O que é Nome-do-Pai?

Toda vez que vou escrever uma explicação como essa, faço questão de frisar que todo conceito surge, ou melhor, é criado para dar conta de um determinado aspecto da experiência que não se pode compreender de forma imediata. Em termos mais simples, é preciso ter em mente que todo conceito é útil, funcional e se presta a resolver problemas, impasses e questões. Logo, para compreender adequadamente um conceito, é conveniente que nos façamos a seguinte pergunta: “Qual problema o autor tentou resolver ao criar esse conceito?”

Vamos direto ao ponto. Como a maioria de vocês deve saber, quem inventou o conceito de Nome-do-Pai foi um cara chamado Jacques Lacan, tido por muitos como o maior teórico da psicanálise depois de Freud, rivalizando, talvez, com Melanie Klein e Donald Winnicott.

Qual problema Lacan tentou resolver inventando essa ideia de Nome-do-Pai?

Respondo: o problema que pode ser expresso pela pergunta: “Como é que a gente consegue entender a realidade?”

Você já se fez essa pergunta?

Sim, porque não se trata de uma indagação banal ou mesmo irrelevante. Afinal, tem um bando de gente por aí que simplesmente não entende o que a gente chama de “realidade”. Gente que por conta disso resolveu criar uma realidade particular para si, a qual nós soberbamente denominamos de delírio. Tais pessoas são as que outrora chamávamos de loucos e que hoje recebem a alcunha de psicóticos, esquizofrênicos, paranoicos ou, numa nomenclatura mais politicamente correta, portadores de transtorno mental grave e persistente.

Sejamos elegantemente silogísticos: se essas pessoas não dão conta de entender a suposta realidade que os demais conseguem, logo, nós, os supostamente “entendedores” temos alguma coisa que nos permite entender, ao passo que eles não. Nós temos uma chave, um software, que ao ser colocado nessa imensa máquina chamada “mundo” nos permite navegar nas páginas da realidade! O psicótico, por sua vez, cria um sistema operacional próprio!

É essa chave, é esse software, que nos permitiria entender a realidade que Lacan chamou de Nome-do-Pai.

Calma, a explicação ainda não terminou. Até porque provavelmente (caso você seja um neófito na teoria psicanalítica) ainda não deve ter entendido muita coisa. Prossigamos.

Uma pergunta básica: como é, afinal de contas, que a gente entende alguma coisa?

Há uma série de explicações. Uma delas é a de que a gente entende, por exemplo, o significado de uma frase porque a gente sabe o que cada palavra significa. Aí a gente vai juntando o significado de cada um dos termos da frase e pronto: entendemo-la!

Lacan, que era um cara apaixonado por três livrinhos de Freud, a “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, “A Interpretação dos Sonhos” e “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, pensava diferente: pra ele, as palavras não tem um significado definido a priori. Por exemplo, a palavra casa na frase “Eu adoro ficar em casa” tem o significado de “morada”, “residência”, “lar” etc. Já na frase “No ano que vem, será que você se casa?”, a palavra casa tem o sentido de unir-se matrimonialmente a alguém. Os livrinhos do Freud dos quais Lacan gostava eram cheios de exemplos como esse. Portanto, para Lacan, o significado de uma determinada palavra não era fixo, mas dependia do contexto, isto é, das outras palavras que com ela estavam na frase.

Agora raciocine comigo: se os significados das palavras dependem das outras palavras que estão junto com ela dentro de uma sentença ou de uma frase, logo para que eu compreenda o significado de uma palavra da sentença eu tenho que saber TODAS as palavras que estão dentro dela, certo? E para que eu saiba quais são todas as palavras que estão na frase, eu preciso saber qual é a última palavra da frase, não é? Ou seja, aquela palavra que fecha a frase e que coloca limite a ela. Só assim eu vou poder saber onde a frase começa e onde ela termina e, em decorrência, quais são todas as palavras que nela estão. Só assim eu vou poder entender a frase!

Por exemplo, tomemos a seguinte frase: “Eu matei uma mulher.”. Você entendeu o significado dessa frase? Provavelmente sim. Entendeu que na frase eu digo que cometi um assassinato contra uma pessoa do sexo feminino. E você só conseguiu entender isso porque a palavra “mulher” é o último elemento da frase. Se a última palavra não fosse mulher, mas “susto”, como na frase “Eu matei uma mulher de susto.”, você entenderia outra coisa, completamente diferente, não é mesmo?

Vamos agora estender essa mesma lógica para o nosso problema inicial, que eu disse que foi o problema que Lacan tentou resolver com o conceito de Nome-do-Pai, a saber: “Como é que a gente entende a realidade?”.

Já vimos que a gente consegue entender uma frase quando a gente sabe qual é o último elemento dela, não é? E se a gente pensar isso que a gente chama de “realidade” como uma imensa e gigantesca frase?

Foi mais ou menos assim que Lacan pensou. Ele chamou essa frase colossal de “cadeia significante“. E de onde ele tirou isso?

Do fato de que a nossa vida está completamente imersa na linguagem.

Já parou para pensar nisso?

Pense, por exemplo, no fato de que antes mesmo de você nascer, seus pais e familiares já estavam falando sobre você nem que seja apenas para escolher seu nome, ou seja, como diz o apóstolo João: “No princípio era o Verbo”. Antes de você existir, já havia uma série de frases sendo ditas sobre você. Aí, depois que nasce, você cai de paraquedas num mundo em que tudo tem nome, desde essa sensação ruim que você sente no estômago e que você fica sabendo que é “fominha” até as partes do seu corpo: “olhinho”, “boquinha”, “piupiu”. Enfim, a gente nasce dentro de algo que parece uma frase enorme!

Agora vem a pergunta: já que nós nascemos dentro dessa imensa frase e vamos ter que viver o resto da vida nela, é preciso que a gente se vire para entendê-la, certo? E como é que a gente faz isso?

Ora, como a gente já viu, só é possível fazer isso, ou seja, entender essa grande frase chamada realidade, se apresentarem pra gente o último elemento dela, isto é, aquela “palavra” que está no fim dessa imensa frase (e que, em decorrência, estará virtualmente no fim de toda e qualquer frase) e que nos permite apreender o significado dela.

Lacan chamou a essa “última palavra” de Nome-do-Pai.

Você pode estar se perguntando: “Mas porque Lacan resolveu chamar essa última palavra logo de Nome-do-Pai. O que o pai tem a ver com isso?”.

