A invenção do inconsciente: Freud e o nascimento da Psicanálise

NOTA: Este texto foi escrito há um ano atrás com a finalidade de servir como material de apoio para a primeira aula de um curso de introdução à Psicanálise que, infelizmente, não aconteceu. Enjoy!

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Grande parte das pessoas ao ouvir o termo “psicanálise” imediatamente o associa a um corpo teórico mais ou menos sistematizado, composto de diversos enunciados e hipóteses a respeito do funcionamento do aparelho psíquico, do modo como se constituem as neuroses, etc. No entanto, é preciso assinalar que tal definição corresponde muito mais à teoria psicanalítica do que à psicanálise propriamente dita.

A psicanálise, em seu sentido mais estrito, nasce como um tipo bastante eficaz de tratamento das neuroses. O termo neurose, tal como utilizado no nascimento da psicanálise, era o nome dado no século XIX às patologias que se davam no plano do psiquismo ou estavam a ele associadas. O prefixo “neuro” denota a concepção etiológica vigente na época, segundo a qual tais patologias ocorreriam em função de lesões neurológicas. Daí a separação entre esse grupo de doenças e as psicoses, para a qual se postulava uma etiologia predominantemente psíquica, como assinalado pelo prefixo “psico”.

A neurose que provocava maior alarde na sociedade burguesa da virada do século XVIII para o século XIX, principalmente por sua freqüência nas mulheres, era a histeria. O termo histeria é derivado do grego hysteros que significa útero, pois durante alguns séculos pensou-se que tal patologia só acometesse mulheres. Do que padeciam pessoas acometidas de histeria? A lista de sintomas passíveis de serem encontrados em quadros histéricos é imensa, mas o elemento comum de todos eles é a existência de uma disfunção ou desordem somática sem a presença de uma lesão orgânica correspondente. São célebres os casos de histéricos que não enxergavam embora possuíssem seus olhos intactos, com toda a estrutura fisiológica necessária para a visão. Assim também, casos de cefaléia, afonia, surdez, paralisia de membros, todos, em um quadro histérico, pareciam meros lances de uma peça teatral, pois o paciente parecia estar fingindo que apresentava o sintoma já que todos os exames não conseguiam localizar uma gênese orgânica para o que o doente sentia.

A histeria se apresentava, portanto, como uma patologia que colocava em xeque a capacidade explicativa de uma medicina que recentemente houvera adotado a anátomo-patologia como disciplina de base e estruturado sua concepção de doença em torno da noção de que para cada sintoma corresponderia uma determinada lesão orgânica. A histeria atestava o furo do saber médico que, justamente por concentrar seu foco na anátomo-patologia acabava por negligenciar a dimensão subjetiva do adoecimento.

A medicina, no entanto, não deu o braço a torcer. Não conseguindo formular uma explicação a partir de seu modelo, caracterizava a histeria como um quadro de piti[1] de donas-de-casa insatisfeitas com sua condição. Em outras palavras, para a maior parte dos médicos da época, todos aqueles sintomas não passavam de formas bastante teatrais de “chamar a atenção”. Essa estratégia de, na ausência de um modelo explicativo, rebaixar o fenômeno à condição de indigno da apreciação científica ainda persiste na atualidade através do célebre jargão repetido por muitos médicos quando os exames não evidenciam uma base orgânica para os sintomas apresentados pelo paciente. Dizem eles: “Você não tem nada.”, o que constitui antes de tudo um completo desrespeito ao paciente na medida em que se desconsidera o estado subjetivo do doente, tomando os exames médicos como atestados de uma verdade absoluta.

Pois bem, após essa pequena digressão, voltemos ao nosso tema central. Podemos dizer que a psicanálise é a filha nascida de um encontro fortuito. Encontro entre Freud e a histeria. No final do século XIX, Freud, um recém-formado médico neurologista, pretendia investir na carreira acadêmica, realizando pesquisas na área de neurologia. Foi ele, inclusive, um dos primeiros pesquisadores que investigou os efeitos da cocaína no organismo humano. No entanto, em função de dificuldades financeiras, Freud resolveu trabalhar também como clínico, a princípio atendendo pacientes indicados por seu amigo Breuer. Este, como muitos outros neurologistas da época, fazia uso terapêutico de um método recentemente formulado chamado hipnose, o qual consistia, basicamente, em fazer com que o paciente saísse de seu estado de vigília, mas que conservasse a capacidade de se conscientizar de determinadas representações e lembranças das quais não conseguia se lembrar quando desperto. Breuer, tal como o médico francês Charcot, aplicava esse método no tratamento da histeria.

