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O avanço tecnológico nos permite, hoje, substituir partes ausentes ou danificadas de nossos corpos por artefatos ou dispositivos artificiais.
Chamamos essas coisas de próteses.
Se você quebra um dente, por exemplo, e precisa extraí-lo, pode fazer um implante e colocar uma prótese dentária no lugar.
Se você sofre um grave acidente e perde uma das pernas, é possível substituir o membro por uma perna ortopédica.
Mas você já parou para pensar que existem também próteses emocionais?
Diferentemente das físicas, elas não são objetos artificiais. São… pessoas.
Sim, porque nenhum artefato é capaz de realizar a função de uma prótese emocional: suprir, na vida do sujeito, a ausência ou insuficiência de uma determinada atitude ou habilidade. Só pessoas podem fazer isso.
Eu vou te dar um exemplo:
Breno sempre teve muita dificuldade para lidar com conflitos. Ele tem uma preocupação excessiva em ser visto como chato, desagradável e, por isso, costuma evitar ao máximo bater de frente com as pessoas, mesmo quando tem razão e suas reivindicações são legítimas.
Ele não se comporta assim por acaso. Na infância, essa inibição era extremamente útil para o rapaz. Entrar em conflito com sua mãe era objetivamente arriscado, pois a genitora era bastante agressiva, severa e não admitia qualquer tipo de contestação.
Como normalmente acontece, Breno transferiu o padrão da experiência com a mãe para outras relações e, assim, evita bater de frente com toda e qualquer pessoa.
O problema é que suportar e lidar com conflitos é uma habilidade importantíssima na vida adulta — tão importante quanto uma perna.
Sabendo (inconscientemente) disso, o que Breno acabou fazendo sem perceber?
Ele se casou com uma mulher que não tem problema algum em lidar com conflitos. Pelo contrário! Ágata, sua esposa, é do tipo que parece até gostar de uma boa briga.
Se o casal vai a um restaurante e o pedido vem errado, Ágata não deixa pra lá — como Breno costuma fazer. Ela se recusa firmemente a aceitar o prato e, ao sair, pode até se queixar com o gerente do estabelecimento.
Para Breno, tais posturas são impensáveis. Assim que um conflito se estabelece, a sombra ameaçadora da mãe emerge em seu inconsciente.
Por isso, se não fosse a presença da esposa, ele provavelmente aceitaria o prato errado só para não ter que vivenciar um pequeno embate com o garçom.
Ágata funciona para Breno como uma prótese emocional: ela encarna uma competência que o marido não conseguiu desenvolver.
Eu disse anteriormente que as próteses emocionais se diferenciam das físicas por serem pessoas e não artefatos. Mas há outra diferença muito importante:
Enquanto as próteses físicas substituem partes do corpo que não podem ser regeneradas, as próteses emocionais suprem atitudes, habilidades, competências que podem ser desenvolvidas.
Breno pode perfeitamente adquirir a capacidade de ser assertivo e suportar conflitos por meio de uma análise que o ajude a elaborar a relação traumática com a mãe.
De todo modo, é importante sabermos disso: muitas vezes, um dos elementos que fazem com que duas pessoas permaneçam juntas — para além de amor, desejo, companheirismo etc. — é a função de prótese emocional que um exerce para o outro.
E essa dinâmica pode ser recíproca: de repente, a postura excessivamente conciliadora e passiva de Breno também possa preencher uma falta na personalidade de Ágata.
Talvez Ágata compre mais brigas do que o necessário e se desgaste emocionalmente em excesso por não ter desenvolvido justamente a capacidade de “deixar pra lá” — que Breno tem de sobra…
E você: será que tem usado alguém como prótese emocional ou será que você é a prótese de alguém?
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Você pode ter aprendido quando criança que a agressividade é essencialmente ruim ou perigosa.
E isso pode ter acontecido por uma série de fatores.
Por exemplo: você pode ter tido um pai ou uma mãe que eram excessivamente agressivos e lhe faziam sentir medo.
Ou pode ter sofrido severas ameaças e punições nas poucas vezes em que expressou agressividade.
Situações como essas podem te levar a olhar para a própria agressividade como algo que não deve fazer parte da sua vida.
O problema é que não dá para viver sem agressividade.
Por isso, já que você tem medo de se apropriar dela, ela acabará vazando em sua vida — de uma forma ou de outra.
Uma forma muito comum de “vazamento” é o que Freud chamou de “reversão”: em vez de usar a agressividade, você, inconscientemente, convoca outra pessoa para usá-la com você.
Essa “convocação” pode acontecer por meio da escolha de uma pessoa excessivamente agressiva para se relacionar ou da indução de agressividade em alguém que nem é naturalmente muito agressivo.
Dessa forma, a agressividade se presentifica na sua vida só de que maneira invertida: não é você que a manifesta; é o outro que a manifesta no seu lugar.
— Nossa, Lucas, isso parece masoquismo, não?