Para respondermos a essa questão, será preciso nos reportarmos aos condicionamentos históricos da teoria psicanalítica. Embora tanto Freud quanto Lacan tenham pretendido formular hipóteses e conceitos de validade universal, isto é, que supostamente valeriam para todo e qualquer ser humano independentemente da época e do local em que tenham nascido, nós não podemos esconder o sol com a peneira! Devemos admitir que aquilo que Freud chamou de “complexo de Édipo” é um tipo de fantasia/conflito psicológico historicamente datado, tributário do tipo de organização familiar vigente em sua época e que não existiu desde sempre.

Quando Freud fala, por exemplo, que o complexo de Édipo é o núcleo das neuroses, ele está simplesmente descrevendo a organização psíquica que lhe aparecia com mais frequência no consultório. De fato, a raiz da grande maioria dos problemas emocionais dos pacientes de Freud e de todos os praticantes da psicanálise do final do século XIX e início do século XX estava em um conflito psíquico que misturava um intenso desejo incestuoso, uma culpa terrível derivada desse desejo e um ódio/temor igualmente forte da severidade monstruosa de uma figura paterna pouco afetuosa, distante e que encarnava a moralidade.

Quando Lacan vai fazer sua leitura do complexo de Édipo, o que ele tenta é de alguma forma extrair do Édipo freudiano aquilo que nele seria de ordem estrutural, ou seja, universal e invariável, que não precisaria ficar restrito à organização familiar. Todavia, nesse processo o que Lacan acaba fazendo é NATURALIZANDO o complexo de Édipo! Apoiado em Freud, Lacan fez com que a organização familiar moderna (pai, mãe e filhos, a “sagrada família”) passasse a servir de referência transcendental para toda e qualquer organização familiar de qualquer época. Em outras palavras, por mais diversificadas que fossem as organizações familiares, em todas elas se poderia encontrar uma estrutura básica triádica (pai, mãe e filho). É aí que surge essa história de que na psicanálise (leia-se lacaniana) o importante não é a mãe e o pai, mas a função materna e a função paterna.

Quando Lacan define aquele último elemento da imensa frase que é a realidade como sendo o Nome-do-Pai, o que ele está dizendo nas entrelinhas é que a nossa realidade, independentemente do período histórico, é e sempre será PATRIARCAL, ou seja, marcada por uma relação hierárquica em que os homens ocupam a linha de cima e as mulheres a de baixo e em que o masculino é o parâmetro definidor da subjetividade.

Para sustentar essa ideia, Lacan recorre ao complexo de castração freudiano, mais uma vez NATURALIZANDO a fantasia que ali se encontra, segundo a qual os homens teriam medo de perder o pênis e as mulheres desejariam possuí-lo. Nesse sentido, o que organizaria o que Lacan chama de “partilha dos sexos” seria a presença ou não de um símbolo derivado da anatomia masculina, isto é, o falo.

Assim, os homens teriam uma “palavra” ou um “símbolo” (o falo) capaz de representá-los na imensa frase da realidade ao passo que as mulheres não. É essa ideia que fundamenta a famosa frase de Lacan: “A Mulher não existe”. De fato, se a realidade é patriarcal, masculina, fálica, a mulher de fato não tem lugar nessa realidade.

O Nome-do-Pai, portanto, seria essa última palavra que, pondo fim à grande frase da realidade, permitiria entendê-la. Por “entendê-la”, leia-se interpretar a realidade segundo a lógica patriarcal e fálica. Lacan é explícito quanto a isso, ao fazer referência à “significação do falo”.

Passemos a uma última questão.

Na teoria lacaniana, como é que a gente teria acesso ao Nome-do-Pai? Como é que a gente se daria conta da existência dele?

Por intermédio da mãe. Para Lacan, como a mulher é um ser que não tem o falo embora o deseje ardentemente, ela tende a usar o filho como um objeto equivalente, ou seja, faz uso do bebê como um objeto de gozo.

Para Lacan (como também para Freud) TODAS as mães têm essa tendência doentia a gozar de seus filhos como consolo para sua falta de pênis, TODAS.

Nesse sentido, no início da vida, segundo Lacan, a mãe seria para o bebê a encarnação da sua realidade, já que ele passa quase todo o tempo com ela. O problema é que essa realidade seria, um inferno, pois ela seria constituída unicamente do desejo caprichoso, voraz e sem lei da mãe. Nesse contexto, o bebê ainda não seria capaz de entender a realidade, já que ainda não saberia o que move o desejo da mãe, o que ela busca, pois ainda não lhe teria sido apresentado o último elemento da frase.

Num segundo momento, o que salvaria o bebê desse estado terrível de submissão ao desejo absoluto da mãe seria o fato de que ele não seria capaz de encarnar definitivamente o falo, ou seja, de saciar completamente o desejo da mãe por um pênis. Em decorrência, aos poucos, a mãe iria deixando-o um pouco de lado e, ao mesmo tempo, mostrando que ela tem outros interesses.

É essa mudança no funcionamento da mãe que coloca em jogo e indica a existência do Nome-do-Pai e junto com ele a significação fálica. É a partir daí que começa a surgir para o sujeito a percepção do significado que tinha até então para a mãe. Aos poucos, ele iria se apercebendo que encarnava para ela esse objeto que o mundo todo desejo e que regula o funcionamento da realidade, a saber o falo.

A partir de então, a realidade que antes era caótica e sem lei, passa a poder ser entendida, pois agora a gente sabe qual é o último elemento da frase.

Por que muitos adolescentes atravessam uma fase de excessiva timidez em relação ao sexo oposto?

Diferentemente do que insistem em dizer os médicos e psicólogos, de acordo com o saber psicanalítico (que, a propósito, é derivado da clínica), a adolescência não é o primeiro momento de manifestação da sexualidade.

Guerra e paz
Freud demonstrou que a sexualidade já se faz presente desde o nascimento e, sobretudo, nos primeiros cinco anos de vida se apresenta de modo bastante intenso. Nesse primeiro momento de irrupção da pulsão sexual, a libido circula predominantemente por zonas do corpo que estão mais diretamente ligadas às necessidades básicas do indivíduo, a saber: a boca e o ânus. É só na puberdade que os órgãos genitais irão adquirir proeminência como zonas de excitação sexual e, ainda assim, por uma necessária intervenção da cultura.

