A neurose é o negativo da perversão: entenda

“Assim, os sintomas se formam, em parte, à custa da sexualidade anormal; a neurose é, digamos, o negativo da perversão”. Esta é a frase completa na qual aparece a famosa fórmula freudiana que dá título a essa postagem.

O que Freud quis dizer com isso?

Basicamente que os sintomas neuróticos (obsessões, compulsões, rituais, disfunções físicas, fobias etc.) são meios que uma pessoa que sofre de neurose encontra para satisfazer de forma disfarçada impulsos sexuais perversos reprimidos.

E o que são esses impulsos sexuais perversos? Ora, todas as formas de prazer sexual que não sejam estritamente genitais, ou seja, tudo o que está para-além da penetração do pênis na vagina.

Lucas, mas isso não é uma visão muito redutora da sexualidade? E o prazer oral? E a homossexualidade?

Calma! Freud não utiliza o termo perverso em um sentido pejorativo, mas com um propósito meramente descritivo e, eu diria, até subversivo na medida em que demonstra que a sexualidade “normal” é, em certo sentido, perversa.

De fato, para o pai da Psicanálise, é praticamente impossível ter uma vida sexual sem elementos perversos, isto é, sem a presença de modalidades de prazer que não sejam genitais, como o toque, o olhar, o beijo etc. Portanto, todos nós somos um pouco “perversinhos”…

E o neurótico? Bom, ele também. O problema é que o neurótico se defende de alguns desses prazeres perversos que nele se manifestam desde a infância com muita intensidade. Assustado com a força desses impulsos em si e condenando-se moralmente por possuí-los, o neurótico se reprime e acaba adoecendo. Assim, expressa suas “perversões” de forma negativa: ao invés de sentir prazer, goza com elas por meio do sofrimento dos sintomas.

Psicanálise não é autoconhecimento

Muitas pessoas dizem que fazem Psicanálise não só para se livrarem de certos sintomas, mas também pelo desejo de se conhecerem.

Entretanto, a Psicanálise não serve a essa segunda finalidade pela simples razão de que não se pode conhecer aquilo que já se sabe.

Como assim, Lucas? Explico: ao contrário do que muita gente imagina, nós não somos desconhecidos para nós mesmos. Pelo contrário: sabemos exatamente o que se encontra presente em cada pedaço de nossas almas.

O problema é que a gente deliberadamente se esquece de algumas dessas coisas. Sabe quando você tem certeza de que sabe a resposta de uma pergunta da prova, mas não consegue se lembrar dela? Então, com as coisas da alma acontece o mesmo. A diferença é que o esquecimento da resposta da prova não é proposital (pelo menos, aparentemente, não…).

Repito: nós conhecemos tudo o que se passa em nosso interior. Contudo, por medo, vergonha ou culpa, preferimos fingir que alguns dos elementos que nos habitam não existem. Isso faz com que nos tornemos estrangeiros para nós mesmos.  Não por falta de conhecimento, mas pela resistência a nos… RECONHECERMOS.

Sim, as pessoas não adoecem porque não se conhecem, mas por que não RECONHECEM certas partes de si mesmas. Nesse sentido, o que a Psicanálise promove não é autoconhecimento, mas AUTORECONHECIMENTO.

O que acontece numa terapia analítica é semelhante ao processo de aprendizagem na concepção de Platão. Para o filósofo grego, quando aprendemos uma verdade, isso significa tão-somente que estamos nos lembrando dela, pois já a conhecíamos de nossa estada prévia no mundo inteligível.

Analogamente, na Psicanálise, quando o sujeito obtém, por exemplo, um insight e se dá conta das motivações de um sintoma ou de um traço de personalidade, o que está acontecendo é um processo de RECONHECIMENTO de uma verdade que já estava ali presente, impedida de se manifestar em função das resistências internas.

O que é esse tal de gozo em Psicanálise?

