Reproduzimos em nosso interior conflitos relacionais vividos na infância.

Num trabalho de 1930 chamado “O tratamento psicanalítico do caráter”, o analista húngaro Sándor Ferenczi explica da seguinte maneira a origem do núcleo do superego:

“No início, o menininho resiste, quer aniquilar a potência paterna, essencialmente para apropriar-se da ternura e da afeição maternas. Mas quando compreende que numa luta aberta não levará vantagem, projeta em si a figura poderosa do pai; trata-se com o mesmo rigor com que outrora o pai o tratara; já não é mais porque tema o pai, mas porque uma parte de sua personalidade beneficia-se exercendo os privilégios paternos sobre a outra parte” (p. 247 do volume 4 das obras completas de Ferenczi)

Para-além da relação entre superego e complexo de Édipo, o que Ferenczi está nos ensinando aqui?

O autor está mostrando que uma forma que encontramos quando crianças de “resolver” um impasse relacional é reproduzindo o conflito no interior de nós mesmos. Diante da impossibilidade de “vencer” a disputa com o pai pelo amor da mãe, o menino introjeta a figura paterna e passa viver DENTRO DE SI exatamente o mesmo conflito que experimentava na relação com o genitor. Só que agora, o confronto não é mais entre o menininho e o pai, mas entre duas partes do próprio garoto.

Verificamos o tempo todo na clínica essa reprodução intrapsíquica de um conflito relacional infantil. Não raro, vemos, por exemplo, indivíduos que emulam dentro de si as constantes brigas entre seus pais.

Lembro-me de um rapaz que, diante dos embates frequentes entre seus genitores, desejava ardentemente que a mãe se separasse do pai a fim de colocar um ponto final naquela guerra interminável.

Como tal desfecho jamais aconteceu, esse paciente inconscientemente decidiu tentar realizá-lo dentro de si. A maior parte de sua personalidade era habitada pela imagem da mãe, mas regularmente a identificação com o pai aparecia, de tal modo que o rapaz revivia o conflito parental em sua própria identidade. Mãe e pai continuavam brigando, mas, agora, DENTRO DELE.

Você consegue enxergar processos semelhantes em sua vida?


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

[Vídeo] FIXAÇÃO EM PSICANÁLISE: explicação fácil, clara e didática

Neste vídeo: o psicanalista Lucas Nápoli explica o conceito de fixação por meio de uma analogia bem simples. Confira!


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

Dê limites a seus filhos. A saúde mental deles agradece.

No texto “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância”, de 1959, Melanie Klein faz um comentário muito interessante sobre o que nós chamamos popularmente de “criação sem limites”, ou seja, a dificuldade que muitos pais experimentam hoje em dia para disciplinarem seus filhos. Diz a autora:

“Embora seja verdade que uma criação excessivamente disciplinadora reforça a tendência da criança para a repressão, devemos nos lembrar de que uma indulgência excessiva pode ser quase tão prejudicial para a criança quanto uma restrição demasiada”.

Todavia, longe de cair no lugar comum de dizer que as crianças que são criadas sem limites se tornam pequenos perversinhos mimados, preguiçosos e hedonistas, Melanie Klein aponta os possíveis prejuízos que uma criação sem limites pode ocasionar na saúde mental das crianças. Ou seja, ao invés de adotar um olhar moralista e pedagógico para a falta de disciplina, a autora analisa o fenômeno de um ponto de vista autenticamente psicanalítico. Veja o que ela diz:

“Há um outro ângulo a partir do qual a indulgência excessiva dos pais deve ser considerada: se bem que a criança possa tirar vantagem dessa atitude dos pais, ela também vive uma sensação de culpa por explorá-los e sente necessidade de alguma restrição que lhe dê segurança. […] Além disso, devemos também considerar que pais que estão sofrendo muito sob a livre expressão sem limites das crianças – por mais que tentem submeter-se a isso – estão certamente fadados a sentir algum ressentimento que entrará em sua atitude em relação à criança.”

Viu só? Filhos criados sem limites, apesar de usufruírem dos benefícios do excesso de liberdade, sentem-se culpados, pois sabem, pelo olhar inseguro e angustiado de seus pais, que estão indo além do que deveriam. Além disso, a falta de limites faz própria criança ficar insegura na medida em que a deixa perdida sem parâmetros claros acerca do que pode e do que não pode fazer.

Do lado dos pais, o resultado, como Klein pontua, é o ressentimento, isto é, eles começam a odiar secretamente os próprios filhos por se sentirem manipulados por eles.

O que você acha dessas importantes descobertas de Melanie Klein?


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

[Vídeo] A importância do HOLDING no desenvolvimento emocional

Neste vídeo: entenda o conceito de holding proposto pelo psicanalista inglês Donald Winnicott e conheça uma possível consequência da falta de holding na infância.


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

Você vive obedecendo à criança que já deixou de ser?

E seu eu te disser que esse quadro de adoecimento emocional que te faz sofrer talvez possa ser a consequência inevitável de um raciocínio que você elaborou quando criança e que mantém no fundo da alma até hoje?

