Por que é tão difícil fazer associação livre?

Freud estabeleceu que, no tratamento psicanalítico, o paciente deve falar tudo o que lhe vier à cabeça durante as sessões.

No entanto, a verdade, constatável por qualquer analista sincero, é que são raríssimos os pacientes que efetivamente fazem associação livre.

A maioria seleciona mais ou menos cuidadosamente o que fala, mesmo sob protestos reiterados do terapeuta para que isso não aconteça.

Sem falar naqueles que trazem para as sessões uma “pauta” anotada no papel ou no celular.

Não sou desses que proíbe o paciente de trazer essas notas ou que lhe dá uma bronca por não fazer a associação livre.

Por influência do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, entendo que o analista que age assim converte-se automaticamente na encarnação de uma figura parental excessivamente dura e severa.

Por outro lado, é interessante refletir sobre os motivos pelos quais é tão difícil para a imensa maioria dos pacientes fazer a associação livre.

Qualquer pessoa que já tenha feito a experiência de simplesmente verbalizar o fluxo de ideias que passam por sua cabeça sabe que o resultado não é lá muito agradável.

Inevitavelmente você acaba falando coisas que jamais imaginou que sairiam de sua boca.

Isso evidencia aquilo que o Lacan chamou, em certo momento, de “a realidade do discurso em sua autonomia”.

O exercício da associação livre nos faz perceber que as palavras parecem ter vida própria e que basta retirar temporariamente a censura egoica de cena para que elas manifestem sua autonomia.

Ao verbalizarmos tudo o que vem à nossa cabeça, nos damos conta de que, apesar de falarmos, somos, na verdade, muito mais FALADOS.

Essa constatação provoca ansiedade, pois faz com que o Eu se sinta ameaçado pelo fluxo autônomo das ideias.

Dá medo, né?

Afinal, sabe-se lá o que sairá de nossas bocas…


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“A boca fala do que está cheio o coração.”

Esta é uma das diversas teses psicológicas de Jesus de Nazaré que se encontram registradas nos Evangelhos.

Ela aparece naquele que talvez tenha sido o discurso mais contundente de Jesus contra os fariseus, em que Ele os chama de “raça de víboras”.

Curiosamente, quando nos lembramos dessa frase “A boca fala…” nos esquecemos de que ela é a resposta da pergunta retórica que Jesus dirige aos fariseus nesses termos:

“Raça de víboras, como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”

Estou chamando sua atenção para essa questão porque ela evidencia um interessante alinhamento entre as concepções de Jesus e as da Psicanálise.

Com efeito, ao insinuar que os fariseus, sendo maus, não poderiam dizer coisas boas, Jesus está implicitamente afirmando que nós não controlamos nossa fala.

A conclusão “A boca fala do que está cheio o coração” é justamente um reforço dessa ideia.

Para Jesus, o Eu parece não ter autonomia completa sobre a fala. Por mais que tente controlar o que sairá de sua boca, no fundo é o Coração quem estará realmente no comando.

Ora, quem disse exatamente a mesma coisa, mas utilizando outros termos, foi o velho Freud.

A invenção da técnica da associação livre e, juntamente com ela, a ênfase na análise dos sonhos e atos falhos mostram justamente que, também para Freud, a verdade sempre escapa do controle do Eu.

Quando seguimos a recomendação freudiana e pedimos aos nossos pacientes que falem tudo o que lhes vier à cabeça, estamos atestando nossa confiança de que da boca deles sairá NECESSARIAMENTE a verdade.

Quando não tratamos um lapso do paciente apenas como um errinho irrelevante, mas o convidamos a interpretá-lo, estamos demonstrando nossa convicção de que… “A boca fala do que está cheio o coração”.

Ao perguntar retoricamente aos fariseus “como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”, Jesus estava sugerindo que existe uma correspondência entre o SER e o DIZER.

Em outras palavras, o que efetivamente DIGO atesta quem verdadeiramente SOU, ainda que “pelo meu muito falar” eu queira farisaicamente convencer os outros e a mim mesmo de que sou o que GOSTARIA DE SER.

Freud certamente daria like nessa “postagem” de Jesus.