Sim. E não é por acaso. Deixa eu te explicar.
Na cabeça do sujeito que foi levado a ver a agressividade com maus olhos, ela passou a ser sinônimo de sadismo, ou seja, de um impulso que busca intencionalmente a destruição ou o sofrimento do outro.
Por isso, quando a agressividade vaza por meio da reversão, o sujeito não busca alguém que a vive de forma integrada e saudável. Não. Ele busca um… sádico! (Ou induz seu parceiro a agir de forma sádica).
Consequentemente, a posição que o sujeito passa a ocupar é uma posição… masoquista.
Esse é um fenômeno muito comum em relações tóxicas e ajuda a entender porque algumas pessoas não conseguem sair dessas relações.
Às vezes, quem olha de fora até chega a pensar:
“Caramba! Essa mulher parece que gosta de sofrer! Olha como o marido a trata mal…”
Não é que a pessoa gosta de sofrer no sentido de que ela obtém prazer em ser xingada e humilhada por seu marido.
É que, talvez, essa seja a única forma que ela encontrou de permitir a presença da agressividade em sua vida: sendo objeto do sadismo alheio…
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Vanessa ainda não tinha conseguido entender porque sentia tanta irritação ao atender Marcelo.
O rapaz tinha 27 anos e havia começado a terapia com uma demanda de timidez excessiva e pensamentos intrusivos.
Ele sempre fora tão gentil e educado no trato com Vanessa que a analista poderia descrevê-lo tranquilamente como “um amor de pessoa”.
Porém, o que ela sentia ao atendê-lo era… raiva. Às vezes tinha vontade de lhe dar uns safanões. “Esse cara precisa acordar para a vida!”, ela pensava.
Ao mesmo tempo, Vanessa se condenava por ter esse tipo de pensamento e por ficar tão irritada nas sessões.
A terapeuta achava que não estava conseguindo manter a neutralidade e cogitou até interromper a análise e encaminhar o paciente para uma colega.
No entanto, fazendo uma pesquisa na internet sobre contratransferência, a analista acabou encontrando o artigo “On Counter-transference”, de Paula Heimann.
Trata-se de um texto clássico, publicado em 1950, no qual a autora defende que os sentimentos contratransferenciais não são necessariamente um problema.
Pelo contrário! Segundo Heimann, eles podem fornecer pistas sobre o que está acontecendo no inconsciente do paciente.
Depois de ler o artigo, Vanessa refletiu longamente sobre o caso e chegou a uma conclusão que provocou uma virada radical no tratamento.
A analista se deu conta de que a raiva que sentia era, na verdade, uma expressão da agressividade que o próprio paciente não conseguia experimentar.
Incapaz de suportar seus impulsos agressivos, o rapaz os projetava na analista e, sem perceber, a induzia a vivenciá-los em seu lugar.
Essa constatação levou Vanessa a perceber que a repressão da agressividade era um fator central por trás da timidez e dos pensamentos intrusivos de Marcelo.
Mas, veja: ela só conseguiu fazer essa descoberta ao ser encorajada pelo artigo de Paula Heimann a olhar para sua contratransferência como uma fonte de informação.
Você, que ainda não conhece esse texto, também pode passar pela mesma experiência transformadora vivida por Vanessa — só que em boa companhia.
Deixa eu te explicar: é que eu acabei de publicar na Confraria Analítica uma aula especial justamente sobre o artigo “On Counter-transference”, de Paula Heimann.
O título dela é “A Contratransferência como Bússola Clínica” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS da Confraria Analítica.
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É a melhor oportunidade do ano para aprofundar sua clínica com autores que realmente fazem diferença — como Paula Heimann.
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Imagine a seguinte cena: você está andando na rua e, de repente, se depara com um cachorro filhote deitado na calçada e percebe que ele está sentindo dor.
Você se aproxima com a melhor das intenções e toca a parte do corpo do animal que parece ser a fonte da dor. Pois bem, o que acontecerá?
Muito provavelmente, o doguinho dará um gemido, mas você não ficaria surpreso se ele avançasse em sua mão, tentando mordê-la.
De fato, você sabe que cães e outros animais costumam se defender dessa forma: atacando.
Mas talvez, o que você não saiba é que isso também pode acontecer com a nossa espécie. Muitas pessoas só conseguem se defender, tornando-se agressivas.
Se o cãozinho pudesse falar (e fosse suficientemente maduro), talvez dissesse a você: “Opa! Não toque aí, amigo; tá doendo muito.”
Mas, sem acesso à linguagem, tudo o que ele pode fazer para se comunicar é tentar te morder.
Ou seja, o agredir é uma forma de autodefesa, mas também de comunicação.
Na cena que eu descrevi, o cachorro não avançaria em você para saciar um impulso destrutivo, mas para “dizer”: “Não toca aí!”.
Da mesma forma, muitas pessoas utilizam xingamentos, falas ríspidas, gritos etc. porque não conseguem encontrar outra forma de dizer que estão sentindo dor.
