Self-handicapping: prejudicar-se para salvar a autoimagem

self-handicapping

Poucas coisas na vida são tão valiosas para nós quanto nossa autoimagem (sim, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico, “autoimagem” se escreve assim mesmo, tudo junto). Para manter nossa autoimagem intacta e ilibada a gente é capaz de qualquer negócio, desde sacrificar nosso bem-estar (e de outras pessoas) até, em casos extremos, comprometer nossa própria sobrevivência.

Os norte-americanos, com sua mania de dar nome para tudo, detectaram com muita precisão o mecanismo por meio do qual nós agimos de modo autodestrutivo para conservar nossa autoimagem. Eles chamam isso de self-handicapping, que poderíamos traduzir mal e porcamente por “autodesvantagem” ou “autoprejuízo”.

Pois bem, o self-handicapping acontece quando inconscientemente (ou quase conscientemente, às vezes) criamos para nós mesmos obstáculos para a execução de uma determinada tarefa ou alegamos que determinados fatores externos são barreiras intransponíveis (a famosa “desculpa”). Por exemplo, João está participando de um concurso público e, dentro de duas semanas, deverá fazer a prova escrita. Contudo, devido ao medo enorme de não ter um bom desempenho, inconscientemente ele passa a se expor a determinados fatores ambientais (por exemplo, mudanças bruscas de temperatura, poeira, comida mal conservada etc.) e, pronto: João acaba ficando doente, inviabilizando seu comparecimento ao local da prova.

À primeira vista a gente poderia pensar que isso não faz o menor sentido, pois ninguém jamais ficaria doente voluntariamente. Um olhar mais profundo, contudo, nos mostra que, no caso de João, a doença era o menor de seus males. O pior mesmo seria encarar o concurso! Veja: por um lado, ele está se prejudicando na medida em que está perdendo a oportunidade de conseguir um novo emprego. No entanto, ao mesmo tempo, João está preservando sua autoimagem posto que, ao deixar de fazer a prova, estará evitando a exposição da autoimagem ao risco de um mau desempenho. Além disso, ao ficar enfermo, poderá alegar para si mesmo e para as outras pessoas que não foi ele quem não quis fazer a prova por estar temeroso de falhar, mas sim que a doença o impediu.

Há outras situações em que não somos nós que criamos os obstáculos, mas utilizamos aspectos do ambiente como supostos empecilhos. Por exemplo, para não lidar com o risco de falhar em uma relação sexual e evitar ter que dizer para si mesmo que não teve a coragem de se expor a esse risco, o jovem José pode dizer a sua namorada que não devem transar, pois não possuem um lugar apropriado para tal. Nesse caso, o rapaz está utilizando uma circunstância que, em si mesma, não representa necessariamente um obstáculo para a relação sexual como um meio de evitar reconhecer para si mesmo que não está suficientemente seguro de sua potência. Agindo assim, mantém sua autoimagem intacta.

Você deve ter percebido que ambos os casos giram em torno da autoconfiança, ou melhor, da falta dela. Isso não significa que o indivíduo autoconfiante não sinta medo ou ansiedade. É impossível viver sem experimentar esses afetos. Contudo, o sentimento de que é potente e de que, mesmo após um erro, será capaz de olhar para si mesmo com alegria, é maior do que o medo ou a ansiedade. O autoconfiante não sufoca o medo e a insegurança. Não! É que na batalha dos afetos, a autoconfiança se mostra mais potente do que o medo. Como disse o filósofo holandês Spinoza, um afeto só pode ser vencido por outro afeto maior e não pela razão. Por isso, não adianta apelar para o bom senso e dizer para o indivíduo inseguro que ele não precisa temer, que “o não ele já tem”, que ele é capaz. É preciso que a autoconfiança seja um afeto, ou seja, uma experiência efetiva.

É por isso que a psicanálise funciona! Funciona porque não é constituída de conselhos por parte do analista, mas sim por uma experiência relacional efetiva e afetiva. Se o indivíduo adquire autoconfiança após um tratamento psicanalítico, isso ocorre não porque o analista o convenceu pela via dos argumentos de que ele é capaz, mas porque o indivíduo pode vivenciar sua própria potência nos encontros com o terapeuta.

Este texto foi publicado com ligeiras alterações em minha página no Facebook no dia 11 de janeiro de 2016.

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[Vídeo] 3 dicas para lidar com a ansiedade

Neste vídeo faço algumas considerações gerais sobre a ansiedade e apresento 3 orientações essenciais para quem está buscando lidar melhor com esse incômodo e desgastante afeto.


7 coisas que você precisa saber antes de começar a fazer terapia

Sete coisas que você precisa saber antes de começar a fazer terapia

1. EXISTEM VÁRIOS TIPOS DE PSICOTERAPIA, que utilizam métodos e teorias distintos. Eu, por exemplo, trabalho com a psicoterapia de orientação psicanalítica, mas existem terapeutas comportamentais, cognitivo-comportamentais, humanistas, existencialistas etc. Procure saber que orientação teórico-metodológica o seu terapeuta adota.

2. TERAPEUTA NÃO É MÉDICO. Não espere sair das sessões com uma “receita” de como viver melhor.

3. TERAPEUTA NÃO É PROFETA. Esforce-se para explicar com a maior riqueza de detalhes possível suas dificuldades e problemas.

