[Vídeo] Psicanalista explica quando o paciente deve ir para o divã

O divã dá mais liberdade ao paciente para fazer a associação livre e também ajuda o analista a exercer a atenção flutuante. Mas qual é o momento certo de pedir ao paciente que faça as sessões deitado no divã? Assista ao vídeo e descubra.


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O dia em que uma paciente saiu da terapia para se vingar de um embuste

Em outubro de 1900, Sigmund Freud foi procurado por um ex-paciente para que atendesse sua filha, uma jovem de 18 anos.

A moça, a quem Freud atribuiu o pseudônimo de DORA, andava meio deprimida, sem apetite, tendo desmaios, convulsões, dentre outros sintomas histéricos.

Ao longo do processo terapêutico, que durou apenas cerca de 3 meses, o médico pôde perceber que a paciente havia adoecido em resposta ao seu envolvimento numa teia de relações amorosas que envolviam ela própria, seu pai, uma vizinha (Sra. K) e o marido dessa vizinha (Sr. K).

Com efeito, o genitor e a Sra. K mantinham um caso extraconjugal ao mesmo tempo em que Dora era alvo de assédio por parte do Sr. K.

No tratamento, ficou claro para Freud que a jovem havia sido apaixonada pelo vizinho.

Os pormenores da história vão se revelando à medida que o processo terapêutico progride, sobretudo em função da análise de dois sonhos de Dora.

Todavia, no dia 31 de dezembro daquele ano, para surpresa do médico, a paciente decide simplesmente abandonar o tratamento.

É na tentativa de compreender as motivações desse movimento de Dora que Freud evoca, pela primeira vez, a ideia de “atuação” — que os analistas de língua inglesa traduziram como “acting-out”.

Para Freud, ao sair da terapia, a moça estaria colocando EM ATO o seu desejo de vingança em relação ao Sr. K, o qual, do seu ponto de vista, não queria nada sério com ela.

Ou seja, ao invés de se LEMBRAR e FALAR sobre o ressentimento que nutria em relação ao vizinho por ter se sentido enganada por ele, Dora efetivamente REALIZOU sua vingança transferindo a figura do Sr. K para Freud.

Trata-se de uma transferência em estado “selvagem”, como diz Lacan, já que não foi objeto de interpretação em análise.

Com efeito, Freud só se deu conta que a paciente estava fazendo com ele o que queria ter feito com o Sr. K algum tempo depois que ela foi embora.

ATOS como o de Dora, que expressam simbolicamente conteúdos inconscientes, acontecem com muita frequência tanto dentro quanto fora do contexto terapêutico.

E é justamente sobre eles que falaremos na AULA ESPECIAL AO VIVO de hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, a partir das 16h30.

Te vejo lá!


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Quando o analista deve pedir ao paciente para se deitar no divã?

Quero abordar essa questão no texto de hoje, mas antes preciso esclarecer um ponto muito importante acerca do próprio uso do divã na terapia psicanalítica.

Não, essa peça de mobiliário NÃO é um item indispensável para a prática da Psicanálise.

Freud usava o divã basicamente porque considerava muito cansativo ficar olhando para diferentes pessoas ao longo de um dia inteiro de trabalho.

Por outro lado, o próprio pai da Psicanálise e a comunidade analítica de forma geral foram se dando conta de que esse móvel realmente FACILITA o trabalho terapêutico.

Com efeito, dá mais liberdade ao paciente para fazer a associação livre e também ajuda o analista a exercer a atenção flutuante ao que é dito pelo analisando.

Todavia, favorecer não significa POSSIBILITAR.

Como eu disse, o divã facilita o trabalho analítico, mas é totalmente possível desenvolver esse trabalho sem ele.

Se não fosse assim, a prática da Psicanálise no serviço público ou na modalidade online seria inviável.

Feitas essas considerações preliminares, vamos à questão: se o analista trabalha com o divã, quando deve convidar o paciente para se deitar nele?