Quando a gente pensa na palavra “gozo”, imediatamente somos remetidos à esfera sexual. Afinal, essa palavra é mais frequentemente utilizada no discurso comum como sinônimo de orgasmo.

Numa acepção um pouco mais jurídica, por assim dizer, gozo designa também o uso ou o desfrute de algo, como quando se diz que um trabalhador está “em pleno gozo de suas férias”.

O conceito de gozo em Psicanálise tem relação com esses dois sentidos da palavra, embora não possa ser reduzido a nenhum deles.

Esse termo foi escolhido por Lacan para nomear uma experiência que Freud descreveu, mas não batizou. Refiro-me à experiência da SATISFAÇÃO SEXUAL INCONSCIENTE.

Quem aqui conhece um pouquinho de Psicanálise, sabe que Freud descobriu que muitos dos nossos problemas emocionais são, na verdade, a expressão disfarçada de impulsos sexuais reprimidos. Dito de forma mais simples, a gente se satisfaz sexualmente por meio da doença.

Talvez você esteja se perguntando: “Uai, Lucas, mas como assim? Quando estamos emocionalmente doentes, o que sentimos é dor e sofrimento e não prazer. Como, então, Freud pode dizer que estamos satisfazendo impulsos sexuais por meio da doença?”.

É aí que entra o conceito de gozo. Deixa eu te explicar: como a gente reprime certos impulsos sexuais, não podemos experimentá-los conscientemente. Justamente por isso é que só conseguimos descarregá-los disfarçadamente por meio dos sintomas. Logo, a satisfação desses impulsos é feita de forma inconsciente. Conscientemente sinto dor e sofrimento, mas inconscientemente estou… gozando!

O conceito de gozo serve, portanto, para designar tanto essa experiência de “orgasmo” que a gente experimenta sem saber por meio do sofrimento quanto o próprio uso/desfrute dos problemas emocionais para a obtenção de satisfação sexual. É por isso que os psicanalistas costumam dizer coisas como “Essa pessoa está gozando com esse relacionamento doentio”.

De fato, essa é uma das descobertas mais revolucionárias da Psicanálise: a de que podemos gozar com gemidos tanto de prazer quanto de dor.

O que você fez com seu sadismo e seu masoquismo?

Masoquismo designa originalmente um modo de obtenção de prazer sexual por meio da submissão a experiências de dor e humilhação.

Há algumas pessoas, inclusive, que só conseguem chegar ao orgasmo dessa forma. Essas precisam necessariamente encontrar alguém que esteja disposto a encenar o papel complementar ao do masoquista, isto é, o papel do sádico, aquele que obtém prazer sexual por meio da dominação e da aplicação de dor sobre o outro.

Embora a maioria das pessoas não precise necessariamente estar em alguma dessas posições para gozar, sabemos que níveis leves ou moderados de sadismo e masoquismo são encontrados com muita frequência nas relações sexuais.

Atento a essa indiscutível constatação, Freud propôs que impulsos de natureza sádica, ou seja, impulsos de dominação, e impulsos de caráter masoquista, isto é, impulsos de se fazer dominar, fossem considerados componentes naturais e espontâneos do nosso instinto sexual e que, portanto, estariam presentes em todas as pessoas, não só nos sádicos e masoquistas.

Essa proposição é revolucionária. Com efeito, se todos nós somos habitados (desde a infância) por impulsos sádicos e masoquistas, é preciso verificar quais são os destinos que damos a esses impulsos. Uma criação saudável ajuda a criança a integrá-los e utilizá-los a seu favor, sobretudo nas relações interpessoais (ela consegue, com naturalidade, por exemplo, dominar quando preciso e obedecer quando necessário). Por outro lado, uma educação coercitiva pode levar o menino ou a menina a reprimirem tais inclinações para o Inconsciente, fazendo com que a força delas aumente de forma significativa.

