Por que algumas pessoas permanecem fixadas ao complexo de Édipo?

No finalzinho do século XIX, baseando-se em sua experiência clínica e na própria autoanálise, Freud teve a intuição de que toda criança experimenta o desejo de realizar os mesmos atos de Édipo.

Meninos e meninas, na faixa dos 2 a 5 anos mais ou menos, desenvolveriam a fantasia de terem exclusividade erótica sobre a mãe com a consequente eliminação da presença do pai.

Ao grupo de ideias que se produzem a partir desses desejos incestuosos e parricidas Freud deu o nome de COMPLEXO DE ÉDIPO.

Para o pai da Psicanálise, os pacientes neuróticos teriam muita dificuldade de renunciar a tais desejos, permanecendo, portanto, inconscientemente fixados à fantasia edipiana.

Mas o que levaria uma pessoa a se manter fixada no Inconsciente a um elemento infantil?

Resposta: a REPRESSÃO de tal elemento.

Como eu já disse em outras ocasiões, REPRIMIR É CONSERVAR.

Toda vez que a gente reprime um desejo, ou seja, toda vez que a gente expulsa um desejo do nosso campo de consciência e finge que ele nunca existiu, o que acontece?

Ora, ao invés de efetivamente desaparecer, o desejo começa a exercer ainda mais influência sobre nós, pois passa a habitar uma região da nossa mente que a gente não controla: o Inconsciente.

Nesse sentido, se uma pessoa permaneceu fixada ao complexo de Édipo, é porque, quando criança, reprimiu seus desejos incestuosos e parricidas ao invés de permitir que eles desaparecessem naturalmente…

— Beleza, Lucas, entendi. Mas, me diz uma coisa: por que algumas crianças conseguem fazer esse abandono natural do complexo de Édipo e outras o reprimem, ficando fixadas a ele?

Para respondermos essa pergunta, precisamos necessariamente levar em conta o modo como os pais se comportam com a criança durante a vivência do complexo de Édipo.

Freud não falou sobre isso, mas o psicanalista inglês Donald Winnicott, sim.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje (sexta) uma aula especial em que comento esse e vários outros aspectos da visão winnicottiana sobre o complexo de Édipo.

A aula está imperdível! Te vejo lá!


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A timidez como estratégia para se proteger de si mesmo

Uma das experiências mais desafiadoras para qualquer terapeuta, especialmente para os iniciantes, é atender pacientes muito silenciosos.

Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, nem todo o mundo inicia um processo terapêutico botando para fora todas as suas queixas e dificuldades.

Existem pacientes que até falam bastante na primeira sessão, estimulados por algum gatilho recente. Todavia, no encontro seguinte, já se mostram bastante taciturnos.

Há também aqueles que não ficam efetivamente calados, mas fazem uso de uma FALA SILENCIOSA, isto é, abordam as mais irrelevantes banalidades só para preencher o tempo da sessão.

A experiência clínica me autoriza a certificar que, nesses casos, há sempre (sempre!) determinados conteúdos que o paciente se esforça CONSCIENTEMENTE para esconder do terapeuta.

Como dizia o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, o paciente não fica em silêncio ou fala banalidades porque não tem nada a dizer, mas porque precisa CALAR certas coisas.

Se o terapeuta tiver a paciência e a astúcia dos bons investigadores, cedo ou tarde o sujeito acaba confessando a capivara que vinha ocultando e abandona a atitude de retraimento.

Mas essa situação clínica é muito instrutiva porque ela revela uma das origens possíveis da TIMIDEZ.

É claro que experiências de rejeição e humilhação na infância podem contribuir para fazer uma pessoa se tornar retraída e acanhada na vida adulta.

No entanto, em muitos casos, observamos que a inibição é o meio que o indivíduo encontrou para evitar correr o risco de expor certos aspectos de si que considera inadequados, mas que latejam constantemente em sua alma.

Um exemplo muito comum é o de homens que se tornam tímidos na adolescência como forma de evitar a exteriorização de inclinações homossexuais recém-percebidas.

Assim como o paciente silencioso se mostra inibido na terapia para evitar falar de determinadas coisas, a pessoa pode ficar acanhada NA VIDA para se esquivar da TENTAÇÃO de expor certas características suas.

Em outras palavras, nesses casos não estamos falando de tímidos que têm medo de passar vergonha, mas que usam o retraimento como uma estratégia para se protegerem… DE SI MESMOS.


