Entenda a regra da abstinência de Freud (parte 1)

laura-week-two-1920Em 1915, no artigo “Observações sobre o amor transferencial”, Freud escreveu que “o tratamento [psicanalítico] deve ser levado a cabo na abstinência”. O público leigo poderia pensar que Freud estava apenas alertando os analistas para que jamais cedessem à tentação de terem algum envolvimento amoroso e/ou sexual com seus pacientes. O buraco, contudo, é mais embaixo. Para Freud, não se tratava de uma questão meramente ética, mas, sobretudo técnica. A abstinência em questão deveria ser mantida principalmente do lado do paciente.

Neste momento você pode estar se perguntando: “Como assim?”. Para entendermos porque Freud defendeu que o tratamento psicanalítico deve acontecer num estado de abstinência, é preciso levar em conta a forma como Freud entendia o surgimento de uma neurose, ou seja, do tipo de adoecimento psíquico que mais aparecia em sua clínica.

Para Freud, uma neurose, seja ela uma obsessão, uma histeria ou uma fobia, é sempre o resultado de um grave conflito psíquico. Conflito entre aquilo que o sujeito acredita que é (o que Freud chamou de ego) e determinados pensamentos, lembranças e fantasias que num primeiro momento lhe proporcionam muito prazer, mas que ele acaba mandando para o inconsciente porque não estão de acordo com a imagem que tem de si mesmo. Um exemplo bobo: uma moça criada em um contexto religioso muito severo acredita que não deve jamais fazer sexo oral com seu marido, pois isso a desqualificaria como mulher. Quando adolescente, no entanto, essa moça já teve fantasias de que fazia sexo oral em um professor. Como tais pensamentos eram incompatíveis com seu ego, a moça, embora sentisse muito prazer, recalcou-os no inconsciente.

Pois bem, a neurose, de acordo com Freud, poderá emergir justamente quando esses pensamentos que foram recalcados tiverem oportunidade de ser “reativados”. Se isso acontecer, o sujeito precisará se defender a fim de impedir que eles novamente se manifestem. Do contrário, terá de ver manchada a bela imagem que tem de si mesmo. Estabelece-se, então, uma guerra entre o ego e os pensamentos recalcados. Quem costuma vencer? Freud dirá: ambos! Ego e recalcado fazem uma espécie de “acordo”. O ego permite que o recalcado se manifeste desde que seja de forma disfarçada. A neurose é precisamente um desses disfarces! Na histeria, o recalcado se disfarça como sintomas corporais: dores, parestesias, formigamentos, vômitos etc. Na neurose obsessiva, o disfarce é constituído de pensamentos irrelevantes que não saem da cabeça do sujeito. E na fobia, o medo de um objeto, animal ou situação é a máscara adotada pelo recalcado.

E o que a abstinência tem a ver com tudo isso é o que você deve estar se perguntando. Ora, a questão que ficou em aberto acima é a seguinte: como é que os pensamentos, fantasias e lembranças recalcados entram novamente em ação? Freud responde: quando a libido, a energia sexual, retorna para eles. E como a libido retorna para eles? Quando ela não tem mais para onde ir. Não entendeu, né? Eu explico: quando estamos nos relacionando com alguém e nos sentimos satisfeitos com esse relacionamento, grande parte da nossa libido está investida na pessoa com quem estamos nos relacionando. Portanto, o recalcado não tem combustível para “subir” até as portas da consciência. Contudo, se por alguma razão, o relacionamento atual for rompido (seja pela morte da pessoa amada ou por uma separação mesmo) aquela libido que estava investindo o objeto de amor, acaba ficando livre, leve e solta. Como forma de compensar a frustração sofrida, ela vai reinvestir aqueles pensamentos que um dia nos provocaram satisfação. Que pensamentos são esses? Sim, os recalcados, que agora terão munição de sobra para entrarem em combate com ego novamente.

Em outras palavras, a neurose como “acordo” entre o recalcado e o ego só foi possível porque a realidade deixou o indivíduo num estado de… abstinência!

Leia a parte final

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[Vídeo] Ética, medo e confiança

Como nos tornamos seres morais? Essa questão que tradicionalmente foi objeto da filosofia, também foi abordada pela psicanálise. Para Freud, a moralidade seria necessariamente proveniente de fora do indivíduo já que “naturalmente” seríamos dotados apenas de pulsões. Do ponto de vista freudiano, os responsáveis por nos transmitir as regras e princípios morais seriam os pais ou cuidadores e o principal fator que faria com que introjetássemos a moralidade seria o medo de perder o amor dos pais. No vídeo abaixo faço uma crítica a esse raciocínio demonstrando que ele só tem validade para os casos de crianças emocionalmente doentes.


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[Vídeo] Anorexia

É muito comum ouvirmos leigos e até mesmo psicólogos e psiquiatras dizerem que a anorexia nervosa é uma patologia cuja origem está ligada diretamente aos padrões de beleza do mundo contemporâneo. Defende-se a ideia de que esses referenciais estéticos oprimem de tal forma os indivíduos, sobretudo mulheres, que acabam levando alguns deles a recusarem a ingestão de alimentos a fim de alcançarem o corpo supostamente valorizado socialmente. No vídeo abaixo, apresento um ponto de vista completamente distinto fundamentado na tese proposta pelo psicanalista Jacques Lacan de que na anorexia come-se o nada.

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[Vídeo] Recalque

Atualmente, a palavra “recalque” e suas correlatas “recalcado” e “recalcada” têm se feito presentes com muita frequência no linguajar popular, especialmente entre os mais jovens. Ao contrário do que se poderia pensar num primeiro momento, isso não significa que a juventude brasileira esteja lendo mais sobre psicanálise. Por reviravoltas que a só a linguagem é capaz de provocar, a palavra “recalque” é utilizada não em sua acepção original psicanalítica, mas como sinônimo de inveja ou ressentimento. Levando isso em conta, decidi falar no vídeo abaixo sobre o sentido preciso que o conceito de recalque possui na teoria psicanalítica.

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[Vídeo] Trauma

No senso comum a palavra “trauma” costuma ser associada a eventos extraordinários como acidentes, catástrofes, tragédias e abusos. No entanto, quando nos debruçamos sobre o sentido original do conceito de trauma na teoria psicanalítica, nos damos conta de que o aspecto que define um evento como traumático não é sua natureza mais ou menos impactante, mas sim a capacidade do indivíduo de lidar com uma determinada experiência.


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[Vídeo] Psicanálise prática

Em psicanálise, o alívio do sofrimento experimentado pelo paciente é apenas um efeito “extra” do tratamento ou deve ser o seu objetivo primordial?


O que é atenção flutuante?

Barco sem lemeQuem já conseguiu a carteira de habilitação para conduzir automóveis ou está vivenciando o processo necessário para obtê-la sabe que todo candidato a condutor deve se submeter a um exame psicotécnico que avalia suas funções psicológicas básicas. Atualmente, um dos testes aplicados pelos psicólogos examinadores é o Teste de Atenção Concentrada que, como o próprio nome sugere, mensura a capacidade do candidato de concentrar sua atividade mental em torno de certos elementos pré-definidos. Esse tipo de aptidão indispensável para quem quer conduzir automóveis é exatamente o oposto da atitude psíquica que Freud denominou de “atenção flutuante”.

Signos e significantes

Desde o momento em que estabeleceu definitivamente o formato da terapia psicanalítica, ou seja, quando largou de vez o método catártico e a hipnose, Freud já dizia que o psicanalista tinha que se portar diante do paciente de uma forma distinta do posicionamento médico habitual. De forma geral, quando o médico recebe um doente para uma consulta, sua atenção está voltada para os aspectos específicos da fala e da condição física do paciente que podem indicar a existência ou não de patologias. Nesse sentido, o médico seleciona a priori determinados signos e verifica se eles se manifestam na fala e no corpo do doente. Em outras palavras, o médico faz uso da mesma atenção concentrada que o condutor emprega para perceber as placas e sinais de trânsito e identificar o seu significado.