4. TERAPEUTA NÃO É GURU. Não inicie uma terapia em busca de conselhos sobre decisões a serem tomadas. O terapeuta lhe ajudará a discernir as origens de seu sofrimento e as possíveis implicações de suas escolhas, mas a responsabilidade pelas decisões permanece sendo sua.

5. TERAPIA NÃO É UMA SIMPLES CONVERSA. Ao iniciar um processo terapêutico, você está estabelecendo uma parceria de trabalho com um profissional. Isso mesmo: vocês estão ali para trabalhar! Nesse sentido, você não deve encarar as sessões apenas como oportunidades para “desabafar” ou “ter com quem conversar”.

6. NÃO ESPERE MUDANÇAS RÁPIDAS. Isso pode acontecer, mas não é a regra. Problemas de natureza emocional são infinitamente mais complexos do que doenças físicas. Não existem medicamentos para os males da alma como há para alguns males do corpo. Por isso, saiba que a terapia será um tratamento relativamente longo e as mudanças acontecerão de forma gradativa.

7. NÃO DESANIME. Ao longo da terapia haverá momentos em que parece que “nada acontece”. Você se sentirá tentado a abandonar o processo terapêutico. Resista e persevere. Algumas pesquisas mostram que um dos principais motores do tratamento é o vínculo entre terapeuta e paciente. Portanto, não se preocupe se durante algumas sessões não surgir nenhuma “descoberta” nova. A simples continuidade do processo é, em si mesma, terapêutica.

Este texto foi publicado originalmente em minha página no Facebook no dia 16/09/2015.

[Vídeo] Recado Rápido #14 – Verdades e narrativas

Não raro as pessoas procuram um analista acreditando que, ao longo do tratamento, encontrar-se-ão com a verdade definitiva sobre si mesmas. Se, no início, a psicanálise de fato foi pensada como um método através do qual o sujeito poderia ir ao encontro das memórias relativas aos acontecimentos que determinaram sua história, atualmente não se trata mais disso. Em vez da busca por uma verdade última que estaria na origem do sofrimento do paciente, a análise busca hoje colocar sob suspeita justamente aquilo que se apresenta ao sujeito com o peso de uma verdade imutável e que são de fato narrativas construídas acerca de sua história.


Quando o analista não se apaga (final)

Joao Bobo - Bichinhos - Tigre - 1907 (1)No artigo “Elasticidade da técnica psicanalítica”, Ferenczi assinala de forma veemente que o uso da empatia como recurso terapêutico não seria propriamente uma inovação no campo da técnica psicanalítica, pois Freud já o teria preconizado. De fato, o fundador da psicanálise sempre defendeu que as intervenções do analista não poderiam ser levadas a cabo à revelia do que se passava com o paciente durante a sessão. Uma interpretação, por exemplo, só deveria ser enunciada quando o analista percebesse que o paciente estava bem próximo de chegar a ela por seus próprios meios. Cremos, todavia, que ao recomendar aos analistas que estejam atentos aos movimentos psíquicos do paciente durante a sessão, Freud não tinha em mente a atitude empática de “sentir com”. Afinal, essa atitude demanda do terapeuta uma disponibilidade para afetar-se que Freud não via com bons olhos.

Ao falar do uso da empatia, Ferenczi está descrevendo uma transformação da posição que o analista ocupava até então no tratamento. O analista que se localizava fora do campo de visão do paciente justamente para facilitar o apagamento de sua pessoa dá lugar a um analista que se posiciona ao lado do paciente, pois só assim é possível “sentir com”. Isso não significa, evidentemente, que o analista abandone sua função de terapeuta e passe a se comportar como um amigo do paciente. Cremos que o cerne da concepção ferencziana sobre o uso da empatia como recurso técnico é a defesa da adaptabilidade do analista. Do ponto de vista freudiano, o analista deve adotar uma postura única para todos os pacientes (até porque Freud considerava que a psicanálise era um método útil apenas para o tratamento das neuroses). Já para Ferenczi, que experimentou a psicanálise no tratamento de formas não-neuróticas de adoecimento emocional, o analista deve adaptar-se às necessidades do paciente. E essa adaptação não pode acontecer jamais se o analista não se coloca no tratamento numa posição de parceria. É a partir desse lugar instaurado no início do processo terapêutico que o analista terá condições de empaticamente “adivinhar” do que o paciente precisa. É possível, inclusive, que o terapeuta chegue à conclusão de que o analisando necessite de um analista mais distante mesmo, mais apagado, pois já é maduro o suficiente para se aventurar nas trilhas de seu inconsciente. No entanto, essa conclusão não pode ser estabelecida a priori, mas a partir da disponibilidade do analista a se deixar afetar pelo paciente.

Ferenczi ilustra essa disponibilidade afetiva do analista com a figura do “João Bobo”, aquele brinquedo infantil que pode ser empurrado e golpeado em várias direções, mas que consegue, ainda assim, retornar a sua posição inicial. A saída do lugar relativamente seguro oferecido pela neutralidade e abstinência e a adoção da posição de parceria exigirá do analista a capacidade de suportar os sentimentos de ódio que eventualmente podem surgir no decorrer do tratamento sem perder o equilíbrio. O analista deve se mostrar aberto a ser alvo tanto dos sentimentos ternos e afáveis quanto dos movimentos apaixonados e agressivos. Mais: deve não apenas se apresentar disponível a recebe-los como também capaz de sobreviver a eles.

