De onde vem o termo “borderline”?

No final da década de 1930, Adolf Stern, um psicanalista húngaro radicado nos EUA, começou a observar em sua clínica a chegada cada vez mais frequente de um tipo muito peculiar de pacientes.

Tratava-se de pessoas com quem o método psicanalítico tradicional parecia não funcionar.

Ao contrário dos sujeitos obsessivos, histéricos e fóbicos com quem Stern estava acostumado a lidar, esse grupo diferente de pacientes trazia uma história infantil marcada invariavelmente por contextos familiares extremamente disfuncionais.

Outro ponto que chamou bastante a atenção de Stern foi a fragilidade narcísica desses pacientes.

Enquanto no tratamento da neurose, o amor pelo próprio ego se apresenta como um obstáculo para o alcance dos objetivos terapêuticos, naqueles pacientes “peculiares” parecia haver uma FALTA de narcisismo.

Tinha-se a impressão de que tais pessoas eram extremamente carentes de afeto e validação.

Com efeito, se tornavam extremamente dependentes do analista na relação transferencial — não de forma erótica e sedutora, como acontece na histeria, mas como se fossem crianças que anseiam pela aprovação dos pais.

Definitivamente não era possível para Stern encaixar essa categoria de pacientes exatamente no campo das neuroses clássicas.

Por outro lado, apesar de terem uma tendência marcante para a projeção, eles não apresentavam todas as características típicas de casos de psicose.

Qual seria, então, o tipo de adoecimento do qual padeceriam essas pessoas, já que elas não estariam nem totalmente na neurose e nem na psicose?

Stern entendeu que tais pacientes estariam justamente na FRONTEIRA (border) entre esses dois campos.

Eles estariam numa proximidade muito grande com a psicose, mas ainda manteriam um nível mínimo de integração e vínculo com a realidade que os manteria no campo da neurose.

Num artigo de 1938, em que expõe essas constatações, Stern nomeia esses pacientes como neuróticos BORDERLINE (fronteiriços).

É a primeira vez que o termo aparece na literatura psicopatológica.

Hoje, a partir das 16h30, eu vou ministrar uma AULA ESPECIAL AO VIVO para quem está na Confraria Analítica comentando o artigo de Stern.

Te vejo lá!


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Quando o analista não se apaga (parte 1)

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Qualquer pessoa minimamente versada em psicanálise sabe que Freud inventou o método psicanalítico principalmente para obter êxito no tratamento da histeria. As experiências com a hipnose e com o método catártico realizadas em parceria com Breuer já haviam revelado a ele a natureza dos enigmáticos sintomas histéricos. Tratava-se, na verdade, de substitutos de desejos, pensamentos e fantasias que haviam sido excluídos da consciência pelo próprio indivíduo. A hipnose e o método catártico também haviam mostrado que quando se trazia os conteúdos reprimidos novamente para a consciência, os sintomas tendiam a desaparecer, pois perdiam sua função de substituir o material recalcado. Como já expliquei em outro texto, a psicanálise foi inventada justamente porque esse processo de trazer os conteúdos reprimidos novamente para a consciência não é nada fácil na medida em que sofre uma forte resistência da parte do ego.

Contudo, apesar de ter proposto um método novo para o tratamento da histeria (e de outras neuroses), Freud continuou durante um bom tempo almejando o mesmo objetivo de antes: levar o sujeito a preencher as lacunas de seu psiquismo produzidas pelo processo de recalcamento. Isso fez com que o tratamento psicanalítico se concentrasse naquilo que o paciente diz (e não diz) e nas eventuais interpretações do analista desses ditos e não-ditos. A regra da associação livre e a técnica da atenção flutuante, por exemplo, são procedimentos que visam justamente permitir que o material inconsciente possa aflorar. Assim, podemos dizer que o foco do tratamento são os conteúdos que emergem ao longo das sessões.

Nesse contexto, a relação entre paciente e analista é vista como um elemento potencialmente perturbador do processo de revelação do inconsciente. Por isso, Freud recomenda que o analista se mantenha neutro, tal como um químico diante de um tubo de ensaio. As possíveis demandas de apoio, cuidado e amor feitas pelo paciente não devem ser atendidas, mas interpretadas, na medida em que são vistas apenas como reedições de demandas feitas originalmente às figuras parentais. Em outras palavras, o analista não deve se colocar no tratamento como uma pessoa se relacionando com outra. Pelo contrário, deve apagar-se a fim de que apenas o inconsciente possa se fazer presente.

Diversos analistas pós-freudianos, dentre eles Ferenczi e Winnicott, perceberam que para muitos pacientes, o apagamento do analista não era nada terapêutico. No tratamento desses pacientes, a relação com o analista seria tão ou mais relevante que a análise do material verbalizado. Para Winnicott, por exemplo, alguns pacientes neuróticos (histéricos, obsessivos e fóbicos), a despeito da gravidade de seus sintomas, possuem a segurança suficiente para mergulharem na investigação do inconsciente sem que o analista precisasse fazer nada. Nesses casos, a atitude fria e neutra do analista não exerceria influência significativa no tratamento, podendo até favorecer o trabalho.

Por outro lado, existem pacientes que sofrem de patologias cuja raiz não está no recalque de determinados conteúdos psíquicos, mas em distúrbios experimentados nos estágios mais precoces do desenvolvimento emocional. Na análise desses indivíduos, a relação com o analista é trazida para o primeiro plano. Na medida em que os sintomas que apresentam não são, em sua maioria, substitutos de conteúdos recalcados, tais pacientes não se beneficiam de uma análise baseada apenas na associação livre e na interpretação. As manifestações patológicas que trazem à clínica estão ligadas a traumas vivenciados em estágios muito primitivos de sua história e provocados por falhas do ambiente. Em outras palavras, a origem do sofrimento desses pacientes está ligado a problemas na relação com os primeiros objetos. Em decorrência, no tratamento, o elemento determinante não poderá ser outro que não a relação com o analista. Nesse caso, o analista será obrigado a abandonar sua posição habitual de neutralidade e abstinência já que esse tipo de atitude, como dissemos, faz com que ele se apague em vez de se fazer presente.

De que forma o analista deve se fazer presente? Se o foco do tratamento passa a ser a relação e não os conteúdos, de que forma o analista deve se comportar? E quais serão os novos objetivos do tratamento já que não se trata mais de preencher as lacunas produzidas pelo recalque?