Calma que eu vou te explicar.

Vou tratar aqui de um achado que deriva diretamente da minha experiência clínica iluminada, obviamente, pela teoria psicanalítica.

Percebo com muita frequência que muitos dos padrões de sofrimento que meus pacientes apresentam parecem estar fortemente vinculados a certas conclusões que a pessoa fez quando criança e que, desde então, ela nunca mais questionou.

Deixa eu te dar um exemplo:

Uma moça queixa-se de um excesso de autocobrança que a faz se sentir extremamente mal quando fracassa ou comete alguma falha. Ao falar sobre sua infância, essa paciente relata ter sofrido humilhações e zombarias por parte de alguns colegas no início da vida escolar em função de certas particularidades do seu corpo. No fluxo da associação livre, ela própria chega à conclusão de que, para compensar o sentimento de inferioridade induzido pelos ataques de seus colegas, pode ter buscado se tornar uma aluna exemplar, elogiada por todos os professores, pelos pais e admirada por vários colegas.

O problema é que, na medida em que a busca por se tornar uma “aluna nota 10” foi impulsionada pela fuga do sentimento de inferioridade, ela provavelmente desenvolveu o seguinte raciocínio (naquela época): “Não posso jamais deixar de ser a aluna exemplar! Do contrário, o que serei? Apenas a menina inadequada, inferior e humilhada por aqueles colegas. Não! Não quero isso para mim. Portanto, não posso errar, não posso fracassar, preciso ser sempre a aluna perfeita!”.

Ora, diante de uma conclusão como essa, como não sofrer com a autocobrança excessiva e o medo de errar?

Percebe? Essa jovem padece de um raciocínio inadequado e defensivo, forjado há muitos anos, mas que provavelmente permanece em seu psiquismo, orientando inconsciente suas ações.

Agora, na terapia, finalmente ela terá a oportunidade de questioná-lo e, consequentemente, abandoná-lo.

Você consegue identificar um processo semelhante na sua própria vida?


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

[Vídeo] O que você fez com seu resto de infância?

Por mais amadurecidos que sejamos, há sempre um resto infantil que nos incita, nos provoca, nos incomoda.


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

O apego à infância é a raiz de todas as doenças emocionais

O neurótico é essencialmente alguém que ficou preso ao passado.

Freud se deu conta disso muito cedo em sua carreira como terapeuta ao formular a tese de que seus pacientes histéricos sofriam de “reminiscências”.

Na verdade, toda pessoa, independentemente de sua condição de saúde mental, possui uma dimensão do seu ser que permanece apegada aos prazeres e às dores da infância. Com efeito, não aceitamos integralmente as limitações da vida adulta. Há uma parte de cada um de nós que continua sendo criança.

O problema, no caso dos neuróticos, é que essa parte infantil É A MAIOR PARTE do ser  do sujeito. Isso faz com que ele conscientemente tente ser adulto, mas inconscientemente se mantenha na infância.

O resultado é adoecimento. Depressão, ansiedade excessiva, obsessões, compulsões, dificuldades de relacionamento interpessoal… Todas essas formas de enfermidades emocionais são, no fim das contas, resultantes do apego excessivo do sujeito a certas formas infantis de satisfação, a padrões infantis de relacionamento, a conflitos infantis, a queixas infantis dirigidas aos pais etc.

É por isso que Freud costumava dizer que a Psicanálise é uma pós-educação. De fato, numa terapia psicanalítica ajudamos o sujeito a verdadeiramente amadurecer reservando para o grão de infância que inevitavelmente permanecerá em si um destino não patológico.


Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

➤ Adquira o meu ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”

➤ Adquira o meu ebook “O que um psicanalista faz?”

Livro narra depoimento de um pai sobre os sinais de autismo

Giovani era o bebê que todos os pais gostariam de ter. Falo dos pais contemporâneos que se dividem entre o trabalho, o cuidado dos filhos e seus projetos pessoais. Calmo, silencioso e com pouca propensão a chorar, Giovani era capaz de passar horas brincando sozinho, folheando um livro ou vendo televisão sem solicitar a atenção de seus pais. Em outras palavras, diferentemente da maioria das crianças, o garoto pouco demandava de seus pais, produzindo neles uma sensação de conforto e tranquilidade bastante atípica para quem estava cuidando de um bebê com poucos meses de vida. Essa sensação, todavia, não durou muito tempo.

Seu pai, Francisco Paiva Junior, dono de uma aguçada capacidade de observação própria da profissão de jornalista, logo notou que além de ser excessivamente calmo para um bebê, Giovani apresentava outros comportamentos que o distinguiam da maioria das crianças: não utilizava os brinquedos de acordo com a função para a qual haviam sido feitos (carrinhos, por exemplo, eram jogados ou chutados como bolas); repetia durante um bom tempo uma mesma ação, como levantar até a altura do rosto uma peça de um jogo de montar e depois deixá-la cair; dificilmente atendia ao ser chamado por seu nome; não olhava nos olhos de ninguém etc.