Ferenczi observou que pacientes que foram severamente traumatizados nas etapas iniciais de seu desenvolvimento sofrem principalmente da incapacidade de confiarem no mundo (e, por transferência, no analista). Isso os leva a terem dificuldade de se entregar ao processo terapêutico. Assim, o conjunto de manifestações refratárias ao tratamento que Freud chamou de “reação terapêutica negativa” não seria, em todos os casos, uma mera resistência à exploração do conteúdo recalcado ou a expressão de uma suposta “pulsão de morte”. Em outras palavras, o paciente não se entregaria por razões de natureza relacional e não intrapsíquica. A experiência precoce com um ambiente hostil o levaria a sentir-se inseguro e desconfiado: o que garante que o trauma não possa se repetir? Por esse motivo, o esforço do analista não deve ser no sentido de debelar uma suposta resistência, mas na direção de proporcionar um ambiente afetivo o mais próximo possível do esperado pelo bebê antes do trauma. O oferecimento desse ambiente, contudo, não levará o paciente imediatamente à reconquista da capacidade de confiar. Justamente pelo temor de que o trauma possa se repetir, o paciente inevitavelmente tenderá a testar esse novo ambiente acolhedor a fim de certificar-se de que ele é efetivamente confiável. É nesse momento que a maturidade do próprio analista (conquistada graças a sua própria análise) será fundamental. Afinal, o terapeuta deverá ser maduro o suficiente para (1) compreender empaticamente a esperança subjacente aos comportamentos eventualmente agressivos do paciente, (2) aceitar, como um João Bobo, ser golpeado por ele e (3) sobreviver a esses ataques, demonstrando afetivamente ao paciente que ele está diante de um ambiente confiável.

Isso significa que, diante dos movimentos agressivos do paciente, o analista deve simplesmente fazer uma “cara de paisagem” e fingir que nada está acontecendo? Não, dirá Ferenczi. Com efeito, uma das características essenciais de uma pessoa confiável é a sinceridade. O analista húngaro chega, inclusive, a chamar de “hipocrisia profissional” a tendência dos analistas ortodoxos a não expressarem nunca o que sentem a fim de preservarem a neutralidade. Como estamos frisando desde o início deste texto, para Ferenczi o analista não é um lugar, uma função, um vazio. Pelo contrário! O analista é, antes de tudo, uma pessoa com quem o paciente estabelece uma relação real. Nesse sentido, se o analista oculta do paciente todos os seus movimentos afetivos produzidos pela própria relação analítica, ele está impedindo o estabelecimento de uma relação autêntica. Para alguns pacientes (que cada vez se tornam mais raros) essa atitude pode até não comprometer de forma significativa o trabalho. Já para pacientes cuja raiz do adoecimento emocional é a série de traumatismos sofridos na relação com o ambiente, um analista que resiste à instauração de uma relação real é radicalmente anti-terapêutico. Por outro lado, ao defender o uso da sinceridade na relação com o paciente, Ferenczi não está propondo que a análise se transforme numa exposição contínua do próprio analista. O analista húngaro está apenas frisando o valor terapêutico da atitude espontânea e sincera do analista.

À guisa de conclusão, diremos que a técnica psicanalítica clássica proposta por Freud, fundamentada na abstinência e na neutralidade do analista, foi um experimento inegavelmente útil para o tratamento de pacientes que podiam, digamos, se darem ao luxo de prescindir da presença do analista. O analista que se apaga e deixa seu lugar mais ou menos vazio para que o paciente possa atualizar seus conflitos inconscientes é adequado para casos leves de histeria, neurose obsessiva e fobia. Contudo, na atualidade, tais casos têm se mostrado cada vez menos frequentes na clínica. Temos encontrado pacientes cuja capacidade para lidarem com o apagamento do analista é bastante reduzida. Para esses pacientes, o analista empático, que não se apaga e se apresenta disponível para ser afetado é de suma importância. Nesses casos, é a experiência afetiva de relação com tal analista o elemento terapêutico primordial e não a elaboração intrapsíquica de conflitos inconscientes.

Quando o analista não se apaga (parte 3)

ep-101-jesse-1024Ferenczi observou que o choque entre a linguagem da ternura expressa pela criança e a linguagem da paixão manifesta pelo adulto é inevitavelmente traumático. Afinal, assim como a criança é ainda incapaz de compreender uma sexualidade que ultrapasse os limites do pré-prazer lúdico, o adulto também não tem condições de abandonar completamente a linguagem da paixão e identificar-se de forma plena com o modo infantil de amar. Em decorrência, um ponto de incompreensão marcaria desde o início as relações entre os adultos e as crianças. Contudo, para Ferenczi, essa fator só se tornaria efetivamente um trauma desestruturante e fonte de adoecimento emocional se o adulto negligenciasse a diferença entre o seu modo de amar e o modo de amar infantil e impusesse a linguagem da paixão sobre a criança. No texto “Confusão de língua entre os adultos e a criança”, Ferenczi cita especificamente o exemplo do abuso sexual, em que essa imposição se dá de modo flagrante. No entanto, podemos inferir, à luz dos desenvolvimentos teóricos de outros autores, como Winnicott, que, ao falar do potencial traumático das imposições do adulto sobre a criança, Ferenczi não estava fazendo referência apenas a casos de abusos sexuais.

