Reconhecer erros é ficar de luto

Você conseguiria descrever com facilidade os afetos que se fazem presentes no momento em que se dá conta de ter cometido um erro?

Seja honesto. São raríssimos os momentos em que de fato somos capazes de admitir que nós é que fomos a causa principal de um determinado tropeço na vida. Na maioria das vezes , aciona-se em nós um mecanismo mais ou menos automático de atribuição da responsabilidade a outrem.

Todavia, nessas ocasiões extraordinárias em que não temos outra saída a não ser admitir que realmente foi a gente que pisou na bola, uma série de afetos se manifesta em nosso ser.

Talvez, o mais primariamente explícito seja a culpa, esse sentimento terrível e doloroso que faz de todos nós simulacros de Adão diante do olhar de Javé.

A vergonha também é outro afeto que pode ser discernido nesses momentos.

Outros dois sentimentos preponderantes são o arrependimento e o desespero. Frequentemente, ao aceitarmos nossa responsabilidade diante do equívoco, o desejo de que aquilo não tivesse acontecido é imediatamente posto à baila e junto com ele a percepção de que a falta é irreversível, o que, dependendo do caso, pode gerar um intenso desespero em função da possível impossibilidade de reparar o dano.

Creio, no entanto, que todos esses afetos estão apenas na superfície da experiência de reconhecimento do erro. Em um nível mais profundo, o afeto preponderante talvez seja o do luto. Isso mesmo: luto! Toda vez que nos damos conta de nossa responsabilidade diante de um erro, alguém muito importante morre para nós (ainda que sempre ressuscite): o nosso eu ideal, esse companheiro inseparável de cada um de nós, cuja característica essencial é a perfeição.

Quando erramos, isto é, quando a dimensão da nossa falta essencial se manifesta de modo patente, é como se o eu ideal recebesse um tiro fulminante e uma das nossas maiores dores psíquicas decorre justamente dessas mortes eventuais. No limite, é por isso que a experiência de reconhecimento do erro é tão sofrida, pois não se trata apenas de dizer: “Tá bom, eu errei”, mas de dar um adeus provisório a esse nosso companheiro tão amado e sem mácula chamado eu ideal.


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