Nesse sentido, o período da adolescência testemunha um segundo movimento de expressão aguda da pulsão sexual. Entre mais ou menos os cinco ou seis anos de idade e a puberdade (por volta dos dez ou onze anos) estabelece-se um período que Freud chamou de “latência”, pois durante essa faixa de tempo a pulsão sexual estaria num período de relativa calmaria, permitindo ao sujeito internalizar de modo tranqüilo os ensinamentos morais e educacionais que lhe são impostas pelos pais e pela sociedade. Na adolescência, esse período de “trégua” da pulsão sexual é abruptamente desfeito e a sexualidade retoma suas armas com uma força tão grande que chega a assustar o jovem que, em função do período de latência, esquecera-se de que em seu corpo habitava tamanha volúpia.

“Por isso essa força estranha…”

Esse retorno súbito da pulsão sexual, sem aviso prévio, é um dos motivos que leva o adolescente a se sentir inadequado, desconfortável, envergonhado e, por conta disso, a refugiar-se, muitas vezes, numa atitude de isolamento e timidez. Ao ser tomado de assalto por aquela estranha força que curiosamente advém de si mesmo e que traz consigo uma série de alterações no corpo (pêlos, menstruação, crescimento dos seios etc.) o adolescente se sente como se estivesse o tempo todo nu. Isso ocorre porque a pulsão se manifesta de modo tão intenso que começa a parecer ameaçadora, de modo que a imagem egóica que o sujeito havia constituído até então para si torna-se frágil. A sensação de nudez perene é uma das formas possíveis de elaboração pela via da fantasia da da insegurança gerada por tais alterações subjetivas.

Fantasmas de amor

No entanto, um número grande de adolescentes experimenta um retraimento muito mais severo em relação ao sexo oposto e isso está ligado não tanto à segunda irrupção ameaçadora da pulsão sexual, mas à primeira. Explico: no advento da pulsão sexual na infância, dissemos que a libido está bastante fixada na boca e no ânus, que são zonas do corpo ligadas à satisfação de necessidades fisiológicas do indivíduo.

No entanto, para que o pequeno infante pudesse se satisfazer sexualmente a partir dessas zonas, outras pessoas tiveram que se fazer presentes na vida do bebê. Que pessoas são essas? A mãe, o pai e/ou outros que estivessem cuidando do bebê na época. Uma dessas outras pessoas forneceu o seio ou algum substituto para a satisfação da necessidade de alimentação e, ao mesmo tempo, estimulou a mucosa da boca do bebê fazendo com que ele obtivesse um prazer a mais, um prazer que não era o da saciedade por ter sido alimentado, mas um prazer ligado propriamente à estimulação da mucosa da boca, um prazer, portanto, sexual. Embora esse prazer fosse essencialmente autoerótico, ele passou a estar irremediavelmente ligado à pessoa que forneceu o objeto para que ele fosse sentido. Lembrando que essa pessoa geralmente é a mãe. O mesmo ocorre com o prazer ligado à satisfação da necessidade de excreção. Conquanto esse prazer, para ser sentido, independa de outra pessoa, afinal a estimulação do ânus é feita pelas próprias fezes, o pequeno animal civilizado humano depende de alguém que limpe seu bumbum, o que faz com que o prazer de defecar passe também a estar ligado a uma pessoa. Lembrando que geralmente quem faz a higiene do bebê é a mãe ou o pai.

O que quero dizer com tudo isso? Que na infância a pulsão sexual está geralmente associada a pessoas bastante específicas: os pais! Nesses primeiros momentos, tradicionalmente chamados de fase oral e fase anal, o sexo dos pais não é relevante, pois o mais importante é o prazer localizado que o bebê sente. No entanto, por volta dos cinco anos, a criança começa a se fazer perguntas acerca da diferença entre homem e mulher e, concomitantemente, a se interessar sexualmente e ter fantasias com o genitor do sexo oposto, iniciando uma relação de rivalidade com o genitor do mesmo sexo. Trata-se do que Freud chamou de “complexo de Édipo”.

Curiosamente, nesse trágico momento, em que as fantasias sexuais em relação ao genitor do sexo oposto começam a se intensificar, a pulsão sexual resolve proclamar trégua e se inicia o período de latência! Como a sexualidade, durante toda a latência, estará num estado de calmaria, o sujeito inevitavelmente recalcará (esquecer-se-á deliberadamente) a paixão que nutria pelo genitor do sexo oposto. Em outras palavras, na latência, a menina não mais se lembrará do seu sonho de casar-se com o papai e tampouco o garoto se recordará dos sonhos que nutria de ocupar o lugar do papai na cama da mamãe.

Quando chega a adolescência e a pulsão sexual novamente se levanta, para-além de ser invadido por tamanha força libidinal, o jovem se vê às voltas com um terrível impasse: por um lado, a cultura lhe diz que ele deve se engajar num processo de busca por alguém que seja ao mesmo tempo do sexo oposto e de fora do seu círculo familiar. Por outro, a retomada da pulsão sexual traz consigo os antigos objetos de amor dos tempos de criança, ou seja, os pais e, especialmente, o genitor do sexo oposto. A diferença é que agora o jovem já está com a proibição do incesto inculcada na sua cabeça, de modo que em vez de experimentar o intenso desejo sexual que nutria pelo genitor do sexo oposto aos cinco anos de idade, ele sente nojo, vergonha, dor psíquica. Ao mesmo tempo, e para desespero do adolescente, como o seu referencial de objeto de amor é o genitor do sexo oposto, toda vez que ele olha para alguém que lhe desperta desejo sexual o que ele vê é o genitor do sexo oposto, ou seja, incesto!

É óbvio que tudo isso não acontece de modo consciente. Portanto, não tente perguntar a nenhuma adolescente se ela fica vendo a imagem do pai em todo garoto pelo qual se interessa. Ela provavelmente lhe dirá que isso é ridículo e que se sente apenas insegura e com medo de levar um fora, mas sequer suspeitará que, por trás dessas racionalizações, há uma fantasia de incesto que ainda roda com bastante força em seu inconsciente. Não obstante, a clínica com sujeitos adolescentes (e adultos) demonstra que essa inferência é plenamente justificada.

Tente, todavia, fazer um exercício mental. Tente se imaginar no inconsciente de um jovem de 13 anos que está apaixonado por uma colega de sala. Você verá que toda vez que ele se imagina ao lado da garota surpreende-se ao constatar que quem de fato está ao seu lado é sua mãe! Ora, não seria natural que esse adolescente não conseguisse sequer se aproximar da jovem?

