A gente faz Psicanálise para recuperar, com o apoio do analista, a segurança que precisamos para enxergar o avesso de nós mesmos.

Quem faz Psicanálise sabe que passar por esse processo muitas vezes não é fácil.

Somos convidados pelo analista a olhar para dimensões do nosso ser que não gostaríamos que existissem.

Aliás, a gente adoece justamente por passar a vida inteira querendo fugir dessas regiões incômodas do nosso mundo interior.

Na análise, somos levados a visitá-las e reconhecê-las como legitimamente nossas.

Essa viagem, como eu disse, não é fácil. E é por isso que precisamos fazê-la muito bem acompanhados.

O analista não é só quem nos incita a olhar para aquilo que não queremos enxergar.

Ele é também quem oferece a atmosfera de segurança e confiabilidade necessária para que a gente dê conta de lidar com nossos fantasmas.

Muita gente se esquece disso.

Percebo que há no “senso comum psi” uma imagem estereotipada do psicanalista como uma pessoa fria, irônica e que fica jogando supostas verdades na cara do paciente.

Embora alguns colegas talvez se encaixem nesse padrão, é preciso enfatizar que ele não tem nada a ver com o que de fato deve ser a postura de um analista.

Se o paciente resiste a enxergar certos aspectos de si, isso acontece justamente porque ele não se sente suficientemente seguro e relaxado para tal.

O apego narcísico ao eu ideal é justamente a tábua de salvação que utilizamos quando nos sentimos inseguros e vulneráveis diante do ambiente e dos nossos próprios desejos e fantasias.

O analista que compreende isso sabe que, portanto, sua tarefa não é só a de ajudar o paciente a encarar o recalcado.

Cabe ao analista ter sensibilidade suficiente para criar as condições emocionais que auxiliem o sujeito a adquirir a segurança necessária para encarar o recalcado.


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A gente faz Psicanálise para se respeitar

É natural que as pessoas procurem ajuda psicoterapêutica com o objetivo de mudarem, isto é, de se livrarem de traços e comportamentos que as fazem sofrer.

Todavia, esse legítimo desejo de mudança pode vir contaminado pela busca de certos ideais que não têm nada a ver com aquilo que o sujeito verdadeiramente deseja.

Deixa eu te explicar isso melhor com o apoio de uma ilustração factual.

Tomemos, por exemplo, o caso de um jovem que se deleita ficando em casa sozinho, estudando, tocando instrumentos musicais e assistindo aos filmes de sua preferência.

Navegando por perfis de desenvolvimento pessoal no Instagram, esse jovem é levado a crer que não deveria passar tanto tempo sozinho e que o “correto” seria tornar-se mais sociável.

Esse imperativo evoca nele as duras palavras que sempre ouviu de seu pai: “Sai desse quarto, menino! Parece um bicho do mato! Você precisa dar umas voltas com seus amigos!”

Pronto! Agora esse pobre rapaz acredita que sua forma espontânea de curtir a vida (mais reclusa, sem tantas interações) é um problema e que ele deveria mudar para se adequar.

Para se adequar a quê?

A um suposto ideal de saúde emocional que parece ser natural e universal, mas, na verdade, foi inventado por algumas pessoas (coincidentemente, sociáveis…).

Em casos como esse, o objetivo da Psicanálise não é o de ajudar essa pessoa a mudar a sua forma habitual de se comportar.

A terapia psicanalítica não está a serviço de nenhum ideal normativo.

A meta passa a ser auxiliar o paciente a relativizar o peso do imperativo superegoico de adequação ao ideal de sociabilidade.

Em outras palavras, trata-se de ajudar o sujeito a RESPEITAR o seu próprio jeito de ser.

Afinal, é só quando reconhecemos e legitimamos aquilo que, em nós, é mais forte do que nós que nos tornamos flexíveis o bastante para fazermos diferente – quando necessário.


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Até o momento, a psicoterapia ainda é o único tratamento realmente eficaz para problemas emocionais.

