[Vídeo] Transferência e suposto saber: entenda

Neste vídeo: entenda por que o êxito da terapia psicanalítica depende de um tipo específico de transferência em que o paciente coloca o analista na posição de sujeito suposto saber.


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Suposto saber: para funcionar, a Psicanálise exige um tipo específico de transferência

A transferência é um fenômeno inevitável tanto no tratamento psicanalítico quanto fora dele.

Onde há relação interpessoal, há transferência.

Com efeito, estamos SEMPRE transferindo para nossas relações atuais atitudes e expectativas que foram desenvolvidas originalmente em relações do passado.

Ao invés de criarmos novas relações “do zero”, economizamos trabalho psíquico recorrendo aos mesmos padrões relacionais de sempre.

O terapeuta que acredita na existência desse fenômeno consegue detectá-lo com certa facilidade.

De fato, basta verificar as semelhanças entre o modo como o paciente se comporta em relação a ele (terapeuta) e as atitudes da pessoa relação a outras figuras do seu passado.

Repito: a transferência é inevitável.

Por outro lado, a psicoterapia, especialmente a psicanalítica, exige que se estabeleça um tipo específico de transferência para funcionar.

Se o paciente, por exemplo, transfere para o analista apenas as atitudes de desprezo ou indiferença que nutria em relação a sua mãe, não há análise que se sustente.

Os tratamentos verdadeiramente transformadores são aqueles em que o paciente transfere para o terapeuta a expectativa de ouvir dele a verdade sobre si.

É a isso que Lacan se refere ao usar o termo “sujeito suposto saber” para falar da transferência.

É óbvio que, ao longo da análise, será importante que essa expectativa se dissipe e o paciente chegue à decepcionante, mas saudável conclusão de que nem o analista nem nenhum outro sabe a verdade sobre ele.

Contudo, sobretudo no início do tratamento, é fundamental que o paciente coloque o terapeuta nesse lugar de autoridade, de suposto saber.

Quando isso não acontece, as pontuações, interpretações, silêncios e cortes do analista não exercem efeito algum na evolução da análise.


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Transferência, em Psicanálise, é mexer com quem tá quieto.

Transferência (Überträgung, em alemão) foi o termo que Sigmund Freud escolheu para nomear um fenômeno que observou acontecer com todos os seus pacientes durante o tratamento psicanalítico.

Que fenômeno, Lucas? Vou descrevê-lo abaixo para você:

Freud observou que, em muitos momentos, seus pacientes manifestavam certas reações emocionais, expectativas e impressões em relação a ele que pareciam à primeira vista incompreensíveis…

Com efeito, o médico se posicionava diante dos pacientes de modo neutro, sem julgamentos, contendo suas próprias reações emocionais. Por isso, num primeiro momento, lhe pareceu muito estranho ouvir de um analisando que ele estava sendo muito severo e exigente ou receber de outra paciente a proposta de abandonarem o tratamento e usarem o divã para fazer amor.

De onde vinha isso, pensava Freud, se, na realidade, ele não havia sido de fato severo com o primeiro paciente nem dado qualquer indício para a segunda de que estaria sexualmente interessado por ela?

O conceito de transferência nasceu para responder perguntas como essa. Como o excelente observador que era, Freud verificou que aquelas impressões, reações e desejos que os pacientes direcionavam a ele eram, na verdade, TRANSFERIDOS de relações com OUTRAS PESSOAS do passado.

De fato, o analisando que começou a achar que Freud estava sendo duro e exigente consigo pensava exatamente a mesma coisa de sua mãe quando era criança. Da mesma forma, a paciente que começara a fazer propostas de amor ao médico havia desenvolvido fantasias semelhantes em relação ao seu pai na fase do complexo de Édipo.

Conclusão de Freud: ao se colocar de forma neutra e contida, o analista estimula o paciente a inconscientemente TRANSFERIR para a relação terapêutica expectativas, impressões, desejos e fantasias que originalmente estavam direcionados a outras pessoas.

Você já conhecia o conceito de transferência em Psicanálise?

O texto te ajudou a ter uma compreensão mais clara dele?

Você já observou a presença desse fenômeno na sua experiência clínica, seja como paciente ou como terapeuta?


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[Vídeo] Afinal, o que é a Psicanálise?

Neste vídeo: entenda o que é a Psicanálise, como funciona a terapia psicanalítica e quais os seus principais objetivos.


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[Vídeo] Transferência: o que é, como se manifesta e por que acontece?

Neste vídeo, o psicólogo e psicanalista Lucas Nápoli explica de forma clara e didática o conceito de transferência, especificando alguns motivos pelos quais o fenômeno transferencial acontece e como ele se manifesta no dia-a-dia e na clínica.

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[Vídeo] Transferência: o inconsciente ao vivo e a cores

Entenda a regra da abstinência de Freud (final)

Cena do filme "Um Método Perigoso"No post anterior, vimos que do ponto de vista freudiano a neurose é resultado de um conflito entre o recalcado (pensamentos, lembranças e desejos que jogamos para debaixo do tapete de nosso psiquismo) e o ego (a imagem que temos de nós mesmos e que, a princípio, seria maculada pelo recalcado). Vimos também que a neurose tem início quando sofremos uma frustração amorosa, a qual faz com que a nossa libido volte a investir os pensamentos que foram recalcados, levando o ego a se sentir ameaçado. A neurose seria, então, um acordo de “paz” selado entre o ego e o recalcado em que o primeiro permite que o último se manifeste desde que de forma disfarçada.

Pois bem. Se o recalcado só foi “reativado” porque a libido não pôde ser satisfeita com objetos da realidade externa (frustração), isso significa, portanto, que se um novo objeto se apresentar para a pessoa e essa passar a amá-lo, grande parte da sua libido tenderá a investir o novo objeto e abandonará os pensamentos recalcados. O que acontecerá então com eles? Serão novamente jogados para debaixo do tapete do psiquismo e permanecerão preparados para se manifestarem novamente caso uma nova frustração amorosa aconteça. Em outras palavras, o recalcado se comportará como um vírus que aguarda a ocasião em que o organismo estará debilitado ou com a imunidade baixa para poder agir.

