Por que Groddeck NÃO foi o pai da Psicossomática

Alguns dos poucos autores que, em algum momento de suas vidas, se debruçaram sobre as páginas dos livros de Georg Groddeck[1] insistem em dar-lhe o epíteto de “pai da medicina psicossomática”. Tal atribuição é justificada por eles pelo fato de que a maior parte dos escritos de Groddeck teve como mote a demonstração da eficácia do método psicanalítico no tratamento de doenças “orgânicas”. O erro desses autores está em considerar que, em função disso, Groddeck estaria a postular a causalidade psicológica das doenças. É um equívoco tremendo pensar assim, resultante, talvez, de uma leitura superficial dos textos desse autor genial.

A idéia subjacente às teorias que defendem a existência de doenças psicossomáticas é a de que determinados tipos de conteúdos tradicionalmente agrupados na categoria “psiquismo” como idéias, sentimentos, lembranças etc. poderiam ocasionar o desencadeamento de algumas enfermidades corporais. Ou seja, para sustentar uma “medicina psicossomática” é preciso se afiliar necessariamente ao axioma cartesiano segundo o qual existem no mundo duas substâncias: uma corpórea (res extensa) e outra mental (res cogitans). Afinal, como supor que uma instância atua sobre a outra se não se supõe previamente que ambas existam?

O problema que a maior parte dos críticos da medicina psicossomática aponta (e com razão) é: como é que aspectos concernentes a um registro exercem influência sobre os aspectos de outro na medida em que supostamente os dois registros não apresentam propriedades comuns? Uma das respostas mais comuns dos defensores da psicossomática é dizer que esse argumento não procede uma vez que existem sim propriedades comuns entre corpo e psiquismo. Mais: que ambos atuam em conjunto, ao mesmo tempo. Ora, se não é possível, portanto, separar corpo e psiquismo, já que as duas instâncias operariam concomitantemente, por que continuar a falar em doenças psico-somáticas? Nessa perspectiva, todas as doenças seriam vistas como psicossomáticas. A utilização do conceito, portanto, seria inútil; bastaria falar apenas em “doença”.

Outra forma de responder às críticas à medicina psicossomática se manifesta na obediência cega aos cânones organicistas da biomedicina. Assim, os chamados “aspectos psicológicos ou emocionais” são reduzidos a simples epifenômenos de modificações corporais. É o caso, por exemplo, da noção de stress, descrita usualmente a partir de termos que caracterizam alterações orgânicas, como palpitação, dores de cabeça, fadiga muscular. Essa estratégia é tão ou mais problemática que a primeira porque ela inadvertidamente esvazia o conceito de doença psicossomática, reduzindo-o a um tipo específico de doença somática, como todas as outras.

Essa breve explanação dos aspectos problemáticos envolvidos na hipótese de uma medicina psicossomática já nos serve para demonstrar porque Groddeck não é um médico psicossomático – justamente porque ele não se mete nesses becos sem saída. Em primeiro lugar, para Groddeck o dualismo de Descartes não é considerado um instrumento útil para a compreensão da vida humana. Não está em questão a possibilidade de esse postulado ser verdadeiro ou não. Trata-se tão-somente do seu potencial de nos auxiliar no entendimento dos fenômenos que nos interessam. E, a partir desse critério, o dualismo pode ser abandonado sem peso na consciência.

Groddeck o faz. E para substituí-lo, propõe um conceito altamente original: a noção de Isso (em alemão: “Das Es”), uma palavrinha que evoca a idéia de algo impessoal justamente para que não se corra o risco de confundi-la com o conceito de Eu. Para Groddeck, as duas substâncias de Descartes vão se constituir não mais como dois registros distintos, mas como dois modos de expressão do Isso; dois dialetos, por assim dizer.

Ou seja, Groddeck não está negando as diferenças óbvias existentes, por exemplo, entre um movimento de braço (corpo) e uma lembrança (psiquismo). O que ele está tentando solucionar são os problemas que acabamos criando quando dizemos que tais diferenças existem em função de uma distinção de essência entre os dois fenômenos. Tais problemas são justamente aqueles que apontamos no início, isto é: ou admitimos a diferença essencial e, portanto, excluímos a possibilidade de influência mútua entre as duas instâncias ou reduzimos um registro a outro, adotando um posicionamento materialista ou psicologista. Em Groddeck, para-além das diferenças entre fenômenos psíquicos e fenômenos corpóreos está o Isso que, por assim dizer, gesta a ambos.

O que Groddeck faz, portanto, ao utilizar a psicanálise no tratamento de doenças orgânicas, não é descobrir sua causalidade psicológica, mas, sim, ler a doença como um símbolo. Qual a diferença? Simples: na perspectiva groddeckiana, o símbolo não equivale ao conceito de “representação mental”, ou seja, não é algo apenas psíquico. Para Groddeck, o símbolo é indissociável do corpo, de modo que todo fenômeno corpóreo é também um símbolo. E se é um símbolo, logo pode ser lido como um texto, pela via do sentido.

Essa é uma particularidade que marca a distinção entre Groddeck e os autores da Psicanálise que trabalharam com a Psicossomática. Para a maior parte desses autores, o fenômeno psicossomático, diferentemente de um sintoma conversivo histérico, não porta nenhum sentido, sendo justamente a falta de um tratamento simbólico das excitações (gozo em Lacan) o que os desencadeia. Para Groddeck, não há manifestações humanas simbólicas e não-simbólicas. Ele chega a dizer que o homem é vivido pelo símbolo que, no meu modo de entender, seria a língua comum do corpo e do psiquismo, o idioma matriz dos dois dialetos.