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[Vídeo] A repressão de desejos é inevitável e necessária

Será que a ênfase que Freud deu à influência do fator sexual na produção das neuroses não pode ser explicada pelo fato de que, na época dele, havia uma forte repressão da sexualidade na Europa? Nesse sentido, a teoria freudiana das neuroses não estaria ultrapassada? Confira a resposta no vídeo.


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Freud está ultrapassado?

Ontem uma aluna me fez a uma pergunta que pode ser reproduzida mais ou menos nos seguintes termos:

— Lucas, será que a ênfase que Freud deu à influência do fator sexual na produção das neuroses não pode ser explicada pelo fato de que, na época dele, havia uma forte repressão da sexualidade na Europa? Nesse sentido, a teoria freudiana das neuroses não estaria ultrapassada?

Quero compartilhar com vocês a resposta que eu enderecei a esse pertinente questionamento.

Vamos lá.

De fato, o nexo causal entre sintomas neuróticos e a repressão de certos desejos sexuais pode ser visto com mais clareza num contexto como o do início do século XX em que as pessoas eram INCENTIVADAS a viverem reprimidas.

No entanto, o que Freud descobriu vai muito além disso.

Ao se deparar com o fator sexual na origem das neuroses, o médico vienense foi levado a investigar como funciona a sexualidade humana de modo geral.

E o que Freud descobriu nessa pesquisa?

Ora, que a repressão dos impulsos sexuais não é um elemento contingente, que pode estar presente numa época ou cultura e não em outras.

Freud nos mostrou que, em alguma medida, a repressão é um processo absolutamente INEVITÁVEL e NECESSÁRIO.

Isso porque, como ele nos fez ver, a sexualidade humana é, por natureza, DESREGULADA.

— Como assim, Lucas?

Eu vou te dar um exemplo: se você não “ENSINAR” uma criancinha que ela não pode desejar sexualmente seus irmãos ou seus pais, ela não vai “aprender” isso sozinha.

Coloco as palavras “ensinar” e “aprender” entre aspas porque não se trata de um processo explícito e formal como acontece na educação escolar.

O fato é que a gente não nasce sabendo O QUE e COMO devemos desejar sexualmente.

Esse “saber” é produzido graças a um processo em que certos desejos são permitidos e outros são… isso mesmo, REPRIMIDOS pela sociedade.

Portanto, a teoria freudiana não está ultrapassada.

Afinal, embora vivamos numa cultura muito menos repressiva que a do início do século XX, ainda assim nossa sexualidade NECESSARIAMENTE passa por um processo de “modelagem” social.

E, nesse processo, vários problemas podem acontecer, o que faz de nós seres naturalmente predispostos à neurose…


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Você se tortura?


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Somos todos recalcados

Sim, todos nós.

Não só aquela sua amiga invejosa ou aquele mancebo que lhe deu um perdido no último fim de semana.

Somos todos recalcados.

Recalque foi um termo que Freud utilizou para descrever um processo que ocorre quase que automaticamente (mas não involuntariamente) em nós quando experimentamos certos pensamentos, fantasias e impulsos que não são compatíveis com a imagem idealizada que temos a nosso respeito.

Sabe quando você se assusta consigo mesmo e diz: “Meu Deus, como eu pude pensar uma coisa dessas?”?

Quando isso ocorre, a tendência é fingir que nada aconteceu e simplesmente tentar esquecer que tais pensamentos passaram pela nossa cabeça, né?

Pois bem, recalcar é isso: jogar a “sujeira” psíquica para debaixo de um tapete chamado INCONSCIENTE.

Por essa razão, somos todos recalcados, afinal todos nós fazemos isso, pois amamos fingir que correspondemos à imagem idealizada que temos de nós mesmos.

Assim, quando brota dos nossos corações algo que vem macular essa imagem, a gente finge que nada aconteceu e continua vivendo no autoengano.

O problema é que a alma não possui apenas essa inclinação no sentido da hipocrisia, mas também uma tendência na direção da verdade.

Em outras palavras: não adianta recalcar, não, amigo…

O que foi recalcado retorna, pois exige ser visto, reconhecido, falado:

“A boca fala do que está cheio o coração.”.