Na minha opinião, isso deve acontecer só depois que o terapeuta é introjetado pelo paciente, ou seja, quando se torna um objeto interno no psiquismo do analisando.

Na prática, isso corresponde ao momento em que o paciente passa a se relacionar com o analista não mais como um simples profissional com quem ele conversa toda semana, mas essencialmente como um DESTINATÁRIO.

Sim, um destinatário: alguém a quem ele endereça suas fantasias, seus anseios, suas queixas — elementos que outrora foram dirigidos a papai e mamãe.

Esse processo está em franco funcionamento quando, por exemplo, o analisando tem sonhos com o terapeuta ou pensa nele quando acontecem determinadas coisas ao longo da semana…

Enfim, trata-se do momento em que a figura do analista começa a FAZER PARTE dos pensamentos do paciente fora das sessões.

Nessa situação, pedir ao analisando para se deitar no divã, ou seja, retirar do campo de visão dele a imagem real do analista, funciona como uma estratégia para reforçar a relação do paciente com o terapeuta enquanto objeto interno.


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Terapeuta, este insight de Melanie Klein sobre a transferência pode transformar sua atuação clínica

Em certa sessão a paciente chega e imediatamente se põe a falar sobre a briga que teve no último fim de semana com o namorado.

Passa a sessão inteira descrevendo como o conflito começou, o que cada um disse e como ela se sentiu durante e após a peleja.

O analista escuta, faz algumas perguntas visando ajudar a paciente a ter clareza sobre como se deu a briga e suas motivações imediatas e, ao final do atendimento, apresenta uma hipótese interpretativa que vincula o começo da cizânia a frustrações que a moça experimentara na relação com a mãe, mencionadas em sessões anteriores.

Em nenhum momento passa pela cabeça do terapeuta a hipótese de que o conflito narrado pela paciente tenha sido derivado da RELAÇÃO TRANSFERENCIAL COM ELE, analista.

De fato, na Psicanálise, tradicionalmente somos levados a pensar que os fenômenos transferenciais só ocorrem nos momentos em que o paciente está com o terapeuta na sessão.

Admitimos, no máximo, que, fora do consultório, o paciente possa sonhar com o analista, mas normalmente não supomos que uma briga conjugal possa ser uma forma que o analisando encontrou de brigar simbolicamente com o terapeuta.

A teórica que trouxe à baila essa possibilidade foi Melanie Klein.

No clássico artigo “As origens da transferência”, de 1952, ela defende a tese de que a relação com o analista promove uma espécie de “invocação” de todos os elementos (não só impulsos, mas também ansiedades, defesas, conflitos) que estavam presentes nas relações com as primeiras pessoas significativas da história do paciente.

Nesse sentido, ao entrar em análise, é como se o paciente passasse a habitar um “universo paralelo” em que só existem ele e o analista como representante de seus objetos primários.

Isso significa, para Klein, que, a partir do momento em que o vínculo com o terapeuta se consolida, tudo aquilo que acontece com o paciente FORA dos atendimentos passa a estar relacionado com o que está se desenrolando DENTRO do consultório.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá daqui a pouco uma AULA ESPECIAL em que explico essa ideia com mais detalhes e exemplos à luz do texto de Melanie Klein.

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O dia em que um psicanalista proibiu sua paciente de cruzar as pernas

Certa vez o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi estava atendendo uma paciente histérica que não melhorava de jeito nenhum.

Aí, ele resolveu adotar a mesma manobra técnica utilizada por Freud junto ao “Homem dos Lobos”: avisou à paciente que o tratamento acabaria dali a tantos meses, independentemente de como ela estivesse.

Funcionou?

No início, sim. A paciente deu uma melhoradinha, mas logo voltou a resistir à terapia, principalmente fazendo uso de uma intensa transferência erótica com Ferenczi.

Quando o chegou o prazo estabelecido, o médico honrou sua palavra e pôs fim ao tratamento.

Ferenczi acreditava que ainda havia muito trabalho a ser feito, mas a paciente se sentia bem.