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A associação livre não é livre

Associação livre é a expressão que a gente tradicionalmente usa em português para traduzir “Freie Einfälle”, o termo alemão empregado por Freud.

A própria tradução de “Einfälle” por “associação” ou “associações” já é problemática.

Com efeito, associar é um verbo que designa a ação de conectar voluntariamente uma coisa com outra, mas não é disso que se trata nas “Freie Einfälle”.

A tradução mais literal para Einfälle seria “ideias” ou “ocorrências mentais”, ou seja, não se trata de algo que EU faço (como associar), mas de algo que ME ACONTECE.

A expressão “associação livre” pode levar as pessoas a pensar que o paciente em análise é convocado a se esforçar para fazer conexões entre suas ideias.

Na verdade, é justamente o oposto: os analistas pedem aos pacientes que abandonem o ímpeto de controlar seus pensamentos e simplesmente descrevam o que lhes OCORRE.

Em outras palavras, a suposta associação que o paciente está fazendo não ocorre voluntariamente. A passagem de uma ideia para outra não é controlada por ele.

É por isso que eu digo que a associação livre não é livre.

De fato, quem goza de liberdade nesse caso é apenas o Inconsciente, que pode se manifestar de forma menos distorcida quando o paciente renuncia a controlar seus pensamentos.

O Eu, no entanto, aquele a quem o analista pede que fale o que vier à cabeça, é chamado justamente a abrir mão de sua liberdade (que é mais ilusória do que real).

Quando Freud estabelece as “Freie Einfälle” como técnica fundamental da Psicanálise, ele faz isso justamente por não acreditar na liberdade…

A tese de que podemos acessar o que o paciente esconde de si ao pedir que ele fale o que lhe vier à cabeça se fundamenta no pressuposto do determinismo psíquico.

De acordo com essa premissa, nosso funcionamento mental não acontece de modo aleatório.

Nesse sentido, se uma ideia, por mais irrelevante que pareça ser, ocorre em minha mente, essa ocorrência não se faz por acaso.

Na prática, fazer associação livre significa abrir mão da liberdade imaginária que nos impede de perceber que nossos pensamentos “já estavam escritos”…

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Como é possível “conversar” com o Inconsciente?

Para a Psicanálise, a única maneira que temos de descobrir saídas para o labirinto em que nos colocamos na neurose é estabelecendo uma conversa franca com o inconsciente.

Quanto mais insistimos na atitude soberba de achar que controlamos conscientemente todas as nossas escolhas e caminhos, mais complexo se torna o labirinto.

Mas, Lucas, como é que a gente pode dialogar com o inconsciente?

Ora, a aposta de Freud — aposta que nós, psicanalistas, mantemos viva até hoje — é a de que essa conversa só pode ser feita por meio da ASSOCIAÇÃO LIVRE ou, para sermos literais na tradução do termo alemão utilizado por Freud (einfall), por meio da “invasão” de ideias na consciência.

Dizemos aos nossos pacientes: “Fale exatamente tudo o que vier à sua cabeça. Não tenha pudores, não se preocupe com a lógica ou com o sentido, apenas deixe que as ideias invadam sua consciência e as comunique a mim. Essa é a única regra que você deve seguir. Não tem tarefa de casa, não tem exercício, nada disso. Basta dizer tudo o que vier à sua cabeça. Com o tempo você perceberá que não está falando de forma aleatória, que há um fio condutor articulando essas ideias que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra. É como se você começasse a pintar um quadro sem a menor ideia do que deseja expressar. Você vai simplesmente jogando as cores na tela, de forma desorganizada mesmo. De repente, você começa a perceber que nesse movimento aparentemente caótico algumas figuras foram se formando… Você percebe um rosto ali em cima, uma casa ao fundo… Uma paisagem começa a aparecer…”.

É assim que a gente conversa com o inconsciente: escutando-o, ou seja, abrindo mão do controle egoico e permitindo que ele fale com o máximo de liberdade possível.

Consequentemente, e com a ajuda do analista, adquirimos a segurança necessária para continuar mantendo um diálogo aberto com o inconsciente para-além do consultório, a fim de aprender com ele algumas saídas para o labirinto da neurose.


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[Vídeo] Associação livre: a regra fundamental da Psicanálise

Neste vídeo: entenda o que é a associação livre, no que ela se diferencia da fala cotidiana e por que Freud escolheu essa técnica.


