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Você pode ter aprendido quando criança que a agressividade é essencialmente ruim ou perigosa.
E isso pode ter acontecido por uma série de fatores.
Por exemplo: você pode ter tido um pai ou uma mãe que eram excessivamente agressivos e lhe faziam sentir medo.
Ou pode ter sofrido severas ameaças e punições nas poucas vezes em que expressou agressividade.
Situações como essas podem te levar a olhar para a própria agressividade como algo que não deve fazer parte da sua vida.
O problema é que não dá para viver sem agressividade.
Por isso, já que você tem medo de se apropriar dela, ela acabará vazando em sua vida — de uma forma ou de outra.
Uma forma muito comum de “vazamento” é o que Freud chamou de “reversão”: em vez de usar a agressividade, você, inconscientemente, convoca outra pessoa para usá-la com você.
Essa “convocação” pode acontecer por meio da escolha de uma pessoa excessivamente agressiva para se relacionar ou da indução de agressividade em alguém que nem é naturalmente muito agressivo.
Dessa forma, a agressividade se presentifica na sua vida só de que maneira invertida: não é você que a manifesta; é o outro que a manifesta no seu lugar.
— Nossa, Lucas, isso parece masoquismo, não?
Sim. E não é por acaso. Deixa eu te explicar.
Na cabeça do sujeito que foi levado a ver a agressividade com maus olhos, ela passou a ser sinônimo de sadismo, ou seja, de um impulso que busca intencionalmente a destruição ou o sofrimento do outro.
Por isso, quando a agressividade vaza por meio da reversão, o sujeito não busca alguém que a vive de forma integrada e saudável. Não. Ele busca um… sádico! (Ou induz seu parceiro a agir de forma sádica).
Consequentemente, a posição que o sujeito passa a ocupar é uma posição… masoquista.
Esse é um fenômeno muito comum em relações tóxicas e ajuda a entender porque algumas pessoas não conseguem sair dessas relações.
Às vezes, quem olha de fora até chega a pensar:
“Caramba! Essa mulher parece que gosta de sofrer! Olha como o marido a trata mal…”
Não é que a pessoa gosta de sofrer no sentido de que ela obtém prazer em ser xingada e humilhada por seu marido.
É que, talvez, essa seja a única forma que ela encontrou de permitir a presença da agressividade em sua vida: sendo objeto do sadismo alheio…
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Ao longo da história, muitos pensadores meditaram sobre os atributos que diferenciariam radicalmente os seres humanos de outros animais.
Uma opinião conhecida é a de que a razão seria essa característica distintiva: apenas o homem seria capaz de pensar racionalmente.
Outra visão clássica é a de que a linguagem (no sentido forte do termo) seria a propriedade que, de fato, nos separa das demais espécies.
Aventurando-me a entrar nessa polêmica e sem a pretensão de estar propondo nada novo, eu diria que:
Nós, humanos, somos seres que, diferentemente dos outros animais, temos a capacidade de imaginar.
Enquanto o doguinho que adormece ao seu lado no sofá só tem acesso à realidade que a vida lhe impôs, você pode ir muito além dela.
Você pode estar aí na sua casa, afagando seu pet e, ao mesmo tempo, estar beijando seu namorado na casa dele — no plano da imaginação.
A capacidade de imaginar nos liberta dos limites da realidade factual.
Ela nos permite criar cenários virtuais que eventualmente podem até se converter em reais.
Foi o que aconteceu com muitas invenções tecnológicas.
O problema é que a imaginação também pode ser fonte de muito sofrimento.
Pense, por exemplo, numa pessoa ansiosa que não consegue dormir justamente por ficar imaginando catástrofes que podem lhe acontecer.
Mas quero me deter em outra situação muito comum na qual a imaginação mais atrapalha do que ajuda:
É quando ela se coloca a serviço da idealização.
Veja esse exemplo:
Frustrada com certos comportamentos de Alberto, Bianca fica imaginando quão melhor seria sua vida se o marido fosse diferente.
