Aforismos – II

O ditado que diz que “em casa de ferreiro o espeto é de pau” não poderia ser melhor aplicado do que no caso dessa profissão impossível chamada “psicanalista”. Isso não é nenhuma novidade. Lacan já o dissera nas entrelinhas no início do seu ensino, quando, de cada 10 palavras que dizia, 11 eram críticas ao pós-freudianos. Lacan se indignava com a “contramão da contradição” – como diria Lobão – em que se prendiam os sucessores de Freud. Ao mesmo tempo em que diziam lutar em seus consultórios para ajudar o obsessivo a se libertar dos labirintos de sua neurose, constituíam uma associação de psicanalistas que não fazia mais do que reproduzir esse mesmo labirinto – com as mesmas formações reativas… Ora, esse não é nem de longe o exemplo mais cabal do modo  sintomático como os analistas tomam a palavra. A sombra do pai parece pesar-lhes nos ombros, de modo que, das duas uma: ou eles se esquecem do pai e resolvem andar cambaleantes com as próprias pernas, forcluindo o ensinamento paterno e voltando a praticar os mesmos vícios de outrora – esses são os pós-freudianos; ou eles fazem um altar para o pai, identificando-o quer a um monge, quer a uma esfinge, engalfinhando-se para ver qual deles consegue decifrar o oráculo. Esses não se permitem sequer um passo sem o consentimento do pai. Mas vejam: o pai está morto…

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Objeto roubado: a falta no obsessivo e na histérica

01samsonPenso que talvez o recalque seja, antes de mais nada, a forma que o sujeito encontra para manter estável seu ego. Como um conjunto de identificações que é, o ego, como dissera Freud, tem uma tendência forte à síntese, i. é, uma compulsão a fazer parecer que é uno e indivisível. Recalcar uma determinada representação mental, então, seria o mecanismo empregado pelo sujeito para se manter firme diante do perigo que determinado pensamento representaria para sua estabilidade. Essa estabilidade pode ser aqui entendida como a crença na falta de um buraco no ego ou, se me permitem o jogo de palavras, o acreditar na falta da falta.

O neurótico obsessivo é o paradigma do sujeito que não acredita que algo nele falta. Tanto mais que para o obsessivo algo nele sobra. Sobra tanto que ele deve dar aos outros, deve pagar uma dívida eterna. Se ele deve pagar aos outros é porque tem mais e não menos. Os outros precisam do que nele sobra.

A histérica apesar de parecer reconhecer sua falta, na verdade revive as justificativas infantis de que a culpa é do outro. Para a histérica, sua incompletude é uma questão de “distribuição de renda”. Se algo está errado é porque o Outro roubou aquilo que era dela por direito. Entendam bem isso: a histérica reivindica aquilo que para ela é dela mas está nas mãos do outro, ou seja, ela não se reconhece como incompleta, ou se assim o faz, não admite que ela por si só é uma falta-a-ser, mas entende que o Outro deve preencher uma falta que ele próprio causou. Daí que a histérica permaneça sempre em reivindicação. É a forma dela de mostrar que foi roubada, que foi castrada e, portanto, de demonstrar que sua falta não é legítima.

Já o obsessivo, com sua dívida impagável, faz parecer que tem muito. Tanto que sua dívida é eterna, pois se a dívida acaba, há o perigo de se descobrir a falta. O obsessivo posa como o rico que não é. Ele e a histérica se projetam um no outro. O obsessivo fazendo parecer que a falta está na histérica. Essa, por sua vez, acreditando que aquele roubou o que ele diz que nela falta. É uma dinâmica análoga à do mestre e escravo de Hegel. Assim como a histérica só se reconhece como pedinte a partir do momento que reconhece o obsessivo como o que tem de sobra, o que tem lucro (o roubo honesto), o escravo só reconhece como tal no momento em que reconhece o outro como senhor. E assim como o obsessivo, o senhor não reconhece ninguém. É esse o desespero do obsessivo e do senhor: o ter demais, o ter além da conta, de forma que ainda que se pague a todos nunca se conseguirá pagar tudo, pois o objeto roubado da histérica sempre será menor que o buraco deixado por sua falta.