Atualmente, lá na CONFRARIA ANALÍTICA, nós estamos estudando o artigo de Freud “Sobre o narcisismo: uma introdução”, de 1914.
Neste momento, estamos na parte do texto em que o autor desenvolve o conceito de “eu ideal” para explicar o que acontece conosco depois que abandonamos o narcisismo primário.
— “Narcisismo primário”? Que trem é esse, Lucas?
Deixe eu explicar isso para você em Humanês:
Do ponto de vista do Freud, no início da vida nós só temos olhos para nós mesmos.
Ainda incapazes de reconhecer que há um mundo externo que funciona independentemente de nós, vivemos temporariamente a ilusão de que somos a única coisa que existe.
Por exemplo: se temos fome e a mãe vem nos alimentar, vivenciamos essa experiência como se o seio dela tivesse sido criado pela força do nosso desejo.
Nessa fase inicial da vida, fazemos tudo o que queremos, na hora em que queremos e nossas necessidades são satisfeitas sem que precisemos nos esforçar para isso.
É essa condição original paradisíaca em que nada além de nós parece existir que Freud chama de NARCISISMO PRIMÁRIO.
Obviamente — como qualquer pessoa de bom senso é capaz de perceber — o bebê só pode vivenciar essa ilusão temporária se estiver sendo cuidado por pais suficientemente bons.
Mas isso é assunto para outro dia.
O que eu quero comentar aqui é o que acontece quando a gente sai do narcisismo primário.
Sim, porque chega uma hora em que a realidade bate na porta, né?
Depois de algum tempo, uma mãe normal começa a demorar um pouco mais para ir amamentar o bebê. Afinal, ela volta a ter outros interesses para-além do filho.
Outrossim, espera-se que a criança aprenda a se expressar não mais do jeito que quer (com choros, gestos e sons desarticulados), mas conforme as REGRAS da língua MATERNA.
Enfim, somos inevitavelmente expulsos do paraíso narcísico.
O problema é que a gente fica com muita saudade dessa época.
Época em que a gente sentia que era exatamente… como deveríamos ser.
Por conta dessa nostalgia do narcisismo primário, cada um de nós cria uma imagem idealizada de si mesmo — é o que Freud chama de “eu ideal”.
Reconhecendo que não podemos viver sem nos submetermos às regras do jogo impostas pelo Outro (papai, mamãe, a sociedade de forma geral), imaginamos uma versão de nós mesmos que se sai PERFEITAMENTE BEM nesse jogo.
É por amor a esse eu ideal que a gente acaba sufocando certos desejos reais e espontâneos simplesmente porque se mostram incompatíveis com ele.
O anseio narcísico de voltar a nos sentirmos perfeitos e adequados faz com que passemos a vida inteira correndo atrás do eu ideal e sofrendo por não conseguir alcançá-lo.
Até que a gente encontra um psicanalista.
E descobre que dá para viver sem correr…
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Em 1914, Freud publicou um artigo chamado “Sobre o narcisismo: uma introdução”.
Foi nesse texto que o autor apresentou ao campo psicanalítico sua tese de que o narcisismo não seria apenas um tipo de perversão sexual como se acreditava na época.
De fato, a medicina do início do século XX nomeava como narcisistas apenas aqueles insólitos indivíduos que, ao invés de desejarem outras pessoas, tratavam a si mesmos como objetos sexuais.
A novidade trazida por Freud no artigo de 1914 foi a tese de que essa suposta perversão estaria, em alguma medida, presente em todas as pessoas.
Em outras palavras, o que Freud estava querendo dizer é que todos nós, tal como o personagem grego Narciso, somos APAIXONADOS por nós mesmos.
Com base em sua experiência clínica, o autor chega à conclusão de que esse estado de “autoenamoramento” é a própria condição em que nos encontramos no início da existência.
Com efeito, a energia psíquica de um bebê está totalmente voltada para ele mesmo nos primeiros meses de vida. A situação é tão narcísica que o pequeno filhotinho de Homo sapiens sequer reconhece a existência da mãe que o amamenta. “Na cabeça” do bebê, só existe ele. O delicioso seio que lhe aparece quando tem fome nada mais é que uma criação do seu próprio desejo. Freud nomeou esse estado inicial da vida como “narcisismo primário”.
É só no momento em que a mãe começa a demorar um pouco mais para atender às necessidades da criança que o bebê é levado a reconhecer a existência dela e, consequentemente, do mundo real. E é só em função dessas primeiras frustrações que o pequeno começa a investir parte de sua energia psíquica em outras pessoas.
Se o bebê continuasse acreditando que não existe nada para-além dele, permaneceria refém do lugar de objeto do outro. Afinal, como enfatiza o psicanalista inglês Donald Winnicott, a experiência de onipotência que a criança vivencia ao achar que é ela mesma quem cria o seio só acontece porque está sendo cuidada pela mãe.