E foi embora.

Alguns meses depois ela voltou a procurar o médico porque todos os seus sintomas haviam retornado.

Ferenczi relutou, mas acabou aceitando a paciente de volta.

Passou um tempo, ela melhorou um pouco, mas voltou a resistir ao progresso da terapia por meio da transferência erótica.

Ferenczi não sabia mais o que fazer para ajudar a moça, visto que até mesmo a manobra freudiana de fixação de um prazo não havia funcionado.

Foi aí que o médico passou a prestar atenção num detalhe:

Quando a paciente ficava descrevendo as fantasias eróticas que tinha com ele, ela volta e meia dizia que tinha “sensações por baixo”…

Depois de prestar atenção nisso, Ferenczi passou a observar que a paciente permanecia durante toda a sessão deitada no divã COM AS PERNAS CRUZADAS.

Ele se lembrou, então, que muitas mulheres se masturbam de forma disfarçada apertando uma coxa contra a outra…

O médico perguntou se a paciente costumava fazer isso, mas ela disse que nunca, jamais.

Depois de um bom tempo matutando, Ferenczi chegou à conclusão de que talvez aquela postura de pernas cruzadas poderia ser uma forma INCONSCIENTE de masturbação.

Em outras palavras, a paciente estaria, sem saber, se masturbando a sessão inteira fantasiando com seu terapeuta.

Apostando nessa hipótese, Ferenczi decidiu proibir a paciente de ficar com as pernas cruzadas!

Qual foi o resultado?

Isso eu te conto na aula especial que os membros da CONFRARIA ANALÍTICA receberão ainda hoje sobre a TÉCNICA ATIVA proposta por Ferenczi.

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Na transferência, chamamos o outro para dançar a velha música que criamos na infância e que não cansamos de repetir.

Sempre acho que uma boa maneira de compreender um conceito psicanalítico é refletir sobre a palavra escolhida para nomeá-lo.

Veja-se, por exemplo, o conceito de superego.

Quando consideramos o fato de que a partícula “super” em latim significa “aquilo que está acima”, somos facilmente levados à ideia de que o superego só pode ser algo que está… acima do ego, né?

Isso torna mais fácil entender as relações entre essas duas instâncias psíquicas.

Da mesma forma, uma boa maneira de abordar o fenômeno da transferência é pensando no significado geral de TRANSFERIR.

Ora, transferir significa basicamente levar uma coisa do ponto A para o ponto B.

Tendo isso mente, podemos fazer a pergunta:

“Que coisa é essa que, no fenômeno da transferência, é levada de um ponto a outro?”.

E a resposta é: padrões de relacionamento, ou seja, formas fixas de me relacionar nas quais eu ajo de uma determinada forma e espero que o outro se comporte de um modo também específico.

É isso o que a gente leva do ponto A ao ponto B na transferência.

O ponto A é sempre a infância. É nas experiências iniciais com nossos pais e irmãos que consolidamos as nossas formas típicas de nos relacionarmos com as pessoas de forma geral.

Já o ponto B é variável: pode ser qualquer novo relacionamento, seja profissional, acadêmico, amoroso, virtual.

Diferentemente do que algumas pessoas pensam, a transferência não acontece só no tratamento psicanalítico.

Estamos o tempo todo transferindo nossos padrões infantis para as relações do presente.

Para enxergar isso, basta ter olhos para ver.


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Na Psicanálise, o que de fato cura é a relação com o analista

Muita gente se engana pensando que a Psicanálise é um procedimento meramente intelectual.

Imagina-se que o paciente melhora ao fazer análise simplesmente porque conseguiu substituir seus problemas emocionais pela elaboração psíquica dos conteúdos que estavam por trás deles.

Essa é uma visão equivocada.

O principal fator de cura no tratamento psicanalítico é a RELAÇÃO do paciente com o analista.

Como assim, Lucas?

Pensa comigo: o que ocasiona o adoecimento emocional do ponto de vista psicanalítico?

