O exagero subjetivista de Freud

Num trabalho de 1906 chamado “Meus pontos de vista sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses”, Freud descreve a evolução de suas teorias acerca da sexualidade percebida como fator causal nas neuroses.

Podemos identificar 3 grandes momentos dessa teorização:

1 – Freud acredita que as neuroses são causadas por abusos sexuais sofridos pelo sujeito na infância e praticados por adultos ou crianças mais velhas.

2 – Freud acredita que tais abusos não necessariamente aconteceram e que são manifestações sexuais espontâneas na infância que levam à neurose.

3 – Freud percebe que essa sexualidade infantil espontânea está presente em todas as crianças e que é a reação do sujeito a ela que está na origem da neurose.

A respeito desse terceiro e definitivo momento de sua teorização sobre as causas da neurose, Freud diz o seguinte:

“Não importavam, portanto, as excitações sexuais que um indivíduo tivesse experimentado em sua infância, mas antes, acima de tudo, sua reação a essas vivências — se respondera ou não a essas impressões com o ‘recalcamento’.”

Essa citação mostra que, para Freud, a pergunta que devemos fazer frente à neurose NÃO É “o que aconteceu na infância para que essa pessoa se tornasse assim?”.

A pergunta correta seria: “Como essa pessoa LIDOU na infância com seus próprios impulsos e com o que lhe aconteceu para que se tornasse assim?”.

Em outras palavras, Freud sai de uma primeira teoria que colocava no AMBIENTE  todo o peso da produção da neurose e vai para o polo oposto…

Sim, ao dizer que, na causação da neurose, o mais importante é a forma como o sujeito reagiu às impressões infantis, Freud relativiza o impacto do ambiente e “absolutiza” o papel do sujeito nessa história.

É como se ele estivesse inadvertidamente dando razão àquela frase de pára-choque de caminhão atribuída a Sartre:

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”

Felizmente, autores como Ferenczi e Winnicott iriam “corrigir” esse exagero subjetivista freudiano e resgatar, na teoria psicanalítica, o peso do AMBIENTE  na produção do adoecimento emocional.


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Em qual questão infantil você está empacado?

Quando fazemos essas provas de múltipla escolha aplicadas em vestibulares e concursos não é recomendável gastarmos muito tempo com uma questão que não estamos conseguindo resolver.

A melhor estratégia é pular o item difícil e ir respondendo outros mais fáceis, de modo que, se sobrar tempo, a gente pode tentar voltar a quebrar a cabeça com a questão complicada.

Essa recomendação extremamente útil para processos seletivos também é válida para a vida de modo geral.

No entanto, na maioria das vezes ela não é adotada.

Pelo menos é isso o que a clínica psicanalítica nos mostra.

Afinal, o que encontramos todos os dias em nossos consultórios são pessoas que permaneceram presas a questões com as quais vem pelejando DESDE A INFÂNCIA.

Ao invés de seguirem a vida e deixarem para lá certos problemas, tais pessoas insistem em se dedicar compulsivamente a resolvê-los.

Que problemas são esses? Eis alguns exemplos:

— Será que eu posso ser tão potente quanto o meu pai?

— Por que meu pai me rejeitou?

— Como mudar minha mãe e torná-la mais amorosa?

— Por que me forçaram a amadurecer tão precocemente?

Na busca por respostas para questões como essas a gente acaba reencenando na vida adulta os mesmos cenários difíceis da infância.

Fazendo assim, inconscientemente temos a esperança de encontrar as respostas que não conseguimos achar lá atrás.

Mas não dá certo. Ao reencenar os problemas da mesma forma com que eles se apresentaram na infância, tudo o que conseguimos é a repetição do sofrimento.

E assim vamos nos comportando como um estudante fazendo o Enem que fica empacado tentando resolver uma questão difícil e acaba não fazendo as dezenas de outras questões mais fáceis.

No caso da vida, a saída não é simplesmente fingir que a questão difícil não existe.

É preciso encontrar uma nova maneira de encarar o problema.

Um novo olhar que nos permita enxergar que talvez haja questões insolúveis mesmo e que buscar respostas para elas é pura perda de tempo e energia.

É para conseguir desenvolver esse novo olhar que a gente faz Psicanálise.


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A gente faz Psicanálise para mudar, mas, na maioria das vezes, não sabemos o que precisa ser mudado.