O que Ferenczi parece querer acentuar – e as modificações que ele fará no plano da técnica evidenciam isso – é o papel que o ambiente exerce na etiologia do adoecimento emocional. De fato, com o abandono da chamada “teoria da sedução” e a valorização da fantasia, Freud passou a dar menos importância aos fatores externos na formação das neuroses, enfatizando muito mais os mecanismos de defesa e as fantasias inconscientes. Foi justamente esse enfoque eminentemente intrapsíquico do adoecimento emocional que deu origem ao enquadre terapêutico clássico proposto por Freud, no qual o analista é uma figura passiva, que funciona basicamente como um endereço para as projeções do paciente. Em outras palavras, se o ambiente externo não exerce papel importante na etiologia das neuroses, a pessoa do analista é igualmente irrelevante. Assim como, no plano teórico, o ambiente externo não teria levado ao surgimento da doença, no plano da técnica, o comportamento do ambiente externo (analista) também não contribuiria para o resgate da saúde.

Ferenczi, por seu turno, ao se dar conta dos efeitos deletérios da aplicação da técnica ativa e refletir sobre o potencial traumatogênico dos comportamentos do adulto em relação à criança, chegou à conclusão de que o ambiente externo poderia, sim, ser fonte de adoecimento emocional. Muitos pacientes, em especial os que apresentavam patologias mais graves, não teriam adoecido apenas em decorrência de conflitos intrapsíquicos mal elaborados, mas em função de traumas provocados por comportamentos invasivos, opressivos ou negligentes do ambiente externo. Nesse sentido, o tratamento desses pacientes não poderia mais ser concebido como um processo exclusivamente intrapsíquico, como queria Freud. Se o comportamento de determinadas pessoas foi determinante para o surgimento da neurose, assim também o comportamento do analista seria igualmente determinante para o sucesso do tratamento. Ferenczi fará, então, fortes questionamentos em relação ao lugar clássico do analista.

Do ponto de vista ferencziano, o comportamento clássico do analista, marcado por certa frieza emocional, objetividade e neutralidade, é bastante semelhante à atitude geral de um ambiente que pode traumatizar uma criança. Com efeito, a criança espera encontrar à sua volta um ambiente terno, afável, acolhedor, que a compreenda e no qual ela possa confiar para continuar simplesmente existindo, sem se preocupar com os perigos do mundo. Esses desejos, contudo, são expressos na linguagem da ternura, ou seja, a criança não tem a expectativa de ser satisfeita pelo adulto com uma relação sexual propriamente dita. Exercitando sua aguda perspicácia clínica, Ferenczi observará que muitos pacientes, ao longo do processo terapêutico, começam a fazer essas mesmas demandas infantis. Diferentemente de outros analisandos que expressavam desejos de efetivamente terem uma relação amorosa com o analista, esses pacientes faziam demandas que eram bem características da linguagem da ternura. Em outras palavras, eles não queriam transar com o analista, mas encontrar nele acolhimento e confiabilidade – elementos com os quais não teriam podido contar na infância.

Ferenczi compreendeu, portanto, que esses pacientes haviam regredido para um ponto de seu desenvolvimento anterior à incidência do trauma, um ponto em que ainda eram capazes de esperar acolhimento, ternura e confiabilidade do ambiente externo. Se o analista, frente a essas demandas, se comportasse da maneira clássica, ou seja, frustrando-as e mantendo-se numa posição de neutralidade, ele estaria repetindo a mesma atitude traumatogênica do ambiente primário do paciente. Em outras palavras, podemos dizer que, em certos casos, o apagamento do analista não contribui para o sucesso do tratamento. Pelo contrário, favorece a continuidade e a intensificação do adoecimento.

Atento ao potencial “re-traumatogênico” da neutralidade analítica, Ferenczi irá propor que a técnica psicanalítica não seja mais padronizada, mas vem ao encontro das necessidades de cada paciente. Tomando emprestada uma expressão proposta por um de seus analisandos, Ferenczi defenderá uma “elasticidade da técnica psicanalítica”. Para o analista húngaro, se levarmos em conta que na clínica encontramos vários perfis de pacientes (alguns mais traumatizados que outros ou mais amadurecidos que outros, por exemplo), isso significa que nossa intervenção não pode ser a mesma para todos eles. O terapeuta precisaria modular sua posição clínica de acordo com as especificidades de cada caso. E como saber o tipo de abordagem que cada paciente precisa? Observando e classificando os sintomas? Lendo tratados de psicopatologia? Não, dirá Ferenczi. Para identificar as necessidades de cada paciente, o analista deverá fazer uso da empatia, ou seja, deverá colocar-se não mais numa posição de neutralidade e objetividade, mas de sintonia, sentindo com o paciente o que esse lhe dirige.

Você é o profeta do seu próprio sofrimento?

JóA auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso dos pacientes que atendemos em psicoterapia. Com exceção, talvez, dos deprimidos que, em vez de se considerarem vítimas, enxergam a si mesmos como algozes do mundo, a maioria de nossos pacientes tende a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. A mudança dessa posição subjetiva, aliás, é uma das primeiras tarefas a serem levadas a cabo num tratamento psicoterapêutico. Essa mudança acontece, sobretudo, através de um processo de elaboração psíquica que leva o doente a se dar conta de como ele próprio contribui para a manutenção do seu padecimento.