Outro dia eu estava assistindo ao vídeo de um youtuber dizendo que o consumo de certa erva recentemente legalizada em seu país havia sido o único “tratamento” realmente eficaz para seus problemas de saúde mental (no caso, depressão e TDAH). Com efeito, ele já fizera uso de vários medicamentos psiquiátricos e nenhum deles o haviam deixado TÃO BEM quanto aquele matinho…

A concepção equivocada de TRATAMENTO que está na cabeça desse youtuber me parece ser compartilhada por muitas pessoas.

De modo geral, os problemas de saúde mental trazem consigo uma série de sentimentos desprazerosos como tristeza, tensão e ansiedade. Por conta disso, muitas pessoas acreditam que o tratamento de transtornos emocionais consistiria na eliminação desses sentimentos ou na redução da intensidade deles, o que as leva a achar que dá para tratar problemas de saúde mental só com medicação.

Isso está MUITO ERRADO.

Pensar dessa forma é tão insensato quanto imaginar que o tratamento para a tuberculose deveria ser feito só com antitérmicos e analgésicos ao invés de antibióticos.

Por que os antibióticos são indispensáveis no tratamento da tuberculose? Ora, porque a CAUSA dessa doença é a ação patogênica de uma bactéria. Logo, para que os EFEITOS desprazerosos da enfermidade, tais como tosse, dores e febre, sejam PERMANENTEMENTE eliminados, é preciso empregar uma substância capaz de combater sua CAUSA, ou seja, o agente infeccioso.

Óbvio, né? Pois é!

Diferentemente de uma tuberculose, as CAUSAS dos transtornos emocionais são, em 99% dos casos, as MARCAS da história de interação da pessoa com o mundo. E, até hoje, não foi criado nenhum medicamento que seja capaz de intervir nessas marcas. A ÚNICA tecnologia inventada até o momento que consegue fazer isso chama-se PSICOTERAPIA. Portanto, pelo menos por ora, o único tratamento efetivo para 99% dos problemas (tratáveis) de saúde mental, ou seja, aquele que consegue combater as CAUSAS desse tipo de patologia, é o processo psicoterápico.

Os medicamentos psiquiátricos são importantes, mas como COADJUVANTES do tratamento. Afinal, assim como os analgésicos e antitérmicos, eles interferem nos EFEITOS da patologia e não em suas CAUSAS.


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A gente faz Psicanálise para mudar, mas, na maioria das vezes, não sabemos o que precisa ser mudado.

Muita gente imagina que o principal objetivo da terapia psicanalítica é promover mudanças no comportamento do paciente.

Faz sentido pensar assim. Afinal, via de regra as pessoas procuram ajuda psicoterapêutica quando estão insatisfeitas consigo mesmas e desejam mudar.

No entanto, diferentemente do que acontece em outras modalidades de psicoterapia, na Psicanálise nós não tomamos a demanda consciente e expressa pelo paciente de forma acrítica. Em outras palavras, não é porque o sujeito nos diz que deseja deixar de ser tímido que o analista estabelecerá como objetivo do tratamento reduzir a timidez dessa pessoa.

Na Psicanálise, não vale o velho jargão comercial: “Seu pedido é uma ordem!”.

Uai, Lucas, mas como assim? O paciente não sabe o que precisa ser mudado?

Frequentemente, não. Isso acontece porque naturalmente nós não temos consciência da maior parte dos fatores que influenciam nosso comportamento e, consequentemente, formatam nossas ideias acerca do que precisa ser mudado em nós.

Assim, é bem possível que o rapaz que chegue ao analista dizendo que quer deixar de ser tímido possa estar formulando essa demanda em função do que ele tem ouvido desde criança da boca de seu pai: “Você precisa ser mais pra frente!”, “Desse jeito você nunca vai conseguir transar!”, “Pare de ser tão retraído!”.

Percebe? O desejo de ser extrovertido não é do paciente, mas de seu pai. Portanto, ao questionar a demanda inicial desse sujeito, o analista pode ajudá-lo a se dar conta de que não é ele efetivamente quem almeja deixar de ser tímido.
Ah, Lucas, mas a timidez não é um problema em si mesmo? O certo não seria mesmo esse rapaz deixar de ser tímido?

