É preciso ter olhos para ver e ouvidos para ouvir

Quando a gente aprende que o Inconsciente é constituído de ideias recalcadas, surge a tentação de imaginá-lo como uma caixinha onde esses pensamentos são depositados.

Essa comparação não é boa porque ela sugere a falsa conclusão de que as ideias ficam paradas lá no Inconsciente à espera de serem resgatadas.

Na verdade, os pensamentos recalcados não param quietos!

Eles estão o tempo todo se manifestando.

Porém, como sua entrada na Consciência foi barrada, eles precisam recorrer a representantes, assim como grandes empresas utilizam parlamentares para fazerem valer seus interesses na legislação.

Tal como na relação promíscua entre empresários e políticos, o retorno do recalcado acontece debaixo dos panos, nos bastidores das nossas intenções oficiais…

É preciso ter olhos para ver a silhueta do recalcado numa inocente troca de palavras.

É preciso ter ouvidos para ouvir a voz do Inconsciente num inofensivo ritual cotidiano.


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[Vídeo] Psicanalista explica como o recalque funciona

Neste vídeo: entenda por que o recalque é paradoxalmente uma maneira de evitar que um determinado desejo seja abandonado.


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Por que temos tanta dificuldade para abandonar nossos problemas emocionais?

Por que será que a gente não sai de uma depressão apenas com força de vontade?

Por que será que permanecemos em relacionamentos ruins mesmo já estando convictos de que deveríamos sair deles?

Por que será que padrões doentios como procrastinação, crises de ansiedade e compulsões se repetem na nossa vida apesar do nosso desejo de mudar?

Em outras palavras, por que é tão difícil sair de um quadro de adoecimento emocional?

Isso acontece porque nossos problemas emocionais não são eventos que acontecem conosco. Na verdade, nós os CRIAMOS.

Sim, a gente CRIA nossas enfermidades psicológicas, só que inconscientemente.

E a gente faz isso por basicamente por duas razões: para se PROTEGER e para se SATISFAZER.

Explico: você provavelmente não conseguirá perceber isso com clareza sem passar por uma terapia psicanalítica, mas seus problemas emocionais protegem você… de você mesmo.

Por meio de crises de ansiedade, episódios depressivos, relacionamentos doentios etc. você evita entrar em contato com certos impulsos da sua alma que se encontram reprimidos.

Por outro lado, nossos sintomas também proporcionam uma satisfação indireta justamente para esses impulsos reprimidos.

Em outras palavras, você não percebe, mas pode estar satisfazendo impulsos sexuais ou agressivos de forma disfarçada e simbólica por meio dos seus problemas emocionais.

Por isso é tão difícil sair deles.

É como se inconscientemente a gente pensasse assim:

“Não posso largar essa doença. Do contrário, precisarei lidar com os meus impulsos de forma direta, sem disfarces… E eu não quero fazer isso, pois tenho medo do estrago que esses impulsos podem fazer na minha vida”.

A Psicanálise ajuda o sujeito a perder esse medo e, consequentemente, a não precisar mais de seus sintomas.


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No Inconsciente estão as páginas da nossa história que, com medo de ler, resolvemos pular.

Quando a gente fala que no Inconsciente encontram-se memórias, desejos e fantasias que nós reprimimos, corremos o risco de imaginar que o processo acontece mais ou menos assim:

A gente experimenta conscientemente o desejo, entende que ele é incompatível com o ego e decide retirá-lo da consciência.

Todavia, não é dessa forma que as coisas se passam.

Na segunda fase da sua produção teórica (que começa no início dos anos 1920), Freud chega à conclusão de que os mecanismos de defesa (como o recalque) são acionados pela experiência da ansiedade.

Como sabemos, ansiedade, angústia e medo são afetos que se caracterizam por sensações muito semelhantes.

Nesse sentido, creio que não seria incorreto dizer que a gente se defende quando está com medo, ou seja, quando nos sentimos AMEAÇADOS.

Com efeito,  certas memórias, desejos e fantasias parecem tão contrários à imagem que temos de nós mesmos e de outros que SEM PENSAR a gente reprime esses conteúdos.

SEM PENSAR: esse é o ponto. A defesa não ocorre após um esforço reflexivo por parte da pessoa.

A gente reprime simplesmente porque tem a IMPRESSÃO de que não vai dar conta de suportar conscientemente determinados conteúdos.

É o medo que produz a defesa e não uma avaliação racional das memórias, desejos e fantasias que parecem ameaçadores.