— Ah, Lucas, então agora eu tenho que aceitar maus tratos só porque o caboclo não consegue se defender sem atacar?
É claro que não. A vida é sua. Faça o que você quiser.
Como dizem os americanos, eu não estou PRESCREVENDO, só DESCREVENDO.
O que estou te ensinando pode ajudá-lo, principalmente, a lidar com episódios PONTUAIS de agressividade por parte de cônjuges e amigos.
De repente, meu caro, sua namorada, que sempre foi “um doce de pessoa”, pode te tratar de forma impaciente e até grosseira.
Talvez, naquele dia especificamente, seja por TPM ou qualquer outro fator, ela não conseguiu fazer uso de recursos mais maduros para comunicar suas dores.
E aí, a única coisa que deu conta de fazer, para se proteger, foi te atacar.
Acontece. A gente precisa parar de idealizar as relações humanas. O cotidiano não tem filtro nem corte. Tudo acontece sem edição…
Novamente: não estou dizendo que você tem que aceitar ser atacado. Faça o que você quiser. Mas é importante compreender essa função comunicativa do ataque.
Crianças, por exemplo, com muita frequência se defendem por meio da agressividade. Justamente por conta de sua imaturidade psíquica.
Um menino que dá muito trabalho na escola, não respeita professores e está sempre arrumando confusão, provavelmente está sofrendo internamente.
Nesse sentido, se os pais e a escola olham para o comportamento dele como uma simples expressão de impulsos agressivos, o resultado será catastrófico.
O garoto será severamente punido e a dor que motivou seus ataques só aumentará. Seria o mesmo que bater no cachorro após ele avançar.
Talvez, o menino precisasse apenas de adultos suficientemente fortes para traduzir sua “linguagem” agressiva sem responder a ela com mais agressividade.
O mundo seria um lugar lindo se todas as pessoas, em todos os momentos, conseguissem não apelar para o ataque como forma de defesa.
Pena que a realidade é muito mais complexa e desafiadora do que um manualzinho de comunicação não violenta.
***
Às vezes, o ataque é só um jeito torto de dizer “tá doendo”.
Na Confraria Analítica, a gente estuda, com profundidade e clareza, essas formas disfarçadas de expressão da nossa verdade.
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Participe da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.
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Esta é uma pequena fatia da AULA ESPECIAL “LENDO KLEIN 09 – O sadismo implacável do superego primitivo” que já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – KLEIN da CONFRARIA ANALÍTICA.
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Atendendo crianças emocionalmente doentes, Melanie Klein descobriu que o superego se forma muito mais precocemente do que pensava Freud.
O pai da Psicanálise acreditava que a instância superegoica só surgiria a partir do momento em que a criança começasse a se desligar afetivamente dos pais.
E, para Freud, tal processo só aconteceria por volta dos cinco anos.
Frustrada por perceber que a mãe e o pai possuem outros interesses para além dela, a criança internalizaria as figuras parentais na forma de superego como uma espécie de consolo.
“Já que não posso ficar com mamãe e papai o tempo todo, levá-los-ei dentro de mim para o resto da vida. 😌”, pensaria o ingênuo filhotinho de Homo sapiens.
Todavia, para Melanie Klein, esse processo de introjeção das figuras parentais ocorreria muito mais cedo do que Freud sugeriu.
A clínica infantil revelou à psicanalista austríaca que, desde os primeiros dias de vida, o bebê já estabelece um intercâmbio entre ele e a mãe no nível da fantasia.
Ainda no colo materno, a criança projeta coisas na mãe e introjeta elementos que ela imagina que estão na mãe (justamente os que ela mesma projetou 🤡).
— Que coisas a criança projeta na mãe, Lucas? 🤔
As únicas coisas psíquicas que ela traz “de fábrica” ao nascer: seus impulsos de amor 😍 e de agressividade 😡.
Ao projetar na figura materna esses impulsos, o bebê acaba criando em sua cabeça uma versão 100% amorosa e outra 100% maligna da mãe.
O problema, como eu disse acima, é que a criança traz para dentro de si essas duas versões maternas que ela mesma forjou.
Resultado: ela se identifica com a mãe 100% boa 😇 e trata a mãe 100% má como uma espécie de autoridade inquestionável que a persegue e tortura internamente 👿.
Ora, para Melanie Klein, essa mãe 100% má introjetada é justamente a versão primitiva do superego. Um superego extremamente cruel, severo e implacável.
Quer entender melhor como esse superego cruel se forma? Na aula especial publicada hoje na Confraria Analítica, explico tudo detalhadamente.
O título da aula é “LENDO KLEIN 09 – O sadismo implacável do superego primitivo” e ela já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – KLEIN.
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Esta é uma pequena fatia da AULA ESPECIAL “LENDO WINNICOTT 08 – Uma visão não-moralista da agressividade” que já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – WINNICOTT da CONFRARIA ANALÍTICA.
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