Se a gente insiste no autoengano e no medo de se enxergar, a alma se revolta e, tal como um vulcão em erupção, lança sobre nós o recalcado na forma de padrões doentios de relacionamento, obsessões, sintomas físicos, pesadelos…

E aí a gente procura a Psicanálise – para abrir mão da imagem idealizada de nós mesmos — e vivermos menos recalcados…


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[Vídeo] Psicanalista explica como o recalque funciona

Neste vídeo: entenda por que o recalque é paradoxalmente uma maneira de evitar que um determinado desejo seja abandonado.


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A gente faz Psicanálise para descansar

A vida exige de todos nós a criação de máscaras.

É impossível sobreviver socialmente sendo 100% espontâneo o tempo todo.

A gente aprende isso desde muito cedo, logo na primeira infância, quando descobrimos que o mundo é cheio de regras e padrões que precisam ser obedecidos.

Assim, aprendemos que frequentemente será necessário conter nossos impulsos e tendências naturais por trás de uma máscara que nos permita interagir socialmente.

Por outro lado, determinadas circunstâncias da vida podem levar alguns indivíduos a sufocarem sua espontaneidade de forma excessiva.

Por conta disso, eles passam a se IDENTIFICAR COMA PRÓPRIA MÁSCARA, esquecendo-se de que ela é tão somente uma “ferramenta” de sobrevivência social.

Mas sufocar os próprios impulsos e tendências naturais dá muito trabalho e, cedo ou tarde, a pessoa começa a se cansar de fazer tamanho esforço o tempo todo.

É geralmente quando bate esse cansaço e começam a aparecer fenômenos como sensação de vazio, crises de ansiedade e falta de interesse pela vida, que o sujeito considera procurar ajuda.

Se porventura ele se encontrar com um psicanalista, terá a oportunidade, talvez pela primeira vez em sua história, de finalmente DESCANSAR.

Numa terapia psicanalítica, essa pessoa será convidada a abandonar sua máscara e colocar em palavras, num contexto seguro e confiável, a espontaneidade que até aquele momento vinha sufocando dentro de si.

Ao buscar ajudar pessoas a se reencontrarem consigo mesmas e não a se moldarem a parâmetros externos, a Psicanálise muitas vezes funciona como uma estação de repouso para aqueles que estão “cansados e sobrecarregados” de sustentar o peso de suas máscaras farisaicas.


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Por que temos tanta dificuldade para abandonar nossos problemas emocionais?

Por que será que a gente não sai de uma depressão apenas com força de vontade?

Por que será que permanecemos em relacionamentos ruins mesmo já estando convictos de que deveríamos sair deles?

Por que será que padrões doentios como procrastinação, crises de ansiedade e compulsões se repetem na nossa vida apesar do nosso desejo de mudar?

Em outras palavras, por que é tão difícil sair de um quadro de adoecimento emocional?

Isso acontece porque nossos problemas emocionais não são eventos que acontecem conosco. Na verdade, nós os CRIAMOS.

Sim, a gente CRIA nossas enfermidades psicológicas, só que inconscientemente.

E a gente faz isso por basicamente por duas razões: para se PROTEGER e para se SATISFAZER.

Explico: você provavelmente não conseguirá perceber isso com clareza sem passar por uma terapia psicanalítica, mas seus problemas emocionais protegem você… de você mesmo.

Por meio de crises de ansiedade, episódios depressivos, relacionamentos doentios etc. você evita entrar em contato com certos impulsos da sua alma que se encontram reprimidos.

Por outro lado, nossos sintomas também proporcionam uma satisfação indireta justamente para esses impulsos reprimidos.

Em outras palavras, você não percebe, mas pode estar satisfazendo impulsos sexuais ou agressivos de forma disfarçada e simbólica por meio dos seus problemas emocionais.

Por isso é tão difícil sair deles.

É como se inconscientemente a gente pensasse assim:

“Não posso largar essa doença. Do contrário, precisarei lidar com os meus impulsos de forma direta, sem disfarces… E eu não quero fazer isso, pois tenho medo do estrago que esses impulsos podem fazer na minha vida”.

A Psicanálise ajuda o sujeito a perder esse medo e, consequentemente, a não precisar mais de seus sintomas.


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No Inconsciente estão as páginas da nossa história que, com medo de ler, resolvemos pular.

Quando a gente fala que no Inconsciente encontram-se memórias, desejos e fantasias que nós reprimimos, corremos o risco de imaginar que o processo acontece mais ou menos assim:

A gente experimenta conscientemente o desejo, entende que ele é incompatível com o ego e decide retirá-lo da consciência.