Muita gente imagina que o principal objetivo da terapia psicanalítica é promover mudanças no comportamento do paciente.

Faz sentido pensar assim. Afinal, via de regra as pessoas procuram ajuda psicoterapêutica quando estão insatisfeitas consigo mesmas e desejam mudar.

No entanto, diferentemente do que acontece em outras modalidades de psicoterapia, na Psicanálise nós não tomamos a demanda consciente e expressa pelo paciente de forma acrítica. Em outras palavras, não é porque o sujeito nos diz que deseja deixar de ser tímido que o analista estabelecerá como objetivo do tratamento reduzir a timidez dessa pessoa.

Na Psicanálise, não vale o velho jargão comercial: “Seu pedido é uma ordem!”.

Uai, Lucas, mas como assim? O paciente não sabe o que precisa ser mudado?

Frequentemente, não. Isso acontece porque naturalmente nós não temos consciência da maior parte dos fatores que influenciam nosso comportamento e, consequentemente, formatam nossas ideias acerca do que precisa ser mudado em nós.

Assim, é bem possível que o rapaz que chegue ao analista dizendo que quer deixar de ser tímido possa estar formulando essa demanda em função do que ele tem ouvido desde criança da boca de seu pai: “Você precisa ser mais pra frente!”, “Desse jeito você nunca vai conseguir transar!”, “Pare de ser tão retraído!”.

Percebe? O desejo de ser extrovertido não é do paciente, mas de seu pai. Portanto, ao questionar a demanda inicial desse sujeito, o analista pode ajudá-lo a se dar conta de que não é ele efetivamente quem almeja deixar de ser tímido.
Ah, Lucas, mas a timidez não é um problema em si mesmo? O certo não seria mesmo esse rapaz deixar de ser tímido?

Sim, seria certo… do ponto de vista do ideal do pai dele!

Como em Psicanálise a gente não fica tentando encaixotar o sujeito em ideais de saúde, sucesso e felicidade, um trabalho verdadeiramente analítico com esse paciente iria na direção de ajudá-lo a compreender as razões pelas quais ele assumiu a timidez como posição diante da vida. Que fantasia estaria na base desse modo de ser?

Dessa forma, o sujeito estaria em melhores condições para decidir se quer manter-se nessa posição ou se deseja dar outro destino à fantasia subjacente a ela.


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O Real angustia, a fantasia conforta.

Muitos indivíduos encaram a realidade apenas como um conjunto de evidências que comprovam as fantasias que nutrem a respeito de si mesmas.

Você pode conhecer pessoas assim ou mesmo ser uma delas.

Há, por exemplo, aqueles que acreditam firmemente que NUNCA conseguirão ter um relacionamento amoroso duradouro porque percebem que a realidade SEMPRE lhes mostra o quanto são desinteressantes.

A despeito da aparente coerência desse pensamento, trata-se tão-somente de uma FANTASIA.

Sem perceberem, tais pessoas estão generalizando encontros singulares ou, em outras palavras, interpretando o acaso como se fosse destino.

Mas por que alguém criaria uma fantasia tão destrutiva como essa? Uma das razões é que, por mais dolorosa que seja, esse tipo de crença falaciosa funciona como uma poderosa defesa psíquica. Com efeito, aqueles que a sustentam acabam se privando de novos encontros, pois supostamente “sabem” que não serão bem-sucedidos. Evitam, assim, o confronto com a incerteza e a ansiedade inerentes a toda possibilidade de relação amorosa.

Protegem-se também do risco de obterem sucesso e serem obrigados a abandonar suas queixas. Por mais paradoxal que possa parecer, não poder mais contar com uma realidade que sustente uma reclamação crônica é um dos maiores temores de muita gente.


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A fantasia como esforço para dar conta do trauma

Freud observou que as fantasias sexuais infantis de seus pacientes pareciam ter sido construídas justamente em resposta a essas experiências reais, como parte de um esforço para se apropriarem subjetivamente delas. Nesse sentido, a fantasia seria um recurso defensivo para fazer do trauma uma fonte de prazer e não de dor.

É a partir dessas observações que Freud irá propor o conceito de FIXAÇÃO como um elemento crucial para a compreensão de como a neurose se desenvolve. A fixação constitui-se no apego inconsciente do sujeito à memória daquelas experiências infantis traumáticas. É como se a pessoa resistisse a esquecer aquelas situações, trazendo-as constantemente de volta ao presente ao invés de abandoná-las no passado.

