O que é pulsão de morte? (parte 1)

061deathSe você não é daqueles que, como eu, apreciam uma boa masturbação intelectual lendo as proezas faladas e escritas pelos srs. Freud e Lacan, mas quer apenas saber o que diabos significa esse negócio de “pulsão de morte”, pois bem: seja feita tua vontade.

Pra quem não sabe, a grande preocupação de Freud quando fazia psicanálise não era a cura de seus pacientes. Como bom cientista que era, Freud estava mais interessado no que os neuróticos poderiam ensinar-lhe sobre o psiquismo. Em suma, Freud queria saber de que forma funcionava a cabeça das pessoas.

Durante os primeiros 20 e poucos anos de seu trabalho, nesse esforço para descobrir a lógica da psique, Freud elaborou uma hipótese muito poderosa: a de que a lei que regia os processos mentais era a busca de prazer e a evitação do desprazer. Como ele chegou a essa idéia? Pela análise de um fenômeno bastante curioso que se tornou a base da teoria psicanlítica: o recalque. Freud observou que no discurso de seus pacientes haviam lacunas referentes a pontos específicos de suas histórias de vida. No decorrer das análises, era possível perceber que tais lacunas eram provocadas pelo fato de o paciente ter excluído de seu campo de consciência certas lembranças. Por quê? Porque tais lembranças lhes traziam desprazer. Eis, portanto, a observação-chave que fez com que Freud sustentasse até 1920 a idéia de que o psiquismo era regulado pelo princípio de prazer

Por volta do ano 1920, alguns fenômenos fizeram com que Freud modificasse seu pensamento. Em primeiro lugar, a técnica psicanalítica tal como vinha sendo praticada não vinha mostrando mais os sucessos dos tempos áureos de Anna O. Os pacientes não melhoravam e por mais que o erro fosse técnico, era impossível não notar que os pacientes pareciam se satisfazer com o próprio sofrimento. Parecia que eles, inconscientemente, queriam se manter doentes.

Em segundo lugar, a Primeira Guerra Mundial, que Freud assistiu de perto. De 1914 a 1918, o mundo experimentara uma quantidade de destruição e violência jamais vistas na história.

Diante desses dois fatos: a resistência dos pacientes à cura e a agressividade humana elevada à milésima potência, seria ainda possível dizer que a finalidade do aparelho psíquico é apenas a busca de prazer?

A histérica e o obsessivo

Pedro e Maria

 

Pedro queria Maria

Mas não amaria Maria

Como essa o amaria

Se feito pedra não fosse Maria

 

Maria queria Pedro

Mas não amaria Pedro

Como esse a amaria

Se o pobre não tivesse a pedra de Maria

 

Pedro nunca tivera pedra

Mas já fora apedrejado

                                 de prazeres

pela madre

 

Maria sempre quis ter a pedra

Mas nunca a pedra vira

                                       Só sabia que não a tinha

o padre

O que é Narcisismo?

O mito é um tipo de artifício humano criado com a finalidade de apresentar aquilo que se processa no Real em forma de imagens e símbolos. Que não se enganem os mestres do universo senso-comum ao suporem que o termo “narcisismo” significa “amar-se a si mesmo”. Uma das particularidades mais interessantes do mito de Narciso é o fato de que o personagem se apaixona por sua imagem refletida na água. Para melhor fundamentar nossa discussão subseqüente, melhor seria retificar nossa última asserção e dizer que a imagem não é refletida na água e, sim, pela água. Com isso queremos ressaltar a idéia de que a imagem de nós mesmos é sempre vinda do exterior. Todavia, não há dúvida de que o autor ou os autores do mito quiseram expressar a idéia do amor a si mesmo, ou melhor, a idéia de que aquele que ama a si mesmo acaba se afogando (como foi o caso de Narciso) em si mesmo.

O interessante é constatar que para construir um mito que denotasse o amor a si mesmo como algo que no fim das contas não acaba bem, só foi possível fazê-lo colocando no lugar das palavras “si mesmo” uma imagem do corpo de Narciso. A conclusão a que se chega é a de que só é possível amar a si mesmo amando uma imagem de si mesmo. Vejamos, então, qual é a natureza dessa imagem. Será que a reconhecemos de imediato, isto é, será que sabemos sem precisar aprender que aquela imagem que aparece no espelho somos nós mesmos?

Segundo o psicólogo Henri Wallon, não. Em seus experimentos, Wallon verificou que só a partir dos seis meses de idade é que nos reconhecemos na imagem do espelho. Ele chamou essa fase de estádio do espelho. Porém, vejamos: para que a criança veja a imagem de seu corpo no espelho e se reconheça nela, é preciso que tanto ela, criança, quanto a imagem sejam postas simultaneamente num mesmo lugar no pensamento. Esse lugar é a palavra “eu”. De vez que a criança não aprende a falar sozinha, é preciso que alguém diga a ela que ela e a imagem no espelho são a mesma pessoa, de modo que ela possa dizer no futuro: “Sou eu que estou lá [no espelho]”.

Tal situação coloca de imediato o homem em um estado de alienação no que concerne à sua identidade. Uma vez que o reconhecimento de si mesmo no espelho pressupõe um aprendizado, o qual se dá a partir de um atestado de garantia que é fornecido por um outro, a resposta à questão “Quem sou eu?” será dada por esse outro. E é nesse ponto que se encontra a justificativa da falta de sustentação do argumento segundo o qual o narcisismo denotaria um amor por si mesmo. Na medida em que minha identidade é-me fornecida pela boca de um outro, ao tentar “amar-me” não o estarei fazendo pois estarei amando ao outro, ou melhor, àquilo que o outro quer que eu seja.

No início da vida, do nascimento até um determinado momento da vida infantil, a distância entre o que verdadeiramente somos, isto é, a soma de nossos comportamentos, e aquilo que o outro (na maioria das vezes encarnado pelos pais) queria que fôssemos é praticamente nula. Os pais geralmente acham tudo o que a criança faz uma maravilha; ela adquire um estatuto de objeto que faz os pais se sentirem completos, em especial a mãe. Freud caracterizou a criança nessa fase como “sua majestade o bebê” e deu a esse período o nome de “narcisismo primário”. Gradativamente, os pais vão percebendo que o filho não é tudo aquilo que eles imaginavam; passam a ter outros interesses além da criança e essa também vai percebendo que perdeu terreno. Assim, a distância entre o que somos e o que outro queria que fôssemos só vai aumentando e no lugar daquele momento em que a criança era tudo para os pais surge o eu ideal, uma representação perfeita de si mesmo, a qual será uma das fontes do recalque, visto que serão reprimidos aqueles traços mnêmicos que forem incompatíveis com o eu ideal.