Entenda a regra da abstinência de Freud (final)

Cena do filme "Um Método Perigoso"No post anterior, vimos que do ponto de vista freudiano a neurose é resultado de um conflito entre o recalcado (pensamentos, lembranças e desejos que jogamos para debaixo do tapete de nosso psiquismo) e o ego (a imagem que temos de nós mesmos e que, a princípio, seria maculada pelo recalcado). Vimos também que a neurose tem início quando sofremos uma frustração amorosa, a qual faz com que a nossa libido volte a investir os pensamentos que foram recalcados, levando o ego a se sentir ameaçado. A neurose seria, então, um acordo de “paz” selado entre o ego e o recalcado em que o primeiro permite que o último se manifeste desde que de forma disfarçada.

Pois bem. Se o recalcado só foi “reativado” porque a libido não pôde ser satisfeita com objetos da realidade externa (frustração), isso significa, portanto, que se um novo objeto se apresentar para a pessoa e essa passar a amá-lo, grande parte da sua libido tenderá a investir o novo objeto e abandonará os pensamentos recalcados. O que acontecerá então com eles? Serão novamente jogados para debaixo do tapete do psiquismo e permanecerão preparados para se manifestarem novamente caso uma nova frustração amorosa aconteça. Em outras palavras, o recalcado se comportará como um vírus que aguarda a ocasião em que o organismo estará debilitado ou com a imunidade baixa para poder agir.

Qual seria a saída para que o sujeito não ficasse tão vulnerável assim à ação do recalcado? Freud dirá: fazendo com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados! Não entendeu? Eu explico: a única diferença entre os pensamentos que estão recalcados, ou seja, estão no inconsciente, e os que não estão é que os primeiros não podem, a princípio, ser objetos da consciência. Nesse sentido, fazer com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados significa permitir que eles possam adentrar os salões da consciência – o que só será possível se o sujeito não se sentir ameaçado por eles. E como o sujeito poderá lidar com o recalcado sem se sentir ameaçado? Em primeiro lugar, aprendendo a ter uma imagem de si mesmo (ego) que não seja tão rígida e idealizada. Em segundo lugar, olhando para o recalcado de frente e se dando conta de que objetivamente eles não oferecem perigo algum. Esses dois processos sintetizam o que acontece durante um tratamento psicanalítico.

Neste ponto você pode estar pensando: “Ok. Até aí eu consegui entender. Mas você se propôs a explicar o princípio da abstinência defendido por Freud e até agora não falou muita coisa sobre isso.”. Não ouso discordar de você, caro leitor. De fato, era preciso estabelecer algumas bases antes de chegarmos ao ponto central desta explicação.

Disse no parágrafo anterior que a única forma de impedir que o recalcado se mantenha à espreita, como um vírus, seria fornecendo as condições para que ele pudesse se manifestar e entrar livremente no território da consciência. Ora, a neurose é justamente uma das condições que tornam isso possível! Afinal, os sintomas neuróticos nada mais são do que pensamentos recalcados se manifestando de forma disfarçada. Por outro lado, como frisamos, a neurose só aparece após uma frustração e pode muito bem desaparecer em função de uma nova ligação amorosa. Portanto, a condição sine qua non para que o recalcado possa ser reavaliado pelo indivíduo na análise é a abstinência de satisfações amorosas. Do contrário, isto é, se o indivíduo dirigisse sua demanda de ser amado ao analista e esse a aceitasse, a ligação amorosa entre o paciente e o terapeuta tomaria o lugar da neurose, impedindo a continuidade do tratamento. É por essa razão que, do ponto de vista freudiano, é preciso recusar a demanda de amor do paciente. É preciso manter o doente num estado de insatisfação suficientemente bom para que o recalcado permaneça se manifestando e possa se tornar objeto da consciência.

À guisa de conclusão, poderíamos dizer que a regra da abstinência é a diretriz técnica que torna possível tanto ao paciente quanto ao analista a descoberta e a análise do material recalcado. Como Freud costumava assinalar, é muito comum observarmos uma melhora súbita no quadro apresentado pelo paciente durante os primeiros meses de tratamento. Isso seria resultado da própria relação entre paciente e terapeuta, pois o primeiro investiria no segundo a libido que até então estava vinculada aos pensamentos recalcados. Essa melhora, contudo, não seria duradoura justamente porque o analista não forneceria ao paciente uma contrapartida a seu investimento libidinal. Assim, a libido do paciente não teria alternativa a não ser retornar para onde estava até então, a saber: no recalcado. Essa nova frustração amorosa sofrida pelo paciente produziria uma nova neurose que, dessa vez, estaria ligada à pessoa do analista.

Nesse sentido, ao manter o tratamento em abstinência, ou seja, recusando-se em atender a demanda de amor do paciente, o analista permite que a doença que teve origem fora do consultório possa ser atualizada no interior do setting analítico. Isso permite tanto ao paciente quanto ao analista trabalharem o recalcado e as formas que o ego tem de se defender contra ele não como resquícios de acontecimentos passados mas como fenômenos atuais.

Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 3)

No último post desta série vimos que, por volta dos anos 1920, Freud se viu diante de um baita problema teórico: de que valia continuar utilizando o termo “inconsciente” para designar uma parte específica de nosso psiquismo se essa parcela da mente se parecia mais com um tremendo balaio de gato onde cabiam coisas tão heterogêneas como os impulsos reprimidos e as partes do ego que impediam que esses impulsos fossem reconhecidos pelo sujeito, ou seja, que provocavam resistência?

Não seria melhor passar a utilizar o termo “inconsciente” num sentido meramente descritivo, ou seja, apenas para fazer referência à forma em que se encontra uma representação mental da qual não estamos conscientes no momento?

“Sim, seria”: essa foi a resposta de Freud. Já que o conceito de inconsciente estava perdendo a especificidade que tinha no início da psicanálise, melhor seria abandoná-lo de vez.