Influenciada por conteúdos de Instagram, ela vai pouco a pouco construindo em sua imaginação o homem que Alberto deveria ser.
Sim, porque os influenciadores que Bianca segue a fazem acreditar que o marido ideal não deve ficar só no plano da imaginação.
Ele precisa existir.
Então, Bianca começa a achar que está vivendo errado e entra em desespero.
Afinal, dia após dia, ela percebe que o Alberto real jamais se transformará no Alberto ideal que imaginou.
Moral da história:
Quando você usa a imaginação para criar uma versão “corrigida” da realidade, na esperança de acabar definitivamente com suas frustrações…
… o resultado costuma ser o oposto: você fica ainda mais frustrado.
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Algumas pessoas vivem esperando sempre a mesma coisa dos outros. Por exemplo: rejeição, crítica, abandono, frieza etc.
E, curiosamente… quase sempre encontram.
Coincidência?
Nem sempre.
Quando uma criança passa por um grande trauma ou vive em um ambiente consistentemente traumático, ela precisa criar uma defesa doentia para se proteger.
Se proteger do quê?
Da AGONIA gerada pelo trauma ou pelo ambiente traumático.
O que qualifica uma experiência como traumática é o fato de ela ultrapassar a capacidade de compreensão mental e emocional do sujeito.
É por isso que a criança tem mais chances de passar por traumas do que o adulto. Com efeito, a capacidade de compreensão infantil é muito precária.
Para se proteger da possibilidade de voltar a vivenciar o trauma ou continuar nele, a criança, como eu já disse, tende a criar uma defesa doentia.
Essa defesa tem a estrutura de uma fantasia relacional: o outro (ou o mundo) é do jeito X; logo, preciso ser do jeito Y.
Exemplos:
O outro nunca me acolhe; logo, preciso me mostrar superior a ele.
O outro nunca me ajuda; logo, preciso fazer tudo sozinha.
O outro sempre me invade; logo, preciso me fechar.
O outro está sempre contra mim; logo, preciso estar na defensiva.
É claro que todas essas crenças são, como dizem certos filmes, “baseadas em fatos reais” — as experiências traumáticas.
Apesar disso, merecem o rótulo de fantasias porque fazem afirmações generalizadoras e absolutas que não correspondem à realidade.
São fantasias também porque são criadas justamente para substituírem a realidade.
É como se a criança pensasse:
“É melhor imaginar que esse trauma pelo qual passei sempre vai acontecer porque, assim, eu consigo, pelo menos, me manter preparada.”
O problema é que, justamente por conta dessa função defensiva, a pessoa começa, sem perceber, a desejar que a realidade comprove a fantasia.
E isso pode acontecer de duas formas:
(1) O sujeito interpreta de forma distorcida certas experiências para encaixá-las na fantasia. Por exemplo:
Um homem pode interpretar uma simples discordância da namorada como ataque para continuar sustentando a fantasia de que o outro está sempre contra ele.
(2) O sujeito estabelece relacionamentos (amorosos, profissionais, de amizade etc.) com pessoas que, de fato, vão se comportar do modo “previsto” pela fantasia.
Uma mulher pode, por exemplo, se casar com um homem frio, que está sempre criticando-a, a fim de confirmar a fantasia de que o outro nunca a acolhe.
É assim que funciona a cabeça do traumatizado: ele prefere viver na previsível fantasia desagradável do que se abrir para a realidade e ser pego de surpresa…
Você se identificou com o texto?
Se sim, qual a sua fantasia?
E como vem fazendo para “comprová-la” no seu dia a dia?
***
Você pode estudar psicanálise por anos…
e continuar sem saber o que fazer na sessão.
Foi exatamente para resolver isso que nasceu a Confraria Analítica.
Em comemoração aos 5 anos da escola, o plano anual está por R$ 497.