O procedimento se dava, em linhas gerais, da seguinte forma: o médico hipnotizava o doente, deixando-o numa espécie de estado sonambúlico. Durante esse estado, o médico dizia ao paciente que ele não possuía o sintoma do qual se queixava. Ao restabelecer-se do estado hipnótico o paciente não mais apresentava o sintoma. A concepção que sustentava tal prática era a de que os sintomas histéricos eram devidos a “idéias dominantes” que “possuíam” o espírito do doente. Assim, a função do médico era a de apresentar ao pacientes idéias que suplantassem o poder das “idéias dominantes” patogênicas de forma a neutralizar o efeito das mesmas.

Posteriormente, tanto Freud quanto Breuer começaram a perceber que durante o estado hipnótico, os pacientes freqüentemente faziam referência a acontecimentos de seu passado e era comum que após tais relatos os sintomas fossem eliminados, sem qualquer interferência do médico. Freud e Breuer elaboraram, então, a teoria da “ab-reação” e com ela uma nova concepção etiológica da histeria. Essa teria sido causada por um trauma, sendo este um evento qualquer diante do qual o paciente não teria reagido adequadamente. A energia psíquica acumulada em função dessa reação mal-sucedida seria canalizada na forma dos sintomas. Assim, durante a hipnose, o paciente teria a oportunidade de acessar novamente as lembranças vinculadas ao evento traumático e reagir a ele de forma diferente. É essa reação retroativa ao trauma que Freud e Breuer chamaram de “ab-reação”. A tarefa, portanto, do médico, seria a de auxiliar o paciente, durante a hipnose, a rememorar os eventos traumáticos que deram origem a seus sintomas para que eles fossem ab-reagidos.

Duas constatações clínicas serviriam para distanciar Freud de Breuer, permitindo ao primeiro se tornar o inventor da psicanálise: a sexualidade e a resistência. Freud constatava em seus tratamentos que era bastante freqüente que os eventos traumáticos dos quadros de histeria estivessem direta ou indiretamente relacionados com conteúdos sexuais. Breuer não compartilhava do ponto de vista de Freud, considerando-o mera interpretação. Além disso, Freud observava que em diversas ocasiões o paciente não conseguia se lembrar de determinados acontecimentos relacionados ao evento traumático e, não raro, do próprio trauma. Como explicar isso? Seriam alguns histéricos portadores de lesões em áreas do cérebro responsáveis pela memória? Ou será que o esquecimento se dava em função do fato de as tais lembranças estarem relacionadas a um passado remoto, o que as tornariam menos facilmente capazes de voltar ao plano da consciência? Para Freud nenhuma dessas hipóteses fazia sentido. Aquele jovem médico vienense preferiu adotar o ponto de vista popular, personificado na suspeita da esposa de que quando o marido esquece seu nome ele está pensando em outra mulher. Para Freud, o histérico – mas não só ele, todos nós – nos esquecemos ou não conseguimos nos lembrar de determinados eventos simplesmente porque não queremos fazê-lo, porque não nos agrada lembrar, porque nos é penoso, porque nos envergonha ou porque queremos pensar em algo que nos dá mais prazer (como no exemplo). Ou seja, trata-se de um ato que pressupõe uma intencionalidade, ou, para usarmos um termo filosófico, pressupõe um sujeito, um sujeito que decide, que quer esquecer determinados fatos ou pensamentos de sua vida.

Para Breuer, isso era um disparate. Formado na tradição anátomo-patológica da medicina que, diante de um paciente, via um corpo, um simples organismo, o colega de Freud não podia conceber que dentro do paciente havia uma pessoa, um sujeito e, ainda mais, que tal sujeito fosse inconsciente! Para Breuer, os esquecimentos histéricos eram resultado do fato de que, na experiência do trauma, a pessoa não estaria plenamente consciente, mas num estado que hoje poderíamos chamar de “obnubilação da consciência”, ou seja, num estado semelhante ao estado hipnótico. Daí que a hipnose fosse reconhecida como a única técnica capaz de tratar a histeria, visto que aquela reproduziria no paciente o próprio estado de consciência em que o trauma foi gerado.

Se o paciente não conseguia se lembrar de determinados eventos, logo havia algo que o impedia de fazê-lo. Foi esse “algo” que Freud chamou de resistência. Note que com esse termo Freud avança no seu processo de descoberta do sujeito visto que torna-se preciso supor alguém que resiste. Além disso, o fenômeno da resistência acrescenta ainda outra pergunta ao processo terapêutico, pois o médico precisará saber não só quais foram os eventos traumáticos que provocaram os sintomas, mas também por que o paciente resiste a lembrar-se deles. É nesse momento que ocorre a virada do método catártico para a Psicanálise. O primeiro tinha como objetivo ocasionar uma ab-reação, isto é, uma reação retroativa a um evento traumático. Quando Freud se apercebe do fenômeno da resistência, as finalidades do tratamento passam a ser mais complexas, pois a ab-reação não coloca em questão as razões pelas quais o evento traumático foi deslocado para o campo inconsciente, ou seja, por que o paciente excluiu tais lembranças de seu campo de consciência.