O resultado, nesse segundo caso, será a expressão do sadismo e do masoquismo de forma neurótica e sintomática. Não raro, por exemplo, vemos pessoas que, forçadas a reprimirem seus impulsos sádicos e masoquistas na infância, se tornam adultos medrosos, que expressam sua fantasia sadomasoquista reprimida nas relações interpessoais. Tais indivíduos estão sempre “procurando” alguém que, para eles, possa encarnar o papel do sádico dominador (que nunca puderam ser) e eles próprios estão frequentemente se colocando, a contragosto, na posição de masoquistas submissos.

[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 03

Nesta aula: quatro traços típicos da estrutura histérica: insatisfação crônica, sedução/dramatização, repúdio à sexualidade e compulsão a “castrar” o outro.

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Desabafo não é terapia: entenda por que Freud abandonou o método catártico

Desabafo não é tratamento. Foi por se dar conta disso que Freud abandonou o método catártico. Lucas, mas o que é esse tal de método catártico de que você fala?

Vamos lá: no final do século XIX, Freud, um jovem neurologista que desejava ser pesquisador universitário, começou (meio a contragosto) a atender pacientes com o objetivo de fazer algum dinheiro. Com efeito, o pobre rapaz queria desposar sua amada Martha Bernays.

Um amigo e colega mais experiente chamado Josef Breuer, cuja clínica já era bastante reconhecida e bem-sucedida na Viena dos anos 1890, vinha experimentando um novo método de tratamento da histeria, baseado na aplicação da famigerada técnica da hipnose.

O tal método consistia em hipnotizar o paciente histérico e, durante esse estado de consciência rebaixada, exortar o doente a se lembrar e relatar as ocasiões exatas em que seus sintomas haviam aparecido. Quando o paciente conseguia fazer isso, o resultado era uma explosão emocional, indicando que a narrativa dos episódios que estavam na origem dos sintomas possibilitava a DESCARGA de sentimentos que estavam represados na mente do paciente. Não por acaso, após tais relatos acompanhados desses arrebatamentos emocionais, o paciente se via livre do sintoma que estava sendo investigado.

Eis, portanto, o método catártico. Esse termo foi cunhado por Breuer e Freud tomando como referência o termo “catarse”, de origem grega (“kátharsis”) e que designa a ideia de purificação ou purgação. Num sentido metafórico, o método inventado por Breuer levava o paciente a se “limpar” das “sujeiras” emocionais que ele vinha inconscientemente guardando.

Influenciado por Breuer, Freud inicialmente também experimenta o método catártico com seus pacientes histéricos e conquista muitos êxitos. Contudo, por não se considerar um hipnotizador muito bom e, principalmente, por se dar conta de que as melhoras obtidas por seus pacientes não se mantinham com o passar do tempo, o fundador da Psicanálise decide abandonar tanto a hipnose quanto o método criado por Breuer.

Freud se dá conta de que o método catártico possibilita que o paciente “coloque para fora” os sentimentos que lá atrás haviam sido sufocados, mas não ajuda o paciente a discernir os motivos pelos quais essa repressão havia acontecido. É por isso que a pessoa voltava a adoecer: com efeito, diante de novos desafios emocionais, o paciente voltava a utilizar a mesma estratégia defensiva do passado que havia dado origem aos antigos sintomas.

Além disso, Freud percebe também que não era necessário hipnotizar o doente para ter acesso à dimensão inconsciente da psique dele. Bastava exortar o paciente a falar de forma espontânea tudo o que lhe viesse à cabeça. É essa nova técnica, a associação livre, que estará na base do novo método terapêutico, desta feita inventado por Freud, denominado Psicanálise.

O que é o Simbólico em Lacan?

O Simbólico contempla a dimensão da nossa experiência que é condicionada pela linguagem.

Diferente de outros animais, o homem não vive apenas no mundo físico, mas também no mundo cultural que, por sua vez, é constituído basicamente de palavras, ou seja, de elementos simbólicos.