Bom, nesse momento, um leitor mais perspicaz poderia me indagar: “Tá, mas até aí não há nada de novo. O Groddeck só substituiu a idéia de uma causalidade psicológica pela noção de símbolo. Agora em vez de dizer que as doenças são causadas pelo psiquismo, ele diz que elas o são pelos símbolos, não?” “Não.”, respondo. Groddeck abandona a idéia de causalidade. Quando ele diz que o sintoma orgânico pode ser lido como um símbolo, ele não está dizendo que o símbolo é que causou a afecção. O que ele pretende é mostrar que da mesma forma como é possível alterar o funcionamento corpóreo pela ingestão de medicamentos ou por uma cirurgia, também o é pela interpretação do sintoma como símbolo. Mas para fazer isso ele não vai poder trabalhar com corpo e psiquismo, mas sim com a noção de Isso. Assim, ao interpretar um sintoma simbolicamente, Groddeck não está intervindo no psiquismo para que esse provoque alterações no corpo – essa é a lógica do tratamento psicossomático. Ele está intervindo no Isso, da mesma forma que o médico quando receita um medicamento também está intervindo no Isso. A questão é saber quando é mais apropriado intervir com medicamento ou cirurgia ou quando mais é mais interessante empreender uma análise simbólica. Penso, sob a inspiração de Groddeck, que o critério deve ser a própria resposta do paciente, ou melhor, do Isso e os efeitos colaterais que podem ser provocados. Muitas vezes, será preferível que o profissional ministre um medicamento a fazer uma interpretação simbólica se essa for trazer à tona questões as quais o indivíduo ainda não tem condições de elaborar.

A medicina, portanto, passa a ser vista não mais como uma prática que visa o conserto de um corpo doente. Eliminando as noções de corpo e psiquismo e substituindo-as pelo conceito de Isso, a tarefa do médico passa a ser encontrar o método mais adequado de influência sobre o Isso para cada paciente e para cada momento. O termo “influência” é o que o próprio Groddeck utiliza. Trata-se propriamente de uma influência e não de uma restauração, já que o Isso não é passivo frente ao trabalho do profissional. Para Groddeck, seguindo as lições de seu mestre Ernst Schweninger (médico do chanceler alemão Otto Bismarck), não é o médico que devolve a saúde para o doente; o profissional apenas facilita as coisas. É o próprio Isso do paciente quem exerce o papel principal, pois ele não faz outra coisa senão perseguir a saúde. No entanto, para termos saúde, às vezes é preciso ficar doente – mas isso é assunto para um próximo texto…


[1] Se você não conhece esse autor, ouça no post anterior minhas apresentações no V Seminário de Pesquisas do IMS.

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Lucas Nápoli participa do V Seminário de Pesquisas do IMS-UERJ

Entre os dias 21 e 23 de setembro aconteceu nas dependências do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) o V Seminário de Pesquisas do IMS, evento organizado pelos próprios discentes do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva do instituto.

Nessa quinta edição, o seminário teve como tema “Partes de um todo: SUSjeitos específicos de uma saúde integral” com vistas a aprofundar o debate sobre os desafios da concretização do princípio de integralidade do SUS. A mesa de abertura contou com a presença de docentes do instituto que discutiram em especial as armadilhas em que podem cair determinadas ações que pretendem à promoção da integralidade. Uma dessas armadilhas é a elaboração de políticas públicas voltadas para setores específicos da população que, ao mesmo tempo em que promovem o atendimento às necessidades singulares de determinados grupos, acabam operando uma segregação contrária a um outro princípio do SUS: o da universalidade.

Além de oportunizar o debate sobre essa temática, o seminário também serve de espaço para a apresentação das pesquisas na área de Saúde Coletiva desenvolvidas no próprio IMS e em outras instituições.

No dia 22, quarta-feira, tive a honra de participar da mesa “Racionalidades médicas e paradigmas da doença”, com a excelente mediação do prof. Ruben Mattos, docente do IMS, que efetivamente exerceu a função de mediador, fato raro em eventos científicos. A mesa contou ainda com a participação do graduando em Enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF) Felipe Renan Abdias Siqueira, apresentando o trabalho “A compreensão da psicossomática partindo das histórias de vidas dos usuários de serviços de saúde.”, que acabou se constituindo como um ótimo relato empírico complementar às minhas considerações, eminentemente teóricas.

Na ocasião apresentei dois trabalhos. No primeiro, “As funções gerais da doença em Georg Groddeck”, fiz a análise da conferência “A Doença” proferida por Groddeck na Universidade de Lessing em 1926, buscando extrair dela os usos genéricos da doença para-além das formas singulares que a utilização da enfermidade adquire na história subjetiva de cada indivíduo.

O segundo trabalho, intitulado “Os usos do corpo: cidadania biológica e a doença como plataforma de expressão” foi o texto que apresentei como trabalho de conclusão do curso aos professores da disciplina de “Diagnósticos psiquiátricos e identidades culturais II” que cursei no próprio IMS no semestre passado. Nesse texto, estabeleço uma analogia entre a formação de cidadanias biológicas (associada ao enfraquecimento da cidadania política) e o uso da doença tal como o entende Groddeck (associado à impossibilidade de expressão subjetiva por outras vias).

Para ouvir minhas duas apresentações e o produtivo debate subsequente, clique nos players abaixo. Você também pode salvar os arquivos de áudio em MP3.

Minhas apresentações:

Debate:

Partes de um Todo:

SUSjeitos específicos de uma saúde integral