Qual seria a saída para que o sujeito não ficasse tão vulnerável assim à ação do recalcado? Freud dirá: fazendo com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados! Não entendeu? Eu explico: a única diferença entre os pensamentos que estão recalcados, ou seja, estão no inconsciente, e os que não estão é que os primeiros não podem, a princípio, ser objetos da consciência. Nesse sentido, fazer com que os pensamentos recalcados não sejam mais recalcados significa permitir que eles possam adentrar os salões da consciência – o que só será possível se o sujeito não se sentir ameaçado por eles. E como o sujeito poderá lidar com o recalcado sem se sentir ameaçado? Em primeiro lugar, aprendendo a ter uma imagem de si mesmo (ego) que não seja tão rígida e idealizada. Em segundo lugar, olhando para o recalcado de frente e se dando conta de que objetivamente eles não oferecem perigo algum. Esses dois processos sintetizam o que acontece durante um tratamento psicanalítico.

Neste ponto você pode estar pensando: “Ok. Até aí eu consegui entender. Mas você se propôs a explicar o princípio da abstinência defendido por Freud e até agora não falou muita coisa sobre isso.”. Não ouso discordar de você, caro leitor. De fato, era preciso estabelecer algumas bases antes de chegarmos ao ponto central desta explicação.

Disse no parágrafo anterior que a única forma de impedir que o recalcado se mantenha à espreita, como um vírus, seria fornecendo as condições para que ele pudesse se manifestar e entrar livremente no território da consciência. Ora, a neurose é justamente uma das condições que tornam isso possível! Afinal, os sintomas neuróticos nada mais são do que pensamentos recalcados se manifestando de forma disfarçada. Por outro lado, como frisamos, a neurose só aparece após uma frustração e pode muito bem desaparecer em função de uma nova ligação amorosa. Portanto, a condição sine qua non para que o recalcado possa ser reavaliado pelo indivíduo na análise é a abstinência de satisfações amorosas. Do contrário, isto é, se o indivíduo dirigisse sua demanda de ser amado ao analista e esse a aceitasse, a ligação amorosa entre o paciente e o terapeuta tomaria o lugar da neurose, impedindo a continuidade do tratamento. É por essa razão que, do ponto de vista freudiano, é preciso recusar a demanda de amor do paciente. É preciso manter o doente num estado de insatisfação suficientemente bom para que o recalcado permaneça se manifestando e possa se tornar objeto da consciência.

À guisa de conclusão, poderíamos dizer que a regra da abstinência é a diretriz técnica que torna possível tanto ao paciente quanto ao analista a descoberta e a análise do material recalcado. Como Freud costumava assinalar, é muito comum observarmos uma melhora súbita no quadro apresentado pelo paciente durante os primeiros meses de tratamento. Isso seria resultado da própria relação entre paciente e terapeuta, pois o primeiro investiria no segundo a libido que até então estava vinculada aos pensamentos recalcados. Essa melhora, contudo, não seria duradoura justamente porque o analista não forneceria ao paciente uma contrapartida a seu investimento libidinal. Assim, a libido do paciente não teria alternativa a não ser retornar para onde estava até então, a saber: no recalcado. Essa nova frustração amorosa sofrida pelo paciente produziria uma nova neurose que, dessa vez, estaria ligada à pessoa do analista.

Nesse sentido, ao manter o tratamento em abstinência, ou seja, recusando-se em atender a demanda de amor do paciente, o analista permite que a doença que teve origem fora do consultório possa ser atualizada no interior do setting analítico. Isso permite tanto ao paciente quanto ao analista trabalharem o recalcado e as formas que o ego tem de se defender contra ele não como resquícios de acontecimentos passados mas como fenômenos atuais.

A essência da psicanálise

O que diferencia a psicanálise das demais formas de psicoterapia? Em que atributos reside a singularidade do método criado por Freud? Que características devem estar presentes para que um tratamento psicológico possa ser caracterizado efetivamente como psicanalítico?

Recentemente venho meditando tais questões. Não se trata de um mero exercício intelectual. A reflexão perpétua em torno dessas questões me parece relevante como forma de manter vivas na consciência do clínico as diretrizes essenciais da prática da psicanálise, as quais, amiúde, correm o risco de serem relativizadas. Neste texto, quero compartilhar com os leitores alguns apontamentos derivados dessas reflexões, sem a pretensão de esgotar o assunto.

Numa carta dirigida a Georg Groddeck, em 1917, Freud afirma que todo terapeuta que leve em conta a presença da resistência e da transferência no tratamento pode dizer que está de fato fazendo psicanálise. Para o médico vienense, portanto, a essência de seu método, aquilo que garantiria sua singularidade, seria a consideração da resistência e da transferência no processo terapêutico.

Em textos anteriores dediquei-me a explicar de maneira simples e clara ambos os conceitos. Todavia, a fim de demonstrar por que Freud os tomou como sendo a essência do método psicanalítico, dedicarei a eles mais algumas palavras.

Resistência

O que os psicanalistas chamam de resistência diz respeito àquilo que faz com que a psicanálise se diferencie de um procedimento meramente educativo. Com efeito, a educação tradicional pressupõe que a realização de uma tarefa por parte de um sujeito depende unicamente da posse, por parte desse sujeito, da capacidade para tal.

Embora essa ideia pareça estupidamente tautológica, a clínica psicanalítica mostra que não é bem assim. Afinal, o que mais encontramos em nossos divãs são pessoas que possuem plena capacidade para não fazerem aquilo lhes prejudica e que, ainda assim, ou seja, mesmo lhes fazendo mal, não conseguem deixar de fazer!

A educação, diante de alguém nessa situação, teria apenas duas opções de diagnóstico: ou a pessoa não possui de fato a capacidade para deixar de fazer o que lhe prejudica (ainda que diga que possua) ou, na verdade, não quer deixar de fazê-lo.

Freud descobriu uma terceira possibilidade de explicação, que resultou no conceito de resistência. Ele observou que o sujeito pode ter a capacidade e a vontade consciente de deixar de renunciar ao seu sintoma e ainda assim não conseguir abandoná-lo em função de determinados fatores inconscientes. São justamente esses fatores que Freud denominou de resistências.

Considerar a resistência nos permite entender porque o paciente frequentemente nos diz: “Eu gostaria de mudar, mas não consigo”. Se ele não consegue, não é porque de fato não queira, mas porque a mudança traria consigo uma série de consequências imaginárias e reais que o paciente ainda não é capaz de suportar.

