Metapsicologia do emagrecimento (final)

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O alimento é um dos muitos objetos capazes de enganar a pulsão, de satisfazê-la por alguns momentos até que ela volte a nos incomodar. E é o fato de a comida poder fazer semblante de objeto a uma das razões que nos levam a comer mais do que deveríamos. Em outras palavras, exageramos na comida, grande parte das vezes, para enganar a pulsão. Foi isso o que concluímos até aqui.

O alimento como signo de amor

Não obstante, há outra dimensão do alimento que até o momento não fizemos referência, mas que também está associada ao comer em excesso. Trata-se da entrada da comida no registro que poderíamos chamar de demanda. Ao lado da necessidade e da vontade louca de viver (pulsão), age em nós uma demanda de amor motivada principalmente por nossa fragilidade ao nascer que, por sua vez, implica numa submissão ao Outro, condição indispensável à nossa sobrevivência. Queremos ser amados pelo Outro e, para, sentirmo-nos amados, precisamos de signos desse amor. O alimento é um desses signos.

Não precisa pensar na caixa de bombons que seu namorado lhe entrega como expressão do que ele sente por você, pois pode haver dúvidas de que as reais intenções dele sejam de fato manifestar amor em relação a você. Pense na experiência muito mais generalizada da interação entre mãe e bebê. O leite que a criança ingere é tomado como uma dádiva da mãe, um presente desse Outro que se apresenta ali de braços abertos para acolhê-la, enfim um signo de seu amor pelo bebê.

Portanto, o leite recebe uma significação diferente em cada um dos registros da nossa experiência com o Outro: na medida em que aplaca a sensação de fome é um objeto de necessidade; como, além disso, serve também para apaziguar um pouco a ânsia de viver da pulsão, é um objeto engana-pulsão, um semblante de objeto a; e, finalmente, como é fornecido a alguém em que habita uma vontade enorme de ser amado, serve como signo de amor, objeto da demanda.

Antes de emagrecer…

Fiz menção a todos esses significados que a comida pode tomar na experiência humana para demonstrar e deixar claro que qualquer tentativa de emagrecimento que pretenda se basear unicamente na redução do número de calorias ingeridas irá inevitavelmente fracassar. Se na ingestão de alimentos, no caso específico da espécie humana, está implicada não apenas a necessidade, mas também a pulsão e a demanda de amor, isso significa que em todo processo de aumento de peso, para-além das tendências genéticas, essas outras dimensões citadas estarão sempre presentes.

Nesse sentido, antes de recorrermos à dieta mais comentada nas revistas semanais ou até mesmo antes de buscarmos a ajuda de um nutricionista, é preciso que nos coloquemos a pergunta: “Por que estou comendo além do que deveria?”. Até aqui expus os fatores inerentes à condição humana que favorecem o ganho de peso, as quais podem ser sintetizadas da seguinte forma: nós não comemos apenas para matar a fome, mas para atender a outras solicitações da vida, quais sejam, a pulsão e a demanda. Portanto, em todos os momentos em que a comida se torna para mim um excesso, o alimento provavelmente estará atendendo de maneira mais proeminente a uma ou ambas as solicitações.

Forneça mais objetos para a pulsão

Entendemos até aqui a pulsão como essa vontade desregulada e intensa de gozar a vida. Isso significa que nos momentos em que, por diversos motivos, os objetos com os quais a pulsão possa se satisfazer se encontram limitados, o alimento poderá se transformar num dos poucos objetos engana-pulsão, ou seja, ele passará a carregar o fardo de ter que tapear a pulsão mais do que o normal. Em outras palavras, devido a tais limitações, o indivíduo começará a comer em excesso apenas para satisfazer parcialmente a vontade de viver que se encontra limitada em seu exercício. É por isso que a grande maioria das pessoas obesas possui uma vida bastante empobrecida em termos de relacionamento social. São, via de regra, pessoas que saem muito pouco de casa, exercem poucas atividades etc. Nesse ponto o leitor pode dizer: “Um momento, eu conheço muitas pessoas gordas que têm uma vida muito ativa!” E eu respondo: Sim, de fato, existem inúmeras pessoas com excesso de peso que dificilmente estão ociosas. Todavia, a pergunta que eu faço é: será que tais pessoas estão de fato investindo libido naquilo que fazem?