Mas o que colocar em seu lugar? Se o conceito de inconsciente como uma região psíquica já não fazia mais sentido, logo aquela primeira divisão da mente em consciente, pré-consciente e inconsciente também iria para o ralo, certo?

Perfeitamente. O problema agora passava a ser então a elaboração de um novo modelo para representar o psiquismo. Se a mente não poderia mais ser pensada como dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente, como uma seria uma nova estruturação, capaz de superar as limitações da primeira?

A aposta freudiana no conceito de Id

Freud foi encontrar o princípio da resposta que daria a essa pergunta num conceito extraído da obra do médico e psicanalista Georg Groddeck, acerca do qual já falei algumas vezes aqui no site e cuja obra, aliás, foi meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva.

Influenciado pela leitura de Nietzsche, Groddeck vinha utilizando naquela época a palavrinha alemã “Es” (cuja tradução para o latim seria “Id”) para fazer referência a uma espécie de força vital que condicionaria toda a nossa existência, desde a formação dos órgãos do corpo até os nossos mais sutis pensamentos. Nesse sentido, nenhuma de nossas escolhas seria autônoma, ou seja, produto de nosso livre-arbítrio. Groddeck costumava dizer que em vez da frase “Eu vivo” deveríamos dizer “Sou vivido por isso”.

O que Groddeck queria, na verdade, era chamar a atenção para o fato de que nenhum de nós se encontra isolado do contexto em que vive e carrega em si as marcas de sua própria história. Em decorrência, todas as nossas escolhas são o produto da nossa relação coma natureza (da qual somos apenas uma modificação) bem como de nossa história. O conceito de “Es” servia para Groddeck justamente para evidenciar o fato de que o que nós chamamos de que nós não somos donos do nosso próprio nariz na medida em que nos encontra na dependência de fatores que estão para além de nós mesmos e acerca dos quais na maioria das vezes não temos consciência.

Ora, esse modo de entender a existência humana proposto por Groddeck era bastante semelhante à conclusão que Freud havia chegado desde que inventara a psicanálise e que sintetizou na famosa frase: “O eu não é senhor na própria casa.”. No momento em que Freud proferiu essa frase, o que ele tinha em mente era a força do inconsciente na determinação da conduta humana. Mas se a ideia de “o inconsciente” já não fazia muito sentido, como continuar sustentando que o “eu não é senhor na própria casa”?

Tomando emprestado de Groddeck o conceito de “Es”, ora! O termo parecia perfeito para designar a região da mente que Freud até então vinha chamando de inconsciente e, de quebra, não tinha os inconvenientes do termo inconsciente!

O vocábulo “Es” na língua alemã é um pronome impessoal. Por isso, as edições mais recentes da obra de Freud preferem traduzir o termo por “Isso” em vez de “Id”, justamente para valorizar esse aspecto semântico referente a algo indeterminado, desconhecido, obscuro. Essa característica, aliás, foi uma das razões que levaram Freud a gostar do conceito. Pareceu-lhe o termo ideal para contrapor ao ego, na medida em que colocaria em primeiro plano a verdadeira oposição que interessa à psicanálise, a saber: a oposição entre o ego e a pulsão, essa fome insaciável de viver que pode, paradoxalmente, colocar a vida em risco. É esse conflito que de fato esteve nas raízes da psicanálise e não o embate entre consciência e inconsciente!

O Id freudiano

Diferentemente de Groddeck, que entendia o Id como a expressão da nossa vinculação indissociável com o mundo, Freud privilegiou o significado do conceito referente a algo exterior ao ego, exemplificado na famosa frase de uma personagem da Escolinha do Professor Raimundo: “Ele só pensa naquilo”. Esse “naquilo” é obviamente a sexualidade, a qual, para Freud, se manifesta no ser humano de modo excessivo, desmedido e que, por conta disso, adquire uma conotação de exterioridade em relação ao ego. É por isso que, do ponto de vista freudiano, haverá sempre um conflito entre o ego e as pulsões no cerne de cada alma humana.

O Id é justamente o conceito que Freud empregará para situar o lugar que essas pulsões ocupam no aparelho psíquico. No Id se encontrariam tanto as pulsões sexuais quanto as pulsões de morte (responsáveis pela agressividade que dirigimos contra nós mesmos e contra os outros). As pulsões seriam os representantes no psiquismo de necessidades provenientes do corpo e buscariam unicamente a satisfação sem levar em conta as possibilidades reais de obtê-la e, muito menos, se essa satisfação faria bem para o sujeito. A norma que regula o funcionamento mental dentro do Id é o princípio do prazer, ou seja, no Id uma representação mental se liga a outra não em função de uma relação lógica ou semântica, mas sim devido ao fato de ambas estarem ligadas mutuamente a uma experiência de satisfação ou de busca dela. Assim, no Id, a fórmula 1 + 1 não é necessariamente igual a 2. Pode ser igual a 3 ou a 20 caso essa estranha equação favoreça a conquista do prazer e da satisfação. Em outras palavras, não há razão no interior do Id. A racionalidade é um modo de funcionamento mental a ser conquistado pelo sujeito.

No próximo post veremos como essa conquista é levada a cabo. Conheceremos de que modo o Id dá origem ao ego, esse filho ingrato que desde o nascimento já entrará em conflito com seu genitor e, se possível, veremos ainda o surgimento do terceiro e último elemento da segunda tópica, o famoso e feroz “superego”.

CONTINUA.

Sugestões de leitura:

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Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 2)

Como disse na introdução da primeira parte do texto, meu objetivo aqui é, sobretudo, o de desfazer alguns mal-entendidos que com muita frequência se fazem presentes na leitura que o senso comum e a psicologia geral fazem dos conceitos de id, ego e superego.

