“Como vou me amar, se ninguém me ensinou a fazer isso?”: a depressão narcísica

Na semana passada eu propus uma classificação dos quadros depressivos em dois tipos: a depressão neurótica e a depressão narcísica.

Expliquei que a depressão neurótica decorre do recalque de impulsos agressivos que, por conta disso, acabam tomando o próprio sujeito como objeto de satisfação.

Agora quero falar da depressão narcísica.

Primeiramente: por que NARCÍSICA?

Porque trata-se de um quadro depressivo causado por uma FALHA na instalação do narcisismo normal e saudável que toda pessoa precisa ter.

Narcisismo significa amor pelo próprio Eu. A palavra vem de Narciso, personagem da mitologia grega que se apaixonou pela própria imagem.

Todos nós precisamos de uma boa dose de amor pelo próprio Eu.

Mas esse amor não vem de fábrica. Ele precisa ser INSTALADO em nós na infância. E isso depende diretamente do comportamento dos nossos pais.

Eles precisam amar o nosso Eu ANTES de nós mesmos — a fim de nos “convencer”, por assim dizer, que esse Eu MERECE ser amado.

Ora, algumas pessoas infelizmente não têm essa sorte.

Elas não foram tratadas como “sua majestade o bebê”, como diz Freud, e, por isso, não “aprenderam” a amar o próprio Eu.

Resultado: passam a vida inteira com aquela sensação difusa de que não têm muito valor, de que não fazem a menor diferença no mundo, de que são descartáveis…

Assim, a depressão dessas pessoas é marcada não pela culpa, mas pela APATIA, pela falta de disposição para viver, por uma sensação de “tanto faz”…

Perceba: esse tipo de depressão é narcísica não por conta de um excesso de narcisismo, mas pela FALTA dele.

O deprimido narcísico pode se parecer em muitos aspectos com o deprimido neurótico.

Ambos podem ser desanimados, desleixados com a própria imagem, não ter muito autocuidado e nem muitos desejos, ambições e projetos.

Porém, no caso da depressão narcísica, esses sintomas não são a expressão de um movimento autodestrutivo que indica o retorno da agressividade reprimida.

Não!

O deprimido narcísico não fica deprimido porque quer se destruir, mas porque lhe faltam os alicerces necessários para se CONSTRUIR.


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É muito difícil ser amiga de Luana!

Luana, uma professora de 27 anos, tem muita dificuldade para manter amizades. Este é um dos motivos pelos quais a jovem vive se queixando de solidão.

Em sua última sessão de terapia, ela disse o seguinte:

— O problema, Paula, é que hoje em dia não existem amigos de verdade. Não dá para contar com ninguém.

Paula, sua psicanalista, ficou em silêncio a fim de estimular a paciente a continuar falando.

Luana, então, narrou um episódio recente em que mandou uma mensagem para Betânia, uma amiga da época de colégio.

Na mensagem, a professora pedia para ter uma conversa por telefone com a moça sobre os problemas que vinha tendo com o namorado.

Betânia só respondeu à mensagem no fim do dia seguinte, perguntando se poderiam conversar no domingo, pois, durante a semana, estava “na correria”.

Luana sentiu-se profundamente decepcionada com a amiga e, magoada, decidiu bloqueá-la do WhatsApp.

— Tá vendo, Paula? É disso que estou falando. Se fosse ela me pedindo para conversar, eu ligaria na mesma hora! Isso é ser amiga de verdade!

Ao ouvir essas palavras, a analista tinha a sensação de estar assistindo a um filme repetido.

Com efeito, já havia escutado a paciente narrar diversas situações semelhantes, nas quais se sentira dolorosamente frustrada e ressentida em suas amizades.

Mas por que será que Luana tinha expectativas tão idealizadas sobre as amigas?

Por que a professora decidiu romper a amizade com Betânia simplesmente porque a moça não atendeu sua demanda imediatamente?

Melanie Klein nos ajuda a responder essas questões num trecho de sua clássica obra “Amor, culpa e reparação” em que fala sobre o tema da amizade na vida adulta.

Eu comentei linha a linha esse trecho na AULA ESPECIAL publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.

O título da aula é “LENDO KLEIN 08 – Uma visão kleiniana da amizade” e ela já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – KLEIN.


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“Se não posso odiar o outro, odiarei a mim mesmo.”: a depressão neurótica

Existem dois tipos básicos de depressão.

Um deles se caracteriza pelo EXCESSO (a depressão neurótica) e o outro pela FALTA (a depressão narcísica).

No primeiro, encontramos um excesso… de ÓDIO.

Sim, há muitas pessoas que se deprimem porque ODEIAM DEMAIS certas figuras de sua história.

Aí você me pergunta:

— Mas, Lucas, como assim? Quando eu olho para uma pessoa deprimida, só vejo tristeza e desânimo. Onde é que está esse ódio?

Justamente na tristeza e no desânimo, uai!

Na depressão neurótica, o sujeito adoece porque não dá conta de suportar a consciência de que tem tanto ódio dentro de si.

E por que não dá conta?

Pode ser que essa pessoa teve uma criação muito repressora, que a levou a avaliar o ódio como algo essencialmente ruim e perigoso, que precisa ser recalcado.

Pode ser também que, paradoxalmente, ela ame muito as figuras que odeia e, querendo proteger esse amor, acabe reprimindo sua hostilidade.

Seja qual for o motivo, ao não encontrar espaço na consciência, o ódio pelo outro pode se transformar em ódio POR SI MESMO.

É como se o sujeito oferecesse o próprio Eu como objeto de satisfação para os impulsos hostis que originalmente estavam direcionados a outras pessoas.

O excesso de tristeza, desânimo e, principalmente, culpa que caracteriza a depressão neurótica é a expressão visível de um processo interno de AUTO-AGRESSÃO.

Se não posso odiar o outro porque o amo e/ou porque não me permito sentir ódio, odiarei a mim mesmo — esse é o raciocínio inconsciente do deprimido neurótico.

Em casos mais graves, o sujeito pode chegar a tentar tirar a própria vida, devido à fraqueza do seu Eu, que não consegue suportar sequer o ódio por si mesmo.

O tratamento da depressão neurótica deve ter dois objetivos complementares:

(1) Analisar e desfazer as resistências que impedem a pessoa de fazer contato com o ódio reprimido a fim de tornar o Eu permeável a essa experiência emocional.

(2) Fortalecer o Eu do paciente a fim de capacitá-lo a suportar a consciência do ódio e encontrar recursos psíquicos mais saudáveis e maduros para lidar com esse afeto.

Sobre a depressão narcísica, o segundo tipo que mencionei no início, falarei num próximo texto.


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