentativa de descrição estaria fadada ao fracasso. Em suma, o objeto a é apenas uma expressão verbal, forjada por Lacan com o objetivo de lhe auxiliar na caracterização e esclarecimento de determinadas dimensões da experiência humana.

Mas deixemos de prolegômenos e vamos direto ao assunto: a noção de objeto a talvez tenha sido a contribuição mais relevante de Jacques Lacan para a teoria psicanalítica. Ela pretende ser uma resposta psicanaliticamente legítima à seguinte pergunta: “Com qual objeto o ser humano se relaciona?”.

A descoberta de Freud

De fato, outros psicanalistas tentaram fornecer respostas para essa pergunta. No entanto, segundo Lacan, as respostas que eles deram não fizeram jus à grande descoberta de Freud. Que descoberta era essa? A descoberta de que diferentemente do restante da fauna do planeta, o animal humano não possui um objeto fixo com o qual saciar seu desejo sexual.

Não há nada de enigmático nisso. Para entender tal afirmação, basta lembrar-se do seguinte: apenas o homem sente tesão por sapatos, cores de cabelo, lábios carnudos, calcinhas, cuecas, brilhos nos olhos, vegetais, outros animais etc. A variação dos objetos que nos provocam tesão é quase infinita. Por outro lado, a sexualidade de um leão, de uma tartaruga ou de um cavalo-marinho não conta com tamanha plasticidade. Leão só sente tesão por leoa, touro por vaca, peixe por peixe! Há encaixe sexual nos animais (selvagens, diga-se de passagem. Quando se tornam domésticos, ou seja, quando entram em contato com o homem, a coisa muda – basta observar os cães).

Nos animais, há relação sexual. No homem há relações sexuais, mas nenhuma em que os dois parceiros estejam de fato interessados num e noutro. É por isso que Lacan dirá no Seminário 11: “Amo em ti, mais do que tu”. Sim, porque cada um está interessado não no outro em si, mas naquilo que no outro lhe provoca seu desejo! Essa foi a grande descoberta de Freud e o conceito de objeto a pretende ser uma forma de abordá-la teoricamente.

Freud aprendeu com as crianças e os perversos que a pulsão sexual não tem objeto. É isso o que os psicanalistas querem dizer quando afirmam que o ser humano é marcado por uma falta. Que falta é essa? É a falta de um objeto que esteja de acordo com o nosso desejo. Pelo fato de, no caso da espécie humana, esse objeto não existir, toda vez que nossa pulsão, essa fome de viver fundamental, se engancha em algum objeto nós temos a ilusão de que ele nos satisfará plenamente. Mas nos enganamos. Logo vem a decepção e nós vamos buscar outra coisa. É como se nosso desejo nunca pudesse ser satisfeito, mas apenas aguçado, ou, em outros temos, a gente só conseguisse ficar com tesão mas nunca saciá-lo completamente.

Nesse momento, o leitor pode se perguntar: “Tá, mas se então a pulsão não possui um objeto adequado, como sentimos tesão? O que provoca o nosso tesão? No animal é a imagem do parceiro, isto é, do objeto. Trata-se de uma experiência da ordem do instinto, uma experiência por assim dizer pré-ordenada. E em nós, humanos, o que provoca nosso desejo?” Lacan responderá dizendo: é justamente essa falta de objeto. Na medida em que não temos um objeto adequado, os objetos que nos são oferecidos para ocupar esse lugar não vêm de uma estruturação pré-ordenada da natureza, mas sim da cultura. A cultura nos diz o que devemos desejar. E quando eu digo cultura estou me referindo aqui a todas as experiências que o sujeito tem com qualquer instância que ocupe para ele o lugar de Outro, que pode ser desde o pai e a mãe até um programa de televisão. São esses outros que ocupam lugar de Outro que nos dizem quem nós somos, o que devemos fazer da vida e o que desejar. No entanto, esse Outro nunca consegue realizar essa tarefa completamente porque nenhum objeto que ele nos oferece para desejar vai ser capaz de saciar completamente nosso desejo. Isso porque, repetindo, não há um objeto único que satisfaça plenamente a todos, de modo que sempre haverá um restinho de desejo insatisfeito que nos moverá na busca por outro objeto.