A resposta é: um processo de dissociação da personalidade, certo?

Em outras palavras, entendemos que o sujeito adoece para se proteger de determinadas partes de si mesmo que ele tem medo de integrar em sua personalidade.

Se é assim, qual deve ser o objetivo do tratamento?

Óbvio: ajudar a pessoa a perder esse medo!

O trabalho de decifração dos sintomas e inibições do paciente só pode acontecer se ele for se sentindo suficientemente seguro para explorar o avesso de si.

E ele só conseguirá desenvolver essa segurança no interior de uma RELAÇÃO com uma pessoa confiável, empática, não invasiva e, sobretudo, que não o condena.

Entendeu?

A análise não cura por causa daquilo que o paciente redescobre sobre si durante a terapia ou em função de interpretações certeiras do analista.

Isso tudo é importante, mas é secundário.

O fator terapêutico primordial é a reconquista, pelo paciente, da capacidade de olhar para si mesmo e se escutar sem medo.

E isso só pode ser alcançado por meio de uma RELAÇÃO de confiança com o analista.

Corroborando essas ideias, Freud diz o seguinte na conferência “Transferência”, de 1917 (volume XVI das Obras Completas):

“A fim de que o paciente enfrente a luta do conflito normal com as resistências que lhe mostramos na análise, ele tem necessidade de um poderoso estímulo que influenciará sua decisão no sentido que desejamos, levando à recuperação. […] Nesse ponto, o que é DECISIVO em sua luta não é sua compreensão interna (insight) intelectual — que nem é suficientemente forte, nem suficientemente livre para uma tal realização —, mas simples e unicamente a sua RELAÇÃO com o médico.” (grifos meus).


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[Vídeo] Transferência e suposto saber: entenda

Neste vídeo: entenda por que o êxito da terapia psicanalítica depende de um tipo específico de transferência em que o paciente coloca o analista na posição de sujeito suposto saber.


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Suposto saber: para funcionar, a Psicanálise exige um tipo específico de transferência

A transferência é um fenômeno inevitável tanto no tratamento psicanalítico quanto fora dele.

Onde há relação interpessoal, há transferência.

Com efeito, estamos SEMPRE transferindo para nossas relações atuais atitudes e expectativas que foram desenvolvidas originalmente em relações do passado.

Ao invés de criarmos novas relações “do zero”, economizamos trabalho psíquico recorrendo aos mesmos padrões relacionais de sempre.

O terapeuta que acredita na existência desse fenômeno consegue detectá-lo com certa facilidade.

De fato, basta verificar as semelhanças entre o modo como o paciente se comporta em relação a ele (terapeuta) e as atitudes da pessoa relação a outras figuras do seu passado.

Repito: a transferência é inevitável.

Por outro lado, a psicoterapia, especialmente a psicanalítica, exige que se estabeleça um tipo específico de transferência para funcionar.

Se o paciente, por exemplo, transfere para o analista apenas as atitudes de desprezo ou indiferença que nutria em relação a sua mãe, não há análise que se sustente.

Os tratamentos verdadeiramente transformadores são aqueles em que o paciente transfere para o terapeuta a expectativa de ouvir dele a verdade sobre si.

É a isso que Lacan se refere ao usar o termo “sujeito suposto saber” para falar da transferência.

É óbvio que, ao longo da análise, será importante que essa expectativa se dissipe e o paciente chegue à decepcionante, mas saudável conclusão de que nem o analista nem nenhum outro sabe a verdade sobre ele.

Contudo, sobretudo no início do tratamento, é fundamental que o paciente coloque o terapeuta nesse lugar de autoridade, de suposto saber.

Quando isso não acontece, as pontuações, interpretações, silêncios e cortes do analista não exercem efeito algum na evolução da análise.


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Transferência, em Psicanálise, é mexer com quem tá quieto.

Transferência (Überträgung, em alemão) foi o termo que Sigmund Freud escolheu para nomear um fenômeno que observou acontecer com todos os seus pacientes durante o tratamento psicanalítico.