Graças à Internet, Paiva Junior pôde ter acesso a informações que o levaram a suspeitar do que poderia estar acontecendo com seu filho e – o que é o mais importante – buscar ajuda especializada. Pesquisando acerca dos comportamentos atípicos de Giovani, o jornalista descobriu que o filho poderia ser autista.

Diferentemente do que o público leigo imagina, o autismo não é uma categoria diagnóstica que comporta apenas uma única caracterização sintomatológica. Dito de outro modo, indivíduos com autismo não são todos iguais. Fala-se no campo psicopatológico, de um espectro autista, ou seja, de uma faixa que comporta vários níveis e graus de autismo. Nesse sentido, há casos leves, moderados e graves de autismo, com sintomatologias específicas em cada um dos níveis. O elemento comum que permite designar os diferentes quadros nosológicos como autismo é a existência de um atraso no desenvolvimento das funções de comunicação e socialização, o que caracteriza essa psicopatologia como um transtorno global do desenvolvimento (TGD).

Em “AUTISMO: não espere, aja logo! Depoimentos de um pai sobre os sinais de autismo” (M.Books, 2012, 132 páginas, R$39), o jornalista Paiva Junior corajosamente narra todo o percurso que vai desde o complicado parto de seu filho Giovani, passando pelo recebimento do diagnóstico de autismo, até o começo do tratamento do filho. Não se trata, porém, de um relato destinado a satisfazer a curiosidade que grande parte das pessoas sente em relação aos comportamentos de uma pessoa autista.

O interesse de Paiva Junior é utilizar o caso de Giovani como ilustração para a necessidade que os pais têm de estarem atentos aos comportamentos de seus filhos a fim de que, caso haja a suspeita de autismo, o diagnóstico seja feito o mais precocemente possível para que se inicie imediatamente o tratamento.

Paiva Junior, ao longo de todo o livro, insiste no seguinte ponto: tanto pais quanto profissionais, ao perceberem qualquer sinal que possa indicar que a criança seja autista, não devem ficar na expectativa de que o tempo lhes vá trazer a confirmação da suspeita. Muitas vezes, o tempo de espera poderia ter sido utilizado para a concretização do tratamento caso o diagnóstico de autismo fosse efetivamente feito. Quanto mais precoce for a intervenção, maiores serão as chances de que os comprometimentos nas áreas de comunicação e socialização do indivíduo sejam minimizados.

Giovani, como o leitor pode notar ao longo do livro, não apresentava sinais muito evidentes de que fosse uma criança autista. Tanto é que uma pediatra a quem os pais foram consultar no início, disse que os comportamentos atípicos do garoto eram apenas traços de sua personalidade, que “aquele era o jeito dele”.

Se não fosse pelo insistente (e saudável) desejo do pai de compreender o que de fato se passava com seu filho, Giovani só teria sido diagnosticado com autismo muitos anos depois, quando muitos dos problemas já teriam se agravado. Paiva Junior e sua esposa buscaram a ajuda de um neuropediatra (que, inclusive, escreve o prefácio do livro) e dele obtiveram a resposta que tanto esperavam e que ao mesmo tempo temiam: o diagnóstico de autismo.

Aliás, a reação dos pais diante da confirmação do diagnóstico é outro ponto bastante enfatizado no livro. Paiva Junior, através de uma descrição íntima e direta da experiência que vivenciou com a esposa, mostra que a negação é a primeira resposta da maioria dos pais diante do diagnóstico de autismo. Muitos se recusam a acreditar no que ouvem do médico e, por conta disso, acabam procrastinando o início do tratamento. O que está em jogo é a perda da imagem do filho perfeito que todos os pais idealizam para seus descendentes e da qual muitos resistem a se desfazer.

O livro ainda traz os casos de outras crianças autistas e suas famílias, abordando a descoberta dos sinais, a confirmação do diagnóstico e a reação dos familiares. Tais relatos foram fornecidos por pais que faziam parte de listas de discussão sobre autismo na internet das quais Paiva Junior participa. O jornalista, aliás, tem contribuído ativamente para o processo de propagação de conhecimento acerca do autismo. Em 2010, criou a Revista Autismo, gratuita e sem fins lucrativos, que se dedica a disseminar informação sobre o transtorno, colaborando para a desconstrução das imagens preconceituosas ainda existentes sobre o indivíduo autista.

A M.BOOKS, editora responsável pela publicação do livro, disponibilizou um exemplar da obra para presentear um dos leitores. O escolhido será aquele que elaborar o comentário mais criativo e bem fundamentado acerca do tema AUTISMO. Sugestões: história do conceito de autismo; como o autismo tem sido visto pela psicologia e pela psicanálise; teorias sobre a causalidade do autismo; a inclusão do indivíduo autista na sociedade etc. A intenção é transformar o espaço de comentários em um pequeno mural de informações a respeito do tema. O dono do comentário mais criativo e bem fundamentado receberá o livro diretamente em sua casa. Não se esqueça de inserir seu nome completo e email.