Uma linguagem esquecida

24hoochUm ônibus é um lugar extremamente produtivo para sujeitos que, como eu, ainda são capazes de surpreender com as desventuras dos Homo sapiens e, mais ainda, quando essas desventuras são postas em palavras. Ontem mesmo, estava eu num ônibus quando minha atenção foi atraída por uma conversa entre uma simplória mãe e sua filha, a qual devia ter cerca de 2 ou 3 anos de idade. A conversa se dava sob os olhos do pai da garota que parecia, tal como eu, apenas contemplar a cena.

Lembro-me apenas de um fragmento da conversa pois rapidamente minhas próprias reflexões a substituíram em minha consciência. Dizia a mãe para a garota:

– Não é calor, minha filha. É frio. Você deve estar sentindo frio.

E olhando para o pai:

– Ela sempre troca as palavras. Diz “Apaga a luz” quando quer pedir para acendê-la.

Esse espetáculo cativante de uma mãe introduzindo sua filha no mundo propriamente humano, isto é, no mundo da linguagem, me trouxe à mente um texto de Freud que eu recentemente reli. Chama-se “A significação antitética das palavras primitivas” e pode ser encontrado no volume XI da Standard Edition.

Nesse artigo, escrito em 1910, Freud se propõe a comentar um panfleto de um filólogo chamado Karl Abel que trata exatamente de um curioso fenômeno lingüístico: a utilização de uma mesma palavra para denotar significados opostos. Alguns exemplos que Abel cita são as palavras latinas sacer que significa, ao mesmo tempo, sagrado e maldito e altus, alto e profundo.

A explicação de Abel, que mais tarde viria a servir de mote para o grande lingüista Ferdinand de Saussure que,por sua vez, influenciaria Lacan, é de que não só a significação mas a própria existência de uma palavra só é possível através da oposição a uma outra. Por exemplo, só tivemos necessidade de criar uma palavra para definir a luz por causa da existência de um estado sem luz, isto é, a escuridão. Assim, as palavras são criadas sempre aos pares: dentro-fora, claro-escuro, bonito-feio.

O que as línguas antigas faziam era uma espécie de economia de palavras: uma vez que para saber o que era bonito dever-se-ia ter em mente o feio, poder-se-ia utilizar apenas uma palavra para se referir a ambos.

Mas o que tudo isso tem a ver com a Psicanálise? Muito. Freud resolve comentar o texto de Abel efetivamente porque percebe que o inconsciente, na medida em que, como Lacan disse, ele é estruturado como uma linguagem, o inconsciente pode fazer uso desse mecanismo lingüístico para se fazer presente.

É assim, por exemplo, que a gente pode sonhar que está abrindo a porta de casa quando na verdade, nosso desejo é fechá-la. Na medida em que abrir e fechar só podem existir por oposição um ao outro, o inconsciente toma liberdade de usar um para esconder o outro.

Portanto, nossa garotinha do ônibus estava dando uma aula para a mãe sobre o funcionamento da linguagem. Mas a mãe, como todo mundo, já havia esquecido dessa linguagem primeira. E, logo logo, a filha também o fará.

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Winnicott e o Samba

winnicott20et20enfant1Em 1951, o psicanalista e pediatra Donald Woods Winnicott (cuja obra completa você pode baixar na seção Presentes) escreve um artigo para relatar algumas curiosas observações que vinha fazendo com crianças. Winnicott notou que a imensa maioria das crianças em determinado período da infância escolhia um objeto (na maioria das vezes, um ursinho de pelúcia, uma chupeta, uma fralda), carregava esse objeto pra tudo quanto é canto (em especial pra cama na hora de dormir) e não permitia que ele fosse lavado. Quando não era um objeto o bibelô, a criança elegia um determinado comportamento (como emitir um mesmo som), o qual era constantemente repetido (principalmente na hora de dormir).

Winnicott descobre que a fase em que a criança começa a fazer isso é justamente a fase em que ela está começando a se tornar independente e não necessita o tempo todo da presença da mãe. O psicanalista conclui então que a função desses objetos e comportamentos é fazer a transição entrea fase em que a criança dependia da mãe pra tudo e a etapa em que ela está adquirindo independência. Por isso, Winnicott denomina-os de “objetos e fenômenos transicionais” que é também o nome do artigo de 1951.

Assim, os objetos e fenômenos transicionais são como substitutos imaginários da mãe (por isso são tão importantes na hora de dormir- hora em que a criança fica mais tempo longe da mãe). Acontece que a gente não cura essa “saudade” da mãe e do conforto que era estar junto com ela nunca. E aí, já adultos, não temos mais a fralda ou a chupeta para nos consolar, mas temos as músicas, por exemplo. Quer ver como isso é verdade?

Leia a letra da música “Esta Melodia”, de Bubu da Portela e Jamelão e veja se não é a descrição certinha de tudo o que eu falei acima:

“Eu tinha esperança que um dia ela voltasse
Para a minha companhia
Deus deu resignação
Ao meu pobre coração
Não suporto mais tua ausência,
Já pedi a Deus paciência

Quando vem rompendo o dia
Eu me levanto, começo logo a cantar
Esta doce melodia que me faz lembrar
Daquelas lindas noites de luar
Eu tinha um alguém sempre a me esperar
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória”

SERVIÇOS:

Ouça “Esta Melodia” na voz de Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela:

73973Para saber mais sobre as teorias de Winnicott, adquira o livro “Da Pediatria à Psicanálise”, que conta com os principais artigos do autor. Clique no link abaixo e digite o título do livro na busca.