Entenda a regra da abstinência de Freud (final)

Cena do filme "Um Método Perigoso"No post anterior, vimos que do ponto de vista freudiano a neurose é resultado de um conflito entre o recalcado (pensamentos, lembranças e desejos que jogamos para debaixo do tapete de nosso psiquismo) e o ego (a imagem que temos de nós mesmos e que, a princípio, seria maculada pelo recalcado). Vimos também que a neurose tem início quando sofremos uma frustração amorosa, a qual faz com que a nossa libido volte a investir os pensamentos que foram recalcados, levando o ego a se sentir ameaçado. A neurose seria, então, um acordo de “paz” selado entre o ego e o recalcado em que o primeiro permite que o último se manifeste desde que de forma disfarçada.

Pois bem. Se o recalcado só foi “reativado” porque a libido não pôde ser satisfeita com objetos da realidade externa (frustração), isso significa, portanto, que se um novo objeto se apresentar para a pessoa e essa passar a amá-lo, grande parte da sua libido tenderá a investir o novo objeto e abandonará os pensamentos recalcados. O que acontecerá então com eles? Serão novamente jogados para debaixo do tapete do psiquismo e permanecerão preparados para se manifestarem novamente caso uma nova frustração amorosa aconteça. Em outras palavras, o recalcado se comportará como um vírus que aguarda a ocasião em que o organismo estará debilitado ou com a imunidade baixa para poder agir.

Qual seria a saída para que o sujeito não ficasse tão vulnerável assim à ação do recalcado? Freud dirá: fazendo com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados! Não entendeu? Eu explico: a única diferença entre os pensamentos que estão recalcados, ou seja, estão no inconsciente, e os que não estão é que os primeiros não podem, a princípio, ser objetos da consciência. Nesse sentido, fazer com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados significa permitir que eles possam adentrar os salões da consciência – o que só será possível se o sujeito não se sentir ameaçado por eles. E como o sujeito poderá lidar com o recalcado sem se sentir ameaçado? Em primeiro lugar, aprendendo a ter uma imagem de si mesmo (ego) que não seja tão rígida e idealizada. Em segundo lugar, olhando para o recalcado de frente e se dando conta de que objetivamente eles não oferecem perigo algum. Esses dois processos sintetizam o que acontece durante um tratamento psicanalítico.

Neste ponto você pode estar pensando: “Ok. Até aí eu consegui entender. Mas você se propôs a explicar o princípio da abstinência defendido por Freud e até agora não falou muita coisa sobre isso.”. Não ouso discordar de você, caro leitor. De fato, era preciso estabelecer algumas bases antes de chegarmos ao ponto central desta explicação.

Disse no parágrafo anterior que a única forma de impedir que o recalcado se mantenha à espreita, como um vírus, seria fornecendo as condições para que ele pudesse se manifestar e entrar livremente no território da consciência. Ora, a neurose é justamente uma das condições que tornam isso possível! Afinal, os sintomas neuróticos nada mais são do que pensamentos recalcados se manifestando de forma disfarçada. Por outro lado, como frisamos, a neurose só aparece após uma frustração e pode muito bem desaparecer em função de uma nova ligação amorosa. Portanto, a condição sine qua non para que o recalcado possa ser reavaliado pelo indivíduo na análise é a abstinência de satisfações amorosas. Do contrário, isto é, se o indivíduo dirigisse sua demanda de ser amado ao analista e esse a aceitasse, a ligação amorosa entre o paciente e o terapeuta tomaria o lugar da neurose, impedindo a continuidade do tratamento. É por essa razão que, do ponto de vista freudiano, é preciso recusar a demanda de amor do paciente. É preciso manter o doente num estado de insatisfação suficientemente bom para que o recalcado permaneça se manifestando e possa se tornar objeto da consciência.

À guisa de conclusão, poderíamos dizer que a regra da abstinência é a diretriz técnica que torna possível tanto ao paciente quanto ao analista a descoberta e a análise do material recalcado. Como Freud costumava assinalar, é muito comum observarmos uma melhora súbita no quadro apresentado pelo paciente durante os primeiros meses de tratamento. Isso seria resultado da própria relação entre paciente e terapeuta, pois o primeiro investiria no segundo a libido que até então estava vinculada aos pensamentos recalcados. Essa melhora, contudo, não seria duradoura justamente porque o analista não forneceria ao paciente uma contrapartida a seu investimento libidinal. Assim, a libido do paciente não teria alternativa a não ser retornar para onde estava até então, a saber: no recalcado. Essa nova frustração amorosa sofrida pelo paciente produziria uma nova neurose que, dessa vez, estaria ligada à pessoa do analista.

