Reconhecer erros é ficar de luto

Você conseguiria descrever com facilidade os afetos que se fazem presentes no momento em que se dá conta de ter cometido um erro?

Seja honesto. São raríssimos os momentos em que de fato somos capazes de admitir que nós é que fomos a causa principal de um determinado tropeço na vida. Na maioria das vezes , aciona-se em nós um mecanismo mais ou menos automático de atribuição da responsabilidade a outrem.

Todavia, nessas ocasiões extraordinárias em que não temos outra saída a não ser admitir que realmente foi a gente que pisou na bola, uma série de afetos se manifesta em nosso ser.

Talvez, o mais primariamente explícito seja a culpa, esse sentimento terrível e doloroso que faz de todos nós simulacros de Adão diante do olhar de Javé.

A vergonha também é outro afeto que pode ser discernido nesses momentos.

Outros dois sentimentos preponderantes são o arrependimento e o desespero. Frequentemente, ao aceitarmos nossa responsabilidade diante do equívoco, o desejo de que aquilo não tivesse acontecido é imediatamente posto à baila e junto com ele a percepção de que a falta é irreversível, o que, dependendo do caso, pode gerar um intenso desespero em função da possível impossibilidade de reparar o dano.

Creio, no entanto, que todos esses afetos estão apenas na superfície da experiência de reconhecimento do erro. Em um nível mais profundo, o afeto preponderante talvez seja o do luto. Isso mesmo: luto! Toda vez que nos damos conta de nossa responsabilidade diante de um erro, alguém muito importante morre para nós (ainda que sempre ressuscite): o nosso eu ideal, esse companheiro inseparável de cada um de nós, cuja característica essencial é a perfeição.

Quando erramos, isto é, quando a dimensão da nossa falta essencial se manifesta de modo patente, é como se o eu ideal recebesse um tiro fulminante e uma das nossas maiores dores psíquicas decorre justamente dessas mortes eventuais. No limite, é por isso que a experiência de reconhecimento do erro é tão sofrida, pois não se trata apenas de dizer: “Tá bom, eu errei”, mas de dar um adeus provisório a esse nosso companheiro tão amado e sem mácula chamado eu ideal.


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Pare de ter saudade do que você não viveu

Ontem eu estava escutando uma conversa sobre marketing digital numa das inúmeras salas voltadas ao tema lá no Clubhouse e tive um insight que gostaria de compartilhar com vocês.

Na conversa, os “speakers” (como são conhecidas as pessoas que podem falar numa sala do Clubhouse) discutiam algumas estratégias básicas para crescimento de audiência e conversões de vendas. Nessa hora eu me dei conta de que não vinha utilizando algumas daquelas técnicas.

Tal constatação fez surgir em mim o seguinte pensamento: “Puxa, estou perdendo tempo! Se eu já estivesse utilizando esses métodos, meus negócios estariam muito maiores.”. Foi imediatamente após ter esse raciocínio que me veio à mente o insight de que quero lhes falar.

A percepção de que eu poderia ter feito certas coisas que não fiz desencadeou em mim uma atitude emocional de tristeza e lamentação. Mas isso só aconteceu porque o meu olhar estava voltado para o passado, para o que poderia ter acontecido e não aconteceu. Se meu foco tivesse sido dirigido desde o início para o futuro, a reação teria sido outra, como de fato foi quando eu deliberadamente modifiquei minha forma de encarar o que estava ouvindo.

Ao invés de lamentar ainda não ter utilizado as estratégias que estavam sendo mencionadas, comecei a pensar: “Puxa, que bom que o acaso me levou até esta sala e estou tendo a oportunidade de aprender com essas pessoas. Daqui para a frente tentarei aplicar essas técnicas de que estão falando.”.

Percebeu? Quando eu deixei de encarar as informações que estava recebendo com um olhar de lamentação e passei a enxergá-las com uma visão de progresso, minha atitude emocional mudou e eu me senti motivado a agir.

A moral da história aqui é a seguinte: frequentemente, diante de um erro, ficamos presos ao acerto imaginário que não aconteceu e perdemos de vista as possibilidades de sucesso futuro que o fracasso presente inaugura. Isso acontece porque facilmente embarcamos na ilusão de que falhas são sempre acidentes evitáveis, sendo que, na verdade, os tropeços constituem a própria essência do caminhar humano.


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