Nesta segunda parte, ainda não abordarei diretamente a tríade, pois, como eu também disse anteriormente, é preciso compreender o que levou Freud a introduzir a segunda tópica. E é justamente isso o que verá no texto abaixo. Em termos mais específicos, você aprenderá:

(1) Que Freud, conquanto fosse um terapeuta, nunca deixou de formular hipóteses acerca da organização do psiquismo;

(2) Que a chamada “primeira tópica” (Consciente, Pré-consciente, Inconsciente) foi uma hipótese desse tipo;

(3) Que a clínica acabou revelando que a primeira tópica era insuficiente, principalmente o termo “Inconsciente”.

Vejamos agora, tudo isso, detalhadamente:

Sabe-se que Freud, embora tenha inventado um método de tratamento das neuroses, a psicanálise, jamais deixou de lado o seu desejo de ser um cientista. É por isso que desde o início de sua obra encontramos não apenas descrições e análises de experiências da clínica, mas também tentativas de sistematizar a estrutura e o funcionamento do psiquismo.

O primeiro esboço de uma formulação teórica dessa natureza se encontra no chamado “Projeto para uma Psicologia Científica”, um livrinho escrito em 1895, que Freud deixou engavetado e só foi descoberto mais de uma década depois de sua morte. Naquele texto, Freud propunha a ideia de que o aparelho psíquico estruturava-se segundo uma divisão entre tipos específicos de neurônios e funcionava a partir da tendência geral a descarregar a energia produzida pelos estímulos externos e internos. Não nos deteremos nessa primeira concepção, pois ela não está diretamente associada ao surgimento dos conceitos de id e superego, embora no “Projeto” o termo ego já apareça. De todo modo, o sentido que Freud dera ao conceito naquele texto é consideravelmente distinto do postulado em “O Ego e o Id”.

A segunda tentativa de Freud de descrever a estrutura e o funcionamento mentais remonta aos seus primeiros estudos sobre a histeria ainda contando com a companhia de Breuer. Nesse segundo momento, Freud utiliza a capacidade de uma representação mental tornar-se consciente como critério para a divisão do aparelho psíquico. O psiquismo comportaria, então, três “territórios” os quais, é preciso que se diga, não possuem correspondência com a anatomia do cérebro, ou seja, são conceitos metapsicológicos, como dizia Freud.

A primeira tópica

Os três “reinos” da mente seriam: o consciente (Cs.), o pré-consciente (Pcs.) e o inconsciente (Ics.). No Cs. estariam as representações mentais das quais estamos plenamente conscientes no momento, o que faz dessa instância psíquica uma dimensão em permanente metamorfose, pois a todo momento novas representações mentais estão se tornando conscientes e deixando de sê-lo. No Pcs. se localizariam aquelas representações que podem vir a ser conscientes, mas que no momento não estão em nossa consciência. Já no Ics. estariam as representações que já estiveram no consciente e/ou no pré-consciente, mas que de lá foram expulsas por causarem muita angústia. Por conta disso, não podem mais tornar-se conscientes sem que se aplique uma considerável dose de trabalho, sendo que algumas jamais poderão novamente ser conscientizadas em função da alta carga de angústia que produzem.

Essa divisão do aparelho psíquico ficou conhecida na teoria psicanalítica como primeira tópica, pois se trata da primeira tentativa freudiana de descrever quais seriam, por assim dizer, os diferentes “lugares” (topos) do psiquismo.

Por que Freud não ficou satisfeito com a primeira tópica?

A primeira tópica se mostrou bastante útil para Freud quando a psicanálise estava direcionada primordialmente à compreensão das formações do inconsciente e da natureza das representações mentais que causavam angústia e eram recalcadas. Todavia, quando o foco da pesquisa psicanalítica começou a ser orientado para o ego – a instância do psiquismo que, por não suportar a angústia gerada por determinadas representações mentais, as mandava para o inconsciente – essa divisão do aparelho psíquico em consciente, pré-consciente e inconsciente começou a se mostrar insuficiente. Vejamos por que.

Até então, Freud achava que o ego estava totalmente situado no consciente e no pré-consciente, afinal no inconsciente estariam apenas aquelas representações mentais que o ego teria recalcado. Em outras palavras, naquele momento Freud considerava que o conflito psíquico que levaria ao adoecimento psicológico seria travado entre um ego consciente que não quer admitir determinados pensamentos e o conjunto inconsciente desses pensamentos recalcados, ou seja, um conflito ego versus inconsciente.

No entanto, a experiência clínica foi mostrando a Freud que uma parte considerável do ego também era inconsciente. Como Freud descobriu isso?

Ora, durante uma análise, o sinal clínico que evidencia que determinados pensamentos e recordações estão no inconsciente, ou seja, de que foram recalcados, é a dificuldade do paciente de se lembrar deles ou de falar sobre o assunto. Freud compreendia essa situação considerando que haveria uma resistência do ego bloqueando o acesso das representações mentais recalcadas e/ou de seus substitutos. O curioso, contudo, é que o próprio paciente não teria consciência de que estava empregando essa resistência! Logo, a resistência não seria um fenômeno consciente, embora fosse uma função do ego. Conclusão: o ego não é totalmente consciente. Além disso, as resistências se comportariam de modo semelhante às representações recalcadas, isto é, demandariam certa dose de trabalho para que fossem tornadas conscientes.

Essa descoberta jogou por terra a hipótese de que o conflito psíquico se fundamentaria numa oposição entre ego e inconsciente. No entanto, isso não significaria admitir que o ego não fosse um dos polos do conflito psíquico. De fato, mesmo sendo inconsciente, a resistência continuava a ser um fenômeno produzido pelo ego. O problema estava em sustentar que o outro polo do conflito seria o inconsciente, afinal descobrira-se que uma parte do ego também era inconsciente. E agora, o que fazer?