Libido é o termo que Freud utilizava para se referir à energia que a vontade de viver (pulsão) usa para se manifestar. Há pessoas que trabalham muito, passam o dia inteiro ocupadas e quando chegam em casa se empanturram com lanches prontos, pizzas, frituras etc. Ou seja, elas tiveram atividades durante todo o dia, mas em nenhum momento tais atividades serviram para tapear a pulsão. Em outros termos, em nenhum momento tais pessoas gozaram a vida com suas atividades. Executaram-nas com artificialidade, de modo mecânico. Daí chegarem em casa e terem que descarregar a libido acumulada durante todo o dia direto num único objeto, o alimento.

Portanto, estabelecer novos objetos com os quais a pulsão possa “brincar” é uma das ações que comprovadamente tendem a favorecer o emagrecimento. Você mesmo já deve ter percebido que quando está fazendo algo que realmente gosta, que te dá “tesão” (no sentido literal ou figurado), ou seja, algo em que você investe não apenas interesse mental, mas energia libidinal de fato, você não sente vontade de comer. Pode até sentir fome, mas consegue segurá-la pelo simples prazer de estar fornecendo à pulsão um objeto com o qual ela possa gozar. Eu mesmo, ao escrever este texto, estou sentindo fome, mas não o desejo de comer, pois ao escrever este artigo sinto que estou investindo libido, estou fazendo algo que gosto.

Terapêutica de Narciso

Por que, muitas vezes, pessoas que antes comiam bastante, ao passarem a praticar exercícios físicos começam a comer menos e a perder aquela ânsia que as fazia correr ao restaurante fast-food mais próximo? Trata-se de um aparente paradoxo, pois o exercício físico consome calorias, ou seja, em tese ele geraria mais fome. Sim, apenas fome. Por isso essa idéia consiste em um falso paradoxo. De fato, atividades físicas produzem sensação de fome. No entanto, em contrapartida, se o sujeito realiza os exercícios de modo espontâneo, livre, isto é, se faz com desejo e não apenas para atender às demandas do padrão estético contemporâneo, ele acaba fazendo do exercício físico um objeto de descarga pulsional, de investimento de libido. Tanto é assim que existem pessoas que, restringem tanto seus objetos engana-pulsão, que passam a se viciar em exercícios físicos, transformando-os no único objeto de investimento libidinal.

Outro efeito da prática de exercícios físicos é, evidentemente, um inevitável emagrecimento em função do gasto maior de calorias. É aí que percebemos que o processo de emagrecimento é, na grande maioria das vezes, retroalimentador. Isso porque um dos objetos com os quais a pulsão mais gosta de brincar é o eu, mas especificamente, a dimensão do eu à qual se dá o nome de imagem corporal. Pessoas que se sentem bonitas e estão satisfeitas com o próprio corpo sentem um gozo enorme em se olharem no espelho, aquele mesmo júbilo que o bebê ainda sem coordenação motora sente quando se reconhece no espelho, lá por volta dos 18 meses. Esse momento marca o nascimento do eu, de acordo com Lacan, tal como a psicanálise o concebe. É o estádio do espelho.

Pois bem, ao emagrecermos, vamos, a cada dia, ficando mais satisfeitos com nossa imagem corporal, ou seja, gradualmente vamos investindo uma maior quantidade de libido nela, de modo que aquele excesso que vinha tendo a comida como único alvo de descarga vai paulatinamente desaparecendo. O sujeito passa a se comer na imagem refletida no espelho.

Vejam, portanto, que, no que diz respeito ao comer em excesso motivado por uma fixação pulsional na comida devido à limitação da oferta de outros objetos com os quais a pulsão possa brincar, o foco da mudança, ou seja, da entrada num processo de emagrecimento passa pela dimensão quantitativa. É preciso fornecer à vontade de viver novos caminhos a trilhar. O sujeito que passa o dia na internet ou assistindo TV dificilmente se salvará da tentação de recorrer à comida para descarregar a libido que permanece aí à deriva. Evidentemente há o fator genético que não pode ser desprezado, mas só uma pequena minoria permanece magra em função dele.