Frequentemente mascaramos com imagens a inexistência desse objeto ou, em outras palavras, a impossibilidade de descarregar esse restinho de desejo. Daí, por exemplo, só conseguirmos sentir desejo sexual em condições específicas, o que é mais explícito na experiência do perverso: o sujeito só consegue sentir tesão pela namorada se ela estiver trajando uma meia-calça vermelha, por exemplo. Ali, a imagem da meia-calça está no lugar da falta do objeto. A pulsão se enroscou na imagem da meia-calça de modo compulsivo. Com isso, o sujeito evita o confronto com a falta de objeto, com a angústia suscitada por essa falta, mas, por outro lado, se priva da plasticidade da pulsão.

Então, respondendo à pergunta do nosso interlocutor fictício, o que provoca nosso desejo não é nenhum objeto com o qual nos relacionamentos efetivamente, mas sim esse restinho que sobra de todas essas experiências. É esse restinho que nos dá gás para investir em outros objetos. E esse restinho é uma das facetas que Lacan chama de objeto a, o objeto que causa o desejo. Por isso, a gente pode dizer que, no fundo, é esse restinho que a gente busca naqueles com os quais nos relacionamos. Buscamos neles esse pedaço perdido de satisfação, esse objeto que nos saciaria completamente.

Objeto adequado ao desejo?

Essa é a tese de Lacan, a qual é perfeitamente compatível com a obra de Freud. No entanto, como dissemos acima, outros teóricos da psicanálise não pensavam dessa forma. Na década de 50, a posição defendida por eles possuía bastante prestígio na comunidade psicanalítica, de modo que foi preciso que Lacan fizesse um seminário inteiro no ano acadêmico de 1956-57 apenas para criticá-la e indicar o que considerava ser a verdadeira posição psicanalítica a respeito do objeto.

Tais analistas haviam lido a teoria de Freud sobre a sexualidade da seguinte forma: no início da vida o bebê se relaciona com pedaços de um objeto, nunca com um objeto inteiro. Até aí está tudo certo. De fato, para Freud os objetos com os quais a criança lida são objetos parciais (seio, fezes, pênis, clitóris). No entanto, e é nesse ponto que eles se afastam de Freud, pois admitiam que a criança vai amadurecendo ao longo do tempo, de modo que após o período de latência ela não mais se relaciona com objetos parciais, mas com um objeto inteiro e totalmente harmônico, capaz de satisfazer plenamente ao seu desejo. O neurótico seria, portanto, aquele infeliz que ainda permanece agarrado aos objetos parciais, não tendo amadurecido o suficiente para lidar com um objeto total. Em decorrência, o objetivo da análise seria levar o sujeito ao amadurecimento, isto é, ao ponto em que ele fosse capaz de se relacionar com um objeto pleno e harmônico.

Ora, como vimos ainda há pouco, isso não tem nada a ver com o que Freud sustentava. Para o pai da psicanálise, o neurótico que chega ao psicanalista não é um imaturo. Aliás, a idéia de “amadurecimento” não faz qualquer sentido em Freud. O neurótico que procura análise é apenas alguém que teima em achar que é possível encontrar esse objeto pleno, completamente satisfatório. Assim, o objetivo da análise, em Freud, é diametralmente oposto ao da análise da Escola da Relação de Objeto. Trata-se, na clínica freudiana, de levar o sujeito a se dar conta justamente de que o objeto pleno não existe, de que essa falta de objeto é estrutural na existência humana e de que é justamente ela que permite o exercício da criatividade e da plasticidade do desejo.

Quando Lacan cria o conceito de objeto a o que ele tem em vista é justamente dar corpo a essa falta de um objeto natural, adequado e harmônico para o ser humano. Para o analista francês (como também para Freud) nós nunca deixamos de nos relacionar com objetos parciais, com pedaços de pessoas. Em nossa fantasia fundamental, a qual regula de fato a nossa relação com o mundo, continuamos a ser ávidos bebês que desejam o seio da mãe porque o consideram uma parte perdida de si mesmos. E é justamente essa parte perdida de nós mesmos, para sempre perdida, que nós buscamos ao longo da vida. É essa parte perdida, para Lacan, o objeto com o qual nos relacionamos: um objeto que, por sua ausência, se faz presente, o objeto a.