Assim, o tratamento não é mais visto como um processo de desabafo, de explosão emocional tal como acontecia na catarse. Pensa-se agora numa estratégia de análise do psiquismo, de uma psico-análise, de uma psicanálise como aportuguesamos. O paciente agora não é mais convidado a submeter-se a alguém que escarafunchando-lhe as idéias permitir-lhe-á reagir de forma diferente a seu passado. Trata-se agora de chamar o paciente a tornar-se ativo nessa viagem para dentro de si mesmo. O médico (analista) passa a ser um mero instrumento para que ele (paciente) possa se escutar, coisa que não costumamos fazer cotidianamente…

E qual técnica Freud coloca no lugar da hipnose e da catarse? Entendendo que a resistência é um fenômeno advindo do eu da pessoa que olha para si mesma e emite um juízo de que determinadas representações não devem vir para o plano da consciência, logo, a melhor estratégia para conseguir ao mesmo tempo driblar e entender a resistência é solicitar ao paciente que tente ao máximo deixar de lado essa função egóica de julgar as representações que vem ao campo de consciência. Em outras palavras, pedir a ele que diga tudo o que lhe vier à cabeça. É o que Freud chamou de “associação livre”, mas que do original alemão poderia ser mais bem traduzido como “intrusão livre”, pois a idéia é justamente a de que o paciente não associe, mas que permita a entrada livre em sua consciência das representações que lhe surgirem.

Pois bem! Acompanhamos todo o processo que vai desde o encontro até a gestação que deram origem à Psicanálise. À guisa de conclusão deste primeiro texto introdutório, cabe-nos precisar as conseqüências da invenção da Psicanálise e do conceito de inconsciente para a história do pensamento humano. Você por acaso já se deu conta de quão estranha é a idéia de inconsciente? Provavelmente não, visto que todos nós já nascemos num meio sócio-cultural em que tal idéia já se tornou familiar. No entanto, não se enganem: ela é completamente subversiva! Haja vista que foi preciso pelos menos uns quatro milênios de pensamento humano para que alguém a sistematizasse. A idéia de que o que somos não se limita àquilo que pensamos que somos é bastante insólita. A maior parte da filosofia tal como a conhecemos se desenvolveu a partir da idéia básica e fundamental de que nós somos transparentes a nós mesmos, que não há nada de oculto em nosso ser. Foi Freud quem sistematizou essa constatação óbvia – e por isso mesmo difícil de ser vista – de que somos divididos; de que, como diz o apóstolo Paulo, não fazemos o bem que queremos, mas o mal que não queremos. Em suma, e para usar termos filosóficos, que o nosso ser nos ultrapassa, que não somos lá onde nos pensamos (como queria Descartes), pois onde nos pensamos (isto é, no inconsciente) não somos.

Lucas Nápoli

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2010.


[1] Ainda hoje é utilizado no meio médico o termo “pitiatismo” paracaracterizar pacientes que apresentam sintomas indefinidos, sem base orgânica e que promovem uma dificuldade na elaboração de diagnósticos.

O que um psicanalista faz? (final)

Nos últimos três posts desta série o nosso foco esteve sobre o desenrolar de um tratamento psicanalítico. Entre outras coisas, discutimos como o psicanalista lida com o pedido de compreensão implícito na entrada do paciente em análise, qual a primeira etapa do tratamento e como o doente é auxiliado pelo analista na descoberta de aspectos de si mesmo dos quais outrora era ignorante.

Alguns leitores podem considerar de mau gosto o uso que faço da palavra “doente” como sinônimo de paciente ou analisando. De fato, atualmente é difícil ver analistas se referindo assim a quem os procura. Eu, no entanto, busco conservar o termo porque penso que sua utilização coloca em relevo um aspecto sistematicamente esquecido não só por alguns analistas, mas também por boa parte daqueles que se interessam pela teoria psicanalítica que é o fato de a psicanálise ser um tratamento. Foi para isso que Freud a estabeleceu e é para isso que ela continua existindo até hoje. A psicanálise é um meio, uma técnica, uma abordagem (ou seja, existem outras) de ajuda para determinadas pessoas. Digo isso porque, principalmente depois do estrondo provocado pelas teses de Jacques Lacan, uma boa parcela dos analistas começou a pensar e a querer extrair da psicanálise mais do que ela poderia oferecer. Em bom português: os caras começaram a achar que a psicanálise era “a última bolacha do pacote”, que ela era um metadiscurso capaz de explicar e de se sobrepor a qualquer outra forma de descrição do sujeito.