Como inicialmente veem a si mesmos apenas como vítimas das ações cruéis de outras pessoas, muitos pacientes não percebem que eles próprios, de uma forma inconsciente e amiúde não-verbal, acabam estabelecendo as condições para que lhes aconteça exatamente aquilo que não gostariam que acontecesse. Em psicologia, esse fenômeno recebeu o nome de “profecias auto-realizadoras”.

Tomemos uma ilustração clínica: uma paciente vem ao consultório queixando-se de que as pessoas com as quais convive na faculdade e no ambiente de trabalho sistematicamente a rejeitam por considerarem-na chata. A fim de compreender melhor a lamentação da moça, o terapeuta pergunta a ela se alguma daquelas pessoas já lhe disse explicitamente que ela era chata. A paciente diz que não, que, na verdade, ninguém nunca lhe disse isso, mas ela consegue perceber que é essa a visão que as pessoas têm dela. Notando uma boa oportunidade para uma intervenção, o terapeuta diz: “Então não são as pessoas que lhe veem como chata. É você que imagina que elas pensam isso de você.”. Ao se perceber flagrada em sua auto-vitimização, a paciente tenta se defender, mas acaba se denunciando novamente: “Não! Isso não é coisa da minha cabeça! Eles realmente me acham chata. Por isso, eu quase não converso com ninguém. Povo metido…”.

Segunda ilustração: um jovem de trinta e poucos anos afirma ter procurado tratamento psicoterapêutico por ter dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto. Quando perguntado pelo terapeuta acerca da natureza da dificuldade, o sujeito responde que “as mulheres nunca dão bola para mim; só me dão foras!”. Observando a atitude auto-vitimizadora do paciente, o terapeuta decide repetir a pergunta colocando ênfase na palavra “sua” como forma de retificar sua posição subjetiva: “Mas qual é a natureza da sua dificuldade com as mulheres?”. O paciente, então, responde que não sabe e que procurou ajuda justamente para descobrir o que ele tem de errado.

Nesses dois exemplos é possível observar com certa clareza que as queixas dos pacientes é verbalizada inicialmente com o único propósito de justificar a fantasia de que são inocentes vítimas do comportamento perverso de outras pessoas. Em outras palavras, é como se implicitamente estivessem dizendo ao terapeuta: “Eu sofro porque o mundo me faz sofrer. O mundo tem que mudar, não eu.”. As intervenções do terapeuta visam justamente levar o paciente a converter esse discurso auto-vimizador em um questionamento acerca do que ele próprio precisa mudar em seu comportamento.

Nesse processo, fica claro que tanto a moça que reclama de ser considerada chata quanto o rapaz que se queixa do desprezo das mulheres, contribuem de uma forma muito significativa para que suas queixas se mantenham. A moça não percebe que ela própria se exclui das relações com as pessoas e não o inverso. E ela se exclui por imaginar que os outros a consideram chata, sendo que ninguém jamais lhe disse isso. Pode-se concluir, portanto, que ela própria, antes dos outros, se vê como chata. Trata-se de um auto-julgamento que provavelmente já faz com que ela se coloque frente às outras pessoas de um modo tímido e receoso – atitude que, naturalmente, não favorece ninguém nas relações interpessoais.

No caso do rapaz, as coisas se passam de modo semelhante. Quando o terapeuta repete a pergunta acerca da natureza de sua dificuldade com as mulheres, ele responde com uma fantasia que certamente influencia o modo como se relaciona com o sexo oposto. Ele diz que veio à psicoterapia para descobrir “o que tem de errado” consigo. Nesse momento, o paciente evidencia que vem estabelecendo um juízo moral sobre si mesmo. Ele ainda não formula uma demanda de mudança; quer apenas encontrar essa espécie de “pecado original” que carrega consigo e que lhe impede de obter sucesso com as mulheres. É bastante provável que nas ocasiões em que tem a oportunidade de iniciar uma paquera, o paciente se apresente de modo inseguro e hesitante por considerar de antemão que possui “algo de errado”. Essa insegurança e hesitação, por sua vez, provavelmente acabem transmitindo às mulheres uma impressão negativa a seu respeito e fazendo com que elas se afastem.

Nos dois casos, a expectativa que os pacientes apresentam em relação ao comportamento do outro, isto é, a profecia de que sempre serão rejeitados, inevitavelmente se realiza. Isso não acontece, contudo, porque sejam, como Jó, alvos de um acordo maroto entre Deus e o diabo, mas sim porque eles próprios, sem perceberem, se encarregam de cumprirem a profecia. Um dos objetivos da psicoterapia, como dissemos acima, é justamente o de levar o paciente a perceber que frequentemente exerce o papel de profeta do próprio infortúnio e que a saída para o abandono das profecias auto-realizadoras está na quebra das fantasias de auto-vitimização.

[Vídeo] Trauma

No senso comum a palavra “trauma” costuma ser associada a eventos extraordinários como acidentes, catástrofes, tragédias e abusos. No entanto, quando nos debruçamos sobre o sentido original do conceito de trauma na teoria psicanalítica, nos damos conta de que o aspecto que define um evento como traumático não é sua natureza mais ou menos impactante, mas sim a capacidade do indivíduo de lidar com uma determinada experiência.


Cursos Online na Área de Pedagogia

[Vídeo] Psicanálise prática

Em psicanálise, o alívio do sofrimento experimentado pelo paciente é apenas um efeito “extra” do tratamento ou deve ser o seu objetivo primordial?