Freud notou que se os analistas agissem dessa mesma forma, o tratamento psicanalítico não funcionaria. O motivo era o seguinte: enquanto seria possível extrair do corpo certos signos patológicos, ou seja, relações fixas entre determinados significantes e significados, no caso do inconsciente, objeto da terapia analítica, isso não seria concebível, pois o inconsciente a rigor é formado por significantes e não dignos. Senão vejamos: um médico não terá dificuldades em fazer um diagnóstico de tuberculose ao se deparar com qualquer paciente que apresente tosse durante mais de duas semanas, febre, catarro, dor no peito, falta de apetite, emagrecimento e cujos exames acusem a presença em seu corpo de uma bactéria conhecida como bacilo de Koch. Em contrapartida, um analista jamais poderia concluir que todo paciente com fobia de cavalos possui um desejo inconsciente de matar o próprio pai, embora esse fosse o caso do pequeno Hans.

Dito de outro modo, não é possível estabelecer antecipadamente o significado de uma formação do inconsciente, pois essa é sempre um significante, nunca um signo. Com efeito, o sentido de um significante só se revela a partir do exame das conexões que ele estabelece com outros significantes. Por esse motivo, o analista precisa estar atento a tudo o que o paciente diz. É essa atitude de abertura a todas as expressões do analisando que Freud denominou de “atenção flutuante”.

Como um barco sem leme

De acordo com o pai da psicanálise, a atenção flutuante seria a contrapartida do terapeuta à regra fundamental da associação livre que o paciente deve seguir para que a análise funcione. No início do tratamento, o analista pede ao analisando que diga exatamente tudo o que lhe venha à cabeça, mesmo que sejam pensamentos aparentemente sem sentido. A premissa que fundamenta esse enunciado é a de que determinados conteúdos que poderiam ser vistos como banais ou irrelevantes podem muito bem servir aos paradoxais propósitos do inconsciente de se revelar de forma disfarçada. Em última instância, não é possível dizer que a narrativa de uma briga com a mãe seja mais importante para o tratamento que um relato acerca do que se comeu no almoço. A regra da associação livre é uma técnica que, se seguida à risca, possibilita ao paciente seguir o fluxo de trabalho do inconsciente que, diga-se de passagem, nunca pára de trabalhar. Nem na hora do almoço.

Assim, da mesma forma que o analisando deve evitar selecionar os pensamentos que irá comunicar em análise, o analista também deve escutar de forma homogênea tudo aquilo que o paciente diz, por mais bobo que pareça ser. O terapeuta deve, portanto, evitar fixar sua atenção em certos conteúdos, privilegiando-os em detrimento de outros. Por isso, a metáfora aquática utilizada por Freud é bastante precisa. A atenção do analista deve flutuar pelos significantes que o paciente enuncia, como um barco que perdeu o leme, evitando tomar algum fragmento do discurso como cais. A hipótese de Freud é a de que, ao fazer isso, ou seja, ao suspender sua atenção habitual e deixar-se levar pelas associações do paciente, o analista acabará por seguir o fluxo de trabalho do seu próprio inconsciente. Assim, em condições ideais, isto é, caso o paciente obedecesse fielmente à regra da associação livre e o analista adotasse plenamente a atenção flutuante, se estabeleceria uma comunicação entre os inconscientes do terapeuta e do analisando.

Foi justamente essa situação que Freud imaginou como sendo o ápice da relação analítica. Obviamente, trata-se de uma conjuntura que jamais se concretiza com perfeição. Assim como nenhum paciente se submete integralmente à regra da associação livre, não há nenhum analista que seja capaz de adotar de forma plena a atenção flutuante. A própria formação teórica do analista condiciona-o a privilegiar certas associações e relações entre determinados eventos – o que não constitui uma falha do terapeuta.

A comunicação entre inconscientes como situação ideal deve estar sempre no horizonte do analista, mas esse deve saber de antemão que jamais será capaz de alcançá-la em plenitude. Isso não significa, contudo, que o terapeuta deva resignar-se e abandonar a técnica da atenção flutuante sob a justificativa de que jamais será capaz de atingir tal estado psíquico com perfeição. Creio que seja possível ao analista adotar uma atenção flutuante “suficientemente boa”, isto é, uma atitude de receptividade total ao mais ínfimo detalhe do discurso do paciente, na qual, eventualmente, em função da experiência e do aprendizado teórico, certos conteúdos encontrem uma escuta mais – atenta.

“Ganhar neném”

normal_Cassatt-Mary-Mother-Holding-Her-BabyVocê já notou que muitas pessoas utilizam a expressão “ganhar neném” para se referirem ao ato de conceber uma criança? Apesar de ouvi-la com muita frequência aqui em Minas Gerais, onde resido, acredito que ela seja empregada em todo o país. A psicanálise nos ensina que as produções culturais – entre as quais se incluem os ditos populares – jamais se mantêm ao longo da história por acaso. É a capacidade de expressarem conteúdos inconscientes compartilhados socialmente o elemento que leva algumas delas a se perpetuarem e serem transmitidas entre gerações. Esse parece ser o caso da expressão “ganhar neném”.

Uma conclusão evidente que pode ser extraída dessa expressão pela simples consideração de seu enunciado é a de que nela o bebê é encarado como algo que se ganha, ou seja, um presente, uma dádiva, um dom. À primeira vista pode parecer que não há nenhum significado mais profundo que possa ser colhido daí. Afinal, as mães que conscientemente desejaram ficar grávidas amiúde sentem o nascimento de seus filhos de fato como uma dádiva. Aliás, no caso de pessoas muito religiosas, o filho frequentemente é recebido como uma graça divina. O que haveria de extraordinário nisso?

Em primeiro lugar, o fato de que o bebê seja visto como um dom não me parece uma ideia tão natural assim. Se levarmos em conta que, para ter um filho, uma mulher experimenta durante os nove meses de gravidez uma série de desconfortos e sofrimentos bem como fortes dores na hora do parto, o mais natural seria encarar o nascimento do bebê como um produto que demandou muito esforço para ser elaborado e não como uma dádiva! Presente é aquilo que recebemos gratuitamente, sem que precisemos trabalhar para consegui-lo. Aparentemente, esse não seria o caso dos bebês, os quais, como eu disse, só vêm ao mundo depois de um árduo trabalho. A propósito, não é por acaso que se utiliza a expressão “trabalho de parto”.

Portanto, a ideia de que o bebê é um presente e não um produto ou uma conquista não pode ser fruto da experiência de gravidez. Sua origem deve ser buscada alhures. Fundamentado na teoria psicanalítica, defendo e pretendo demonstrar aqui a hipótese de que a expressão “ganhar neném” guarda, na verdade, um significado inconsciente que está relacionado ao lugar que o filho tende a ocupar na subjetividade feminina.

Complexo de castração

Através das análises que empreendeu, Freud pôde ter acesso a uma série de ideias e fantasias de seus pacientes relacionadas ao problema da diferença sexual entre homens e mulheres. A esse conjunto de conteúdos psíquicos, o pai da psicanálise deu o nome de “complexo de castração”. Freud observou que a diferença entre os sexos torna-se uma questão especialmente relevante para os indivíduos durante certo período da infância. O complexo de castração seria justamente uma tentativa de resposta para o problema. Quais são as ideias e fantasias que compõem o complexo de castração?

Aproximadamente aos 2 ou 3 anos, ansiosos por entenderem por que razão seus corpos seriam diferentes, meninos e meninas elaborariam algumas hipóteses. Entre os meninos, a teoria mais comum seria a de que as meninas, assim como eles, também teriam nascido com pênis. Contudo, por alguma razão, os membros delas teriam sido cortados – sinal de que os deles também poderiam ser. Já entre as meninas, duas teorias se sucederiam. Na primeira delas havia a crença de que o pênis que ainda não possuíam iria crescer à medida que o tempo passasse. Como a realidade acabava por refutar essa ideia, outra teoria lhe dava lugar: a de que teriam nascido castradas mesmo e que a culpa desse infortúnio seria de suas mães que lhes teriam concebido assim, “com defeito”. Em consequência, de acordo com as observações de Freud, as meninas tenderiam a desenvolver uma inveja do pênis dos meninos. Esses, em contrapartida, passariam a ter medo de se tornarem como elas, ou seja, seres castrados.