Que fenômeno, Lucas? Vou descrevê-lo abaixo para você:

Freud observou que, em muitos momentos, seus pacientes manifestavam certas reações emocionais, expectativas e impressões em relação a ele que pareciam à primeira vista incompreensíveis…

Com efeito, o médico se posicionava diante dos pacientes de modo neutro, sem julgamentos, contendo suas próprias reações emocionais. Por isso, num primeiro momento, lhe pareceu muito estranho ouvir de um analisando que ele estava sendo muito severo e exigente ou receber de outra paciente a proposta de abandonarem o tratamento e usarem o divã para fazer amor.

De onde vinha isso, pensava Freud, se, na realidade, ele não havia sido de fato severo com o primeiro paciente nem dado qualquer indício para a segunda de que estaria sexualmente interessado por ela?

O conceito de transferência nasceu para responder perguntas como essa. Como o excelente observador que era, Freud verificou que aquelas impressões, reações e desejos que os pacientes direcionavam a ele eram, na verdade, TRANSFERIDOS de relações com OUTRAS PESSOAS do passado.

De fato, o analisando que começou a achar que Freud estava sendo duro e exigente consigo pensava exatamente a mesma coisa de sua mãe quando era criança. Da mesma forma, a paciente que começara a fazer propostas de amor ao médico havia desenvolvido fantasias semelhantes em relação ao seu pai na fase do complexo de Édipo.

Conclusão de Freud: ao se colocar de forma neutra e contida, o analista estimula o paciente a inconscientemente TRANSFERIR para a relação terapêutica expectativas, impressões, desejos e fantasias que originalmente estavam direcionados a outras pessoas.

Você já conhecia o conceito de transferência em Psicanálise?

O texto te ajudou a ter uma compreensão mais clara dele?

Você já observou a presença desse fenômeno na sua experiência clínica, seja como paciente ou como terapeuta?


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[Vídeo] Afinal, o que é a Psicanálise?

Neste vídeo: entenda o que é a Psicanálise, como funciona a terapia psicanalítica e quais os seus principais objetivos.


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[Vídeo] Transferência: o que é, como se manifesta e por que acontece?

Neste vídeo, o psicólogo e psicanalista Lucas Nápoli explica de forma clara e didática o conceito de transferência, especificando alguns motivos pelos quais o fenômeno transferencial acontece e como ele se manifesta no dia-a-dia e na clínica.

Pegue já um exemplar dos meus ebooks!

[Vídeo] Transferência: o inconsciente ao vivo e a cores

Entenda a regra da abstinência de Freud (final)

Cena do filme "Um Método Perigoso"No post anterior, vimos que do ponto de vista freudiano a neurose é resultado de um conflito entre o recalcado (pensamentos, lembranças e desejos que jogamos para debaixo do tapete de nosso psiquismo) e o ego (a imagem que temos de nós mesmos e que, a princípio, seria maculada pelo recalcado). Vimos também que a neurose tem início quando sofremos uma frustração amorosa, a qual faz com que a nossa libido volte a investir os pensamentos que foram recalcados, levando o ego a se sentir ameaçado. A neurose seria, então, um acordo de “paz” selado entre o ego e o recalcado em que o primeiro permite que o último se manifeste desde que de forma disfarçada.

Pois bem. Se o recalcado só foi “reativado” porque a libido não pôde ser satisfeita com objetos da realidade externa (frustração), isso significa, portanto, que se um novo objeto se apresentar para a pessoa e essa passar a amá-lo, grande parte da sua libido tenderá a investir o novo objeto e abandonará os pensamentos recalcados. O que acontecerá então com eles? Serão novamente jogados para debaixo do tapete do psiquismo e permanecerão preparados para se manifestarem novamente caso uma nova frustração amorosa aconteça. Em outras palavras, o recalcado se comportará como um vírus que aguarda a ocasião em que o organismo estará debilitado ou com a imunidade baixa para poder agir.

