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Muitos acidentes de carro acontecem porque alguns motoristas usam o celular enquanto dirigem, certo?
Mais ou menos.
Esses acidentes ocorrem fundamentalmente porque alguns motoristas acreditam que são capazes de fazer as duas coisas ao mesmo tempo: dirigir e mexer no telefone.
Ou seja, os acidentes acontecem por conta de um processo psíquico muito comum: a superestimação da própria capacidade.
O cara se ilude pensando: “Ah, tá tranquilo: não preciso estacionar o carro para responder essa mensagem. É rapidinho.”
Mas não são só motoristas imprudentes que caem nessa armadilha de superestimar a própria capacidade.
Talvez você, que jamais mexe no celular enquanto está dirigindo, esteja neste exato momento envolta na mesma ilusão.
De repente você tem se sentido frequentemente triste, desanimada, abatida. Vem comendo em excesso, tendo crises de choro do nada. Desperdiça horas e horas do seu dia vendo vídeos curtos em redes sociais…
Porém, todo fim de semana pensa:
“Se eu quiser, posso mudar esse jogo. Basta ter força de vontade. Segunda-feira vou voltar à academia e tudo vai mudar.”
Não, minha cara. Não vai.
Você está tão iludida quanto o cara que bateu no carro da frente por achar que conseguiria dirigir e mandar mensagem ao mesmo tempo.
E sabe por que você embarca facilmente nessa ilusão?
Por razões narcísicas: é doloroso reconhecer que a gente não tem tanto controle sobre nosso comportamento.
Pensar que você vai sair de um quadro depressivo simplesmente tomando a decisão de voltar para a academia na segunda-feira preserva a imagem idealizada que você tem de si mesma.
O problema é que sua saúde (física e psíquica) não está nem aí para sua autoimagem idealizada.
— Ah, Lucas, mas, então, o que eu deveria fazer?
Como se diz no futebol, você precisa confiar no processo…
Você e o cara que dirige mexendo no celular.
A orientação dos especialistas em trânsito é inequívoca: em hipótese alguma utilize o telefone enquanto está dirigindo. O Código de Trânsito Brasileiro considera infração gravíssima fazer isso.
Da mesma forma, a orientação dos especialistas em saúde mental (como eu, por exemplo) também é clara: se você está vivenciando sofrimento psíquico significativo, inicie um tratamento com um profissional.
Sim, um tra-ta-men-to. Não é ficar assistindo videozinho de influencer nem fazendo cursinho de coach.
Eu tô falando de fazer terapia e, eventualmente, com a devida avaliação médica, tomar remédio.
— Ah, Lucas, mas, fazendo isso, a mudança que eu estou buscando pode levar muito tempo!
Sim, não necessariamente será rápido.
Mas confie no processo.
Ele é muito mais confiável do que sua força de vontade — que aparece na segunda-feira e na terça já foi embora.
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Você pode achar que não consegue fazer determinadas mudanças em sua vida simplesmente porque não sabe como fazê-las.
O problema, portanto, seria apenas falta de conhecimento. E a solução, por sua vez, passaria por obter… informação.
Tem muita gente que procura terapia com essa perspectiva na cabeça.
É o caso de Laura.
Ela decidiu fazer terapia porque se via como uma pessoa muito ansiosa e gostaria de aprender a parar de se preocupar tanto com tudo.
Achava que se alguém lhe orientasse sobre como lidar corretamente com seus problemas, ela deixaria de ficar tão tensa.
Para Laura, a terapia funcionaria como uma espécie de consultoria: ela ficaria na posição de aprendiz e o terapeuta agiria como um professor.
Essa expectativa era equivocada?
Depende…
Existem certas terapias que funcionam exatamente da forma como Laura imaginou:
Nelas, o paciente é visto como alguém que não tem o conhecimento necessário para vencer suas dificuldades.
E o terapeuta, por sua vez, se apresenta como um especialista no comportamento humano que vai ensinar ao paciente o que fazer para melhorar.
E aí a terapia acontece de forma muito parecida com uma consultoria mesmo: avaliações, treinamentos, estratégias, metas…
No entanto, existe outro tipo de tratamento, a Psicanálise, que funciona de modo bem diferente.
E foi justamente uma psicanalista que Laura encontrou quando decidiu fazer terapia.