Affectus #003 – “Não consigo dizer ‘Não’!”

O post desta semana seria a parte final do artigo “Questionando o ‘óbvio’: a falta é a causa do desejo?”, mas, como o último segmento é, na verdade, um “adendo” e não propriamente uma conclusão resolvi adiar sua publicação para a semana que vem.

Hoje apresentarei o terceiro episódio de “Affectus“, um projeto audiovisual que tem o objetivo de colocar em pauta dificuldades e problemas emocionais do cotidiano, apontando possibilidades de compreensão e enfrentamento sem, todavia, propor soluções. Trata-se, na verdade, de pílulas de provocação, prescritas para incomodar e mobilizar o espectador rumo ao questionamento e à reflexão e quem sabe, produzir como efeito colateral a procura de ajuda psicoterapêutica.

Nesse terceiro episódio o tema é a dificuldade que muitas pessoas enfrentam para recusar demandas provenientes do outro, a qual frequentemente se expressa pela impossibilidade de dizer “não”. No vídeo, defendo a tese de que tal dificuldade é apenas o sintoma de um padrão de relacionamento interpessoal marcado pelo medo do sujeito de se responsabilizar pelo próprio posicionamento.

A essência da psicanálise

O que diferencia a psicanálise das demais formas de psicoterapia? Em que atributos reside a singularidade do método criado por Freud? Que características devem estar presentes para que um tratamento psicológico possa ser caracterizado efetivamente como psicanalítico?

Recentemente venho meditando tais questões. Não se trata de um mero exercício intelectual. A reflexão perpétua em torno dessas questões me parece relevante como forma de manter vivas na consciência do clínico as diretrizes essenciais da prática da psicanálise, as quais, amiúde, correm o risco de serem relativizadas. Neste texto, quero compartilhar com os leitores alguns apontamentos derivados dessas reflexões, sem a pretensão de esgotar o assunto.

Numa carta dirigida a Georg Groddeck, em 1917, Freud afirma que todo terapeuta que leve em conta a presença da resistência e da transferência no tratamento pode dizer que está de fato fazendo psicanálise. Para o médico vienense, portanto, a essência de seu método, aquilo que garantiria sua singularidade, seria a consideração da resistência e da transferência no processo terapêutico.

Em textos anteriores dediquei-me a explicar de maneira simples e clara ambos os conceitos. Todavia, a fim de demonstrar por que Freud os tomou como sendo a essência do método psicanalítico, dedicarei a eles mais algumas palavras.

Resistência

O que os psicanalistas chamam de resistência diz respeito àquilo que faz com que a psicanálise se diferencie de um procedimento meramente educativo. Com efeito, a educação tradicional pressupõe que a realização de uma tarefa por parte de um sujeito depende unicamente da posse, por parte desse sujeito, da capacidade para tal.

Embora essa ideia pareça estupidamente tautológica, a clínica psicanalítica mostra que não é bem assim. Afinal, o que mais encontramos em nossos divãs são pessoas que possuem plena capacidade para não fazerem aquilo lhes prejudica e que, ainda assim, ou seja, mesmo lhes fazendo mal, não conseguem deixar de fazer!

A educação, diante de alguém nessa situação, teria apenas duas opções de diagnóstico: ou a pessoa não possui de fato a capacidade para deixar de fazer o que lhe prejudica (ainda que diga que possua) ou, na verdade, não quer deixar de fazê-lo.

Freud descobriu uma terceira possibilidade de explicação, que resultou no conceito de resistência. Ele observou que o sujeito pode ter a capacidade e a vontade consciente de deixar de renunciar ao seu sintoma e ainda assim não conseguir abandoná-lo em função de determinados fatores inconscientes. São justamente esses fatores que Freud denominou de resistências.

Considerar a resistência nos permite entender porque o paciente frequentemente nos diz: “Eu gostaria de mudar, mas não consigo”. Se ele não consegue, não é porque de fato não queira, mas porque a mudança traria consigo uma série de consequências imaginárias e reais que o paciente ainda não é capaz de suportar.

Um exemplo banal nos ajuda a esclarecer essa ideia. Tomemos um paciente que afirme não ser capaz de dizer “não” às demandas de pessoas à sua volta nos momentos em que conscientemente gostaria de fazê-lo. Trata-se de uma dificuldade experimentada por muitas pessoas. O paciente afirma que deseja ardentemente ser capaz de dizer “não”, mas infelizmente não consegue. Observem: ele quer, tem boca e sabe falar, mas, por alguma razão, não consegue.

No decorrer da análise, poderemos verificar que esse paciente teme imaginariamente que ao dizer “não” para alguém, essa pessoa passará a não mais amá-lo ou a não lhe dar a atenção que costumava dar. Essa consequência, certamente possível, mas que em outras pessoas não produziria mais do que um leve mal-estar, para esse sujeito que não consegue dizer “não” poderia implicar num processo de desintegração psíquica! Para esse sujeito, o amor e olhar do outro podem ser tão doentiamente necessários que, sem eles, o sujeito teme não mais existir ou a viver num estado de angústia funesta. Poderemos também descobrir que esse temor está associado às experiências que o paciente vivenciou quando era bebê, nas quais o ambiente não o acolheu suficientemente bem, de modo que ele não foi capaz de se sentir existindo independentemente do olhar do outro.