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[Vídeo] Afinal, o que é a Psicanálise?

Neste vídeo: entenda o que é a Psicanálise, como funciona a terapia psicanalítica e quais os seus principais objetivos.


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Associação livre: falar sem censura

Freud notou, portanto, que a raiz das neuroses era a censura que o paciente impunha sobre si mesmo. Ora, trata-se da mesma censura que utilizamos para modular nosso discurso no dia a dia. Os parâmetros que nos servem de baliza na hora de escolher o que e como falaremos são os mesmos que adotamos para separar que aspectos do nosso ser queremos enxergar e quais queremos reprimir.

Se o que promove a cura é exatamente o resgate daquilo que foi barrado pela censura, então é preciso que, no tratamento, o paciente se esforce para evitar a aplicação da censura à sua própria fala. Dessa forma, o resgate dos aspectos reprimidos se torna mais facilitado.Leia o texto completo em: bit.ly/drdlivre


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Desabafo não é terapia: entenda por que Freud abandonou o método catártico

Desabafo não é tratamento. Foi por se dar conta disso que Freud abandonou o método catártico. Lucas, mas o que é esse tal de método catártico de que você fala?

Vamos lá: no final do século XIX, Freud, um jovem neurologista que desejava ser pesquisador universitário, começou (meio a contragosto) a atender pacientes com o objetivo de fazer algum dinheiro. Com efeito, o pobre rapaz queria desposar sua amada Martha Bernays.

Um amigo e colega mais experiente chamado Josef Breuer, cuja clínica já era bastante reconhecida e bem-sucedida na Viena dos anos 1890, vinha experimentando um novo método de tratamento da histeria, baseado na aplicação da famigerada técnica da hipnose.

O tal método consistia em hipnotizar o paciente histérico e, durante esse estado de consciência rebaixada, exortar o doente a se lembrar e relatar as ocasiões exatas em que seus sintomas haviam aparecido. Quando o paciente conseguia fazer isso, o resultado era uma explosão emocional, indicando que a narrativa dos episódios que estavam na origem dos sintomas possibilitava a DESCARGA de sentimentos que estavam represados na mente do paciente. Não por acaso, após tais relatos acompanhados desses arrebatamentos emocionais, o paciente se via livre do sintoma que estava sendo investigado.

Eis, portanto, o método catártico. Esse termo foi cunhado por Breuer e Freud tomando como referência o termo “catarse”, de origem grega (“kátharsis”) e que designa a ideia de purificação ou purgação. Num sentido metafórico, o método inventado por Breuer levava o paciente a se “limpar” das “sujeiras” emocionais que ele vinha inconscientemente guardando.

Influenciado por Breuer, Freud inicialmente também experimenta o método catártico com seus pacientes histéricos e conquista muitos êxitos. Contudo, por não se considerar um hipnotizador muito bom e, principalmente, por se dar conta de que as melhoras obtidas por seus pacientes não se mantinham com o passar do tempo, o fundador da Psicanálise decide abandonar tanto a hipnose quanto o método criado por Breuer.

Freud se dá conta de que o método catártico possibilita que o paciente “coloque para fora” os sentimentos que lá atrás haviam sido sufocados, mas não ajuda o paciente a discernir os motivos pelos quais essa repressão havia acontecido. É por isso que a pessoa voltava a adoecer: com efeito, diante de novos desafios emocionais, o paciente voltava a utilizar a mesma estratégia defensiva do passado que havia dado origem aos antigos sintomas.

Além disso, Freud percebe também que não era necessário hipnotizar o doente para ter acesso à dimensão inconsciente da psique dele. Bastava exortar o paciente a falar de forma espontânea tudo o que lhe viesse à cabeça. É essa nova técnica, a associação livre, que estará na base do novo método terapêutico, desta feita inventado por Freud, denominado Psicanálise.

[Vídeo] Os DOIS FATORES que promovem a cura na Psicanálise

Ao contrário do que muita gente desinformada anda dizendo por aí, a Psicanálise funciona. E funciona não apenas eliminando sintomas, mas também promovendo uma transformação profunda na vida das pessoas. Quer saber quais são os dois fatores que tornam isso possível? Então assista a esse vídeo!