Por exemplo, pense no seu nome. Quando ele aparece na lista de funcionários da empresa onde você trabalha, aquelas palavras (digamos “João de Souza”) simbolizam a sua existência naquela empresa independentemente da sua presença concreta na firma. Entendeu? As palavras fazem com que você exista não só no mundo físico, mas também em outro mundo, o mundo do registro, o mundo da representação, o mundo simbólico.

Nesse outro mundo, as palavras estão ARTICULADAS e você acaba sofrendo os efeitos dessas articulações. Por exemplo, a palavra João, escolhida por seus pais para ser o seu nome, é a mesma palavra que se utiliza em português para a tradução do nome de um dos discípulos de Jesus, autor do quarto evangelho. É também parte do nome de um brinquedo infantil, o João Bobo. Você enquanto “pessoa física”, por assim dizer, não tem nada a ver com o João Evangelista nem com o João Bobo, mas o seu nome tem e isso é o suficiente para que você sofra eventualmente os efeitos dessas relações… simbólicas.

Isso não acontece, por exemplo, com um cachorro. O fato de se chamar Bob ou Rex não faz a menor diferença na vida de um cão. Já na vida de um ser humano, as consequências de se chamar João são muito diferentes das consequências de se chamar Pedro.

Portanto, o Simbólico diz respeito à dimensão da nossa vida que é dependente das articulações autônomas existentes entre as palavras.

A gente faz Psicanálise para transformar cicatrizes em tatuagens

 

Não é possível mudar o passado.

Não é possível voltar no tempo e fazer com que seus pais frios e distantes se tornem acolhedores e amorosos. Não dá para voltar há 20, 30, 40 anos e impedir aquele abuso sexual de acontecer ou convencer sua mãe de que violência e autoritarismo não combinam com educação.

Enfim, nos é vedada a possibilidade de alterar os fatos que atravessaram nossa existência.

Contudo, podemos, sim, mudar a maneira como os enxergamos. Não, eu não estou me referindo a essas bobagens polianescas que muitos pseudoterapeutas andam dizendo por aí. O que eu, como psicanalista, proponho não é uma mera ressignificação do passado, o tal do “enxergar o lado bom das coisas”. Não existe lado bom no abuso sexual, na opressão, na frieza, na violência. Não! Na vida, diferentemente do que acontece no Instagram, não existe filtro para fazer tudo ficar artificialmente belo.

A gente não faz Psicanálise para “olhar a vida de outra forma”. A gente faz Psicanálise para se APROPRIAR da vida tal como ela é e foi (aos nossos olhos): com suas dores, com seus abusos, com seus sofrimentos.

A tendência natural que todos nós temos é a de querermos nos livrar das memórias das dores que nos marcaram.  Ou seja, não queremos TOMAR POSSE da nossa própria história. Desejamos inutilmente voltar no tempo para mudar as coisas. E, por isso, muitos de nós vivem cronicamente frustrados.

A Psicanálise vai na contramão dessa tendência. Convocamos o paciente a resistir a ela e o exortamos a olhar para o próprio passado e dizer: “Isso sou eu, essa é a minha história. Apesar de não ter escrito todas as páginas, permaneço sendo o único autor dessa obra irrepetível que é a minha existência”.

[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 02

Nesta aula: como Freud passou da teoria da sedução para a teoria da fantasia na busca por encontrar as causas da histeria na infância.

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[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 01

Este é o primeiro vídeo da série “Histeria e Psicanálise” na qual pretendo explicar o que é a histeria, como se formam os sintomas histéricos e os traços constitutivos da estrutura histérica de personalidade. Nesta primeira aula, falo sobre o encontro de Freud (e de Breuer) com as histéricas do final do século XIX e as primeiras descobertas pré-psicanalíticas relativas à gênese dos sintomas histéricos.

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O que devo fazer para me tornar psicanalista?