E sim:
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Esta é uma pequena fatia da aula “Terapia psicanalítica de casais: uma introdução” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS da CONFRARIA ANALÍTICA.
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— Ele só pensa nele e no trabalho, Jordana. Eu não aguento mais ser viúva de marido vivo.
Milena cruzou os braços e olhou para o chão.
Jonas balançava a cabeça, inconformado.
— Quer responder, Jonas? — perguntou Jordana, a psicanalista que atendia o casal.
O comerciante olhou para a esposa e disse:
— É inacreditável, Milena… Então, todo o esforço que eu faço lá na loja para proporcionar uma vida confortável para você e os meninos é egoísmo?
— Até parece que você faz isso por nós! Pare de se enganar! Seu negócio é querer ganhar cada vez mais dinheiro, igualzinho ao papai…
Nesse momento, Jordana questionou:
— Igualzinho ao papai? Como assim, Milena?
— Papai também só vivia para o trabalho. Eu quase não via ele em casa.
Sentindo-se injustiçado, Jonas disse:
— Não tem nada a ver, Jordana. O pai dela gastava todo o dinheiro que ganhava em jogo. Chegou a deixar a família passar necessidade. Eu nunca faria isso!
A analista interveio:
— Não é exatamente esse o ponto da comparação, Jonas. Mas é interessante que você tenha entendido dessa forma. Podemos explorar isso em outro momento. Agora, acho importante entendermos o pano de fundo da queixa da Milena.
Voltando-se para a esposa, Jordana disse:
— Parece que a dedicação tão intensa do Jonas ao trabalho ativa em você as frustrações que tinha quando criança em relação ao seu pai. E talvez essa dor pela ausência paterna na infância acabe amplificando a dor que você sente na relação com o Jonas.
Na sequência, virou-se na direção do marido e disse:
— Então, Jonas, perceba que a dedicação ao trabalho, que você vê como sacrifício e empenho pela família, a Milena enxerga como abandono afetivo, por conta da história de vida dela. São duas perspectivas totalmente divergentes, mas ambas são válidas e legítimas. Nenhum dos dois está errado.
Isso é terapia psicanalítica com casais.
O objetivo não é decidir quem tem razão nem dizer como o casal deve agir.
É ajudar os parceiros a compreenderem o funcionamento psíquico um do outro.
Eu explico isso de forma mais aprofundada e detalhada na aula “Terapia psicanalítica de casais: uma introdução”, publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.
Lá você encontra mais de 400 aulas para estudar psicanálise de forma profunda e aplicável à vida real.
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O que leva uma pessoa a se interessar por outra, do ponto de vista amoroso, costumam ser algo muito superficial:
Aparência física, modo de conversar, estilo, traços de personalidade, status social etc.
Por outro lado, o que faz com que duas pessoas estabeleçam e mantenham um laço amoroso consistente são motivos mais profundos.
E justamente por serem dessa ordem, tais elementos não são facilmente visíveis. Só conseguimos vislumbrá-los mediante uma análise franca e cuidadosa.
Você pode até ter se interessado por seu marido por achá-lo atraente, mas o que te mantém na relação tem muito mais a ver com você do que com ele.
Uma das principais razões pelas quais vocês estão juntos pode ser o fato de que ele possui aspectos que você gostaria de ter, mas não consegue.
Você pode ser, por exemplo, uma pessoa extremamente passiva, boazinha, que aceita tudo e ele, em contrapartida, ser temperamental, caprichoso, rígido.
A assertividade e firmeza que faltam em você estão presentes nele em excesso.
Sim, a sabedoria popular está certa: os opostos se atraem.
Não raramente, nos vinculamos a pessoas que supostamente nos “completam” por encarnarem elementos que nos faltam.
Mas podemos também consolidar relacionamentos com parceiros que representam aquilo que FALTOU em nossa história de vida.
De repente, você teve uma mãe que não lhe dava muita atenção. Talvez ela trabalhasse muito, talvez ela simplesmente não quisesse ter sido mãe. Acontece.