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Quando o analista não se apaga (parte 1)

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Qualquer pessoa minimamente versada em psicanálise sabe que Freud inventou o método psicanalítico principalmente para obter êxito no tratamento da histeria. As experiências com a hipnose e com o método catártico realizadas em parceria com Breuer já haviam revelado a ele a natureza dos enigmáticos sintomas histéricos. Tratava-se, na verdade, de substitutos de desejos, pensamentos e fantasias que haviam sido excluídos da consciência pelo próprio indivíduo. A hipnose e o método catártico também haviam mostrado que quando se trazia os conteúdos reprimidos novamente para a consciência, os sintomas tendiam a desaparecer, pois perdiam sua função de substituir o material recalcado. Como já expliquei em outro texto, a psicanálise foi inventada justamente porque esse processo de trazer os conteúdos reprimidos novamente para a consciência não é nada fácil na medida em que sofre uma forte resistência da parte do ego.

Contudo, apesar de ter proposto um método novo para o tratamento da histeria (e de outras neuroses), Freud continuou durante um bom tempo almejando o mesmo objetivo de antes: levar o sujeito a preencher as lacunas de seu psiquismo produzidas pelo processo de recalcamento. Isso fez com que o tratamento psicanalítico se concentrasse naquilo que o paciente diz (e não diz) e nas eventuais interpretações do analista desses ditos e não-ditos. A regra da associação livre e a técnica da atenção flutuante, por exemplo, são procedimentos que visam justamente permitir que o material inconsciente possa aflorar. Assim, podemos dizer que o foco do tratamento são os conteúdos que emergem ao longo das sessões.

Nesse contexto, a relação entre paciente e analista é vista como um elemento potencialmente perturbador do processo de revelação do inconsciente. Por isso, Freud recomenda que o analista se mantenha neutro, tal como um químico diante de um tubo de ensaio. As possíveis demandas de apoio, cuidado e amor feitas pelo paciente não devem ser atendidas, mas interpretadas, na medida em que são vistas apenas como reedições de demandas feitas originalmente às figuras parentais. Em outras palavras, o analista não deve se colocar no tratamento como uma pessoa se relacionando com outra. Pelo contrário, deve apagar-se a fim de que apenas o inconsciente possa se fazer presente.

Diversos analistas pós-freudianos, dentre eles Ferenczi e Winnicott, perceberam que para muitos pacientes, o apagamento do analista não era nada terapêutico. No tratamento desses pacientes, a relação com o analista seria tão ou mais relevante que a análise do material verbalizado. Para Winnicott, por exemplo, alguns pacientes neuróticos (histéricos, obsessivos e fóbicos), a despeito da gravidade de seus sintomas, possuem a segurança suficiente para mergulharem na investigação do inconsciente sem que o analista precisasse fazer nada. Nesses casos, a atitude fria e neutra do analista não exerceria influência significativa no tratamento, podendo até favorecer o trabalho.

Por outro lado, existem pacientes que sofrem de patologias cuja raiz não está no recalque de determinados conteúdos psíquicos, mas em distúrbios experimentados nos estágios mais precoces do desenvolvimento emocional. Na análise desses indivíduos, a relação com o analista é trazida para o primeiro plano. Na medida em que os sintomas que apresentam não são, em sua maioria, substitutos de conteúdos recalcados, tais pacientes não se beneficiam de uma análise baseada apenas na associação livre e na interpretação. As manifestações patológicas que trazem à clínica estão ligadas a traumas vivenciados em estágios muito primitivos de sua história e provocados por falhas do ambiente. Em outras palavras, a origem do sofrimento desses pacientes está ligado a problemas na relação com os primeiros objetos. Em decorrência, no tratamento, o elemento determinante não poderá ser outro que não a relação com o analista. Nesse caso, o analista será obrigado a abandonar sua posição habitual de neutralidade e abstinência já que esse tipo de atitude, como dissemos, faz com que ele se apague em vez de se fazer presente.

De que forma o analista deve se fazer presente? Se o foco do tratamento passa a ser a relação e não os conteúdos, de que forma o analista deve se comportar? E quais serão os novos objetivos do tratamento já que não se trata mais de preencher as lacunas produzidas pelo recalque?