Todavia, não é dessa forma que as coisas se passam.

Na segunda fase da sua produção teórica (que começa no início dos anos 1920), Freud chega à conclusão de que os mecanismos de defesa (como o recalque) são acionados pela experiência da ansiedade.

Como sabemos, ansiedade, angústia e medo são afetos que se caracterizam por sensações muito semelhantes.

Nesse sentido, creio que não seria incorreto dizer que a gente se defende quando está com medo, ou seja, quando nos sentimos AMEAÇADOS.

Com efeito,  certas memórias, desejos e fantasias parecem tão contrários à imagem que temos de nós mesmos e de outros que SEM PENSAR a gente reprime esses conteúdos.

SEM PENSAR: esse é o ponto. A defesa não ocorre após um esforço reflexivo por parte da pessoa.

A gente reprime simplesmente porque tem a IMPRESSÃO de que não vai dar conta de suportar conscientemente determinados conteúdos.

É o medo que produz a defesa e não uma avaliação racional das memórias, desejos e fantasias que parecem ameaçadores.

Nesse sentido, o que a gente encontra no Inconsciente são justamente conteúdos não compreendidos, não avaliados.

Como aquelas comidas que a gente, por medo, evita comer antes mesmo de provar.


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A Psicanálise é uma pós-educação

Em diversos momentos de sua obra, Freud disse textualmente que a Psicanálise pode ser considerada como uma PÓS-EDUCAÇÃO.

O que significa isso?

Essa tese de Freud é relativamente simples. Acompanhe o raciocínio:

A Psicanálise é um método de tratamento das neuroses, certo?

E o que é uma neurose? Trata-se de uma forma de adoecimento emocional caracterizada por sintomas que expressam certos impulsos reprimidos.

E por que tais impulsos foram reprimidos? Porque, na infância, o sujeito foi levado, por seus cuidadores primários, a acreditar que essas inclinações seriam impuras, pecaminosas, perigosas…

Assim, para “sobreviver” emocionalmente nesse ambiente repressivo, a pobre criança se viu obrigada a reprimir, ou seja, a tornar inconsciente seu desejo de satisfação daqueles impulsos.

Resultado: protegidos da crítica consciente, tais impulsos ficaram livres para se manifestarem de forma disfarçada por meio dos sintomas neuróticos.

O que acontece numa Psicanálise? O sujeito é estimulado a rever sua própria história, por meio da associação livre, a fim de identificar justamente as censuras que aplicou a si mesmo como forma de proteção frente a um ambiente excessivamente repressor. Além disso, o neurótico também é encorajado a fazer uma revisão dessas censuras a fim de reconhecer e se apropriar daquilo que nele se satisfaz pela via do sofrimento.

Ora, o que é isso senão um processo de pós-educação? De fato, o que se busca numa Psicanálise é justamente a retificação dos resultados mórbidos produzidos no sujeito por uma educação equivocada. Trata-se de ajudar o paciente a reformar o universo de significações que desenvolveu a partir da relação com seus cuidadores primários — universo que o levou a distanciar-se de si mesmo e a padecer dos efeitos dessa fragmentação.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje um ebook exclusivo no qual desenvolvo as ideias apresentadas aqui de forma mais detalhada e com as respectivas referências da obra de Freud.


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Freud nunca disse que você deveria realizar os seus desejos reprimidos

Agora há pouco eu estava lendo o livro “Evasivas admiráveis: como a Psicologia subverte a moralidade”, de Theodore Dalrymple (pseudônimo do psiquiatra inglês Anthony Daniels).

Apesar de gostar do autor, não posso deixar de registrar aqui um comentário acerca de uma das inúmeras bobagens que ele diz no capítulo 01 dessa obra a respeito das ideias de Freud.

Em determinado momento do seu festival de críticas infundadas, Dalrymple leva o leitor ingênuo a acreditar que, para Freud, “a frustração do desejo é a raiz da patologia”.

Nada mais falso! Essa alegação, aliás, é feita não só pelo autor, mas também por muitas outras pessoas, geralmente religiosas. Ela se baseia num conhecimento superficial do pensamento freudiano.

Freud nunca defendeu a tese de que os indivíduos se tornam neuróticos quando não conseguem realizar seus desejos. Isso é mentira!

