Não raro, a falta de autoconfiança é resultado da insegurança dos pais

Autoeficácia é o termo que a Psicologia utiliza para descrever a crença que uma pessoa tem na sua própria capacidade de realizar uma tarefa.

Popularmente, a gente costuma chamar isso de autoconfiança, palavra, aliás, que me parece mais apropriada para descrever essa experiência de acreditar no próprio potencial.

Digo isso porque minha experiência clínica evidencia que essa crença está diretamente relacionada à confiança como um ato de fé que ultrapassa o medo.

Frequentemente pessoas que não experimentam autoconfiança relatam terem sido criadas por pais que estavam o tempo todo com medo de perdê-las e que, por conta disso, as impediam de vivenciarem diversas situações comuns na vida infantil.

Essa superproteção parental impede a criança de descobrir o próprio potencial para lidar com problemas e dificuldades. Privado do contato com o risco, o sujeito internaliza o medo dos pais e passa a acreditar que, de fato, está sempre sob a ameaça de uma grande calamidade.

O grande problema é que os padrões psíquicos que desenvolvemos na relação com nossos pais tornam-se o filtro (no sentido “instagrâmico” do termo) por meio do qual enxergamos a realidade. Assim, mesmo que a realidade comprove para a pessoa que ela é capaz e potente, tal indivíduo pode continuar se sentindo inseguro e achando que não dá conta.

Por isso, não raro encontramos pessoas que são até muito bem-sucedidas, mas que não confiam no próprio taco. Elas conquistam muitas coisas, mas, em função da insegurança, não conseguem usufruir do prazer da conquista .

Ao se entregarem a um tratamento psicanalítico, tais indivíduos podem ter a chance, pela primeira vez na vida, de relativizarem a voz medrosa e superprotetora dos pais que continua ecoando em suas cabeças.

Ao narrarem sua história para o analista, essas pessoas adquirem a oportunidade de enxergar o que aconteceu consigo de outras perspectivas. Ganham também a chance de alterarem o desfecho de um enredo no qual figuravam, até então, como meros personagens.


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O sintoma é uma mensagem que eu envio para mim mesmo.

Estamos acostumados a olhar para nossas formas de adoecimento emocional como problemas a serem solucionados ou obstáculos a serem superados.

A Psicanálise, contudo, nos ensina a enxergar nossos sintomas como mensagens.

Ora, toda mensagem pressupõe um emissor e um receptor. No caso do sintoma, essas duas posições são ocupadas pela mesma pessoa, a saber: nós mesmos.

Em outras palavras, você é, ao mesmo tempo, o emissor e o receptor da mensagem veiculada pelo sintoma.

Mas, Lucas, por que eu mandaria uma mensagem para mim mesmo?

Ora, a gente só manda mensagem para quem está distante. Não faz sentido mesmo enviar um “zap” para quem está ao meu lado. Afinal, eu poderia simplesmente falar diretamente com a pessoa.

Nesse sentido, quando digo que o sintoma é uma mensagem que enviamos para nós mesmos, isso significa que entre eu como emissor e eu como receptor existe uma distância.

Sim! O eu emissor é aquilo que, em Psicanálise, a gente chama de Inconsciente, ao passo que o eu receptor poderia ser chamado de “ego” (só para não confundir com o termo “eu”).

O Inconsciente está o tempo todo expressar os desejos que nele habitam, mas tais desejos geralmente não conseguem chegar até o ego por conta do muro de censura que o próprio ego ergueu entre ele e o Inconsciente. É essa parede a responsável pela distância entre o eu emissor (o Inconsciente) e o eu receptor (ego).

Assim, o Inconsciente é obrigado a codificar os desejos, transformando-o em mensagens, pois somente dessa forma eles conseguem ultrapassar a distância estabelecida pela censura.

O problema é que o ego (eu receptor) não consegue decodificar adequadamente tais mensagens, acreditando que elas significam X, quando, na verdade, expressam Y.

É por isso que a Psicanálise não trabalha com a proposta de eliminar os sintomas do paciente pura e simplesmente. Por considerá-los como mensagens do Inconsciente, o analista ajuda seus analisantes a aprenderem o código do Inconsciente a fim de capacitá-los a compreender as mensagens do eu emissor.


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[Vídeo] Não dá para ser assertivo e ficar bem com todo o mundo

Pessoas que ficam remoendo situações pensando no que gostariam de ter dito e não disseram sofrem da resistência neurótica a abrir mão de um desejo em prol de outro.