É preciso entender com precisão o que Freud pretende efetivamente transmitir ao dizer que após o complexo de castração, as meninas passam a sentir uma “inveja do pênis” dos meninos. Nos textos que dizem respeito a esse tema, Freud faz questão de frisar que o que está sendo invejado não é de fato o órgão genital masculino, mas o que ele representa para a criança que está ocupada com o problema da diferença entre os sexos. Para essa criança, o pênis funciona como o único atributo de diferenciação. Em decorrência, o fato de estar presente apenas nos meninos leva intuitivamente ambos os sexos à suposição de uma superioridade masculina, posto que a ausência do pênis nas meninas indicaria uma deficiência. É óbvio que se trata de uma fantasia que certamente recebe influências da ideologia patriarcal. Entretanto, a natureza fantasística dessas ideias não impede que elas produzam efeitos reais sobre a constituição da subjetividade. Na medida em que o pênis é tomado como o elemento que dá completude ao corpo masculino e que, ausente na mulher, a faz incompleta, pode-se interpretar o que Freud chama de “inveja do pênis” como a busca da mulher por algo que ela acredita que será capaz de restituir sua completude. A esse “algo”, Freud preferiu dar o nome de “falo” porque ele não precisa ser necessariamente um pênis, mas alguma coisa que possa exercer a mesma função de completude que a mulher um dia acreditou que o pênis exerceria para os homens.

Compensação

Ora, o que a experiência psicanalítica atesta é que grande parte das mulheres toma justamente o filho como esse objeto capaz de proporcionar-lhes essa completude imaginária! Em outras palavras, muitas mulheres investem seus filhos de uma significação fálica, tomando-os, na fantasia, como objetos capazes de torná-las completas. No limite, o bebê passa a servir de consolo para a falta de pênis. É como se a natureza, essa mãe primordial de todos nós, tivesse “corrigido” o erro de constituir as mulheres sem pênis, presenteando-as com filhos. Não estaria aí a origem da expressão “ganhar neném”?

A criança é percebida como algo que se ganha justamente porque na fantasia de boa parte das mulheres ela advém como compensação por uma suposta privação de outrora. Dito de outra forma, é como se a expressão condensasse um enunciado inconsciente mais ou menos assim: “Quando eu nasci, a mamãe natureza não me presenteou com um pênis, fazendo com que eu me sentisse incompleta e ficasse com uma baita inveja dos meninos, os quais foram todos agraciados com o membro. No entanto, qual não foi minha surpresa quando, ao ficar adulta, recebi a dádiva de poder gestar em meu ventre não um mero órgão, mas uma pessoa inteira! Eis que a natureza ao invés de me brindar com um pênis, me presenteou com um bebê! Eu, que achava que nunca poderia ser completa como os meninos!”.

Nascemos condenados à cadeia significante?

the-little-baby-hand_422_18073O estruturalismo nasceu como uma corrente teórico-metodológica que supostamente legitimaria o estatuto científico das chamadas Humanidades, isto é, a psicologia, a antropologia, a sociologia, dentre outros saberes cujo objeto está diretamente ligado à condição humana. Na etapa inicial de seu ensino nos anos 1950, o psicanalista Jacques Lacan estava bastante entusiasmado com a proposta estruturalista, utilizando-a como uma espécie de pano de fundo para sua reinterpretação do pensamento freudiano, o famoso projeto de “retorno a Freud”.

Como se sabe, o estruturalismo está baseado em duas premissas básicas, a saber: (1) a de que um elemento de um determinado universo não possui significação em si mesmo, ou seja, seu sentido depende dos demais elementos do sistema (estrutura) aos quais se encontra vinculado e (2) a de que essa estrutura ou sistema pode ser inferida dos fenômenos empíricos (pleonasmo intencional) na medida em que é inconsciente.

Primazia do discurso do Outro?

Pois bem, ao aplicar tais premissas à teoria psicanalítica, Lacan chega à paradoxal tese que sustenta, ao mesmo tempo (daí o paradoxo), a existência do sujeito e a determinação desse sujeito pela linguagem. Trata-se de uma ideia que foi sintetizada na famosa fórmula “o sujeito é aquilo que um significante representa para o outro significante.”. Dito de modo mais simples, o que Lacan quis expressar com essa afirmação é a tese de que o lugar que cada um de nós ocupa na existência seria pré-determinado.

Do ponto de vista lacaniano, isso aconteceria porque nasceríamos em um mundo já estruturado não só materialmente, mas também e, sobretudo, culturalmente. Em outras palavras, cairíamos de paraquedas em um mundo já abarrotado de discursos, desejos e interesses. Só nos restaria, portanto, a opção de nos adequarmos, nos adaptarmos, nos submetermos a esse ambiente já organizado, inserindo-nos no lugar já preparado de antemão pelo desejo do Outro para nos receber.

Lacan, a meu ver, não estava de todo equivocado, a não ser no que diz respeito a certo fatalismo que pode ser depreendido de sua teorização. Os lacanianos certamente poderão discordar do que vou dizer, reivindicando como fundamento de sua réplica o último estágio do ensino do psicanalista francês em que a ênfase teria sido posta no registro do real, o qual excederia o alcance da linguagem. Em decorrência, não haveria uma pré-determinação tão rígida assim.

Creio, não obstante, que a formulação “o sujeito é o que um significante representa para outro significante” perpassa todo o ensino de Lacan e carrega de maneira implícita a ideia de que não existe espontaneidade e que o exercício da criatividade é sempre reativo, ou seja, sempre exercido a partir da primazia do significante. Dito de outro modo, o desejo do Outro, a linguagem, a cadeia significante seria o elemento primário, já que o próprio sujeito é visto puramente como um efeito do funcionamento da linguagem.

A espontaneidade como anterior à estrutura

Donald Woods Winnicott, por seu turno, ao postular a ideia de um verdadeiro self existente em cada um de nós de maneira potencial ou virtual e que ao longo da existência pode ser atualizado ou permanecer potencial, me parece dar ensejo a uma visão menos passiva e reativa da subjetividade.

De fato, Winnicott não ignora que o fato de que o mundo já se encontra discursivamente estruturado antes de nascermos e de que nossos pais já possuem uma série de desejos a nosso respeito que podem se configurar para nós como uma espécie de pré-determinação. Winnicott não é ingênuo. Contudo, a diferença crucial existente entre o ponto de vista do psicanalista inglês em relação a Lacan diz respeito à primazia que Winnicott reconhece na espontaneidade do bebê face ao desejo do Outro.

Em outras palavras, para Winnicott, embora o discurso do Outro exista, ele é secundário em relação aos gestos espontâneos do bebê. Nesse sentido, primeiro o indivíduo agiria, sentiria, experimentaria o ambiente afetivo à sua volta, ou seja, a própria mãe enquanto condições sensórias de cuidado, para só depois (não cronológica, mas logicamente) lidar com o aparelho cultural pré-organizado.

Além disso, do ponto de vista winnicottiano, o desejo do Outro não engolfaria o sujeito fazendo dele meramente um efeito da cadeia significante. Justamente por não reduzir a subjetividade ao domínio de uma linguagem vista como estrutura, Winnicott pode reivindicar a ideia de que a entrada no registro simbólico pode se dar de modo ativo, criativo em continuidade com os gestos espontâneos.