1 PRECISO TER FORMAÇÃO SUPERIOR PARA SER PSICANALISTA? Não. A Psicanálise não é uma profissão regulamentada pelo Estado brasileiro. No limite, qualquer pessoa, independentemente do seu grau de escolaridade, pode se autonomear psicanalista e atender pessoas dizendo praticar a Psicanálise.

2 ENTÃO, QUEM GARANTE QUE UMA PESSOA É VERDADEIRAMENTE UM PSICANALISTA? Ninguém. Não existe uma entidade universalmente reconhecida por todos os psicanalistas que esteja autorizada a oferecer um “diploma” ou “certificado” de psicanalista. Existem diversas instituições que fornecem uma formação em Psicanálise mais ou menos organizada, mas nenhuma delas funciona como um tribunal supremo que define quem é e quem não é psicanalista.

3 NÃO SERIA MELHOR TER UM CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICANÁLISE RECONHECIDO PELO MEC SEMELHANTE AO QUE ACONTECE COM A PSICOLOGIA? Não. Isso faria o exercício da Psicanálise se tornar dependente de uma formação protocolar baseada em parâmetros de ordem estatal que poderiam ser estranhos e até avessos ao campo psicanalítico.

4 OK, ENTENDI, MAS E SE EU QUISER ME TORNAR PSICANALISTA. O QUE DEVO FAZER? Três coisas: a primeira e mais importante é submeter-se a uma análise e levá-la até o fim (o que pode levar muitos anos); a segunda é estudar sistematicamente a teoria psicanalítica, começando pelas obras dos grandes autores, a saber: Freud, Ferenczi, Klein, Winnicott e Lacan. Saiba que esse estudo não acaba nunca. Você precisaria de, no mínimo, umas 3 vidas para conseguir abarcar toda a literatura analítica. A terceira coisa é submeter-se a uma supervisão por parte de um analista mais experiente, sobretudo nos primeiros anos de prática clínica. Você pode fazer essas 3 coisas independentemente ou no interior de uma instituição.

5 E QUANDO PODEREI COMEÇAR A ATENDER PESSOAS? Não, não chegará uma carteirinha te dando habilitação para clinicar, ok? Quem decidirá isso é você mesmo. Já ouviu falar numa coisa chamada ética? Pois é. Trata-se de uma decisão ética. É você quem deve avaliar o momento em que considera estar preparado para escutar outras pessoas. Seja responsável.

4 boas práticas para aproveitar melhor sua terapia

1 Encare o processo terapêutico como tratamento: não trate sua sessão de terapia como um mero compromisso semanal ou como um simples momento de desabafo. Considere cada encontro com seu terapeuta como uma etapa do caminho que o levará à tão desejada cura.

2 Não utilize um roteiro: não faça uma lista de coisas que você deseja trabalhar nas sessões. Você talvez não perceba, mas esse tipo de planejamento acaba sendo uma forma inconsciente de evitar tocar justamente nos pontos que precisam ser abordados no tratamento. Em outras palavras, você lista algumas questões justamente para não falar de outras. Em vez de levar um roteiro, faça o que nós, psicanalistas, chamamos de “associação livre”, ou seja, fale o que vier à sua cabeça, sem preocupar-se com ordenação ou coerência. Dessa forma, você tornará seu discurso mais permeável à passagem do Inconsciente e, consequentemente, facilitará a identificação da origem dos seus sintomas.

3 Fique atento aos seus sonhos: quando iniciamos um processo terapêutico é comum passarmos a nos lembrar com mais frequência de nossos sonhos. Isso acontece porque a terapia afeta de forma mais significativa o Inconsciente, levando-o a se movimentar de forma mais visível. Por isso, é importante que você preste atenção aos seus sonhos enquanto estiver em terapia, pois eles revelam o que está se passando em você na dimensão do Inconsciente. Se possível, habitue-se a anotá-los e reflita sobre eles associando os elementos do sonho a aspectos da sua vida atual e de sua história. Trata-se de um material riquíssimo que não deve jamais ser menosprezado.