Não obstante a dimensão quantitativa seja de fundamental importância, a qualitativa também é relevante. Com efeito, não basta, como eu já disse, iniciar dezenas de novas atividades se elas forem realizadas sem prazer, de maneira automática e artificial. Repito: é preciso que as atividades sejam capazes de enganar a pulsão, de modo a fazê-la se desvincular do alimento. Atividades que só enganam a nós próprios e deixam a pulsão quietinha em seu círculo vicioso com a comida não ajudarão em nada no emagrecimento.

Quando se come para se sentir amado

Quando o excesso de peso está associado à predominância do alimento no registro da demanda, a mudança é muito menos simples de ser iniciada. De fato, quando se come em excesso para tapear a pulsão, já que essa não possui outros objetos com os quais se enganar, basta fornecer novas vias de escoamento libidinal que o alimento perde o estatuto de único alvo e o sujeito passa a não viver apenas para comer. Por outro lado, quando se ingere comida em excesso tendo em vista remediar-se uma demanda de amor insatisfeita, a diminuição na ingestão de alimento e o conseqüente emagrecimento são tarefas que não podem ser executadas pelo sujeito sem uma ajuda especializada. Isso porque, diferentemente da pulsão, a demanda de amor não pode ser facilmente enganada com outros objetos. O sujeito que, do ponto de vista de suas fantasias inconscientes, considera que deve comer em excesso, pois na sua história de vida ao alimento adquiriu o estatuto de signo único do amor do Outro, só poderá se desvencilhar desse excesso caso a sua fantasia seja encarada de frente – o que é a proposta do método psicanalítico. O sujeito se empanturra de comida e não consegue deixar de fazê-lo sem saber sabendo que em seu inconsciente roda uma fantasia segundo a qual ele só se sentirá seguro do amor do Outro se comer em demasia.

Para a pessoa cujo comer excessivo está localizado nessa estrutura toda dieta, toda intervenção nutricional, enfim, toda tentativa que queira fazer aliança apenas com a consciência do sujeito, fracassará, pois a fantasia inconsciente que motiva o comer em excesso permanecerá intocada. Nesse caso, uma psicoterapia psicanalítica seria o procedimento mais indicado com vistas ao emagrecimento.

Concluindo

Neste texto não pretendi, de modo algum, esgotar a temática referente ao ganho e à perda de peso do ponto de vista da psicanálise. É óbvio que aspectos ligados à história subjetiva particular de cada indivíduo intervêm tanto no aumento quanto na diminuição do percentual de gordura, de modo que cada processo de engorda e emagrecimento é relativamente singular. Minha intenção, no entanto, foi apontar os fatores de cunho metapsicológico, ou seja, ligados à estrutura mesma da subjetividade que se constituem em condições favorecedoras do comer em excesso e do emagrecimento. Essa metapsicologia, a meu ver, tem sido sistematicamente rechaçada em toda discussão acerca do tema, na qual predomina os discursos veiculados pela biomedicina e pela nutrição, os quais advogam uma visão do ser humano como máquina e não como sujeito.

Metapsicologia do emagrecimento (parte 1)

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Na atualidade, emagrecer tem sido o objetivo de grande parte dos indivíduos, especialmente no lado ocidental do globo terrestre. Nunca na historia da humanidade houve tantas pessoas acima do peso ou obesas e, conseqüentemente, também nunca houve tanta gente querendo perder calorias. Em geral, tende-se a explicar o crescente aumento no número de indivíduos acima do peso recorrendo-se a variáveis sociológicas tais como: aumento da oferta de alimentos; o crescimento do consumo dos alimentos conhecidos como fast-food, altamente calóricos; as formas contemporâneas de trabalho que demandam um menor dispêndio de esforço físico e mais atividade intelectual; a criação de dispositivos automatizados que tornam desnecessários certos movimentos físicos, como a invenção do controle remoto que eliminou a necessidade de se gastar calorias levantando-se do sofá para mudar o canal da TV.