Por que o psicanalista não utiliza a hipnose?

article-new_ehow_images_a04_qt_th_become-hypnosis-practitioner-800x800Estamos no século XIX. Em um escritório sombrio abarrotado de móveis austeros um homem faz movimentos pendulares com um relógio diante de uma jovem que, de olhos fechados, lhe narra suas mais íntimas lembranças. Quem não se impressionaria com uma cena como essa? Muito provavelmente essa pergunta retórica deve ter sido feita por muitos produtores do cinema e da televisão. Afinal, não raro vemos essa mesma cena em filmes e seriados, adaptada ou não para os dias atuais. Na sociedade do espetáculo, as representações de um tratamento hipnótico são excelentes embalagens para determinados produtos da indústria cultural. As pessoas têm sua curiosidade despertada e acreditam tratar-se de um procedimento místico, secreto…

Com alguma frequência tenho me deparado com pessoas que compartilham dessa espécie de “representação social” da hipnose. São indivíduos que encaram o tratamento hipnótico como uma modalidade psicoterapêutica mais “profunda” do que, por exemplo, a psicanálise. Para eles, a hipnose alcançaria determinadas regiões do psiquismo às quais a terapia psicanalítica jamais colocaria os pés. Por conta disso, acreditam que a psicanálise e as demais psicoterapias baseadas essencialmente na interação verbal entre terapeuta e paciente seriam indicadas para o tratamento de casos mais leves de adoecimento emocional. A hipnose seria a única técnica capaz de intervir de maneira eficaz no tratamento de patologias mais graves.

Neste artigo pretendo demonstrar por que essa concepção é inteiramente equivocada e por quais razões os praticantes da psicanálise não fazem uso da hipnose ao tratarem seus pacientes. Para isso, será preciso explicar primeiramente, ainda que de modo esquemático, o que é a hipnose.

O que é hipnose?

Embora hipnose seja empregada em outras especialidades do campo da saúde, como por exemplo, na odontologia, em que o profissional coloca o paciente em estado hipnótico a fim de ele não se sinta ansioso diante de determinados procedimentos, a técnica hipnótica é utilizada com maior frequência como estratégia psicoterapêutica. Com essa finalidade, o terapeuta (hipnotizador) induz o paciente, utilizando diversas técnicas (dentre elas, o movimento pendular de algum objeto) a uma condição psicológica semelhante ao sono. Ao cair nesse estado, o doente se coloca numa posição de completa passividade e total disponibilidade às injunções e comandos do terapeuta. Por essa razão, o profissional é capaz de solicitar do paciente a narrativa de determinados fatos que, em estado de vigília, não seria capaz de recordar.

O elemento central desse tipo de tratamento não é o estado psicológico peculiar em que se encontra o paciente, mas sim o poder que ele concede ao terapeuta sobre seu corpo e seu psiquismo. Em outras palavras, o doente não narra suas mais secretas memórias ao profissional apenas porque se encontra numa condição psicológica privilegiada para tal, mas, sobretudo, porque o terapeuta mandou.

Freud e a hipnose

Por influência de Charcot e de outros grandes neurologistas do século XIX, dentre os quais Joseph Breuer (à época seu amigo pessoal), os quais faziam uso da hipnose no tratamento da histeria, Sigmund Freud inicialmente utilizou a técnica hipnótica para cuidar de suas pacientes histéricas. E foram justamente os impasses que encontrou no emprego desse método que levaram o jovem médico vienense a inventar uma nova técnica psicoterapêutica que viria a batizar de psicanálise.

Vale dizer que Breuer e Freud faziam um uso assaz específico da hipnose, distinto da maneira como Charcot e os demais médicos utilizavam o procedimento. Para utilizar uma nomenclatura que atualmente é familiar para a maioria de nós, o médico francês empregava o hipnotismo apenas como uma maneira de fazer com que o paciente tivesse “adesão ao tratamento”. Dito de outro modo, a hipnose funcionava para Charcot como um tratamento sugestivo. Se uma paciente apresentasse, por exemplo, uma cegueira histérica, bastava colocá-la em estado hipnótico e ordenar a ela que voltasse a enxergar quando fosse despertada. De fato, ao sair da hipnose, a doente voltava a enxergar. Contudo, os motivos pelos quais ela havia temporariamente perdido a visão permaneciam ocultos.

Breuer e Freud, por seu turno, aprenderam na prática que a melhor maneira para eliminar os sintomas da histeria era fazendo com que o doente descarregasse toda a tensão psíquica que ele havia reprimido em determinado momento de sua história. A hipnose era utilizada com a finalidade de fazer com que o paciente “regredisse” a esse momento (à época chamado de “trauma”) e pudesse “ab-reagir” ao acontecimento, ou seja, responder novamente a ele, descarregando a tensão acumulada ao longo do tempo e que vinha sendo descarregada através dos sintomas. Chamavam esse procedimento de “método catártico” por considerarem que ele se baseava numa espécie de “purgação” da alma (catarse).

As limitações da hipnose

Apesar de os dois médicos terem realizado diversos tratamentos bem-sucedidos utilizando esse método, Freud não estava muito satisfeito. Afinal, embora conseguisse através da hipnose levar o paciente até os pontos de sua vida em que os “traumas” haviam acontecido, a questão referente aos motivos pelos quais o doente permanecia impedindo que tais eventos fossem rememorados permanecia sem resposta. Em alguns casos, a resistência do paciente a algumas lembranças era tanta que, nem mesmo sob hipnose, o paciente era capaz de se lembrar delas.

Essa foi a grande limitação que Freud encontrou no método hipnótico: ele passa por cima das resistências, deixando o terapeuta e o próprio paciente sem o discernimento dos motivos pelos quais determinados eventos são considerados pelo psiquismo como “altamente perigosos”. Em outras palavras, a hipnose não é capaz de detectar a resistência.

Diante dessa justificativa, muitas pessoas podem dizer algo do tipo “Ah, mas o importante é que os sintomas desapareciam. E daí que as resistências nunca fossem descobertas?”. Impressiona-me, aliás, a semelhança entre essa alegação e aquela que defende o uso de psicoterapias conhecidas como “cognitivo-comportamentais”. A ênfase é posta sobre a eliminação de sintomas, como se o objetivo de um tratamento psicoterapêutico fosse meramente esse.

Berta Pappenheim, ou Srta. Anna O. – sem dúvida a paciente mais famosa da história da psicanálise e considerada quase uma co-inventora do método psicanalítico – costumava dizer a Breuer (que foi quem a tratou) que as sessões de hipnose que ela fazia com ele eram uma espécie de “chimney-sweeping” (“limpeza de chaminé”, em inglês). Creio que essa expressão descreve com exatidão as limitações da técnica hipnótica. Trata-se efetivamente de uma simples limpeza de chaminés psíquicas, um procedimento cujo alcance é temporário, ou seja, até o momento em que a chaminé volte a ficar suja. E se a chaminé precisa ser periodicamente lavada é justamente porque ela acumula sujeira.

É óbvio que a psicanálise não previne neuroses. Contudo, por não negligenciar a resistência, mas, pelo contrário, procurar encontrá-la, o método psicanalítico, diferentemente da hipnose, evita que existam chaminés para serem lavadas de tempos em tempos. A técnica inventada por Freud trabalha não apenas com a sujeira, mas com a própria chaminé, questionando a própria existência dela. Em outras palavras, a hipnose é capaz de eliminar sintomas, mas sequer se aproxima dos “gatilhos” dos sintomas, que não são os traumas, mas justamente os conflitos psíquicos que se expressam na forma de resistências. Freud descobriu que a melhor estratégia para tratar não apenas dos sintomas, mas, sobretudo, dos seus “gatilhos” é pedindo ao paciente que fale tudo o que lhe vier à mente, sem qualquer tipo de censura.

“Faz de mim o que quiseres”

Para-além da incapacidade da hipnose de detectar a resistência, há uma justificativa ética para que o psicanalista não utilize o método hipnótico. Como disse no início do texto, a eficácia da hipnose reside no poder que o paciente concede ao terapeuta sobre seu corpo e sua alma, de modo que as mudanças acontecem por determinação do profissional e não do doente.

O terapeuta, portanto, é colocado numa posição de controle e maestria sobre o paciente que, nesse caso, acaba se pondo como um objeto a ser moldado de acordo com o “desejo de saúde” do profissional. Existem muitas pessoas que são efetivamente incapazes de entrarem em estado hipnótico. Isso acontece não porque possuam uma condição neurológica específica, mas porque não são capazes de se colocar em posição de tamanha passividade diante do terapeuta. A hipnose requer, portanto, como Freud bem analisa em um dos capítulos de “Psicologia das Massas e Análise do Ego”, que o paciente “se apaixone” de certo modo pelo terapeuta. Afinal, só os apaixonados estão de tal modo vulneráveis ao desejo do outro.