Nesse sentido, o que a gente encontra no Inconsciente são justamente conteúdos não compreendidos, não avaliados.

Como aquelas comidas que a gente, por medo, evita comer antes mesmo de provar.


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A gente faz Psicanálise para perder o medo de si mesmo

Somos estimulados desde a mais tenra idade a nos dividirmos.

Na infância, nossos pais instintivamente nos encorajam (ou nos obrigam) a abandonar certos comportamentos  — por mais satisfatórios que sejam.

Mais do que isso: somos incentivados e coagidos a renunciar não só a certas ações, mas também à vontade de realizá-las.

Com isso, se forma em nós desde muito cedo uma divisão radical entre quem a gente espontaneamente é e quem o mundo quer que a gente seja.

Quem tem a sorte de passar por essa separação de forma gradual e orgânica consegue adaptar sua espontaneidade aos limites impostos pelo mundo.

Nessas pessoas, a divisão se apresenta como uma mera DIFERENÇA entre uma parte 100% espontânea e outra adaptada.

Por outro lado, há aqueles que foram obrigados a abandonar seus impulsos espontâneos em prol das exigências do mundo de forma brusca e violenta.

Esses traumatizados passam a temer a própria espontaneidade, encarando-a como perigosa e destrutiva.

Diferentemente dos primeiros, eles não se esforçam para expressar seus impulsos adaptando-os às regras do jogo do mundo.

Para os traumatizados, a espontaneidade não deve ser sequer visitada. Eles tentam a todo custo mantê-la reprimida, tornando-se exclusivamente aquilo que o mundo quer que sejam.

A Psicanálise é um método psicoterapêutico voltado justamente para essas pessoas.

Quem não suporta mais viver uma existência vazia, mecânica, sem espontaneidade, será convidado, pela Psicanálise, a perder o medo de si mesmo.


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A gente faz Psicanálise para validar o que não queremos enxergar em nós mesmos

Somos seres divididos.

Existe uma grande e espessa parede dentro de nossa alma separando-a em duas grandes partes: o Consciente e o Inconsciente.

Do lado do Consciente estão todos os pensamentos e sentimentos que voluntariamente queremos enxergar em nós mesmos — e damos conta de enxergar.

Do lado do Inconsciente estão todos os conteúdos que também, obviamente, fazem parte de nós, mas que a gente não quer reconhecer que possui.

Na parede que separa uma parte da outra existe uma porta que paradoxalmente está sempre aberta.

É por essa porta que certos elementos que fazem parte do Consciente podem ser levados para o Inconsciente.

Isso acontece quando determinadas ideias que nasceram no Consciente acabam não se adaptando às “normas da casa” e se tornam incômodas e perturbadoras.

Assim, tais ideias são “convidadas a se retirar” dali e irem morar no Inconsciente, onde poderão agir como bem desejarem…

Mas a porta que eu mencionei acima também permite que elementos do Inconsciente atravessem a parede e penetrem no Consciente.

No entanto, como tudo o que faz parte do Inconsciente é tratado pelo Consciente como indigno, ameaçador e perigoso, os elementos inconscientes são obrigados a se disfarçarem.

Com efeito, só conseguem acessar o Consciente vestindo roupas inofensivas e se comportando de uma forma não barulhenta.

Dessa forma, podem viver no Consciente e mexer com ele sem levantar suspeitas.

Os principais disfarces empregados pelos conteúdos do Inconsciente são os sonhos, os atos falhos, os comportamentos involuntários e os sintomas neuróticos.

Mas por que esse pessoal do Inconsciente quer morar no Consciente? Por que eles não ficam lá onde estavam?

Ora, porque o Consciente é sua terra natal. As ideias que estão no Inconsciente um dia estiveram do outro lado, mas foram expulsas de lá.

Na verdade, o que elas verdadeiramente querem não é apenas viver sob disfarce no Consciente.

Seu maior sonho é serem reconhecidas e aceitas do jeito que são.

Elas gostariam de recuperar a “cidadania” consciente a fim de poderem viver ali sem precisar recorrer a complicados disfarces.

É um pouco esse processo de acolhida e legitimação das ideias que vêm do Inconsciente que nós ajudamos os pacientes a fazerem em Psicanálise.


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“O inconsciente é o capítulo censurado” (Jacques Lacan, 1953)

Ontem à noite na aula ao vivo da Confraria Analítica, eu estava demonstrando para os alunos que uma das principais evidências da existência do Inconsciente são os “furos” que existem na narrativa que fazemos da nossa própria história.