Para o fundador da Psicanálise, a neurose resulta de um excesso de REPRESSÃO. E o que é a repressão? Ao contrário do que muita gente carola pensa, reprimir um desejo não significa não realizá-lo na prática. A repressão é um MECANISMO PSÍQUICO, ou seja, algo que se passa exclusivamente “na cabeça” do sujeito. Reprimir um desejo significa basicamente negar para si mesmo a existência dele, impedindo-o de se tornar consciente.

É esse processo mental que pode dar origem a uma neurose. E por que pode dar origem a uma neurose? Ora, porque esse desejo que eu reprimo não desaparece. Ele continua presente em mim de modo inconsciente e fica o tempo todo tentando se fazer reconhecer. Se eu mantiver a repressão, ele acabará tendo que se manifestar por meio de sintomas neuróticos.

Qual a solução proposta por Freud? O RECONHECIMENTO do desejo, ora bolas! Não necessariamente a realização dele! O sujeito não precisa colocar em prática o seu desejo reprimido para se curar! Não seja idiota, dr. Dalrymple!

Se a Psicanálise funciona, é justamente porque ela é uma tecnologia que possibilita ao sujeito o acesso e o RECONHECIMENTO dos desejos reprimidos. Se o paciente, após esse reconhecimento, vai realizar ou não o desejo, essa é uma questão ética que depende da decisão pessoal dele.


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Reprimir é conservar

Primeiramente, deixa eu definir o que é repressão para você que está chegando agora por aqui.

Repressão (ou recalque) é um mecanismo psicológico descoberto por Sigmund Freud, fundador da Psicanálise. Trata-se de um procedimento mental que utilizamos inconscientemente quando surgem na nossa alma certas ideias que são incompatíveis com a imagem que queremos ter de nós mesmos.

Exemplo: tomemos o caso de uma jovem de 22 anos que percebe a si mesma (e quer continuar se percebendo) como sexualmente pura do ponto de vista religioso. Eventualmente, essa moça desenvolve uma intensa amizade com uma colega de trabalho e essa situação acaba servindo como gatilho para que desejos de natureza homossexual aflorem na alma dela. Ora, essa jovem não pode admitir para si esses desejos, pois eles não são compatíveis com a autoimagem de pessoa sexualmente pura que ela possui. É aí que entra a repressão. Para se defender das ideias homossexuais, essa moça inconscientemente impedirá que elas ganhem acesso à sua consciência.

E é exatamente isso que significa reprimir (recalcar): impedir que determinadas ideias se tornem conscientes.

Qual é o problema na utilização desse mecanismo? O problema é que, ao bloquear o acesso de certas ideias na consciência, a gente perde a possibilidade de analisá-las, tratá-las e, eventualmente, descartá-las.

É muito simples. Veja: eu só consigo jogar fora um objeto que não desejo mais utilizar se eu SOUBER que essa coisa está na minha casa e, portanto, puder avaliar se vale a pena ficar com ela ou não. Se esse objeto estiver escondido, não tem como eu descartá-lo. Óbvio.

Da mesma forma, a jovem do exemplo acima não terá a oportunidade de renunciar aos desejos homossexuais (como provavelmente gostaria tendo em vista seus ideais), pois não se permite reconhecê-los.

Vejam que curioso: ela, que percebe a homossexualidade como incompatível com a imagem de si, está paradoxalmente CONSERVANDO em sua alma os pensamentos homossexuais na medida em que decidiu não olhar para eles à luz da consciência.


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[Vídeo] Somos todos falsas testemunhas

Neste oitavo vídeo da série “Os Dez Mandamentos” comento o mandamento “Não levantar falso testemunho” mostrando que, do ponto de vista psicanalítico, mentir para si mesmo é uma atitude que faz parte da condição humana. Adoecemos emocionalmente quando esse “falso testemunho” sobre si ocorre em excesso.


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Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (final)

Vimos até aqui que, por tudo o que Freud escreveu, sobretudo a partir de 1920 com a introdução do conceito de pulsão de morte, a felicidade para o pai da psicanálise é um sonho humano fatalmente destinado à frustração. Espero ter deixado claro que essa conclusão faz todo o sentido se levarmos em conta as premissas que guiaram o pensamento do médico vienense.