O que são espaço e objetos transicionais? (final)

BrincadeiraAté aqui vimos que até aproximadamente os seis meses de vida, o bebê se encontra em uma condição de absoluta dependência do cuidado materno. Essa circunstância associada à preocupação materna primária, o estado psicológico particular experimentado pela mãe logo após o nascimento do bebê, faz com que o infante tenha todas as suas necessidades satisfeitas de modo quase perfeito. Por conseguinte, ainda não é capaz de reconhecer a existência do mundo externo, pois os objetos que satisfazem suas necessidades parecem surgir magicamente à sua volta, como se fossem produzidos por seu próprio desejo.

Mais ou menos após os seis meses, a mãe sai do estado de preocupação materna primária, o que ocasiona o surgimento de um descompasso entre o surgimento das necessidades do bebê e o atendimento dessas necessidades por parte do ambiente. Nesse sentido, a realidade externa não mais se adapta aos desejos da criança de maneira imediata e com a quase perfeição de outrora. Em decorrência, o bebê é forçado a reconhecer o mundo externo, até porque já não bastará esperar pela vinda da mãe, mas será preciso chamar a atenção dela.

Em sua experiência como pediatra, Winnicott observou que coincidentemente nesse mesmo período em que a criança está “descobrindo” a realidade externa, o bebê geralmente se apega intensamente a um determinado objeto (o qual geralmente lhe é oferecido pela própria mãe) e/ou passa a repetir com frequência determinados comportamentos (como, por exemplo, a emissão de determinados sons com a boca). No caso do apego a objetos, Winnicott notou ainda outra particularidade: o bebê só consegue dormir levando-o consigo para o berço. Como exemplo, podemos citar os casos bastante comuns de crianças que passam o dia todo segurando (e, em muitos casos, cheirando) pedaços de pano – o que demonstra que tais objetos não precisam ser necessariamente brinquedos.

Através da observação direta dos bebês articulada à compreensão do desenvolvimento infantil, Winnicott interpretou o significado desses objetos e comportamentos da seguinte forma: se o bebê se apega de forma tão vigorosa ao objeto e precisa dele para dormir, isso mostra que o objeto está exercendo uma função fundamental no psiquismo do bebê. Que função seria essa? Ora, quando se leva em conta que o grande “problema” com o qual o bebê está tendo que lidar após os seis meses de vida diz respeito ao afastamento gradual da mãe e, por consequência, o reconhecimento dela como uma pessoa, logo a função do objeto ao qual o infante se apega se torna mais clara. Se até então a mãe era tudo para o bebê (dependência absoluta), agora que ela começa a “falhar” (dependência relativa), eis que um dado objeto adquire para a criança um significado curiosamente absoluto – tanto é que o bebê precisa dele para sentir-se seguro e dormir. O objeto, portanto, parece exercer, para o infante, a função de substituto da mãe.

Nesse sentido, o pedacinho de pano que a criança segura e cheira não é, para ela, apenas um pedacinho de pano, mas uma espécie de “encarnação” da mãe. Em outras palavras, embora se trate de um objeto externo ao bebê, com todas as características materiais próprias de um pedaço de pano, ele é ao mesmo tempo, um objeto interno, na medida em que subjetivamente o bebê o experimenta como personificação do cuidado materno. O objeto não é meramente externo porque, caso o fosse, não teria tamanha importância para a criança, afinal, do ponto de vista de um observador externo, trata-se tão somente de um simples pedaço de pano. Por outro lado, o objeto também não é totalmente interno, pois apresenta toda uma materialidade que os objetos internos não possuem.

Estamos, portanto, diante de um paradoxo: como o pedaço de pano pode ser um objeto externo e interno ao mesmo tempo? Em vez de tentar resolver essa aparente contradição, Winnicott preferiu enxergar o fenômeno do ponto de vista do bebê e simplesmente aceitar o paradoxo, criando o conceito de objeto transicional. Mas onde estão situados os objetos e fenômenos transicionais? Se eles são simultaneamente externos e internos, logo não podem estar localizados nem na realidade interna nem na realidade externa, não é mesmo? Por isso, Winnicott precisou forjar um segundo conceito: o de espaço transicional, um território intermediário entre os mundos interno e externo.

O psicanalista inglês também chamou o espaço transicional de espaço potencial porque, para ele, é essa a área em que se desenvolve a criatividade e a produção cultural enraizadas nas brincadeiras de criança. Para Winnicott, o brincar seria a evolução natural do uso que os bebês fazem dos objetos e fenômenos transicionais. Nas brincadeiras, as crianças investem conteúdos de seu mundo interno em objetos externos, fazendo, por exemplo, de um simples pedaço de madeira um guerreiro valente. A partir de então, já não existem o pequeno pedaço de madeira na realidade externa e nem a fantasia de guerreiro valente no mundo interno da criança. Ambos estão amalgamados em um objeto único ao mesmo tempo interno e externo, um objeto transicional.

Para Winnicott, um brinquedo como esse vem à luz no mesmo espaço potencial em que um quadro, uma música ou um livro são produzidos, território em que o interno e o externo se encontram e se fundem. Portanto, a criação e a produção cultural podem ser vistas como brincadeiras de gente grande.

E pensar que tudo começou por saudade da mãe…

O que são espaço e objetos transicionais? (parte 1)

Unidade mãe-bebêA maioria de nós está consciente de que é uma coisa distinta do restante do mundo. Com exceção de alguns psicóticos e de viciados em smartphones que consideram o dispositivo como mais um órgão do corpo, a maior parte das pessoas acredita saber diferenciar muito bem a realidade externa da realidade interna. Tal discernimento, contudo, não nos vem de fábrica, isto é, não se trata de um saber inato.

Através da observação de bebês, como pediatra, e da escuta de pacientes, como psicanalista, Donald Winnicott demonstrou que até aproximadamente os seis meses de vida nenhum de nós sequer suspeitava que exista uma separação entre nós mesmos e o mundo externo. E isso não ocorre porque nessa época ainda não possuíamos uma estrutura cerebral suficiente, mas sim porque até os seis meses a maioria de nós vivia em um mundo mágico que Winnicott chamou de “dependência absoluta”.

Trata-se da fase imediatamente posterior ao nascimento em que o bebê depende absoluta e integralmente dos cuidados da mãe (ou de alguém que a substitua) para que consiga sobreviver não só física como também psicologicamente. Winnicott costumava dizer que nessa fase o bebê enquanto tal não existe posto que, caso exista, estará sempre junto a uma mãe. Portanto, pode-se dizer que até os seis meses o que existe de fato é uma unidade mãe-bebê.

Pois bem, em contrapartida às necessidades do bebê que lhe colocam em uma condição de dependência absoluta do outro, a maioria das mães, após o nascimento da criança, experimenta um estado subjetivo totalmente peculiar que Winnicott denominou de “preocupação materna primária”. A mãe passa a ter olhos só para o bebê e se identifica de maneira tão visceral a ele que se torna capaz de compreender suas experiências mais sutis. É impressionante, por exemplo, a capacidade que as mães nesse estado possuem de discernir acertadamente as causas das cólicas de seus filhos como se estivessem na pele deles. Winnicott considerava essa condição psicológica tão extravagante que dizia que, se ela fosse avaliada fora do contexto, poderia muito bem ser vista como uma doença psíquica!

Agora tente imaginar a situação de um bebê nos primeiros seis meses de vida: cheio de necessidades, mas inserido em um ambiente tão intensamente identificado a ele que é capaz até mesmo de adivinhar o exato momento em que surgem suas necessidades. Logo, se o bebê sente fome não precisará esperar muito tempo ou chamar a atenção do ambiente para se alimentar. Uma mãe em estado de preocupação materna primária conseguirá detectar que o bebê está com fome de modo quase imediato e irá amamentá-lo antes mesmo que a criança possa sequer pensar. Convenhamos: um ambiente como esse deve parecer um tanto mágico, afinal nele os objetos que queremos aparecem instantaneamente conforme o advento de nossas necessidades. O bebê sente fome e quase no mesmo instante um suculento seio cheinho de leite lhe aparece à frente! A conclusão óbvia à qual todo bebê chega nesse período pode ser descrita mais ou menos como “Uau! Não há nada para-além de mim! Tudo o que eu desejo se concretiza!”. A criança se vê, portanto, como onipotente, como um pequeno deus sem limites.