Sim, seria certo… do ponto de vista do ideal do pai dele!

Como em Psicanálise a gente não fica tentando encaixotar o sujeito em ideais de saúde, sucesso e felicidade, um trabalho verdadeiramente analítico com esse paciente iria na direção de ajudá-lo a compreender as razões pelas quais ele assumiu a timidez como posição diante da vida. Que fantasia estaria na base desse modo de ser?

Dessa forma, o sujeito estaria em melhores condições para decidir se quer manter-se nessa posição ou se deseja dar outro destino à fantasia subjacente a ela.


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[Vídeo] Será que você precisa de terapia?

Neste vídeo: entenda por que tentar resolver transtornos emocionais sozinho é tão insano quanto achar que dá para curar uma tuberculose sem ajuda médica.


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Por que não dá para fazer terapia consigo mesmo (autoanálise)?

Se desde a mais tenra idade somos levados pelas pressões sociais, a princípio encarnadas nas palavras de nossos pais, a fingir para nós mesmos que somos melhores do que efetivamente somos, que garantias poderemos ter de que, numa suposta autoanálise, teremos a capacidade de sermos sinceros com nós mesmos?

Por mais franca que uma pessoa possa ser em relação às suas motivações, seu olhar estará sempre embaçado por seus mecanismos de defesa. Afinal, seu desejo de corresponder às expectativas do Outro e se ver como uma pessoa “do bem” e “de bem” será sempre mais forte do que seu esforço para se autoenxergar. É por isso que a presença de um terapeuta é fundamental. De fato, é ele quem, desprovido dos vieses que ofuscam o olhar do paciente, estará suficientemente aberto para escutar as vozes da dimensão natural/espontânea que, ainda que abafadas, se fazem ouvir…

Leia o texto completo em bit.ly/drdautoanalise


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Preciso mesmo fazer terapia?

Muitas pessoas se perguntam se um bom exercício de autorreflexão honesta não poderia substituir a entrada em um processo psicoterápico.

Do meu ponto de vista, acredito que não. Por mais perspicácia e conhecimento de Psicologia que uma pessoa possa ter, há certos EFEITOS SUBJETIVOS que só podem ser produzidos em uma relação de diálogo com um outro que esteja exclusivamente disposto a nos ajudar a pensar.

Dentre tais efeitos, cito dois:

1. Ao exercer a função de testemunha, o terapeuta leva o paciente a se responsabilizar pelo que pensa e diz, implicando-se em seu próprio discurso. Em nossas supostas autoanálises, frequentemente damos desculpas para nós mesmos, o que nos leva a um processo de autovitimização que não nos deixa sair do lugar.

2. A mera expressão de nossos pensamentos por meio da fala para um outro já é, em si mesma, terapêutica. Todo mundo conhece o alívio que traz um bom desabafo. Contudo, na terapia não se trata apenas de desabafo, mas de RELATIVIZAÇÃO. Sim! A necessidade de compartilhar nossos pensamentos com o terapeuta faz com que eles percam imediatamente o poder avassalador e onipotente que detinham quando eram apenas nossos. Às vezes o paciente chega até a rir de pensamentos que antes de serem verbalizados lhe causavam grande sofrimento.

Por essas e outras, acredito que pensar sobre si mesmo é uma tarefa que só se pode fazer adequadamente quando se está muito bem acompanhado.


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Você vive obedecendo à criança que já deixou de ser?

E seu eu te disser que esse quadro de adoecimento emocional que te faz sofrer talvez possa ser a consequência inevitável de um raciocínio que você elaborou quando criança e que mantém no fundo da alma até hoje?

Calma que eu vou te explicar.

Vou tratar aqui de um achado que deriva diretamente da minha experiência clínica iluminada, obviamente, pela teoria psicanalítica.

Percebo com muita frequência que muitos dos padrões de sofrimento que meus pacientes apresentam parecem estar fortemente vinculados a certas conclusões que a pessoa fez quando criança e que, desde então, ela nunca mais questionou.