Um exemplo banal nos ajuda a esclarecer essa ideia. Tomemos um paciente que afirme não ser capaz de dizer “não” às demandas de pessoas à sua volta nos momentos em que conscientemente gostaria de fazê-lo. Trata-se de uma dificuldade experimentada por muitas pessoas. O paciente afirma que deseja ardentemente ser capaz de dizer “não”, mas infelizmente não consegue. Observem: ele quer, tem boca e sabe falar, mas, por alguma razão, não consegue.

No decorrer da análise, poderemos verificar que esse paciente teme imaginariamente que ao dizer “não” para alguém, essa pessoa passará a não mais amá-lo ou a não lhe dar a atenção que costumava dar. Essa consequência, certamente possível, mas que em outras pessoas não produziria mais do que um leve mal-estar, para esse sujeito que não consegue dizer “não” poderia implicar num processo de desintegração psíquica! Para esse sujeito, o amor e olhar do outro podem ser tão doentiamente necessários que, sem eles, o sujeito teme não mais existir ou a viver num estado de angústia funesta. Poderemos também descobrir que esse temor está associado às experiências que o paciente vivenciou quando era bebê, nas quais o ambiente não o acolheu suficientemente bem, de modo que ele não foi capaz de se sentir existindo independentemente do olhar do outro.

O paciente, portanto, “resiste” à cura ou à melhora, isto é, não consegue dizer “não” porque esse sintoma é ainda um mal menor perto da situação emocional em que se encontraria caso não pudesse contar com ele.

Nesse sentido, se Freud diz que levar em conta a resistência é uma das marcas do tratamento psicanalítico isso significa que o psicanalista não é adepto do famoso adágio psicoterapêutico de quinta categoria que afirma: “Eu posso te ajudar, mas você tem que querer.”.

Para o psicanalista esse suposto “querer” que faria o paciente abandonar o sintoma não é fruto de um suposto livre-arbítrio ou da famosa “força de vontade”, mas resultado da relação do sujeito com o ambiente e, sobretudo, das marcas deixadas por essa relação no psiquismo. A resistência do paciente sinaliza a função defensiva do sintoma. Sem a doença, o sujeito fica indefeso e entregue à angústia. Por essa razão, ele resistirá até o momento em que a angústia não for mais um inimigo do qual é preciso se defender ou até o ponto em que se sentirá suficientemente seguro para enfrentá-la sem utilizar o sintoma como defesa.

Para que isso ocorra, é preciso que o clínico possa levar em conta o segundo conceito que Freud aponta como fazendo parte da essência do método psicanalítico: a transferência.

Transferência

Considerar a transferência como o eixo do tratamento significa apostar no potencial que a relação entre terapeuta e paciente tem de servir como um novo começo para o doente. Significa entender que o sujeito não vem ao psicanalista para falar sobre sua doença, mas para manifestar essa doença diretamente na relação com o terapeuta. É essa a realidade espantosa que Freud observou desde seus primeiros tratamentos de pacientes histéricas!

Chama-se “transferência” porque de fato o paciente transfere sua doença para o setting terapêutico, fazendo com que o problema possa ser abordado ao vivo e a cores e a transformação do paciente possa acontecer de maneira direta e imediata.

Voltemos a nosso exemplo. Se o paciente não consegue dizer “não” às pessoas que compõem o seu círculo de relacionamentos, da mesma forma, na medida em que o analista passa a ser uma dessas pessoas, ele também não conseguirá dizer “não” ao analista. Em decorrência, essa dificuldade poderá ser tratada in loco. A primeira pessoa a quem ele poderá dizer “não” sem medo de deixar de existir será o analista que, diferentemente do ambiente inicial no qual o sujeito se constituiu, será capaz de suportar esse “não”, mantendo o acolhimento intacto.

Transferência, portanto, não significa que o analista é uma tela em branco, onde o paciente irá projetar todas as suas fantasias. Trata-se de um laboratório da vida, onde misturas podem ser feitas, substâncias podem ser decompostas sem medo. A transferência testemunha a esperança do paciente de que o destinatário da mensagem veiculada por sua doença – destinatário que, no tratamento, passa a ser o analista – possa dar uma resposta diferente daquelas que o paciente já conhece e que só contribuem para a manutenção do adoecimento.

A consideração da transferência é, portanto, uma das marcas da psicanálise porque, diferentemente de outros tipos de psicoterapia, o método psicanalítico sustenta que a relação entre analista e analisando é o espaço onde a doença se manifesta e onde ela será compreendida e tratada e não apenas um lugar onde se falará acerca dela.

Concluindo

Pode-se dizer que, a despeito da diversidade de orientações teóricas na psicanálise, o elemento que jamais poderá estar ausente de um tratamento que se denomine psicanalítico é a consideração da resistência e da transferência. Ao levar em conta a resistência, o psicanalista reconhece que todo sintoma funciona como uma defesa para o sujeito e que, por conta disso, é difícil para o paciente abandonar sua doença, de modo que, em matéria de psicopatologia, o jargão “É preciso querer” é absolutamente falso. Outrossim, levando em consideração a transferência, o analista sabe que o abandono do sintoma só se faz quando ele deixa de ser necessário como defesa e isso só acontece quando o paciente experimenta um ambiente suficientemente seguro. Esse ambiente deverá ser encontrado na relação com o analista, evidenciando que na psicanálise a doença é abordada de forma direta, na medida em que se manifesta com todas as suas características no interior da relação terapêutica.

Como surge a intersubjetividade? – Lacan contra Balint

No início de seu ensino, Jacques Lacan não estava preocupado em propor novos conceitos ou desenvolvimentos teóricos inovadores para a Psicanálise. Seu interesse principal era resgatar a essência da teoria e da técnica psicanalíticas que, do seu ponto de vista, havia sido desvirtuada pelos analistas pós-freudianos. A esse projeto, Lacan deu o nome de “retorno a Freud”. Em outras palavras, o psicanalista francês achava que seus colegas estavam fazendo tudo, menos psicanálise.

Por conta disso, durante quase 10 anos de seu “Seminário”, Lacan se dedicou a ir aos textos de Freud e dos autores pós-freudianos e, comentando-os, mostrar o que, segundo ele, seria a psicanálise verdadeira, a intuição original de Freud, e a psicanálise falsa, composta de enunciados teóricos e técnicos que estavam no caminho oposto àquele que o pai da psicanálise havia proposto.