Qual seria a saída para que o sujeito não ficasse tão vulnerável assim à ação do recalcado? Freud dirá: fazendo com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados! Não entendeu? Eu explico: a única diferença entre os pensamentos que estão recalcados, ou seja, estão no inconsciente, e os que não estão é que os primeiros não podem, a princípio, ser objetos da consciência. Nesse sentido, fazer com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados significa permitir que eles possam adentrar os salões da consciência – o que só será possível se o sujeito não se sentir ameaçado por eles. E como o sujeito poderá lidar com o recalcado sem se sentir ameaçado? Em primeiro lugar, aprendendo a ter uma imagem de si mesmo (ego) que não seja tão rígida e idealizada. Em segundo lugar, olhando para o recalcado de frente e se dando conta de que objetivamente eles não oferecem perigo algum. Esses dois processos sintetizam o que acontece durante um tratamento psicanalítico.

Neste ponto você pode estar pensando: “Ok. Até aí eu consegui entender. Mas você se propôs a explicar o princípio da abstinência defendido por Freud e até agora não falou muita coisa sobre isso.”. Não ouso discordar de você, caro leitor. De fato, era preciso estabelecer algumas bases antes de chegarmos ao ponto central desta explicação.

Disse no parágrafo anterior que a única forma de impedir que o recalcado se mantenha à espreita, como um vírus, seria fornecendo as condições para que ele pudesse se manifestar e entrar livremente no território da consciência. Ora, a neurose é justamente uma das condições que tornam isso possível! Afinal, os sintomas neuróticos nada mais são do que pensamentos recalcados se manifestando de forma disfarçada. Por outro lado, como frisamos, a neurose só aparece após uma frustração e pode muito bem desaparecer em função de uma nova ligação amorosa. Portanto, a condição sine qua non para que o recalcado possa ser reavaliado pelo indivíduo na análise é a abstinência de satisfações amorosas. Do contrário, isto é, se o indivíduo dirigisse sua demanda de ser amado ao analista e esse a aceitasse, a ligação amorosa entre o paciente e o terapeuta tomaria o lugar da neurose, impedindo a continuidade do tratamento. É por essa razão que, do ponto de vista freudiano, é preciso recusar a demanda de amor do paciente. É preciso manter o doente num estado de insatisfação suficientemente bom para que o recalcado permaneça se manifestando e possa se tornar objeto da consciência.

À guisa de conclusão, poderíamos dizer que a regra da abstinência é a diretriz técnica que torna possível tanto ao paciente quanto ao analista a descoberta e a análise do material recalcado. Como Freud costumava assinalar, é muito comum observarmos uma melhora súbita no quadro apresentado pelo paciente durante os primeiros meses de tratamento. Isso seria resultado da própria relação entre paciente e terapeuta, pois o primeiro investiria no segundo a libido que até então estava vinculada aos pensamentos recalcados. Essa melhora, contudo, não seria duradoura justamente porque o analista não forneceria ao paciente uma contrapartida a seu investimento libidinal. Assim, a libido do paciente não teria alternativa a não ser retornar para onde estava até então, a saber: no recalcado. Essa nova frustração amorosa sofrida pelo paciente produziria uma nova neurose que, dessa vez, estaria ligada à pessoa do analista.

Nesse sentido, ao manter o tratamento em abstinência, ou seja, recusando-se em atender a demanda de amor do paciente, o analista permite que a doença que teve origem fora do consultório possa ser atualizada no interior do setting analítico. Isso permite tanto ao paciente quanto ao analista trabalharem o recalcado e as formas que o ego tem de se defender contra ele não como resquícios de acontecimentos passados mas como fenômenos atuais.

A essência da psicanálise

O que diferencia a psicanálise das demais formas de psicoterapia? Em que atributos reside a singularidade do método criado por Freud? Que características devem estar presentes para que um tratamento psicológico possa ser caracterizado efetivamente como psicanalítico?