De início, estranhou: esperava receber orientações, dicas, conselhos, mas a terapeuta falava pouco e praticamente só fazia perguntas.
Mas, aos poucos, a moça passou a gostar daquela sensação de poder falar tudo o que lhe vinha à cabeça, toda semana, para alguém que lhe escutava com extrema atenção.
Laura ficava surpresa quando a analista, de repente, fazia um comentário destacando algo que ela havia dito en passant no início da sessão e do qual nem se lembrava mais.
À medida que o tratamento prosseguia, a frustração por não receber orientações foi dando lugar a um desejo de se entender.
E é esse desejo que a motiva a continuar comparecendo toda quarta-feira às 17h ao consultório de sua analista.
A jovem tem percebido que se tornar menos ansiosa não é uma questão de treinamento, mas de transformação.
Transformação de um modo de existir, de se colocar no mundo, cujas raízes atravessam toda a sua história de vida.
Por isso, agora, Laura não se pergunta mais: “O que preciso aprender para não me preocupar tanto?”, mas sim:
“Por que será que eu me posiciono na vida de forma tão preocupada?”.
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Qualquer pessoa que decide investir em terapia deseja fundamentalmente mudar.
Porém, às vezes, a mudança pode demorar um bom tempo para acontecer — por conta de inúmeros fatores.
E enquanto não acontece, o que fazer?
Apenas continuar suportando o sofrimento de forma paciente e resignada?
Não.
A jornada até a mudança oferece uma recompensa valiosíssima, da qual, às vezes, não desfrutamos.
Estou falando do reconhecimento de nossas tendências automáticas.
— Como assim, Lucas?
Eu vou te dar um exemplo:
Depois de alguns meses de terapia, Jordana se deu conta da dinâmica emocional que a faz estar, na maior parte do tempo, sozinha, sem amigas:
É que ela tem uma tendência automática a achar que suas amigas a excluem e a menosprezam — e isso a faz se afastar delas.
Ouvindo o discurso da moça, é perceptível que Jordana interpreta o comportamento das amigas a partir de sua fantasia de abandono.
Um “bom dia” dito de forma não muito efusiva já vira sinal de que a pessoa não a valoriza.
Ao longo da terapia, ela foi gradualmente percebendo esse viés fantasmático, mas, emocionalmente, a sensação de ser excluída continua aparecendo.
Portanto, Jordana ainda não conseguiu mudar de fato.
A tendência automática ainda está presente nela, moldando sua percepção da realidade e induzindo a moça a se isolar.
No entanto, por ter reconhecido a tendência (ainda que só intelectualmente), Jordana tem conseguido resistir ao impulso de romper suas amizades.
A jovem ainda se sente menosprezada quando, por exemplo, vê duas amigas postando uma foto juntas, sem ela.
A diferença é que, agora, enquanto assiste a uma cena como essa, ela pensa:
“Estou me sentindo mal, excluída, rejeitada, mas sei que isso vem de uma tendência automática que estou tratando em terapia”.
Moral da história:
A gente faz terapia para mudar.
Para abandonar velhos padrões doentios.
Mas, enquanto ainda estão presentes, podemos aprender a caminhar melhor com eles, evitando, na medida do possível, continuar caindo em suas armadilhas.
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A dificuldade de ser franco é um dos maiores obstáculos que as pessoas enfrentam ao fazer terapia.
No dia a dia, a falta de sinceridade pode não ser muito prejudicial. Aliás, em muitos casos, é até vantajosa.
Se aquela influencer famosa fosse sincera e confessasse que 60% dos seguidores que ela tem foram comprados, certamente perderia vários contratos de publi.
Nas redes sociais, onde o mais importante é como você aparece e não como você realmente é, a sinceridade é uma competência praticamente dispensável.
Mas vale dizer que nem sempre somos falsos e hipócritas por decisão consciente.
Às vezes, a gente só não dá conta mesmo de ser franco — porque não suporta a própria verdade…
Há pessoas, por exemplo, que simplesmente não conseguem admitir para elas mesmas (e, consequentemente, para os outros) que sentem ciúmes.
Em vez disso, elas dizem: “Não é que eu estou com ciúme. Eu só exijo respeito da pessoa que está comigo”.