Leia o texto completo clicando aqui.


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[Vídeo] Quais são os roteiros que você tem encenado?

Na infância, somos confrontados aos enigmas da vida. Para respondê-los, criamos fantasias, histórias, enredos que podem ser mais ou menos potencializadores, mais ou menos destrutivos. Você já se perguntou quais são os roteiros que você vem encenando?


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Qual é a fantasia que te protege do Real?

Nós não vivemos no Real.

Nossa relação com ele é mediada por uma coisa que em Psicanálise a gente chama de fantasia.

O que nós chamamos de realidade é a versão do Real que nossa fantasia nos apresenta.

Precisamos da mediação da fantasia porque o Real é insuportável de ser visto a olho nu. Ele é caótico, sem sentido, indizível.

Por isso, precisamos de uma fantasia que nos diga quem somos, o que esperar do outro, como devemos nos posicionar, quais são as regras do jogo da vida.

A fantasia faz parecer que a existência é compreensível e previsível. Ela nos orienta.

Contudo, diferentemente do delírio psicótico (que também faz frente ao Real), falta na fantasia o elemento da certeza. No fundo, sabemos que nossas fantasias são construídas, fabricadas, artificiais, ou seja, sabemos que não refletem necessariamente o Real.

Se nos apegamos tão fortemente a elas a ponto de adoecermos para justificá-las é porque nos protegem do encontro com o Real insuportável.

Há muitas formas de formular o que se busca numa análise. Uma delas é: numa análise se busca ajudar o sujeito a se descolar (e se deslocar) de sua fantasia a fim de que o Real passe a ser visto por ele como menos ameaçador.


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Quem apanha da realidade se refugia na fantasia

“Ninguém gosta de mim”, “ninguém me respeita”, “todo homem só se aproxima de mim para se aproveitar”, “toda mulher é interesseira”. Essas são algumas das teorias que construímos e saímos propagando por aí quando estamos emocionalmente doentes.

Uma das características mais marcantes do adoecimento psicológico é o afastamento da realidade. Quanto mais grave é a enfermidade, mais distante o sujeito se coloca da fluxo real da existência.

Isso se deve ao fato de que geralmente o gatilho que desencadeia uma patologia psíquica é uma experiência de frustração ou de opressão vivida na realidade. Assim, para se proteger, o sujeito se afasta do mundo e mergulha na segurança e previsibilidade oferecidas por suas fantasias. Em outras palavras, para se defender de um mundo onde as coisas acontecem de modo imponderável e muitas vezes surpreendente, o sujeito se refugia em seu próprio universo psíquico.

No reino das fantasias, não há espaço para o aleatório, o imprevisível, o eventual. Tudo faz sentido. A fantasia encaixa todos os acontecimentos num enredo fixo e repetitivo. Ao se afastar da realidade, o sujeito passa a enxergá-la exclusivamente com os óculos de sua fantasia.

Por exemplo, após receber um “fora”, o sujeito pode encarar esse acontecimento como uma comprovação de que “ninguém gosta dele”. Da mesma forma, ao ser tratada com indiferença pela atendente do banco, a pessoa imersa em sua fantasia pode interpretar tal situação como a prova cabal de que “ninguém a respeita”.

Embora tais fantasias não sejam nada agradáveis, elas colocam ordem na experiência, dando ao sujeito a convicção de que nada do que acontece consigo é por acaso. Essa sensação de que “tudo faz sentido” proporciona à pessoa conforto e uma impressão ilusória de controle. Assim, para se proteger de uma realidade que não lhe foi favorável no passado, o indivíduo se deixa aprisionar no cárcere de suas fantasias.

Você acredita que está passando ou já tenha passado por isso? Conhece alguém que esteja nessa condição?


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[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 02

Nesta aula: como Freud passou da teoria da sedução para a teoria da fantasia na busca por encontrar as causas da histeria na infância.

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Travessia da fantasia: tornar-se o que se era

A experiência psicanalítica evidencia que nós não vivemos na realidade objetiva, ou seja, aquela que independe do que pensamos, desejamos e imaginamos. Somos capazes de supor a existência de uma realidade objetiva (pois não sabemos se de fato ela existe) porque percebemos a insuficiência da realidade em que vivemos. Algo nela sempre falta ou sobra. Há sempre alguma coisa que não fecha, uma inconsistência, um defeito, que nos faz suspeitar de sua fidedignidade: “Será que posso mesmo confiar que a realidade seja assim como eu acho que é?”.