Deixa eu te dar um exemplo:

Uma moça queixa-se de um excesso de autocobrança que a faz se sentir extremamente mal quando fracassa ou comete alguma falha. Ao falar sobre sua infância, essa paciente relata ter sofrido humilhações e zombarias por parte de alguns colegas no início da vida escolar em função de certas particularidades do seu corpo. No fluxo da associação livre, ela própria chega à conclusão de que, para compensar o sentimento de inferioridade induzido pelos ataques de seus colegas, pode ter buscado se tornar uma aluna exemplar, elogiada por todos os professores, pelos pais e admirada por vários colegas.

O problema é que, na medida em que a busca por se tornar uma “aluna nota 10” foi impulsionada pela fuga do sentimento de inferioridade, ela provavelmente desenvolveu o seguinte raciocínio (naquela época): “Não posso jamais deixar de ser a aluna exemplar! Do contrário, o que serei? Apenas a menina inadequada, inferior e humilhada por aqueles colegas. Não! Não quero isso para mim. Portanto, não posso errar, não posso fracassar, preciso ser sempre a aluna perfeita!”.

Ora, diante de uma conclusão como essa, como não sofrer com a autocobrança excessiva e o medo de errar?

Percebe? Essa jovem padece de um raciocínio inadequado e defensivo, forjado há muitos anos, mas que provavelmente permanece em seu psiquismo, orientando inconsciente suas ações.

Agora, na terapia, finalmente ela terá a oportunidade de questioná-lo e, consequentemente, abandoná-lo.

Você consegue identificar um processo semelhante na sua própria vida?


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Só quem se assume como autor da própria história é capaz de alterá-la

Hoje à noite vou ministrar uma aula sobre os fatores que promovem a melhora do paciente em um processo psicoterapêutico.

A partir das ideias propostas pelo texto que utilizarei como base para essa aula, retomei uma reflexão que tenho desenvolvido há bastante tempo sobre um fator que, do meu ponto de vista, é crucial para as transformações que acontecem com as pessoas que fazem Psicanálise.

Trata-se da conquista de uma função que eu nomearia como “autoria da própria história”.

Explico:

Quando a gente faz Psicanálise, somos convocados pelo analista a falar de nós mesmos. Isso pode parecer óbvio, mas eu já te conto qual é o “pulo do gato”…

Estimulados pelo terapeuta a narrar nossas vivências, descrever nossos sentimentos, verbalizar nossas ideias, somos levados a adotar um ponto de vista diferente sobre nós mesmos.

Num primeiro momento, saímos da posição de personagens dos nossos dramas e nos tornamos espectadores de nossa história. Esse é o lugar a partir do qual inicialmente falamos. Com efeito, contamos nossas experiências como quem fala de uma terceira pessoa. Nossa expectativa é de que o analista seja uma testemunha solidária que enxerga com olhar compassivo as mazelas e infortúnios que lhe relatamos.

Todavia, para que a análise seja efetivamente transformadora, é preciso um segundo passo. É nele que a magia acontece.

À medida que narramos ao terapeuta nosso sofrimento, pouco a pouco nos damos conta de que a história que estamos assistindo e que contamos a ele foi, na verdade, escrita por nós mesmos! Esse insight acontece porque, conforme verbalizamos nossas experiências, vamos percebendo que há um fio condutor que perpassa todos os acontecimentos. Eles não se concatenam de modo aleatório. Há uma organização, há uma trama, há uma… AUTORIA.

É essa saída da posição de espectador e o reconhecimento do lugar de autor da própria história que percebo como um dos elementos cruciais que promovem a mudança na terapia psicanalítica.

Afinal, é somente assumindo a autoria de minha própria história que me torno capaz de escrever um novo enredo, um novo desfecho, um novo começo…


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Como explicar a Psicanálise para o paciente que nunca fez terapia?

Uma pessoa me fez essa pergunta na caixinha dos stories do Instagram.

Como muitos seguidores consideraram a resposta relevante, decidi compartilhá-la aqui no feed também a fim de alcançar outras pessoas.