Pois é exatamente isso o que acontece com inúmeros adolescentes. Sua timidez não é oriunda da situação atual em si, ou seja, ele não é tímido porque teme não conseguir conquistar a garota. Essa é uma modalidade já adulta de timidez. O adolescente não consegue sequer cortejar a garota por que ainda é assombrado pela imagem daquela que na infância fora a rainha de seus sonhos, a mãe. No inconsciente do jovem, a libido ainda está bastante aferrada ao objeto primitivo materno, de sorte que ainda demorará algum tempo até que ele possa contar com uma conta suficiente de libido para investir em outro objeto sexual. Alguns, sequer com a passagem do tempo, conseguem se desvencilhar do fantasma materno. Encontrá-los-emos, provavelmente, no divã.

Quer saber mais sobre adolescência na perspectiva da psicanálise? Adquira agora mesmo, por apenas R$ 17,91, Adolescência – ato e atualidade, de Bianca Bergamo Savietto, que é doutora em Teoria Psicanalítica. Veja a sinopse do livro:

Esta obra, fruto de uma pesquisa de mestrado em Teoria Psicanalítica, pretende explorar o incremento do fenômeno das passagens ao ato entre os sujeitos adolescentes. Partimos de um breve estudo sobre a especificidade do trabalho psíquico demandado na adolescência, o qual serve de base para uma reflexão sobre a revivência da situação de desamparo. A partir dessa reflexão, tentamos mostrar como uma eventual convocação do corpo, sob a forma do ato, possui caráter de resposta extrema, à qual o ego pode apelar diante de uma vivência interna de transbordamento pulsional, aliada a um estado de fragilidade narcísica. Tais aspectos, de natureza metapsicológica e psicopatológica, são também articulados com peculiaridades do contexto em que vivem hoje os adolescentes ocidentais. Buscamos demonstrar o quanto a dimensão de desamparo, com toda sua complexidade, tem sido determinante no incremento do fenômeno das passagens ao ato na atualidade. A análise dessa questão é desenvolvida tendo como pano de fundo primordial o âmbito privado da família.

O mito do brasileiro apolítico (final)

No post anterior me dediquei a descrever em que consiste o que aqui denomino de “mito do brasileiro apolítico” e a demonstrar porque ele constitui uma falácia. Só relembrando: o mito se refere à idéia enraizada no senso comum de nosso país que afirma que os brasileiros não se interessam por política. Fiz ver que essa idéia é falsa na medida em que ela se sustenta num uso equivocado da noção de política.

Hoje pretendo dar prosseguimento à minha demonstração respondendo a duas perguntas que certamente habitam o espírito do leitor mais atento: (1) Se eu afirmo que o brasileiro se interessa – e muito – por política, onde se manifesta esse interesse? Onde ele se transforma em ação já que não o é no terreno da política “standard”, isto é, no âmbito dos três poderes? e (2) Por que o exercício da política se dá nesses outros espaços e não no domínio tradicional?

Onde o brasileiro mostra que se interessa por política

Certamente o leitor já deve ter visto pela televisão ou quem sabe até tenha comparecido pessoalmente a um evento bastante peculiar ao nosso país e que recebe geralmente o nome de “manifestação de torcedores de times de futebol”. Um acontecimento desse tipo ocorreu recentemente após a eliminação do Corinthians da Taça Libertadores da América. Na ocasião, torcedores demandaram a saída de grandes nomes do time como o atualmente aposentado Ronaldo. Pois bem, a pergunta que eu lhes faço é: “Em que um evento como esse difere em seus elementos constituintes, em sua estrutura, de uma revolta popular com a que houve recentemente no Egito?”. Sem dúvida, a massa dirá: “Existe uma distância óbvia entre um acontecimento e outro: o primeiro não era importante, pois o que estava em jogo era apenas o desempenho de um time de futebol; já no segundo estava em questão o destino de um país.”

Eu concordo com a maior parte desse argumento. De fato, a diferença mais evidente e visível é que num caso se trata de uma agremiação esportiva e em outro de um país. Não obstante, discordo radicalmente da idéia de que um acontecimento é mais importante que outro. Do ponto de vista do observador externo, é óbvio que se fossem escalonados numa hierarquia de importâncias o desempenho de um time de futebol e o destino de uma nação, o último estaria acima do primeiro. No entanto, do ponto de vista de quem está inserido em ambas as manifestações o grau de importância dos motivos das revoltas se equivalem. Não é preciso uma pesquisa neurocientífica para verificar isso. Bastaria perguntar a qualquer torcedor do Corinthians que estivesse envolvido na manifestação se o que ele estava fazendo tinha tanto valor quanto o que os egípcios faziam do outro lado do mundo. É claro que ele diria que sim e ainda acrescentaria que o Corinthians, assim como o Egito, também é uma “nação”.

A nossa tendência ao observar esse tipo de manifestação – digo “nossa” porque me incluo de fato entre os que estão subordinados a essa tendência – é criticá-la e dizer que tais torcedores deveriam organizar uma revolta desse tipo não contra um time de futebol cuja performance não interfere demasiado em suas vidas mas sim contra os parlamentares que aumentaram em 60% seus vencimentos. Efetivamente, é impossível negar que um observador externo consideraria o Brasil uma nação esquizofrênica posto que enquanto os supostos representantes do povo aumentam o próprio salário criminosamente, esse mesmo povo, em vez de se insurgir contra tal situação, se revolta contra o baixo desempenho dos clubes de futebol pelos quais torcem! É ou não é incompreensível à primeira vista?

Sim, à primeira vista é mesmo impossível entender. Mas se colocarmos o povo no divã e analisarmos isso como um sintoma, rapidamente aquilo que era estranho e enigmático passa a ser visto como perfeitamente razoável. Façamos esse exercício.

Deslocamento psíquico e nomadismo político

Freud, desde o início de sua atuação clínica tratando de histéricas e neuróticos obsessivos, pôde verificar uma tendência bastante curiosa do nosso aparelho psíquico. È o seguinte: sempre que algum conteúdo psíquico (lembranças, fantasias, pensamentos etc.) se torna difícil de ser suportado, causando-nos desprazer, angústia, aflição, o nosso psiquismo emprega uma estratégia para que nós não permaneçamos sofrendo angustiados: ele desloca a carga de energia que a gente investia naquele conteúdo que nos causava sofrimento para outro conteúdo mais ameno, que pode até nos fazer sofrer também, mas será um sofrimento suportável, menor que o anterior. Assim acontece, por exemplo, com um obsessivo que não podendo lidar com a culpa que sente perante a idéia de um desejo de matar o pai desloca a energia vinculada a essa idéia para a idéia de que tem lavar as mãos de meia em meia hora. Essa última idéia, que agora aparece investida de energia, certamente o levará a ter grandes incômodos e desprazer; no entanto, nada que se compare à culpa por sentir desejo de matar o próprio pai.