Quando essa pergunta começa a se tornar mais frequente e a gerar angústia, as pessoas costumam procurar terapia. Alguns métodos de tratamento ajudam o paciente a “remendar” o tecido de sua realidade que começou a se romper e a revelar os buracos que o constituem. São métodos que trabalham com exercícios, reorganização do pensamento, autocontrole etc. e que têm um valor inegável, embora se baseiem numa concepção um tanto ingênua da realidade.

Por saber que nós não vivemos na realidade objetiva, mas numa realidade que Freud chamou de “psíquica”, a Psicanálise trabalha de outra forma. O fato de nossa realidade ser fundamentalmente psíquica significa que ela é estruturada por fantasias e, mais especificamente, por uma “fantasia fundamental” (conceito inventado pelo psicanalista francês Jacques Lacan). O objetivo da Psicanálise não é o de eliminar essa fantasia com a suposta justificativa de fazer o sujeito “encarar a realidade”. Não! Se a fantasia fosse destruída, o paciente cairia justamente naquilo que está para-além da nossa realidade, o Real, dimensão com a qual não podemos lidar diretamente.

Aliás, a fantasia fundamental é justamente a tela que nós construímos para nos protegermos do Real. O problema é que, enquanto não tomamos consciência da fantasia, enquanto fingimos que ela não existe, somos dominados por ela, tal como uma marionete nas mãos do titereiro. Em outras palavras, sofremos, não conseguimos sair do lugar, mas não sabemos o motivo. Por isso, a Psicanálise não busca fazer remendos na realidade psíquica do paciente, pois isso implicaria em mantê-lo assujeitado à fantasia. Entendemos que todas as fantasias são furadas mesmo — e é bom que seja assim… 😉

A proposta da Psicanálise é a de ajudar o paciente a “atravessar” sua fantasia. O que significa isso? Significa ajudá-lo a responsabilizar-se pelo próprio desejo, ou seja, sair do lugar de objeto e tornar-se sujeito de sua realidade, o que implica em conseguir lidar criativamente com sua fantasia e não submeter-se passivamente a ela . Como disse Freud em sua célebre máxima no final da conferência “A Dissecção da Personalidade Psíquica”, o objetivo da Psicanálise é que “Wo Es war, soll Ich werden”, ou seja, que nos tornemos o que já éramos.

[Vídeo] Recado Rápido #14 – Verdades e narrativas

Não raro as pessoas procuram um analista acreditando que, ao longo do tratamento, encontrar-se-ão com a verdade definitiva sobre si mesmas. Se, no início, a psicanálise de fato foi pensada como um método através do qual o sujeito poderia ir ao encontro das memórias relativas aos acontecimentos que determinaram sua história, atualmente não se trata mais disso. Em vez da busca por uma verdade última que estaria na origem do sofrimento do paciente, a análise busca hoje colocar sob suspeita justamente aquilo que se apresenta ao sujeito com o peso de uma verdade imutável e que são de fato narrativas construídas acerca de sua história.


[Vídeo] Recado Rápido #08 – Aceitar o passado

Todos nós sabemos que não se pode retornar ao passado. Apesar disso, muitas pessoas alimentam uma fantasia inconsciente de que isso é possível. Assim, frequentemente se imaginam em situações passadas, especialmente aquelas que produziram raiva, rancor, ressentimento humilhação. Ao desejarem ardentemente retornar a essas situações para dar respostas diferentes a elas, tais indivíduos não conseguem “digerir” certas experiências aflitivas. É sobre isso que falo nesse oitavo recado rápido.


Sofrendo o suficiente para não sofrer o insuportável

Psychosis-Bangour-Village-Hospital-Mono-Print-Copy1Diferentemente do que pensam os leigos, o delírio apresentado por um indivíduo psicótico não é uma manifestação direta de sua doença, mas sim uma tentativa, digamos, capenga de se autocurar. Sim, um paranoico que acredita piamente estar sendo monitorado e perseguido pelo FBI não padece propriamente dessa ideia delirante. Ela o faz sofrer, evidentemente, mas, por outro lado, é justamente essa crença que o impede de provar um sofrimento ainda maior: aquele que está em jogo na experiência de desmoronamento da realidade que acomete o psicótico nos momentos iniciais da doença. O delírio é uma espécie de colagem de fragmentos psíquicos que foram, por alguma razão, espalhados. É como se a tendência espontânea de integração presente desde o início da vida impulsionasse o indivíduo a fazer um mosaico com os pedaços de si mesmo. O delírio é, portanto, uma terapêutica “natural” para a experiência de desintegração e de ausência de sentido presente na psicose.