O paciente, portanto, “resiste” à cura ou à melhora, isto é, não consegue dizer “não” porque esse sintoma é ainda um mal menor perto da situação emocional em que se encontraria caso não pudesse contar com ele.

Nesse sentido, se Freud diz que levar em conta a resistência é uma das marcas do tratamento psicanalítico isso significa que o psicanalista não é adepto do famoso adágio psicoterapêutico de quinta categoria que afirma: “Eu posso te ajudar, mas você tem que querer.”.

Para o psicanalista esse suposto “querer” que faria o paciente abandonar o sintoma não é fruto de um suposto livre-arbítrio ou da famosa “força de vontade”, mas resultado da relação do sujeito com o ambiente e, sobretudo, das marcas deixadas por essa relação no psiquismo. A resistência do paciente sinaliza a função defensiva do sintoma. Sem a doença, o sujeito fica indefeso e entregue à angústia. Por essa razão, ele resistirá até o momento em que a angústia não for mais um inimigo do qual é preciso se defender ou até o ponto em que se sentirá suficientemente seguro para enfrentá-la sem utilizar o sintoma como defesa.

Para que isso ocorra, é preciso que o clínico possa levar em conta o segundo conceito que Freud aponta como fazendo parte da essência do método psicanalítico: a transferência.

Transferência

Considerar a transferência como o eixo do tratamento significa apostar no potencial que a relação entre terapeuta e paciente tem de servir como um novo começo para o doente. Significa entender que o sujeito não vem ao psicanalista para falar sobre sua doença, mas para manifestar essa doença diretamente na relação com o terapeuta. É essa a realidade espantosa que Freud observou desde seus primeiros tratamentos de pacientes histéricas!

Chama-se “transferência” porque de fato o paciente transfere sua doença para o setting terapêutico, fazendo com que o problema possa ser abordado ao vivo e a cores e a transformação do paciente possa acontecer de maneira direta e imediata.

Voltemos a nosso exemplo. Se o paciente não consegue dizer “não” às pessoas que compõem o seu círculo de relacionamentos, da mesma forma, na medida em que o analista passa a ser uma dessas pessoas, ele também não conseguirá dizer “não” ao analista. Em decorrência, essa dificuldade poderá ser tratada in loco. A primeira pessoa a quem ele poderá dizer “não” sem medo de deixar de existir será o analista que, diferentemente do ambiente inicial no qual o sujeito se constituiu, será capaz de suportar esse “não”, mantendo o acolhimento intacto.

Transferência, portanto, não significa que o analista é uma tela em branco, onde o paciente irá projetar todas as suas fantasias. Trata-se de um laboratório da vida, onde misturas podem ser feitas, substâncias podem ser decompostas sem medo. A transferência testemunha a esperança do paciente de que o destinatário da mensagem veiculada por sua doença – destinatário que, no tratamento, passa a ser o analista – possa dar uma resposta diferente daquelas que o paciente já conhece e que só contribuem para a manutenção do adoecimento.

A consideração da transferência é, portanto, uma das marcas da psicanálise porque, diferentemente de outros tipos de psicoterapia, o método psicanalítico sustenta que a relação entre analista e analisando é o espaço onde a doença se manifesta e onde ela será compreendida e tratada e não apenas um lugar onde se falará acerca dela.

Concluindo

Pode-se dizer que, a despeito da diversidade de orientações teóricas na psicanálise, o elemento que jamais poderá estar ausente de um tratamento que se denomine psicanalítico é a consideração da resistência e da transferência. Ao levar em conta a resistência, o psicanalista reconhece que todo sintoma funciona como uma defesa para o sujeito e que, por conta disso, é difícil para o paciente abandonar sua doença, de modo que, em matéria de psicopatologia, o jargão “É preciso querer” é absolutamente falso. Outrossim, levando em consideração a transferência, o analista sabe que o abandono do sintoma só se faz quando ele deixa de ser necessário como defesa e isso só acontece quando o paciente experimenta um ambiente suficientemente seguro. Esse ambiente deverá ser encontrado na relação com o analista, evidenciando que na psicanálise a doença é abordada de forma direta, na medida em que se manifesta com todas as suas características no interior da relação terapêutica.

O psicanalista deve fazer anotações durante as sessões?

Todos os iniciantes na prática da psicanálise possuem uma série de dúvidas de ordem prática e operacional que geralmente não são sanadas nos cursos de formação. Uma das perguntas mais frequentes de quem está começando a atender pacientes diz respeito à realização ou não de notas durantes as sessões.

Não se trata de uma indagação para a qual se tenha uma resposta óbvia. Afinal, muitas informações que se encontram no discurso do paciente precisam ser registradas, pois podem ser úteis na construção de um relato clínico ou mesmo para a própria compreensão mais clara da história clínica do paciente. Em certos casos clínicos de Freud é possível verificar, por exemplo, o quanto certos dados cronológicos foram extremamente relevantes para o entendimento da doença do paciente.

Vemos, portanto, que os registros escritos são de fato muito importantes tanto para a elaboração de um relato do caso quanto para a própria condução do tratamento. Por outro lado, sabemos também que nem todos os analistas são dotados de uma alta capacidade de memorização e, além disso, as próprias questões inconscientes do analista podem acabar influenciando suas lembranças relativas às sessões. Isso coloca em xeque as anotações que são feitas após o encerramento da sessão, já que o analista pode simplesmente não se lembrar das informações de que precisa.