Sugestões de leitura:

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Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 1)

Este texto tem o objetivo de apresentar sinteticamente a dinâmica relacional entre as instâncias psíquicas da chamada segunda tópica de Freud. Espero que, ao final, você consiga compreender como id, ego e superego se constituem e se relacionam e qual a relevância desses conceitos para a clínica psicanalítica.

Nessa primeira parte do texto você verá: (1) quais foram os equívocos teóricos cometidos pela psicologia geral na interpretação da segunda tópica e (2) qual deve ser a melhor estratégia metodológica para o entendimento adequado dos conceitos de id, ego e superego.

Pré-conceitos

Id, ego e superego são sem dúvida alguns dos conceitos psicanalíticos que mais se popularizaram tanto no âmbito da psicologia geral quanto no senso comum, sobretudo nos Estados Unidos. Essa constatação por si só já é suficiente para nos despertar certa curiosidade, afinal a maior parte das descobertas da psicanálise, a exemplo da sexualidade infantil, da etiologia sexual das neuroses e do pensamento inconsciente geralmente foi recebida com um alto grau de resistência, principalmente entre os americanos.

As noções de id, ego e superego, no entanto, tiveram um destino diferente e foram sossegadamente incorporadas ao vocabulário psicológico comum. Minha hipótese para explicar essa peculiaridade é justamente o que me motivou a escrever este texto.

Penso que se essa tríade conceitual foi aceita com tão pouca resistência pela psicologia geral isso se deve a uma má compreensão dos conceitos por parte dos não analistas e até mesmo por certos psicanalistas.

Com efeito, influenciada pelas analogias e metáforas didáticas que Freud elaborou para explicar como as três instâncias psíquicas interagiam, a psicologia geral acabou por considerar tais conceitos como meros nomes psicanalíticos para três dimensões da experiência humana milenarmente conhecidas e que não precisaram da psicanálise para serem trazidas à luz, a saber: as paixões, a razão e a moral. Assim, o id seria o conceito representativo das paixões, o ego o da razão e o superego o da moral. Você mesmo, leitor, provavelmente já deve ter lido tais equivalências em algum livro de psicologia geral ou as ouvido de algum professor que não era psicanalista.

Entretanto, asseguro-lhe que mesmo uma leitura superficial da obra “O Ego e o Id” (texto em que Freud introduz as noções de id e superego e apresenta uma nova visão do ego) já é suficiente para que se perceba que reduzir id, ego e superego a representantes das paixões, da razão e da moral constitui-se em um grave equívoco teórico na medida em que, agindo dessa forma, não se faz referência justamente aos aspectos mais cruciais de cada conceito e que são justamente as novidades trazidas pela experiência da psicanálise.

Portanto, o que você lerá a seguir é uma tentativa de explicar em conjunto a tríade id, ego e superego a partir dos fenômenos e experiências subjetivas que cada conceito pretende descrever. Ao final, você será capaz de perceber que somente se nos detivéssemos aos aspectos mais superficiais dos conceitos seria possível estabelecer uma analogia entre id e paixões, ego e razão e superego e moral. Uma análise aprofundada nos leva inevitavelmente a considerar tais noções como instrumentos teóricos para a compreensão de realidades subjetivas singulares, que não necessariamente têm a ver diretamente com paixões, razão e moral.

Fazendo a pergunta correta

Toda vez em que queremos entender com certo rigor algum conceito teórico, o procedimento metodológico mais correto não é se perguntar pelo significado do conceito, mas antes pelas razões que levaram o autor em questão a introduzi-lo. Em outras palavras, a pergunta correta a ser feita perante um conceito é: “Por quê?” e não “O que é?”. Frequentemente, ao adotarmos essa estratégia, deparamo-nos com os problemas e impasses empíricos e/ou teóricos enfrentados pelo autor, os quais são justamente o que motivou a produção de um novo conceito ou a reformulação de ideias anteriores.

Os conceitos de id, ego e superego não fogem a essa regra. Freud os elaborou para resolver problemas. No caso dele, para dar conta de achados clínicos inusitados e limitações verificadas nas noções teóricas que até então vinha utilizando. Nesse sentido, para compreender de fato o essencial dessa tríade conceitual freudiana, é preciso que nos façamos o seguinte questionamento: “Por que, afinal de contas, Freud precisou criar os conceitos de id e superego e reformular a noção já existente de ego?”.

Sugestões de leitura:

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O que um psicanalista faz? (parte 3)

No primeiro post desta série dissemos que via de regra o paciente inicia um processo terapêutico atribuindo a responsabilidade por sua atual condição de sofrimento a outras pessoas, geralmente familiares e pessoas de seu círculo mais próximo de contatos. Talvez os únicos pacientes que não se comportam dessa maneira sejam os deprimidos, os quais padecem exatamente do oposto, isto é, de um excesso de culpa. Nesses casos, a primeira atitude do analista deve ser a atenuação do sentimento de culpa através da investigação de suas raízes, as quais estão quase sempre vinculadas à ferocidade da instância superegóica. Do contrário, se o analista não se preocupar em ajudar o paciente a se livrar da carga excessiva de culpa que carrega nas costas, a continuidade do tratamento se torna praticamente inviável, transformando-se numa ladainha de lamúrias e lágrimas sem qualquer possibilidade de elaboração ou redundando no pior, a saber: o suicídio.

Pois bem, agora que já sabemos que os casos de depressão são os únicos em que a tendência a atribuir a culpa a outrem não incide na entrada do paciente em análise, passaremos ao objetivo principal deste post que é tentar dizer qual a tarefa do analista nos outros casos, isto é, na maioria, em face dessa tendência do paciente de se eximir da responsabilidade por seu sofrimento. Essa tarefa, por sinal, é a primeira etapa de um tratamento analítico. Façamos, pois a pergunta:

 

Qual é a primeira etapa de um tratamento psicanalítico?