A escola da relação de objeto

É nesse contexto que devemos situar a crítica que Lacan faz a Michael Balint, psicanalista húngaro, no seminário do ano acadêmico de 1953-54, dedicado ao comentário dos escritos técnicos de Freud. Balint é um dos representantes de uma corrente psicanalítica pós-freudiana que ficou conhecida como “escola da relação de objeto”. Tal corrente teria como fundamento as idéias de Melanie Klein, as quais se contrapunham às teses da filha de Freud, Anna. Ora, a discordância entre as autoras se dava em relação à questão acerca da existência de relações de objeto desde o nascimento. Para Anna Freud, que seguia o ponto de vista de seu pai, tais relações só apareceriam num estágio posterior do desenvolvimento do bebê, pois inicialmente a libido da criança estaria concentrada totalmente em seu ego (autoerotismo). Já para Klein, desde o início da vida o bebê estaria se relacionando com objetos, sendo o primeiro deles o seio. É óbvio que Anna Freud não ignorava o fato de que o bebê tinha contato com o seio. Ela, no entanto, não via por que considerar esse contato como uma “relação de objeto”, pois, segundo ela, o bebê se relacionaria com o seio como se esse fosse uma parte de si mesmo e não como um objeto externo.

Essa divergência pode parecer demasiado insignificante se não atentarmos para suas implicações no nível prático da intervenção analítica. Com efeito, ao dizer que o bebê não estabelece inicialmente relações de objeto, Anna Freud está admitindo a inexistência de transferência com crianças menores e, em decorrência, a impossibilidade de uma análise com bebês a partir dos mesmos princípios da análise de adultos. Melanie Klein, por seu turno, acreditava firmemente na possibilidade de transferência com crianças menores e, para sustentar isso, precisava supor a existência de relações objetais desde o início.

Amor pré-genital e amor genital

Balint, portanto, é um dos autores que decorre da escola da relação de objeto. Suas teses todavia, não papagueiam as de Melanie Klein. Conforme a leitura que Lacan e seus alunos fazem do livro “Primary Love and Psycho-analytic Techinics”, uma coletânea de artigos escritos por Balint entre 1930 e 1950, o autor defenderia a idéia de que nós teríamos dois tipos de relação objetal ao longo da vida. Antes da entrada na fase genital, experimentaríamos uma relação com nossos objetos marcada por um amor pré-genital. O que significa isso? Durante a vigência dos estágios pré-genitais da libido, os objetos que nos cercam seriam tomados por nós apenas como objetos que satisfazem necessidades, ou seja, como coisas que apaziguam um determinado desconforto e nos proporcionam prazer. Não estaríamos nem aí para os sentimentos e pensamentos do objeto; não lhe outorgaríamos o estatuto de sujeito. Vejam bem: Balint está dizendo que passaríamos toda a nossa infância pré-genital nos relacionando dessa forma com nossos pais, irmãos e outras pessoas. Ao advir o estágio genital da libido, após o período de latência, teríamos acesso a outro tipo de relação objetal, marcada, enfim, pelo reconhecimento de que o objeto também é uma pessoa, um sujeito, ou seja, alguém que, como nós, igualmente possui necessidades.

Mas essa mudança aconteceria? Qual elemento faria com que passássemos de uma relação com o outro apenas como objeto para um relacionamento com um objeto ao qual reconheceríamos também uma subjetividade? Balint não o explica. O analista húngaro faz parecer que, do seu ponto de vista, tudo ocorreria naturalmente, como se, de repente, o sujeito despertasse para o reconhecimento do outro como sujeito. Aliás, conforme a leitura de Lacan, Balint diria que os sinais desse reconhecimento, a saber: a ternura, o respeito e a consideração, teriam sua origem justamente nos estágios pré-genitais! Trata-se de um contra-senso, pois, como vimos, na pré-genitalidade a relação com o objeto não comportava aqueles traços. Em suma, para Lacan, Balint se enrola, e o faz porque negligencia a existência do registro simbólico.

O sádico precisa de um sujeito

Se admitirmos que no período pré-genital nos relacionamos apenas com objetos que saciam nossas necessidades, como quer Balint, não conseguiremos explicar, afinal de contas, como a partir do estágio genital conseguimos reconhecer o objeto como sujeito. É esse o argumento de Lacan. E para eliminar esse impasse, o analista francês defenderá a tese de que o reconhecimento do outro como sujeito se dá desde o início. Para demonstrá-lo, Lacan recorrerá inicialmente à fenomenologia da perversão.

Ora, a descoberta freudiana reivindica que a criança é um ser polimorficamente perverso, ou seja, tem o potencial para o desenvolvimento de todas as perversões imagináveis. Isso ocorre porque nela a sexualidade ainda não foi regulada pela cultura. Nesse sentido, agem na criança diversas pulsões (as chamadas pulsões parciais) que, ao serem tomadas como vias principais de manifestação da sexualidade na vida adulta, serão consideradas como perversões. Uma dessas pulsões é o sadismo, isto é, o gozo com o sofrimento infligido ao objeto. Ora, se analisarmos a pulsão sádica na criança a partir de Balint, teremos que o objeto da pulsão, no caso o outro ao qual se aplica sofrimento, está funcionando para o sujeito apenas como um objeto de satisfação dessa necessidade pulsional. No entanto, Lacan mostra que não pode ser assim, pois a fenomenologia do sadismo mostra que a condição para que a pulsão sádica se manifeste é que o outro diga “Não, não faça isso comigo!”, ou seja, que o outro resista. Ora, para que o outro resista, é preciso que ele se comporte não como objeto, mas como sujeito para o sádico!

O que Lacan está dizendo, portanto, é que se a perversão sádica no adulto pressupõe uma relação intersubjetiva, a manifestação da pulsão parcial na qual ela se fundamenta também deve ser uma relação intersubjetiva. Em síntese, mesmo se nos ativermos ao registro imaginário da perversão, da relação desregulada e cambiante entre dois indivíduos, a intersubjetividade está presente.

Vamos jogar xadrez?

Não obstante, o elemento que servirá de condição para a intersubjetividade desde o início será a linguagem. Balint utilizava, para demonstrar sua tese de que para a criança nas fases pré-genitais o objeto não seria reconhecido como sujeito, o exemplo de frases fortes que as crianças dizem com toda a tranqüilidade do mundo como “Mamãe, quando você estiver morta, eu farei isso, isso e isso…”. Para Balint, frases como essa confirmam suas idéias de que a criança não está nem aí para a subjetividade do outro, servindo-se dele apenas como objeto de satisfação. Para Lacan, trata-se de uma interpretação equivocada, pois, segundo ele, a fala da criança expressaria exatamente o contrário.