O psicanalista deve fazer anotações durante as sessões?

Todos os iniciantes na prática da psicanálise possuem uma série de dúvidas de ordem prática e operacional que geralmente não são sanadas nos cursos de formação. Uma das perguntas mais frequentes de quem está começando a atender pacientes diz respeito à realização ou não de notas durantes as sessões.

Não se trata de uma indagação para a qual se tenha uma resposta óbvia. Afinal, muitas informações que se encontram no discurso do paciente precisam ser registradas, pois podem ser úteis na construção de um relato clínico ou mesmo para a própria compreensão mais clara da história clínica do paciente. Em certos casos clínicos de Freud é possível verificar, por exemplo, o quanto certos dados cronológicos foram extremamente relevantes para o entendimento da doença do paciente.

Vemos, portanto, que os registros escritos são de fato muito importantes tanto para a elaboração de um relato do caso quanto para a própria condução do tratamento. Por outro lado, sabemos também que nem todos os analistas são dotados de uma alta capacidade de memorização e, além disso, as próprias questões inconscientes do analista podem acabar influenciando suas lembranças relativas às sessões. Isso coloca em xeque as anotações que são feitas após o encerramento da sessão, já que o analista pode simplesmente não se lembrar das informações de que precisa.

Dada essa dificuldade, o que fazer? Anotar durante as sessões?

Quando anotar?

Num texto de 1912, chamado “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, Freud nos dá algumas dicas de como solucionar esse problema. Vejamos o que o pai da psicanálise diz:

1. NÃO SE DEVE ANOTAR TUDO O QUE O PACIENTE DIZ.

Lembre-se: você é um psicanalista e não um estenógrafo! Não dá para tratar um paciente e escrever ao mesmo tempo. Ninguém consegue realizar duas atividades ao mesmo tempo. Logo, se você está preocupado em anotar tudo o que o paciente diz, sua tarefa de fazer a análise acontecer será deixada de lado. Além disso, a grande maioria dos pacientes se sente desconfortável, intimidada e, frequentemente, percebe que você deixou de lado a análise e está focado apenas em anotar o que fala. Outra razão pela qual você não deve anotar integralmente o que o paciente diz é que a anotação exige um tipo de concentração que é inteiramente contrária à atitude que um analista deve adotar durante a sessão. Essa atitude, que Freud chamou de “atenção flutuante” deve permitir ao analista se deixar levar pela associação-livre do paciente e captar os momentos propícios a uma pontuação ou interpretação. Portanto, se você está preocupado em anotar o que paciente diz, sua atenção ficará presa apenas ao discurso em si do paciente e não estará livre para perceber as incoerências, lapsos, atos-falhos e outras eventualidades que não devem jamais passar despercebidas.

2. FAÇA APENAS ANOTAÇÕES EVENTUAIS

Datas são informações que, pela reduzida possibilidade de associação consciente, tendem a ser facilmente esquecidas. Por outro lado, são altamente relevantes para a compreensão do caso, pois muitas vezes são significantes que estão intimamente associados a eventos cruciais da história do paciente. Logo, talvez seja interessante ter um caderninho de notas por perto para poder anotar alguns delas.

Determinados sonhos e eventos da história clínica fornecem uma espécie de “radiografia” tão precisa da situação do paciente ou de uma fantasia inconsciente que, caso não sejam registrados, correm o risco de serem perdidos como informação para a confecção de um relato clínico. Nas ocasiões em que tais elementos aparecerem, anotá-los pode ser indicado, afinal o valor a longo prazo da informação compensará os poucos minutos de intervalo da atenção flutuante.

Conclusão

Não, não é recomendável que o psicanalista faça anotações regulares durante as sessões. Não se engane: se em reuniões e outros compromissos profissionais fazer anotações pode ser vista como uma atitude que indica profissionalismo e seriedade, na análise esse comportamento apenas provocará irritação e incômodo no paciente e tirará sua atenção dos reais objetivos do tratamento. Todavia, deixe sempre o bloquinho por perto. Datas relevantes, sonhos e outros eventos importantes podem ser exceções à regra.