Inicialmente, devo fazer um aviso: quando digo que em geral os pacientes se eximem da responsabilidade por seu sofrimento ao entrarem em análise, não estou fazendo nenhum tipo de juízo de valor sobre tal comportamento. Não estou dizendo, portanto, que o correto seria o paciente agir de maneira diferente. Nós agimos assim o tempo todo, inclusive num nível social, basta ver a nossa relação com os alagamentos urbanos: sempre os responsáveis por tais coisas são as outras pessoas que jogam lixo nas ruas ou o governo que não cria estratégias de prevenção; nós mesmos não temos nada a ver com a coisa…

Então, quando a gente entra em análise, fazemos o mesmo, só que com os nossos sintomas, ou seja, com aquilo do qual a gente se queixa, que não gostaríamos de fazer, mas fazemos. Sempre achamos um culpado para eles: “Sou assim porque minha (meu) mãe (pai)…” é talvez uma das frases que mais se ouve num divã. Mas o culpado não precisa ser feito de carne e osso! Pode ser o despertador que, por um defeito qualquer, não tocou e fez o cara perder uma excelente entrevista de emprego. Vejam: não foi ele que dormiu a mais, foi o despertador que não tocou… Esses são apenas alguns de incontáveis exemplos.

Com efeito, quando se entra em analise é hora de mudar essa posição de passividade. E como isso acontece? Através de um processo que os analistas lacanianos chamam pomposamente de “retificação subjetiva” e que não acontece só no início, mas ao longo de todo o tratamento. O que significa isso? A retificação subjetiva corresponde a intervenções, isto é, falas, interpretações, encerramento da sessão, silêncio, cujo objetivo é mostrar ao paciente que aquilo do qual ele se queixa também lhe é útil. Nesse ponto, o leitor pode perguntar: “Mas, peraí, como pode ser útil se o faz sofrer?”. E eu respondo: útil na medida em que “resolve” determinados conflitos inconscientes, ou seja, como realização de intenções que até então o paciente ignorava que possuía. Ora, não é paradoxal que justamente aquilo que o faz sofrer tanto seja justamente o que o paciente não consegue deixar de fazer? Por que isso acontece? Justamente por que aquilo que conscientemente o faz sofrer, no nível inconsciente o satisfaz, resolvendo determinadas questões que se deixadas em aberto o fariam sofrer muito mais. O doente é, portanto, levado a um estado em que não é possível mais infligir culpa a ninguém por sua condição, reconhecendo que é ativo em seu próprio sofrimento.

Darei um exemplo para que a idéia fique mais clara: um rapaz se queixa de que não consegue namorar com nenhuma garota por mais de 6 meses. Ele chega à análise culpando às garotas com quem namorou: foram elas que sempre terminaram com ele antes dos 6 meses e diante disso demanda do analista uma resposta: o que há errado consigo? Por que as garotas sempre terminam com ele? (Como vocês já sabem, o que há por trás dessa demanda é um outro pedido que se enuncia mais ou menos assim: “Me diga que não é nada, que não sou eu o problema, que são elas mesmo!”) Após determinado período, o paciente gradualmente vai percebendo que na verdade é ele próprio que gera condições para que as garotas tenham como única alternativa a saída do relacionamento. E por que gera tais condições? Essa é outra questão… e que também demandará tempo para ser respondida. Mas o que precisa ficar claro é que a análise operou uma transformação na posição subjetiva do rapaz: se antes ele era o abandonado, aquele que nenhuma moça queria por mais de 6 meses, agora ele passa a se perceber como aquele que, pelo seu próprio desejo, não quer uma relação de mais de 6 meses!

Mas como é que acontece esse processo de reconhecimento de conflitos que o sintoma resolve? Como é que o paciente “saca” que por detrás do seu sofrimento subsiste um desejo? São essas as perguntas que tentaremos responder no próximo post…

CONTINUA…

As teses freudianas e a revelação cristã

A meu ver, é possível compreender as teses freudianas à luz da revelação cristã. O que Freud faz é descrever a vida daquele que o apóstolo Paulo chama de “homem velho”, homem que segundo o próprio apóstolo dos gentios é ainda prisioneiro dos “instintos egoístas”. Ora, o que seriam tais “instintos” senão a pulsão sexual de que fala Freud? Pois, para o pai da Psicanálise, a pulsão não possui um objeto pré-determinado, fixo. A única coisa que pode se dizer certa na pulsão é o que ela visa: a satisfação. A busca pelo apaziguamento do acúmulo gerado pela excitação pulsional é o elemento comum a todas as vicissitudes da pulsão. Foi também para a satisfação e o gozo do mundo que Deus chamou o homem à existência (Cf. Gn 1, 26: “Então Deus disse: ‘Façamos o homem a nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra.’”). É possível, então, pensar na hipótese de que enquanto o homem vivia na presença de Deus, em comunhão com ele – o que a Bíblia figurativamente narra como sendo a estada de Adão e Eva no paraíso – a pulsão não existia no homem, pois o próprio Deus era o objeto fixo e pré-determinado para o ser humano. A pulsão passa a existir justamente quando, por influência do diabo, o homem passa a se ver como distante de Deus e, por conseguinte, como menor do que Ele, pois é nisso que consiste a afirmativa da serpente de que ao comer do fruto da árvore do Bem e do Mal, homem e mulher se tornariam COMO deuses.