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[Vídeo] Entenda o conceito de IDENTIFICAÇÃO em Psicanálise

Neste vídeo: entenda de forma clara, simples e didática o conceito de identificação em Psicanálise e conheça as 3 modalidades de identificação descritas por Freud em “Psicologia das Massas e a Análise do Eu”.


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Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 01)

Por outro lado, o problema que a Psicanálise enfrenta para sustentar o conceito de complexo de Édipo atualmente não tem a ver com uma suposta “heteronormatividade” que estaria implícita nele. A maior dificuldade com a qual precisamos lidar diz respeito ao fato de que a descrição que Freud faz do Édipo só tem como referente um formato muito específico de família: aquele no qual a criança nasce e é criada no seio de um casal composto pelos seus dois genitores. O pai da Psicanálise não nos forneceu uma caracterização universal do complexo de Édipo, que pudesse ser aplicada para outros formatos de família, alguns dos quais são tão frequentes no mundo contemporâneo.

Como pensar o Édipo, por exemplo, numa família em que o pai morreu, sumiu ou nunca se fez presente e os filhos são criados apenas por sua mãe? Crianças que já nos primeiros dias de vida foram levadas para instituições de acolhimento e lá viveram durante 10, 15 ou 18 anos não passam pelo complexo de Édipo? E o que dizer daqueles meninos e meninas que são filhos de parcerias homossexuais? O Édipo valeria também para essas crianças? Se sim, como seria possível, já que Freud fala apenas de pai e mãe e nunca de dois pais ou duas mães?

O teórico que nos ajudou a “universalizar” o complexo de Édipo permitindo que ele pudesse ser aplicado às mais diversas configurações familiares foi o psicanalista francês Jacques Lacan. Para ele, o complexo de Édipo, tal como descrito na obra freudiana, seria, na verdade, um mito criado por Freud.

Leia o texto completo clicando aqui.


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A gente faz Psicanálise para mudar, mas, na maioria das vezes, não sabemos o que precisa ser mudado.

Muita gente imagina que o principal objetivo da terapia psicanalítica é promover mudanças no comportamento do paciente.

Faz sentido pensar assim. Afinal, via de regra as pessoas procuram ajuda psicoterapêutica quando estão insatisfeitas consigo mesmas e desejam mudar.

No entanto, diferentemente do que acontece em outras modalidades de psicoterapia, na Psicanálise nós não tomamos a demanda consciente e expressa pelo paciente de forma acrítica. Em outras palavras, não é porque o sujeito nos diz que deseja deixar de ser tímido que o analista estabelecerá como objetivo do tratamento reduzir a timidez dessa pessoa.

Na Psicanálise, não vale o velho jargão comercial: “Seu pedido é uma ordem!”.

Uai, Lucas, mas como assim? O paciente não sabe o que precisa ser mudado?

Frequentemente, não. Isso acontece porque naturalmente nós não temos consciência da maior parte dos fatores que influenciam nosso comportamento e, consequentemente, formatam nossas ideias acerca do que precisa ser mudado em nós.

Assim, é bem possível que o rapaz que chegue ao analista dizendo que quer deixar de ser tímido possa estar formulando essa demanda em função do que ele tem ouvido desde criança da boca de seu pai: “Você precisa ser mais pra frente!”, “Desse jeito você nunca vai conseguir transar!”, “Pare de ser tão retraído!”.

Percebe? O desejo de ser extrovertido não é do paciente, mas de seu pai. Portanto, ao questionar a demanda inicial desse sujeito, o analista pode ajudá-lo a se dar conta de que não é ele efetivamente quem almeja deixar de ser tímido.
Ah, Lucas, mas a timidez não é um problema em si mesmo? O certo não seria mesmo esse rapaz deixar de ser tímido?

Sim, seria certo… do ponto de vista do ideal do pai dele!

Como em Psicanálise a gente não fica tentando encaixotar o sujeito em ideais de saúde, sucesso e felicidade, um trabalho verdadeiramente analítico com esse paciente iria na direção de ajudá-lo a compreender as razões pelas quais ele assumiu a timidez como posição diante da vida. Que fantasia estaria na base desse modo de ser?

Dessa forma, o sujeito estaria em melhores condições para decidir se quer manter-se nessa posição ou se deseja dar outro destino à fantasia subjacente a ela.


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Reconhecer erros é ficar de luto

Você conseguiria descrever com facilidade os afetos que se fazem presentes no momento em que se dá conta de ter cometido um erro?

Seja honesto. São raríssimos os momentos em que de fato somos capazes de admitir que nós é que fomos a causa principal de um determinado tropeço na vida. Na maioria das vezes , aciona-se em nós um mecanismo mais ou menos automático de atribuição da responsabilidade a outrem.