Para explicar o funcionamento da Psicanálise para um paciente que nunca fez terapia, creio ser apropriada a seguinte analogia:

“Imagine [você, analista, está falando com o paciente] que a terapia é uma longa viagem que nós dois faremos juntos de carro.

É uma viagem diferente, pois a gente não sabe exatamente onde vai chegar; o mais importante é a jornada que faremos juntos.

Quem irá dirigir o carro? Você. Sim, pode parecer estranho que seja você, o paciente, a guiar esse processo, mas, confie em mim: é melhor assim.

Bem, isso significa que eu, como terapeuta, estarei no banco do carona, certo? Mas, não se preocupe: eu não vou ficar dormindo (aqui pode entrar uma leve risada). Eu vou funcionar para você como uma espécie de copiloto.

Durante a viagem, a sua tarefa é bem simples: você só tem que guiar o carro para onde quiser e ir descrevendo para mim o que está vendo à frente e ao redor.

Não, não temos um mapa. Esta é a graça desta viagem. Não existe um trajeto planejado. É você quem decide para onde a gente vai.

E eu, o que farei? Como disse, eu serei meio que um copiloto. De vez em quando, eu vou pedir para você fazer a volta para a gente passar de novo por certos lugares e vou chamar sua atenção para certas coisas que passaram batido pelo seu olhar.

Confie em mim: enquanto a gente faz essa viagem, pouco a pouco esse sofrimento todo que te fez vir aqui vai passar.

Talvez, depois de um tempo, você queira estacionar o carro, mas é possível também que goste tanto da viagem que não queira mais parar de dirigir.”.

E aí, o que você achou da analogia? Você, analista, costuma utilizar outras comparações como essa com seus pacientes?


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Psicanálise não é para todo o mundo

O objetivo maior do trabalho de um terapeuta deve ser o de oferecer ao paciente todos os recursos de que dispõe a fim de ajudá-lo a remover os obstáculos que comprometem sua saúde emocional.

A Psicanálise é apenas um desses recursos. Nem todos os pacientes precisam dela e nem todos possuem as condições necessárias para usufruir de seus benefícios.

Psicanálise não é para todo o mundo.

Há pacientes que não precisam de análise, mas de uma simples conversa onde poderão esclarecer algumas ideias e encontrar algumas saídas. Nada de interpretação, nada de análise de resistências, só clarificação de ideias. É o suficiente para alguns.

Há outros que demandarão do analista uma participação ativa, reasseguradora e eventualmente até sugestiva. Faz parte.

O mais importante é proporcionar ao paciente o cuidado que ele precisa no momento.

Eu não deixo de ser psicanalista quando ofereço ao paciente outros recursos não-analíticos. Como dizia Winnicott, nesses casos serei um psicanalista fazendo outra coisa.


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Psicanálise não é uma conversa. É muito melhor do que isso.

Muita gente acredita que a Psicanálise é um tipo de conversa. Isso é um equívoco.

A conversa é basicamente uma troca de ideias. Quando conversamos, estamos interessados em verbalizar o que pensamos e também em ouvir o que o outro pensa. O interlocutor, por sua vez, faz a mesma coisa.

Ora, não é isso o que acontece numa Psicanálise.

De fato, numa sessão analítica, o paciente fala e deseja ouvir o que o seu analista tem a dizer. Aliás, esse interesse pela palavra do terapeuta é um dos sinais do que nós chamamos de transferência, ingrediente fundamental para o sucesso do tratamento.

No entanto, ao contrário do que acontece numa conversa, o analista frustra a demanda do paciente de saber quais são suas ideias. Com efeito, numa Psicanálise, o terapeuta não fala o que pensa, mas tenta colocar em palavras aquilo que está nas entrelinhas do discurso do paciente. Em outras palavras, o psicanalista entrega ao analisante aquilo que está implícito em sua própria fala.

É por isso que fazer análise é uma experiência simultaneamente incômoda e aliviadora.