Para sustentar essa asserção, o demônio tem de lançar mão de duas premissas essenciais: a primeira é a de que o ser humano não é Deus. Essa postulação, por mais óbvia que seja, só adquire seu valor de uma humilde verdade, se for acompanhada de uma outra: a de que embora não sendo Deus, não estamos distantes dele. O diabo, não obstante, agrega a essa primeira premissa a idéia de que ser humano é ruim e que ser Deus é que é bom. Agindo assim, institui no coração do homem aquela que é a mãe de todas as invejas: a inveja da condição divina e, com ela, o primeiro reconhecimento da insatisfação. Até seu encontro com a serpente, o homem não se sentia insatisfeito, ou melhor, logo que os primeiros sinais de insatisfação brotaram em seu coração, Deus logo tratou de criar-lhe uma companheira. E esse estado de plena satisfação do homem não ocorria em função de uma possível cegueira humana para o que lhe faltava. É que a total comunhão com os desígnios de Deus lhe era suficiente (Cf. Gn 1, 31: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”). Essa abertura promovida pelo diabo entre aquilo que o homem é e o que ele poderia ser é o que os psicanalistas chamam de hiância, falta, furo, etc. Vejam bem que essa hiância não nasce com o homem, mas é fruto da influência diabólica que induz o homem a se reconhecer como não pertencente à comunhão com Deus e, pelo contrário, querer se tornar como ele. Essa etapa, coincidentemente, é contemporânea do nascimento do ego no homem. Ora, Freud intuiu muito bem que o ego não é nada mais que a estrutura mental que condensa os ideais de totalidade e perfeição que o sujeito não aufere na realidade. No mito do Gênesis, a representação do ego é justamente a idéia de ser como Deus. O grande logro do demônio é fazer com que o homem vá buscar no fruto da árvore do Bem e do Mal, aquilo que ele já possui, pois qual não seria a maior perfeição do que permanecer no amor Daquele que o criou, isto é, ser Um com Ele?

Percebam também que a falta, a hiância, não surgem em função da incidência da Lei como pensaram alguns freudianos mais apressados. Até porque, no mito bíblico, até então não havia Lei. Pode-se até pensar no mandamento divino de não comer do fruto da árvore do Bem e do Mal como uma Lei, mas ela só adquire esse sentido a partir do discurso da serpente que mente acerca das conseqüências de sua transgressão. O aspecto essencial, portanto, para o advento da falta é a perspectiva de uma condição melhor. Isso adquire maior relevância tendo em vista que a constatação do homem como faltoso servirá a muitos filósofos e teólogos como atestado da existência de Deus, pois se o homem se vê como incompleto, é sinal de que ele concebe a possibilidade de ser completo, que corresponderia à idéia de Deus que, assim, não seria apenas uma idéia.

Assim, quando o homem, por influência do demônio, promove a abertura de uma distância entre seu estado real e um estado ideal, entre ele e Deus, todas as suas tendências que encontravam satisfação no Criador e no mundo por ele criado passam a ficar à deriva, pois nada disso mais satisfaz. Eis o nascimento da pulsão. A partir de então, ou seja, ao se afastar da presença de Deus, o homem passará a se ver às voltas com a terrível sensação de estar insatisfeito (Cf. Agostinho, Confissões, I, 1, 1: “Criastes-nos para Vós, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós”) e de constantemente estar tentado a buscar satisfação nos objetos nos quais originalmente não deveria buscar, quais sejam, todos aqueles que a lei mosaica no Pentateuco interdita: animais, familiares, pessoas do mesmo sexo, etc. Como diz Paulo, a lei sistematizada por Moisés é uma manifestação patente do amor de Deus para com o homem, pois mesmo sabendo que o ser humano deixou voluntariamente de estar em comunhão com ele, Deus lhe dá um conjunto de prescrições para que mesmo estando fora de sua presença, ele possa caminhar de acordo com seus desígnios e viver uma vida feliz – é por isso que Paulo compara a Lei a um pedagogo.

O diabo, no entanto, aproveitou a existência da Lei para manifestar suas duas facetas: a de tentador (que já havia sido vislumbrada no princípio) e a de acusador. A de tentador é óbvia. Já a de acusador é análoga ao nascimento do superego, como já havia dito há dois posts atrás. O superego não existe para gerar responsabilidade, ele existe para eliciar o sentimento de culpa, para fazer com que o sujeito se martirize por ter transgredido a Lei. Como até o nascimento do Messias ainda não havia o Advogado (Paráclito), o diabo triunfava, subvertendo a utilidade da lei, como o próprio Paulo diz em uma de suas cartas. A entrada em cena de Jesus representa um passo decisivo nessa dinâmica, porque a fé em Cristo torna a lei mosaica desnecessária porque Jesus veio manifestar com sua morte a vontade do Pai de se reconciliar com o homem, isto é, de restaurar a comunhão que havia sido rompida lá no Gênesis, por influência do demônio. E o mais interessante é que Deus faz isso reconhecendo que após a saída de sua presença o homem se tornou falho e, portanto, não tem condições de, por sua própria força, alcançar novamente a comunhão com Ele. Por isso, Deus vem em socorro do homem não mais com um novo código de normas, pois Ele já viu que a lei acaba servindo para que o demônio escravize o homem. O Pai, enviando seu Filho como sacrifício para o perdão dos pecados, liberta o homem do pecado. Isso significa que o homem não vai mais pecar? Claro que não! Significa que ele já não é mais uma criança que precisa de um rígido conjunto de normas para evitar o pecado, pois esse passa a ser um acidente de percurso – perene, obviamente, mas que não precisa mais ser temido, pois há um Deus que perdoa.

Perceberam que nesse último parágrafo eu falei apenas de religião, sem nenhuma analogia com a teoria psicanalítica? Não é coincidência. É que Freud, de fato, não alcançou a novidade cristã, justamente porque, sendo judeu, ele sabia descrever perfeitamente bem a relação do homem com a Lei e o pecado, ou seja, a dinâmica de vida do homem velho paulino, mas não a do homem novo renascido em Cristo. Talvez a maior realização não só de Freud, mas de toda a Psicanálise, foi ter descoberto que há um judeu escondido em todos os homens.