Diferentemente do que acontece em um filme ou uma série bem produzidos, no roteiro que descreve nossa biografia há diversas partes faltantes que fazem o enredo ficar eventualmente incompreensível.

É por isso que, não raro, uma das principais queixas que os pacientes apresentam na clínica psicanalítica pode ser expressa por frases como: “Não sei por que faço isso!” ou “Não consigo entender por que sou assim!”.

As respostas para essas questões estão justamente naquelas partes do roteiro do nosso “filme” biográfico que nós deliberadamente cortamos e tentamos descartar, ou seja, naquelas ideias, pensamentos e lembranças que foram objeto de… recalque.

Os conteúdos recalcados representam as “cenas” que a gente não quer que sejam veiculadas nas telas do nosso “cinema” interior; obsCENIDADES que revelam quem verdadeiramente somos por trás das câmeras.

O recalcado, no entanto, sempre retorna, já dizia Freud. A gente inevitavelmente acaba tropeçando nas partes censuradas do nosso filme biográfico. E quando a queda é grande e causa dores e feridas, é nesse momento que a gente procura análise…

Você já se deu conta desses “furos” no roteiro da sua vida?


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O que são os mecanismos de defesa?

Freud descobriu que a mente trabalha de forma semelhante. Ela recebe as experiências que a gente tem na vida, processa essas experiências, assimila aqueles pensamentos que considera úteis e tenta descartar o excedente. Os mecanismos de defesa se fazem presentes justamente na etapa de processamento. Na hora de definir quais ideias serão absorvidas e quais serão rejeitadas, a mente adota os parâmetros que foram nela instalados pelas pessoas significativas com as quais o sujeito conviveu e que exerceram a função de autoridade na vida dele (por exemplo: pai, mãe, professores, avós etc.).

Com base nos critérios que essas pessoas “injetaram” na nossa mente, a gente seleciona com que pensamentos vamos ficar e que pensamentos vamos “excretar”. O problema é que, diferentemente do que acontece com o funcionamento do aparelho digestivo, nós não podemos “defecar” experiências, ideias, pensamentos. Por mais que queiramos expurgá-los da nossa alma, eles continuarão presentes lá, como visitantes indesejados. É aí que entram os mecanismos de defesa: eles existem justamente para que possamos continuar vivendo sem nos incomodarmos com essas “fezes psíquicas”.

Leia o texto completo em bit.ly/drdmecanismos


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O negacionismo nosso de cada dia

Por que é tão difícil para algumas pessoas admitirem que nós estamos numa situação realmente grave e catastrófica? Por que tantos indivíduos não conseguem reconhecer a realidade? Talvez você esteja se fazendo essa pergunta e imaginando que não pertence a esse grupo. Talvez você olhe para os negacionistas da pandemia e acredite que são pessoas ignorantes, tolas e que você jamais seria uma delas, afinal, você é um indivíduo esclarecido, que não se deixa levar por teorias conspiratórias e aceita a realidade tal como ela é.

Se você pensa assim, sinto lhe informar, mas nem eu e nem você estamos tão distantes assim dos negacionistas. Para dizer logo de cara: todos nós somos negacionistas em alguma medida. Você pode até não negar a realidade do vírus e da pandemia, mas certamente há pontos da sua própria história em relação aos quais você certamente é um negacionista. Foi o que eu tentei mostrar à paciente que me sugeriu esse artigo.

Leia o texto completo em bit.ly/drdnegacionismo


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Reprimir é conservar

Primeiramente, deixa eu definir o que é repressão para você que está chegando agora por aqui.

Repressão (ou recalque) é um mecanismo psicológico descoberto por Sigmund Freud, fundador da Psicanálise. Trata-se de um procedimento mental que utilizamos inconscientemente quando surgem na nossa alma certas ideias que são incompatíveis com a imagem que queremos ter de nós mesmos.

Exemplo: tomemos o caso de uma jovem de 22 anos que percebe a si mesma (e quer continuar se percebendo) como sexualmente pura do ponto de vista religioso. Eventualmente, essa moça desenvolve uma intensa amizade com uma colega de trabalho e essa situação acaba servindo como gatilho para que desejos de natureza homossexual aflorem na alma dela. Ora, essa jovem não pode admitir para si esses desejos, pois eles não são compatíveis com a autoimagem de pessoa sexualmente pura que ela possui. É aí que entra a repressão. Para se defender das ideias homossexuais, essa moça inconscientemente impedirá que elas ganhem acesso à sua consciência.

