Ficar remoendo é não querer pagar o preço da autenticidade

Todo o mundo já passou pela experiência de ficar remoendo coisas que gostaria de ter dito, mas acabou não falando.

Há pessoas, no entanto, que vivenciam essa situação com muita frequência, de modo que estão praticamente o tempo todo pensando nas ações que não realizaram e nas palavras que não colocaram para fora.

Esse padrão faz com que tais indivíduos desperdicem uma imensa quantidade de energia psíquica, pois ao invés de se entregarem “de corpo e alma” para as experiências atuais, eles permanecem apegados às imagens das reações que não tiveram.

Assim, muitas vezes estão apenas “de corpo presente” nas situações, pois seu pensamento está investindo pesadamente naquilo que poderia ter acontecido e não no que está acontecendo.

Por que isso acontece? Por que algumas pessoas não conseguem sair desse movimento repetitivo e mórbido de não falarem/fazerem o que querem e depois não conseguirem parar de remoer o que não falaram/fizeram?

O que está em jogo é a boa e velha dificuldade neurótica de abrir mão, de renunciar, de aceitar que não dá para ter tudo. O neurótico não consegue suportar o fato de que, na vida, frequentemente temos que perder para ganhar.

Assim, ele não aceita abrir mão do desejo de confrontar o colega de trabalho em troca da manutenção de um clima de harmonia no ambiente de trabalho. Ele quer ambas as coisas. Todavia, como as duas situações são mutuamente excludentes, o que o neurótico faz? Ele dá um jeitinho: não confronta o colega, mantendo, assim, o clima de harmonia, mas, em compensação, fala poucas e boas para o companheiro… na sua imaginação.

Entendeu? Remoer é uma forma neurótica de satisfazer o desejo de falar/fazer sem precisar se comprometer, sem precisar renunciar a uma certa imagem positiva diante do outro, sem precisar pagar o preço que a autenticidade exige.

Você sofre com esse problema de ficar o tempo todo remoendo aquilo que não deu conta de falar ou fazer?


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Aforismos – II

O ditado que diz que “em casa de ferreiro o espeto é de pau” não poderia ser melhor aplicado do que no caso dessa profissão impossível chamada “psicanalista”. Isso não é nenhuma novidade. Lacan já o dissera nas entrelinhas no início do seu ensino, quando, de cada 10 palavras que dizia, 11 eram críticas ao pós-freudianos. Lacan se indignava com a “contramão da contradição” – como diria Lobão – em que se prendiam os sucessores de Freud. Ao mesmo tempo em que diziam lutar em seus consultórios para ajudar o obsessivo a se libertar dos labirintos de sua neurose, constituíam uma associação de psicanalistas que não fazia mais do que reproduzir esse mesmo labirinto – com as mesmas formações reativas… Ora, esse não é nem de longe o exemplo mais cabal do modo  sintomático como os analistas tomam a palavra. A sombra do pai parece pesar-lhes nos ombros, de modo que, das duas uma: ou eles se esquecem do pai e resolvem andar cambaleantes com as próprias pernas, forcluindo o ensinamento paterno e voltando a praticar os mesmos vícios de outrora – esses são os pós-freudianos; ou eles fazem um altar para o pai, identificando-o quer a um monge, quer a uma esfinge, engalfinhando-se para ver qual deles consegue decifrar o oráculo. Esses não se permitem sequer um passo sem o consentimento do pai. Mas vejam: o pai está morto…

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Objeto roubado: a falta no obsessivo e na histérica

01samsonPenso que talvez o recalque seja, antes de mais nada, a forma que o sujeito encontra para manter estável seu ego. Como um conjunto de identificações que é, o ego, como dissera Freud, tem uma tendência forte à síntese, i. é, uma compulsão a fazer parecer que é uno e indivisível. Recalcar uma determinada representação mental, então, seria o mecanismo empregado pelo sujeito para se manter firme diante do perigo que determinado pensamento representaria para sua estabilidade. Essa estabilidade pode ser aqui entendida como a crença na falta de um buraco no ego ou, se me permitem o jogo de palavras, o acreditar na falta da falta.

O neurótico obsessivo é o paradigma do sujeito que não acredita que algo nele falta. Tanto mais que para o obsessivo algo nele sobra. Sobra tanto que ele deve dar aos outros, deve pagar uma dívida eterna. Se ele deve pagar aos outros é porque tem mais e não menos. Os outros precisam do que nele sobra.

A histérica apesar de parecer reconhecer sua falta, na verdade revive as justificativas infantis de que a culpa é do outro. Para a histérica, sua incompletude é uma questão de “distribuição de renda”. Se algo está errado é porque o Outro roubou aquilo que era dela por direito. Entendam bem isso: a histérica reivindica aquilo que para ela é dela mas está nas mãos do outro, ou seja, ela não se reconhece como incompleta, ou se assim o faz, não admite que ela por si só é uma falta-a-ser, mas entende que o Outro deve preencher uma falta que ele próprio causou. Daí que a histérica permaneça sempre em reivindicação. É a forma dela de mostrar que foi roubada, que foi castrada e, portanto, de demonstrar que sua falta não é legítima.

Já o obsessivo, com sua dívida impagável, faz parecer que tem muito. Tanto que sua dívida é eterna, pois se a dívida acaba, há o perigo de se descobrir a falta. O obsessivo posa como o rico que não é. Ele e a histérica se projetam um no outro. O obsessivo fazendo parecer que a falta está na histérica. Essa, por sua vez, acreditando que aquele roubou o que ele diz que nela falta. É uma dinâmica análoga à do mestre e escravo de Hegel. Assim como a histérica só se reconhece como pedinte a partir do momento que reconhece o obsessivo como o que tem de sobra, o que tem lucro (o roubo honesto), o escravo só reconhece como tal no momento em que reconhece o outro como senhor. E assim como o obsessivo, o senhor não reconhece ninguém. É esse o desespero do obsessivo e do senhor: o ter demais, o ter além da conta, de forma que ainda que se pague a todos nunca se conseguirá pagar tudo, pois o objeto roubado da histérica sempre será menor que o buraco deixado por sua falta.