Recentemente venho meditando tais questões. Não se trata de um mero exercício intelectual. A reflexão perpétua em torno dessas questões me parece relevante como forma de manter vivas na consciência do clínico as diretrizes essenciais da prática da psicanálise, as quais, amiúde, correm o risco de serem relativizadas. Neste texto, quero compartilhar com os leitores alguns apontamentos derivados dessas reflexões, sem a pretensão de esgotar o assunto.

Numa carta dirigida a Georg Groddeck, em 1917, Freud afirma que todo terapeuta que leve em conta a presença da resistência e da transferência no tratamento pode dizer que está de fato fazendo psicanálise. Para o médico vienense, portanto, a essência de seu método, aquilo que garantiria sua singularidade, seria a consideração da resistência e da transferência no processo terapêutico.

Em textos anteriores dediquei-me a explicar de maneira simples e clara ambos os conceitos. Todavia, a fim de demonstrar por que Freud os tomou como sendo a essência do método psicanalítico, dedicarei a eles mais algumas palavras.

Resistência

O que os psicanalistas chamam de resistência diz respeito àquilo que faz com que a psicanálise se diferencie de um procedimento meramente educativo. Com efeito, a educação tradicional pressupõe que a realização de uma tarefa por parte de um sujeito depende unicamente da posse, por parte desse sujeito, da capacidade para tal.

Embora essa ideia pareça estupidamente tautológica, a clínica psicanalítica mostra que não é bem assim. Afinal, o que mais encontramos em nossos divãs são pessoas que possuem plena capacidade para não fazerem aquilo lhes prejudica e que, ainda assim, ou seja, mesmo lhes fazendo mal, não conseguem deixar de fazer!

A educação, diante de alguém nessa situação, teria apenas duas opções de diagnóstico: ou a pessoa não possui de fato a capacidade para deixar de fazer o que lhe prejudica (ainda que diga que possua) ou, na verdade, não quer deixar de fazê-lo.

Freud descobriu uma terceira possibilidade de explicação, que resultou no conceito de resistência. Ele observou que o sujeito pode ter a capacidade e a vontade consciente de deixar de renunciar ao seu sintoma e ainda assim não conseguir abandoná-lo em função de determinados fatores inconscientes. São justamente esses fatores que Freud denominou de resistências.

Considerar a resistência nos permite entender porque o paciente frequentemente nos diz: “Eu gostaria de mudar, mas não consigo”. Se ele não consegue, não é porque de fato não queira, mas porque a mudança traria consigo uma série de consequências imaginárias e reais que o paciente ainda não é capaz de suportar.

Um exemplo banal nos ajuda a esclarecer essa ideia. Tomemos um paciente que afirme não ser capaz de dizer “não” às demandas de pessoas à sua volta nos momentos em que conscientemente gostaria de fazê-lo. Trata-se de uma dificuldade experimentada por muitas pessoas. O paciente afirma que deseja ardentemente ser capaz de dizer “não”, mas infelizmente não consegue. Observem: ele quer, tem boca e sabe falar, mas, por alguma razão, não consegue.

No decorrer da análise, poderemos verificar que esse paciente teme imaginariamente que ao dizer “não” para alguém, essa pessoa passará a não mais amá-lo ou a não lhe dar a atenção que costumava dar. Essa consequência, certamente possível, mas que em outras pessoas não produziria mais do que um leve mal-estar, para esse sujeito que não consegue dizer “não” poderia implicar num processo de desintegração psíquica! Para esse sujeito, o amor e olhar do outro podem ser tão doentiamente necessários que, sem eles, o sujeito teme não mais existir ou a viver num estado de angústia funesta. Poderemos também descobrir que esse temor está associado às experiências que o paciente vivenciou quando era bebê, nas quais o ambiente não o acolheu suficientemente bem, de modo que ele não foi capaz de se sentir existindo independentemente do olhar do outro.

O paciente, portanto, “resiste” à cura ou à melhora, isto é, não consegue dizer “não” porque esse sintoma é ainda um mal menor perto da situação emocional em que se encontraria caso não pudesse contar com ele.