De fato, se pressupormos como verdadeiras as seguintes asserções:

(1) que entre o indivíduo e a cultura há um conflito inexorável oriundo da presença em cada organismo humano de uma pulsão destrutiva que se contrapõe à vida em sociedade;

(2) que, para que o indivíduo possa se inserir no campo que Lacan chamará de grande Outro, isto é, o campo da cultura, cuja estrutura basilar é a linguagem e suas leis, ele deve necessariamente abdicar de parte de suas tendências pulsionais – o que coloca em jogo novamente um conflito eterno entre o indivíduo e a pulsão;

(3) que a felicidade seria a possibilidade de que tal conflito inexistisse, ou seja, que, no limite, pudéssemos atualizar nossas intencionalidades sem qualquer tipo de impedimento por parte da cultura;

Logo,

(conclusão) a felicidade é de fato impossível.

Em outras palavras, para Freud a felicidade é impossível porque, ao defini-la, ele se coloca na posição do neurótico clássico, incapaz de superar o drama edipiano. Ora, o que significa ser feliz para tal neurótico? Fantasisticamente, poder ter a mãe só para si. Nos termos de Jacques Lacan, poder ter acesso a um gozo pleno, que não existe, mas que o neurótico, em sua fantasia, supõe que exista em algum lugar da terra.

Ora, por que o limite imposto pela cultura aos nossos desejos tem que ser visto necessariamente a partir da ótica da falta, da insatisfação, do mal-estar? Esse é o ponto de vista do neurótico, que sonha em ultrapassar o rochedo da castração. Por que não podemos enxergar no limite a instauração da dimensão do possível na existência humana? Sim, porque todo limite, ao mesmo tempo em que impede a execução de uma determinada intenção, nos mobiliza a inventar uma nova forma de agir, de modo que o limite ou a resistência do real aos nossos desejos nos põe na trilha da criatividade, da invenção. Não obstante, para que paremos de nos queixar diante do limite e passemos a utilizá-lo como motor de criação, nossa âncora subjetiva deve estar em outro lugar que não o da satisfação pulsional. Era assim que Donald Woods Winnicott pensava.

Para-além do mecanicismo: Winnicott e o ser

Refém do modelo mecanicista proveniente da modernidade, Freud jamais conseguiu pensar que para o sujeito humano há algo mais fundamental que as pulsões, algo que, inclusive, possibilita o uso saudável da dimensão pulsional. Para o pai da psicanálise, o ser humano é uma máquina de descarregar pulsões que se complica por sua pertença ao campo da cultura. Para Freud, não há nada na natureza do humano que o singularize com exceção do fato de que nele há pulsões e não instintos, o que faz com que a subjetividade deva ser concebida necessariamente como uma construção social (o que Lacan expressará com sua fórmula: “o sujeito é o que um significante representa para outro significante”).

Em contrapartida, para Winnicott, que não tinha experiência apenas com neuróticos insatisfeitos com a castração, mas com bebês doentes e saudáveis, antes de o homem se ver às voltas com a dinâmica pulsional, algo de caráter muito mais essencial deverá ser constituído. Trata-se do que Winnicott chama de “experiência de continuidade do ser” ou “a experiência de que a vida faz sentido, de que vale a pena viver.”. Para o psicanalista inglês, é esse o elemento fundamental que possibilita uma vida saudável. É essa a âncora subjetiva que todo ser deve possuir para conseguir lidar de modo não problemático nem doentio com as limitações da existência.

A construção do fundamento para a felicidade

Como se constitui essa experiência de continuidade do ser? Winnicott, diferentemente de Freud, não conseguiu ver no bebê humano uma maquininha de descarregar pulsões. A experiência clínica do analista inglês com crianças não lhe deixou dúvidas de que o pequeno filhote de Homo sapiens é dotado de determinadas tendências para o desenvolvimento que, para serem realizadas, precisam de uma contrapartida ambiental, ou seja, a adaptação ativa de alguém. Portanto, o homem não é, nem a princípio nem posteriormente uma máquina burra. Trata-se de um organismo orientado para o amadurecimento.

Num primeiro momento, as necessidades do bebê demandam uma atenção tão intensa por parte do ambiente (mãe) que o bebê não tem condições de discernir-se como um ser separado dele. Se o ambiente for suficientemente bom, isto é, se conseguir atender adequadamente as necessidades da criança, o único registro psíquico que o bebê fará dessa experiência será o de “estar sendo”, ou seja, de existir.