Voltando ao assunto, para que a comunhão com Deus seja restabelecida, é preciso que o homem, em contrapartida ao amor de Deus, institua um novo destino para a pulsão: tomar Deus como único objeto e o amor a Ele e ao próximo como únicas finalidades. Sim, ao próximo, porque o rebaixamento divino em Jesus trouxe o Deus de volta à imanência (Cf. Mt 25, 40: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”. A partir de então, Deus não está mais distante do homem, mas se personifica em cada pessoa com a qual nos relacionamos. Esse novo destino da pulsão demanda um recolhimento de investimento libidinal de todas as outras coisas – é o que Jesus chamava de abandono do mundo. E é aí que a conversão beira a psicose, pois o que ocorre nessa psicopatologia, para Freud, é justamente o desligamento libidinal dos objetos e a introversão da libido para o ego. A diferença é que no caso da conversão, a libido se dirige para o Cristo e não para o eu. No entanto, se pensarmos como Agostinho, que concebia que Deus estava presente dentro do homem e, portanto, o afastamento de Deus implicaria um afastamento de si mesmo (Cf. Confissões, III, 6, 11: “De fato, tu estavas dentro de mim mais que o meu íntimo e acima da minha parte mais alta”), a distinção entre psicose e conversão deixa de existir. O próprio apóstolo Paulo ignora qualquer diferença (Cf. 1Co 1, 18: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.”; 1Co 1, 21: “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.”; 1Co 1, 23: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.”)

Só para fazer mais uma analogia com a Psicanálise, quando Freud elabora a noção de pulsão de morte e com ela a idéia de que o prazer não basta para o homem, que ele busca uma satisfação que vai mais além, Freud sem saber intuiu uma realidade espiritual. Pelo fato do homem um dia ter estado ligado plenamente a Deus, ao buscar se satisfazer através da pulsão com os objetos ilícitos do mundo (na linguagem freudiana, os objetos parciais), o homem procurará repetir aquela plenitude primeira e invariavelmente fracassará. No entanto, como o pecado produz prazer, o homem insistirá nele pensando que poderá, na repetição, alcançar a satisfação pretendida – eis a compulsão à repetição de Freud.

É evidente que as analogias feitas neste texto possuem pouco rigor teológico e suas limitações são bastante claras: são apenas tentativas de estabelecer continuidades entre uma teoria bastante eficaz da condição humana e a verdade sobre tal condição e a relação do homem com Deus. Penso ser lícito tal empreendimento uma vez que muitos pais da igreja, de forma semelhante, fizeram uso de sistemas filosóficos como o aristotelismo e o platonismo como ilustração de suas teses teológicas. A meu ver, Freud evidenciou toda sua genialidade ao destrinchar a vida psicológica do homem que ainda não alcançou a fé cristã.

O que é superego? (final)

Caro leitor, terminamos o último post com o vislumbre do avanço teórico-conceitual empreendido por Freud a partir de sua noção de superego. Dissemos que o ponto de partida foi o fenômeno da consciência moral, mas ressaltamos que a intenção de Freud foi trazer à luz um acontecimento psíquico bem mais complexo. É que o pai da psicanálise não estava interessado em descrever o óbvio. Pelo contrário, a teoria psicanalítica pode ser descrita como a tentativa de trabalhar o estranho, o insólito, aquilo que aparentemente é incompreensível. O conceito de superego se presta exatamente a essa função, a tentar explicar, por exemplo, porque uma pessoa não se permite vencer na vida, galgar postos mais altos ou porque alguém sofre de um imenso sentimento de culpa para o qual não consegue conceber razão alguma. Veremos isso, ao examinarmos como Freud articula as origens da formação do superego.

Todos vocês devem conhecer as linhas gerais daquilo que o médico vienense chamou de “complexo de Édipo”: na infância, meninos e meninas estão fortemente apegados à mãe e são obrigados a deixar esse estado de extrema satisfação pela interferência daquele que possui a mãe por direito: o pai. Pois bem, esse estado de coisas perfeitamente verificável em qualquer família, pode ser interpretado como a personificação da entrada da criança no mundo social. Ela deve abdicar de uma satisfação, acatar a lei que limita seu gozo e, como fenômeno colateral, passar a odiar aquele que encarna o papel de limitador.

Agora, imaginem que essa etapa fundamental do desenvolvimento da criança não termine nunca, que ela permaneça para sempre não mais como a relação da criança com os pais, mas como a relação da criança consigo mesma. É exatamente isso o que acontece. Após o término desse período da relação triangular pai-mãe-filho, na cabeça da criança começa a ser formado um personagem que vai passar a exercer a mesma função que o pai na realidade, de maneira tal que, mesmo na ausência do pai, o sujeito se veja limitado em sua satisfação com as coisas do mundo. Mais, e esse é o passo fundamental de Freud, esse personagem que surge na cabeça da criança – que vocês já devem ter percebido tratar-se do superego – adquire características muito mais cruéis que as do pai. Além de lembrar ininterrupatamente ao sujeito que ele não pode gozar de tudo, o superego vai culpá-lo por um dia ter gozado daquela mulher que só pertencia ao pai. Ou seja, o aspecto essencial do superego não é o de limitador, mas daquela instância mental que não nos deixa sentirmo-nos inocentes.

Por não compreenderem isso, muitas pessoas erroneamente dizem que Deus é uma personificação do superego. Se alguma selvageria analítica dessa pudesse ser feita (chamo de selvageria analítica essa bobagem de explicar a religião com conceitos psicanalíticos como Freud fez em ‘O Futuro de uma Ilusão’), o superego deveria ser identificado com o demônio, ou seja, como a figura que faz com que o fiel não se lance na graça do Deus que perdoa os pecados por constantemente fazê-lo sentir-se culpado pelas faltas cometidas.