Para quê toda essa digressão sobre o conceito de deslocamento em Freud? Abordei essa idéia porque ela me parece interessante para entendermos esse descompasso entre uma atuação incisiva (e política) de torcedores junto a seus clubes do coração e um parco envolvimento das pessoas com os temas da política standard como a questão dos salários dos parlamentares. Ora, do mesmo modo que a energia ligada a um conteúdo psíquico aflitivo pode ser deslocada para outro conteúdo com o objetivo de diminuir o sofrimento ligado ao primeiro, penso que o interesse e o engajamento políticos podem igualmente ser deslocados de um espaço para outro com vistas a certa finalidade que, nesse caso, não seria a diminuição do desprazer, mas sim a busca de uma polis, como mencionei no post anterior.

Essa analogia fica mais clara se ligarmos a noção de polis à de ethos (como sugeriu o colega Alexandre Brito). Com efeito, o termo ethos (que deu origem ao conceito de ética) denota, em grego, a idéia de “morada”, de “casa”, de “habitat”. Logo, quando dizemos que a atuação política se desloca de um espaço a outro em busca de uma polis, a idéia é de que o deslocamento se dá como estratégia para que o potencial político inerente à condição humana encontre uma morada, uma casa, onde seja possível um exercício efetivo da ação política. Aliás, o termo “casa” é bastante utilizado pelos parlamentares para se referirem à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. É bastante provável que, com exceção deles mesmos, nenhum de nós se sinta “em casa” nessas casas. E é precisamente por não nos sentirmos em casa em relação a tudo o que está relacionado a tais casas que nós saímos, como nômades políticos, em busca de outras moradas…

É melhor ser torcedor do que ser eleitor

Nesse sentido, assim como a culpa do neurótico obsessivo em relação a seus desejos o força a deslocar a energia que neles investe para idéias obsessivas e atos compulsivos, nosso sentimento de impotência da nossa atuação política junto aos três poderes nos faz sair à procura de novos espaços para exercer a nossa potência política. E nós os encontramos: os nossos times de futebol são um exemplo desses espaços favoráveis. Nesse âmbito nossa atuação é reconhecida (Quem nunca ouviu dirigentes de futebol dizerem que o torcedor tem o direito de protestar, xingar e dizer o que pensa?) e, mais do que isso, ela gera efeitos, tem força: ficou nítido que a aposentadoria de Ronaldo foi precipitada em função da insatisfação dos torcedores em relação a sua atuação e, principalmente, em relação a seu peso.

Em outras palavras, é em espaços como a manifestação de torcedores que nossa potência política pode ser efetivada porque são nesses espaços que o brasileiro se sente “em casa”. O clube de futebol é seu ethos, sua polis, pois ali, como na ágora grega, o seu discurso tem valor, tem reconhecimento e, não raro, decide rumos. É justamente isso o que não ocorre no espaço da política tradicional. O sujeito observa a discussão sobre o aumento de salários dos deputados e pensa: “Pra quê eu vou me manifestar se a decisão ocorrerá independente da minha vontade? É melhor eu usar melhor meu tempo indo lá na sede do Corinthians, porque se a nação não quiser o Ronaldo não fica!”

 

O que é complexo de Édipo? (final)

Terminamos o último post no momento em que nos dávamos conta da reviravolta que Lacan operou no entendimento do que se passa no conflito edípico. Se para Freud, a situação da qual emergia o complexo de Édipo estava ligada a um estágio de maturação psicossexual em que a libido se concentrava sobre o pênis (no menino) e sobre o clitóris (na menina), isto é, ao estágio comumente denominado de “fase fálica”, para Lacan o conflito edípico se trata muito mais de uma condição do sujeito, que perpassa sua existência desde o nascimento até a morte. Isso porque Lacan se apercebe que “no princípio” não era o desejo da criancinha de cinco anos pela mãe, mas sim o desejo da mãe pelo bebê. Evidentemente, o bebê adora todo esse desejo que a mãe lhe deposita, porquanto suas necessidades encontrem sempre um objeto com o qual se saciar, de modo que o bebê ainda não tem que lidar com a angústia da transformação da necessidade em desejo, isto é, de um ímpeto que pode ser saciado em outro em que isso é impossível. A mãe, por sua vez, usualmente nutre a fantasia de que está completa por estar com o bebê, fantasia que é construída desde a gravidez. A criança, portanto, ocupa no imaginário da mãe o lugar de um objeto que sacia completamente o desejo, o que, em psicanálise se convencionou chamar de falo. Aliás, é justamente esse objeto que será o motor principal da situação edípica para Lacan. É o falo que circulará na cabecinha do bebê e nas cabeçorras de papai e mamãe como o grande objeto de desejo.

Essa primeira situação em que a mãe toma o bebê como objeto fálico e estabelece com ele uma relação quase de simbiose Lacan a chamou de “primeiro tempo do Édipo”. Nela, o problema do falo ainda não é uma questão para a criança visto que, ainda que fantasisticamente, ela é o falo. No que Lacan vai chamar de “segundo tempo do Édipo” ocorre a introdução de um “penetra” na festa que rolava entre mãe e bebê. “Quem é ele?”, como perguntaria Zeca Pagodinho. Não, apressadinhos, não é o Pai. É nesse ponto que Lacan mais uma vez ultrapassa – e ajuda Freud – pois se fosse o Pai de carne e osso o penetra da festa, os pobres bebês cujos pais morreram antes de nascerem ou se mandaram sabe-se lá por que motivos, ficariam reféns da festinha da mãe pra sempre. É certo que nessas situações em que esse pai de carne e osso falta isso pode acontecer. Todavia, não é a regra, justamente porque quem intervém na relação fusional entre a mãe e a criança é o pai feito de palavras, um pai que se faz presente através do discurso da mãe e que não precisa ser o pai biológico da criança, pode ser inclusive o avô, o tio, o padrasto, o emprego da mãe, enfim, qualquer pessoa, instituição ou elemento que assuma o Nome do Pai. A introdução desse Nome-do-Pai através das falas da mãe provoca no bebê um sentimento de decepção e esperança ao mesmo tempo. Decepção porque ele se dá conta de que não é o rei da cocada preta como pensava antes, que, apesar de a mãe gostar muito de tê-lo por perto, há algo para além dele, bebê, que mobiliza o desejo da mãe, que a faz ir para longe, sobre o qual ela fala com saudade e/ou com orgulho, enfim, a criança logo percebe que ela não é capaz sozinha de tapar o buraco do desejo da mãe, que esse objeto mágico se encontra alhures. Mais: ao dar-se conta disso, o bebê também percebe que ele próprio não é e nem possui o objeto que sacia o desejo da mãe, logo ele também é faltoso, incompleto. Terceiro tempo do Édipo. É o momento em que nasce o desejo no bebê, ou seja, através do reconhecimento de que não é, nem detém o falo e que se esse existe, ele se encontra num domínio transcendental, isto é, no campo do discurso, da linguagem. É por isso que o desejo vai se alimentar de significantes, de palavras, buscando encontrar neles a coisa fálica. Como essa coisa não existe, o desejo acaba sendo infinito, deslocando-se de um significante a outro indefinidamente.