Ao dirigir-se ao objeto materno a partir da palavra “mãe” e ao supor a possibilidade de sua morte, a criança, para Lacan, já estaria se relacionando com a genitora não mais como uma coisa que lhe satisfaz, mas como um significante com o qual o seu significante “eu” se relaciona. Assim, por sua submissão comum à linguagem, ambos se constituem como sujeitos.

Para entender melhor essa idéia, tome o seguinte exemplo: pense na linguagem como o jogo de xadrez e nas peças do tabuleiro como os significantes. Ora, o sujeito, que é quem movimenta, só possui aquelas peças específicas para jogar e cada uma delas só tem significado dentro do jogo. A rainha só é rainha no tabuleiro. Caso alguém que não conheça o xadrez a pegue por acaso, poderá utilizá-la como um singelo objeto de decoração e não como a peça de um jogo. Assim também são os significantes: mudam de significado conforme o contexto em que se encontram.

Outra constatação: o jogador, ao mexer as peças, é limitado, pois é obrigado a representar sua estratégia apenas com aqueles elementos. Ele não pode entrar no jogo e dar xeque-mate; é forçado a utilizar as peças. Além disso, não pode inventar novas peças – são as regras do jogo. Em decorrência, torna-se possível saber a estratégia que um jogador utilizou numa partida jogada há 200 anos atrás se tivermos acesso ao registro das peças que ele movimentou e em que sequência o fez.

Nosso desejo, analogamente à estratégia do jogador de xadrez, também está submetido aos significantes que a linguagem nos oferece, de modo que só podemos nos fazer representar, num mundo de linguagem como é o mundo humano, através desses elementos. Por isso. Lacan dirá que sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante, isto é, o nosso ser é um efeito da linguagem. No nosso exemplo, diríamos, de maneira análoga, que a estratégia do jogador de xadrez é a relação produzida entre um movimento e outro do jogo.

Pois bem, ao nomearmos alguém como mãe, pai, etc. é como se estivéssemos chamando aquela pessoa para jogar o xadrez da linguagem conosco, ou seja, a se fazer representar, tal como nós próprios, pelas peças do tabuleiro. Em outras palavras, no ato da nomeação, estamos reconhecendo o outro como sujeito, pois estamos admitindo a sua inserção na linguagem. É por isso que Lacan afirma, nessa crítica a Balint, que a condição para o reconhecimento do outro como sujeito é a possibilidade que o indivíduo tem de se servir da linguagem, possibilidade que lhe é outorgada bem precocemente.

O que é resistência em Psicanálise?

Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.

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Psicossomática e Psicanálise VII: Georg Groddeck

Muito provavelmente, Georg Groddeck é o autor menos conhecido dentre os sete que apresentamos nesta série. Pudera. A psicanálise e a medicina voluntariamente negligenciaram a obra do autor. A primeira por considerar suas teses um tanto extravagantes mesmo para um campo que em si mesmo já se constitui como extravagante face à tradição psicológica. A segunda por não poder incluir uma concepção de doença como a proposta por Groddeck dentro de um modelo teórico para o qual as enfermidades não possuem nenhuma significação, sendo vistas como meros fenômenos corporais. Nesse sentido, os enunciados groddeckianos foram considerados anátemas pelos dois campos profissionais nos quais o autor se inseriu. Isso não significa que tal juízo rigoroso fosse acertado, embora seja justificável.

Mesmo não tendo o reconhecimento devido de suas teses por seus pares, Groddeck não se calou. Escreveu numerosos artigos para sua própria revista, chamada Die Arche, a qual circulava dentro de seu sanatório na cidade alemã de Baden-Baden, de modo que todos os seus pacientes tinham acesso aos textos. Aliás, Groddeck considerava a leitura da teoria na qual baseava sua ação clínica como um ato terapêutico. Por conta disso, proferiu uma série de conferências psicanalíticas para seus doentes, que depois vieram a ser publicadas em livro. Mas estou me adiantando indevidamente. Vejamos primeiramente quem foi Georg Groddeck; como esse autor se inseriu na psicanálise e quais as suas propostas inovadoras relacionadas com o problema da psicossomática.

A descoberta da psicanálise – sem Freud

Georg Walther Groddeck nasceu na cidade alemã de Bad Kösen em 1866, ou seja, dez anos depois de Freud. Tornou-se médico por influência do pai que também o era e na faculdade de medicina foi fortemente impactado pela figura de Ernst Schweninger, importante médico da época que propunha a tese de que o verdadeiro agente da cura num tratamento médico não é o profissional de saúde, mas sim o próprio organismo do doente. O médico seria apenas um facilitador, um catalisador das tendências de autocura inerentes ao próprio organismo. Groddeck guardou essa idéia como uma das bases de seu pensamento e de sua prática clínica e chegou a escrever um livro cujo título era precisamente o ditado latino que Schweninger utilizava para expressar sua tese: “Natura sanat medicus curat” (“A natureza cura, o médico trata”).

Nessa obra, que ficou conhecida pela junção das sílabas iniciais do aforismo: “Nasamecu”, Groddeck aborda a constituição física das pessoas doentes e sadias e, ao falar disso, o autor faz duras críticas à psicanálise, mesmo conhecendo o método freudiano apenas por ouvir falar. De fato, naquele momento Groddeck ainda não havia lido nenhum texto de Freud. Por que, então, fora feita a crítica, se Groddeck não possuía um conhecimento suficiente para julgar a validade do procedimento analítico?

A resposta, Groddeck a fornece na primeira carta que envia a Freud, em 27 de maio de 1917: tratava-se de uma reação a um sentimento de inveja que Groddeck passou a nutrir em relação a Freud desde o momento em que começara a ouvir falar das descobertas que o médico de Viena havia feito. Com efeito, em 1912, quando “Nasamecu” foi publicado, os achados de Freud já eram conhecidos na Europa. Sabia-se que através do tratamento das neuroses, Freud chegara à conclusão da existência da sexualidade infantil, do impacto da linguagem e dos símbolos na vida subjetiva bem como dos fenômenos de transferência e resistência.