Essas e muitas outras razões de caráter social associadas à suposição de um fator genético exercendo influência sobre o excesso de peso fazem parte da explicação mais difundida para o crescimento do número de indivíduos acima do peso na contemporaneidade. Em decorrência, o emagrecimento é visto como sendo o resultado de modificações no chamado “estilo de vida” já que ainda não é possível uma intervenção genética com vistas a eliminar ou modificar os genes que atuam na etiologia do aumento de peso. Assim, para que o indivíduo emagreça, recomenda-se que ele passe a ter uma dieta menos calórica, ou seja, que diminua seu índice de ingestão de calorias e que passe a praticar exercícios físicos a fim de gastar uma maior quantidade delas. Dessa equação, nasceria um indivíduo em processo de emagrecimento.

Não obstante eu reconheça a verdade presente no que foi dito acima, penso que não se pode reduzir tanto o aumento de peso quanto o emagrecimento a uma dinâmica mecânica baseada no número de calorias ingeridas e de calorias gastas. O sujeito não é uma máquina. Logo, há fatores relacionados principalmente ao campo afetivo que intervêm nos processos de ganho e perda de peso. Pretendo, neste texto, expor que fatores seriam esses. Mais especificamente, minha intenção é fazer um estudo metapsicológico acerca do que ocorre com um indivíduo que está em fase de emagrecimento e mostrar as variáveis que estão para-além da equação calórica. Antes, porém, será preciso discutir a gênese do ganho de peso também do ponto de vista metapsicológico. Nesse sentido, veremos em primeiro lugar, as razões que nos levam a comer mais do que deveríamos e o que ocorre subjetivamente com o indivíduo que ingere mais calorias do que o necessário e que, assim, se torna gordo.

Só há gordos no mundo humano

A espécie humana é a única cuja boa parte dos seus exemplares está acima do peso normal. Aliás, não só a espécie humana. Cachorros domésticos (d’homem) também podem engordar bastante. De qualquer forma, é preciso que haja a interferência do fator especificamente humano para que haja a presença do processo de engordar. De fato, aumentamos não só o nosso peso. Engordamos bois, porcos, galinhas, com o objetivo de vendê-los para que outros indivíduos se alimentem de sua carne e, não raro, acabem engordando. Por que isso acontece? Por que apenas no âmbito da espécie humana há esse excesso de ingestão calórica? É o que tentarei, pretensiosamente, explicar.

Por que a maioria dos animais não engorda?

Todos os animais, com exceção do homem, se comportam a partir do que a biologia chama de “instinto”, isto é, um conjunto de comportamentos padronizados constituído de respostas fixas para os estímulos que a vida lhes apresenta. Em outras palavras, nenhum animal além do homem (e, talvez, dos animais domésticos) tem dúvida, por exemplo, em relação ao que vai comer no almoço. Aliás, nenhum deles sequer discerne um evento chamado almoço! Eles não se baseiam em horários para se alimentar. Deu fome, o lagarto vai aonde há alimento e come, ou seja, ele funciona baseado unicamente no registro da necessidade. Mesmo animais que só se alimentam em determinada parte do dia estão restritos à dimensão da necessidade, pois o que os leva a se comportarem dessa maneira é seu instinto e não uma convenção social, cultural, linguajeira como é no caso dos humanos.

Assim, os animais comem apenas o estritamente necessário e isso não ocorre porque eles são mais sábios que os humanos, mas sim porque o instinto, a necessidade os leva a pararem quando já estão satisfeitos e ingeriram as substâncias necessárias para servir de combustível à sua vivência cotidiana. Eles nem sequer têm a capacidade de pensar: “Vou parar de me alimentar agora, pois já comi o suficiente.”. Não. Eles simplesmente param porque para pensar daquela forma eles teriam que ter acesso a uma dimensão que é exclusiva dos humanos, a saber, a linguagem.

Em vez do instinto, uma vontade desregulada de viver

O Homo sapiens não se comporta a partir do instinto. É verdade que ainda temos alguns, mas sua influência em nosso dia-a-dia é mínima. A imensa maioria dos nossos comportamentos é aprendida na nossa interação com outros seres humanos. Em outras palavras, nós, diferentemente dos animais, não nascemos sabendo viver. Não há nada que naturalmente estabeleça pontes entre nós e o mundo. Em vez do instinto, viemos de fábrica com uma tendência mais ou menos desconfortável que Freud chamou de Trieb, cuja tradução mais aceita hoje em dia para o português é “pulsão”.