Já havia se dado conta de que no início da vida vivemos essa ilusão de achar que somos “a única bolacha do pacote”? Você já se deparou com pessoas que parecem ter regredido a essa fase?
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O processo de apaixonar-se certamente é um dos fenômenos mais comuns e fascinantes da experiência humana. Como se sabe, a palavra “paixão” está vinculada etimologicamente ao vocábulo grego “pathos” que poderia ser traduzido livremente por doença, enfermidade, sofrimento – daí a nossa conhecida patologia. De fato, embora geralmente seja fonte de grande prazer para o indivíduo, o estar apaixonado também envolve frequentemente certo grau de sofrimento, especialmente nos casos em que o objeto não corresponde ao amor que lhe é endereçado. Por outro lado, mesmo nos casos em que o desejo entre os parceiros é recíproco, ainda assim a experiência da paixão chega a produzir estados de angústia que só são superados após certo tempo de relacionamento.
Ao introduzir na teoria psicanalítica a noção de “narcisismo primário” num artigo clássico de 1914, Freud acabou lançando luz sobre o que acontece, do ponto de vista metapsicológico, com uma pessoa que se encontra apaixonada. Inicialmente, tentaremos explicar em humanês o que o fundador da psicanálise tinha em mente ao propor a noção de um narcisismo primário. Em seguida, demonstraremos como esse conceito permitiu a Freud inferir os mecanismos psicológicos que estariam por trás do fenômeno do apaixonar-se.
Centro do mundo
Até o momento em que Freud publicou esse artigo que eu mencionei de 1914 chamado “Sobre o narcisismo: uma introdução”, o narcisismo era compreendido pela psiquiatria da época unicamente como um transtorno da sexualidade caracterizado pelo fato de o indivíduo nutrir desejos eróticos por si mesmo. Como, do ponto de vista freudiano, a sexualidade não estava restrita ao campo da genitalidade, mas englobava tudo o que tivesse a ver com o amor num sentido amplo do termo, Freud logo percebeu que o “amor por si mesmo” não era uma prerrogativa apenas de determinados perversos. Em outras palavras, o narcisismo, tomado num sentido mais amplo, era um fenômeno passível de ser encontrado em todas as pessoas. Todas as pessoas tomariam a si mesmas como objeto de amor, em maior ou menor grau. A pergunta que Freud buscou responder no artigo foi: por que isso acontece, isto é, por que nós amamos a nós mesmos?
Atento ao lugar privilegiado que os bebês ocupavam nas famílias ocidentais modernas, o médico vienense formulou a seguinte hipótese: nós amamos a nós mesmos como forma de resgatar a primeira experiência que tivemos na vida: a de sermos plenamente, integralmente, completamente amados pelas pessoas que estão ao nosso redor. Ora, não é isso o que acontece com a maioria dos bebês quando nascem? O próprio Freud, no artigo, brinca dizendo que o bebê torna-se uma verdadeira majestade no ambiente familiar. Para ele são dirigidas todas as atenções, todas as expectativas, todos os projetos. É essa experiência inicial de ser o centro do mundo que Freud chamou de “narcisismo primário”. Quando esse momento se encerra, é como se ficássemos como um “gostinho de quero mais” e passássemos a vida inteira tentando de alguma forma reproduzi-lo. Para alcançar isso, Freud diz que nós forjamos uma imagem idealizada de nós mesmos (eu ideal) que caso fosse de fato encarnada nos proporcionaria a mesma experiência de ser o centro do mundo que tivemos quando bebês.
Amo-me em ti
O que tudo isso tem a ver com o estar apaixonado? Ao observar a fenomenologia da paixão, Freud chega à conclusão de que, na verdade, amar seria uma forma indireta (talvez pudéssemos até dizer: sintomática) de buscar o retorno da experiência de narcisismo primário. Quando estamos apaixonados, idealizamos os traços do objeto amado, colocando-o no centro de nossa existência, ou seja, fazemos com o objeto exatamente aquilo que o mundo fez conosco quando éramos bebês – experiência que gostaríamos de vivenciar ininterruptamente. É como se idolatrando e idealizando o objeto amado pudéssemos vivenciar indiretamente a experiência de sermos amados plenamente.
Trata-se de um fenômeno paradoxal, pois, como Freud assinala, o indivíduo apaixonado se apresenta humilde, não raro sem demonstrações de amor próprio. Grande parte da sua libido, que anteriormente estava investida em si mesmo e na imagem idealizada de si mesmo (seu eu ideal) agora passa a ser dirigida ao objeto. O indivíduo não se sente digno de elogios ou favores. Somente o objeto deve ser servido e adorado. Nesse sentido, do ponto de vista freudiano, ao se apaixonar o indivíduo abre mão de seu narcisismo, mas para recuperá-lo de forma indireta e bem mais potente no objeto amoroso idealizado. Dito de outro modo, para Freud, amamos o outro para melhor amarmos a nós mesmos.