A grande ironia do destino é que mesmo sem ter lido uma vírgula de Freud, sem nunca ter ouvido falar em psicanálise e tratando de pacientes com doenças orgânicas e não neuroses, Groddeck havia chegado às mesmas conclusões de Freud! Nesse sentido, desde o momento em que passou a se dar conta de todos esses fenômenos, nasce em Groddeck um sentimento de pioneirismo que é aviltado quando ouve falar que Freud, em Viena, já havia descoberto as mesmas coisas e, pior, já havia publicado seus achados! Dada a força de seu desejo de pioneirismo, Groddeck se vê tomado de inveja e como resposta a esse afeto tece críticas irresponsáveis à psicanálise.

Há intencionalidade nas doenças orgânicas

Na primeira carta que envia a Freud, Groddeck reconhece tudo isso e pede desculpas ao médico vienense, passando, então, a relatar uma série de casos de doenças somáticas que conseguiu tratar através do entendimento da doença como um símbolo, mesmo procedimento que Freud adotava na investigação dos sintomas histéricos e obsessivos. Nota-se, portanto, que Groddeck está propondo a tese de que não há distinção entre neuroses, isto é, transtornos psíquicos, e doenças orgânicas no que diz respeito à possibilidade de que sejam vistos como portando uma significação.

Essa é a viga mestra do pensamento de Groddeck: toda doença pode ser lida como um símbolo, pois, do seu ponto de vista, o sujeito sempre ficaria doente com algum propósito, para cumprir uma determinada finalidade. Temos uma dificuldade enorme para considerarmos esse raciocínio plausível, pois a tradição na qual fomos formados nos ensinou que finalidade e propósito são atributos apenas de atos psíquicos, como pensamentos, lembranças, desejos etc. Como nessa tradição, tudo o que diz respeito ao corpo é absolutamente distinto da psique, seguindo uma causalidade puramente material e mecânica, nos acostumamos a pensar que a doença orgânica é algo que acontece em nós e com o qual nós, enquanto sujeitos pensantes, não temos absolutamente nada a ver. Em outras palavras, colocamos a doença na mesma categoria de um copo d’água que cai à nossa frente, ou seja, entre o conjunto de fenômenos que acontecem independentemente de nossa intencionalidade.

Mas notem, caros leitores, que só fazemos isso porque admitimos um pressuposto cartesiano de entendimento da realidade: o que subjaz à nossa compreensão da doença é a idéia de que nós somos feitos de dois tipos de substâncias: uma pensante (a psique), que funciona a partir da nossa vontade (seja ela consciente ou inconsciente) e outra material, não-pensante (o corpo) que funciona de acordo com as mesmas leis da matéria a partir das quais um relógio funciona. Ora, se jogamos fora esse pressuposto e passamos a pensar que, na verdade, somos uma substância única, dotada de intencionalidade, desejos e finalidades, que se expressa ao mesmo tempo como psique e corpo, o entendimento da doença muda completamente.

O Isso

Foi justamente isso o que Groddeck fez. É por isso que não podemos falar de psicossomática em Groddeck, pois, para o autor, não há uma causalidade psíquica nas doenças orgânicas. Em outras palavras, não se trata da psique agindo sobre o soma. A doença, para Groddeck, seja ela psíquica, como uma neurose obsessiva, ou orgânica, como um câncer, brota de uma mesma fonte, que é essa substância única que somos e que Groddeck chamou de “Isso” (em alemão: “das Es”). Esse termo, que Groddeck extrai de um trecho da obra de Nietzsche, é utilizado em alemão no sentido impessoal. Ou seja, quando se o utiliza, não se sabe se o referente é homem, mulher, criança, velho, uma cadeira, um pensamento, ou seja, é o termo ideal que Groddeck encontrou para dar nome a esse novo modo de entender o ser humano que o concebe para-além das diferenças às quais nós estamos acostumados: físico/psíquico, homem/mulher, velho/jovem.

Destarte, em vez de pensar no homem como dividido em corpo/psique, Groddeck preferirá pensar no indivíduo como um Isso, que não é nem corpo nem psique, mas que se expressa psíquica e corporalmente. Ao desfazer a separação outrora arraigada, o autor agora pode tranquilamente pensar a doença física como tendo uma finalidade, uma significação, um propósito, pois ela já não seria um fenômeno apenas do corpo, que segue leis puramente mecânicas, mas um fenômeno do indivíduo como um todo, o qual não pode ser concebido sem finalidade e propósito.

O que quero deixar claro é que Groddeck não faz toda essa elaboração teórica como um exercício especulativo. Ele faz questão de assinalar em vários momentos de sua obra que o conceito de Isso e, por extensão, todo o seu pensamento, são apenas hipóteses, construções geradas a partir e para sua experiência clínica. Em outras palavras, são hipóteses gestadas não para descrever adequadamente a realidade, mas sim para intervir nessa realidade, o que, no caso de Groddeck, significava auxiliar o paciente.

Os usos que fazemos da doença

Embora, como na neurose, o sentido de cada sintoma seja singular, ou seja, dependa da história individual de cada paciente, Groddeck mostra que as doenças servem a determinados usos gerais que estão relacionados às conseqüências comuns de todo adoecimento. Aliás, é a análise das conseqüências da doença o ponto de partida utilizado por Groddeck para investigar a sua significação. Por exemplo, as dores de cabeça provocam como consequência, via de regra, a dificuldade de pensar. Pessoas que têm dores de cabeça muito fortes dizem frequentemente que qualquer pensamento provoca dor. Seria disparatado pensarmos que fora justamente esse efeito o que motivou a eclosão das dores? Muitas vezes, por mais que não queiramos pensar em determinados eventos, eles insistem em se fazer presentes em nossa consciência, de sorte que a única forma de impedir que isso aconteça pode ser colocando dores em seu lugar.

Amiúde as doenças, especialmente as mais graves, levam a pessoa a se colocar sob os cuidados de outrem, a reivindicar-lhe sua atenção. A experiência de Groddeck e a de qualquer pessoa que se ponha a observar atentamente os fenômenos do adoecimento comprovam que há indivíduos que não conseguem demandar a atenção que julgam merecer do outro senão ficando doentes. Você mesmo, caro leitor, deve conhecer uma dessas célebres mulheres que mendigam a atenção de um marido pouco afável com doenças que nunca saram. Ora é uma dor aqui, ora outra ali, de modo que, por mais que o marido queira ficar o menor tempo possível com a esposa, ele é “obrigado” a fornecer a ela um signo de sua ainda que pouca consideração através dos remédios que lhe compra. É como se, com a doença, a mulher estivesse dizendo: “Você pode até resistir, mas terá que pensar exclusivamente em mim pelo menos uma vez por mês, ao pagar a farmácia.”