A invenção do inconsciente: Freud e o nascimento da Psicanálise

NOTA: Este texto foi escrito há um ano atrás com a finalidade de servir como material de apoio para a primeira aula de um curso de introdução à Psicanálise que, infelizmente, não aconteceu. Enjoy!

***

Grande parte das pessoas ao ouvir o termo “psicanálise” imediatamente o associa a um corpo teórico mais ou menos sistematizado, composto de diversos enunciados e hipóteses a respeito do funcionamento do aparelho psíquico, do modo como se constituem as neuroses, etc. No entanto, é preciso assinalar que tal definição corresponde muito mais à teoria psicanalítica do que à psicanálise propriamente dita.

A psicanálise, em seu sentido mais estrito, nasce como um tipo bastante eficaz de tratamento das neuroses. O termo neurose, tal como utilizado no nascimento da psicanálise, era o nome dado no século XIX às patologias que se davam no plano do psiquismo ou estavam a ele associadas. O prefixo “neuro” denota a concepção etiológica vigente na época, segundo a qual tais patologias ocorreriam em função de lesões neurológicas. Daí a separação entre esse grupo de doenças e as psicoses, para a qual se postulava uma etiologia predominantemente psíquica, como assinalado pelo prefixo “psico”.

A neurose que provocava maior alarde na sociedade burguesa da virada do século XVIII para o século XIX, principalmente por sua freqüência nas mulheres, era a histeria. O termo histeria é derivado do grego hysteros que significa útero, pois durante alguns séculos pensou-se que tal patologia só acometesse mulheres. Do que padeciam pessoas acometidas de histeria? A lista de sintomas passíveis de serem encontrados em quadros histéricos é imensa, mas o elemento comum de todos eles é a existência de uma disfunção ou desordem somática sem a presença de uma lesão orgânica correspondente. São célebres os casos de histéricos que não enxergavam embora possuíssem seus olhos intactos, com toda a estrutura fisiológica necessária para a visão. Assim também, casos de cefaléia, afonia, surdez, paralisia de membros, todos, em um quadro histérico, pareciam meros lances de uma peça teatral, pois o paciente parecia estar fingindo que apresentava o sintoma já que todos os exames não conseguiam localizar uma gênese orgânica para o que o doente sentia.

A histeria se apresentava, portanto, como uma patologia que colocava em xeque a capacidade explicativa de uma medicina que recentemente houvera adotado a anátomo-patologia como disciplina de base e estruturado sua concepção de doença em torno da noção de que para cada sintoma corresponderia uma determinada lesão orgânica. A histeria atestava o furo do saber médico que, justamente por concentrar seu foco na anátomo-patologia acabava por negligenciar a dimensão subjetiva do adoecimento.

A medicina, no entanto, não deu o braço a torcer. Não conseguindo formular uma explicação a partir de seu modelo, caracterizava a histeria como um quadro de piti[1] de donas-de-casa insatisfeitas com sua condição. Em outras palavras, para a maior parte dos médicos da época, todos aqueles sintomas não passavam de formas bastante teatrais de “chamar a atenção”. Essa estratégia de, na ausência de um modelo explicativo, rebaixar o fenômeno à condição de indigno da apreciação científica ainda persiste na atualidade através do célebre jargão repetido por muitos médicos quando os exames não evidenciam uma base orgânica para os sintomas apresentados pelo paciente. Dizem eles: “Você não tem nada.”, o que constitui antes de tudo um completo desrespeito ao paciente na medida em que se desconsidera o estado subjetivo do doente, tomando os exames médicos como atestados de uma verdade absoluta.

Pois bem, após essa pequena digressão, voltemos ao nosso tema central. Podemos dizer que a psicanálise é a filha nascida de um encontro fortuito. Encontro entre Freud e a histeria. No final do século XIX, Freud, um recém-formado médico neurologista, pretendia investir na carreira acadêmica, realizando pesquisas na área de neurologia. Foi ele, inclusive, um dos primeiros pesquisadores que investigou os efeitos da cocaína no organismo humano. No entanto, em função de dificuldades financeiras, Freud resolveu trabalhar também como clínico, a princípio atendendo pacientes indicados por seu amigo Breuer. Este, como muitos outros neurologistas da época, fazia uso terapêutico de um método recentemente formulado chamado hipnose, o qual consistia, basicamente, em fazer com que o paciente saísse de seu estado de vigília, mas que conservasse a capacidade de se conscientizar de determinadas representações e lembranças das quais não conseguia se lembrar quando desperto. Breuer, tal como o médico francês Charcot, aplicava esse método no tratamento da histeria.

