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Algumas pessoas acham que a ênfase dada pela Psicanálise aos acontecimentos infantis é uma espécie de dogma ou, no mínimo, um pressuposto.
Elas estão erradas.
Ao atribuírem à infância um peso muito grande na constituição do adoecimento psíquico e na formação da personalidade, os psicanalistas estão apenas reconhecendo uma realidade que salta aos olhos de qualquer terapeuta.
Com efeito, a importância das experiências infantis aparece com muita clareza no próprio discurso dos pacientes.
Mas se o peso do fator infantil nos parece ser um fato bastante evidente (e não uma suposição teórica), as razões que motivam esse fato não são tão óbvias assim.
Por isso, é legítimo perguntar: por que a infância tem tanta influência na gênese tanto do sofrimento psíquico quanto da estrutura de personalidade?
Isso dá uma tese de doutorado.
Como eu quero fazer aqui apenas uma breve reflexão, não tenho como ser exaustivo na formulação da resposta e me contentarei em destacar um único fator: a precariedade do psiquismo infantil.
A mente das crianças não dispõe de muitos recursos para lidar com experiências dolorosas. Por isso, ela é muito vulnerável a ser profundamente alterada por situações, digamos, desafiadoras.
Ao perder um familiar muito querido (seu pai, por exemplo), você, adulto, pode lançar mão da racionalização, uma defesa madura, para aplacar a dor que está vivenciando:
“Deus sabe o que faz…”, “agora, ele finalmente descansou…”.
Pensamentos como esses amortecem o sofrimento, preservando a estrutura do seu psiquismo.
A criança, por sua vez, geralmente não dispõe de um recurso dessa natureza. Por isso, essa mesma experiência de perda pode facilmente desorganizar seu psiquismo e obrigá-la a recorrer a mecanismos de defesa patológicos, como o recalque, por exemplo.
A racionalização te permite suportar a consciência da experiência dolorosa ao suavizar o impacto afetivo dela. Já o recalque te leva a negar a dor da situação e fingir para si mesmo que nada aconteceu.
O resultado é um psiquismo fraturado, quebrado e preparado para adoecer, já que a experiência recalcada acabará sendo evocada em algum momento e só poderá ser vivenciada de modo encoberto, distorcido, por meio de um sintoma ou inibição.
Adultos podem recalcar? Sim, perfeitamente. Mas o recalque é mais propenso a acontecer na infância justamente por conta da precariedade do psiquismo da criança.
A maioria dos adultos pode lidar com experiências emocionais desafiadoras por meio do humor, da sublimação, da própria racionalização.
A criança, no entanto, só consegue se proteger de uma dor psíquica muito aguda empregando defesas que comprometem sua estrutura: cisão, identificação projetiva, o próprio recalque etc.
Esta é uma das razões pelas quais a infância tem tanta importância na constituição do psiquismo — tanto na saúde quanto na doença. A estrutura psíquica infantil é tão frágil que ela se presta facilmente a fraturas, metamorfoses e reorganizações.
Pare de estudar Psicanálise de forma solta. Na Confraria Analítica, você encontra aulas semanais, seminários teóricos, estudos de casos e um acervo completo para aprofundar sua formação. Seja meu aluno!
Esta é uma pequena fatia da aula “Racionalização: as desculpas que damos para nós mesmos” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS da CONFRARIA ANALÍTICA.
Outro dia, Carlos reencontrou Túlio, um colega de profissão que não via há mais ou menos uns quatro anos, desde a formatura em Psicologia.
— E aí, rapaz, quanto tempo, né? — disse Carlos estendendo a mão a Túlio.
— Pois é! O que você tá arrumando?
— Cara, acabei me encontrando na Psicologia Organizacional. Logo depois da formatura, comecei a trabalhar no RH da Renz e tô lá até hoje. E você?
— Eu foquei na clínica mesmo. E, graças a Deus, tá dando muito certo, Carlos.
— Eu já imaginava. Lembro que você era fã de Psicanálise…
Nesse momento, Túlio abaixou a cabeça, olhou rapidamente para o chão e disse:
— Pois é… Mas hoje em dia não mexo com Psicanálise, não, cara.
— Como assim? — perguntou Carlos perplexo — Da nossa turma você era o que mais gostava de Psicanálise, Túlio!
— É, mas na prática eu acabei percebendo que esse negócio não tem eficácia nenhuma, meu caro. Por isso, hoje em dia, eu trabalho com a TCC.
— Sério? — Carlos não conseguia acreditar. De fato, Túlio passara boa parte da faculdade criticando ferrenhamente a terapia cognitivo-comportamental.
— Cara, a TCC te dá um norte, uma estrutura. Você sabe o que tem que fazer com o paciente. Na Psicanálise, é tudo muito solto, não se mensura nada.
— Túlio, confesso pra você que eu tô muito surpreso. Porque esse negócio de mensuração era justamente uma das coisas que você mais condenava na TCC.