É interessante notar que delirar, em certo sentido, não é uma prerrogativa apenas dos psicóticos. Se levarmos em conta a função eminentemente terapêutica do delírio de possibilitar uma saída diante do sem-sentido, podemos dizer com certa segurança, parafraseando Lacan, que todos deliram. A vida inevitavelmente nos oferece experiências que não podem ser processadas pelos nossos “esquemas cognitivos prévios” (expressão que usada livremente, isto é, fora da teoria piagetiana, possui o seu valor). A morte de uma pessoa querida, por exemplo, experimentada sem o apoio reconfortante das crenças religiosas, apavora muito mais por sua incompreensibilidade do que pela perda de quem se foi. Há quem diga que as religiões não passam de grandes delírios que nos servem de consolo para o sem-sentido da morte. De fato, a experiência de compreender aquele evento como um processo de desencarnação ou de adormecimento espiritual é, sem dúvida, menos sufocante do que lidar de forma imediata com ele.

Entre o delírio psicótico e as inevitáveis construções que fazemos diante de determinadas experiências a fim de enfrentá-las de modo menos doloroso, estão certas fantasias que, assim como os delírios, produzem um sofrimento suportável como “remédio” para um sofrimento insuportável. Algumas dessas fantasias são típicas, como a convicção jamais confirmada pela experiência que alguns pacientes têm de que seus pais possuem uma preferência ou predileção por seus irmãos. É óbvio que uma situação como essa pode se configurar efetivamente, mas, no caso dessas pessoas, não há nenhuma evidência de que ocorra. Quando se analisa a história do paciente, verifica-se com certa clareza que a fantasia de que se foi preterido pelos pais funcionou, na verdade, como uma tentativa desesperada de dar sentido a determinadas experiências que, à época em que aconteceram, não puderam ser compreendidas. Um exemplo simples: um indivíduo pode ter construído a fantasia de que não era amado pela mãe porque, quando criança, sua genitora precisou ser internada num hospital em função de uma doença grave e ninguém lhe explicara na ocasião o que de fato havia acontecido. Em outras palavras, a fim de lidar com a experiência bruta e intensamente angustiante da ausência inexplicável da mãe, a criança forjou sua própria explicação, a qual, embora dolorosa, lhe permitiu compreender o episódio.

Vemos na clínica que muitos pacientes experimentam um sofrimento intenso justamente por interpretarem os diversos eventos da existência a partir do seu “paradigma fantasmático”. Não percebem que o seu ponto de vista diante das situações é o ponto de vista que a fantasia lhe proporciona. Não percebem, ademais, que, de forma indireta e inconsciente acabam “produzindo” situações que justificam a fantasia, como um policial que “planta” evidências a fim de incriminar uma pessoa. Isso acontece porque a fantasia precisa se manter sólida a fim de evitar o retorno da experiência incompreensível e angustiante. Nesse sentido, o que se busca na psicoterapia é proporcionar as condições afetivas suficientemente boas para que o paciente possa se permitir experimentar novamente o incompreensível sentindo-se seguro para dar a ele um sentido novo, criativo e aberto à mudança.

Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (Adendo)

A causa do desejo é um objeto, o objeto a, um nome para a falta de objeto. Logo, o desejo é causado pela falta. Essa é a tese de Jacques Lacan para explicar a quase infinita variabilidade de objetos que podemos desejar. Desejamos uma multiplicidade de objetos e jamais experimentamos uma satisfação completa porque somos seres furados, faltosos. Esse é o argumento lacaniano.

Demonstrei que essa teoria é de fato correta desde que tomemos como parâmetro de razoabilidade a fantasia de gozo pleno do neurótico. Se aceitarmos que a psicanálise deva ficar refém de uma fantasia neurótica, a tese do desejo como decorrente da falta adquire total pertinência. Felizmente não é esse o caso. A psicanálise pretende tratar a neurose, não fazer de suas fantasias os fundamentos de seus enunciados teóricos. Se o neurótico se percebe como um eterno insatisfeito em busca de um gozo impossível, não se deve depreender disso que ele formula algo de verdadeiro a respeito do desejo.