Trata-se, contudo, de um engodo provocado por um fator que todo ilusionista conhece e utiliza muito bem: o tempo. Com efeito, em função do estado peculiar de identificação com o bebê vivenciado pela mãe, ainda não há um intervalo temporal suficiente entre o surgimento da necessidade e o aparecimento do objeto para que o infante se dê conta de o objeto não é produzido pelo seu próprio desejo. No entanto, aproximadamente após os seis meses, a mãe começa gradualmente a sair da condição de preocupação materna primária, de modo que já não conseguirá adivinhar de maneira tão imediata as necessidades do bebê. Assim, o mundo mágico da onipotência infantil começa a desmoronar, pois, a partir de então, o bebê passará a ter necessidades e eventualmente precisará esperar um tempo considerável até que a mãe ou outra pessoa se aperceba. Esse é o início do processo de descoberta da realidade externa.

Ao perceber que o objeto não aparece mais imediatamente após desejá-lo, o bebê acaba discernindo que entre ele e o mundo há um descompasso, uma separação, um limite. Esses primeiros pensamentos a respeito das razões pelas quais o objeto não apareceu tão logo o desejara constituem os primórdios do que Winnicott chama de “mente” (conceito que o psicanalista inglês diferencia de “psique”).

Para que esse processo de descoberta da realidade externa não seja traumático, ou seja, para que o bebê não precise reagir artificialmente a ele e perca o rumo espontâneo do seu desenvolvimento emocional, é preciso que a mãe vá apresentando ao infante porções graduais do mundo externo a fim de que o bebê não perca a ilusão de onipotência de maneira abrupta. Em outras palavras, o ambiente precisa ser capaz de levar o bebê à consciência de que não basta desejar para que as coisas aconteçam, mas, ao mesmo tempo, deve fazê-lo perceber que isso não significa que deva abandonar seus desejos ou deixar de expressá-los. O fato de que o objeto não mais aparece imediatamente após a necessidade não significa que ele tornou-se a partir de então inalcançável.

De fato, o bebê só será capaz de realizar isso se o ambiente lhe permitir constituir um espaço de transição entre a realidade interna (onde estão os desejos e as memórias dos objetos do mundo mágico) e a realidade externa (onde estão os novos objetos concretos).

CONTINUA

O eu é uma ilusão

No último post apresentei ao leitor um pouco da vida e do pensamento do médico e psicanalista Georg Groddeck (1866-1934). Trata-se de um autor cuja obra, injustamente e a despeito de sua originalidade e relevância, jamais obteve o devido reconhecimento por parte das ciências humanas.

Tratando de pacientes com doenças físicas, Groddeck teve acesso de forma inteiramente autônoma aos mesmos curiosos fenômenos que levaram Sigmund Freud, criador do método psicanalítico, a formular o conceito de Inconsciente.

Neste artigo desejo explorar alguns aspectos interessantes do pensamento de Groddeck relativos à noção de “eu” a fim de demonstrar seu ponto de vista acerca da subjetividade. Estou certo de que as questões e problemas colocados pelo autor são ótimas contribuições para uma reflexão atual sobre a nossa identidade em mundo habitado cada vez mais por perfis, avatars, faces

Rumo a Deus-Natureza

Como disse no texto anterior, além da dedicação à arte de curar, Groddeck também nutria uma forte paixão pela literatura, herança de seu avô e de sua mãe. Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o maior poeta da língua alemã, era decerto um de seus autores preferidos.

Com efeito, Goethe, além de insigne escritor, também se interessava por ciência e filosofia. Inspirado pelas ideias de Benedictus de Spinoza (1632-1677), filósofo que chocara seus contemporâneos ao propor a tese de que Deus não é um ente separado e transcendente à Natureza, mas é a própria Natureza, Goethe formulara o conceito de Deus-Natureza (Gottnatur). Todavia, contrariamente à Natureza de Spinoza, o Deus-Natureza de Goethe correspondia à ideia romântica de “mãe natureza”, que cria e sustenta tudo o que há no mundo de acordo com uma finalidade pré-determinada.

Como prova de sua veneração ao poeta, Groddeck escreve em 1909 um ensaio chamado “Rumo a Deus-Natureza” (“Hin zu Gottnatur”), texto que já indica as futuras elaborações teóricas do médico. De fato, nesse texto encontra-se a ideia que está presente tanto na filosofia de Spinoza quanto nos escritos de Goethe e à qual Groddeck também chega a partir de sua experiência clínica, a saber: a de que, na verdade, aquilo que nós chamamos de “eu” não passa de uma miragem, de uma ilusão, de um engodo!

Uma ilusão necessária

Por que estamos tão seguros de que somos um “eu”, ou seja, de que cada um de nós é um indivíduo distinto e absolutamente separado do restante do mundo? Para Groddeck, não há nada que nos dê qualquer garantia disso. Malgrado os mais recentes avanços da ciência, ainda não somos (e talvez jamais sejamos) capazes de saber ao certo quando o “eu” passa a existir. Será a partir do nascimento? Desde a concepção? Mas e o que antecede o encontro dos gametas? Se continuássemos a fazer tais perguntas, diz Groddeck, chegaríamos ao ponto de admitir que, no limite, o “eu” de cada um de nós já está de algum modo presente nos nossos ancestrais mais longínquos!

Igualmente, não chegaremos a nenhuma conclusão definitiva caso tentemos afixar os limites espaciais do nosso “eu”. Afinal, como Groddeck costumava dizer, jamais saberemos o exato momento em que um pedaço de pão que comemos se torna parte do nosso “eu” ou quando um determinado som que por ventura ouçamos deixa de ser um elemento exterior e passa a nos constituir.

Ao fazer tais indagações, Groddeck pretende desnudar o caráter ilusório de nossa individualidade, demonstrando que, na verdade, cada um de nós é apenas um modo de expressão da Natureza, isto é, estamos radicalmente inseridos nela, somos uma parte indissociável do todo, um imenso conjunto de relações. Em decorrência, entre o mundo e o que nós chamamos de “eu” não há de fato uma separação, mas uma relação de continuidade. Como diria Renato Russo, somos como gotas d’água, grãos de areia.

Groddeck, contudo, reconhece que a ideia de que somos um “eu” separado, dissociado, independente do resto da Natureza é difícil de ser abolida. Com efeito, é ela que sustenta a crença de que somos livres e responsáveis por nossas escolhas e ações – aspecto inegavelmente útil para a convivência em sociedade. Ademais, com exceção talvez daqueles que após se submeterem a experiências místicas afirmam ter provado a sensação de “serem um com o todo”, a grande maioria de nós jamais conseguiu se desvencilhar do sentimento de ser um “eu” separado do mundo.

Levando tudo isso em conta, Groddeck conclui que, conquanto objetivamente se possa dizer que o “eu” ou a noção de “indivíduo” seja uma quimera, o sentimento de ser um “eu”, livre, autônomo, consciente e responsável por seus atos parece ser um elemento atávico em nós, ou seja, impossível de ser eliminado. Para o médico, a Natureza, tendo em vista a utilidade da crença no livre-arbítrio e na responsabilidade individual, teria forjado no ser humano esse sentimento de individualidade.

Não obstante, Groddeck acuradamente ressalta as grandes limitações que uma noção reduzida do “eu” pode trazer para a compreensão de nossa existência. De fato, se nos ativermos apenas ao que sabemos conscientemente, teremos acesso somente a uma porção ínfima das causas que influenciam nossas decisões e comportamentos. Assim como não somos capazes de controlar deliberadamente a maioria dos processos fisiológicos que acontecem em nosso corpo – ninguém pode, por exemplo, determinar a quantidade de nutrientes que serão absorvidos na corrente sanguínea – assim também não estamos conscientes da série de fatores que condicionam nossas ações e atitudes aparentemente “livres”.