— Pois é, meu caro. Mas, estudando mais a fundo, eu acabei me convencendo de que terapia precisa de objetividade. E a própria prática foi me mostrando também.
Logo após dizer isso, Túlio se despediu de Carlos, pois o carro de aplicativo que estava esperando havia acabado de chegar.
Durante o trajeto para casa, o psicólogo ficou se sentindo um pouco tenso.
Por mais que quisesse muito acreditar no que havia dito a Carlos, no fundo Túlio sabia que os motivos que o levaram a abandonar a Psicanálise eram outros.
Ele sabia que aquela decisão tinha muito mais a ver com a angústia que vivenciava diante da pressão de certos pacientes por respostas.
Túlio tinha uma forte tendência a querer agradar as pessoas e, por isso, era muito penoso para o rapaz frustrar as expectativas dos pacientes.
Ele sabia que precisava tratar esse sintoma, mas dizia para si mesmo que ainda não tinha dinheiro suficiente para fazer sua análise pessoal — o que não era verdade.
Certo dia, exausto, ele viu um vídeo de um psicólogo cognitivo-comportamental criticando a Psicanálise e resolveu comprar o curso oferecido pelo profissional.
Gradativamente, Túlio passou a implementar a metodologia de trabalho que aprendia no curso, o que lhe proporcionou um grande alívio.
Afinal, agora, quando um paciente lhe perguntava o que devia fazer, ele sempre tinha “boas” respostas na ponta da língua…
E foi assim que o rapaz abandonou a Psicanálise e passou a trabalhar com terapia cognitivo-comportamental.
Não foi porque ele estudou bastante, comparou, e chegou à conclusão de que a segunda era melhor que a primeira.
Foi simplesmente porque se sentia excessivamente angustiado ao tentar praticar a Psicanálise.
Mas admitir isso seria muito difícil para Túlio. Ele não queria se enxergar como alguém que não deu conta da Psicanálise. Seria narcisicamente insuportável.
Por isso, precisou inventar para si mesmo aquela narrativa de que mudou de abordagem simplesmente por ter visto que uma era melhor que a outra.
O nome desse tipo de defesa psíquica é RACIONALIZAÇÃO. E é sobre ela que eu falo na aula publicada hoje (sexta) na CONFRARIA ANALÍTICA.
O título da aula é “Racionalização: as desculpas que inventamos para nós mesmos” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS.
🎭 Quantas vezes você já fez como Túlio e inventou uma boa desculpa pra si mesmo?
A gente se engana bonito. E ainda acredita na própria mentira. 😶🌫️
Na Psicanálise, isso tem nome: racionalização.
💬 É sobre isso que falo na aula publicada hoje na Confraria Analítica: “Racionalização: as desculpas que inventamos pra nós mesmos.”
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Esta é uma pequena fatia da aula especial “CONCEITOS BÁSICOS 21 – Insight”, que já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – CONCEITOS BÁSICOS” da CONFRARIA ANALÍTICA.
Participe, por apenas R$49,99 por mês ou 497,00 por ano, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.
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A tese que pretendo demonstrar ao longo deste artigo é bastante simples: frequentemente ocultamos nossas verdadeiras (e não tão nobres) motivações por trás de argumentações pretensamente racionais. Em Psicanálise, esse tipo de procedimento mental é chamado de racionalização. Trata-se de um dos inúmeros mecanismos de defesa que podemos utilizar para protegermos nossa autoimagem do reconhecimento de determinados desejos que “não pegariam bem”, por assim dizer. Em outras palavras, estamos falando do bom e velho autoengano. Vou trazer alguns exemplos para que você entenda a que estou me referindo.
Nos últimos anos, alguns famosos “influencers” que fazem sucesso no Instagram têm postado fotos e vídeos em estandes de tiro e defendido a posse de armas. Qualquer pessoa razoavelmente observadora consegue perceber com muita facilidade que a exibição que tais influenciadores fazem de suas pistolas e revolveres é parte de um esforço para demonstrarem uma suposta virilidade que deveria ser expressa por todo homem. Dito de modo mais simples: a arma funciona para essas pessoas como um signo de masculinidade. A exibição do armamento lhes ajuda a se apresentarem para suas audiências como “homens de verdade”.
No entanto, você não os verá em nenhum momento confessando essa obviedade. Em vez disso, eles falarão o tempo todo que a arma é um instrumento absolutamente necessário para a garantia da própria segurança e a proteção da família. Ainda que a maioria deles more em condomínios e apartamentos com um nível de segurança que 99% da população não pode ter, tentarão convencer você que ter uma pistola em casa é uma necessidade absoluta na vida de todo “pai de família”.
Eles poderiam muito bem dizer para suas audiências que gostam de armas porque ter algumas delas em casa os faz se sentirem mais masculinos, mais viris, mas… isso não pegaria bem, né? Por isso, ocultam essa motivação que, cá para nós, é bastante infantil, por meio da desculpa de que estão preocupados com a segurança de suas famílias.
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