É por isso que uso a palavra “doente”, caro leitor: para enfatizar que quem procura um analista espera receber dele ajuda para ver restabelecida sua saúde. Evidentemente, os conceitos de “saúde” e “doença” que se tem a partir das descobertas advindas do método psicanalítico não são os mesmos da medicina, mas ainda assim não se pode perder de vista que a psicanálise é um tratamento e, portanto, existe para cumprir determinados objetivos. É exatamente sobre isso que falaremos hoje:

 

Quais são os objetivos de um tratamento psicanalítico?

O primeiro post desta série foi dedicado às razões pelas quais as pessoas procuram a ajuda de um psicanalista ou de um psicoterapeuta. Vimos que, via de regra, as pessoas nos procuram quando estão sofrendo, mas sofrendo a ponto de não conseguirem vislumbrarem, sozinhas, a solução para seu sofrimento. Isso porque elas se sentem presas, limitadas, como se algo à revelia delas próprias as impedisse de fazerem o que gostariam.

É justamente com base nessa condição inicial daqueles que recorrem a nossos serviços que estabelecemos os objetivos do tratamento. Logo, se o doente se sente preso, cercado de amarras, a finalidade do tratamento deve ser a de ajudá-lo a se ver livre dessa prisão. Simples.

Numa visão panorâmica, vimos um pouco ao longo dos posts como se dá esse processo de “libertação”. Hoje, gostaria de focalizar precisamente a natureza dessa libertação, ou seja, do que se constitui isso a que a psicanálise visa enquanto método de tratamento. O que me vem à mente nos últimos tempos ao pensar sobre isso é o conceito do filósofo Benedictus de Spinoza de conatus ou “potência de agir”. Para Spinoza todo ser possui essa potência que faz com que o ser persevere no próprio existir e, se possível, se expanda. Tal potência pode ser refreada ou fortalecida de acordo com as experiências que a gente vivencia. Penso que a psicanálise seja uma das experiências capazes de nos auxiliar a fortalecer a nossa potência de agir, justamente porque a matéria-prima de seu funcionamento é justamente a investigação cuidadosa daquilo que diminuiu a nossa potência e fez com que procurássemos ajuda. Um dos objetivos da psicanálise, portanto, é nos dar mais “liberdade de movimentos”. O que a neurose faz conosco é o oposto: ela restringe essa liberdade, por exemplo: impedindo um jovem de ter uma ereção completa ou uma dona de casa de sair à rua por medo das pessoas ou um executivo de trabalhar por não conseguir deixar de repetir: “Controle remoto” 30 vezes a cada 15 minutos…

A psicanálise ajuda pessoas como essas a se verem livres dessas amarras que as impedem de alcançarem seus objetivos, terem maior bem-estar etc. Todavia, há um detalhe importantíssimo que é o que diferencia o método psicanalítico em relação a outros tipos de tratamento: a psicanálise só consegue ajudar as pessoas a terem maior liberdade de movimentos precisamente porque ela se coloca outro objetivo como anterior a esse! Qual objetivo? Basta que você leia meia dúzia das páginas de “Estudos sobre Histeria”, livro que Freud escreveu com Joseph Breuer, para que você logo se dê conta. Você verá naquelas páginas, Freud interessado não tanto em fazer sumir o sintoma das histéricas, mas sim em extrair delas um saber sobre aqueles sintomas, em descobrir-lhes as causas! Ou seja, meus caros: a psicanálise consegue ajudar os doentes a terem sua saúde restabelecida ao ter como finalidade inicial não a eliminação de seus sintomas, isto é, as amarras, mas sim a reconstrução de sua história, a descoberta de seu desejo e, assim, gradualmente os sintomas deixam de ter serventia e o doente consegue abdicar da prisão da qual tanto gostava – sem o saber. Matam-se dois coelhos com uma única pedrada.

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Pois bem, chegamos ao final desta série. Não estou certo de que consegui responder com clareza à pergunta que alguns familiares me fizeram e que me motivaram a escrever os posts, lembram? Só sei que ainda resta uma infinidade de aspectos da prática do psicanalista que não foram abordados aqui, de sorte que para muitos será talvez um pouco frustrante saber que não haverá uma “parte 6”. A esses peço que, por favor, se manifestem via comentários. Quem sabe a continuação, juntamente com as partes já publicadas, saia em forma de livro? ; ) Conto com o feedback de vocês!