Nesse sentido, nos encontramos sempre mais ou menos “alienados” em relação às causas de nossos comportamentos e tal “alienação” ou “inconsciência” tenderá a ser tanto maior quanto mais reduzida for a concepção que temos de nós mesmos como indivíduos. Em outras palavras, nossa “alienação” aumenta quanto mais reduzimos o que somos ao nosso “eu”, ou seja, àquilo de que temos consciência. Foi justamente por esse motivo, e com o intuito de propor uma concepção de ser humano a mais abrangente e menos “alienada” possível, que Groddeck forjou, em oposição à ideia de “eu”, o conceito de “Isso”. Mas Isso é assunto para um próximo post.

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Este artigo foi originalmente publicado em Benedita, ano 1, n. 2, julho de 2012.

O outro pai da psicanálise

Baden-Baden, Alemanha, 1909.

Uma nova paciente é encaminhada ao Sanatório Groddeck. Seu verdadeiro nome ninguém sabe. Srta. G, enigmático pseudônimo, é como a ela se refere o homem de orelhas pontudas e semblante grave que a recebe, Dr. Georg Groddeck. Nove anos antes, em companhia da esposa Lina, o médico especialista no tratamento de doentes crônicos adquirira aquele imponente edifício de arquitetura clássica e o transformara em reduto de doentes desenganados de todo o território germânico. Era para lá, onde se dizia que pacientes praticamente condenados à morte recuperavam a saúde, que muitos médicos encaminhavam os seus “casos perdidos”.

A Srta. G era um deles. Revelando imediatamente a gravidade de seu estado, logo ao primeiro exame realizado pelo próprio Groddeck, a paciente reage com copiosas hemorragias uterinas e intestinais. Nada que surpreendesse o experiente clínico, que já havia visto inúmeras vezes manifestações da mesma espécie.

O que de fato provocou-lhe espanto foram as peculiaridades presentes na fala da doente. Conquanto apresentasse um considerável nível de inteligência, o vocabulário da Srta. G era enigmaticamente reduzido. Não conseguia dizer o nome de determinados objetos, utilizando perífrases para se referir a eles. Por exemplo, em vez ‘armário’, dizia ‘aquela coisa de roupa’ ou, no lugar de panela, ‘aquela coisa de fazer comida’. Além disso, era incapaz de suportar certos gestos, como morder os lábios.

Contrariando a tendência da então nascente medicina científica de ater-se apenas à dimensão anátomo-fisiológica do doente, Groddeck não considerou aqueles excêntricos comportamentos como elementos irrelevantes para o tratamento. Oferecendo uma escuta atenta ao discurso da paciente, o médico foi gradualmente se dando conta dos motivos daquelas idiossincrasias.

Groddeck descobriu que os gestos e nomes de objetos que a Srta. G repudiava estavam associados em sua mente a determinadas imagens que lhe causavam muita angústia, pois eram de cunho erótico. Por exemplo, um forno aquecido poderia simbolizar para ela uma mulher ardente ou o próprio corpo em estado de excitação sexual, assim como um polegar levantado poderia evocar a imagem de um pênis ereto. Nesse sentido, o repúdio a certos gestos e nomes de objetos seria uma espécie de defesa inconsciente contra as imagens que esses elementos simbolizariam.

Ora, não fora exatamente esse mesmo processo psicológico que um certo neurologista chamado Sigmund Freud havia descoberto em Viena na Áustria, muitos anos antes, em meados dos anos 1890? Perfeitamente. O espantoso é que Groddeck jamais havia lido uma linha sequer das obras de Freud! Isso significa que Groddeck tivera acesso de forma independente e autônoma àquilo que Freud chamara de “o Inconsciente”. Nesse sentido, o Inconsciente não passou a existir apenas depois que Freud o nomeou, mas esteve sempre aí, à espera de um olhar, ou melhor, de uma escuta diferenciada, capaz de percebê-lo. Groddeck possuía essa escuta.

A doença como símbolo

Georg Walther Groddeck nasceu na cidade alemã de Bad Kösen, no dia 13 de outubro de 1866, dez anos após o nascimento de Freud. Seguiu a carreira médica por influência do pai, que também era médico. Na faculdade, tornou-se assistente de Ernst Schweninger, que se tornara famoso em toda a Europa por ter sido o único médico capaz de tratar do “intratável” chanceler alemão Otto von Bismarck.

Além de médico, Groddeck também se dedicaria intensamente à escrita e à literatura. Filho de uma grande admiradora de Goethe e Shakespeare e neto de August Koberstein, um dos maiores historiadores da literatura alemã, Groddeck escreveu romances, análises psicanalíticas de contos, fábulas e livros, além de dezenas de artigos sobre psicanálise e medicina. Avesso à ciência e à comunidade científica, preferia publicar seus textos em uma revista própria chamada “A Arca”, que circulava no interior de seu Sanatório, de modo que seus pacientes tinham pleno acesso a suas teses originais acerca do significado das doenças. O médico, aliás, considerava essa transmissão de conhecimento como um recurso terapêutico.

Quais eram as teses defendidas por Groddeck? A partir do tratamento da Srta. G, o médico pôde observar a força que os símbolos e as associações entre eles exercem sobre a vida humana como um todo, ou seja, não só na mente, mas também no corpo. Assim, Groddeck foi notando que frequentemente os sintomas das doenças físicas, assim como a incapacidade da Srta. G de falar determinadas palavras, eram modos utilizados pelos pacientes para se defenderem de conflitos subjetivos.

Em outras palavras, para ele, todo sintoma, seja ele uma febre, uma dor nos olhos, uma hemorragia, um câncer, vômitos ou pedras nos rins, enfim, qualquer tipo de adoecimento, poderia ser visto como um símbolo! Seria sempre possível descobrir as raízes inconscientes da doença, ou seja, a função que ela exerceria na vida da pessoa doente.

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Em 1917, Groddeck inicia uma correspondência com Freud que duraria em torno de 17 anos. Seria por influência de Groddeck, que o médico vienense introduziria na psicanálise o conceito de Id (“Es”, um pronome impessoal da língua alemã) que Groddeck já vinha utilizando há bastante tempo para se referir ao indivíduo. Freud era um entusiasta das ideias de Groddeck e exortou-o reiteradamente para que fizesse parte do movimento psicanalítico. Groddeck, por sua vez, preferindo a companhia dos pacientes no Sanatório, tentou durante muito tempo convencer Freud a visitá-lo em Baden-Baden, o que nunca aconteceu. Por isso, apesar das cartas trocadas, jamais saberemos o que poderia surgir de uma conversa face a face entre os dois pais da psicanálise.

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Este artigo foi originalmente publicado em Benedita, ano 1, n. 1, junho de 2012.

Por que Lacan disse que o sujeito é o que um significante representa para outro significante?

Na primeira etapa de seu ensino, Jacques Lacan definiu o sujeito como o que um significante representa para outro significante. Neste artigo, pretendo expor a maneira como interpreto esse enunciado lacaniano, objetivando também fornecer algumas balizas para a compreensão dessa fórmula um tanto obscura para muita gente. Por motivos didáticos, iniciarei minha exposição convidando o leitor a realizar comigo uma extração dos elementos essenciais da assertiva lacaniana.

Temos, portanto, diante de nós os termos sujeito e significante. Tratemos de definir cada um deles a fim de posteriormente analisarmos a relação atávica que Lacan defende que exista entre ambos.

Sujeito como lugar vazio

O conceito de sujeito, como qualquer estudante de ciências humanas deveria saber, não é uma noção unívoca, ou seja, comporta uma diversidade de interpretações e definições. No campo filosófico, o termo sujeito é elevado ao estatuto de conceito a partir do pensamento de René Descartes. Como foge aos nossos propósitos, analisar o conceito de sujeito em Descartes em todas as suas particularidades, serei bastante sucinto ao falar dele, mesmo correndo o risco de simplificá-lo demasiadamente.