Mentira! É ciúme mesmo. Ci-ú-me.
Elas só não reconhecem isso porque, na base do ciúme, está o medo de perder o outro e, portanto, vulnerabilidade, insegurança, dependência…
Portanto, dizer que “é só uma questão de respeito” não passa de uma racionalização narcísica, ou seja, uma forma de “ficar bem na fita” consigo mesmo.
Como eu disse anteriormente, no cotidiano, esse tipo de autoengano é benigno, não traz grandes consequências.
Porém, no contexto psicoterapêutico, ele atrapalha. E atrapalha muito.
Quanto mais você recorre à hipocrisia, mais distante se coloca da “cura” — com as devidas aspas para os chatos de plantão.
Sabe por quê?
Porque o abandono de nossos sintomas passa fundamentalmente pelo reconhecimento e integração das verdades que nos habitam.
Ok, eu sei que muitas delas escapam completamente à nossa consciência e, nesse sentido, não têm como ser admitidas simplesmente por “força de vontade”.
Porém, existe uma ATITUDE, ou seja, um tipo de disposição psíquica, que facilita a emergência dessas verdades inconscientes.
E é essa atitude que eu gostaria de recomendar a você que começasse a adotar, caso esteja em terapia. Eu a chamaria de atitude CONFESSIONAL.
Ela consiste num esforço deliberado de falar sobre si buscando ativamente retirar todas as máscaras, adornos e proteções narcísicas.
Frequentemente, a gente tem aquela sensação de que, no fundo — seja por medo, vergonha ou culpa — não estamos sendo verdadeiramente sinceros em terapia.
É natural… Todos nós temos narcisismo. Todos nós queremos ficar bem na fita.
Mas é preciso resistir conscientemente a essa tendência natural em nome de um bem maior: o amadurecimento emocional.
A hipocrisia pode até dar dinheiro, seguidores, likes. Mas não gera crescimento real.
***
A terapia só funciona quando você decide parar de se esconder de si mesmo.
Na Confraria Analítica, a gente aprofunda essas questões com aulas semanais, linguagem clara e teoria aplicada à vida e à clínica.
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Um dos piores erros que um terapeuta pode cometer é aconselhar o paciente a tomar certas decisões em sua vida.
Veja: eu não estou me referindo a orientações genéricas e inofensivas do tipo: “Talvez lhe faça bem começar a praticar atividades físicas”.
Estou falando de casos em que o terapeuta sugere explicitamente ao paciente que escolha a opção A em detrimento da B.
“Você deveria se separar”.
“Você deveria sair desse emprego”.
“Você deveria se afastar da sua mãe”.
É claro que são poucos os profissionais que enunciam seus conselhos dessa forma tão crua e direta.
A maioria dos terapeutas palpiteiros é mais sutil, mas o paciente percebe claramente que está sendo induzido a ir por determinado caminho.
Por que isso é tão pernicioso?
Em primeiro lugar, porque transforma a terapia numa relação pedagógica, em que o profissional fica na posição de professor e o paciente na de aluno.
E por que isso é ruim, Lucas?
Ora, porque um pressuposto da relação pedagógica é que o professor sabe e o aluno não. E, na terapia, quem detém o saber é o paciente, não o terapeuta.
A segunda razão pela qual terapeutas não devem ficar dando conselhos é que tal postura pode levar o paciente a se sentir cobrado e pressionado.
Assim, o profissional deixa de ser visto como alguém que vai acolher e ajudar e passa a ser percebido como uma autoridade a ser obedecida.
Por último, mas não menos importante:
O caminho sugerido pelo terapeuta pode ser, de fato, benéfico para a saúde mental do paciente.
No entanto, se o paciente escolhe esse caminho simplesmente porque foi aconselhado a fazê-lo, o efeito terapêutico da decisão não acontecerá.
Afinal, o sujeito ainda não está preparado para sustentá-la.
E como é que eu sei que ele não está preparado?
Porque, caso estivesse, a decisão brotaria espontaneamente, sem que o terapeuta precisasse sugeri-la.
Todo terapeuta inevitavelmente pensa em seu íntimo que o paciente deveria ir pelo caminho X ou Y.
Mas só os bons terapeutas são capazes de não ceder a essa tentação de querer controlar a vida de quem estão atendendo.
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