E aí, carente da atenção materna, o que você faz? Inconscientemente, procura alguém que não tirará os olhos de cima de você.
Você gostou da sua namorada logo de cara porque ela era bonita, interessante, gostava das mesmas coisas que você, mas…
O que te fez CONTINUAR na relação foi o fato de que essa moça te deu o que sua parte infantil ainda pedia para mamãe: olhar, atenção…
O problema é que ela te olha até demais, né? E você, que na infância se sentia invisível, não reconhecido, agora se sente… controlado.
“Cuidado com o que desejas…”, diz o provérbio judaico.
— Tem como evitar que isso aconteça, Lucas?
Complicado… Até porque, sem terapia, dificilmente a gente reconhece nossas carências. Então, naturalmente somos guiados por elas.
Mas nem tudo está perdido.
Fazendo análise, podemos repensar as eventuais escolhas compensatórias que fizemos e decidir, com mais consciência, se queremos mantê-las ou abandoná-las.
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Responda rápido: quem foi a primeira pessoa que você amou na vida?
Se você não respondeu “minha mãe”, sua resposta está errada.
Sim, a primeira pessoa que todos nós amamos na vida é a mãe (ou aquela que faz a função materna).
Não tem como ser diferente, gente. É natural que estabeleçamos um vínculo de amor com a pessoa que inicialmente assegura nossa sobrevivência.
É a mãe (ou figura materna) que nos alimenta, nos protege do frio, nos dá colo etc. É praticamente inevitável que amemos essa pessoa.
Para os chatos de plantão: é claro que o pai também pode fazer tudo isso, mas, via de regra, é a mãe quem se encarrega de tais funções — sobretudo nos primeiros meses.
— OK, Lucas, mas por que você está nos lembrando dessas obviedades?
Porque eu quero chamar sua atenção para um fato que não é tão óbvio assim… Veja:
Se a figura materna é a primeira pessoa que a gente ama, isso significa que o vínculo com ela servirá de base, de modelo, para nossas relações amorosas posteriores.
Não, não estou me referindo ao velho clichê de que você vai se apaixonar por pessoas parecidas com sua mãe. Pode acontecer, mas não é disso que estou falando.
O ponto é que certos aspectos estruturais presentes no vínculo inicial com a mãe tendem a reaparecer nas relações com nossos parceiros ou parceiras.
Vou citar um desses aspectos: a dupla função que a mãe exerce junto ao bebê.
O psicanalista inglês Donald Winnicott descobriu que a mãe é, ao mesmo tempo, objeto e ambiente para seu filho.
Enquanto objeto, ela se oferece ao bebê para ser sugada, mordida, imaginariamente atacada, ou seja, como um alvo dos impulsos dele.
Já como ambiente, a mãe se apresenta como um contexto que fornece (ou não) segurança, previsibilidade, rotina etc.
Ora, nossos parceiros e parceiras tendem a exercer exatamente esses dois papéis conosco:
Por um lado são objetos com os quais saciamos nossos desejos. Por outro, constituem um ambiente no qual nos sentimos acolhidos e seguros.
Vários problemas comuns nos relacionamentos acontecem justamente quando o parceiro não exerce uma dessas funções.
Aí surgem os clássicos:
A pessoa que é um objeto extremamente excitante, mas zero ambiente confiável. Ou aquela que é um ambiente super acolhedor, mas não se coloca como objeto de desejo.
As relações que costumam funcionar melhor — em que ambos se sentem suficientemente satisfeitos (suficientemente!) — são aquelas nas quais cada um consegue, a seu modo, ocupar os dois lugares para o outro.
Isso acontece no seu relacionamento? Ou por aí tá faltando espaço para alguma dessas funções?
***
Na aula temática desta sexta na Confraria Analítica, vamos aprofundar a distinção que Winnicott faz entre mãe-ambiente e mãe-objeto e entender como essa diferença continua moldando nossos relacionamentos na vida adulta.
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