Ao longo de minha argumentação, provei que não é preciso supor uma falta ou um furo para explicar o desejo. Se somos capazes de desejar múltiplos objetos, isso só evidencia a imensa variabilidade de coisas existentes que nos podem ser úteis, bem como a vasta potência dos nossos corpos de se conjugar a vários objetos.

A imagem que melhor ilustra a concepção lacaniana do desejo é a de uma dona-de-casa que perdeu o botão de uma camisa e, examinando toda a casa, jamais consegue encontrar o objeto perdido, achando pelo caminho uma série de outros botões semelhantes, sendo que nenhum deles pode substituir adequadamente a peça que sumiu. O desejo lacaniano seria essa busca sempre infeliz pelo botão perdido.

O que está como pano de fundo dessa concepção é uma visão da pulsão como um mecanismo desregulado, visão que começa em Freud com a ideia da criança como um perverso polimorfo e continua em Lacan com a teoria da falta.

A pergunta que não quer calar é: por que considerar a plasticidade da pulsão o signo de uma falta ou de um furo fundamental? Por que dizer que o ser humano é faltoso ou furado porque há uma variabilidade quase infinita de escolhas de objeto? Em outras palavras, por que fazer da riquíssima capacidade da pulsão de orientar-se em direção a múltiplas possibilidades o indicativo da perda de um objeto primordial?

Não estaria Lacan, ao teorizar o desejo como resultante da falta, manifestando uma espécie de decepção, frustração ou desapontamento pela inexistência de um objeto adequado à pulsão? Dito de outro modo, não estaria Lacan fazendo da queixa radical do neurótico uma condição necessária de todos os indivíduos?

É o neurótico que chega aos nossos consultórios queixando-se de que não consegue atingir um gozo pleno, de que gostaria muito de saber o caminho certo para a felicidade, mas só consegue desejar, desejar e desejar sem jamais se satisfazer. É esse o desejo neurótico, desejo que, na verdade, nada mais é do que esperança sempre frustrada de uma satisfação absoluta, expectativa de encontro com o botão perdido. É esse desejo doentio, impotente, romântico, que Lacan defende que seja o desejo de todos!

Ora, por que considerar que há um botão perdido a ser procurado? Se não há objeto adequado para a pulsão não é porque num passado longínquo, mítico, esse objeto existiu e foi perdido. A pulsão não é uma garrafa que perdeu a tampa! Ela assemelha-se muito mais a um imenso manancial que jorra incessantemente e cuja água pode desaguar em múltiplos rios, criados a partir das experiências de vida. Nesse sentido, o desejo não é reação à perda da tampa, mas sim uma ação primária, produção, potência. O desejo não é uma busca eterna de um objeto inexistente cuja posse supostamente daria ao sujeito o acesso a um gozo absoluto. Esse é o desejo doentio do neurótico!

O desejo é, na verdade, potência criativa, cuja variabilidade de possibilidades não foi forjada pela perda de um direcionamento único. A capacidade produtiva do desejo lhe é intrínseca, constitutiva. Em vez da imagem da dona-de-casa desesperada à procura do botão perdido, propomos como ilustração para o desejo a cena de um bebê diante de diversos brinquedos. Ora se diverte com um, ora com outro, sem esperança de encontrar nada, apenas fruindo espontaneamente o gozo de agir – atividade primária e não reativa.

Se a dona de casa procura o botão perdido, é porque tem esperança de encontrá-lo. Imagina a camisa sem defeito, com todos os botões adequadamente arranjados. É a imagem da camisa perfeita que fundamenta sua incessante busca. Não ocorre o mesmo com o nosso desejo. Se imaginamos uma completude, é fantasisticamente que o fazemos. Da mesma forma, só no interior de uma fantasia pode haver falta.

Por outro lado, a criança que brinca não o faz para atingir nenhuma completude, não anseia por um gozo absoluto. Brinca porque brincar faz bem, porque lhe proporciona prazer, alegria, lhe faz sentir-se viva, existindo, criando. Desejo, portanto, é criação e não um remédio para uma suposta falta.

[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise V: Pierre Marty