O Édipo lacaniano tal como o descrevemos acima dá conta do que se passa com a maioria dos sujeitos. Ele produz uma estrutura neurótica. O que é um neurótico? Para Freud e Lacan é o que a maioria de nós somos, isto é, seres que vivem imersos na fantasia de que é possível um gozo completo, uma felicidade plena aqui “debaixo do sol” e que abarrotam os consultórios de psicólogos e psicanalistas precisamente por não conseguirem abdicar dessa ilusão e viverem de pequenas ilusõezinhas que logo se revelam falhas – e dá-lhe sintomas e mais sintomas.

No entanto, há, de acordo com Freud e Lacan, mais duas saídas possíveis para o complexo de Édipo, mas que, nem por isso são mais saudáveis – muito pelo contrário. São elas a perversão e a psicose. Mas deixarei para abordá-las numa próxima oportunidade. Por ora, algumas palavras à guisa de conclusão: trata-se no conflito edípico de uma situação triangular que não envolve necessariamente um pai, uma mãe e um bebê, mas sim três elementos: alguém que deseja, alguém que é desejado e alguma coisa que interdita essa relação, produzindo a emergência de um objeto virtual que se afigura como capaz de solucionar o problema da incompletude dos dois sujeitos iniciais. Lendo retrospectivamente, a partir das contribuições de Lacan, o Édipo freudiano, podemos dizer que Freud intuiu a partir dos relatos de seus pacientes a estrutura que mais tarde Lacan formalizaria. No entanto, o pai da Psicanálise – por inúmeras razões – não conseguiu ultrapassar o nível imaginário, isto é, o nível das histórias que lhe eram contadas pelos membros das famílias burguesas da Viena vitoriana. O mérito de Lacan está em ter conseguido dissecar o complexo de Édipo e extrair dele sua lógica, colocando as vicissitudes “empíricas” da situação edípica no seu devido estatuto, isto é, contingencial.

Sugestões de leitura:

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O que é complexo de Édipo? (parte 2)

Terminamos o último post com uma historieta através da qual dispusemos os personagens que participam do drama edípico tal como Freud no-lo conta. Paramos no momento em que nosso herói, um guri no auge da sua quinta primavera, se vê às voltas com o desejo de que aquele ser que atrapalha seu sonho de viver feliz para sempre com mamãe, isto é, papai, morra. Pois bem, continuando: imediatamente após ter esse pensamento, o garotinho se lembra de que embora papai seja esse “estraga-prazeres”, ele também é aquele cara que ele sempre quis ser! Afinal, não foi nosso heroizinho que se encheu de orgulho quando a professora lhe perguntou qual era a profissão do pai e ele, altivo, disse: “Motorista de ônibus!”. Sim, havia dias que ele passava noites em claro imaginando como o pai era poderoso conduzindo aquele monte de pessoas para seus destinos. Se ele decidisse parar de dirigir todos estariam fritos! Bem, isso fora a mãe quem lhe dissera, mas ela não tinha porque mentir e o menino botava muita fé nas palavras dela, afinal era mamãe, ora bolas! Logo após se lembrar disso, nosso pequeno Édipo sentiu um avassalador sentimento de culpa: ele estava odiando justamente aquele a quem mais admirava: papai, o seu herói! “O que fazer?”, pensa o menino. “Eu quero mamãe, mas ela é do papai. Então, que papai morra! Não, não, não pode. Ele é papai!”

Eis o conflito edípico stricto sensu. É a forma como cada um resolverá esse conflito que definirá o modo como organizará sua vida psíquica, ou seja, sua estrutura. Evidentemente, essa historinha é um mito que, como esclareci num dos primeiros posts deste blog, é uma explicação do que se passa no real de uma maneira metafórica, carregada de imagens e símbolos. Freud, no entanto, não acreditava que se tratava de um mito. Para o criador da psicanálise, o complexo de Édipo era de fato uma fase da qual nenhuma criança escaparia. Daí que nosso pequeno conto lhe pareceria extremamente factível. E, de fato o é, meus caros, Freud não era tão delirante! Muitas crianças experimentam o conflito edípico de maneira semelhante à que descrevemos. No entanto, isso não é regra. E foi exatamente com o intuito de demonstrar isso que Lacan um belo dia chegou ao seu Seminário e disparou: “O complexo de Édipo é um sonho de Freud”. Ele só se esqueceu – leia-se: não quis – explicitar que o complexo de Édipo a que estava se referindo era a forma como Freud o caracterizava, a qual foi resumida por nós na anedota anterior.

Uma das principais tarefas a que Lacan se consagrou na psicanálise foi a de fazer com os mitos psicanalíticos o mesmo que Lévi-Strauss fez com os mitos dos povos ditos primitivos, isto é, extrair deles a sua lógica e as funções que se ordenam a partir dessa lógica. É o mesmo trabalho que um farmacêutico faz, por exemplo, para extrair o princípio ativo de plantas medicinais. A idéia é justamente poder prescindir da planta e produzir artificialmente o medicamento a partir do conhecimento dos elementos químicos essenciais que compõem o princípio ativo. O objetivo de Lacan, portanto, era o de depurar a teoria psicanalítica de seus mitos, os quais por estarem carregados de imagens, faziam muitas pessoas incorrerem em erros banais que vão desde contestações leigas como: “Ah, então se uma criança é filha de mãe solteira ela não experimenta o complexo de Édipo” a argumentos assim chamados “acadêmicos” que pretendem jogar a psicanálise no lixo, do tipo: “Existiram sociedades arcaicas em que o incesto era permitido. Logo, o complexo de Édipo não é universal. Logo, a psicanálise é uma falácia”. Lacan começou a perceber que boçalidades dessa estirpe só não pareciam absurdas aos olhos da sociedade porque seus colegas psicanalistas davam margem a elas, ao insistirem em descrever a teoria com anedotas burguesas de alcova.