Nesse sentido, ao manter o tratamento em abstinência, ou seja, recusando-se em atender a demanda de amor do paciente, o analista permite que a doença que teve origem fora do consultório possa ser atualizada no interior do setting analítico. Isso permite tanto ao paciente quanto ao analista trabalharem o recalcado e as formas que o ego tem de se defender contra ele não como resquícios de acontecimentos passados mas como fenômenos atuais.

A paz sem voz egóica

clipe-da-banda-o-rappa-minha-almaO grupo O Rappa  sempre foi pródigo em nos premiar com letras belíssimas, bem elaboradas e cujo conteúdo geralmente é associado a problemas sociais. É assim com “Hey Joe”, “Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro”, “O que Sobrou do Céu” e também com a música mais famosa da banda, “A Minha Alma”, que leva como título alternativo (e muito melhor) “A Paz que eu Não Quero”.

Após ter escutado algumas centenas de vezes a música, penso que, involuntariamente, Marcelo Yuca, ex-integrante da banda e autor de “Minha Alma”, acabou por expressar nessa música não só a hipocrisia da classe média perante a violência. O compositor nos deu uma fabulosa descrição de como se constitui aquilo que em Psicanálise chamamos de “ego”, isto é, aquela imagem que temos de nós mesmos e que ilusoriamente acreditamos resolver o problema da eterna pergunta “Quem sou eu?”.

Desde os tempos pré-históricos da Psicanálise em que a hipnose era o método de tratamento em voga, Freud já sacava que a origem do sofrimento neurótico de seus pacientes situava-se num conflito entre a imagem que o paciente tinha de si mesmo (idealizada, diga-se de passagem) e as fantasias sexuais perversas que nutria. Quer dizer, todo o conflito estava no fato de que o paciente, apegado a uma imagem idealizada de si, não aceita para si mesmo aquilo que ele verdadeiramente deseja.

A partir de então, o ego passa a ser visto como o maior obstáculo do tratamento visto que é o apego do paciente a ele que impede o reconhecimento do verdadeiro desejo. Tamanha força do ego reside na sua capacidade de fazer frente aos impulsos sexuais perversos por meio dos mecanismos de defesa, sendo o principal o recalque. Como vocês já devem saber, o ego exclui do campo da consciência quaisquer vestígios desses impulsos deixando-os marginalizados, tal como a sociedade capitalista faz com aqueles que perdem na guerra do consumo, obrigando-os a viver em favelas e cortiços.

Assim, ao mesmo tempo em que o ego nos protege de nos vermos como perversos ele nos prende a imagem que não nos permite termos acesso à verdade de nosso desejo. Uma verdade dolorosa, mas uma verdade. Ora, não é exatamente isso, o que Yuca demonstra ao escrever na segunda parte de “Minha Alma”?:

“As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão”

Essa dúvida de que Yuca fala, pode ser tomada tanto no nível da tradicional dúvida obsessiva, quanto no nível da angústia, sinal inconfundível da iminência do impulsos recalcados.

Excluindo do campo da consciência os impulsos sexuais perversos, o ego promove uma aparente paz na vida mental. Na medida em que os impulsos se tornam inconscientes, o sujeito passa a fazer de conta que eles não existem, permanecendo aferrado à imagem ideal de si. Porém, como diz a música, essa é uma “paz sem voz” que acaba revelando-se um medo disfarçado. Medo de reconhecermos para nós mesmos que somos capazes de ter tais e tais fantasias.

Mas não pensem vocês que esse medo não tem nada de vantajoso. Essa paz implicada no processo de defesa do ego acaba produzindo uma sensação também ilusória de felicidade. A pergunta, que o analista coloca para o analisando e que se personifica na letra de “A Minha Alma” é:

“Qual a paz que eu não quero conservar,
Pra tentar ser feliz?”

O trabalho de análise é justamente a resposta o que o autor demanda quando pede para que não o deixe “sentar na poltrona num dia de domingo, procurando novas drogas de aluguel”. É colocar voz na paz…

SERVIÇOS:

Veja o premiadíssimo clipe de “A Minha Alma”

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