Todavia, nessas ocasiões extraordinárias em que não temos outra saída a não ser admitir que realmente foi a gente que pisou na bola, uma série de afetos se manifesta em nosso ser.

Talvez, o mais primariamente explícito seja a culpa, esse sentimento terrível e doloroso que faz de todos nós simulacros de Adão diante do olhar de Javé.

A vergonha também é outro afeto que pode ser discernido nesses momentos.

Outros dois sentimentos preponderantes são o arrependimento e o desespero. Frequentemente, ao aceitarmos nossa responsabilidade diante do equívoco, o desejo de que aquilo não tivesse acontecido é imediatamente posto à baila e junto com ele a percepção de que a falta é irreversível, o que, dependendo do caso, pode gerar um intenso desespero em função da possível impossibilidade de reparar o dano.

Creio, no entanto, que todos esses afetos estão apenas na superfície da experiência de reconhecimento do erro. Em um nível mais profundo, o afeto preponderante talvez seja o do luto. Isso mesmo: luto! Toda vez que nos damos conta de nossa responsabilidade diante de um erro, alguém muito importante morre para nós (ainda que sempre ressuscite): o nosso eu ideal, esse companheiro inseparável de cada um de nós, cuja característica essencial é a perfeição.

Quando erramos, isto é, quando a dimensão da nossa falta essencial se manifesta de modo patente, é como se o eu ideal recebesse um tiro fulminante e uma das nossas maiores dores psíquicas decorre justamente dessas mortes eventuais. No limite, é por isso que a experiência de reconhecimento do erro é tão sofrida, pois não se trata apenas de dizer: “Tá bom, eu errei”, mas de dar um adeus provisório a esse nosso companheiro tão amado e sem mácula chamado eu ideal.


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Quais são os capítulos censurados da sua história?

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise”, Lacan afirma que “O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado.” (p. 260 dos “Escritos”).

Esse trecho é interessante porque nele Lacan revela um aspecto muito específico de como pensa a existência humana.

Para o analista francês, desde antes do nascimento nossa história já está sendo contada. Depois que chegamos ao mundo, pegamos esse bonde sem saber que ele já estava andando. Em outras palavras, assumimos a autoria de um livro que já estava sendo escrito e aí continuamos a escrevê-lo, tomando a narrativa da forma como a encontramos.

No entanto, não escrevemos nossa história de um ponto de vista exterior, como um jornalista relatando fatos para uma matéria. Somos personagens da nossa própria narrativa, de modo que não conseguimos nos situar fora dela.

A imagem que, a meu ver, melhor ilustra essa ideia lacaniana de difícil apreensão é a gravura “Drawing Hands”, de Maurits Cornelis Escher, que certamente serviu de inspiração para o clipe de “Drive” da banda Incubus. No quadro aparecem duas mãos, uma sendo desenhada pela outra e vice-versa, sugerindo a ideia de um “autodesenho”.

A concepção de subjetividade em Lacan tem a ver com isso. A gente não vive numa realidade e, ao mesmo tempo, vamos construindo narrativas sobre ela. Não! Para Lacan, a gente vive na própria história que criamos, iniciada e, portanto, estruturada pelo Outro.

Assim, ao dizer que “O inconsciente é o capítulo censurado”, Lacan está propondo que, no interior desse livro do qual sou o autor e, ao mesmo tempo, o personagem, existem páginas que foram rasgadas ou trechos sobre os quais fizemos colagens para ocultar o conteúdo original.

Nesse sentido, a Psicanálise pode ser tomada como um convite para a revisão de nossa própria história. Ao se submeter à experiência analítica, o sujeito seria convocado a recompor o seu “livro da vida”, resgatando as páginas censuradas e desfazendo as falsificações.


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Como é possível “conversar” com o Inconsciente?

Para a Psicanálise, a única maneira que temos de descobrir saídas para o labirinto em que nos colocamos na neurose é estabelecendo uma conversa franca com o inconsciente.

Quanto mais insistimos na atitude soberba de achar que controlamos conscientemente todas as nossas escolhas e caminhos, mais complexo se torna o labirinto.

Mas, Lucas, como é que a gente pode dialogar com o inconsciente?

Ora, a aposta de Freud — aposta que nós, psicanalistas, mantemos viva até hoje — é a de que essa conversa só pode ser feita por meio da ASSOCIAÇÃO LIVRE ou, para sermos literais na tradução do termo alemão utilizado por Freud (einfall), por meio da “invasão” de ideias na consciência.