E é exatamente isso que significa reprimir (recalcar): impedir que determinadas ideias se tornem conscientes.

Qual é o problema na utilização desse mecanismo? O problema é que, ao bloquear o acesso de certas ideias na consciência, a gente perde a possibilidade de analisá-las, tratá-las e, eventualmente, descartá-las.

É muito simples. Veja: eu só consigo jogar fora um objeto que não desejo mais utilizar se eu SOUBER que essa coisa está na minha casa e, portanto, puder avaliar se vale a pena ficar com ela ou não. Se esse objeto estiver escondido, não tem como eu descartá-lo. Óbvio.

Da mesma forma, a jovem do exemplo acima não terá a oportunidade de renunciar aos desejos homossexuais (como provavelmente gostaria tendo em vista seus ideais), pois não se permite reconhecê-los.

Vejam que curioso: ela, que percebe a homossexualidade como incompatível com a imagem de si, está paradoxalmente CONSERVANDO em sua alma os pensamentos homossexuais na medida em que decidiu não olhar para eles à luz da consciência.


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[Vídeo] Somos todos falsas testemunhas

Neste oitavo vídeo da série “Os Dez Mandamentos” comento o mandamento “Não levantar falso testemunho” mostrando que, do ponto de vista psicanalítico, mentir para si mesmo é uma atitude que faz parte da condição humana. Adoecemos emocionalmente quando esse “falso testemunho” sobre si ocorre em excesso.


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[Vídeo] O que são os mecanismos de defesa?

[Vídeo] Recado Rápido #06 – Não se esqueça

Neste sexto recado rápido, comento uma relevante lição que a experiência psicanalítica nos forneceu, a saber: os danos que podemos provocar em nós mesmos ao tentar lidar com nossos conflitos esquecendo-os. Freud nos ensinou que, na tentativa de nos defendermos da angústia que determinados pensamentos provocam, nós tendemos a expulsá-los da consciência. O problema é que eles insistem em se fazer reconhecer e podem alcançar esse objetivo através de sintomas.


[Vídeo] Recalque

Atualmente, a palavra “recalque” e suas correlatas “recalcado” e “recalcada” têm se feito presentes com muita frequência no linguajar popular, especialmente entre os mais jovens. Ao contrário do que se poderia pensar num primeiro momento, isso não significa que a juventude brasileira esteja lendo mais sobre psicanálise. Por reviravoltas que a só a linguagem é capaz de provocar, a palavra “recalque” é utilizada não em sua acepção original psicanalítica, mas como sinônimo de inveja ou ressentimento. Levando isso em conta, decidi falar no vídeo abaixo sobre o sentido preciso que o conceito de recalque possui na teoria psicanalítica.

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Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 3)

No último post desta série vimos que, por volta dos anos 1920, Freud se viu diante de um baita problema teórico: de que valia continuar utilizando o termo “inconsciente” para designar uma parte específica de nosso psiquismo se essa parcela da mente se parecia mais com um tremendo balaio de gato onde cabiam coisas tão heterogêneas como os impulsos reprimidos e as partes do ego que impediam que esses impulsos fossem reconhecidos pelo sujeito, ou seja, que provocavam resistência?

Não seria melhor passar a utilizar o termo “inconsciente” num sentido meramente descritivo, ou seja, apenas para fazer referência à forma em que se encontra uma representação mental da qual não estamos conscientes no momento?

“Sim, seria”: essa foi a resposta de Freud. Já que o conceito de inconsciente estava perdendo a especificidade que tinha no início da psicanálise, melhor seria abandoná-lo de vez.

Mas o que colocar em seu lugar? Se o conceito de inconsciente como uma região psíquica já não fazia mais sentido, logo aquela primeira divisão da mente em consciente, pré-consciente e inconsciente também iria para o ralo, certo?

Perfeitamente. O problema agora passava a ser então a elaboração de um novo modelo para representar o psiquismo. Se a mente não poderia mais ser pensada como dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente, como uma seria uma nova estruturação, capaz de superar as limitações da primeira?

A aposta freudiana no conceito de Id

Freud foi encontrar o princípio da resposta que daria a essa pergunta num conceito extraído da obra do médico e psicanalista Georg Groddeck, acerca do qual já falei algumas vezes aqui no site e cuja obra, aliás, foi meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva.