Nesse sentido, se Freud diz que levar em conta a resistência é uma das marcas do tratamento psicanalítico isso significa que o psicanalista não é adepto do famoso adágio psicoterapêutico de quinta categoria que afirma: “Eu posso te ajudar, mas você tem que querer.”.

Para o psicanalista esse suposto “querer” que faria o paciente abandonar o sintoma não é fruto de um suposto livre-arbítrio ou da famosa “força de vontade”, mas resultado da relação do sujeito com o ambiente e, sobretudo, das marcas deixadas por essa relação no psiquismo. A resistência do paciente sinaliza a função defensiva do sintoma. Sem a doença, o sujeito fica indefeso e entregue à angústia. Por essa razão, ele resistirá até o momento em que a angústia não for mais um inimigo do qual é preciso se defender ou até o ponto em que se sentirá suficientemente seguro para enfrentá-la sem utilizar o sintoma como defesa.

Para que isso ocorra, é preciso que o clínico possa levar em conta o segundo conceito que Freud aponta como fazendo parte da essência do método psicanalítico: a transferência.

Transferência

Considerar a transferência como o eixo do tratamento significa apostar no potencial que a relação entre terapeuta e paciente tem de servir como um novo começo para o doente. Significa entender que o sujeito não vem ao psicanalista para falar sobre sua doença, mas para manifestar essa doença diretamente na relação com o terapeuta. É essa a realidade espantosa que Freud observou desde seus primeiros tratamentos de pacientes histéricas!

Chama-se “transferência” porque de fato o paciente transfere sua doença para o setting terapêutico, fazendo com que o problema possa ser abordado ao vivo e a cores e a transformação do paciente possa acontecer de maneira direta e imediata.

Voltemos a nosso exemplo. Se o paciente não consegue dizer “não” às pessoas que compõem o seu círculo de relacionamentos, da mesma forma, na medida em que o analista passa a ser uma dessas pessoas, ele também não conseguirá dizer “não” ao analista. Em decorrência, essa dificuldade poderá ser tratada in loco. A primeira pessoa a quem ele poderá dizer “não” sem medo de deixar de existir será o analista que, diferentemente do ambiente inicial no qual o sujeito se constituiu, será capaz de suportar esse “não”, mantendo o acolhimento intacto.

Transferência, portanto, não significa que o analista é uma tela em branco, onde o paciente irá projetar todas as suas fantasias. Trata-se de um laboratório da vida, onde misturas podem ser feitas, substâncias podem ser decompostas sem medo. A transferência testemunha a esperança do paciente de que o destinatário da mensagem veiculada por sua doença – destinatário que, no tratamento, passa a ser o analista – possa dar uma resposta diferente daquelas que o paciente já conhece e que só contribuem para a manutenção do adoecimento.

A consideração da transferência é, portanto, uma das marcas da psicanálise porque, diferentemente de outros tipos de psicoterapia, o método psicanalítico sustenta que a relação entre analista e analisando é o espaço onde a doença se manifesta e onde ela será compreendida e tratada e não apenas um lugar onde se falará acerca dela.

Concluindo

Pode-se dizer que, a despeito da diversidade de orientações teóricas na psicanálise, o elemento que jamais poderá estar ausente de um tratamento que se denomine psicanalítico é a consideração da resistência e da transferência. Ao levar em conta a resistência, o psicanalista reconhece que todo sintoma funciona como uma defesa para o sujeito e que, por conta disso, é difícil para o paciente abandonar sua doença, de modo que, em matéria de psicopatologia, o jargão “É preciso querer” é absolutamente falso. Outrossim, levando em consideração a transferência, o analista sabe que o abandono do sintoma só se faz quando ele deixa de ser necessário como defesa e isso só acontece quando o paciente experimenta um ambiente suficientemente seguro. Esse ambiente deverá ser encontrado na relação com o analista, evidenciando que na psicanálise a doença é abordada de forma direta, na medida em que se manifesta com todas as suas características no interior da relação terapêutica.