Dizemos aos nossos pacientes: “Fale exatamente tudo o que vier à sua cabeça. Não tenha pudores, não se preocupe com a lógica ou com o sentido, apenas deixe que as ideias invadam sua consciência e as comunique a mim. Essa é a única regra que você deve seguir. Não tem tarefa de casa, não tem exercício, nada disso. Basta dizer tudo o que vier à sua cabeça. Com o tempo você perceberá que não está falando de forma aleatória, que há um fio condutor articulando essas ideias que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra. É como se você começasse a pintar um quadro sem a menor ideia do que deseja expressar. Você vai simplesmente jogando as cores na tela, de forma desorganizada mesmo. De repente, você começa a perceber que nesse movimento aparentemente caótico algumas figuras foram se formando… Você percebe um rosto ali em cima, uma casa ao fundo… Uma paisagem começa a aparecer…”.

É assim que a gente conversa com o inconsciente: escutando-o, ou seja, abrindo mão do controle egoico e permitindo que ele fale com o máximo de liberdade possível.

Consequentemente, e com a ajuda do analista, adquirimos a segurança necessária para continuar mantendo um diálogo aberto com o inconsciente para-além do consultório, a fim de aprender com ele algumas saídas para o labirinto da neurose.


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[Vídeo] Por que muitas pessoas têm dificuldade para receber elogios?

Neste vídeo apresento três hipóteses para explicar por que muitas pessoas se sentem tão desconfortáveis quando são elogiadas.


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[Vídeo] Será que você precisa de terapia?

Neste vídeo: entenda por que tentar resolver transtornos emocionais sozinho é tão insano quanto achar que dá para curar uma tuberculose sem ajuda médica.


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Por que a Psicanálise dá tanta importância à sexualidade?

Ao assinalar que a sexualidade humana não é biologicamente determinada, estou fazendo referência ao fato igualmente óbvio de que o modo como expressamos nossos impulsos sexuais está diretamente vinculado às experiências pelas quais passamos – experiências que, por sua vez, ocorrem no interior de contextos socioculturais específicos. Para ser mais claro: o modo como um cavalo, por exemplo, vivencia sua sexualidade não depende (ou depende muito pouco) das suas experiências de vida nem das coisas que ouviu de seus pais quando era filhote – até por que cavalos não falam, né? A forma como o cavalo expressa seus impulsos sexuais depende fundamentalmente da programação biológica própria da espécie Equus ferus caballus.

Com o Homo sapiens é diferente. Toda a discussão que temos assistido nos últimos anos a respeito da famigerada “educação sexual” evidencia justamente o fato de que, nos seres humanos, a sexualidade é naturalmente “desregulada”. Ao contrário do que acontece com o cavalo, não temos um roteiro biológico rígido que nos indique exatamente como devemos ser e o que devemos fazer no terreno sexual. É como se a nossa sexualidade fosse uma massa passível de adquirir diversas formas diferentes a depender dos recipientes nos quais ela é colocada. Tais recipientes são justamente as experiências socioculturalmente enquadradas pelas quais passamos desde o ventre materno.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Encerrar a sessão é uma forma de intervenção do analista

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan diz o seguinte: “A suspensão da sessão não pode deixar de ser experimentada pelo sujeito como uma pontuação em seu progresso” (“Escritos”, p. 314).

Essa frase sintetiza a fundamentação de uma inovação técnica introduzida pelo psicanalista francês no campo psicanalítico: as sessões de tempo variável.

Antes de Lacan, havia um consenso entre os analistas de que as sessões de análise deveriam ter uma duração fixa, seja ela de 50, 45 ou 30 minutos. A quantidade de minutos em si não era o aspecto mais relevante, mas, sim, a invariabilidade na duração das sessões.

Havia uma justificativa para isso, a qual Lacan, inclusive, aponta no mesmo texto: “Decerto, a neutralidade que manifestamos ao aplicar estritamente essa regra mantém a via de nosso não-agir.” (“Escritos”, p. 315).

Lacan está reconhecendo o fato de que, ao encerrar todas as sessões rigorosamente aos 50 minutos, por exemplo, o analista estaria se resguardando quanto a sua contratransferência, a qual o levaria, de repente, a ficar pouco tempo com certos pacientes e muito tempo com outros por razões puramente pessoais. Em suma, o tempo fixo das sessões ajudaria o analista a se manter o mais neutro e abstinente possível no tratamento (o que Lacan chama de “via de nosso não-agir”).

