No Inconsciente estão as páginas da nossa história que, com medo de ler, resolvemos pular.

Quando a gente fala que no Inconsciente encontram-se memórias, desejos e fantasias que nós reprimimos, corremos o risco de imaginar que o processo acontece mais ou menos assim:

A gente experimenta conscientemente o desejo, entende que ele é incompatível com o ego e decide retirá-lo da consciência.

Todavia, não é dessa forma que as coisas se passam.

Na segunda fase da sua produção teórica (que começa no início dos anos 1920), Freud chega à conclusão de que os mecanismos de defesa (como o recalque) são acionados pela experiência da ansiedade.

Como sabemos, ansiedade, angústia e medo são afetos que se caracterizam por sensações muito semelhantes.

Nesse sentido, creio que não seria incorreto dizer que a gente se defende quando está com medo, ou seja, quando nos sentimos AMEAÇADOS.

Com efeito,  certas memórias, desejos e fantasias parecem tão contrários à imagem que temos de nós mesmos e de outros que SEM PENSAR a gente reprime esses conteúdos.

SEM PENSAR: esse é o ponto. A defesa não ocorre após um esforço reflexivo por parte da pessoa.

A gente reprime simplesmente porque tem a IMPRESSÃO de que não vai dar conta de suportar conscientemente determinados conteúdos.

É o medo que produz a defesa e não uma avaliação racional das memórias, desejos e fantasias que parecem ameaçadores.

Nesse sentido, o que a gente encontra no Inconsciente são justamente conteúdos não compreendidos, não avaliados.

Como aquelas comidas que a gente, por medo, evita comer antes mesmo de provar.


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Como escutar o Inconsciente?

Os psicanalistas entendem que uma pessoa adoece emocionalmente quando se recusa obstinadamente a reconhecer certos aspectos de sua personalidade e de sua história.

Tal recusa obriga esses aspectos a se manifestarem à força na vida da pessoa, por meio de problemas emocionais.

Um sujeito, por exemplo, que desde a infância se recusa a tomar posse de seus impulsos agressivos pode acabar expressando essa agressividade reprimida por meio de uma culpa neurótica.

Nesse sentido, o principal objetivo de um tratamento psicanalítico é ajudar o paciente a se apropriar conscientemente daquilo que ele não quer reconhecer em si mesmo.

Para alcançar esse propósito, o analista precisa justamente ser capaz de captar na fala do analisando indícios daquilo que ele não quer admitir.

O terapeuta, portanto, deve ter uma escuta que seja sensível ao Inconsciente e estar apto a ajudar o paciente a também desenvolver essa sensibilidade.

Mas como escutar aquilo que não se manifesta às claras, de forma evidente?

De fato, em função da resistência que o analisando impõe aos conteúdos do seu Inconsciente, eles não se apresentam de forma explícita.

Assim, para ser capaz de escutá-los, o analista precisa seguir e ajudar o paciente a seguir as PISTAS do Inconsciente.

Que pistas são essas?

Várias. Por exemplo, as aparentes “coincidências” que ocorrem na vida do sujeito:

O sujeito que reprime a própria agressividade pode ter desenvolvido uma dor estranha nos braços justamente no dia em que lhe fizeram uma brincadeira de mal gosto no trabalho.

Outra pista bastante esclarecedora são comportamentos involuntários que a pessoa repete sem perceber:

Esse mesmo sujeito que não consegue se apropriar de seus impulsos agressivos pode dizer ao seu analista que não sabe a razão pela qual vive cantarolando uma música popular que fala de violência e ódio…

Esquecimentos, trocas de palavras, excessos… Todas essas coisas também são pistas para o Inconsciente.

Cabe ao analista ter desenvolvido, em sua própria análise e por meio do estudo teórico, a capacidade de enxergar esses indícios que geralmente “passam batido”…


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A gente faz Psicanálise para validar o que não queremos enxergar em nós mesmos

Somos seres divididos.

Existe uma grande e espessa parede dentro de nossa alma separando-a em duas grandes partes: o Consciente e o Inconsciente.

Do lado do Consciente estão todos os pensamentos e sentimentos que voluntariamente queremos enxergar em nós mesmos — e damos conta de enxergar.

Do lado do Inconsciente estão todos os conteúdos que também, obviamente, fazem parte de nós, mas que a gente não quer reconhecer que possui.