O procedimento se dava, em linhas gerais, da seguinte forma: o médico hipnotizava o doente, deixando-o numa espécie de estado sonambúlico. Durante esse estado, o médico dizia ao paciente que ele não possuía o sintoma do qual se queixava. Ao restabelecer-se do estado hipnótico o paciente não mais apresentava o sintoma. A concepção que sustentava tal prática era a de que os sintomas histéricos eram devidos a “idéias dominantes” que “possuíam” o espírito do doente. Assim, a função do médico era a de apresentar ao pacientes idéias que suplantassem o poder das “idéias dominantes” patogênicas de forma a neutralizar o efeito das mesmas.

Posteriormente, tanto Freud quanto Breuer começaram a perceber que durante o estado hipnótico, os pacientes freqüentemente faziam referência a acontecimentos de seu passado e era comum que após tais relatos os sintomas fossem eliminados, sem qualquer interferência do médico. Freud e Breuer elaboraram, então, a teoria da “ab-reação” e com ela uma nova concepção etiológica da histeria. Essa teria sido causada por um trauma, sendo este um evento qualquer diante do qual o paciente não teria reagido adequadamente. A energia psíquica acumulada em função dessa reação mal-sucedida seria canalizada na forma dos sintomas. Assim, durante a hipnose, o paciente teria a oportunidade de acessar novamente as lembranças vinculadas ao evento traumático e reagir a ele de forma diferente. É essa reação retroativa ao trauma que Freud e Breuer chamaram de “ab-reação”. A tarefa, portanto, do médico, seria a de auxiliar o paciente, durante a hipnose, a rememorar os eventos traumáticos que deram origem a seus sintomas para que eles fossem ab-reagidos.

Duas constatações clínicas serviriam para distanciar Freud de Breuer, permitindo ao primeiro se tornar o inventor da psicanálise: a sexualidade e a resistência. Freud constatava em seus tratamentos que era bastante freqüente que os eventos traumáticos dos quadros de histeria estivessem direta ou indiretamente relacionados com conteúdos sexuais. Breuer não compartilhava do ponto de vista de Freud, considerando-o mera interpretação. Além disso, Freud observava que em diversas ocasiões o paciente não conseguia se lembrar de determinados acontecimentos relacionados ao evento traumático e, não raro, do próprio trauma. Como explicar isso? Seriam alguns histéricos portadores de lesões em áreas do cérebro responsáveis pela memória? Ou será que o esquecimento se dava em função do fato de as tais lembranças estarem relacionadas a um passado remoto, o que as tornariam menos facilmente capazes de voltar ao plano da consciência? Para Freud nenhuma dessas hipóteses fazia sentido. Aquele jovem médico vienense preferiu adotar o ponto de vista popular, personificado na suspeita da esposa de que quando o marido esquece seu nome ele está pensando em outra mulher. Para Freud, o histérico – mas não só ele, todos nós – nos esquecemos ou não conseguimos nos lembrar de determinados eventos simplesmente porque não queremos fazê-lo, porque não nos agrada lembrar, porque nos é penoso, porque nos envergonha ou porque queremos pensar em algo que nos dá mais prazer (como no exemplo). Ou seja, trata-se de um ato que pressupõe uma intencionalidade, ou, para usarmos um termo filosófico, pressupõe um sujeito, um sujeito que decide, que quer esquecer determinados fatos ou pensamentos de sua vida.

Para Breuer, isso era um disparate. Formado na tradição anátomo-patológica da medicina que, diante de um paciente, via um corpo, um simples organismo, o colega de Freud não podia conceber que dentro do paciente havia uma pessoa, um sujeito e, ainda mais, que tal sujeito fosse inconsciente! Para Breuer, os esquecimentos histéricos eram resultado do fato de que, na experiência do trauma, a pessoa não estaria plenamente consciente, mas num estado que hoje poderíamos chamar de “obnubilação da consciência”, ou seja, num estado semelhante ao estado hipnótico. Daí que a hipnose fosse reconhecida como a única técnica capaz de tratar a histeria, visto que aquela reproduziria no paciente o próprio estado de consciência em que o trauma foi gerado.