A pulsão é força pura. É uma vontade de viver, de gozar a existência, mas que carece de saber. Nós nascemos sem sabe o que fazer com essa vontade de viver. Não obstante, via de regra, saímos do útero direto para os braços de pessoas que se autorizam a nos ensinar. São esses indivíduos que vão direcionar nossa pulsão, que vão nos dizer onde temos que investi-la, ou seja, como devemos empregar essa nossa vontade de viver. Isso é terapêutico. Quando nascemos, a força da pulsão é tão intensa que ela se nos afigura como ameaçadora, como algo que vai nos explodir tamanha a intensidade com que ela se manifesta. Quando entram em cena as pessoas que vão cuidar de nós (que a psicanálise sintetiza com o conceito de Outro) a pulsão ganha canais de descarga e assim perde parte de seu potencial destrutivo. Não obstante, por mais que o Outro aponte para nós caminhos nos quais devemos orientar nossa pulsão, eles nunca serão capazes de esgotar a força da pulsão que age em nós de maneira ininterrupta. Haverá sempre um resto com o qual nós teremos que nos virar sozinhos.

A fome e a vontade de comer

Pois bem, o que tudo isso tem a ver com aumento de peso? Ora, a existência da pulsão no âmbito humano é o elemento que faz com que entre nós as coisas se passem de forma diferente dos animais. Com efeito, a pulsão, essa intensa vontade de viver, nos retira da submissão ao registro da necessidade. Para entendermos isso melhor, façamos uma comparação entre o que acontece com um filhote de pássaro e com um bebê humano. Ambos precisam ser alimentados por um exemplar mais maduro de sua espécie, geralmente a mãe. O filhote de pássaro receberá exatamente a quantidade de alimento que precisa naquele momento para saciar sua fome e adquirir os nutrientes necessários para seu crescimento adequado. Bela harmonia. Já com o bebê humano, não se pode dizer que o mesmo acontecerá, ou seja, que ele receberá apenas aquilo de que necessita. E isso por várias razões.

Em primeiro lugar, pelo fato de que a mãe não sabe, por ter nascido sem instinto, qual a quantidade de leite suficiente para o bebê no momento da mamada. Por não saber, a mãe se angustia e fica na dúvida quanto ao momento certo de retirar o seio. “Quando o bebê parar de sugar” é o que lhe dizem. Mas aí surge outra questão: será que o bebê só pára de sugar o seio quando extraiu a quantidade estritamente necessária de leite? Qualquer mãe sabe que não. E os psicanalistas explicam a razão disso. Ocorre que em função da ausência do instinto (que forneceria aquele saber ao bebê) e da presença da pulsão, o seio é para o bebê ao mesmo tempo um objeto de necessidade – ou seja, que ele utiliza a fim de eliminar a sensação desconfortável que depois reconhecerá como sendo “fome” – quanto um objeto da pulsão, isto é, um objeto que supostamente seria capaz de satisfazer aquela vontade de viver, cujo matiz excessivo o amedronta. Nesse sentido, o bebê geralmente mama mais do que deveria, pois mesmo depois de ter saciado a fome, ele continua sugando o seio não mais para se alimentar, mas tão-somente para sentir o prazer que emerge do contato do seio e do leite com a mucosa da boca, prazer que, naquele momento, serve como veículo de descarga da pulsão. Assim, o bebê só pára de mamar quando sente que a pulsão deu uma apaziguada, que não vai voltar a incomodá-lo com sua demanda tão cedo.

Portanto, a presença da pulsão em nós faz com que o alimento não nos sirva unicamente no domínio da necessidade, ou seja, como elemento capaz de eliminar a sensação de fome. A comida é para nós também uma forma de satisfazermos parcialmente a pulsão, nossa vontade de viver. Por que parcialmente? Por que, como disse anteriormente, essa vontade de viver é infinita e ininterrupta! Ela nos dá descansos periódicos, mas jamais se satisfaz completamente. O alimento, no âmbito humano, é, portanto, um “engana-pulsão”. Sabe quando a gente ingere determinada coisa com baixa capacidade de provocar saciedade a fim de “enganarmos o estômago”? Pois é, nós também utilizamos coisas para enganar a pulsão, pois o único objeto que seria capaz de saciar completamente a pulsão não existe. A psicanálise dá o nome a esse objeto de “objeto a”. Nesse sentido, toda vez que a pulsão é satisfeita por alguns momentos ela encontrou objetos que a enganaram, objetos que se fizeram passar pelo objeto a. Um deles é o alimento.