Na parede que separa uma parte da outra existe uma porta que paradoxalmente está sempre aberta.

É por essa porta que certos elementos que fazem parte do Consciente podem ser levados para o Inconsciente.

Isso acontece quando determinadas ideias que nasceram no Consciente acabam não se adaptando às “normas da casa” e se tornam incômodas e perturbadoras.

Assim, tais ideias são “convidadas a se retirar” dali e irem morar no Inconsciente, onde poderão agir como bem desejarem…

Mas a porta que eu mencionei acima também permite que elementos do Inconsciente atravessem a parede e penetrem no Consciente.

No entanto, como tudo o que faz parte do Inconsciente é tratado pelo Consciente como indigno, ameaçador e perigoso, os elementos inconscientes são obrigados a se disfarçarem.

Com efeito, só conseguem acessar o Consciente vestindo roupas inofensivas e se comportando de uma forma não barulhenta.

Dessa forma, podem viver no Consciente e mexer com ele sem levantar suspeitas.

Os principais disfarces empregados pelos conteúdos do Inconsciente são os sonhos, os atos falhos, os comportamentos involuntários e os sintomas neuróticos.

Mas por que esse pessoal do Inconsciente quer morar no Consciente? Por que eles não ficam lá onde estavam?

Ora, porque o Consciente é sua terra natal. As ideias que estão no Inconsciente um dia estiveram do outro lado, mas foram expulsas de lá.

Na verdade, o que elas verdadeiramente querem não é apenas viver sob disfarce no Consciente.

Seu maior sonho é serem reconhecidas e aceitas do jeito que são.

Elas gostariam de recuperar a “cidadania” consciente a fim de poderem viver ali sem precisar recorrer a complicados disfarces.

É um pouco esse processo de acolhida e legitimação das ideias que vêm do Inconsciente que nós ajudamos os pacientes a fazerem em Psicanálise.


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[Vídeo] Seus problemas emocionais são mensagens do Inconsciente

Neste vídeo: entenda por que você não deveria “ler” e compreender seus problemas emocionais ao invés de simplesmente querer eliminá-los.


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Não dá para ver o Inconsciente a olho nu: a importância do olhar simbólico para a Psicanálise

Ontem eu conversava com os alunos da Confraria Analítica sobre como a prática da Psicanálise exige o exercício de um olhar SIMBÓLICO sobre a realidade.

É por isso que eu sempre recomendo “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, de Freud, como primeira leitura para quem deseja iniciar um percurso no campo psicanalítico.

Com efeito, nessa obra o leitor encontrará uma coleção imensa de relatos de pequenos erros e comportamentos aparentemente insignificantes interpretados simbolicamente por Freud.

Quem lê “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” vai pouco a pouco se acostumando a encarar um simples esquecimento de nome, por exemplo, como um discurso eloquente.

Sim! Nesse livro, Freud nos convida a olhar para lapsos, equívocos e pequenos atos do dia a dia não só como eles se apresentam, mas enxergando o que eles REPRESENTAM.

É isso o que eu chamo de OLHAR SIMBÓLICO, que penso ser indispensável para quem quer exercer a Psicanálise na prática ou mesmo apenas estudá-la teoricamente.

É somente por meio da aplicação desse olhar simbólico que podemos enxergar no esquecimento da chave de casa, por exemplo, o desejo de não voltar para ela.

Só olhar simbólico também nos permite olhar para os sintomas de nossos pacientes e enxergá-los não só como problemas, mas fundamentalmente como MENSAGENS.

Quem não cultiva esse olhar julga as interpretações psicanalíticas como exageradas ou forçadas. De fato, não consegue ver para-além do imediato.

O olhar simbólico é justamente o que torna um analista apto a observar o Inconsciente em ação. Afinal, é próprio do Inconsciente não se mostrar de maneira explícita.

O terapeuta que não exercita o olhar simbólico é levado a crer equivocadamente que seus pacientes estão apenas descrevendo objetivamente  a realidade.

Olhar simbolicamente para a fala do analisando habilita o analista a percebê-la como um discurso muito mais RETÓRICO do que descritivo…

Em suma, para ser psicanalista é preciso ter olhos para ver. E ouvidos para ouvir.