4 Não limite a terapia apenas ao que acontece nas sessões: a terapia não se dá apenas durante os 45 ou 50 minutos em que você se encontra com o terapeuta. O Inconsciente funciona 24 horas por dia! Por isso, é importante que você intencionalmente reflita sobre o que acontece consigo diariamente, sobretudo sobre atos falhos e esquecimentos, e também sobre os pensamentos e fantasias que lhe passam pela cabeça tentando conectar tudo isso com que vem sendo trabalhado durante as sessões. Às vezes, uma intervenção feita pelo terapeuta em uma sessão só fará sentido alguns dias depois em função de algum evento ou após uma reflexão.

Travessia da fantasia: tornar-se o que se era

A experiência psicanalítica evidencia que nós não vivemos na realidade objetiva, ou seja, aquela que independe do que pensamos, desejamos e imaginamos. Somos capazes de supor a existência de uma realidade objetiva (pois não sabemos se de fato ela existe) porque percebemos a insuficiência da realidade em que vivemos. Algo nela sempre falta ou sobra. Há sempre alguma coisa que não fecha, uma inconsistência, um defeito, que nos faz suspeitar de sua fidedignidade: “Será que posso mesmo confiar que a realidade seja assim como eu acho que é?”.

Quando essa pergunta começa a se tornar mais frequente e a gerar angústia, as pessoas costumam procurar terapia. Alguns métodos de tratamento ajudam o paciente a “remendar” o tecido de sua realidade que começou a se romper e a revelar os buracos que o constituem. São métodos que trabalham com exercícios, reorganização do pensamento, autocontrole etc. e que têm um valor inegável, embora se baseiem numa concepção um tanto ingênua da realidade.

Por saber que nós não vivemos na realidade objetiva, mas numa realidade que Freud chamou de “psíquica”, a Psicanálise trabalha de outra forma. O fato de nossa realidade ser fundamentalmente psíquica significa que ela é estruturada por fantasias e, mais especificamente, por uma “fantasia fundamental” (conceito inventado pelo psicanalista francês Jacques Lacan). O objetivo da Psicanálise não é o de eliminar essa fantasia com a suposta justificativa de fazer o sujeito “encarar a realidade”. Não! Se a fantasia fosse destruída, o paciente cairia justamente naquilo que está para-além da nossa realidade, o Real, dimensão com a qual não podemos lidar diretamente.

Aliás, a fantasia fundamental é justamente a tela que nós construímos para nos protegermos do Real. O problema é que, enquanto não tomamos consciência da fantasia, enquanto fingimos que ela não existe, somos dominados por ela, tal como uma marionete nas mãos do titereiro. Em outras palavras, sofremos, não conseguimos sair do lugar, mas não sabemos o motivo. Por isso, a Psicanálise não busca fazer remendos na realidade psíquica do paciente, pois isso implicaria em mantê-lo assujeitado à fantasia. Entendemos que todas as fantasias são furadas mesmo — e é bom que seja assim… 😉

A proposta da Psicanálise é a de ajudar o paciente a “atravessar” sua fantasia. O que significa isso? Significa ajudá-lo a responsabilizar-se pelo próprio desejo, ou seja, sair do lugar de objeto e tornar-se sujeito de sua realidade, o que implica em conseguir lidar criativamente com sua fantasia e não submeter-se passivamente a ela . Como disse Freud em sua célebre máxima no final da conferência “A Dissecção da Personalidade Psíquica”, o objetivo da Psicanálise é que “Wo Es war, soll Ich werden”, ou seja, que nos tornemos o que já éramos.

Tem certeza de que você quer ser curado?