Gradativamente, a dependência do infans em relação ao ambiente vai se relativizando, de modo que a mãe pode se desligar um pouco do bebê. Ainda assim, ela não pode se ausentar por muito tempo. Do contrário, como o bebê ainda não se constituiu como uma pessoa inteira capaz de reconhecer o outro como independente, se for deixado desamparado por longo tempo, ele sente como se estivesse desaparecendo, uma experiência que Winnicott chamou de “angústia inimaginável” e que quebra aquele sentimento de “estar sendo” que vem sendo solidificado desde o nascimento.

Se tudo correr bem, ou seja, se o ambiente não provocar a emergência de angústias inimagináveis no bebê, o indivíduo vai paulatina e naturalmente aceitando o fato de que o outro é independente e possui corpo e psiquismo próprios. Essa passagem ao reconhecimento da alteridade só é feita de maneira saudável, isto é, não-traumática, se o sujeito conseguir consolidar esse estofo subjetivo, essa âncora, que é o sentimento de “estar sendo” ou “sentimento de continuidade da existência”. Esse sentimento funciona como algo que capacita o indivíduo a enfrentar as intempéries da vida sem se deixar abater de modo doentio. É como se, dotado desse sentimento, o sujeito pudesse dizer: “Aconteça o que acontecer, eu sou.”.

A experiência de “estar sendo” permite a atualização na vivência cotidiana de uma dimensão humana que Freud sequer cogitou existir que é o que Winnicott chama de “verdadeiro self”, que é o ponto subjetivo a partir do qual podemos criar. Trata-se de um aspecto do sujeito que Winnicott qualifica como “indevassável” no sentido de que ele é irredutível a qualquer tentativa de incorporação cultural. Ele é a marca de nossa singularidade. No indivíduo saudável, que conseguiu consolidar o sentimento de continuidade da existência, o verdadeiro self não precisa ficar oculto, não precisa ser defendido, pois possui a força daquele sentimento para resistir às limitações do mundo externo.

A presença do verdadeiro self na existência individual possibilita a experiência de sentir que a vida faz sentido. Isso porque só sentimos que a vida faz sentido quando nos sentimos vivendo e, ao mesmo tempo, criando nossa própria experiência vital. Trata-se de uma sensação oposta àquela que experimentamos quando temos que vivenciar situações que nos foram impostas. Nesses casos, vivenciamos uma sensação de futilidade, justamente por não nos sentirmos co-criadores no processo. A experiência do sujeito freudiano clássico é dessa ordem. É um indivíduo que sente as limitações colocadas em jogo por nossa pertença à cultura como meras imposições externas que o tornam insatisfeito. Tal sujeito fundamenta seu ser não na experiência de continuidade de ser, mas na satisfação pulsional. Por isso, sua conclusão será inevitavelmente a de que a vida não vale a pena, ou seja, de que não é possível ser feliz.

Felicidade a toda prova

Finalmente, para Winnicott, a felicidade é sim, possível, e pode ser vista como sinônimo de saúde. E o que é a saúde para Winnicott? Não se trata de uma existência sem desprazer ou sem limitações. Pelo contrário, ser saudável para Winnicott significa ser capaz de incorporar e fazer frente a tais experiências. E isso só é possível se o indivíduo tiver construído seu ser sobre a rocha, para usar uma metáfora bíblica. Construir o ser sobre a rocha significa ter conseguido vivenciar nos momentos iniciais da vida a experiência de ser sem interrupções e sem angústias traumáticas. Essa experiência constitui-se em uma espécie de amparo ambiental introjetado, uma rocha que permitirá ao ser sobreviver às chuvas, aos ventos e às tempestades. Mais do que isso: essa experiência permitirá ao indivíduo encarar a vida não como algo pronto ao qual nosso papel é unicamente o de adaptação, mas sim como uma algo que se abre às contribuições espontâneas e criativas do vivente.

Concluindo, diria que a felicidade, do ponto de vista winnicottiano, não tem a ver com a dimensão dos afetos. Ser feliz não significa experimentar alegria ou prazer, pois isso implicaria em considerar a felicidade como algo fugaz, momentâneo, passageiro. Também não se trata, como pensara Freud, de uma felicidade utópica cuja impossibilidade reside precisamente no fato de ser descrita como estando na dependência daquilo que é barrado pela inserção na cultura. Não. Para Winnicott, a felicidade é uma condição existencial experimentada pelo ser que se sente existindo de modo criativo, ou seja, que não encara a vida como um fardo ou na posição de mero espectador. O que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer.

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