Você tem facilidade para aplicar esse olhar simbólico?


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O sintoma é uma mensagem que eu envio para mim mesmo.

Estamos acostumados a olhar para nossas formas de adoecimento emocional como problemas a serem solucionados ou obstáculos a serem superados.

A Psicanálise, contudo, nos ensina a enxergar nossos sintomas como mensagens.

Ora, toda mensagem pressupõe um emissor e um receptor. No caso do sintoma, essas duas posições são ocupadas pela mesma pessoa, a saber: nós mesmos.

Em outras palavras, você é, ao mesmo tempo, o emissor e o receptor da mensagem veiculada pelo sintoma.

Mas, Lucas, por que eu mandaria uma mensagem para mim mesmo?

Ora, a gente só manda mensagem para quem está distante. Não faz sentido mesmo enviar um “zap” para quem está ao meu lado. Afinal, eu poderia simplesmente falar diretamente com a pessoa.

Nesse sentido, quando digo que o sintoma é uma mensagem que enviamos para nós mesmos, isso significa que entre eu como emissor e eu como receptor existe uma distância.

Sim! O eu emissor é aquilo que, em Psicanálise, a gente chama de Inconsciente, ao passo que o eu receptor poderia ser chamado de “ego” (só para não confundir com o termo “eu”).

O Inconsciente está o tempo todo expressar os desejos que nele habitam, mas tais desejos geralmente não conseguem chegar até o ego por conta do muro de censura que o próprio ego ergueu entre ele e o Inconsciente. É essa parede a responsável pela distância entre o eu emissor (o Inconsciente) e o eu receptor (ego).

Assim, o Inconsciente é obrigado a codificar os desejos, transformando-o em mensagens, pois somente dessa forma eles conseguem ultrapassar a distância estabelecida pela censura.

O problema é que o ego (eu receptor) não consegue decodificar adequadamente tais mensagens, acreditando que elas significam X, quando, na verdade, expressam Y.

É por isso que a Psicanálise não trabalha com a proposta de eliminar os sintomas do paciente pura e simplesmente. Por considerá-los como mensagens do Inconsciente, o analista ajuda seus analisantes a aprenderem o código do Inconsciente a fim de capacitá-los a compreender as mensagens do eu emissor.


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Quais são os capítulos censurados da sua história?

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise”, Lacan afirma que “O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado.” (p. 260 dos “Escritos”).

Esse trecho é interessante porque nele Lacan revela um aspecto muito específico de como pensa a existência humana.

Para o analista francês, desde antes do nascimento nossa história já está sendo contada. Depois que chegamos ao mundo, pegamos esse bonde sem saber que ele já estava andando. Em outras palavras, assumimos a autoria de um livro que já estava sendo escrito e aí continuamos a escrevê-lo, tomando a narrativa da forma como a encontramos.

No entanto, não escrevemos nossa história de um ponto de vista exterior, como um jornalista relatando fatos para uma matéria. Somos personagens da nossa própria narrativa, de modo que não conseguimos nos situar fora dela.

A imagem que, a meu ver, melhor ilustra essa ideia lacaniana de difícil apreensão é a gravura “Drawing Hands”, de Maurits Cornelis Escher, que certamente serviu de inspiração para o clipe de “Drive” da banda Incubus. No quadro aparecem duas mãos, uma sendo desenhada pela outra e vice-versa, sugerindo a ideia de um “autodesenho”.

A concepção de subjetividade em Lacan tem a ver com isso. A gente não vive numa realidade e, ao mesmo tempo, vamos construindo narrativas sobre ela. Não! Para Lacan, a gente vive na própria história que criamos, iniciada e, portanto, estruturada pelo Outro.

Assim, ao dizer que “O inconsciente é o capítulo censurado”, Lacan está propondo que, no interior desse livro do qual sou o autor e, ao mesmo tempo, o personagem, existem páginas que foram rasgadas ou trechos sobre os quais fizemos colagens para ocultar o conteúdo original.

Nesse sentido, a Psicanálise pode ser tomada como um convite para a revisão de nossa própria história. Ao se submeter à experiência analítica, o sujeito seria convocado a recompor o seu “livro da vida”, resgatando as páginas censuradas e desfazendo as falsificações.


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Como é possível “conversar” com o Inconsciente?