Assim, o sujeito cartesiano poderia ser identificado ao eu, realidade supostamente irredutível, pois, segundo Descartes, sua existência não poderia ser posta em dúvida, já que o próprio ato de duvidar pressuporia um sujeito. No domínio da linguística, diz-se que sujeito é o elemento de uma sentença que sofre a predicação. Em outras palavras, o sujeito é aquilo ao qual atribuímos ou negamos determinadas características.

Observe que tanto do ponto de vista cartesiano quanto linguístico, o termo sujeito é um lugar vazio. Com efeito, para Descartes, tudo o que se diz a respeito de alguém pode ser colocado em dúvida pelo próprio sujeito. Qualquer atributo que sobre ele recaia não pode lhe servir como representante último, pois o próprio sujeito possuiria a capacidade de colocar o mérito do qualificativo em xeque e, se necessário, descartá-lo. Nesse sentido, o sujeito constitui-se em um lugar a priori vazio. Ocorre o mesmo com a noção linguística de sujeito: a palavra “Pedro” considerada isoladamente não possui sentido algum. Só adquire significação quando atribuímos a ela algum predicado, como na sentença “Pedro é um aluno.”. Portanto, o sujeito “Pedro” considerado em si mesmo é um lugar inicialmente vazio a ser preenchido com predicados.

Signo, significante, significado

Ora, o que são predicados senão palavras, significantes? A noção de significante utilizada por Lacan é proveniente de Ferdinand de Saussure, um linguista que propôs uma visão estruturalista da linguagem. Para Saussurre, a linguagem seria formada por elementos chamados signos. Esses, por sua vez, seriam compostos de duas dimensões, unidas arbitrariamente, ou seja, em função do acaso, a saber: o significante e o significado. O significante seria a parcela material do signo linguístico (o som da palavra, por exemplo). Já o significado seria o conceito, o sentido, a ideia associada ao significante. A teoria da linguagem de Saussure é estrutural porque pressupõe que o valor de um determinado signo não é dado a priori, mas depende da relação com os demais signos do sistema linguístico.

Lacan, guiado pela experiência com as formações do inconsciente (sonhos, lapsos, chistes, atos-falhos, etc.) reinventa a proposta original de Saussure, argumentando que a linguagem seria constituída essencialmente de significantes e não de signos e que o significado não teria – ainda que arbitrariamente produzida – uma relação fixa com o significante. Para Lacan, a experiência psicanalítica teria demonstrado que o significado é extremamente volátil, evanescente, como um fluido que desliza ao longo da cadeia de significantes. Nesse sentido, a noção de signo deveria ser relativizada, já que uma relação mais ou menos fixa entre significante e significado estaria restrita a um dado contexto. Por outro lado, na linguagem como um todo, isto é, no lugar do Outro, só existiriam significantes. Aliás, Lacan define o Outro precisamente como “tesouro dos significantes”.

Sujeito como efeito

Vejamos agora como Lacan articula a noção de sujeito à de significante. Vimos que o sujeito é na verdade, tanto do ponto de vista cartesiano quanto linguístico, um lugar a priori vazio. O sujeito, portanto, não possui uma substância. Sua caracterização ou significado estaria na dependência da predicação. Essa, por sua vez, é constituída de significantes, os quais, do ponto de vista lacaniano, são os próprios artífices do significado a partir das relações que estabelecem com outros significantes na cadeia linguística.

Vale lembrar que a noção de sujeito, pelo menos no caso específico da experiência psicanalítica, serve para designar a pessoa ou o indivíduo, de modo que cada um de nós pode dizer: “Eu sou um sujeito”. Então vem Lacan e diz que o sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante. Assim, se fôssemos reformular a frase original substituindo o termo “sujeito” pela definição que Lacan dá a ele, teríamos “Eu sou aquilo que um significante representa para outro significante”. Dessa frase podemos depreender algumas conclusões: a primeira é a de que, do ponto de vista lacaniano, nós não somos aquilo que acreditamos ser e a segunda é a de que a capacidade de sermos diferentes do que somos não depende de nós, mas do Outro. Afinal, é no lugar do Outro, para Lacan, que se desenrola a cadeia significante que nos determina. É lá que se encontram os significantes que nos representam para outros significantes.

Dito de modo mais simples e direto, o que Lacan pretende expressar com sua fórmula é a tese de que nós, nossos desejos, nossos projetos, nossas concepções sobre a vida, nossos amores, enfim, tudo o que decorre de nós estaria na dependência do discurso do Outro. Não foi por acaso que nessa primeira etapa de sua obra Lacan definiu o inconsciente justamente como o “discurso do Outro”. É no campo do Outro que de modo autônomo os significantes se articulam uns aos outros produzindo-nos como um mero efeito.

Assim, inicialmente lugares vazios, nós, enquanto sujeitos, vamos adquirindo substância – uma substância sempre provisória e evanescente, diga-se de passagem – ao sermos preenchidos com as significações vindas do campo do Outro, constituindo-nos como meros efeitos da cadeia de significantes.

Um comentário

Ressalto que essa foi a concepção de subjetividade que Lacan sustentou ao longo de toda a primeira fase de seu ensino, conhecida pelos comentadores como sendo marcada pela ênfase no chamado “registro simbólico”. Observem que nesse modelo não há espaço para o Real, para o elemento disruptivo e imprevisível. Para utilizar os termos gregos de que Lacan faz uso no Seminário 11, não há espaço para a tiquê; tudo é autômaton! O simbólico recobre tudo, de modo que ao sujeito não é possível ser nada além de um efeito da linguagem.

Do meu ponto de vista, acredito que não seja possível negar o fato de que boa parte daquilo que acreditamos ser, bem como uma série de nossos comportamentos e atitudes possam estar ligados mais ou menos diretamente aos desejos de nossos pais e à nossa herança cultural, isto é, ao que se desenrola no lugar do Outro. Penso, contudo, que essa “alienação” ao campo do Outro não é – como pensava Lacan mesmo na última fase de seu ensino – uma das operações necessárias para a constituição do sujeito. A meu ver, a alienação já é, em si mesma, sintoma de um adoecimento. Se o sujeito ainda em formação se aliena ao campo do Outro é porque a ele foi vedada a possibilidade de agir espontaneamente e se apropriar dos objetos do mundo de forma criativa. Mais uma vez, assim como na tese do desejo como falta, Lacan universaliza o adoecimento psíquico dando-lhe a conotação de estrutura.

Alguns excertos da obra lacaniana em que o autor sustenta sua concepção de sujeito como mero efeito da cadeia de significantes (todos os grifos são meus):

“O Outro é o lugar em que se situa a cadeia do significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, é o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer.” (Seminário 11, p. 193-194). [1]

“O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito.” (Seminário 11, p. 197).

“O quarto termo é dado pelo sujeito em sua realidade, como tal foracluída no sistema e só entrando sob o modo do morto no jogo dos significantes, mas tornando-se sujeito verdadeiro à medida que esse jogo dos significantes vem dar-lhe significação.” (De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, Escritos, p. 558)

“Isso fala no Outro, dizemos, designando por Outro o próprio lugar evocado pelo recurso à palavra, em qualquer relação em que este intervém. Se isso fala no Outro, quer o sujeito o ouça ou não com seu ouvido, é porque é ali que o sujeito, por uma anterioridade lógica a qualquer despertar do significado, encontra seu lugar significante.” (A significação do falo, Escritos, p. 696).

Sugestões de leitura:

415rdLRsR6L._SX333_BO1,204,203,200_     51F-6cShRsL._SX332_BO1,204,203,200_     51kpXxSHdIL._SX331_BO1,204,203,200_


[1] É forçoso reconhecer que o próprio Seminário 11 marca a mudança no posicionamento de Lacan acerca do assunto, como o comprova o seguinte trecho: “Será que isto quereria dizer, do que bem parece que sou mantenedor, que o sujeito está condenado a só se ver surgir in initio, no campo do Outro? Isto podia ser assim. Muito bem!, de modo algum – de modo algum – de modo algum.” (p. 199, grifo do autor)