Leia a continuação do texto.

Prisão de ventre: o que médicos e nutricionistas não dizem – e não sabem (parte 1)

Não sei quantos de vocês chegaram até aqui em busca de informações sobre o tratamento da “prisão de ventre”, do “intestino preguiçoso”, enfim, desse mal próprio ao homem civilizado e que se caracteriza pela retenção aparentemente “involuntária” das fezes. Todavia, o texto é dedicado justamente a esses leitores. Mais do que uma dissertação sobre uma visão alternativa do fenômeno, este artigo tem o objetivo de auxiliar as pessoas que o enfrentam a se tratarem sem a necessidade de desembolsar alguns (ou muitos) copeques para uma ajuda profissional.

Vocês devem estar acostumados a ouvir profissionais especialmente da área de endocrinologia e nutrição discursarem a respeito da prisão de ventre caracterizando-a como um distúrbio do aparelho digestivo via de regra associado à baixa ingestão de fibras alimentares. “Coma mais mamão, mais ameixa, mais linhaça, mais aveia! Ou simplesmente esqueça tudo isso e tome Activia!” dizem eles. E a cada dia as ações da Danone se valorizam às custas do intestino alheio.

Quando a alimentação não é suficiente para explicar a procrastinação intestinal, tais profissionais recorrem ao tratamento que atualmente ocupa o lugar em que as sangrias se alocavam nos séculos XVIII e XIX, ou seja, o espaço do tratamento “bom pra tudo”: o exercício físico. O sedentarismo – coincidentemente um pesadelo para a ideologia produtivista da economia atual – seria uma das causas das parcas idas ao banheiro. A idéia, portanto, é de que ao deixares a preguiça, teu intestino fará o mesmo.

Apesar de todo esse blábláblá, eu custo a crer que endocrinologistas e nutricionistas sejam seres tão tapados. Quero acreditar que eles pelo menos intuem que a coisa não passa apenas pelo domínio e restauração da máquina corporal. Não obstante reconheço que eles não são capazes de dar o braço a torcer e reconhecer que há um fantasma na máquina. E, precisamente por conta disso, recorrem àquela palavrinha mágica que salva todos os profissionais de saúde, principalmente os de segundo escalão do campo psi: o famigerado “stress”. Não vou gastar dezenas de kilobytes aqui justificando o caráter quimérico do conceito. Basta lhes dizer que se trata de um daqueles termos que explicam tudo e não explicam nada, como a tal “virose”, mais eficaz para a angústia dos médicos do que qualquer psicotrópico de última geração. De qualquer forma, o stress tem entrado na fórmula da etiologia da prisão de ventre – para o bem de todos e a felicidade geral da nação, pois, com essa inclusão, ficam contentes os médicos e nutricionistas para os quais o stress é um fenômeno orgânico (como tudo na vida, talvez diriam eles) e os profissionais psi que consideram estar sendo reconhecida a hipótese de uma causalidade emocional. Doce ilusão.

Explico. Não há lugar para o psíquico no modelo biomédico, o paradigma predominante no cuidado em saúde atual. O corpo é uma máquina cujo funcionamento é logicamente perfeito – é essa a hipótese de base desse modelo. Portanto, se há falha na máquina, é na máquina que devem ser feitas intervenções, modificando os insumos que lhe fornecem energia (mudança de hábitos alimentares), fazendo a máquina trabalhar mais (exercícios físicos) ou reformando alguns circuitos para que ela não apresente falhas por excesso de uso (controle do stress). Só assim a máquina poderá voltar a excretar normalmente os materiais inutilizados (e adeus prisão de ventre…).