Não são raros também os casos em que a doença serve ao indivíduo como veículo de expiação de um sentimento de culpa. A enfermidade fornece o sofrimento que o indivíduo lhe julga ser devido como castigo em função de uma suposta falta cometida e, ao mesmo tempo, retira da consciência o sentimento de culpa. Mais: transfere a culpa para o mundo, para a natureza, que teria lhe fornecido a doença. Trata-se, portanto, de uma “solução” bastante eficaz se o objetivo é, ao mesmo tempo, satisfazer e eliminar o sentimento de culpa. Tudo dependerá daquilo que o Isso considerará como um mal maior.

Nesse momento, certamente alguns leitores podem estar se perguntando: “mas e nos casos de doenças infecciosas? Também nesses haveria um propósito em ficar doente? Isso não seria absurdo na medida em que é o microorganismo que causa a doença?”. São perguntas plausíveis, mas assentadas em pressupostos equivocados. De fato, o que a epidemiologia evidencia é que há apenas uma associação entre a presença de um microorganismo no corpo do doente e a presença de uma determinada enfermidade. De modo algum tal associação implica necessariamente numa relação de causalidade. Do contrário, em todos os casos em que houvesse a presença do microorganismo haveria necessariamente a presença da doença e não é isso o que se verifica. De dez pessoas infectadas com o bacilo de Koch, nem todas desenvolverão a tuberculose. A medicina científica tradicional irá buscar os outros fatores que seriam responsáveis por essa diferença em todos os lugares possíveis menos na subjetividade. Groddeck, por seu turno, não temerá em dizer: na verdade, o Isso, a substância única individual, só permite a eclosão da doença quando o ficar doente lhe é útil. Nesse sentido, se ficar tuberculoso não é interessante para o indivíduo naquele momento de sua história de vida, o bacilo de Koch terá a mesma significação de um grão de areia no organismo, ou seja, estará lá, mas não servirá para nada. Quando diz isso, Groddeck não está propondo um “psicologismo” ou um “subjetivismo”. Ele sabe que múltiplos fatores contribuem para um indivíduo ficar doente. No entanto, dentre essa gama de fatores, um deles é a disposição individual, o sentido que a doença adquirirá na vida do sujeito. Em outras palavras, o sujeito pode ter todas as condições para ficar doente e sem as quais não ficaria, mas se a enfermidade não for necessária naquele momento específico de sua história, ele não ficará doente.

Concluindo

Para Groddeck, não existem sintomas nem doenças psicossomáticos por oposição a sintomas e doenças meramente orgânicas. Toda enfermidade é psicossomática e isso não em função de uma comorbidade entre sintomas físicos e psicológicos, mas sim pelo fato de que Groddeck pensa o ser humano como uma unidade, um Isso que não é nem físico nem psicológico, mas que se expressa orgânica e psicologicamente. Esse Isso, na medida em que Groddeck o considera como o indivíduo, é dotado de intencionalidade, de desejos, de propósitos. Como a doença orgânica, bem como a psicológica, brotam dele, isso significa que o padecimento somático também possui um sentido, uma significação, um uso, enfim.

Adendo

Portanto, do ponto de vista groddeckiano, não seria necessária uma técnica especial ou um enquadramento terapêutico específico para o tratamento de doenças orgânicas pela via da psicanálise. O sintoma orgânico seria visto da mesma forma que um sintoma neurótico, ou seja, como algo a ser decifrado, considerando que sua decifração corresponde ao delineamento dos conflitos aos quais ele responde. A experiência de Groddeck, exemplificada pelas inúmeras vinhetas clínicas que o autor expõe em seus escritos, mostra que a aplicação do método psicanalítico tal como Freud o concebeu é plenamente eficaz na remissão de sintomas orgânicos tanto leves quanto graves.

***

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Leia também o post em que aprofundo alguns aspectos tratados aqui com o objetivo de demonstrar por que Groddeck, ao contrário do que muita gente afirma, não foi o pai da Psicossomática.

[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise III: Sigmund Freud

Psicossomática e Psicanálise III: Sigmund Freud

Frequentemente quando se vai falar sobre o corpo na literatura psicanalítica, muitos autores já se acostumaram a dizer que Freud teria subvertido o entendimento tradicional do corpo ao propor supostamente a idéia de um corpo simbólico trazido à tona a partir do tratamento da histeria. Dizem esses autores que Freud teria demonstrado, pelas descobertas da psicanálise, que o corpo biológico com o qual viemos ao mundo é transformado, pela incidência do campo das representações, isto é, da linguagem, em um corpo simbólico, um corpo dotado de sentido. Trata-se, não obstante, de um erro de interpretação. Em primeiro lugar, Freud não faz uso da expressão “corpo simbólico” nem sequer aborda essa suposta passagem de um corpo biológico para um corpo simbólico em nenhum momento de sua obra. Quem o faz é Jacques Lacan e apenas alguns poucos daqueles que se professam lacanianos levaram realmente a sério tal formulação. A maioria continua achando que existem dois corpos: o biológico/real e o simbólico, ou seja, que a transformação consiste de fato numa duplicação.

Todavia, trabalhemos com essa interpretação lacaniana de Freud e vejamos até onde ela nos leva. Voltando aos autores mencionados acima, muitos deles também afirmam que Freud teria questionado a separação cartesiana entre corpo e mente ao ter descoberto o tal do “corpo simbólico”. Outro engano. Freud sempre foi um cartesiano e inclusive louvava a separação entre corpo e mente como o fez explicitamente numa carta a Georg Groddeck. Esse, sim, advogava a indissociabilidade entre mente e corpo, como veremos no post em que sua teoria será abordada.