No entanto, como o psicanalista francês explica no primeiro trecho citado, o momento em que o analista encerra a sessão funciona como uma pontuação na fala do paciente. Por exemplo: suponhamos que um terapeuta encerre a sessão após o paciente dizer algo como “Se pudesse eu mataria o meu pai.”. Agora imaginemos que o analista tivesse deixado o paciente continuar falando porque, sei lá, restavam ainda 4 minutos para que a sessão atingisse 50 minutos. Nesse caso, o paciente poderia ter continuado seu discurso e talvez tentaria relativizar o peso de seu desejo de morte ao pai com frases como: “Na verdade, acho que não o mataria… Onde estou com a cabeça? Eu amo meu pai. Jamais faria uma coisa dessas. Acho que falei isso só porque estou chateado com ele…”

Sacou? O paciente que sairia da sessão encerrada pelo analista após a expressão do desejo parricida não seria o mesmo que sairia da sessão finalizada após 50 minutos.

Nesse sentido, acho que você percebeu que o encerramento da sessão pode ser utilizado como uma intervenção pelo analista na medida em que exerce um efeito sobre o que o paciente diz e, portanto, no que ele escuta de si mesmo.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje uma mini-aula especial na qual falo sobre esse assunto com mais detalhes e exemplos.


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Por que Lacan dizia que “a resistência é sempre do analista”?

Num trabalho de 1958 chamado “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Jacques Lacan afirma que “não há outra resistência à análise senão a do próprio analista”. Tá lá na página 601 dos “Escritos”.

Quem me ajudou a entender essa famosa formulação foi o Bruce Fink no recomendadíssimo “Introdução clínica à psicanálise lacaniana” (Zahar, 2018). A propósito, Fink é um daqueles raros autores lacanianos que escreve em humanês e não em lacanês.

O que Lacan está querendo dizer com essa ideia de que a resistência é sempre do analista?

A dificuldade para compreender essa tese vem do fato de que, com base na leitura de Freud, a gente chega à conclusão de que o paciente é quem está sempre “resistindo”. Afinal, o sintoma neurótico só aparece na vida do sujeito porque ele RESISTE a reconhecer o próprio desejo, certo?

Pois é! Lacan não está contradizendo essa descoberta freudiana. Pelo contrário! Ao fazer a provocação de que a resistência é sempre do analista, o que o francês está querendo mostrar é que a resistência do paciente é óbvia, de modo que é tão irrelevante dizer que o paciente está resistindo quanto dizer que a água é molhada.

É claro que o paciente resiste! Quem não pode resistir é o analista!

Portanto, quando dizemos coisas como “essa análise não está andando por causa da resistência do paciente”, o correto seria reconhecermos que a inércia do processo está sendo provocada pela resistência DO ANALISTA. Afinal, a resistência do paciente sempre está presente. Ela não é um fator acidental que ora se manifesta e ora desaparece.

Essa resistência nunca cede naturalmente. Do contrário, o sujeito poderia se curar sozinho sem fazer análise. O fator que se opõe à resistência e faz a análise funcionar é o desejo… mas o desejo DO ANALISTA.

É o analista quem, por meio de seus silêncios, pontuações, cortes e interpretações, encoraja o paciente a renunciar ao gozo inútil, mórbido e pouco criativo do sintoma, encarando a angústia inerente à condição humana e buscando formas mais autorais e criativas de expressar seu desejo no mundo.

A resistência é sempre do analista porque, no tratamento, só o analista tem a “opção” de não resistir e fazer valer seu desejo de analisar.


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O Real angustia, a fantasia conforta.

Muitos indivíduos encaram a realidade apenas como um conjunto de evidências que comprovam as fantasias que nutrem a respeito de si mesmas.

Você pode conhecer pessoas assim ou mesmo ser uma delas.

Há, por exemplo, aqueles que acreditam firmemente que NUNCA conseguirão ter um relacionamento amoroso duradouro porque percebem que a realidade SEMPRE lhes mostra o quanto são desinteressantes.

A despeito da aparente coerência desse pensamento, trata-se tão-somente de uma FANTASIA.

Sem perceberem, tais pessoas estão generalizando encontros singulares ou, em outras palavras, interpretando o acaso como se fosse destino.

Mas por que alguém criaria uma fantasia tão destrutiva como essa? Uma das razões é que, por mais dolorosa que seja, esse tipo de crença falaciosa funciona como uma poderosa defesa psíquica. Com efeito, aqueles que a sustentam acabam se privando de novos encontros, pois supostamente “sabem” que não serão bem-sucedidos. Evitam, assim, o confronto com a incerteza e a ansiedade inerentes a toda possibilidade de relação amorosa.

Protegem-se também do risco de obterem sucesso e serem obrigados a abandonar suas queixas. Por mais paradoxal que possa parecer, não poder mais contar com uma realidade que sustente uma reclamação crônica é um dos maiores temores de muita gente.


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