É por isso que Lacan e Melanie Klein faziam questão de ressaltar a ferocidade do superego. Na sua eterna culpabilização do sujeito, ele faz com que muitos não se sintam em condições de usufruir da vida, pois cada pequeno gozo parcial passa a ser significado como uma rememoração do gozo proibido das primeiras relações com a mãe. E o ponto essencial é que tudo isso ocorre a portas fechadas, por trás das cortinas. No palco da consciência, o sujeito só se observa se estrepando na vida, se prejudicando tão logo conquista uma vitória ou contraindo dívidas. Há até aqueles que cometem crimes apenas para serem flagrados, irem para a cadeia e lá se verem finalmente recebendo a punição pelo incesto precoce com a mãe.

Portanto, caro leitor, esqueça essa versão aguada do superego que ficou pra tradição. Lembre-se do superego como aquela voz ameaçadora que no inconsciente diz: “Um dia eu fui seu pai, mas seu pai não pôde lhe castigar pelo enorme pecado que cometeu. Dormir no colo da própria mãe??? Só eu tenho esse direito. Por isso você vai se sentir culpado pelo resto da vida e nunca poderá vencer pois você não merece experimentar nem mais uma satisfação sequer. Acho que o melhor é você se punir, se castigar, pra ver se consegue expiar um pouco de sua culpa.”

Pra finalizar um conselho: converse com seu superego…

O que é superego? (parte 1)

Antes de iniciar esta exposição, gostaria de deixar claro que as explicações que aqui apresento dos conceitos psicanalíticos não têm absolutamente a pretensão de esgotar o assunto, mão tão-somente expor sinteticamente minha interpretação sobre os aspectos essenciais de cada termo. Em decorrência, é preciso ressaltar ainda que, embora eu tente ao máximo ser fiel às idéias dos autores da Psicanálise, trata-se aqui de um ponto de vista particular de alguém que conjuga o estudo da teoria com sua própria reflexão crítica. Portanto, caro leitor, não encare as definições que aqui se encontram como o reflexo límpido dos conceitos psicanalíticos, até porque, a meu ver, eles estão longe da translucidez. Meu objetivo principal é possibilitar ao leitor leigo uma resposta curta, porém teoricamente rigorosa das noções do campo freudiano, de modo que ele possa evitar o engano das Wikipédias da vida.

Vamos então falar um pouco sobre esse tal de superego que certamente é um dos conceitos de Freud que mais adentrou no vocabulário do senso-comum. Por isso mesmo, de imediato exclua da sua cabeça a idéia de que o superego é o conjunto de leis, normas e regras da sociedade que limitam os desejos dos indivíduos. Essa definição tosca foi uma dentre as muitas tentativas feitas pelos psicanalistas americanos e psicólogos de outras abordagens para encaixar a psicanálise no quadro das teorias psicológicas e solapar a novidade e o caráter surpreendente das elaborações freudianas. Afinal, a idéia de que o indivíduo introjeta as normas sociais e se comporta sob seu controle mesmo na ausência expressa delas é uma noção que existe desde Platão e sua teoria do humano como sendo um cocheiro que deve controlar dois cavalos: um que representa seus desejos e impulsos e outro que faz o papel das normas sociais.

Para verificarmos as peculiaridades da noção de superego em Freud, é preciso em primeiro lugar saber por que diabos o médico vienense resolveu criar esse conceito logo na década de 1920 quando a maior parte de sua teoria já estava estabelecida. Lembrem-se: conceitos sempre são úteis, funcionais. Ninguém (ou melhor, talvez os filósofos) cria conceitos do nada e para o nada. Eles nascem de uma problemática e, pelo menos em tese, servem para buscar soluções para a mesma.

Com o conceito de superego não foi diferente. Ele brotou de duas experiências clínicas observadas por Freud. A primeira delas foi a culpa, bastante proeminente na neurose obsessiva em que muitas vezes o sujeito realiza atos compulsivos como contar o número dos azulejos do chão do banheiro como forma de evitar uma catástrofe que só aconteceria em sua fantasia. Durante a análise, é muito provável se verificar que a catástrofe era, na fantasia do sujeito, o castigo por um ato libidinoso ou agressivo cometido há muito tempo atrás. A compulsão a contar, portanto, constituiria uma forma de expiar a culpa pela ação que não deveria ter sido levada a cabo.

Outra experiência clínica que está nas raízes da noção de superego são os delírios persecutórios, em boa parte dos quais o sujeito escuta nitidamente uma voz que descreve suas ações, do tipo “Agora ele está andando, agora ele está sentado” ou que lhe insulta, recordando ao sujeito possíveis delitos cometidos, como “Você é um fracassado! É tudo culpa sua” (quem assistiu à novela ‘Caminho das Índias’ vai se lembrar prontamente do personagem Tarso). O passo decisivo dado por Freud foi o reconhecimento de que essa instância persecutória dos delírios dos paranóicos e esquizofrênicos se faz presente na mente de todo mundo, não só dos psicóticos. Nesses, em virtude da dinâmica própria da psicose, essa instância se individualizou e adquiriu um caráter semelhante a de uma segunda personalidade: é como se o psicótico escutasse uma pessoa falando com ele. No caso das pessoas não-psicóticas, o perseguidor não aparece como uma segunda personalidade mas como a própria consciência do sujeito. Aqui, uso o termo “consciência” no sentido de “Minha consciência pesou”, ou seja, como aquela parte de nossa personalidade que nos acusa por ações “erradas” e/ou que nos faz sentirmo-nos responáveis pelas mesmas. É justamente para dar corpo e acabamento conceitual a essa “consciência” que Freud introduz o termo superego. Só que tem um detalhe: Freud avança, pois se o pai da psicanálise se contentasse apenas em inventar um nome psicanalítico para a “consciência” não haveria nenhuma novidade na sua empreitada, seria apenas uma troca de termos. Freud vai mostrar em primeiro lugar de que forma essa “consciência” se forma e, o principal e mais surpreendente, que essa “consciência” está no inconsciente!

Mas isso é assunto para o próximo post.