Ao abordar o complexo de Édipo, portanto, Lacan pensou: “Essa historinha de que mais ou menos aos cinco anos, o menino quer comer a mãe e para isso deseja matar o pai só atrapalha. Até porque explicar como é que na menina isso acontece de forma inversa (ou seja, querer dar para o pai e matar a mãe) é um imbróglio danado. Vejamos o que está realmente, estruturalmente em jogo no complexo de Édipo: temos, em primeiro lugar, uma pessoa, um sujeito, que pode ser menino ou menina. Esse sujeito, antes de desejar aquela pessoa que o gerou, é, em primeiro lugar, desejado por ela. Ou seja, o tema do incesto não aparece inicialmente com o menino que quer comer a mãe, mas com a mãe que adora ter o menininho pra se sentir poderosa!”

CONTINUA…

Sugestões de leitura:

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O que é complexo de Édipo? (parte 1)

Sem dúvida, ao lado de “inconsciente”, a noção de complexo de Édipo talvez seja o conceito freudiano que mais tenha se incorporado ao senso comum. E talvez seja essa a razão de muitos mal-entendidos quanto ao significado do termo. Nessa explicação, passarei deliberadamente ao largo da história grega de Édipo, a qual inspirou Freud na elaboração do conceito. Basta que o leitor saiba que Édipo foi um cara que, sem saber, se casou com a própria mãe e, também sem saber, acabou matando o próprio pai. Como você verá adiante, isso mostra que o próprio Édipo não teve complexo de Édipo porquanto tenha realizado o desejo que gera o complexo justamente por ter não poder ser levado a cabo.

Primeiramente são necessárias algumas palavras sobre o termo “complexo”. Ele foi criado por Jung (que durante algum tempo foi o discípulo predileto de Freud). Jung, que era psiquiatra, mesmo antes de conhecer a psicanálise, praticava um experimento com seus pacientes que consistia em enunciar diversas palavras para o doente e esse, a cada palavra enunciada, deveria responder com outra. Durante esse processo, alguns sinais corporais do sujeito, como batimento cardíaco, eram monitorados, bem como o tempo que o paciente gastava para responder às palavras. Jung percebia que perante alguns grupos de palavras os pacientes demoravam mais tempo para responder e/ou suas funções vitais ficavam mais alteradas. Jung compreendeu tais resultados da seguinte forma: quando tais palavras eram enunciadas, provavelmente elas eram associadas com outras representações mentais ligadas a lembranças ou pensamentos aflitivos – daí a alteração no tempo de resposta e nas funções vitais. Assim, esse grupo de representações articuladas em torno de um núcleo comum angustiante foi chamado por Jung de complexo.

Freud passou a utilizar o termo mais ou menos no mesmo sentido. Logo, a rigor o complexo de Édipo se refere a um conjunto de representações mentais interconectadas pela referência ao conflito edipiano. É esse conflito que vamos abordar. Para Freud, é a forma como cada um de nós dá um encaminhamento para ele que está na base de nossos relacionamentos com todo o mundo, seja com a namorada, com o marido, com os amigos ou com o presidente da república. Na tentativa de deixar a psicanálise mais em sintonia com a lingüística e a antropologia estruturais, disciplinas de vanguarda nos anos 50, Lacan dirá que o modo como lidamos com o conflito edipiano resulta numa estrutura. Sim, estrutura. A idéia é a mesma daquela estrutura que os engenheiros fazem no início da construção de um edifício, ou seja, é aquilo que dá a diretriz de como a construção será feita. O prédio pode ser azul, verde, branco, pode ser feito com tijolos de barro ou com blocos de concreto, mas sua estrutura não pode variar. Assim também, podemos mudar de país, de idade, de estilo, de amigos, de esposa, de marido, que, mesmo assim, nossa estrutura básica de relacionamento com o mundo e nosso modo de nos conduzirmos quanto a nossa sexualidade, vai permanecer o mesmo ao longo de toda a vida. E essa estrutura é definida no conflito edipiano.

Para não terminarmos esse post no vazio, vamos deixar claro desde já o cenário onde se desenrola o Édipo (a partir deste momento passarei a utilizar esse termo em vez de “conflito edipiano”): pois bem, temos um menininho por volta dos seus cinco anos de vida e que possui nesse momento duas pessoas realmente significativas em sua existência: seu pai e sua mãe. Ele adora o aconchego do colo materno, lembra-se com extrema saudade do tempo em que em vez da mamadeira, era nos seios da mãe que ele se saciava, do tempo em que ela com toda a paciência lhe limpava, de modo que agora ele sente um prazer enorme em ficar junto dela. Mesmo que lá na escolinha seja divertido, ele adora quando o sinal toca e já é hora de voltar pra casa e reencontrá-la. O menininho também tem feito algumas descobertas em seu próprio corpo. Sem querer acabou percebendo que tocando de uma determinada forma no “piupiu”, como a mãe lhe disse que se chamava, ele sente uma sensação muito gostosa que dá vontade de repetir. Do outro lado do palco, temos o pai, aquele estranho ser que sempre corta o barato do menininho. No momento em que esse mais gostaria de estar com a mãe, à noite, na cama dela, quem está lá é ele, o pai. Assim, esse sujeito é a pedra no sapato do menininho. “Como seria bom se ele desaparecesse…” pensa o garoto.

CONTINUA…

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O que é superego? (final)

Caro leitor, terminamos o último post com o vislumbre do avanço teórico-conceitual empreendido por Freud a partir de sua noção de superego. Dissemos que o ponto de partida foi o fenômeno da consciência moral, mas ressaltamos que a intenção de Freud foi trazer à luz um acontecimento psíquico bem mais complexo. É que o pai da psicanálise não estava interessado em descrever o óbvio. Pelo contrário, a teoria psicanalítica pode ser descrita como a tentativa de trabalhar o estranho, o insólito, aquilo que aparentemente é incompreensível. O conceito de superego se presta exatamente a essa função, a tentar explicar, por exemplo, porque uma pessoa não se permite vencer na vida, galgar postos mais altos ou porque alguém sofre de um imenso sentimento de culpa para o qual não consegue conceber razão alguma. Veremos isso, ao examinarmos como Freud articula as origens da formação do superego.