Para a Psicanálise, a única maneira que temos de descobrir saídas para o labirinto em que nos colocamos na neurose é estabelecendo uma conversa franca com o inconsciente.

Quanto mais insistimos na atitude soberba de achar que controlamos conscientemente todas as nossas escolhas e caminhos, mais complexo se torna o labirinto.

Mas, Lucas, como é que a gente pode dialogar com o inconsciente?

Ora, a aposta de Freud — aposta que nós, psicanalistas, mantemos viva até hoje — é a de que essa conversa só pode ser feita por meio da ASSOCIAÇÃO LIVRE ou, para sermos literais na tradução do termo alemão utilizado por Freud (einfall), por meio da “invasão” de ideias na consciência.

Dizemos aos nossos pacientes: “Fale exatamente tudo o que vier à sua cabeça. Não tenha pudores, não se preocupe com a lógica ou com o sentido, apenas deixe que as ideias invadam sua consciência e as comunique a mim. Essa é a única regra que você deve seguir. Não tem tarefa de casa, não tem exercício, nada disso. Basta dizer tudo o que vier à sua cabeça. Com o tempo você perceberá que não está falando de forma aleatória, que há um fio condutor articulando essas ideias que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra. É como se você começasse a pintar um quadro sem a menor ideia do que deseja expressar. Você vai simplesmente jogando as cores na tela, de forma desorganizada mesmo. De repente, você começa a perceber que nesse movimento aparentemente caótico algumas figuras foram se formando… Você percebe um rosto ali em cima, uma casa ao fundo… Uma paisagem começa a aparecer…”.

É assim que a gente conversa com o inconsciente: escutando-o, ou seja, abrindo mão do controle egoico e permitindo que ele fale com o máximo de liberdade possível.

Consequentemente, e com a ajuda do analista, adquirimos a segurança necessária para continuar mantendo um diálogo aberto com o inconsciente para-além do consultório, a fim de aprender com ele algumas saídas para o labirinto da neurose.


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O analista escuta o paciente como se estivesse sempre ouvindo o relato de um sonho

Ontem à noite na aula ao vivo da Confraria Analítica fiz um comentário sobre a importância que nós, psicanalistas, conferimos ao círculo familiar quando estamos avaliando clinicamente um paciente. Expliquei aos alunos que, embora não desprezemos a influência de fatores sociais e culturais na formação do indivíduo, entendemos que tais elementos podem ser tomados apenas como causas remotas e que os principais determinantes dos modos de ser e adoecer do sujeito devem ser buscados no âmbito das relações familiares.

Em razão desse comentário, uma aluna fez uma pergunta interessante e que eu quero utilizar como ponto de partida para a reflexão de hoje. A questão dela era mais ou menos a seguinte: “Professor, então devemos desconsiderar as falas do paciente que não se referem a questões familiares?”.

Minha resposta foi: absolutamente não. Um dos princípios fundamentais da técnica psicanalítica é não desconsiderar nenhum fragmento do discurso do paciente. O exercício do que Freud chamou de “atenção flutuante” implica precisamente em não direcionar o foco para certos elementos em detrimento de outros.

E por que agir dessa forma? Ora, porque o Inconsciente pode escolher qualquer elemento banal da vida do sujeito para REPRESENTAR suas intenções. Nesse sentido, o simples relato do paciente de ter lavado o carro no fim de semana precisa ser escutado pelo psicanalista com o mesmo grau de atenção que ele dedicaria à narrativa de uma violenta briga que o paciente eventualmente tivesse vivenciado com sua mãe.

Na Psicanálise, não escutamos o discurso do paciente como apenas um relato de experiências. Sabedor de que o Inconsciente nunca silencia e está sempre se manifestando simbolicamente, o psicanalista escuta as narrativas do sujeito, tanto as triviais quanto as extraordinárias, como se estivesse diante de sonhos, ou seja, de textos simbólicos que precisam ser interpretados.

Assim, se o paciente faz, por exemplo, um comentário sobre a política nacional, a pergunta que estará o tempo todo no horizonte do analista será: “O que o Inconsciente desse paciente está tentando dizer simbolicamente por meio desse comentário aparentemente sem vínculo direto com a vida dele?”.