Dada essa dificuldade, o que fazer? Anotar durante as sessões?

Quando anotar?

Num texto de 1912, chamado “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, Freud nos dá algumas dicas de como solucionar esse problema. Vejamos o que o pai da psicanálise diz:

1. NÃO SE DEVE ANOTAR TUDO O QUE O PACIENTE DIZ.

Lembre-se: você é um psicanalista e não um estenógrafo! Não dá para tratar um paciente e escrever ao mesmo tempo. Ninguém consegue realizar duas atividades ao mesmo tempo. Logo, se você está preocupado em anotar tudo o que o paciente diz, sua tarefa de fazer a análise acontecer será deixada de lado. Além disso, a grande maioria dos pacientes se sente desconfortável, intimidada e, frequentemente, percebe que você deixou de lado a análise e está focado apenas em anotar o que fala. Outra razão pela qual você não deve anotar integralmente o que o paciente diz é que a anotação exige um tipo de concentração que é inteiramente contrária à atitude que um analista deve adotar durante a sessão. Essa atitude, que Freud chamou de “atenção flutuante” deve permitir ao analista se deixar levar pela associação-livre do paciente e captar os momentos propícios a uma pontuação ou interpretação. Portanto, se você está preocupado em anotar o que paciente diz, sua atenção ficará presa apenas ao discurso em si do paciente e não estará livre para perceber as incoerências, lapsos, atos-falhos e outras eventualidades que não devem jamais passar despercebidas.

2. FAÇA APENAS ANOTAÇÕES EVENTUAIS

Datas são informações que, pela reduzida possibilidade de associação consciente, tendem a ser facilmente esquecidas. Por outro lado, são altamente relevantes para a compreensão do caso, pois muitas vezes são significantes que estão intimamente associados a eventos cruciais da história do paciente. Logo, talvez seja interessante ter um caderninho de notas por perto para poder anotar alguns delas.

Determinados sonhos e eventos da história clínica fornecem uma espécie de “radiografia” tão precisa da situação do paciente ou de uma fantasia inconsciente que, caso não sejam registrados, correm o risco de serem perdidos como informação para a confecção de um relato clínico. Nas ocasiões em que tais elementos aparecerem, anotá-los pode ser indicado, afinal o valor a longo prazo da informação compensará os poucos minutos de intervalo da atenção flutuante.

Conclusão

Não, não é recomendável que o psicanalista faça anotações regulares durante as sessões. Não se engane: se em reuniões e outros compromissos profissionais fazer anotações pode ser vista como uma atitude que indica profissionalismo e seriedade, na análise esse comportamento apenas provocará irritação e incômodo no paciente e tirará sua atenção dos reais objetivos do tratamento. Todavia, deixe sempre o bloquinho por perto. Datas relevantes, sonhos e outros eventos importantes podem ser exceções à regra.

Affectus #002 – Depressão: a retranca da vida

Affectus é meu novo projeto audiovisual. Trata-se de uma série de vídeos em que discuto temas ligados diretamente à clínica sobretudo as dificuldades e problemas emocionais que atualmente se apresentam com maior frequência em nossos consultórios.

Neste segundo episódio abordo a depressão a partir de um ponto de vista não-medicalizante, ou seja, que não encara a depressão como uma doença, mas sim como uma posição subjetiva. Utilizando uma analogia com o esporte mais popular do Brasil, o futebol, busco demonstrar no vídeo que a depressão é uma defesa empregada por determinados indivíduos para lidar com certos tapas na cara que a vida lhes dá.

Affectus #001 – Lidar com a ansiedade

Eis abaixo o primeiro episódio de “Affectus“, minha nova produção audiovisual voltada para a internet. Fazendo jus ao título do projeto (que é a tradução latina da palavra “afeto”) pretendo produzir em cada episódio uma reflexão sobre impasses e dificuldades emocionais vivenciadas pelos sujeitos na contemporaneidade. Como eu friso no primeiro vídeo, não se trata de nada semelhante à auto-ajuda. Pelo contrário, minha proposta é justamente a de evidenciar que não há uma fórmula mágica para a resolução de nenhum problema subjetivo e que em todos eles fatores irredutíveis ligados à condição humana se fazem presentes.

Ficaria muito feliz se vocês postassem reações ao vídeo nos comentários. Enjoy!

Estréia do videocast “Do Laboratório ao Divã”

Caríssimos, quero apresentar a vocês o meu mais novo projeto, realizado em parceria com meu amigo e também psicólogo Igor Madeira. Trata-se do videocast “Do Laboratório ao Divã”, um programa semanal de cerca de 15 minutos feito especialmente para a internet. A idéia é que a cada semana, Igor (psicólogo comportamental) e eu (psicanalista) possamos discutir um tema específico a partir dos pontos de vista do Behaviorismo e da Psicanálise, demonstrando que, embora historicamente esses discursos tenham sido postos numa relação de rivalidade, eles podem dialogar e o debate produzir bons frutos.

Igor, como eu, também se formou em psicologia na Universidade Vale do Rio Doce (Univale) e atualmente é mestrando em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), trabalhando com a temática de equivalência de estímulos na aprendizagem de comportamentos musicais.

O episódio de estréia já está no ar e a discussão gira em torno do tema “amor”. Espero que gostem!