É desconfortável porque frustra o nosso desejo infantil de termos um guru a nos guiar pela vida dizendo o que devemos fazer e como devemos ser.

Todavia, é uma experiência também reconfortante porque nos oferece a possibilidade de sermos verdadeiramente escutados em nossa singularidade, o que raramente ocorre numa conversa, na qual que o interlocutor, amiúde, ao invés de nos escutar atentamente, está mais preocupado com o que irá dizer quando nos calarmos.


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Terapia é coisa pra gente corajosa

Muitos pacientes chegam ao consultório de um terapeuta se condenando por estarem precisando de ajuda. São pessoas que vivenciam um duplo sofrimento: para-além da dor provocada pelo próprio adoecimento, ainda padecem com o sentimento de culpa simplesmente por estarem reconhecendo sua vulnerabilidade.

No entanto, ao contrário do que esses pacientes pensam a princípio e diferentemente também do que o senso comum sustenta a respeito de quem procura ajuda psicológica, entrar em terapia é uma das atitudes mais corajosas que uma pessoa pode tomar.

A razão é simples: quem se deita no divã ou fica de frente para um terapeuta está se propondo a fazer uma longa viagem pelos confins da própria alma, jornada em cujo trajeto irá se deparar com paisagens desagradáveis e muitas vezes assustadoras.

Quem venceu suas resistências narcísicas e decidiu fazer esse mergulho dentro de si não é nada fraco. Pelo contrário: conta com a força que só conhecemos quando não tememos a vulnerabilidade.


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4 boas práticas para aproveitar melhor sua terapia

1 Encare o processo terapêutico como tratamento: não trate sua sessão de terapia como um mero compromisso semanal ou como um simples momento de desabafo. Considere cada encontro com seu terapeuta como uma etapa do caminho que o levará à tão desejada cura.

2 Não utilize um roteiro: não faça uma lista de coisas que você deseja trabalhar nas sessões. Você talvez não perceba, mas esse tipo de planejamento acaba sendo uma forma inconsciente de evitar tocar justamente nos pontos que precisam ser abordados no tratamento. Em outras palavras, você lista algumas questões justamente para não falar de outras. Em vez de levar um roteiro, faça o que nós, psicanalistas, chamamos de “associação livre”, ou seja, fale o que vier à sua cabeça, sem preocupar-se com ordenação ou coerência. Dessa forma, você tornará seu discurso mais permeável à passagem do Inconsciente e, consequentemente, facilitará a identificação da origem dos seus sintomas.

3 Fique atento aos seus sonhos: quando iniciamos um processo terapêutico é comum passarmos a nos lembrar com mais frequência de nossos sonhos. Isso acontece porque a terapia afeta de forma mais significativa o Inconsciente, levando-o a se movimentar de forma mais visível. Por isso, é importante que você preste atenção aos seus sonhos enquanto estiver em terapia, pois eles revelam o que está se passando em você na dimensão do Inconsciente. Se possível, habitue-se a anotá-los e reflita sobre eles associando os elementos do sonho a aspectos da sua vida atual e de sua história. Trata-se de um material riquíssimo que não deve jamais ser menosprezado.

4 Não limite a terapia apenas ao que acontece nas sessões: a terapia não se dá apenas durante os 45 ou 50 minutos em que você se encontra com o terapeuta. O Inconsciente funciona 24 horas por dia! Por isso, é importante que você intencionalmente reflita sobre o que acontece consigo diariamente, sobretudo sobre atos falhos e esquecimentos, e também sobre os pensamentos e fantasias que lhe passam pela cabeça tentando conectar tudo isso com que vem sendo trabalhado durante as sessões. Às vezes, uma intervenção feita pelo terapeuta em uma sessão só fará sentido alguns dias depois em função de algum evento ou após uma reflexão.

[Vídeo] A falácia da “força de vontade”

Não caia na armadilha de tentar tratar o seu adoecimento emocional apenas com força de vontade. Você não conseguirá, sentir-se-á aflito e, de quebra, arruinará ainda mais sua autoimagem. Não subestime a complexidade da sua alma.