Se o paciente não conseguia se lembrar de determinados eventos, logo havia algo que o impedia de fazê-lo. Foi esse “algo” que Freud chamou de resistência. Note que com esse termo Freud avança no seu processo de descoberta do sujeito visto que torna-se preciso supor alguém que resiste. Além disso, o fenômeno da resistência acrescenta ainda outra pergunta ao processo terapêutico, pois o médico precisará saber não só quais foram os eventos traumáticos que provocaram os sintomas, mas também por que o paciente resiste a lembrar-se deles. É nesse momento que ocorre a virada do método catártico para a Psicanálise. O primeiro tinha como objetivo ocasionar uma ab-reação, isto é, uma reação retroativa a um evento traumático. Quando Freud se apercebe do fenômeno da resistência, as finalidades do tratamento passam a ser mais complexas, pois a ab-reação não coloca em questão as razões pelas quais o evento traumático foi deslocado para o campo inconsciente, ou seja, por que o paciente excluiu tais lembranças de seu campo de consciência.

Assim, o tratamento não é mais visto como um processo de desabafo, de explosão emocional tal como acontecia na catarse. Pensa-se agora numa estratégia de análise do psiquismo, de uma psico-análise, de uma psicanálise como aportuguesamos. O paciente agora não é mais convidado a submeter-se a alguém que escarafunchando-lhe as idéias permitir-lhe-á reagir de forma diferente a seu passado. Trata-se agora de chamar o paciente a tornar-se ativo nessa viagem para dentro de si mesmo. O médico (analista) passa a ser um mero instrumento para que ele (paciente) possa se escutar, coisa que não costumamos fazer cotidianamente…

E qual técnica Freud coloca no lugar da hipnose e da catarse? Entendendo que a resistência é um fenômeno advindo do eu da pessoa que olha para si mesma e emite um juízo de que determinadas representações não devem vir para o plano da consciência, logo, a melhor estratégia para conseguir ao mesmo tempo driblar e entender a resistência é solicitar ao paciente que tente ao máximo deixar de lado essa função egóica de julgar as representações que vem ao campo de consciência. Em outras palavras, pedir a ele que diga tudo o que lhe vier à cabeça. É o que Freud chamou de “associação livre”, mas que do original alemão poderia ser mais bem traduzido como “intrusão livre”, pois a idéia é justamente a de que o paciente não associe, mas que permita a entrada livre em sua consciência das representações que lhe surgirem.

Pois bem! Acompanhamos todo o processo que vai desde o encontro até a gestação que deram origem à Psicanálise. À guisa de conclusão deste primeiro texto introdutório, cabe-nos precisar as conseqüências da invenção da Psicanálise e do conceito de inconsciente para a história do pensamento humano. Você por acaso já se deu conta de quão estranha é a idéia de inconsciente? Provavelmente não, visto que todos nós já nascemos num meio sócio-cultural em que tal idéia já se tornou familiar. No entanto, não se enganem: ela é completamente subversiva! Haja vista que foi preciso pelos menos uns quatro milênios de pensamento humano para que alguém a sistematizasse. A idéia de que o que somos não se limita àquilo que pensamos que somos é bastante insólita. A maior parte da filosofia tal como a conhecemos se desenvolveu a partir da idéia básica e fundamental de que nós somos transparentes a nós mesmos, que não há nada de oculto em nosso ser. Foi Freud quem sistematizou essa constatação óbvia – e por isso mesmo difícil de ser vista – de que somos divididos; de que, como diz o apóstolo Paulo, não fazemos o bem que queremos, mas o mal que não queremos. Em suma, e para usar termos filosóficos, que o nosso ser nos ultrapassa, que não somos lá onde nos pensamos (como queria Descartes), pois onde nos pensamos (isto é, no inconsciente) não somos.

Lucas Nápoli

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2010.


[1] Ainda hoje é utilizado no meio médico o termo “pitiatismo” paracaracterizar pacientes que apresentam sintomas indefinidos, sem base orgânica e que promovem uma dificuldade na elaboração de diagnósticos.