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“O inconsciente é o capítulo censurado” (Jacques Lacan, 1953)

Ontem à noite na aula ao vivo da Confraria Analítica, eu estava demonstrando para os alunos que uma das principais evidências da existência do Inconsciente são os “furos” que existem na narrativa que fazemos da nossa própria história.

Diferentemente do que acontece em um filme ou uma série bem produzidos, no roteiro que descreve nossa biografia há diversas partes faltantes que fazem o enredo ficar eventualmente incompreensível.

É por isso que, não raro, uma das principais queixas que os pacientes apresentam na clínica psicanalítica pode ser expressa por frases como: “Não sei por que faço isso!” ou “Não consigo entender por que sou assim!”.

As respostas para essas questões estão justamente naquelas partes do roteiro do nosso “filme” biográfico que nós deliberadamente cortamos e tentamos descartar, ou seja, naquelas ideias, pensamentos e lembranças que foram objeto de… recalque.

Os conteúdos recalcados representam as “cenas” que a gente não quer que sejam veiculadas nas telas do nosso “cinema” interior; obsCENIDADES que revelam quem verdadeiramente somos por trás das câmeras.

O recalcado, no entanto, sempre retorna, já dizia Freud. A gente inevitavelmente acaba tropeçando nas partes censuradas do nosso filme biográfico. E quando a queda é grande e causa dores e feridas, é nesse momento que a gente procura análise…

Você já se deu conta desses “furos” no roteiro da sua vida?


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O Inconsciente nos obriga a encenar as peças que nós mesmos escrevemos

O Inconsciente é constituído basicamente por ideias, pensamentos, raciocínios.

Mas são pensamentos relacionados a quê? Quais são os assuntos que servem de tema para as “cogitações” do Inconsciente?

Esses assuntos são as nossas FANTASIAS INFANTIS INCONSCIENTES. Trata-se de determinadas “crenças” que construímos na infância sobre algo que aconteceu e/ou que necessariamente acontecerá.

Por exemplo: uma mulher pode ter construído na infância a fantasia de que jamais seria capaz de se destacar porque sua irmã ocupou todo o espaço disponível diante do olhar dos pais. Essa mulher sente que não há lugar para ela no palco, apenas na plateia. Por isso, reprime o prazer de se exibir, de se destacar, de aparecer e passa a gozar com o tesão voyeur de ficar contemplando invejosamente a vida da irmã. Ela não se maquia, não se arruma, está sempre se escondendo, querendo passar desapercebida pela existência. Por quê? Porque, inconscientemente, ela nutre a fantasia de que somente a irmã pode ser protagonista.

Outro exemplo: um homem pode ter desenvolvido a fantasia de que não pode retirar a mãe do lugar de “mulher principal” da vida dele, pois, do contrário, o que seria dela, pobrezinha? Em função dessa fantasia, o indivíduo não consegue se relacionar com apenas uma mulher; ele nunca consegue ser fiel a nenhuma das suas parceiras. Não se trata apenas de uma falha moral. A questão é que, ao trair suas namoradas e esposas, ele deixa claro PARA SI MESMO que nenhuma delas é suficientemente especial para destronar a mãe, a única mulher a quem é, de fato, fiel.

As fantasias inconscientes, portanto, condicionam nossa realidade, funcionando como uma espécie de enredo escrito por nós mesmos e que somos obrigados a ENCENAR.

Refletindo sobre os exemplos acima, você consegue especular sobre alguma fantasia que possa estar direcionando sua vida? Se sim, coloque uma piscadinha 😉 nos comentários.


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A gente faz Psicanálise quando nos cansamos de ser apenas personagens de nossa própria história.

Outro dia eu postei um vídeo lá na Confraria Analítica comentando um trecho do Seminário 11 em que Lacan assinala que o Inconsciente, tal como pensado por Freud, é uma forma de pensamento tão elaborada quanto o pensamento consciente.

Quem se deixa levar pela imagem do Inconsciente no senso comum acaba tendo a impressão de que se trata de algo caótico, desorganizado, irracional.  No entanto, quando lemos a “Interpretação dos Sonhos” ou “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” nos damos conta de que no Inconsciente existe lógica, estratégia, raciocínio.

O que Freud nos mostra é que, por trás de um simples ato falho como o esquecimento da data de aniversário do filho podemos vislumbrar todo um discurso que não tem nada de irracional. Pelo contrário, à luz da dinâmica afetiva da pessoa, trata-se de um discurso que possui uma lógica absolutamente compreensível.