A hipótese alternativa que apresentarei para entender e tratar a prisão de ventre demandará do leitor um total esquecimento – para não dizer uma forclusão – desse modelo. Sei que será difícil, pois, como toda ideologia, a visão do corpo como máquina gradualmente foi se transformando numa espécie de óculos permanentes de nossa visão sobre a saúde. Porém, faça o esforço. Tente por alguns instantes, isto é, até terminar de ler este texto, conceber o corpo como algo vivo, potente, que pensa e não como uma máquina que é ligada na concepção e desligada na morte. Sim, é isso mesmo. Pense no corpo como um corpo pensante. Esqueça, durante a leitura deste texto, daquilo que te ensinaram na escola – primária ou, principalmente, universitária – isto é, que corpo é uma coisa e mente é outra; que uma não tem nada a ver com a outra. Pense, a partir de agora, em corpo e mente apenas como duas simples palavras inventadas pelo homem para denotar dois modos diferentes de expressão do ser humano e que, por sinal, se expressam concomitantemente. Acho que essas bases conceituais serão suficientes para o entendimento do que virá a seguir. Se forem necessárias outras eu as apresentarei oportunamente.

A primeira conseqüência dessas premissas para o entendimento da prisão de ventre é a de que esse, como todo fenômeno do corpo, possui um sentido, na medida em que admitimos de antemão que toda manifestação corpórea possui um correspondente no campo do psiquismo. Esse é um dos pontos fundamentais de diferenciação entre os dois modos de tratar o fenômeno, pois no modelo biomédico, nenhuma doença possui significado; as enfermidades são apenas defeitos da máquina corporal.

Quando se fala em “sentido” da prisão de ventre, está sendo pressuposto que ela existe para cumprir certa finalidade, até porque, em última instância, nesse nosso modelo alternativo ao biomédico, o corpo é um modo de expressão do ser humano em sua totalidade. Em outras palavras, nossa hipótese é de que a prisão de ventre pode ser tomada como um acontecimento que serve para a expressão de algo. Essa proposição ficará mais clara na medida em que formos destrinchando esse modo alternativo de encarar a constipação intestinal.

Uma primeira questão que merece consideração diz respeito justamente àquilo que é retido na prisão de ventre, ou seja, as fezes. O que são as fezes? Para o modelo biomédico a resposta é simples: fezes são aglomerados de materiais descartados pelo organismo no processo de digestão dos alimentos. Não podemos negar a fidedignidade dessa resposta. No entanto, talvez ela careça de completude. De fato, as fezes são massas orgânicas. Todavia, elas também podem ser tomadas como coisas que oferecemos (ou não) ao mundo. É, por assim dizer, nosso mais primitivo produto (não por acaso, outrora se utilizava o termo “obrar” como forma jocosa de se referir à defecação).

Apesar de o processo de produção de excrementos ser um atributo comum a grande parte dos animais, na espécie humana ele adquire uma dimensão completamente nova. Nenhuma espécie, além da humana pede, exige, solicita, enfim, demanda de seus filhotes a produção das fezes. O imperativo para defecar é dado nas demais espécies a partir somente do organismo. No nosso caso, as coisas se passam de forma diferente: é clássica a cena da mãe no banheiro esperando o (a) filho (a) “produzir”. Nesse caso célebre, não se trata de uma espera passiva, que apenas contempla o tempo biológico da criança, mas de uma expectativa que demanda do sujeito a dádiva de suas fezes ao mundo.

Desde cedo, portanto, os excrementos adquirem para nós o significado de uma posse e, como toda posse, pode ser gasta ou não. Portanto, ao defecarmos não estamos apenas cumprindo o imperativo de necessidades fisiológicas. Estamos também, concomitantemente, expressando a seguinte mensagem ao mundo externo: “Eu lhe dou algo de mim.”. Quando dou algo a alguém, admito como premissa que esse alguém merece o presente e não se insurgirá contra mim ao recebê-lo. Com a excreção das fezes acontece da mesma forma. Se desde criancinhas somos ensinados que as fezes são presentes que damos à mãe (vide o orgulho da criança diante da mãe ao defecar pela primeira vez no penico), não podemos ir ao banheiro sem estar manifestando ao mesmo tempo nesse ato a decisão de dar ou não um produto ao mundo. Não é porque já não somos exigidos pela mãe que essa significação desaparece do ato de defecar. Gradualmente, o papel que outrora era exercido pela mãe, passa a sê-lo pelo patrão, pelo professor, pelo padre, pelo pastor, pela Igreja, pela Universidade, enfim, pelo mundo (é o tal grande Outro do Lacan) e as fezes permanecem como símbolos de uma dádiva.