Todos vocês devem conhecer as linhas gerais daquilo que o médico vienense chamou de “complexo de Édipo”: na infância, meninos e meninas estão fortemente apegados à mãe e são obrigados a deixar esse estado de extrema satisfação pela interferência daquele que possui a mãe por direito: o pai. Pois bem, esse estado de coisas perfeitamente verificável em qualquer família, pode ser interpretado como a personificação da entrada da criança no mundo social. Ela deve abdicar de uma satisfação, acatar a lei que limita seu gozo e, como fenômeno colateral, passar a odiar aquele que encarna o papel de limitador.

Agora, imaginem que essa etapa fundamental do desenvolvimento da criança não termine nunca, que ela permaneça para sempre não mais como a relação da criança com os pais, mas como a relação da criança consigo mesma. É exatamente isso o que acontece. Após o término desse período da relação triangular pai-mãe-filho, na cabeça da criança começa a ser formado um personagem que vai passar a exercer a mesma função que o pai na realidade, de maneira tal que, mesmo na ausência do pai, o sujeito se veja limitado em sua satisfação com as coisas do mundo. Mais, e esse é o passo fundamental de Freud, esse personagem que surge na cabeça da criança – que vocês já devem ter percebido tratar-se do superego – adquire características muito mais cruéis que as do pai. Além de lembrar ininterrupatamente ao sujeito que ele não pode gozar de tudo, o superego vai culpá-lo por um dia ter gozado daquela mulher que só pertencia ao pai. Ou seja, o aspecto essencial do superego não é o de limitador, mas daquela instância mental que não nos deixa sentirmo-nos inocentes.

Por não compreenderem isso, muitas pessoas erroneamente dizem que Deus é uma personificação do superego. Se alguma selvageria analítica dessa pudesse ser feita (chamo de selvageria analítica essa bobagem de explicar a religião com conceitos psicanalíticos como Freud fez em ‘O Futuro de uma Ilusão’), o superego deveria ser identificado com o demônio, ou seja, como a figura que faz com que o fiel não se lance na graça do Deus que perdoa os pecados por constantemente fazê-lo sentir-se culpado pelas faltas cometidas.

É por isso que Lacan e Melanie Klein faziam questão de ressaltar a ferocidade do superego. Na sua eterna culpabilização do sujeito, ele faz com que muitos não se sintam em condições de usufruir da vida, pois cada pequeno gozo parcial passa a ser significado como uma rememoração do gozo proibido das primeiras relações com a mãe. E o ponto essencial é que tudo isso ocorre a portas fechadas, por trás das cortinas. No palco da consciência, o sujeito só se observa se estrepando na vida, se prejudicando tão logo conquista uma vitória ou contraindo dívidas. Há até aqueles que cometem crimes apenas para serem flagrados, irem para a cadeia e lá se verem finalmente recebendo a punição pelo incesto precoce com a mãe.

Portanto, caro leitor, esqueça essa versão aguada do superego que ficou pra tradição. Lembre-se do superego como aquela voz ameaçadora que no inconsciente diz: “Um dia eu fui seu pai, mas seu pai não pôde lhe castigar pelo enorme pecado que cometeu. Dormir no colo da própria mãe??? Só eu tenho esse direito. Por isso você vai se sentir culpado pelo resto da vida e nunca poderá vencer pois você não merece experimentar nem mais uma satisfação sequer. Acho que o melhor é você se punir, se castigar, pra ver se consegue expiar um pouco de sua culpa.”

Pra finalizar um conselho: converse com seu superego…

O que é falo? (parte 3)

04eve1No último post, interrompemos nosso relato mítico no momento em que meninos e meninas estavam lá no paraíso infantil, cada qual se divertindo como podia: o menino com seu recém-descoberto pênis e a menina com seu também recém-descoberto clitóris. Mas eis que em determinado momento eles se encontram e percebem que em relação a esse tipo de diversão eles não são iguais.

É nesse momento que as crianças se deparam com uma grande descoberta: a de que existe um tipo de ser humano diferente (de tipo diferente delas mesmas). E o que os diferencia? A imagem não mente: um deles possui algo entre as pernas e o outro não possui algo entre as pernas. É assim que meninos e meninas a princípio percebem a diferença entre homem e mulher. Mas, prestem atenção: até esse momento a criança não vai entender esse “um tem algo no meio das pernas e o outro não tem” como “um tem, aquilo que no outro falta”. Isso só vai acontecer no momento seguinte, em que a criança, neste caso o menino, se lembrar de uma ameaça geralmente feita pelo pai: a de que se ele ficasse mexendo no próprio pênis, este lhe seria cortado.

Nesse momento é como se o menino tivesse um insight: “Eureka! Agora entendi porque as meninas não têm pênis! Elas tinham mas perderam. É que elas ficaram mexendo muito em seus próprios pênis e por isso foram castradas!”

Do lado das meninas a coisa se passa de forma diferente. Como elas não receberam a ameaça de terem o pênis cortado, ao se depararem com a diferença entre seu pequenino clitóris e o pênis do menino, elas criam uma fantasia de que seu clitóris é como um “pênis filhote”, que logo mais irá crescer e ficar como o do menino. Após algum tempo, ao se dar conta de que ele não vai crescer mesmo, a menina então passa a entender que ela nasceu defeituosa. E se assim foi, a culpa é de quem? Da mãe, claro, que foi quem a botou no mundo.

Pois bem, meus caros leitores, não levem muito a sério essa historinha, mas também não pensem que se trata apenas de um simples historinha. Essa, que Freud deu o nome de complexo de castração, assim como o complexo de édipo são mitos. O que é um mito? Eu já disse em outro post: um mito é uma forma figurada de falar do Real. É isso que faz com que o mito não seja uma mera anedota.

Então, o que o mito do complexo de castração demonstra: que no caso específico da espécie humana, a única que se coloca a questão: “Qual a diferença entre um ser humano macho e um ser humano fêmea”, a diferença entre os sexos é entendida da seguinte forma: “Há dois tipos de seres humanos: aqueles que têm, mas podem perder e aqueles que não têm. É justamente esse “algo” que uns têm e outros não têm que a psicanálise chama de falo.

CONTINUA…

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