Opnamedatum: 2010-08-05

Mais do que uma coletânea de livros religiosos, a Bíblia é fundamentalmente uma obra que fala sobre a natureza do homem e expõe as vísceras da experiência humana. Por isso, tenho muita dificuldade de respeitar intelectualmente um profissional de Ciências Humanas que não detenha um conhecimento razoável dos textos bíblicos. É lastimável o cara que sabe o que Lacan falou na lição 03 do Seminário 10, mas desconhece o fato de que Paulo de Tarso escreveu mais de uma epístola.

Essa é apenas uma introdução que me veio à cabeça quando pensei no tema acerca do qual gostaria de tratar hoje e que me foi sugerido justamente por alguns fragmentos da Bíblia.

Sempre me chamou a atenção uma peculiaridade do comportamento de Jesus de Nazaré ao lidar com os doentes que apareciam em seu caminho. Das duas uma: ou ele perguntava para a pessoa: “O que você quer que eu faça por você?” ou indagava: “Você quer ser curado?”, como fez com o paralítico que há anos vivia às margens do Tanque de Betesda.

Tais indagações podem soar um tanto irônicas se você parar para pensar que aquelas pessoas estavam visivelmente doentes. Não era óbvio que elas gostariam de ser curadas?

Não, não era. Creio que as perguntas de Jesus, as quais, na verdade, todo analista, também faz àqueles que o procuram, revela justamente que NEM SEMPRE QUEREMOS SER CURADOS DE NOSSAS DOENÇAS. Eu falei um pouco sobre isso no domingo passado.

Na verdade, muitas vezes a gente procura um terapeuta apenas com o objetivo de sermos aliviados de nossas dores, mas não necessariamente curados. Afinal, a verdadeira cura exige de nós a tomada de certas decisões que não queremos, seja porque temos medo do que acontecerá se as tomarmos, seja porque não queremos abrir mão do ilusório conforto que a doença nos proporciona.

A gente se acostuma com tudo, meus caros, inclusive com nossas paralisias. A gente dá um jeito: viramos mendigos, acreditamos que um milagre acontecerá e tudo vai mudar sem que precisemos fazer um mínimo esforço, botamos a culpa de nosso sofrimento nos pais, na sociedade, no capitalismo, em Deus…

É muito difícil levantar-se, tomar o próprio leito e caminhar. Por isso, as perguntas “O que você quer que eu faça por você?” e “Você quer ser curado?” não são perguntas irônicas. Numa terapia psicanalítica, elas estão constantemente sendo refeitas. Essa é uma das razões pelas quais alguns pacientes abandonam o tratamento. Eles imaginam que a cura virá meio que por inércia, sem que precisem se enxergar e abandonar os confortos da doença.

Mudar dá trabalho, exige coragem e capacidade de suportar certas mutilações emocionais. A terapia ajuda você a ter forças para avançar nesse processo. Mas SÓ VOCÊ pode se levantar, tomar o seu leito e caminhar.

A origem da crença no “pensamento positivo”

Filme "Click", com Adam Sandler

A crença de que pelo nosso mero pensar seremos capazes de fazer a realidade “conspirar” a nosso favor não é nova na história da humanidade. Outrora associada ao favor de deuses e outras entidades sobrenaturais, atualmente essa crença assume uma roupagem pseudocientífica em livros como “O Segredo”.

De acordo com os gurus do “pensamento positivo” todos nós temos a capacidade de alterar a realidade em nosso benefício, sem precisar necessariamente agir sobre ela. Até gente que se diz cristã e que supostamente têm fé num Deus da graça que não exige sacrifícios de nenhuma natureza embarcam nessa espécie de fé na própria fé.

Um psicanalista contemporâneo de Freud chamado Sándor Ferenczi tem uma explicação muito interessante para essa história de “Mentaliza que dá certo.”. Segundo ele, todos nós já passamos por um estágio do desenvolvimento psíquico em que acreditávamos piamente que tínhamos a capacidade de modificar a realidade apenas com nossos pensamentos. Ferenczi chamou essa fase de “período dos pensamentos e palavras mágicas”. Tal estágio ocorre no momento em que estamos começando a aprender a falar. Trata-se de um momento epifânico para a criança, pois ela percebe que não precisa mais chorar ou gestos para ser atendido pelo ambiente em suas necessidades. Basta emitir determinados sons de uma determinada maneira. É mais econômico!