A partir dessas premissas, um dos sentidos da sentido da prisão de ventre fica explícito: trata-se de um modo corporal de expressão de um relacionamento conflitivo entre o sujeito e o Outro. É como se ao reter as fezes o indivíduo estivesse dizendo ao mundo: “Não posso (ou não quero) te dar nada.”. O Outro pode ter se tornado no relacionamento com o sujeito não digno de receber seu produto, seja porque o sujeito se considere muito para o Outro ou imagine que o Outro não será capaz de apreciar devidamente seu presente. Pode acontecer também que o sujeito considere o Outro potencialmente perigoso, vingativo, de tal modo que não é aconselhável oferecer-lhe nada.

Outra possibilidade é a de que a prisão de ventre se torne a ocasião de manifestação de uma teimosia ou obstinação. Quando crianças, uma das formas de nos vingarmos da mãe por algo desagradável que ela nos fez (e toda criança sabe disso) é justamente frustrando suas expectativas sobre nosso processo de excreção, fazendo com que ela fique horas na porta do banheiro esperando que a gente “faça”. Essa criança que teima em não defecar para irritar a mãe nunca desaparece de nós. O que acontece é que a mãe, como eu disse antes, passa a ser representada por outras pessoas ao longo de nossa vida. Se fizéssemos uma pequena pesquisa empírica nas empresas, ficaríamos surpresos com os modos distintos de funcionamento intestinal dos funcionários satisfeitos e dos insatisfeitos com o patrão. É em função disso que os médicos dizem que o stress é um dos fatores que atuam na constipação intestinal. Ora, funcionários insatisfeitos com o patrão evidentemente sofrerão de ansiedade, cansaço, falta de vontade (sintomas do unicórnio chamado stress). No entanto, a prisão de ventre não é causada por esses sintomas. Ela, como eles, é um efeito da relação conflituosa entre o funcionário e o patrão. Ela é, por assim dizer, a expressão na carne do desejo do empregado de não produzir para um patrão que o desagrada, ou seja, de frustrar as expectativas da mãe encarnada no patrão.

Quando o desejo não é frustrar, mas exatamente o oposto, isto é, produzir, a vontade de defecar advém mesmo no mais sedentário dos sujeitos. Tive um paciente que toda vez que tinha uma idéia nova ou conseguia escrever algumas páginas – ele era acadêmico – sentia uma ânsia irresistível de ir ao banheiro. Na medida em que sua mente conseguia produzir conteúdos intelectuais, seu corpo imediatamente sentia a necessidade de produzir conteúdos intestinais. Os produtos são diferentes mas a lógica que os regula é a mesma.

Portanto, caro (a) leitor (a), antes de se esbaldar nos Activias da vida ou entupir seu sistema digestivo de fibras, pense um pouco sobre seu corpo e, principalmente, sobre como anda sua relação com o mundo. Tente lembrar-se de suas insatisfações e desagrados. Em Minas, é comum o uso da expressão “enfezado” para se referir a alguém possesso de raiva. Sim, “enfezado” significa cheio de fezes e o uso da expressão não está atrelado apenas à sensação de irritação que a maioria das pessoas experimenta ao ficarem longos períodos sem ir ao banheiro. O termo “enfezado” também pode ser lido como a expressão lingüística do sentido mais profundo da prisão de ventre. De fato, a manifestação no corpo de um sujeito que está, por assim dizer, “de mal com o mundo” ou com algum aspecto do mundo é o “enfezamento”, ou seja, o acúmulo de fezes no intestino.

O desejo de reter algo que poderia ser dado ao mundo não é o único sentido e finalidade possível da prisão de ventre. Na segunda parte desse texto enfocarei outros usos a que se presta o fenômeno. De todo modo, penso que já foi possível levar o leitor a uma mudança no modo de encarar suas idas frustradas ao trono – e ajudá-lo. Antes de terminar esse primeiro segmento, gostaria de deixar claro que toda essa nova visão sobre a constipação intestinal tem como referência a obra de Georg Groddeck, a qual constitui atualmente meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva. Todas essas idéias, portanto, não foram tiradas de trás da orelha, mas estão fundamentadas em dezenas de anos de prática psicoterapêutica desse autor, cuja riqueza teórica gradualmente será revelada.

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