Conversão não é sintoma psicossomático

A descoberta de que a histérica apresenta sintomas corporais derivados de conflitos psíquicos mantém intacta a separação entre corpo e mente. Com efeito, como o próprio Freud assevera, a histérica sofre de reminiscências e não do corpo. O mecanismo da conversão, que Freud diz estar em jogo na histeria é, de fato, uma falsa conversão. Nada ali é convertido a não ser o afeto que originalmente prazeroso, ligado a uma satisfação sexual, passa a ser desprazeroso. Não há conversão da libido de uma representação intolerável para o corpo, mas sim o deslocamento daquela para outra representação, representação de uma parte do corpo! Portanto, se adotarmos a dicotomia mente-corpo, podemos dizer que o fenômeno em questão é eminentemente mental. Numa cegueira histérica, por exemplo, os olhos da paciente permanecem intactos; o que impede a visão não é um problema na estrutura orgânica do olho, mas sim um conflito envolvido nas ligações simbólicas que a representação “olho” possui. Se quisermos adotar um vocabulário neurológico, trata-se de um problema do âmbito das sinapses cerebrais.

Fiz esse preâmbulo para deixar claro que Freud, apesar de pai da psicanálise, não foi pioneiro no campo da psicossomática em psicanálise. Como já tinha avisado no primeiro post desta série, um sintoma psicossomático é um fenômeno distinto de uma conversão histérica e isso porque o primeiro incide sobre o próprio corpo e não sobre a representação do corpo, como na histeria. Mas se Freud não falou de psicossomática por que razão o incluímos nesta série? A resposta é simples: Freud, apesar de não ter se interessado pela psicossomática, não passou ileso em sua clínica por doentes que apresentavam sintomas que afetavam o corpo “real”.

As neuroses atuais

Se alargarmos o termo psicossomática a ponto de incluir não apenas distúrbios cujo causalidade perpassa por elementos de ordem psíquica mas também doenças em que a etiologia está relacionada a eventos de ordem relacional, aí sim podemos dizer que Freud esboçou uma primitiva concepção de psicossomática. Explico: desde o início de sua atuação clínica Freud se deu conta de que trabalhava com dois grupos diferentes de neuroses, aos quais ele chamou de neuroses de transferência e neuroses atuais. As neuroses de transferência, cujos paradigmas são a histeria e a neurose obsessiva, eram aquelas cuja etiologia dos sintomas estava relacionada a eventos da história de vida do sujeito, em especial suas experiências infantis, e cujas coordenadas principais acabavam se atualizando na relação com o analista, constituindo o que Freud chamou de “transferência”. O tratamento dessas neuroses consistiria numa ressignificação dos sintomas a partir da atualização da doença na transferência.

Já as neuroses atuais, cujos exemplares principais são a neurose de angústia e a neurastenia, se caracterizavam principalmente por sintomas corporais como inibição do funcionamento de determinado órgão, irritação em determinada parte do corpo, pressão intracraniana, angústia, fadiga, dores diversas, etc. Evidentemente, tais sintomas, como qualquer sintoma físico, poderiam estar associados a ingestão de determinados alimentos, infecções, degenerações etc. No entanto, o que Freud descobriu através do tratamento dos pacientes que os portavam foi que a maioria deles apresentavam um traço comum: um déficit na sua vida sexual atual – daí o nome escolhido para essas neuroses. Que déficits eram esses? Eram particularidades da vida sexual que impossibilitavam uma descarga satisfatória da energia sexual, como por exemplo: abstinência sexual, práticas de coito interrompido, demora excessiva para o término da relação sexual, como acontece em muitos casais que gastam um tempo exacerbado nas preliminares do ato. Em todas essas situações, uma quantidade enorme de libido ficava acumulada no organismo de modo que a “parte orgânica” da libido, como Freud a chamava, se tornava tóxica em função dessa acumulação. Sim, para Freud a libido possuía uma faceta psíquica e outra somática. A psíquica, ao não poder ser descarregada pelas vias habituai, poderia ser deslocada para fantasias, como Freud observava nas neuroses de transferência. Já a parte orgânica necessitava mesmo de descarga real e quando essa frequentemente não acontecia, a libido se tornava tóxica, gerando danos os mais diversos ao corpo. Nesse sentido, os sintomas produzidos (angústia, disfunção em determinado órgão etc.) eram, analogamente aos sintomas das neuroses de transferência, satisfações substitutivas. Como a faceta orgânica da libido não podia ser descarregada do lado de fora, ela eclodia do lado de dentro.

Diferentemente dos sintomas das neuroses de transferência, os sintomas das neuroses atuais não poderiam ser interpretados simbolicamente. Eles não estavam vinculados a uma história. Pelo contrário, eram respostas às condições atuais de vida do doente. Nesse sentido, o tratamento era baseado principalmente em orientações para mudanças na vida sexual, de modo a permitir a descarga adequada da libido e impedir que ela se tornasse tóxica ao se acumular no organismo.

Concluindo

Vemos, portanto, na descrição que Freud faz das neuroses atuais, a ausência de qualquer menção a fenômenos de ordem psíquica em seu desencadeamento. Portanto, a rigor, as teses de Freud sobre tais enfermidades não poderiam ser vistas como uma primeira incursão da psicanálise no campo psicossomático. Só poderíamos supor o contrário, como eu disse no início, se alargarmos a noção de doença psicossomática para incluir qualquer distúrbio cuja etiologia possa ser remetida a fenômenos de ordem interpessoal.

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[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise II: Donald Winnicott

[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise I: Joyce McDougall

Caríssimos, o vídeo abaixo é meu passaporte para a era dos vídeos online. Em tempos de Twitter e seus 140 caracteres, cada vez menos gente consegue se concentrar nem que seja por apenas 10 minutos para ler um texto de 2 ou 3 páginas na internet, o que torna o vídeo a mídia por excelência de disseminação de conteúdo no mundo virtual atualmente.

Por essa razão, pretendo, a partir desta semana sempre que possível produzir um vídeo para cada post que eu vier a publicar aqui no blog. Assim, os da velha guarda (como eu – e muitos) que têm paciência para ler os textos poderão fazê-lo normalmente e aqueles que porventura não queiram ler ou aprendem melhor ouvindo terão acesso à mesma informação (ainda que um pouco mais sintetizada por razões intrínsecas à produção de um vídeo online).

O vídeo abaixo tem como texto de referência o post que publiquei nesta semana iniciando a série “Psicossomática e Psicanálise”. Espero que gostem! Mas não deixem de fazer críticas e sugestões para que os próximos vídeos sejam cada vez mais aprimorados.