Influenciado pela leitura de Nietzsche, Groddeck vinha utilizando naquela época a palavrinha alemã “Es” (cuja tradução para o latim seria “Id”) para fazer referência a uma espécie de força vital que condicionaria toda a nossa existência, desde a formação dos órgãos do corpo até os nossos mais sutis pensamentos. Nesse sentido, nenhuma de nossas escolhas seria autônoma, ou seja, produto de nosso livre-arbítrio. Groddeck costumava dizer que em vez da frase “Eu vivo” deveríamos dizer “Sou vivido por isso”.

O que Groddeck queria, na verdade, era chamar a atenção para o fato de que nenhum de nós se encontra isolado do contexto em que vive e carrega em si as marcas de sua própria história. Em decorrência, todas as nossas escolhas são o produto da nossa relação coma natureza (da qual somos apenas uma modificação) bem como de nossa história. O conceito de “Es” servia para Groddeck justamente para evidenciar o fato de que o que nós chamamos de que nós não somos donos do nosso próprio nariz na medida em que nos encontra na dependência de fatores que estão para além de nós mesmos e acerca dos quais na maioria das vezes não temos consciência.

Ora, esse modo de entender a existência humana proposto por Groddeck era bastante semelhante à conclusão que Freud havia chegado desde que inventara a psicanálise e que sintetizou na famosa frase: “O eu não é senhor na própria casa.”. No momento em que Freud proferiu essa frase, o que ele tinha em mente era a força do inconsciente na determinação da conduta humana. Mas se a ideia de “o inconsciente” já não fazia muito sentido, como continuar sustentando que o “eu não é senhor na própria casa”?

Tomando emprestado de Groddeck o conceito de “Es”, ora! O termo parecia perfeito para designar a região da mente que Freud até então vinha chamando de inconsciente e, de quebra, não tinha os inconvenientes do termo inconsciente!

O vocábulo “Es” na língua alemã é um pronome impessoal. Por isso, as edições mais recentes da obra de Freud preferem traduzir o termo por “Isso” em vez de “Id”, justamente para valorizar esse aspecto semântico referente a algo indeterminado, desconhecido, obscuro. Essa característica, aliás, foi uma das razões que levaram Freud a gostar do conceito. Pareceu-lhe o termo ideal para contrapor ao ego, na medida em que colocaria em primeiro plano a verdadeira oposição que interessa à psicanálise, a saber: a oposição entre o ego e a pulsão, essa fome insaciável de viver que pode, paradoxalmente, colocar a vida em risco. É esse conflito que de fato esteve nas raízes da psicanálise e não o embate entre consciência e inconsciente!

O Id freudiano

Diferentemente de Groddeck, que entendia o Id como a expressão da nossa vinculação indissociável com o mundo, Freud privilegiou o significado do conceito referente a algo exterior ao ego, exemplificado na famosa frase de uma personagem da Escolinha do Professor Raimundo: “Ele só pensa naquilo”. Esse “naquilo” é obviamente a sexualidade, a qual, para Freud, se manifesta no ser humano de modo excessivo, desmedido e que, por conta disso, adquire uma conotação de exterioridade em relação ao ego. É por isso que, do ponto de vista freudiano, haverá sempre um conflito entre o ego e as pulsões no cerne de cada alma humana.

O Id é justamente o conceito que Freud empregará para situar o lugar que essas pulsões ocupam no aparelho psíquico. No Id se encontrariam tanto as pulsões sexuais quanto as pulsões de morte (responsáveis pela agressividade que dirigimos contra nós mesmos e contra os outros). As pulsões seriam os representantes no psiquismo de necessidades provenientes do corpo e buscariam unicamente a satisfação sem levar em conta as possibilidades reais de obtê-la e, muito menos, se essa satisfação faria bem para o sujeito. A norma que regula o funcionamento mental dentro do Id é o princípio do prazer, ou seja, no Id uma representação mental se liga a outra não em função de uma relação lógica ou semântica, mas sim devido ao fato de ambas estarem ligadas mutuamente a uma experiência de satisfação ou de busca dela. Assim, no Id, a fórmula 1 + 1 não é necessariamente igual a 2. Pode ser igual a 3 ou a 20 caso essa estranha equação favoreça a conquista do prazer e da satisfação. Em outras palavras, não há razão no interior do Id. A racionalidade é um modo de funcionamento mental a ser conquistado pelo sujeito.

No próximo post veremos como essa conquista é levada a cabo. Conheceremos de que modo o Id dá origem ao ego, esse filho ingrato que desde o nascimento já entrará em conflito com seu genitor e, se possível, veremos ainda o surgimento do terceiro e último elemento da segunda tópica, o famoso e feroz “superego”.

CONTINUA.

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