Portanto, não imagine o Inconsciente como um lugar obscuro onde entulhamos pensamentos reprimidos. Pense nele como uma modalidade de pensamento, de raciocínio, que se articula em cada um de nós de modo imperceptível, assim como as milhares de operações computacionais que estão acontecendo neste exato momento no seu celular enquanto você lê este texto.

Assim como você não percebe essas operações, mas apenas usufrui do resultado delas na tela do smartphone, assim também só colhemos as conclusões dos raciocínios inconscientes em nós.

Fazer Psicanálise é justamente uma tentativa de inferir e mapear o discurso do Inconsciente a partir dos seus efeitos em nossas vidas.


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[Vídeo] Afinal, o que é a Psicanálise?

Neste vídeo: entenda o que é a Psicanálise, como funciona a terapia psicanalítica e quais os seus principais objetivos.


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Reprimir é conservar

Primeiramente, deixa eu definir o que é repressão para você que está chegando agora por aqui.

Repressão (ou recalque) é um mecanismo psicológico descoberto por Sigmund Freud, fundador da Psicanálise. Trata-se de um procedimento mental que utilizamos inconscientemente quando surgem na nossa alma certas ideias que são incompatíveis com a imagem que queremos ter de nós mesmos.

Exemplo: tomemos o caso de uma jovem de 22 anos que percebe a si mesma (e quer continuar se percebendo) como sexualmente pura do ponto de vista religioso. Eventualmente, essa moça desenvolve uma intensa amizade com uma colega de trabalho e essa situação acaba servindo como gatilho para que desejos de natureza homossexual aflorem na alma dela. Ora, essa jovem não pode admitir para si esses desejos, pois eles não são compatíveis com a autoimagem de pessoa sexualmente pura que ela possui. É aí que entra a repressão. Para se defender das ideias homossexuais, essa moça inconscientemente impedirá que elas ganhem acesso à sua consciência.

E é exatamente isso que significa reprimir (recalcar): impedir que determinadas ideias se tornem conscientes.

Qual é o problema na utilização desse mecanismo? O problema é que, ao bloquear o acesso de certas ideias na consciência, a gente perde a possibilidade de analisá-las, tratá-las e, eventualmente, descartá-las.

É muito simples. Veja: eu só consigo jogar fora um objeto que não desejo mais utilizar se eu SOUBER que essa coisa está na minha casa e, portanto, puder avaliar se vale a pena ficar com ela ou não. Se esse objeto estiver escondido, não tem como eu descartá-lo. Óbvio.

Da mesma forma, a jovem do exemplo acima não terá a oportunidade de renunciar aos desejos homossexuais (como provavelmente gostaria tendo em vista seus ideais), pois não se permite reconhecê-los.

Vejam que curioso: ela, que percebe a homossexualidade como incompatível com a imagem de si, está paradoxalmente CONSERVANDO em sua alma os pensamentos homossexuais na medida em que decidiu não olhar para eles à luz da consciência.


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Por que caímos nas mesmas atitudes autodestrutivas mesmo tendo consciência delas?

Pergunta feita a mim nos stories do Instagram

Saber que um comportamento é autodestrutivo não é o suficiente para modificá-lo.

Os comportamentos autodestrutivos são meios que o Inconsciente encontra para satisfazer seus impulsos e tendências, os quais são provenientes de nossa infância.

Isso acontece em duas situações:

1 – Quando a pessoa bloqueou todas as demais formas saudáveis de expressão do Inconsciente, “obrigando-o” a se satisfazer por uma via patológica.

ou

2 – Quando os próprios impulsos e tendências do Inconsciente só podem encontrar satisfação (a princípio) por meio da encenação de situações autodestrutivas. Isso acontece, por exemplo, quando no Inconsciente existem impulsos de natureza masoquista.

Para deixar de cair em atitudes autodestrutivas, o sujeito precisará “reconectar-se” com seu Inconsciente a fim de discernir suas intenções e fornecer novos caminhos de satisfação para ele ou mesmo para convencê-lo a renunciar a certos impulsos e tendências.

Esta é uma maneira figurada de falar sobre o que acontece ao longo de uma terapia psicanalítica.


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