Pais superprotetores, filhos inseguros

Um observador ingênuo, que enxergue apenas a dimensão superficial das relações humanas, poderia imaginar que pais superprotetores transformam seus filhos em seres excessivamente confiantes, corajosos e audaciosos.

Tal observador pode acreditar que o excesso de proteção faria com que os filhos não precisassem lidar com certos obstáculos da realidade externa que deixam claro para o sujeito que ele não é a última bolacha do pacote existencial. Assim, imagina-se que a criança superprotegida cresceria sem golpes muito severos em seu narcisismo, tornando-se um adulto arrogante e egoísta.

Ora, nossas observações clínicas não fazem jus a essa visão superficial.

Indivíduos que foram criados em ambientes superprotetores não raro queixam-se de insegurança e dificuldade para tomar decisões.

No plano da fantasia, sim, é possível notar a existência de um eu excessivamente idealizado – provável resquício do investimento afetivo dos pais. Contudo, essa imagem grandiosa de si mesmo não se efetiva na existência.

Pelo contrário. No dia-a-dia, o sujeito não se sente minimamente confiante e sofre quando precisa recusar demandas e sustentar posicionamentos. Nesse sentido, o eu excessivamente idealizado não funciona para a pessoa como um suporte identificatório, mas como uma compensação imaginária para os momentos de crise.

A raiz desse aparente paradoxo (ambiente superprotetor/filhos inseguros) está no conteúdo latente do excesso de cuidado exercido pelos pais.

Ao superprotegerem seus filhos, os pais podem estar, através de um mecanismo de defesa que Freud chamou de “formação reativa”, transmitindo inconscientemente à criança o seu medo de falharem como cuidadores. É como se estivessem o tempo todo dizendo: “Temos muito medo de não sermos bons pais. Por isso, precisamos exagerar nos cuidados com as crianças a fim de convencermos a nós mesmos e a elas de que esse medo é infundado”.

Já do lado dos filhos, a mensagem inconsciente dos pais é recebida como uma espécie de “atestado de fragilidade”. Ilhada na prisão superprotetora, a criança pode ser levada à seguinte conclusão: “Sou muito frágil e o mundo é muito perigoso. Por isso, papai e mamãe se preocupam tanto comigo.”.


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