Por outro lado, ao mesmo tempo em que aprendemos a falar, vamos aprendendo também a pensar com palavras, de modo que ao experimentarmos uma determinada necessidade passamos a articular mentalmente as palavras ou “quase-palavras” que precisaremos emitir para sermos atendidos. No entanto, o ambiente, especialmente aquele composto por pessoas cuidadosas, acolhedoras e empáticas, raramente precisa esperar que o bebê fale ou balbucie para que suas necessidades sejam atendidas. O ambiente suficientemente bom, como diria Winnicott, meio que “adivinha” prontamente as necessidades do bebê. Conclusão: a criança inevitavelmente passa a acreditar que foram os seus pensamentos que levaram o ambiente a atendê-la. Ferenczi chamou essa crença de “ilusão de onipotência”.

Nesse sentido, a tese do “pensamento positivo” seria, portanto, a expressão coletiva (ainda que racionalizada ou com uma roupagem religiosa) de uma regressão a esse estágio do desenvolvimento psíquico. Como Ferenczi mostra no artigo “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios“, que está no volume II das suas Obras Completas, o desenvolvimento do bebê prossegue na direção do reconhecimento da realidade externa como uma dimensão autônoma em relação aos seus pensamentos. Em outras palavras, nós gradativamente vamos nos dando conta de que não basta “mentalizar” para que as coisas aconteçam. É necessário falar, agir e, não raro, resignar-se e ter paciência, pois nem sempre será possível alcançar o que desejamos.

Dependendo do ambiente no qual foram criadas, certas crianças demorarão mais ou menos para reconhecerem essa independência do mundo externo. Assim, aquelas pessoas que foram muito “mimadas” na infância, ou seja, que não precisaram se esforçar muito para terem suas necessidades atendidas e, portanto, tiveram mais resistência para abandonar a crença na força de seus pensamentos, podem se tornar excessivamente otimistas, indolentes e não terem muito discernimento acerca da quantidade de esforço necessário para alcançarem seus objetivos. Por outro lado, aquelas que foram educadas num ambiente excessivamente duro ou hostil podem desenvolver um pessimismo crônico e tornarem-se céticos, desconfiados e sem esperança em relação ao mundo e à sua própria potência. Ambos os casos caracterizam quadros de imaturidade emocional.

Mas voltando diretamente ao tema do “pensamento positivo”, podemos caracterizá-lo à luz da interpretação proposta por Ferenczi como uma recusa infantil à aceitação da realidade como autônoma e uma regressão à ilusão de onipotência própria do bebê. O recrudescimento dessa crença na atualidade pode ser atribuído, talvez, a uma dificuldade generalizada de lidar com uma realidade tão mutante e não raro caótica que caracteriza o mundo contemporâneo.

Antes de encerrar este artigo quero deixar claro que não estou advogando em favor de uma atitude pretensamente fria e objetiva diante da vida, até porque tal postura é impossível de ser adotada integralmente (a não ser por sociopatas, provavelmente). Parece-me óbvio que uma postura de confiança na nossa própria capacidade e de “torcida” por nós mesmos é saudável e, inclusive, nos ajuda a alcançar nossas metas. Afinal, é plausível supor que uma pessoa autoconfiante e que acredita verdadeiramente que é capaz de obter o emprego desejado terá muito mais probabilidade de ser aprovado num processo seletivo do que alguém que participa do mesmo processo com um medo enorme de não ser selecionado. No primeiro caso temos uma pessoa com BOM ÂNIMO e AUTOCONFIANÇA; não se trata de “pensamento positivo”. O indivíduo não está depositando sua fé numa suposta conspiração do universo a seu favor, mas sim em suas próprias competências.

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